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A mostrar mensagens de junho, 2010

A vida é bela

Fui sempre uma pessoa de letras e, nos meus tempos de estudante, as minhas notas a Ciências da Natureza eram apenas sofríveis (embora adorasse Botânica) e raramente tinham dois dígitos as que conseguia a Física e Matemática. Só descobri que a ciência podia, de facto, ser uma coisa apaixonante quando comecei a trabalhar no mundo da edição e me estreei numa editora que se dedicava especialmente à divulgação científica. Mas, entre todos os livros cuja revisão acompanhei nessa altura, houve um que me marcou para sempre – talvez até por estar ligado ao destino da espécie humana e à dose de acaso que fez com que pudéssemos aqui estar hoje, quando os dinossauros, que eram infinitamente maiores do que as pequenas criaturas donde provimos, foram extintos e passaram a lenda. Esse livro chama-se A Vida É Bela e foi escrito por um cientista, Stephen Jay Gould, que infelizmente morreu há alguns anos. Está maravilhosamente escrito, é de uma extraordinária clareza e lê-se como um romance de aventuras. Além disso, tem umas ilustrações belíssimas de uns seres assustadores que conviveram com os organismos nossos antecessores e que teriam dado cabo deles se não tivessem desaparecido mesmo a tempo. Vale a pena, ainda que nos consideremos pessoas de letras.

Adjectivos literários

De férias no Algarve e já maior de idade, assisti pela televisão ao incêndio do Chiado, que me levou, além de muitas outras coisas, uma parte importante das minhas memórias de infância; o meu pai tinha escritório na Rua Nova do Almada, ligeiramente abaixo do lugar onde é hoje a entrada lateral da FNAC, e nunca esqueci os sumos de ananás da belíssima pastelaria Ferrari, as idas ao Eduardo Martins para comprar fazendas escocesas para kilts (ai, que saudades daquela espécie de livro de amostras) ou a escadaria de madeira envernizada dos Armazéns do Chiado, à porta dos quais uma senhora apanhava tranquilamente as malhas das meias. Sim, já sou bastante velhota, mas o que aqui me traz não é o saudosismo e, sim, a lembrança de, na reportagem do incêndio, o jornalista Carlos Fino não parar de dizer que se tratava de um espectáculo «dantesco». Dante e o seu Inferno acabaram, pois, por criar este adjectivo que hoje podemos utilizar sem sequer saber quem foi o poeta ou ter lido uma linha do que escreveu. E o mesmo se passa, por exemplo, com os adjectivos «homérico», «kafkiano» e «maquiavélico» (entre muitos outros) que hoje andam na boca de um mar de gente que nunca abriu um livro. Se, daqui por cem anos, já ninguém ler estes autores, pelo menos as línguas guardarão o seu vivo testemunho.

A primeira vez

Aprendi as primeiras letras em casa, bastante cedo, com uma professora que dava aulas à minha irmã. (A minha irmã tinha sido operada e não podia ir à escola.) Já conhecia, pois, as vogais e algumas consoantes quando entrei para a primeira classe, com seis anos acabadinhos de fazer; mas lembro-me de aprender o resto com a ajuda da Cartilha Maternal, de João de Deus, num exemplar de grande formato que a professora pousava num cavalete para que todas as meninas da sala a conseguissem ver. Quando terminou o primeiro período e já conhecíamos o alfabeto inteiro e várias combinações de letras e sílabas, passávamos então ao livro de leitura. O meu chamava-se O Livro da Capa Verde e, para além de ter mesmo a capa verde, tinha a seguinte frase escrita na contracapa: «Ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?» Pode parecer estranho que me lembre tão bem de uma coisa destas, mas a verdade é que recordo até hoje a minha primeira hora extraordinária. Sim, é isso mesmo, a primeira vez que li um texto, e não apenas conjuntos de sílabas ou palavras soltas. Intitulava-se (imaginem!) «Tourada à vara larga» e começava assim: «Pela vila vai movimento desusado.» Foi uma experiência marcante. Mas, se me perguntarem alguma coisa sobre a dita tourada, bem, disso é que já não sei dizer nada.

