Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2022

A Feira do Livro

Imagem

O blogue tira férias em Agosto, mas é bom não esquecer que dia 25 abrem as Feiras do Livro do Porto e de Lisboa. Esta última será a 92.ª e terá como país convidado a Ucrânia. Importa dizer que nunca outra teve tantos participantes, pois haverá 340 pavilhões, mais dez do que no ano passado, que representam quase centena e meia de editoras e outras entidades com publicações regulares. Mas o que importa mesmo dizer é que vai ser tudo completamente diferente e muito mais sustentável, porque, além de a bicicleta ser o meio de transporte por excelência no recinto, os pavilhões serão novinhos em folha, em dois módulos distintos (um aberto e um fechado),  com acesso facilitado para pessoas com mobilidade reduzida e, ainda por cima, construídos a 100% com materiais recicláveis, vantagem que se estenderá também ao auditório e às praças onde os autores autografarão os seus livros. O certame estará aberto até dia 11 de Setembro, mas nessa altura já eu terei voltado de férias com novidades. Boas férias a todos. Descansem e... leiam, pois claro.


pavilhao-feira-livro18277438defaultlarge_1024.jpg

Prémio

Imagem

Se aproveitou este ano para escrever poemas, ou rever aquele livro que estava a aboborar há que tempos numa gaveta, ou organizar textos vários que encontrou numas arrumações e, se calhar, são matéria suficiente para um pequeno volume, há um prémio de Poesia a que pode concorrer. Chama-me Prémio Afonso Lopes Vieira, organiza-o a Biblioteca Municipal de Leiria e dedica-se em biénios sucessivos à literatura infantil, à poesia e ao conto, mas em 2022 visará especialmente os livros de poesia inéditos a aguardarem uma possibilidade boa de verem a luz nos escaparates de algumas livrarias por esse país fora. O prazo para a entrega de originais termina no dia 15 de Setembro, mas estou já a avisar, dando tempo a alguns leitores do blogue de aproveitarem o mês de Agosto, habitualmente relaxado, para se organizarem e concorrerem, até porque os 5000 euros que cabem ao vencedor darão muito jeitinho em tempos como estes. Está na hora de arriscar. Para a leitura do regulamento, consulte o site da biblioteca.


Premio ALV.jpg

O que ler a seguir

Imagem

Quando estou de férias numa praia em que há ingleses, reparo com agrado que as crianças se fazem acompanhar quase sempre de um livro, por pouca idade que tenham. No Reino Unido os hábitos de leitura na infância estão completamente enraizados e isso pode também ser explicado pela quantidade de autores britânicos de excelência que escrevem para crianças há mais de um século. Dizem-me que em Portugal os mais novinhos também lêem bastante, mas que perdem esse bom costume na viragem para a adolescência ou um pouco mais tarde, pois não existe uma literatura de transição. Eu cá passei dos livros infantis para os de adulto, mas presumo que não seja assim com toda a gente. Encontrei, porém, esta ideia genial no Facebook de Nelson Ferreira da Silva (acompanhem-no, porque se encontram coisas muitíssimo interessantes entre o que divulga): usando as linhas de metro (e cada linha tem uma personalidade específica que corresponde ao género preferido por um determinado grupo), traça-se um percurso em que, depois de lido um livro (uma estação) se sugere passar a outro (a estação seguinte). Uma ideia que só podia ser inglesa, digo eu, gizada pela biblioteca infantil do Barbican Centre, e que seria maravilhoso que o nosso PNL, por exemplo, fizesse nas escolas portuguesas. E porque não para adultos também? Eu cá estou com dúvidas sobre o que vou ler a seguir...


Mapa do metro com livros.jpg

Proibir livros? Não.

