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A mostrar mensagens de março, 2022

Os anos maus

A pandemia causou demasiadas mortes, mas muitas delas também aconteceram por razões que nada tiveram que ver com o mortífero vírus; e desde 2020 que estamos a perder, na nossa cultura, uma série de vultos insubstituíveis, ainda por cima a uma velocidade estonteante. Este ano já ficámos sem Jorge Silva Melo e o poeta Gastão Cruz, por exemplo, e o ano de 2021 tinha acabado pessimamente, com as mortes de Leonor Xavier e do músico Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, tão jovem ainda e com tanto para nos dar. Mas perdemos muito mais artistas e escritores de nomeada desde 2020, incluindo o nosso maior e mais amado filósofo, Eduardo Lourenço, a ficcionista Maria Velho da Costa (Prémio Camões), os poetas Fernando Echevarria (e o seu bigode), António Osório e Pedro Tamen (tão delicados que eram!), o músico José Mário Branco ou o fadista Carlos do Carmo (que perdas tão grandes, caramba!), o historiador de arte José-Augusto França ou a enorme actriz e declamadora Carmen Dolores, que conheci em criança, pois o marido era colega do meu pai e os dois casais chegaram a viajar juntos. Também ficámos sem a deliciosa Isabel da Nóbrega (a quem uma vez pus as pilhas no aparelho auditivo para ela não estragar as unhas, e que cheirava sempre maravilhosamente), o homem da dança Gil Mendo, o actor Rogério Samora e o editor, escritor e muito mais que era João Paulo Cotrim. Às vezes penso, parafraseando o comediante Jô Soares: «Que mais nos irá acontecer?» Cuidem-se muito, sim?

Pessoa e as suas mil facetas

Ainda um dia alguém vai inventar uma máquina que permita que vejamos o que existe dentro da cabeça de uma pessoa. Digo isto a brincar, mas que seria interessante poder visitar o cérebro de uma figura como a de Fernando Pessoa é absolutamente inegável. Com toda a pinta de ser absolutamente inábil para as coisas mais banais do quotidiano, a sua criatividade fervilhante e a sua capacidade imaginativa deviam ocupar todos os cantinhos da sua massa cinzenta. E agora, para nos dar a conhecer uma sua faceta que a mim me diz muito (falo do seu trabalho como editor), a Casa Fernando Pessoa promove hoje, pelas 18h00, por Zoom, uma sessão com a duração de uma hora em que conheceremos os vários projectos em que o poeta esteve envolvido, como o da tipografia Íbis ou da editora Olisipo, e certamente descobriremos não só o que deu à estampa mas também os autores que tencionava publicar. Mande as suas perguntas, dúvidas e questões e receberá o link para assistir às respostas e explicações. Com Ricardo Belo de Morais e Cátia Figueira, conheça a pessoa inesgotável  que é o nosso Fernando. Também no Facebook da Casa Fernando Pessoa.

O Campo das Pereiras

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Nos arredores de Tbilisi, fica uma casa apalaçada onde funciona uma instituição que acolhe órfãos e crianças com deficiência mental. É conhecida por Escola dos Idiotas, ainda que a maioria dos que hoje ali vivem – como o pequeno Irakli – tenham sido simplesmente abandonados pelas mães por desespero. Porém, em lugar de serem acarinhadas e educadas, as crianças recebem dos professores sobretudo lições de negligência e abuso. Com dezoito anos feitos, Lela já tem idade para poder deixar o estabelecimento, mas está lá há tanto tempo que não se lembra sequer de ter tido família. E, não sabendo para onde ir, aceita um trabalho na instituição para poder planear à vontade a sua vingança suprema e, ao mesmo tempo, preparar a adopção de Irakli por um casal norte-americano. Onde as Peras Caem, da georgiana Nana Ekvtimishvili, romance nomeado para o Man Booker International Prize, é um retrato poderoso, mas sem sentimentalismos, de um grupo de jovens que se defendem mutuamente da crueldade do mundo dos adultos. Leiam-no à confiança, fica na memória de todos os leitores.