Livro e filme

Raramente um filme baseado num bom romance que lemos nos agrada. Temos a escrita demasiado dentro de nós para conseguirmos separar duas linguagens distintas – e o mais frequente é falarmos logo do que não aparece no filme. No entanto, mesmo sacrificando cenas, partes, estrutura, linguagem, ideias, há filmes que nem são nada maus e, entre eles, poderia, por exemplo, citar A Insustentável Leveza do Ser, O Paciente Inglês ou, mais recentemente, Expiação. O do meio pareceu-me uma notável adaptação de um livro que nunca esquecerei: O Doente Inglês, de Michael Ondaatje. Claro que todas aquelas viagens pelo deserto a sós que existem no romance seriam um tédio na tela – mas senti a falta delas; claro que, no livro, a história de amor é só mais um episódio numa narrativa muito cheia sobre um homem apaixonante – e tenho a ideia de que a personagem da enfermeira é bem mais importante que a mulher amada (no filme, a actriz que o desempenhava venceu o Óscar de melhor actriz «secundária»). Em todo o caso, não podemos generalizar nem ser injustos com os realizadores e os argumentistas. Às vezes (raras, bem sei), eles fazem grandes filmes de grandes obras.

Poetas não publicados

Nos anos 80, a editora Assírio e Alvim desafiou poetas não publicados a enviarem textos (três a sete) a um júri por ela escolhido (o poeta Al Berto era um dos jurados). Os textos que o júri considerou mais aptos foram posteriormente publicados num volume intitulado Anuário de Poesia Inédita e, dele, saíram alguns nomes que hoje publicam regularmente. Era uma montra – e uma boa montra: mesmo entre os muitos que nunca mais voltaram a publicar (pelo menos, com o nome com que ali assinavam), havia textos de grande qualidade, entre os quais recordo um poema em prosa muito à Borges – a história de dois irmãos e de um caderno de viagens –, cujo autor se autodenominava justamente «Jorge Luís». Tenho pena de que a Assírio não tenha prosseguido com essa aventura e que hoje não haja ninguém que tome a iniciativa de repetir a dose. O mais parecido que encontrei foi a revista Criatura, que também nos dá a ver jovens poetas, portugueses e não só, mas que, por um lado, repete bastante os autores, por outro não tem o crivo de uma editora por detrás a atestar a qualidade. Em todo o caso, se a encontrarem, espreitem. Tem sempre coisas que valem a pena.

Pronto, eu vou contar

Já aqui disse que associava um dos nomes maiores da cultura portuguesa (para mim, o maior) ao papel higiénico, a propósito de um post que escrevi sobre estranhas associações. Pois bem, depois de alguns pedidos, vou explicar porquê de uma vez por todas. Quando me despedi da editora onde trabalhava em 1996, fui arregimentada como directora de publicações pelo gabinete que então organizava a presença de Portugal como país-convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt. A dada altura, tinha de reunir e editar textos para um livro sobre o que de melhor se fazia em Portugal (falo de literatura, pintura, música, dança, etc.) e um desses textos era… nem mais: de Eduardo Lourenço! Eduardo Lourenço escrevia sempre à mão (creio que ainda o faz) e, além disso, o e-mail mal tinha saído da pré-história. Recebi o seu texto pelo correio e, apesar de ninguém perceber a letra, eu cheguei lá rapidamente (não me vanglorio, era apenas parecida com a do meu pai) e bati o texto no computador. Porém, quis certificar-me de que não metera a pata na poça e enviei-lho por fax. Mas o nosso querido professor dizia que só recebia folhas brancas… Fizemos um brevíssimo brainstorming e chegámos à conclusão de que ele colocara mal o papel no aparelho de fax. Dissemos-lho. «Mas há mais de uma maneira de colocar o papel?», indagou, admirado, ao telefone. Pensei no assunto e respondi-lhe: «Senhor professor, pense num rolo de papel higiénico: há pessoas que gostam de puxar a folha de cima e outras que preferem puxá-la de baixo.» Percebeu imediatamente, e o texto chegou-lhe em três tempos, com todas as letras na folha branca. Mas agora, quando estou sentada num certo sítio e estendo a mão para o rolo de papel higiénico, em quem penso eu? Eduardo Lourenço. Não é uma injustiça de todo o tamanho?

