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A mostrar mensagens de junho, 2024

Lourenço Marques, os Boers e muito mais

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Hoje é dia de lançamento às 18h00 no Museu do Oriente. Trata-se da apresentação do romance O Segredo de Lourenço Marques, de Eduardo Pires Coelho, de que falei aqui recentemente, que vai ser curiosamente feita por duas irmãs: Margarida e Paula Lobo Antunes (conhecem talvez a última por ser actriz de televisão). Perguntarão porque foram as escolhidas as irmãs, e é normal. Pois bem, são trinetas de Joaquim Machado, o governador de Moçambique na época tratada no livro, uma figura extremamente importante em diversas áreas, como a linha férrea e as obras públicas. Tendo o romance uma relação próxima com a elevação de Lourenço Marques a capital (substituindo a ilha de Moçambique) e a construção do seu porto (que seria um dos mais importantes de África), o autor achou que seria bonito trazer as irmãs Lobo Antunes para falarem do seu trisavô e, claro, do romance. Se estiver curioso, apareça.


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O fado e o 25 de Abril

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Conheci o jornalista Miguel Carvalho há muitos anos em Gaia, onde dinamizava um clube de leitura numa livraria Almedina com o astrónomo Miguel Gonçalves, que hoje colabora com a TV. Miguel Carvalho trabalhava então na Visão, que abandonou apenas há pouco tempo, e mais tarde surpreendeu o País com um livro sobre um lado completamente desconhecido de Amália Rodrigues (Amália: Ditadura e Revolução). Se a diva do fado foi quase sempre tida como uma pessoa de Direita, privando, como sabemos, com grandes gestores do tempo de Salazar,  na verdade chegou a ajudar, incluindo financeiramente, alguns membros do Partido Comunista. Foi ainda indo atrás deste mote que Miguel Carvalho lançou o ciclo de conversas As Portas Que Amália Abriu - Fado e Liberdade, que tem tido lugar no Museu do Fado e que, combinando pessoas de várias áreas, como Joana Mortágua, João Gobern ou Mitó Mendes, hoje terminam com um diálogo entre esta vossa criada e a fadista Aldina Duarte às 19h00. Apareçam.


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Prémio LeYa

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Ana recebe um telefonema de uma vizinha da mãe informando que Andrea desapareceu na sequência de uma série de escândalos no bairro, entre os quais o suposto sequestro de uma criança. Apesar de ter jurado a si mesma que não voltaria à casa da mulher que lhe infligiu todo o tipo de violência, Ana não consegue ficar indiferente à situação; e o que encontra no apartamento é bastante intrigante: lixo por toda a parte, pegadas de lama, móveis destruídos, garrafas vazias amontoadas no caixote. Enquanto se interroga sobre o que terá sido a vida de Andrea desde o dramático acontecimento que marcou a vida das duas para sempre, Ana empreende uma dolorosa viagem às memórias da infância, que incluem não só uma mãe desequilibrada e alcoólica que tem um relacionamento conturbado com um homem perigoso, mas também um rapaz frágil que a faz cúmplice dos seus traumas e se torna o seu único amigo. E, apesar de não se verem há muitos anos e de Ana o ter desiludido, é justamente a este amigo que resolve agora pedir ajuda. Com personagens inesquecíveis e desconcertantes, Não Há Pássaros Aqui, de Victor Vidal, romance vencedor do Prémio LeYa em 2023, é uma reflexão madura sobre o modo como aquilo que vivemos na infância determina a nossa vida adulta e como tendemos a reproduzir comportamentos a que assistimos, mesmo quando friamente os condenamos. Num tempo em que a saúde mental é um problema à escala global, este é um romance de estreia profundamente actual.


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Aniversários

Recebo uma newsletter de uma livraria que me anuncia os 45 anos da editora Antígona. Pois bem, só posso dar os parabéns! Lembro-me de sempre se falar da Antígona como editora fora da caixa (a sua designação é, de resto, Editores Refactários, bem original), mas a verdade é que são desta editora muitíssimos livros absolutamente imperdíveis que tive ocasião de ler, alguns até bastante recentes, como Caruncho, de Layla Martínez, de que aqui falei talvez há pouco mais de uma semana. Mas também podia citar o excelente O Anão, de Pär Lagerqvist, toda a obra sublime de Silvina Ocampo ou Bohumil Hrabal (especialmente Uma Solidão Demasiado Ruidosa e Comboios Rigorosamente Vigiados, sendo este último o meu preferido), os livros de Maya Angelou, o fascinante Acreditar nas Feras, de Nastassja Martin (em que uma antropóloga luta com um urso que quase a desfaz e volta uns anos mais tarde à sua procura para a desforra) e muitos clássicos também, como os de George Orwell, por exemplo. Para quem esteja curioso sobre o futuro da editora, este link abaixo pode dar umas pistas. Nós, claro, continuaremos a comprar livros da Antígona e a desejar-lhe muitos anos de sucesso.