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Oportunismos

De há uns doze anos a esta parte dedico-me quase exclusivamente à edição de literatura em língua portuguesa, a que acrescento, esporadicamente, livros estrangeiros de jovens autores promissores, especialmente de países com línguas menos procuradas pelos meus colegas (catalão, coreano, neerlandês, alemão...); mas quando comecei a carreira, e ao longo de quase de vinte anos, publiquei muitíssimos livros traduzidos, de ficção e não-ficção, de biografias a testemunhos, ensaios ou aquilo a que os ingleses chamam «não-ficção narrativa». Já há séculos, porém, que não era contactada por esses editores e agentes com quem trabalhei muito no passado. Mas eis que eles de repente aparecem a propor obras com um denominador comum: o facto de serem de autores ucranianos ou dizerem mal da Rússia e lhe apontarem os defeitos e os podres. E, reparem, nem tem nada que ver com a Rússia de Putin, muitas vezes são livros já esquecidos de dissidentes da União Soviética, que deviam estar parados nos catálogos; mas, em cenário de guerra, ressuscitam e são potenciais sucessos de vendas. Se alguma vez pensei que as terríveis circunstâncias que vivemos ainda se haveriam de tornar motivo para uns negócios em livros que pareciam obsoletos... Ele há coisas.

Excerto da Quinzena

[...] Pousou as mãos no corpo dela e procurou desajeitadamente os botões. Ela afastou-o, impassível; tinha os olhos fechados na penumbra e os lábios tensos. Virou-lhe as costas e, com um movimento rápido, desapertou o vestido, que lhe caiu, amarrotado, aos pés. Os braços e os ombros ficaram nus; ela estremeceu de frio e, numa voz inexpressiva, disse:


– Vai para a sala. Eu despacho-me num minuto.


Ele tocou-lhe nos braços e encostou-lhe os lábios ao ombro, mas ela não se virou.


Na sala, William observou as velas que tremeluziam sobre os restos do jantar, entre os quais se encontrava a garrafa de champanhe, ainda quase cheia. Serviu-se de uma taça e provou a bebida; estava quente e adocicada.


Quando voltou para o quarto, Edith estava na cama com as cobertas puxadas até ao queixo, o rosto virado para o tecto, os olhos fechados, uma ruga fina na testa. Silenciosamente, como se ela estivesse a dormir, Stoner despiu-se e enfiou-se na cama ao lado dela. Durante um tempo, ficou deitado com o seu desejo, que se tornara uma coisa impessoal, que lhe pertencia exclusivamente. Falou com Edith, como que para arranjar um porto de abrigo para o que sentia; ela não respondeu. Pousou a mão no corpo dela e, por baixo do tecido fino da camisa de noite, sentiu a carne por que tanto ansiara. Moveu a mão; ela não se mexeu e a sua ruga tornou-se mais funda. Ele falou novamente, dizendo o nome dela no silêncio. Depois, moveu o corpo para cima do dela, suavemente, apesar da falta de jeito. Quando lhe tocou na macieza das coxas, Edith virou a cabeça abruptamente para o lado e levantou o braço para cobrir os olhos, reduzida a uma mudez total.


Stoner, John Williams, tradução de Tânia Ganho

Sim? Pois não?

