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A mostrar mensagens de junho, 2022

O que ando a ler (adiantado)

Meus caros Extraordinários, adianto-me no post sobre as leituras que me ocupam, porque tenho de novo de vos deixar. Enquanto alguns estarão a ler-me, estarei eu muito provavelmente dentro de um avião a caminho de São Paulo, onde este ano se realiza a Bienal do Livro tendo Portugal como convidado de honra. Sairá por lá um dos meus livros de poesia, o que implica lançamento e diálogo e, como sempre acontece nestes festivais, aproveita-se o 2 em 1 e também vou falar das razões por que não se publicam mais autores brasileiros em Portugal (e vice-versa). Não esperem nada meu aqui nas Horas antes de quarta (chego na terça, mas devo vir com as horas trocadas). Entretanto, estou a ler, o que é raro, um livro de contos: o velhinho Dança de Família, de David Leavitt, que penso ter lido já há milhentos anos, mas do qual não tinha quase memória... E, impulsionada por Sandro Veronesi no último capítulo de O Colibri, aceitei o conselho de voltar a este autor que quase desapareceu do mapa em Portugal (alguém ainda o publica por cá?) e que, neste livro, estava mesmo a começar mas prometia muito. Era realmente bastante novo, mas muito maduro na sua observação das várias famílias que atravessam estes contos, quase todas com um ou mais elementos fora da caixa (todas as famílias têm os seus estranhos), com histórias de divórcios mal resolvidos e também com vários casos de homossexualidade nem sempre assumida pelos próprios ou pelos progenitores. Vale também muito a pena descobrir que afinal o mundo já era bastante confuso nos anos 1980 e que se cumpriram algumas previsões sobre o universo digital anunciadas nas entrelinhas deste livro... Até breve, espero. Leiam na minha ausência.

Cuidar da língua outra vez

Ontem falei de ortografia e dos cuidados a ter com a língua; e de repente apanhei um artigo em que um autor que todos conhecem, João Tordo, afirma ter aprendido a cuidar da língua com a procura constante de sinónimos que não atravancassem a sua gaguez, uma vez que palavras começadas por determinados sons (p, t, q, por exemplo) complicam enormemente a vida a um gago. Ele diz que em pequeno tinha complexos, mas que já lhe passaram. E tem razão, até porque houve muitíssimos escritores gagos antes dele, e a respectiva escrita não pareceu minimamente afectada por esse facto e, se o foi, deve ter sido positivamente. Falo, por exemplo, do grande Cervantes ou do incrível Lewis Carroll (a Alice não gagueja, que me lembre); Machado de Assis e Henry James, Darwin e Updike, e também do homem que foi brindado inesperadamente com o Nobel da Literatura, Winston Churchill! Todos eram gagos, mas não com a caneta, está visto; e é bom saber que há quem tire de uma limitação a hipótese de enriquecer o seu vocabulário, sobretudo num tempo em que o número de palavras usadas pelas pessoas quotidianamente é tão limitado. Parabéns a João Tordo pela sua estratégia. Quem sabe se não terá sido ela que o levou a ser escritor...

Cuidar da língua

Falo muitas vezes com amigos, colegas e escritores sobre o problema dos erros de ortografia que hoje inundam livros, rodapés de telejornais, jornais, ementas de restaurantes, folhetos publicitários e muito mais. Há pessoas que me dão razão e também se incomodam com essa constante falta de respeito (não é só incompetência, é preguiça de ir ver como se escreve quando não se sabe e, portanto, desrespeito pelo outro); mas também há muito quem diga que sempre houve quem escrevesse com erros, desvalorizando e desculpabilizando o problema em vez de tentar avançar com uma solução para o fazer desaparecer. É o que dizia um dia destes o jornalista do Público Nuno Pacheco num artigo bem interessante que aconselho a todos (procurem no site do jornal a crónica dele de dia 23). Curiosamente, nesse mesmo dia, uma amiga francesa, que foi toda a sua vida professora, mandou-me o link de um artigo do Figaro, no qual se diz que as principais universidades francesas exigem que os alunos façam cursos de francês para melhorarem o seu nível de competência na língua materna, uma vez que descobriu que meninos formados em universidades reputadas respondiam a questionários e mandavam CV crivados de erros de ortografia, confundindo tempos verbais como o infinitivo e o particípio passado só por terem o mesmo som (é a oralidade, que dizer de quem não lê?). Pois bem: plenamente de acordo! Só espero que cá façam o mesmo e não deixem ninguém acabar um curso superior, seja ele qual for, a confundir «há» com «à» e «eminente» com «iminente». O artigo francês pode ser lido aqui:


https://www.lefigaro.fr/langue-francaise/actu-des-mots/de-grandes-ecoles-et-universites-imposent-des-cours-de-remise-a-niveau-en-francais-20220622 


 

Ilustração portuguesa

Tenho aqui dito várias vezes que um dos ramos em que a edição portuguesa mais se tem desenvolvido é a ilustração, com dezenas de nomes tornados famosos em todo o mundo, desde João Fazenda, Bernardo Carvalho, Yara Kono ou André Letria. Quando me pediram uma vez que dissesse os títulos de dez livros da primeira década do século XXI que achasse inescapáveis, um dos que mencionei era O Meu Avô, de Catarina Sobral, que achei mesmo imperdível para todas as crianças. E hoje soube que, depois de muitos prémios internacionais e traduções, a Catarina foi a artista escolhida para desenhar o cartaz do Festival de Literaturas Europeias de Cognac, um festival que tem, aliás, por objectivo a promoção da leitura e que tem Portugal em 2022 como país-convidado. A newsletter que mostra o cartaz apresenta-nos sumariamente Catarina Sobral, mas não só: fala do fado, dos azulejos, do segredo bem guardado dos pastéis de Belém, e também de escritores premiados pelo festival em edições anteriores, como David Machado, Isabela Figueiredo ou Afonso Cruz. O cartaz de Catarina Sobral inclui a guitarra portuguesa, os cravos e, através da janela, ao longe, os nossos queridos jacarandás. Vamos acompanhando o festival de Cognac à medida que cheguem novidades.

Lisboa revisitada

Hoje e nos próximos dias Lisboa vai ser revisitada por poetas na Casa Fernando Pessoa. Durante três dias, poetas e leitores poderão conversar sobre o ofício da poesia, os livros que os poetas publicaram e os que ainda hão-de publicar, como tem sido o percurso dos criadores e se os preocupa a falta de interesse de tanta gente por este género literário. Às 19h00, no encontro internacional de poesia Lisbon Revisited que a Casa Fernando Pessoa organiza anualmente, lerão poemas Manuel Rivas, Ana Martins Marques, Felipe Benites Reyes, Tatiana Faia, João Paulo Esteves da Silva, Hirondina Joshua e Miguel Cardoso, além desta vossa serva, que lerá poemas do seu novo livro. Amanhã e domingo, a partir das 15h00, haverá conversas entre os poetas e os seus interlocutores, como, por exemplo, Aldina Duarte, Susana Moreira Marques e Vasco Gato, a pares. A entrada para as sessões custa 5 euros. Lá vos espero. Programa completo no link abaixo:


Lisbon Revisited - Dias de Poesia · Casa Fernando Pessoa

Bem flanar na literatura

A Flâneur, já aqui falei dela, é uma livraria especial na cidade do Porto. Desconhecia (talvez porque os seus livros não cheguem a todos os sítios onde compro livros, alguns perto do trabalho ou de casa) que também fosse uma editora; mas, num recente colóquio de Psicanálise em que participei, havia na banca dos livros uma pequena colectânea dos últimos poemas de Denise Levertov (poetisa que aprecio desde os tempos de faculdade), traduzida por Andreia C. Faria (poetisa também) e Bruno M. Silva (poeta e ficcionista). A antologia leva por título Este Grande Não-Saber: Últimos Poemas e foi publicada originalmente em 2000, três anos depois da morte da poetisa britânica naturalizada americana e de certo modo ligada à Beat Generation. O pequeno volume inclui textos que ela deixara prontos e arrumados, mas inéditos, e bastante variados. A edição é bilingue e inclui nota dos tradutores sobre a liberdade da respectiva tradução, que começa brilhantemente por: "Um poema traduzido é sempre um corpo hesitante que se deita ao lado do primeiro corpo, de respiração suspensa." Deixo-vos um poema de que gosto particularmente. Leiam Denise Levertov.