Queixávamo-nos da censura e dos livros apreendidos no tempo do fascismo e de outras ditaduras, mas em democracia continua a saga dos livros «proibidos». Agora, tudo o que seja susceptível de ofender uma minoria é posto de lado e afastado dos programas de ensino em muitos países, e sem sequer se ter em conta o contexto ou a época em que foi escrito. Livros importantíssimos e autores de peso são subitamente banidos por razões verdadeiramente ridículas (o beijo do príncipe na Bela Adormecida, por exemplo, considerado por alguns «não autorizado» e portanto, no limite, uma violação), num acto que é tão estúpido como quando a nossa PIDE levava das suas buscas a livrarias biografias de Stravinsky ou Nijinsky só por serem nomes russos… Leio, porém (obrigada, Nelson Ferreira da Silva) que a salvação está talvez nos adolescentes: uma jovem norte-americana de catorze anos, fartinha de ver «livros que nos fazem pensar» serem proibidos na sua escola e em comunidades de leitores, criou um clube de leitura de livros banidos (e estes podem ser, por exemplo, A Quinta dos Animais ou O Deus das Moscas) em que os membros lêem livros censurados e depois se encontram para os discutir. Abençoada Jocelyn Diffenbaugh! Com direito a entrevista no Washington Post, é uma jovem a seguir, evidentemente! E há outros ainda mais novos, basta ver no primeiro link abaixo. Ouçam os mais novos e deixem-se de comportamentos ditatoriais, por favor. A entrevista com Jocelyn vai no segundo link.


https://www.today.com/parents/teens/banned-book-clubs-rcna13965


https://www.washingtonpost.com/lifestyle/2022/05/11/banned-book-club-teen-diffenbaugh/


 


 

Teatro

Imagem

Lembro-me de ter escrito uma peça de teatro para estrear no dia do meu 10.º aniversário (sobre uma princesa que era raptada) e de lá em casa fazermos bastantes teatradas e assistirmos a comédias na televisão quando havia, às terças-feiras, um programa chamado Noite de Teatro. Lembro-me também de, já adolescente, ler textos teatrais de Tchekhov, Sartre, Genet, Brecht e Pirandello e de adorar o nosso Gil Vicente, tendo até colaborado na adaptação da Farsa de Inês Pereira no ano em que acabei o liceu e de ter feito um papel secundário nessa peça. Mas o género literário «teatro» é hoje muito pouco lido, seja por adultos, seja por crianças e jovens, mesmo que – admito – haja uma programação teatral de qualidade muito mais ampla do que na minha juventude e muita gente frequente os teatros, que já não são papões para ninguém. Ainda assim, era talvez necessário que as escolas portuguesas introduzissem melhor o teatro, convocando para a «representação» os seus alunos, em vez de os mandarem simplesmente ler em casa o Frei Luís de Sousa e dissecá-lo na aula. Os franceses põem a miudagem a representar as peças de Molière e Racine no tempo lectivo (e eles aprendem-nas muito melhor assim) e, no Reino Unido, no final do sexto ano, a neta de uma amiga e os colegas representaram Shakespeare no fim do ano, desenhando cartazes e bilhetes e sendo Romeus e Julietas por um dia. É preciso imaginação, não podemos deixar, como está a acontecer em Portugal, que os estudantes achem o Gil Vicente uma seca...


Romeu.jpg


bilhete.jpg


Shakes.jpg

Excerto da Quinzena

«Diz ela que o mundo nem sempre foi assim. Noutros tempos, a avó corria à beira do rio com um pau de vime na mão a espantar os espíritos dos mortos e batia nas pedras e na água como se sacudisse os males da Terra. Tecia nos lábios uma ladainha, uma canção que se misturava na corrente e na espuma dos rápidos.


Diz ela que o mundo era diferente: as árvores frutavam-se de forma espontânea, como se tivessem vida própria, e ninguém as regava e podava. Os muros enchiam-se de musgos, campainhas e pipilros, brotavam cogumelos de todas as espécies em todos os cantos e era possível ler nas rugas e nas entranhas dos troncos o destino dos viventes.


Cada um sabia quem eram os outros e cada qual conhecia todos e mais do que a eles, os pais e avós, às vezes os bisas e tudo assim, mesmo na linha colateral, ou seja, primos e tios e por diante. Ainda és prima do Caneco diziam-lhe; e era, numa distância que se perdera em várias gerações de nascimentos e mortes sucessivas, mas ao vê-la passar sentiam essa ternura que habitava algures num canto da sua genealogia.»


António Tavares, O Coro dos Defuntos

Feira do Livro

Imagem

O importante é descentralizar a cultura, passamos a vida a dizê-lo, e portanto há uma boa notícia esta semana: a 26.ª edição da Feira do Livro de Ponte de Lima vai acontecer de hoje até 24 de Julho para não dizerem que é só no Porto e em Lisboa que tudo se passa. O certame, que terá lugar na Expolima, vai incluir mesas-redondas, debates e conversas com escritores, apresentações de livros e sessões de autógrafos, mas também as menos correntes sessões de poesia; haverá ainda uma programação infanto-juvenil para grupos de crianças, contemplando leituras de contos para os mais pequeninos e oficinas. Como a música não podia ficar de fora, esperam-se igualmente alguns concertos para abrilhantar a feira. Entre os autores convidados, estão Tânia Ganho, Nuno Camarneiro e João Reis – e não escapará José Milhazes, o ex-correspondente da RTP que anda a correr o país com a sua Breve História da Rússia, um verdadeiro bestseller! O jornalista João Morales moderará algumas das conversas. Se está pelo Norte, já sabe aonde ir nos próximos dias.