Palavras, palavras, palavras

Adoro palavras, sobretudo palavras novas, pois, com a idade e as leituras, cada vez há menos vocábulos desconhecidos. Gosto de saber de onde vêm, como se formaram, em que língua ou país foram, pela primeira vez, utilizadas. Se não me tivesse distraído aos 17 anos, muito provavelmente teria ido para Clássicas e estaria hoje mergulhada nas maravilhas da etimologia (talvez até tivesse um blogue muito diferente deste). A verdade é que vivo rodeada de dicionários, que tenho prateleiras cheias deles (de rimas, de lugares, de nomes próprios…) e que me divirto a consultá-los como a ler poesia ou ficção. E, como não cheguei a estudar latim e grego (e agora é tarde para isso), acabo sempre fascinada quando descubro, por exemplo, que a palavra «desastre» significa aquilo que acontece quando os astros não estão connosco («des» é «não», como em «des-fazer», e o resto já todos perceberam, não vale a pena explicar). O meu dicionário preferido, aquele que guardo e acarinho como um desses romances que nunca vou esquecer, é o Dicionário Houaiss. Tenho-o em casa em três volumes gordos e, na Leya, em dezoito mais franzinos e fáceis de consultar, numa edição especial que foi vendida com um jornal. E não há dia em que não o abra. Gostava de ter o senhor Antônio Houaiss aqui à mão, com o seu sotaque quente do Brasil, a dizer-me o que quer dizer isto e aquilo e porque é que «atarraxar» se escreve assim, e não com «ch», como durante tanto tempo pensei. Não podendo, resta-me o seu dicionário quase perfeito.

A minha vida verdadeira

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A minha vida (como a de todos, provavelmente) está marcada por muitos recomeços. O «meu» primeiro livro na Leya é, evidentemente, mais um desses recomeços – e estou contente por recomeçar justamente com um novo escritor: novo, porque ainda jovem e com muito para dar à literatura portuguesa; novo, porque desconhecido da maioria do público leitor. No dia 24, quinta-feira, às 18h30, Daniel Sampaio apresentará na Livraria Barata A Vida Verdadeira, de Vasco Luís Curado, e a essa hora sentirei que a minha vida, verdadeiramente, recomeça. Estão todos convidados: para o lançamento, claro, mas, sobretudo, para ler um romance fascinante sobre um homem maduro que nunca deixou de ser criança, não por se ter recusado, mas simplesmente porque as circunstâncias em que «cresceu» não lho permitiram. E não conto mais. Desejo-vos apenas horas extraordinárias de leitura, tão extraordinárias como as que tive ao ler este livro.


 


Crianças que sabem o que querem

Passei horas extraordinárias na barraquinha da Gradiva durante muitas feiras do livro de Lisboa; desse «balcão de livraria», acreditem ou não, aprendi muita coisa sobre os leitores. Mas a mais extraordinária dessas horas foi há muitos anos, num Dia da Criança, quando tínhamos de abrir a feira logo às 9 da manhã e éramos visitados por bandos de crianças de bibe e panamá, mesmo quando nada tínhamos que lhes pudesse interessar. Pelo menos, era o que eu pensava até que, nesse dia, um casal de crianças pequenas, com cinco ou seis anos, pareceu demorar-se no nosso pavilhão mais do que seria normal, ficando o rapazinho praticamente hipnotizado diante de um livro de um Prémio Nobel da Física, Richard Feynman. Atribuímos o seu interesse ao facto de a capa ter uma caricatura do físico e de esse divertido desenho o poder ter levado ao engano. Mas enganados estávamos nós. O garotinho perguntou, timidamente, o preço do livro. Lembro-me de que custava 1040$00, quantia que ele, infelizmente, não tinha (nesse tempo, 1000$00 ainda era bastante dinheiro, sobretudo para uma criança). Então, perante o seu ar desolado, o colega que estava a fazer a feira comigo quis consolá-lo, dizendo-lhe que não ficasse triste, uma vez que se tratava de um livro muito difícil que, decididamente, não era para a sua idade. Surpreendentemente, a menina que o acompanhava (e tinha ar de irmã mais nova) largou-lhe a mão de repente e aproximou-se do pavilhão, confidenciando-nos: «Sabem? É que ele quer ser cientista.» Acabámos por lhe oferecer o livro, evidentemente.