 


Uma Nova Flor


 


Quase todas as vivas pétalas do girassol


tinham caído, então arranquei as poucas


que faltavam e encontrei-me


com uma nova flor: o centro,


redonda almofada escura


da cor do café torrado, tocada de inúmeras


ínfimas florinhas de ouro, mas visíveis agora,


caído o vivo e brilhante amarelo,


e à volta um verde anel, as pétalas


por sob as pétalas, ali desde sempre,


cada uma com a forma de chamas sagradas


ou folha de figueira-dos-pagodes,


forma lúdica, jubilante


(subestimada em padrões Paisley)


e a luz vindo por entre elas, de modo que


quando, em dupla ou tripla fila, como um grupo


de anjos da Renascença, se sobrepunham,


havia sombra, um tom mais denso


do mesmo verde de rebentos – uma nova flor


neste dia de outono, revelada


no outono da sua própria floração.

Palestina

As cadeias de streaming como a Netflix e a HBO estão cheias de séries sobre a questão do Médio Oriente, quase todas americanas ou americanizadas, que nos dão uma visão talvez demasiado parcial do conflito (o árabe é quase sempre o terrorista e mau). Li também sobre o assunto nos livros de Amos Oz, David Grossman e outros escritores israelitas, muito menos tendenciosos e mais abertos à criação de um Estado palestiniano; mas caiu-me nas mãos pela primeira vez uma novela da escritora palestiniana Adania Shibli, intitulado Um Detalhe Menor (traduzido do árabe por Hugo Maia), que me deu uma perspectiva diferente e extremamente interessante sobre a expropriação em 1948 dos territórios palestinianos para a criação do Estado de Israel e as feridas que ardem até hoje por causa da ocupação de Gaza. A narradora vai atrás de uma história passada em 1949, que levou à violação colectiva e ao assassínio de uma adolescente que sobreviveu ao massacre de um grupo de beduínos não armados por militares israelitas. E veremos a história como que repetir-se muitos anos depois, quando uma jovem palestiniana sabe que esse episódio ocorreu exactamente vinte e cinco anos antes de ter nascido (eis o "detalhe menor") e resolve alugar um carro, pedir emprestado um cartão de identidade a alguém que pode sair da sua zona e ir investigar o crime ao "outro lado", esse lado onde se lê ainda num velho cartaz de 1939: "Não é o canhão que vencerá, é o homem." Que homem? Veremos neste belo e inquietante texto, em que é possível sentir o medo, o calor e a carne infectada pela mordedura do escorpião. O romance foi finalista do National Award e do Man Booker International Prize.

A grande senhora

Paula Rego, a grande pintora portuguesa e do mundo, morreu recentemente e toda a gente lhe fez o devido e merecido elogio artístico nos jornais, nas televisões, nas redes sociais. Eu estava a curar-me da COVID e com cada vez menos vontade de escrever no meu mural do Facebook, mas a verdade é que, se tenho pela artista uma grande admiração, não posso deixar de dizer que a mulher (e tão famosa era) me surpreendeu enormemente pela sua generosidade e simplicidade quando pela primeira vez a contactei. Estávamos no princípio deste século e eu lançava na Temas e Debates a minha primeira colecção de literatura portuguesa, com jovens escritores. O designer que se ocupara das capas, António Rochinha Diogo (ARD Cor), optara por incluir pinturas e escolhera para o primeiro romance de José Luís Peixoto A Dança, de Paula Rego. Disse-lhe que seria certamente difícil consegui-lo, dada a importância da pessoa em causa, mas arranjei o e-mail de Paula Rego através já não sei de quem e escrevi-lhe, explicando que o autor do livro era um jovem desconhecido, mas muito promissor, e que o seu romance decorria num ambiente que em tudo se relacionava com a pintura em causa que gostaríamos de usar como capa. Ofereci-me para enviar o texto completo e para falar por telefone sobre qualquer detalhe, mas não foi necessário. A grande senhora respondeu positivamente, encaminhou-me para os seus galeristas (que eram quem podia fornecer-me o slide, penso que na altura nem ainda trabalhávamos com ficheiros) e, a melhor surpresa, disse que não cobraria nada, uma vez que estávamos a promover justamente a obra de um jovem artista que começava então a sua carreira. Foi assim que a primeira edição de Nenhum Olhar (um dos primeiros Prémios Literários José Saramago) gozou do privilégio de uma pintura de Paula Rego na capa e que a minha admiração pela artista, que já era grande, se fez ainda maior.