Individuais-22jul-04.png

Mudar

Nat, uma tradutora free-lancer, resolve mudar-se para uma aldeia chamada La Escapa, pensando assim poder viver melhor com o dinheiro que ganha. Estranha, claro, o isolamento e os habitantes um pouco brutos, o silêncio e a dureza do senhorio que, na verdade, lhe arrenda uma casa a cair aos bocados e não quer fazer reformas nem pagar os arranjos. Mas estranha sobretudo o preconceito, pois ninguém percebe o que faz sozinha uma mulher como Nat num meio rural que é visivelmente atrasado e onde nada se passa. Mesmo o cão, que Nat arranja para não se sentir tão só, é arisco, avesso a festas e demasiado difícil de dobrar. E um dos seus vizinhos, a quem chamam «o alemão» e que foi ele próprio também um forasteiro, além de tratar da horta e vender legumes, faz a Nat uma proposta que só não é absurdamente indecorosa porque é feita aparentemente com o maior decoro. É este o argumento muito resumido de Um Amor, da espanhola Sara Mesa, livro que, se calhar, merecia uma tradução um bocadinho menos colada ao castelhano e que, apesar de ter sido considerado um dos melhores livros de 2020 no país aqui ao lado, é menos interessante do que eu esperava (mas quem me mandou criar expectativas sem conhecer a autora? Pode ser só uma embirração minha com a escolha do presente como tempo da narração). Se quiserem, o romance é também um excelente retrato da interioridade (falo da interioridade de um país, mas podia falar igualmente da das suas personagens) e vale pelas surpresas do enredo em que  a protagonista se vai sempre confrontando com as suas próprias acções e a moral e vai tendo cada vez mais dificuldade em exercer o seu ofício, que é traduzir.

Férias grandes

Imagem

Agora, que vêm aí, para a maioria das pessoas, as desejadas férias (infelizmente, já não as grandes, que duravam quase quatro meses e davam para tudo, até para desejar o regresso às aulas), já estou a planear as minhas leituras. Não me lembro, porém, de os professores me mandarem ler livros ou fazer trabalhos nas férias quando era pequena, porque, na verdade, férias tinham de ser um tempo para brincar e descansar, mesmo que para algumas crianças ler fosse também uma brincadeira muito apreciada. Recordo-me de alguns livros que li nas férias em miúda (oh, como chorei com O Meu Pé de Laranja Lima, lido em Agosto em São Pedro do Estoril aos nove ou dez anos); mas, para dizer a verdade, além da praia de manhã e de irmos para o pinhal à tarde, onde as mães conversavam ou faziam crochet sentadas em cadeiras de lona e nós jogávamos às escondidas e apanhávamos amoras das silvas, do que gostava mesmo era de andar de bicicleta, de pescar rãs num pântano perto de casa, de explorar uns baldios, de dar saltos das pranchas na piscina, enfim, de actividades ao ar livre que implicavam não parar quieta. Por isso, achei muita graça um dia destes a alguém que partilhou, contente, os trabalhos que a professora do filho mandou para férias. Partilho-os convosco. Podem ser um bocado melosos, não digo que não. Mesmo assim, abençoada professora.


Para blog.jpg

Reler

Hoje estou com muito pouco tempo para o blogue, pois é dia de ir com a minha mãe a uma consulta de ortopedia em Santa Maria e a logística é complicada; mas deixo-vos ainda assim uma interessante reflexão que o escritor e professor universitário Nuno Camarneiro fez recentemente no Facebook a propósito de relermos livros em idades diferentes. Reza assim:


Há poucos exercícios tão interessantes e introspectivos como reler um livro que nos marcou há 10 ou 20 anos. O livro é o mesmo, mas nós somos outros e vamo-nos apercebendo da diferença com susto e espanto. Há tanto que não sabíamos e passámos a saber e há outro tanto que já esquecemos. Há coisas que achámos geniais e que agora parecem banais e outras a que não ligámos e a que agora damos relevância. O texto é o mesmo, mas nós mudámos e o mundo mudou também. «Não nos podemos banhar duas vezes nas mesmas águas», dizia Heráclito, e também não podemos ler duas vezes o mesmo livro.