https://www.facebook.com/AntigonaEditoresRefractarios/posts/pfbid02MzxfcNhBkXLhxiDsFgT6mVj7Z8R5XR9JURdpUyqnUNe8akcQ8sWoXxapo3ooFnc6l?locale=pt_


 

Ver mais?

Estou sempre a lamentar a falta de leitura em geral e a falta de leituras dos que querem ser escritores, e não gosto que digam que estou enganada e que me atirem areia para os olhos com o argumento de terem subido as vendas de livros, pois muitas vezes, garanto, uma coisa não tem nada que ver com a outra. Há muitos livros comprados para as estantes, não sei se sabem, por pessoas que respondem a um impulso momentâneo, mas na verdade não são leitoras. Há também muitos livros vendidos em lançamentos por serem de alguém famoso ou conhecido, ou de aguém próximo, e levam o autógrafo e tudo, mas não significa que vão parar à mesa-de-cabeceira e ocupem os seus donos todas as noites antes do sono. Há ainda muitos livros recomendados por professores, mas dos quais é lido apenas um capítulo-chave. E há também imensos livros começados com coragem mas abandonados. Se um texto mais longo não assustasse muita gente (a solidão, a atenção, o tempo e a concentração que requer ler um livro ou um artigo mais extenso), uma rede social como o Facebook não deixaria à vista apenas as três linhas iniciais de um texto de vinte ou trinta linhas seguidas de "Ver mais", dando a hipótese ao leitor de continuar (ou não); na verdade, tenho curiosidade em saber quantos clicam neste "Ver mais" e vêem realmente mais (mas devem ser poucos). A velocidade do mundo e o excesso de posts e de informação não ajudam, e eu própria, que sou uma leitora experimentada, dou comigo frequentemente irritada com uma mensagem de e-mail excessivamente comprida só para pedir a leitura de um original... A jornalista Bárbara Reis, do Público, referiu recentemente uma expressão usada pelos jovens de hoje (a geração Z) que é assustadora: TLDR. Sabem o que significa? "Too long, didn't read." Os calhamaços têm, ao que parece, os dias contados, e obras como a Recherche nem sequer devem chegar a ser consideradas: too long, infelizmente... Que mundo estranho este, em que o tamanho do texto vai definir provavelmente a formação dos leitores do futuro. Ainda bem que, pelo menos, 1984 não é um calhamaço.

Excerto da Quinzena

Estaquei o passo ao me deparar com a porta do nosso apar­tamento entreaberta. Um nó apertou meu estômago. Quando estava bêbada, Andrea vivia fazendo esse tipo de coisa, esque­cer as portas abertas, deixar o controle remoto da televisão dentro da geladeira, perder as chaves. Naquele momento o ar ao meu redor parecia denso de emanações estranhas. Sem saber o que fazer, permaneci por alguns instantes em pé no corredor, tentando descobrir o que provocava aquele pres­sentimento ruim. Do lado de dentro, a sensação de estranheza persistia: as luzes de quase todos os cômodos estavam acesas e uma voz masculina ecoava do quarto de Andrea. Havia alguém ali com minha mãe?


Abandonada no chão da sala, encontrei com uma pequena toalha branca manchada de sangue. O vermelho intenso, quase negro, parecia obsceno e revelador. O que havia acon­tecido?, eu me perguntei mais uma vez, o coração batendo acelerado dentro do peito. Minha mãe estava ferida? Por que todas as luzes do apartamento estavam ligadas? Quem era o sujeito que se encontrava em seu quarto? O cheiro ferroso que preenchia a sala me repelia e atraía em igual medida.


Incapaz de desviar os olhos da toalha ensanguentada, pres­senti que aquela temporada feliz ao lado de Benjamim havia chegado ao fim.