Lembrar, sempre lembrar

Fiquei arrepiada quando ouvi dizer que, no Reino Unido, o Holocausto tinha sido banido dos programas de ensino porque podia ofender os muçulmanos. O mundo está louco, pensei. Como podemos passar assim uma borracha num genocídio como aquele? Lembrar o Holocausto e os seus horrores às novas gerações parece-me a única medida inteligente para prevenir réplicas (mesmo que os norte-americanos tenham muitas teorias sobre os perigos de os jovens repetirem o que vêem). A este propósito, há um livro que me parece fundamental: trata-se de O Comprador de Aniversários, de Adolfo García Ortega (escritor e editor espanhol), romance curto que traz para o seu centro uma criança que Primo Levi refere ter encontrado em Auschwitz no seu livro Se Isto É Um Homem. O livro é um pontapé no estômago, claro, mas é belíssima a forma como Adolfo García Ortega inventa a esta criança uma vida, companheiros e, sobretudo, um passado (porque o futuro já sabemos todos qual é) que vai até à forma como os seus pais se conhecem e apaixonam em Varsóvia pouco antes de serem confinados ao gueto donde partirão para o campo de extermínio. A lembrar, claro. Por todas as razões.

África minha

Em todos estes anos que trabalhei com novos autores de língua portuguesa, raramente me vieram parar às mãos livros de africanos. E agora, de uma assentada, apareceram-me dois – e ainda bem, porque têm sido mesmo horas extraordinárias de leitura. De um deles, O Novíssimo Testamento, do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, já aqui falei ao de leve e voltarei a falar mais perto da publicação; do outro, começo por dizer que é das coisas mais bonitas que li nos últimos tempos (e a autora condiz com o livro, garanto). O romance chama-se Os Pretos de Pousaflores, foi escrito por Aida Gomes da Silva, angolana, e conta a história de uma família (um branco com três filhos mulatos, todos de mães diferentes) que, depois de rebentar a guerra civil em Angola, vem para uma aldeia beata e atrasada de Portugal, encaixada entre serranias, ribeiros conspurcados e um frio de rachar. O choque é brutal (em Luanda a vida era então muito mais cosmopolita do que em Lisboa, imaginem numa aldeola) tanto para os que vêm de África como para os retrógrados da aldeia, para quem um preto é quase uma maldição. Contado a várias vozes (completamente distintas, e aí reside um savoir-faire invejável), deixa-nos acompanhar o futuro sempre periclitante das personagens e é, ao mesmo tempo, poético, comovente, informativo e, por vezes, muito divertido. Tornarei a este livro, claro. Agora foi só para destapar a pontinha do véu.

Por falar em clássicos

Uma vez, na véspera de Natal, lembrei-me de que me faltava um presente para um amigo que, ao fim de muitos anos de ser advogado, resolveu ir tirar o curso de História numa dessas universidades privadas. Fui então à Baixa comprar-lhe a Breve História de Portugal, de Oliveira Marques (para a de José Mattoso, em dez volumes, era preciso ser mesmo o melhor amigo), a uma livraria onde, por esses dias, estavam a trabalhar jovens que faziam embrulhos bonitinhos, mas não pescavam nada de livros. Enquanto uma rapariga me embrulhava a minha compra, apareceu um senhor meio perdido, perguntando se tinham alguma coisa de Dickens. «O que é isso?», perguntou ela, mal levantando os olhos do que estava a fazer. «Ó minha senhora, é um clássico», respondeu o cliente, com um tom bastante condescendente. «Ah, se é um clássico, é ali naquela prateleira», tornou a rapariga, apontando com o queixo o lugar onde era suposto estar a obra de Dickens. Acompanhei-lhe o gesto e sorri: na dita prateleira havia livros de Eurípides, Ovídio, Homero, Virgílio e outras coisas gregas e latinas. De Dickens, nem sombra. Alguém podia explicar aos jovens que um clássico também pode ser da literatura?