Fiquei a pensar em como me doeu voltar a Resta a Noite, de Soledad Puértolas, por exemplo, mas como o Amante, de Marguerite Duras, permaneceu intocável...

Polémicas

Em programas sobre livros e literatura de outros países, aconteceu mais de uma vez haver insultos e polémicas entre escritores e escritoras. Há poucos dias, Nelson Ferreira da Silva (NFS)  publicou no Facebook imagens de um programa da BBC do ano de 1987 em que a escritora britânica de romances cor-de-rosa Barbara Cartland (aliás, vestida dessa cor) bateu forte e feio na sua concorrente Jackie Collins, dizendo-lhe com todas as letras que «os seus escritos eram para pervertidos»... Considerava o mesmo NFS (um grande leitor, é preciso dizer) que, apesar de serem conhecidas as guerras entre alguns autores portugueses, como Saramago e Lobo Antunes (ou vice versa), não havia nada daquele género na televisão portuguesa e que estava na altura de os novos se chegarem à frente... Bem, em primeiro lugar, as televisões em Portugal tiveram pouquíssimos programas de livros, e na verdade os que houve nunca fomentaram o debate, eram mais no sentido de promover as novidades ou alguma obra relevante (não é um defeito, que fique claro, mas os britânicos gostam mais de discussões públicas do que nós). Por outro lado, já não se fazem polémicas como antigamente, e as que há são geralmente de um contra todos, pelo que perdem rapidamente o interesse e a atenção alheia. Finalmente, não estou a ver realmente na nova geração pares de escritores zangados ou inimigos, o que faz sempre falta a uma boa polémica. Tempos sem graça estes...

Salivando...

Um dia destes, no Facebook, apanhei uma conversa sobre O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. A pessoa que escrevera o post anunciava apenas que o estava a ler, e ler os comentários foi bastante engraçado: metade das pessoas adorara o livro, a outra metade não, mesmo gostando muito de outros livros do autor. Barnes, de facto, nunca é igual, e algumas pessoas preferem os romances de construção mais clássica, como O Sentido do Fim ou A Única Mulher, e estão no pleno seu direito (também os adoro). Mas há uma série de livros verdadeiramente inovadores, como o Papagaio, O Ruído do Tempo (investigações paralelas sobre Flaubert e Chostakovitch) ou mesmo Nada a Temer (uma reflexão incrível sobre a morte), em que ficção e não-ficção coabitam harmoniosamente e que nos trazem sempre informações preciosas sobre personalidades e épocas. E falo disto porque acabo de receber uma newsletter da Quetzal sobre o que aí vem e desatei a salivar... Ora vejam: «Mais do que um romance, Elizabeth Finch é um tributo emotivo à filosofia, uma cuidadosa avaliação da história e um convite a pensarmos livremente. O novo livro de Julian Barnes desafia a definição canónica de romance, obriga o leitor a reflectir e deixa ideias que o vão acompanhar durante muito tempo.» Estou mortinha por começar a ler...

Velhos lobos

Imagem

Quando Francisco d'Almeida Lobo decide passar a viver o ano inteiro no Monte do Azinhal para cuidar pessoalmente da propriedade, ignora que a presença da família Velho no Montinho lhe vai criar tensões impossíveis de ultrapassar. Primeiro, porque Jacinto Velho se recusa a dar-lhe uma mão; depois, porque descobre que a mulher dele não é senão Maria Barnabé, com quem teve uma história que está longe de estar resolvida. Os ânimos, porém, só ficarão ao rubro quando – contra a vontade do pai – o primogénito dos Velho lhe vai pedir trabalho… No mesmo espaço agreste, debaixo do mesmo sol escaldante, duas famílias distintas em tudo vivem um litígio insanável. Em comum, têm apenas o amor e o ódio e uma solidão que parece não ter cura. Será que algum dia conseguirão sobreviver a uma vizinhança tão declaradamente hostil? Este é o regresso de Carlos Campaniço, depois do virtuosismo de Mal Nascer e da comédia de enganos que é o romance As Viúvas de D. Rufia. O lançamento é já na sexta é e estão todos convidados.