Há muitos anos, quando eu ainda ia em Outubro à Feira do Livro de Frankfurt, irritava-me quando queria comprar certo livro para publicar em Portugal e me diziam que os direitos mundiais da língua portuguesa já estavam vendidos a uma editora brasileira. Todos sabemos que, embora o português seja a língua dos dois países, as variantes são distintas em léxico, sintaxe e ortografia, e que nenhum dos países está acostumado a ler traduções de livros estrangeiros feitas pelo outro. Eu, para exemplificar as diferenças em Frankfurt, até explicava que, enquanto atendemos frequentemente o telefone em Portugal com um "Sim?", no Brasil o faziam com um "Pois não?". A verdade é que, por termos assistido ao longo de décadas a telenovelas brasileiras, muitas expressões e palavras do país-irmão entraram na nossa linguagem quotidiana quase sem nos apercebermos; e há hoje de certeza mais gente a cumprimentar com um "Tudo bem?" do que com um "Como vai?" ou "Como está?", e menos ainda com um "Como passou?", típicos da geração dos meus pais. Mas quem sabe e conhece a problemática, e sobre ela escreve agora em livro, é o linguista Fernando Venâncio, que já nos tinha brindado com outra obra sobre as origens do português chamada Assim Nasceu Uma Língua, e agora nos brinda com O Português à descoberta do Brasileiro, obra que parte de uma série de artigos publicados no Jornal de Letras, mas não se esgota aí. Eu, que fico de cabelos em pé quando os meus autores escrevem expressões como "chamar de",  mas passei a infância a ler o Tio Patinhas em português do Brasil sem qualquer problema, estou mesmo muito interessada em ler este livro que, de certeza, me vai espicaçar... e ensinar muita coisa.

A ama que ama demais

Quando leio determinado autor que não conheço, costumo começar pelo primeiro livro, sobretudo se se trata de obra premiada e aplaudida. Não foi, porém, isso que me aconteceu com Leila Slimani, escritora francófona nascida em Marrocos, vencedora do Goncourt com o seu romance de estreia. Iniciei-me com O País dos Outros, de que devo aqui ter falado na altura; e só agora li Canção Doce, vendido e traduzido já em muitos países, e  com várias edições em Portugal. A autora, linda, inteligente e cheia de energia, esteve no Festival Literário de Óbidos recentemente e gostei muito de a ouvir trocar conversa com Juan Gabriel Vásquez, outro excelente autor, mas colombiano. Canção Doce é um livro palpitante. É a  construção irrepreensível de uma personagem, Louise, uma ama que vai para casa de um jovem casal com dois filhos pequenos, um deles ainda bebé, quando Myriam, a mãe das crianças, se sente frustrada depois de tanto tempo em casa e quer voltar a trabalhar. Contudo, esta ama de ouro, que, além de tomar conta das crianças, limpa, cozinha, arruma, compra, ensina, vai de férias com a família..., torna-se tão obsessivamente dependente desse emprego que, quando Adam, o menino mais pequeno, começa a aproximar-se da idade de ir para a escola, entra em pânico ao pensar que a poderão dispensar, uma vez que não existe mais nada além do trabalho na sua vida. E então... Leiam o livro, brilhante, todo ele carne e osso, nervo e humanidade. A não perder.

Cinquentenários...

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É estranho pensar que alguém que ainda conserva um certo ar de garoto, e tem um riso malandro quando ouve uma piada, possa ter completado  cinquenta anos de carreira literária... Falo de Nuno Júdice, o poeta que é muito provavelmente o contemporâneo mais traduzido e com a obra mais extensa da poesia portuguesa; se não estou em erro, uns quarenta livros, começados com esse título que haveria de mudar para sempre a forma de fazer poesia em Portugal, A Noção de Poema, publicado ainda nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote, em 1972, e seguido de Crítica Doméstica dos Paralelepípedos, de 1973, na mesma colecção. Pois bem, para comemorar a bela efeméride, até porque já houve prémios com fartura ao longo do percurso, entre eles o da Rainha Sofia, em Espanha, que não é para qualquer um, nada melhor do que mostrar aos leitores, sobretudo aos mais novos, uma síntese deste incrível projecto literário, na forma de uma antologia que abarca estes cinquenta anos de criação poética e, ainda por cima, é da responsabilidade do próprio autor. Aí está, por isso, 50 Anos de Poesia, uma selecção pessoal pensada e muito significativa, que servirá de puro deleite e, ao mesmo tempo, de excelente introdução para quem precisa de conhecer. Parabéns, Nuno Júdice!