Não-ficção

Uma das minhas colegas na Leya, Sara Gomes, editora da Texto, fez-me um reparo completamente justificado, dizendo-me que neste blogue nunca apareciam livros de não-ficção. É verdade: os autores que mais me marcaram são romancistas ou poetas e, como me comprometi a falar apenas das minhas «horas extraordinárias» de leitura, tenho deixado o ensaio de fora. Ainda assim, há dois títulos a que, ao longo da vida, tenho recorrido frequentemente (e que li como romances). O primeiro é Introdução à História do Nosso Tempo, de René Rémond – uma panorâmica da história mundial de 1750 aos nossos dias para pessoas mais ou menos ignorantes (como eu) em termos históricos. O outro é Os Criadores, de Daniel Boorstin (que foi muitos anos director da Biblioteca do Congresso americana), no qual se destacam os grandes heróis da imaginação nas mais diversas áreas (literatura, pintura, fotografia, arquitectura) e abrange um período que vai dos pintores rupestres às vanguardas artísticas e literárias do século xx. Este último tenho-o, orgulhosamente, autografado e, embora não seja uma obra densa e profunda, dá-nos uma ideia excelente do que foi, realmente, a originalidade em todos os tempos.

Medidas de austeridade

Em época de crise, as editoras também atravessam dificuldades e, logicamente, há que apertar o cinto como em qualquer outra actividade. Métodos para isso? Hum… Alguns realmente surpreendentes. No site das Publicações Europa-América descobri uma medida de contenção de custos que, segundo creio, ainda não passou pela cabeça de nenhuma outra editora. Um dos netos de Francisco Lyon de Castro (o fundador da empresa), que costumo ver nas feiras internacionais a comprar direitos e julgo que é hoje um dos responsáveis por aquela casa editorial, posa como modelo em mais do que uma capa. Na que aparece na página de abertura do site encarna um pai rodeado da sua prole num título de auto-ajuda que ensina os pais divorciados a serem pais decentes. Não posso, obviamente, assegurar que as crianças também pertençam ao clã Lyon de Castro, mas quase apostaria que sim, porque a ideia deve ser mesmo poupar. Com tanta gente jovem e bonita que há na Leya, não sei porque a administração ainda não se lembrou disto…

A lógica infantil

Sou co-autora de uma série de livros juvenis, chamada O Clube das Chaves, cujo sucesso de vendas, sobretudo nos primeiros anos, me permitiu viajar pelo mundo todo. Quando esta colecção tinha apenas uns cinco ou seis títulos publicados, convidaram-me para ir dar autógrafos à Feira do Livro de Faro. Estava um dia quentíssimo, tudo se passava ao ar livre e puseram-me atrás de uma mesinha, sobre a qual estavam pousadas várias pilhas de cada título. Às tantas, um menino de uns sete anos aproximou-se, tirou o primeiro livro de cada pilha e voltou a pousá-lo no lugar. Depois perguntou-me com um ar desconfiado: «Foste tu que escreveste estes livros todos?» Respondi-lhe que sim. Pensei que ficaria admirado, mas não. Olhou-me com um certo desprezo, suspirou e atirou-me esta: «Então porque é que fizeste tantos iguais?» A lógica infantil é, decididamente, genial.