convite_velhos_lobos.jpg

Ilustres desconhecidos

Quando um actor vai na rua, tem dificuldade em caminhar incógnito; mas um escritor pode andar por todo o lado à vontade, que praticamente ninguém o reconhece. Paul Auster disse-me uma vez que circulava pelas ruas de Brooklyn, o seu bairro, sem nunca o abordarem, embora na Europa já muitos leitores o conhecessem. Um dia, em Serralves, uma rapariga parou-me diante de uma pintura para me dizer que um livro meu a tinha ajudado a superar a morte do companheiro, e eu fiquei tão parva que nem queria acreditar. Mas recentemente aconteceu-me uma coisa ainda mais engraçada: parei num semáforo no caminho para a LeYa e fiquei ao lado de um automóvel conduzido por uma mulher que tinha um ar mesmo desempoeirado. Ela fez sinal de que queria dizer-me qualquer coisa, e eu pensei que precisasse de alguma informação sobre a direcção a tomar. Mas não: disse-me que não nos conhecíamos, mas que gostava muito do que eu escrevia e que, na véspera, tinha pensado muito em mim por causa da «tristeza passada a ferro». O sinal ficou verde e só tive tempo de agradecer. A «tristeza passada a ferro» é um verso do meu livro mais recente, de um poema que fala de uma menina a quem fizeram mal. Caramba, nunca me tinha acontecido alguém citar um verso meu no meio do trânsito... Pensei que, como Auster em Brooklyn, aqui eu era uma ilustre desconhecida.

Oh, Elizabeth!

Uma das poucas vantagens dos voos de dez horas é a possibilidade de lermos um livro inteirinho. Fazendo-a de dia, é ainda mais fácil, pois não temos sono e, conscientemente, até preferimos não dormir para acertarmos o horário com o do outro país à chegada. Assim sendo, nesta ida para São Paulo, deliciei-me com Oh, William!, da magnífica Elizabeth Strout, de quem aqui já falei a propósito de outros romances. A escritora norte-americana, que começou a publicar tarde mas devia escrever há muito tempo (pela maturidade com que o faz), pega em personagens centrais (Olive Kitteridge, Lucy Barton...) e fá-las circular de livro para livro, em momentos diferentes das suas vidas, para nos oferecer histórias maravilhosas em que sentimos que falam connosco. Neste Oh, William! regressa Lucy Barton (a mesma de Tudo É Possível e O Meu Nome É Lucy Barton), agora na meia-idade, viúva do segundo marido, a pensar em ser avó e com o pai das filhas (o William do título) deprimidíssimo por ter sido deixado pela terceira mulher (que é bem mais nova do que ele e se fartou das suas idiossincrasias). Mas, não bastando a depressão desse abandono, William descobre que a mãe, pessoa que sempre mitificou, terá tido uma filha antes de começar a viver com o seu pai, que deixou com apenas um ano de idade. Será que essa irmã desconhecida está viva? William quer sabê-lo, claro, mas anda sem coragem para dar o primeiro passo sozinho. Lucy Barton, com quem nunca deixou de se dar bem, irá ajudá-lo numa aventura que se torna mais dela do que dele. Oh, Elizabeth Strout, escreveste mais um grande, grande livro. A tradução, excelente, é de Tânia Ganho.

Excerto da Quinzena

Aconteceu muitas vezes a pintura vir solicitar a minha escrita. Se numa tarde longínqua de 1965 eu não tivesse entrado no Prado e não tivesse ficado cativo perante Las Meninas de Velázquez, incapaz de abandonar a sala até ao fecho do museu, nunca teria escrito O Jogo do Reverso. A mesma coisa vale para a forte sensação que experimentei em criança diante dos frescos do convento de S. Marcos em Florença, revisitados frequentemente em adulto, e que um belo dia regressou com prepotência, desembocando nas páginas de Os Voláteis de Fra Angelico. Mas também algumas páginas de Tristano Morre não existiriam sem O Cão Sepultado na Areia, de Goya. Da imagem para a voz o caminho pode ser breve, se os sentidos responderem. A retina comunica com o tímpano e «fala» ao ouvido de quem olha; e, para quem escreve, a palavra escrita é sonora: ouve‑a primeiro na cabeça. Vista, ouvido, voz, palavra. Mas neste percurso o fluxo não é em sentido único, a corrente é alternada, volta a partir de onde chegou, regressa ao ponto de partida. E a palavra, ao regressar, traz consigo outras imagens que antes não existiam: inventou‑as ela. Assim acontece em muitos destes contos. Se a imagem veio desencadear a escrita, a escrita por sua vez conduziu essa imagem para outro lugar, para aquele algures hipotético que o pintor não pintou. A estória desencadeada pelo visível agarrou o «Aquilo‑que‑se‑vê» para vaguear à sua vontade no território que o artista nos omitiu, o que teria podido pintar ou fotografar mas que suprimiu. «A alma imagina aquilo que não vê», diz Leopardi. O território da escrita é a imaginação que vai além da imagem; é a estória das figuras mas também o seu reverso e a sua multiplicação, a narração do desconhecido que as envolve.