 


Victor Vidal, Não Há Pássaros Aqui, Prémio LeYa 2023

Abril no mundo

Abril não foi só cá (falo da Revolução, bem entendido, e dos seus efeitos, entre os quais a instauração de uma democracia). E teve ecos noutros países, talvez os mais óbvios já aqui ao lado (sim, o chamado «período de transição» em Espanha não tardou), mas também mais longe, no Brasil, onde Chico Buarque compôs a excelente canção «Tanto Mar». Ora, hoje e amanhã, esses ecos vão ser objecto de um Colóquio na Fundação José Saramago intitulado Herança Universal de Abril, promovido pelo INP (Instituto Novos Paradigmas) do Brasil. Como refere a newsletter a este respeito, «o evento reunirá personalidades políticas, artísticas e sociais para debater, durante dois dias, as conexões da Revolução dos Cravos, que há 50 anos pôs fim à ditadura fascista em Portugal, com as lutas democráticas da América Latina». Os palestrantes são originários de Espanha, França, Brasil, Portugal, Chile, Cabo Verde e Uruguai e há mesmo muita gente conhecida (Rui Tavares, Carlos César, Francisco Louçã, Fernando Rosas, isto para falar só nos de cá); os temas das mesas podem ser consultados em https://novosparadigmas.com.br/lisboa/. Como as cadeiras possivelmente não vão chegar para tantos que querem assistir, está assegurada uma transmissão online através das páginas do INP nas redes sociais. Hoje os debates terminarão com um concerto em que Cristina Branco será acompanhada pelo muito talentoso pianista Luís Figueiredo.

A outra que sou eu

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Publiquei no final do ano passado um romance gráfico incrível, de uma autora argentina que se mudou para Espanha, chamado A Viagem, que relata a ida ao Japão de duas amigas (uma delas é claramente a autora) que precisam de espantar uns quantos fantasmas. A que conta a história está num momento especialmente frágil depois de ter feito um aborto; a amiga, que não consegue engravidar, ajuda-a e dá-lhe força. É um encontro também com a diferença e o fascínio do Oriente. Agora, neste segundo livro de Agustina Guerrero que publico, A Companheira, esta companheira do título não é exatamente uma amiga como a outra, embora o seja; na verdade, trata-se de alguém que se calhar a protagonista não conhece assim tão bem mas que está sempre consigo nas melhores e nas piores situações: ela própria! Esta «companheira» guiará então a nossa Agustina por desertos, mares, planícies e grutas para evocar e trazer à memória episódios da sua vida que a marcaram à medida que crescia e se tornou quem é. Um passeio pelas recordações de uma vida cheio de amor, humor e ternura, mas também de culpa e medos, cujo destino pode bem ser a felicidade. Muito, muito interessante. (A tradução é de Ana Saragoça.)


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Direitos e deveres

Quando eu era pequena, chamavam-lhes «deveres», embora a designação que se usava lá em casa fosse «trabalhos de casa», a que se seguiu a abreviatura «TPC», comum entre os jovens. Mas «deveres» servia para mostrar que, se gozávamos do direito a sermos educados e instruídos, deveríamos cumprir alguns deveres, como aprender e depois rever a matéria em casa por meio de trabalhos vários: cópias, ditados, contas, desenhos, composições... Na semana passada assisti quase por acaso (era o Manel que estava a ver uma série e a televisão ficou ligada, e ainda bem) a um filme que se chama justamente Trabalhos de Casa, do iraniano Abbas Kiarostami. Trata-se de um filme de 1989 e consiste basicamente numa entrevista mínima feita pelo cineasta a um grande número de rapazes de uma escola primária pública (são meninos de seis ou sete anos, que estão a aprender a ler), a quem ele pergunta quem os ajuda nos trabalhos de casa e o que lhes acontece quando não os fazem. E, embora tenham passado mais de trinta anos desde a realização do filme (relativizemos, enfim), é incrível como quase todos os entrevistados têm pais analfabetos (curiosamente, a ajuda nos trabalhos de casa costuma vir de uma irmã mais velha, mas não há uma única rapariga no filme). A maioria tem também medo dos professores e dos pais (há mesmo o caso de um temor incurável em que o aluno nem quis falar, aterrado com as consequências do que pudesse dizer, e pediu para ficar na presença de um colega); quase todos os miúdos, quando não fazem os trabalhos, sofrem castigos corporais de cinto (e algumas mães também batem, embora sejam sobretudo os pais). É quase cândido ver como a miudagem diz que gosta mais de fazer os trabalhos do que de ver desenhos animados, o que é obviamente falso (basta ver a carinha deles), mas é de certeza a resposta que as crianças acham que os salvará de uma boa surra. Fiquei mesmo marcada por este filme, a lembrar-me de que cá em Portugal também já se bateu com cinto, palmatória e régua, pais e professores, e que, enfim, a infância merecia amor e calma e quantas infâncias não foram duras, pobres e violentas? Fiquei também muito impressionada com a quantidade de TPC que crianças tão pequenas tinham de fazer, mesmo há quarenta anos, acho que isso por cá já mudou, não sei há quanto tempo, mas ainda bem (é preciso tempo para brincar). De todo o modo, o que quero mesmo é recomendar este filme que, por mais repetitivo que possa parecer, é uma lição sobre família, ensino, violência, medo, infância e falta de amor. É preciso ir atrás: foi na RTP2, na quinta ou sexta passada, mas vale imenso a pena.