 


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Livros antigos

Conheço cada vez mais pessoas que gostam de frequentar alfarrabistas e comprar livros velhos e antigos: umas porque se dedicam a géneros específicos (como um dos meus colegas editores, Zeferino Coelho, que se interessa por tudo o que são textos biográficos); outros porque simplesmente procuram livros há muito esgotados e esperam encontrá-los ali a baixo preço; outros ainda porque adoram mergulhar no papel cansado e descobrir coisas de que nunca tinham ouvido falar (o Manel comprou-me recentemente um livro com textos de um meu antepassado que não conhecia.) Além da livraria de Miguel de Carvalho recentemente aberta na Figueira da Foz (conheci-a ainda em Coimbra, num espaço bem bonito, e estou ansiosa por visitar este), há mais dois espaços de venda de livros antigos mais ou menos recentes. Um em Lisboa, no piso inferior da Livraria Barata, da responsabilidade de Carlos Bobone (filho de peixe sabe nadar, o seu pai é igualmente alfarrabista); e, no Porto, um novo espaço na Livraria Lello que será inaugurado no final do mês, sala dedicada a livros raros, primeiras edições e obras de coleccionador. Será que as pessoas estão a ficar fartas dos livros do presente e procuram os que atravessaram o tempo ainda vivos e em bom estado? Ou haverá nisto também um lado de investimento num produto com valor real? Não sei, mas que é curioso é.

O teatro

Na mesma semana em que perdemos um dos grande encenadores portugueses, venho falar-vos de novo de teatro. Não de um dramaturgo conhecido, mas de um conhecido escritor que, de ora em quando, se transforma em dramaturgo: José Luís Peixoto. Sim, os romancistas que vivem exclusivamente do que escrevem muitas vezes deixam os romances para se dedicar a crónicas, guiões e peças de teatro, e José Luís Peixoto reincide nesta última vertente com a peça estreada dia 16 no Teatro Meridional, que poderá ser vista ao longo de um mês (de quarta a sábado, às 20h00, ao domingo às 16h00). Chama-se Vida Inversa e tem como epígrafe a frase: «Porque conseguimos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.» Embora não tenha ainda assistido (mas quero muito ir), sei que decorre num ambiente que é e não é absurdo e também que reúne uma série de persoagens que juntam as suas melhores ideias para um projecto para o município de Bucareste, na Roménia. Nesses encontros, porém, todos vão necessariamente expor-se, estabelecer relações de cumplicidade, falar dos seus desejos, dos seus sonhos e do que querem para o futuro. Mas se calhar, pela universalidade, poderia ser noutro lugar qualquer... Tudo afinal é tão perto de tudo. Vamos ver? Eu cá estou curiosa.

Das ausências

Em Outubro passado, por ocasião do festival literário de Óbidos, veio a Portugal Davide Enia, o autor do magnífico Notas sobre Um Naufrágio; ficou depois uns dias em Lisboa para entrevistas e uma apresentação do livro na Livraria da Travessa. Como uma das suas peças (Enia é também actor, encenador e dramaturgo) já tinha sido levada à cena pelos Artistas Unidos, pedimos encarecidamente a Jorge Silva Melo que fosse o apresentador. Não só aceitou, como nos brindou com uma apresentação belíssima, pedagógica, inteligente e sem um segundo de chatice, o que é mesmo muito raro nas apresentações de livros. Já há vinte anos ele tinha apresentado o romance de estreia de Filipa Melo que eu publicara de forma igualmente cativante. Nunca fomos íntimos, eu até fazia com ele bastante cerimónia (o respeitinho com quem o merece é muito bonito); mas fiquei triste, com essa tristeza que se sente por alguém próximo, quando na terça-feira pela manhã me meti no carro e levei a estalada da notícia da sua morte. Não o sabia sequer doente e ainda queria convidá-lo para apresentar muitos livros que viesse a publicar, pois era garantia de que correria bem. E agora já não posso. Encenador, realizador, fundador da Cornucópia e dos Artistas Unidos, homem culto e interventivo, sem papas na língua e excelente comunicador, Jorge Silva Melo vai deixar saudades. A sua falta será notada durante muito tempo.