Ficção na pastelaria

Não tenho grande queda para as coisas japonesas em geral, embora admita que o problema é meu, que não tenho os instrumentos necessários para entrar naquela cultura. Mas adiante: alguém que estimo e tem bom gosto literário recomendava um dia destes um pequeno romance japonês intitulado Doce Tóquio, de Durian Sukegawa, que ao que parece se tornou um fenómeno no país do Sol Nascente e acabou por conquistar o mundo inteiro. O livro tinha sido publicado este ano pela ASA, com tradução de Isabel Veríssimo, mas confesso que não dei por isso, até porque a capa, em tons de rosa e azul, me pareceu de um livro para adolescentes. No entanto, esse amigo chamou ao romance "delicado", e isso poderá também explicar a escolha dessas cores. Li-o de um fôlego, mesmo não sendo uma gulosa (passa-se numa pastelaria de Tóquio), e aprendi uma história que estava longe de conhecer e se prende com o que aconteceu às vítimas da doença de Hanser (conhecida vulgarmente por "lepra") no Japão do pós-guerra que, mesmo depois de curadas, foram obrigadas à segregação e ao isolamento em sanatórios, onde entraram em crianças e acabaram por morrer sem conhecer mais nada do seu país. O romance trata da vida de uma senhora que passou por isto e se especializou a fazer a massa dos dorayaki (um doce de feijão sobre panquecas) e que ajuda (e desajuda) Sentarô, um pasteleiro com dívidas e tendência para beber, e uma adolescente infeliz que não sabe onde deixar o canário. Interessante, sem dúvida, mas só podia ser japonês.

COVID

Meus caros, também fui atacada pelo vírus, e é por isso que hoje não tinham o vosso post à espera. As férias que anunciei já nem sei quando foram só meio gozadas, porque em alguns dias não havia mesmo disposição para nada, e nos primeiros era obrigatório o isolamento; e agora, que estou de volta ao trabalho, tenho tanta coisa atrasada para responder e cumprir que só me lembrei do blogue já passava do meio-dia... Tinha deixado o texto de ontem já encarreirado, mas hoje, sem grandes ideias, prometo retomar com mais tino a partir de segunda-feira. Desculpem esta falha, nada costumeira em mim, mas não vale a pena encher chouriços. Digo só a quem estiver interessado em poesia e viva no Porto que estarei lá no próximo sábado, às 17h00, na Biblioteca Almeida Garrett, para falar do meu novo livro de poesia com o jornalista Sérgio Almeida e a poetisa Rosa Alice Branco na próxima sessão do Porto de Encontro. Se por lá estiverem, apareçam. Até para a semana.

Amália a brincar

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No Dia da Criança foi lançado no Museu do Fado um livro-CD intitulado Brincar aos Fados: Amália, dedicado, é bom de ver, a Amália Rodrigues. Este projecto, que é organizado por Rodrigo da Costa Félix e já inclui outros livros-discos, pretende que os mais novos conheçam e se afeiçoem ao fado e, no livro que agora se lançou, que se familiarizem com a grande Amália através de fados mais leves e, por vezes, com letras divertidas, bem como de histórias criadas à volta das letras e obviamente da audição desses fados na voz de vários intérpretes dos nossos dias. Assim, com ilustrações belíssimas de Sara Domingues, escrevem, entre outros, para este volume Alice Vieira, Tiago Torres da Silva, Filipa Martins, José Fialho Gouveia e euzinha, e cantam Francisco Salvação Barreto, Kátia Guerreiro, Carlos Leitão ou Márcia. Mostrar às crianças que essa diva que foi Amália é capaz do mais trágico, mas também do mais alegre, é a função deste conjunto de fados e contos na colecção Brincar aos Fados, muito bem acompanhados pela música de grandes compositores do fado. Um presente bem giro para os mais pequenos.