Ler teatro

À medida que envelhecemos, vão-nos morrendo pessoas, próximas e menos próximas; mas, entre estas últimas, algumas fazem-nos tanta falta (e ao mundo) como outras que se calhar estavam mais perto fisicamente, mas eram mais anódinas e menos intervenientes. Falo disto porque há algumas que são mesmo difíceis de substituir (Eduardo Lourenço, por exemplo; Vasco Graça Moura, que, entre outras coisas, sabia contar anedotas magnificamente; Ana Luísa Amaral, cuja voz nunca esquecerei; Nuno Júdice, que tinha um riso que, quando emergia, era mesmo contagiante, ou a querida Maria Quintans, qque perdemos ainda agora). Uma dessas pessoas (que conheci mal mas era brilhante) é Jorge Silva Melo, e lembrei-me dele a propósito da última sessão do Clube de Leitura de Teatro, que é uma belíssima ideia, pois praticamente só conhecemos as peças que vão à cena e há tantas, mas tantas, que vale a pena ler ou ouvir. No Teatro da Politécnica, descobrem-se nestas sessões textos da dramaturgia universal e, no próximo dia 24, às 19h00, vai ser lido um texto do próprio Silva Melo e, a seguir, vai ser ensaiada diante de todos a peça Búfalos, de Pau Miró, que depois será apresentada no CITEMOR, no dia 25 de Julho. Aproveitem, que é a última sessão do Clube (antes da rentrée, esperamos).


 


 

Empolgante

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Terminada a investigação a uma antiga embarcação portuguesa naufragada no Estreito de Malaca, Filipe recebe um telefonema enigmático de um grande empresário sul-africano; este pede-lhe que descubra o paradeiro de três passageiros clandestinos de um cargueiro português – o Angoche – que, em 1971, foi encontrado a arder ao largo de Moçambique sem ninguém a bordo. A busca levará Filipe a vários países africanos, mas também ao tempo em que Lourenço Marques florescia com a nova linha-férrea e o Império Britânico combatia as repúblicas boers para se apoderar da sua riqueza – guerra em que um português chamado Miguel Ferreira acabaria por envolver-se, antes de regressar à Ilha de Moçambique para desposar Maria Teresa, a mulher da sua vida. Mas que mistério liga este homem nascido no século XIX aos homicídios obscuros que Filipe descobre ao longo das suas viagens? E, apesar das ameaças de morte e do preço que pode vir a pagar, deve realmente continuar a sua pesquisa? Na senda de O Segredo da Flor do Mar e Taprobana, Eduardo Pires Coelho oferece-nos mais um thriller histórico trepidante, que nos vai oferecendo surpresas até mesmo à última página. Atreva-se.