O esplendor do normal

Quando vi o filme Lost in Translation, de Sofia Copolla, uma das coisas de que mais gostei foi do ar nunca aperaltado e sempre confortável da protagonista, que nos faz sentir irremediavelmente próximos dela. Nunca a belíssima Scarlett Johansson aparece de lingerie de renda (talvez um realizador masculino não resistisse), mas apenas de cuecas e T-shirts de algodão com um ar completamente humano (o que, numa mulher muito bela, por vezes até é mais difícil). Este lado cómodo mas irresistível seria difícil de representar por palavras num romance, no qual uma mulher assim nos pareceria quiçá ligeiramente desmazelada e sem graça. Mas há excepções, claro, e nesse livro maior que é Ruído Branco, de Don DeLillo, Babette, a mulher do protagonista – uma gorducha de fato de treino e pantufas, um tanto new age, muitas vezes com o filho mais novo pendurado nela –, consegue ser bastante mais sexy do que seria de esperar e atrair as atenções dos homens para a sua normalidade esplendorosa. Talvez isso aconteça porque o narrador é o marido, e está decididamente apaixonado por ela. Ou porque DeLillo é, na verdade, um escritor muitos pontos acima do normal.

Ups!

Ricardo Menéndez Salmón, autor espanhol do aclamado A Ofensa, esteve em Lisboa na altura da Feira do Livro para autografar o mais recente A Derrocada. Porque sou casada com o seu editor português, jantámos juntos uma noite, por sinal bastante fria. Conheço a sua editora em Espanha – uma mulher muito bonita que todos dizem estar a fazer um óptimo lugar na Seix Barral, que é a mais interessante chancela do grupo Planeta. Mas Ricardo comentou que lhe havia encontrado algumas lacunas surpreendentes – por exemplo, ela não tinha lido Hermann Broch. Ups! Hermann Broch? Pois é, lá tive de engolir o sapo. A verdade é que também nunca li Hermann Broch (e o pior é que nem sequer estava na fila à espera de um momento livre). O Manel disse-me que tínhamos cá em casa, numa tradução francesa, A Morte de Virgílio (que ele lera numa certa época, mas também não tinha a certeza de ter concluído, são três volumes). Consolou-me (sem me desculpar) o facto de quase ninguém que conheço ter lido Hermann Broch (apostaria que o leram o José Afonso Furtado, a Ana Pereirinha e o Luís Filipe Castro Mendes, mas ninguém mais). Vou, pois, tentar encontrá-lo na estante do Manel e pô-lo à vista, a ver se ganho coragem. Mas o mais triste é que deve haver uma data de sapos iguais a este…

Ai, os escritores

Li algures (num livro que nem tinha muito que ver com literatura) uma história absolutamente inesperada que não posso deixar de partilhar. Proust e Joyce foram, como se sabe, contemporâneos, o primeiro uns dez anos mais velho do que o segundo; a diferença de idades, de línguas, de países, de estilos, não impediu, porém, que cada um fosse admirador do outro (Proust deveria ser também admirador de si próprio, Joyce não sei). Mas a verdade é que o acaso não quis que os dois se encontrassem senão quando já estavam «velhotes» (maneira de dizer, claro, porque provavelmente não seriam mais velhos do que sou agora – mas neste século XXI somos jovens até mais tarde). Alguém promoveu um jantar em Paris no qual os dois escritores ficariam frente a frente e poderiam finalmente conhecer-se e elogiar-se. Muitos se fizeram convidados para o dito jantar, querendo presenciar um diálogo de génios que, provavelmente, não se repetiria. Surpresa das surpresas: postos assim na proximidade um do outro, os dois gigantes não disseram uma palavra sobre a escrita… Queixaram-se, isso, sim, de enxaquecas, achaques, reumatismo, más digestões… Um fiasco para quem esperava um encontro de intelectuais.