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Excerto da Quinzena

(Para a semana estou de férias, o blogue só volta dia 14.)


Dani sempre quis acreditar que a mãe estava predestinada para voos mais altos, como mãe e como mulher. Que, se o pai não tivesse morrido, ela se teria transformado no suprassumo da nova mulher trabalhadora dos anos noventa, gerindo a casa e um negócio próprio, com todas as ideias que tinha de design de moda infantil que a avó costuraria. Pouco depois de Dani nascer, ela falava em estudar modelagem e moda. Mas o entusiasmo, a alegria e toda a doçura que sabia transmitir através das canções que inventava, das histórias infantis à hora de dormir, de tudo o que contava sobre tesouros, bosques, fadas, monstros bons e solitários, ficou paralisado com a doença do marido. Como se tudo tivesse ficado fossilizado no interior de um rochedo duro, juntamente com os seus jogos de sedução, as suas pestanas compridas, a elegância das maçãs do rosto e as feições delicadas. Uma mulher jovem completamente encerrada no interior de um rochedo e tingida de preto, de um preto fúnebre. O preto podia ter sido sofisticado e mágico, mas ela ainda hoje anda toda manchada de receios. Entrou para a igreja do bairro de uma forma excessiva e encheu os seus dias de catequese, velas e círios pascais. Decidiu deixar a vida feliz para outro mundo, já que assim tinha a certeza de que estar bem não dependia dela.


Marta Orriols, Doce Introdução ao Caos, tradução do catalão de Maria João Teixeira Moreno

As desculpas

Quando falamos apaixonadamente de livros, muitas vezes, do lado de lá, está alguém que não percebe o nosso entusiasmo. São geralmente pessoas que dizem que não gostam de ler. Digo «dizem que não gostam», e simplesmente «não gostam», porque creio que existe sempre um livro capaz de atrair um leitor, embora provavelmente não o mesmo para toda a gente. Mas, quando indagamos porque diz o nosso interlocutor que não lê, ele desculpa-se, regra geral, com a falta de tempo (como se ver televisão ocupasse menos tempo do que ler) ou, pior, com o preço dos livros, quando é capaz de dar uma fortuna por um bilhete para um festival de música. A Ler É Essencial desta semana não desiste de tentar fazer leitores e, por isso, oferece sugestões para convencermos a ler os que não o fazem, tais como falar-lhes de um livro que adorámos repetidamente ou convidarmos amigos para uma leitura conjunta de um livro depois de jantar. Diz mesmo, citando Kant, que ler uma coisa que nos ponha bem-dispostos é tão benéfico como o exercício físico. Vamos fazer esse esforço pelos livros?

O que ando a ler

Sendo hoje dia de dizer o que ando a ler, direi que leio, algo desconcertada ainda, O Colibri, de Sandro Veronesi (senhor nascido no mesmo ano que eu), publicado entre nós pela Quetzal e traduzido por Cristina Rodríguez e Artur Guerra. O colibri do título é Marco Carrera, que ganhou essa alcunha por ter nascido incrivelmente pequeno e ter sido, aliás, sujeito a um tratamento hormonal para crescer. Isso não o impediu, porém, de ter sucesso nos amores que, apesar de tudo, são relações irregulares, quer a que leva ao casamento com Marina, com quem Marco tem uma filha problemática (Adele), quer a que mantém desde praticamente a adolescência com Luisa e que, tanto quanto me é dado ver, nunca chega a vias de facto, embora origine uma correspondência profusa e bastante enigmática. Também o é a mantida por Marco com o irmão a propósito da casa dos pais, a cair aos bocados desde a morte destes, ou as situações que respeitam à irmã de ambos (Irene) e a um amigo da adolescência (o Inominável) que resolveu sair de um avião antes de este levantar voo e sabe mais tarde que esse avião teve um acidente em que morreram todos os passegiros. Mas o livro está cheiinho de surpresas e, ainda que exija muita atenção, sobretudo às datas, vale bem a pena ser lido.