Antonio Tabucchi, Estórias com Figuras, Nota do Autor

Ainda o Brasil... e, claro, o adorado Itamar

O facto foi mencionado ontem no jornal Público, a propósito da Bienal do Livro de São Paulo: um coletivo de 169 intelectuais portugueses, brasileiros, moçambicanos e angolanos escolheu os 200 livros mais importantes da literatura brasileira – aqueles que, em 200 anos de independência, melhor ajudam a compreender o país. E... Que maravilha um romance cujo sucesso começou em Portugal com a atribuição do Prémio LeYa (e viu esse sucesso reproduzido no Brasil com os prémios Jabuti e Oceanos) estar agora entre os primeiros 50 títulos mais importantes (!) da literatura brasileira! Mas não é de estranhar: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, fez o milagre de trazer para a leitura muitas pessoas que provavelmente achavam (melhor, sentiam) que a maioria da ficção publicada no Brasil já há muito que nada tinha que ver com elas. Ele cativou um público novo que se identifica com as situações descritas no seu romance e com o autor, criado longe dos grandes centros; ele pôs o dedo na ferida e mostrou um Brasil que, apesar de mais de um século passado da abolição, continua a ter uma larga franja da população escravizada. Com o seu estilo poético e maravilhoso e a sua voz de conhecedor dos factos (um homem no terreno), ele homenageou os escritores clássicos e, seguindo-lhes as pisadas, acabou evidentemente a fazer-lhes companhia na lista. Uma alegria enorme saber que tudo começou neste cantinho do mundo e, porque não dizê-lo?, passou aqui pela minha secretária. Parabéns, querido Itamar Vieira Junior.


 

Bienal de São Paulo

Uma coisa é ouvir falar, outra é ver. Embora já tenha visitado muitos Brasis, não ia a São Paulo desde 1976. Era então uma adolescente em visita a amigos, e a passagem foi curta, a caminho de Santos. Agora, tão-pouco tive tempo para calcorrear a cidade, porque ia em trabalho, e do Museu da Língua Portuguesa (que era mesmo o que queria ter visto) conheci apenas o director, que moderou a mesa da poesia, em que participei com Eucanãa Ferraz. Uma pena. O recinto onde se passava a Bienal e todas as actividades relacionadas com Portugal era longe do hotel e tínhamos de aproveitar os transfers de cá para lá a horas certas, pois não era boa ideia apanhar táxi ou tentar transporte alternativo, à conta dos perigos que isso representa. No meio das filas de trânsito infindáveis, às vezes em avenidas com seis faixas, há homens e mulheres vendendo de tudo - e, se forem atropelados por uma dessas loucas motos que andam a altas velocidades, provavelmente ficarão ali muito tempo a sangrar e alguns morrerão. Há também tendas em todos os jardins e ruas, onde vivem os que não têm casa, e são milhões; as diferenças entre classes são bem mais acentuadas do que eram em 1976, apesar de já então serem muito marcadas. Mas, apesar de um clima de permanente insegurança, apesar de andarmos sempre agarrados à carteira e ao telemóvel, de tremermos de medo quando o motorista de táxi, para fugir a um acidente e nos deixar a horas no aeroporto, passa por zonas onde sabemos que, num semáforo, é bem provável que alguém quebre o vidro para levar o que puder (e nos matar, se for preciso), a verdade é que a Bienal de São Paulo estava cheia de jovens a comprarem livros, o que é um sinal positivo que não vemos em Portugal. Não sei que livros seriam, é certo, mas a Secretaria da Educação deu-lhes dinheiro para isso e até pode ser que alguns tenham acertado em alguma coisa que contribua para a sua formação. Enfim, foi bom lá ir, foi muito duro ver a violência e a pobreza em directo, mas estou de volta ao quinto país mais seguro do mundo, onde não é preciso respirar fundo quando se chega, incólume, ao outro lado da rua, mas estamos velhos e os nossos jovens nãoo gostam lá muito de livros.