Temas controversos

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Saiu ontem um romance intitulado Doce Introdução ao Caos que toca um tema raramente tratado na literatura: quando uma mulher engravida, o pai da «criança» pode decidir a favor ou contra a gravidez? Qual é o peso de cada membro do casal na decisão de ter o filho? Dani – guionista – e Marta – fotógrafa com ambições artísticas – vivem juntos há cerca de dois anos quando descobrem que ela está grávida. Dani, que é órfão de pai, terá de enfrentar a promessa que fez a si mesmo há muitos anos de nunca abandonar um filho. Marta, porém, não sente qualquer vontade de ser mãe e tem planos de ir trabalhar para Berlim e realizar o sonho de trabalhar numa galeria que faz exposições de fotografia. Que fazer então com a dor que nasce de um sentimento que não se sabia que existia? Serão os projetos profissionais tão válidos como o desejo de constituir família? As mulheres, porque são as que, na verdade, ficam grávidas nove meses, têm mais direitos do que os homens no que toca a uma gravidez? Explorando as emoções mais íntimas, Marta Orriols – autora do celebrado Aprender a Falar com as Plantas – convida-nos a analisar as contradições que se colocam diante da hipótese de ter um filho, propondo-nos que fujamos do pensamento simplista para observarmos os limites da vontade, do instinto e da liberdade. Esta é uma história com muitos matizes que confirma o grande talento narrativo da autora.


 


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Santa ignorância

Desde que trabalho em edição e, sobretudo, desde que escrevi uma série de livros juvenis que, na altura, foi bastante popular e teve até adaptação televisiva, pedem-me frequentemente que vá a escolas ou publique textos em manuais escolares sobre o meu amor à literatura portuguesa e a minha paixão por certos autores que hoje, pelos vistos, são malqueridos pelos alunos. Falo, por exemplo, de Fernão Lopes ou Gil Vicente, que a miudagem acha muito difíceis, ou de Bocage, a que a juventude actual parece não achar graça. Muitos professores não sabem como motivar os estudantes para a beleza e a verve do texto de certos autores, e eu compreendo que seja difícil com tantas horas de jogos na Internet; mas de vez em quando também penso que a impossibilidade de transmitir a paixão por certos textos reside no facto de os próprios professores não gostarem deles ou, pior do que isso, não os conhecerem. Uma amiga francesa que ensinou durante muitos anos no Liceu Francês de Lisboa contou-me que, um dia, uma jovem professora de Português lhe perguntou se ela sabia a nacionalidade de Sophia de Mello Breyner Andresen, pois um dos alunos lhe tinha perguntado durante a aula e ela respondera que era inglesa, mas depois ficara a pensar se, afinal, não seria americana... Santa ignorância. E depois querem que os miúdos gostem de ler.