A minha mãe

A minha mãe não estudou grande coisa porque teve de começar a trabalhar bastante cedo, mas sempre gostou muito de ler e sempre leu muito. Agora, que tem 85 anos e tempo de sobra, lê mais ainda, incluindo o jornal de ponta a ponta (necrologia e tudo). Passa, por isso, a vida a pedir-nos livros emprestados e comenta-os connosco (às vezes, diga-se de passagem, severamente). Há uns tempos começou, porém, com aquela conversa (lá chegaremos) de que não lhe déssemos coisas que a aborrecessem, pois tristezas já a vida tinha de sobra. Descobrimos, então, cá em casa um desses romances leves para senhoras que se vendem bastante bem nos dias de hoje, passado em Itália e romântico, que, por ser comprido, achámos a ia entreter por umas semanitas. Como fomos ingénuos… Às primeiras páginas, já ela estava a ligar para nós, francamente indignada, protestando que aquilo era de baixíssima qualidade e não tinha chegado à idade a que chegou para voltar a ler literatura juvenil. Devolveu-o sem o acabar, claro. Lição aprendida.

Estranhas associações

Não contarei porque associo um grande nome da literatura nacional (quiçá o maior) ao papel higiénico (ou sim, contarei, mas noutro dia; em todo o caso, não é nada do que estão a pensar). De qualquer modo, de cada vez que vou à depilação, não consigo deixar de pensar em Juan José Millás. A associação é estranha para quem não sabe, claro; mas este autor, de quem publiquei tudo o que pude publicar na Temas e Debates, tem um livro no qual a protagonista está a depilar as pernas quando lhe telefonam a dizer que a mãe morreu – e atravessa todo o romance com cera numa perna. O livro chama-se Assim Era a Solidão e ganhou o Prémio Nadal no país vizinho. Vale a pena como todos os livros do autor, embora eu prefira A Ordem Alfabética (delirante para quem gosta de letras e palavras) ou O Mundo (uma obra-prima que já não fui eu a publicar). Neste último, há uma personagem chamada Vitaminas – mas, curiosamente, não me lembro de Millás quando tomo vitaminas…

Bíblia africana

Conheci Mário Lúcio Sousa Mendes em Março, na cidade de Brasília, aonde ambos fomos discorrer sobre o futuro da língua portuguesa. Dizia a papelada que nos entregaram que era um músico cabo-verdiano, embaixador cultural, ex-deputado e outras coisas assim. Que era também bom orador, fiquei a saber ao ouvi-lo. Mas do romance que escreveu – e que ganhou a última edição do Prémio Carlos de Oliveira – foi ele quem me falou (e fiquei, devo dizer, muito curiosa). O livro chegou por e-mail e estou contente por poder salvá-lo de uma edição mais ou menos institucional e universitária (prevista para os vencedores deste prémio) que o afastaria de um número imenso de pessoas que merecem lê-lo. Pois O Novíssimo Testamento (assim se chama a obra, e que obra!) é ficção em forma de delírio. Seguramente voltarei a ele mais para a frente neste blogue, mas para já vale a pena reter este teaser: E se Jesus tivesse ressuscitado mulher, hã? Prepare-se para acolher mais um escritor africano de mão cheia que, ainda por cima, vem a Portugal em Outubro lançar o seu próximo CD, no qual canta com Gilberto Gil, Harry Belafonte, Cesária Évora, Teresa Salgueiro e outros.

Filho e pai

A relação das mães com os filhos ou as filhas enche milhares de páginas de todos os tipos de ficção (e muitos artigos de revistas – pois parece que agora a maternidade está de novo na moda). Mais rara é, porém, a relação pai-filho como assunto de livro – quiçá porque durante décadas eram as mães que ficavam em casa com as crianças, enquanto os pais trabalhavam fora e quase não as viam. Sublime entre tudo o que li sobre esse binómio mais invulgar é o romance A Estrada, de Cormac McCarthy (dizem que vem aí o filme, mas é muito difícil pensar num filme baseado nesse livro sem ficar de pé atrás). Seco e despojado como muita da literatura americana, um pontapé no estômago permanente, este texto belíssimo vira-nos as vísceras do avesso e nunca mais somos os mesmos depois dele. Num mundo que não queremos que nos aconteça (mas não será o livro também um aviso?), os sacrifícios do pai pelo filho comovem-nos e sacodem-nos em igual medida. Genial também como só duas personagens e os seus parcos diálogos chegam e sobram para nos encher a alma de espanto.

