Português de Portugal

Quando estava na Temas e Debates, a editora tinha um acordo com uma congénere brasileira – a Rocco – para vender em Portugal (depois de revistos ou retraduzidos) livros cujos direitos mundiais para a língua portuguesa pertenciam a essa editora – entre outros, os thrillers de John Grisham como O Cliente ou A Firma. Numa viagem ao Rio de Janeiro para a Bienal do Livro, pediram-me que me encontrasse com uma assistente do senhor Rocco, no sentido de tratar de alguns assuntos pendentes e ver os livros que queríamos publicar em Portugal no ano seguinte. A senhora chamava-se Ana Maria Bergin e, embora fosse bastante mais nova do que eu, não tinha com ela qualquer familiaridade. Como acho o tratamento por “você” bastante feio e até um pouco indelicado, dirigi-me a ela na terceira pessoa, usando, como é costume em Portugal, o seu nome próprio. Estive, assim, cerca de uma hora dizendo coisas do tipo “Como a Ana Maria bem sabe...”, “A Ana Maria não conhece o mercado português, mas...”, “Eu sei o que a Ana Maria pensa sobre esse assunto”, “A Ana Maria podia sugerir-me...” e por aí fora, até que, de repente, ela me interrompeu bruscamente e perguntou: “Desculpa, mas quem é Ana Maria?” Fiquei, como podem imaginar, aparvalhada de todo. E, no abismo que se criou entre ambas, continuo a achar que não há acordo ortográfico que nos valha...

Comentários

  1. Esta história é deliciosa! Muito obrigada por partilhá-la.
    Só não percebo, contudo, por que é que tratar por você em Portugal é um pouco indelicado. Eu muitas vezes uso o você (ou porque estou com o meu modo brasileiro ligado, ou porque não tenho intimidade suficiente para tratar por tu).

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    1. Na verdade, tem razão: porque "você" vem de "vossa mercê", que é bastante cerimonioso. Mas, não sei porquê, quando falamos com alguém que merece o nosso respeito, evitamo-lo porque sabemos que soa cru e indelicado.

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    2. Segundo a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha (brasileiro) e Lindley Cintra (português e meu professor), em Portugal o tratamento por "você" é sobretudo utilizado de superior para inferior. Há outras situações, descritas nesta gramática, mas esta é a razão fundamental para o desagrado por essa forma de tratamento, pouco importando a etimologia da palavra.

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  2. Só a título de curiosidade — não resisto a fazer a pergunta —, durante a conversa, a Maria do Rosário, porventura, teve "o cuidado" de "adaptar" a pronúncia às circunstâncias?
    A razão da minha pergunta deve-se ao facto de que, aqui no Japão, com os Brasileiros, se eu não o fizer (isto é autêntico) eles pur'e simplesmente não me entendem (ou fazem que não me entendem... honestamente ainda não percebi).

    Meus mais amigáveis cumprimentos,
    Luís Filipe Afonso

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    1. Tento falar com a minha pronúncia, mas, de facto, quando me sinto incompreendida, uso um sotaque próximo do do interlocutor. Conheço, porém, alguns portugueses que optam por arranhar o sotaque brasileiro assim que aterram no Brasil para facilitar. Também depende muito da região em que nos encontramos e das pessoas com quem falamos, acho.

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    2. Tenho uma ideia de ter ouvido, ou lido, na altura em que a RTP começou a produzir telenovelas, de alguém dizer que se deviam mandar para o Brasil, já que em Portugal se consumiam tantas brasileiras. Houve alguém no Brasil que disse: "Não adianta, que ninguém vai entender nada!"

      Mas é capaz de depender também muito da região...

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  3. a educação condiciona-nos tanto, mesmo sem nos apercebermos.

    apreendi na infância que tratar as pessoas por você, era um sinal de má educação, e deve ser por isso que continua a não me soar bem...

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  4. Aconteceu-me o mesmo, mas em Espanha.

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  5. Os filmes portugueses que chegam ao Brasil são legendados... só isto diz tudo.

    Obrigada pelos textos.

    Susana

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  6. Pois não, não há acordo que nos valha...Concordo..e também acho o "você", em Português de Portugal muito feio. No Brasil...é diferente. Talvez tenhamos de "em Roma, ser romanos"...Tenho família no Brasil. Quem tem melhor instrução, boa formação académica, não se diferencia muito de nós.Quem vive mais "o homem da rua"...aí começamos nós a não perceber as piadas, as "buchas" no teatro, etc..E eles também devem terdificuldade em nos entender...É a mesma língua...mas com particularidades. Na Alemanha do Norte dalam diferente dos da Alemanha do Sul...São países enormes...não é?
    Saudações.

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  7. Descobri este ano, através do Facebook, que tenho primos muito próximos no Brasil (uma separação fruto de desavenças antigas de que eu nem tinha conhecimento). Há meses vivi a felicidade de ter dois deles cá durante cinco dias (http://vespaaabrandar.blogspot.com/2010/07/uma-historia-sobre-oliveiras.html).

    Nas primeiras horas todos tivemos de falar muito devagar, sobretudo nós, os de Portugal, para que eles nos entendessem. Os dias seguintes foram uma constante descoberta: de palavras, de conceitos, de expressões... totalmente diferentes nas duas línguas.

    Mas também uma descoberta de muitas parecenças: físicas, sociais e até ideológicas. O sangue tem mesmo muita força.

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  8. Nós entendemo-los melhor porque temos 40 anos de Globo em Portugal (lembre-se da 1ª novela brasileira que passou aí, ng entendia nada) e ouvimos muita música brasileira. O contacto do Brasil com Portugal é quase nulo.
    e o acordo ortográfico não serve pra nada mesmo, só para encher os bolsos das editoras (ups...) as diferenças existem à mesma, nós entendemo-nos e desentendemo-nos o tempo todo.

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  9. Prefiro usar "você" do que "tu".
    Aqui no Rio de Janeiro o "tu" é conjugado da mesma forma que "você", algo que não gosto. Acredito que essa questão de respeito varia de lugar para lugar. Informalmente gosto de falar apenas "cê".
    E algo que vocês têm que admitir é que Portugal "vê" muito mais o Brasil do que o contrário.
    Outra coisa é que vocês não falam melhor do que os brasileiros. Isso é uma enorme bobagem. No geral, até concordo, pois no Brasil há 10 % de analfabetos, mas os brasileiros mais escolarizados têm domínio sobre a língua, que aliás é muito bela.

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  10. Não percebo realmente porque consideram o uso do \"você\" como um insulto. Foi algo que foi transmitido como tal. Na minha infância nunca me passaram esse conceito, apenas me ensinaram a não tratar por \"tu\", pessoas mais velhas. Desse modo, sempre usei o \"você\", até o fatídico dia em que me dirigi a uma professora, na escola primária, por \"você\"... Obtive como resposta um valente bofetão! O mais triste é que nem percebi o porque de ter \"levado\". Chorei muito porque não tinha consciência de ter feito nada de errado e considerei aquela atitude pura maldade.

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  11. Fiquei um pouco confusa. Então como é que a tal Ana Maria queria ser tratada? Por "tu"?? Isso sim é que seria (a meu ver) um enorme desrespeito.

    Eu sinto-me bastante ofendida quando vou a um café ou ao cabeleireiro ou a uma loja e, ao ser atendida, sou tratada por "tu". Penso que isto aconteça por eu aparentar ser muito mais nova, ainda que já ninguém me dê menos de 20.
    O pior é que não sei o que fazer.
    Fico profundamente chocada e muito triste. Afinal sou uma senhora, e tratam-me como se fosse uma miúda.

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