Ler e compreender

Li com surpresa e contentamento (apesar de o pão actualmente não saber a nada...) que se consumiram menos 26,5 toneladas de sal e menos 6256 toneladas de açúcar nos últimos três anos em Portugal. Realmente, o facto de se terem retirado dos refeitórios escolares coisas que faziam muito mal e engordavam imenso foi uma excelente medida, sobretudo porque os jovens portugueses, com essa mania de viverem dentro de casa a jogar no computador, estavam a tornar-se perigosamente obesos... Mas, segundo leio noutro artigo, não pode ter sido apenas um conjunto de restrições o responsável pelo decréscimo do consumo de pizas ou leite achocolatado. O programa para a promoção e alimentação saudável está de facto a chegar finalmente às pessoas, e a literacia, como agora se diz, está a permitir que muitos dos que antes não pescavam nada do assunto agora consigam compreender o que lêem; e entendam que têm de olhar para os filhos logo desde pequenos e perceber que, se evitarem dar-lhes certo tipo de alimentos, prevenirão a sua obesidade futura. Reparem que até num caso que é tão prosaico (como este da comida) «ler» e «compreender o que se lê» é fundamental. O único problema é que quem titula o artigo diz «Se intervirmos» em vez de «Se interviermos» e então o melhor é que quem quer ser lido e compreendido aprenda a sua língua antes de se pôr a escrever para os outros... Por isso, fomentem a leitura desde cedo e, na mesmíssima medida, não dêem sal e açúcar em excesso à miudagem. Um livro, por muito açucarado ou salgado que seja, não é prejudicial. Um erro num título do jornal sim.

Excerto da Quinzena

De um autor recentemente agraciado com o Prémio da Fundação Inês de Castro pelo conjunto da obra, aqui vai:


Chegam e entram. É o momento em que a menina Cláudia pode finalmente olhar para Mariano, frente a frente. O homem. Tenta mirá‑lo de um modo disfarçado, com o vagar de quem espera encontrar nele algo de secreto que afinal não existe, a começar pelos olhos, os traços do rosto, os ombros fortes, as mãos grandes e campestres, apesar de bem tratadas. Olha‑o, estuda o que nele falta decifrar. A firmeza dos dedos e dos pulsos. As expressões do olhar, o movimento emotivo dos lábios. Não se parece nada com o que lhe disseram dele: é alto, aprumado, um bonito homem com mãos de milhafre e sobrancelhas encrespadas sobre uns olhos parados – amarelos e frios. Não esperava dar com a descrença passiva desses olhos. Nem com o silêncio nervoso dele. Nem com a serenidade aparente da sua timidez. Dados que escaparam à sua imaginação. E nem lhe passara pela cabeça que um homem com uma história assim fosse afinal um tímido e que tão mal disfarçasse a sua timidez.


Em sendo a sua vez de olhar, Mariano não o faz de frente, e sim de um modo vago que finge não ter o propósito de a observar. Olha apenas ao redor do rosto dela, dos seus extraordinários olhos verdes, corolas nítidas a sobressaírem do moreno da pele. A sua boca parece demasiado tensa nesse primeiro momento a sós com ela. Há um instante, fugaz, em que os olhos de ambos se cruzam, num puro acaso. Repelem‑se. Queima‑os o contraste entre o verde ofídico dos dela e o amarelo dos dele. A estranheza torna‑se pensativa no rosto dos dois.


João de Melo, Livro de Vozes e Sombras

Ler os russos

Rebenta na Europa uma guerra que é insana e que a maioria dos europeus acha ignóbil. Claro que é! Todos devemos repudiá-la e evitar tudo o que beneficie o senhor Putin, pois crê-se que será pelo lado das sanções económicas que ele se verá obrigado a parar, quando os oligarcas russos começarem a sofrer e a pressioná-lo. Li, porém, no Facebook que alguém pediu que deixássemos de comer salada russa e, embora pareça brincadeira, parece que não era... Conta também o poeta e ex-ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes que a irracionalidade brota em todo o lado e que "a Orquestra Filarmónica de Zagreb cancelou dois concertos de obras do russo Tchaikovsky, um compositor do século XIX, famoso por O Lago dos Cisnes ou O Quebra-Nozes." Mas está tudo doido?! Que seria deixarmos, por exemplo, de ler os russos, de prescindirmos do génio literário de Maiakovski, Turgueniev, Dostoiévski, Tolstoi, Soljenítsin, Gorki, e tantos outros? Voltando a citar Castro Mendes, "nenhuma vida se salvará assim na Ucrânia nem tal fará a paz regressar. Pensar que se pode cancelar a colossal cultura russa ao mesmo tempo que se apela aos russos para forçar Putin a mudar, ou a mudar-se, não faz sentido." Apoiado.Vá, leiam os russos, que só vos pode fazer bem. E leiam o senhor Vasily Grossman, que é ucraniano, se isso vos consola.