Pai e filho

Uma das coisas mais difíceis de sustentar numa narrativa, sem parecer forçada, é, sem sombra de dúvida, um narrador-criança. A coisa pode descarrilar pela inverosimilhança (quando as crianças falam como adultos, demasiado espertinhas e cultas) ou simplesmente porque o discurso infantil, sendo demasiado longo, pode ser extenuante e levar, por vezes, os leitores a sentir que estão a ler um livro juvenil. Mas há muitos casos bem-sucedidos em várias épocas e, recentemente, não posso deixar de referir o narrador de onze anos de Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer – autor norte-americano que tive o orgulho de dar a conhecer em Portugal, ainda na Temas e Debates, com o romance (a não perder) Está Tudo Iluminado. Este menino precoce e sobredotado (boa forma de defender a auto-suficiência da personagem) perdeu o pai no World Trade Center no 11 de Setembro, embora ninguém soubesse o que fora ele lá fazer. Uma chave encontrada num envelope pode ser a chave para esse enigma. E o caminho para a descoberta é todo um programa de amor e redenção. Acho que até chorei em algumas partes (e ri muito noutras). Inesquecível.

Outono-Inverno

O Inverno passado foi terrível – o céu sempre cinzento, muito mais chuva do que é costume e o frio prolongando-se para lá do aceitável. Para mim, que só fico bem com céu azul, chegou a ser depressivo. Não sei ainda se o Verão vai ser de jeito, mas o que posso é prometer um bom Inverno à beira do Outono. Confuso? Claro, mas eu explico: O Bom Inverno é o próximo romance de João Tordo e ficará disponível nas livrarias logo no início de Setembro. Tem como protagonista e narrador um jovem escritor hipocondríaco e combina de forma aliciante balões de ar quente, mortes, inveja, excentricidades, Itália e recordações de infância na África do Sul. Encha o peito de ar e espere, mas não desespere: o Verão, se for bom, passa num instante e depois vai ter João Tordo no seu melhor.

O operário em desconstrução

Com a deslocalização das fábricas para países onde a mão-de-obra é mais barata e uma certa mudança de paradigma no Ocidente, os operários, tal como os conhecíamos, estão em extinção – e quem enche agora as nossas (e as outras) manifestações são, grosso modo, os funcionários públicos (o que até é paradoxal, uma vez que são os que têm o emprego «mais» garantido). Às vezes interrogo-me se os jovens de hoje (em suma, os menos cultos) terão uma pálida ideia do que foi o operariado. Talvez Dickens lhes possa dar uma ajuda, ele que trabalhou em fábricas na infância e retratou nos seus livros uma classe trabalhadora que quase se sumiu. Dickens é um grande autor injustamente esquecido e, segundo creio, um excelente nome para aproximar os jovens da leitura. Fiquei, pois, contente quando Ricardo Araújo Pereira incluiu na colecção de livros de humor que dirige na Tinta-da-China Os Cadernos de Pickwick. Mas pode ser outro qualquer, o que importa é que não esqueçamos este precursor do mainstream.

Contos: sim ou não?

No mundo editorial, diz-se amiúde que os contos são difíceis de publicar, em primeiro lugar porque os livreiros não gostam de livros de contos e compram poucos exemplares, em segundo lugar porque as pessoas não gostam de ler contos. Duvido (embora, como editora, admita que é muito difícil encontrar um livro de contos de um novo autor que seja profundamente equilibrado). Em todo o caso, há contos que li que nunca esquecerei (tantos como romances, estou convencida) e, num livro de D. H. Lawrence que a Assírio e Alvim publicou há uns anos – Amor no Feno e Outros Contos –, havia duas preciosidades inesquecíveis: O Homem Que Amava as Ilhas e O Homem Que Morreu. O primeiro, para abreviar, é o retrato de um homem destinado à solidão; o segundo, uma abordagem muito interessante da figura de Cristo ressuscitado (esse homem que morreu). Se gosta de contos e encontrar ainda o livro, não dará seguramente o tempo por perdido.