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Luto

Talvez uma parte considerável das coisas que escrevi seja sobre o luto; e são-no decididamente os meus poemas preferidos, quase todos pertencentes ao livro O Canto do Vento nos Ciprestes. Tirando Paula, de Isabel Allende, que comecei há décadas e não consegui acabar, gosto geralmente de livros de outros autores sobre o assunto. Poderia enumerar muitíssimos textos que me agarraram desde a primeira página e que abordam a morte de alguém próximo: O Ano do Pensamento Mágico é um dos títulos mais emblemáticos, mas poderia perfeitamente falar também do pequenino livro sobre a morte do pai que escreveu a nigeriana Chimamanda, ou ainda de Luto, de Eduardo Halfon (parte de um projecto literário muito interessante, que combina ficção e memória), ou mesmo de uma ficção declarada, como Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, na qual um miúdo tenta perceber o que estaria o pai a fazer nas Torres Gémeas quando elas se tornaram pó no 11 de Setembro para poder aceitar a sua morte. No festival em que estive na semana passada em Roterdão, fui especialmente tocada pelas leituras da poetisa norte-americana com ascendência taiwanesa Victoria Chang; parte dos textos que leu pertenciam a um livro chamado Obit (Óbito) que fala, entre outras, das mortes dos seus pais. Recomendo esta autora a quem, como eu, goste de ler sobre a morte e o luto. Pode parecer macabro mas não é.


 


 


 

Cidade auto-suficiente

Cheguei domingo ao fim do dia de Roterdão, de um Festival de Poesia para o qual me convidaram: traduziram-me, aplaudiram-me, vão pagar-me, tudo coisas boas. Claro que a temperatura não era a portuguesa e havia um vento gelado com rabanadas súbitas bastante incomodativo; mas soube que por cá também houve trovoada, pelo que não devo ter perdido muito em dias soalheiros. Roterdão é uma cidade de que os arquitectos costumam gostar, com muitos edifícios realmente assinaláveis; e é também uma cidade "simplex" (para os de lá, claro, pois está tudo escrito em neerlandês), embora me tenha muitas vezes faltado alguém a quem perguntar uma direcção ou pedir ajuda (no metro só há máquinas, ou estrangeiros tão perdidos como eu). Num museu, por exemplo, não havia bilheteira: era suposto, disseram-me, ter comprado o bilhete online! Num restaurante, havia um código para fotografar e ler o menu (pois, mas não havia uma lista em inglês, por isso era difícil escolher o jantar). Tudo foi pago com cartão, ninguém aceita dinheiro para nada (é prático, não nego, mas, se o cartão falha por qualquer motivo, podemos ficar apeados ou em jejum). Já me tinham contado que, em Pequim, até os mendigos têm um código ao peito para a esmola ser paga por transferência via telefone, mas, queridos leitores, eu ainda prefiro falar com uma pessoa, ainda confio mais na pessoa do que na máquina. Este sistema holandês (ou de Roterdão) deve ser bestial para os mais jovens, que abraçaram o digital para tudo e mais alguma coisa, mas nada substitui, para mim, a voz humana, a mão humana. Devo estar decididamente a ficar velha. (O festival correu muito bem, diga-se em abono da verdade.)

O que ando a ler

Não costumo correr atrás dos finalistas de prémios, embora em alguns casos esta posição em certos galardões seja um bom indicador do interesse que pode despertar determinado livro ou da sua qualidade literária. Mesmo assim, não foi por Os Detalhes, da sueca Ia Genberg, concorrer com Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, ao Booker Prize International que o fui ler assim que saiu. A verdade é que a tradutora sueca de Itamar Vieira Junior, Inger Midmo, já mo tinha aconselhado há uns meses e, quando soube que ia ser publicado por uma colega minha na Dom Quixote, cravei logo um exemplar. Trata-se de um conjunto de memórias associadas a diversos momentos do passado da narradora, memórias que, regra geral, estão elas próprias associadas a pessoas com quem viveu e teve relações próximas, fossem de amizade, coabitação, atracção física ou mesmo amor. Partindo da premissa de que as pessoas que tiveram importância na nossa vida não desaparecem, mesmo que tenham desaparecido fisicamente há muito tempo, porque deixam em nós uma parte delas em detalhes que nos tornaram diferentes, teremos neste romance fragmentário quatro presenças fundamentais que ajudaram a construir uma vida, quer pela negativa, quer pela positiva. Bastante interessante e diferente do normal, algo que fica decididamente entre a memória e a ficção e que vale a pena conhecer.


P. S. Esta semana não vou ter mais posts, pois vou a um Festival de Poesia em Roterdão, do qual só regressarei no domingo (mas já fui votar, votem também); como segunda 10 é feriado, só dia 11 voltarei ao blogue. Obrigada aos que esperarem; e leiam livros até lá.