De volta e para ficar

Parece que estamos finalmente a emergir dos casulos e a perder o medo. Dei tantos abraços quando estive nas Correntes d'Escritas que, se não for agora que apanho o bicho, acho que posso voltar sem mais receios à vida normal. E o que também volta à vida são as actividades culturais presenciais (peço perdão pela rima), nomeadamente no El Corte Inglés, como atesta o seu belíssimo Magazine nº 12, de Março/Abril, cheio de excelentes cursos e sessões para frequentar; entre eles, encontram-se, por exemplo, O Adeus à Arma, por Francisco José Viegas, uma viagem pelos grandes temas da literatura policial; uma Iniciação à Prática Teatral, por Paula Luiz (vá lá, aventurem-se!); e uma série de lições sobre História da Ciência pelo excelentíssimo professor Carlos Fiolhais. Mas o Magazine é ainda mais bonito porque homenageia de uma forma original (com pequenos textos, poemas e ilustrações) o recentemente desaparecido editor, autor e muito mais João Paulo Cotrim, a quem alguns dos que acima referi e muitos outros dedicam palavras belíssimas e mandam postais. Obrigada a todos eles por não deixarem que as pessoas caiam no esquecimento só porque já cá não estão. Vale a pena ir recolher este Magazine no sítio que se sabe, consultá-lo e fazer um destes magníficos cursos.

O que dizem as estrelas

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Hoje estará nos escaparates o belo volume de Trilogia das Constelações, que reúne os romances Ursamaior, Oríon e Gémeos, em que Mário Cláudio percorre de formas distintas as constelações da vida humana e descreve como diferentes personagens reagem às pressões do cosmos. Em Ursamaior, o narrador visita na cadeia o autor do homicídio de uma jovem estudante de Medicina no Porto, mas acaba por contactar com outros reclusos (violadores, traficantes, burlões…), apresentando-nos, sem paninhos quentes, o mundo violento que os muros da prisão encerram. Também baseado em factos reais, mas em pleno reinado de D. João II, o labiríntico Oríon toma a história de sete crianças judias separadas das respectivas famílias e degredadas em S. Tomé, como castigo por os seus pais terem tido a ousadia de desafiarem os mandamentos da fé cristã. Já Gémeos relata a história de um amor tenebroso entre um velho pintor (será Goya?) e a filha da sua amante, bem como das várias personagens que o acompanham no final da vida e que serão retratadas nas suas pinturas murais. Um trio de obras excepcionais, em que as existências cintilam, como estrelas, diante das fases obscuras por que passam. Como refere o crítico e académico Manuel Frias Martins, «só a melhor literatura consegue penetrar na realidade deste modo». Leiam, leiam.


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Eça e a descendência

No mesmo dia em que Luísa Costa Gomes recebia o Prémio Literário Correntes d'Escritas pela sua colectânea de contos Afastar-se, recebi a notícia de que o meu autor Afonso Reis Cabral, autor dos romances O Meu Irmão (Prémio LeYa) e Pão de Açúcar (Prémio Literário José Saramago) fora eleito presidente da Fundação Eça de Queiroz pelos seus pares na administração, Ivone Abreu, José António Barros, José Luís Carneiro, Paula Carvalhal e Paulo Pereira, todos desempenhando funções pro bono. A Fundação Eça de Queiroz tem sede na belíssima Casa de Tormes, a que inspirou A Cidade e as Serras e em cujo restaurante se serve ainda o frango dourado com arroz de favas que serviram a Eça da primeira vez que visitou a casa em Baião. A Fundação Eça de Queiroz trabalha em actividades tão distintas como a educação e a agricultura e tem agora como presidente um jovem cheio de garra que ainda por cima é descendente do grande mestre da palavra. Parabéns ao Afonso Reis Cabral, esperando que este novo cargo e as várias crónicas que escreve para os jornais, bem como o recente programa semanal da Antena 1 («Biblioteca Pública») em que participa com Dulce Maria Cardoso e Richard Zimler, não façam jus ao título do livro premiado de Luísa Costa Gomes e o afastem demasiado da escrita.

Crónica

Estou louca com trabalho e realmente não consigo dar conta de tudo neste momento. Peço por isso desculpa, mas hoje, em vez de escrever um post, vou dar-vos a ler uma das crónicas que tenho vindo a publicar no jornal Mensagem de Lisboa. Espero que se divirtam, bom fim-de-semana.


https://amensagem.pt/2021/04/03/a-mae-e-a-besta/


 

Justíssima distinção

Recentemente, o nosso Presidente foi aos Países Baixos (cuidado, que agora já não se diz Holanda!), país onde se situa a empresa que, ao que soubemos há uns dias, será em breve a dona da LeYa. Há muitos anos, fui a Amsterdão, mas infelizmente quase não conheço o resto do país. Nele, porém, conheço um casal muito talentoso: ela é fotógrafa e chama-se Ana Carvalho (sim, é portuguesa); ele é um grande tradutor de língua portuguesa, inclusive aqui desta vossa humilde blogger, de quem traduziu uma antologia poética intitulada Scherven (creio que significa mais ou menos «cacos» ou «estilhaços») e chama-se Harrie Lemmens. Mas Harrie é de há longos anos o tradutor de autores portugueses de épocas várias, como Eça, Pessoa, Saramago, Lobo Antunes, Rentes de Carvalho, Agualusa, Mia Couto, Dulce Maria Cardoso, e também de alguns brasileiros, entre os quais João Ubaldo Ribeiro. É também autor, tendo publicado um livro sobre Lisboa, e editor de uma revista bem interessante chamada Zucca! Ora, quando o presidente foi recentemente aos Países Baixos, entre os distinguidos com uma condecoração justíssima estava o nosso querido Harrie Lemmens. Parabéns ao Harrie, uma das pessoas responsáveis por a nossa literatura chegar mais longe. E obrigada.

O que ando a ler

Ui, ando a ler muito menos do que gostaria, porque estou numa fase de trabalho tão intensa que trago coisas para ler em casa e depois, quando me deito, leio dez linhas de um livro e caio de sono. Mas, sim, este que agora tenho em mãos vou levá-lo até ao fim provavelmente em pouco tempo, porque é uma novela curta, tal como, aliás, a anterior que li do  autor. Trata-se de Canción, criação do guatemalteco Eduardo Halfon, de quem já aqui falei a propósito do deslumbrante Luto, publicado no ano passado, que falava do mistério que rodeava a morte de uma criança, cujo nome, Salomón, viaja também, curiosamente, para este livro. Canción trata, entre outras coisas, do sequestro do avô do narrador (narrador esse chamado Eduardo Halfon, como o autor) em plena guerra da Guatemala, nos anos sessenta; mas principia com a ida de Halfon ao Japão para um congresso sobre literatura libanesa e logo nos transporta até à sua infância, mais especificamente a um almoço em que Eduardo conhece a priminha Berenice, o tio Salomón lê nas borras do café um futuro que nunca confessa, o tio Nono está doente numa cama do andar de cima e um grupo de militares faz o dono da casa levantar-se da mesa do almoço de família e fecha-o no seu escritório, deixando toda a família gelada de medo. Agora entrou ao barulho o senhor Canción, que foi carniceiro e esteve preso, mas isso já não posso contar. Adivinho, porém, mais uma pérola de um grande escritor.