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A mostrar mensagens de novembro, 2015

No lugar certo

Este é um blogue que fala sobretudo de livros e edição, bem sei, e os seus leitores regulares são quase todos amantes de livros; mas, de vez em quando, gosto de me desviar desses assuntos por boas razões – e esta, creio, é uma delas. Muitos já devem ter conhecimento da campanha levada a cabo pelo Museu Nacional de Arte Antiga para a aquisição de um quadro belíssimo do pintor Domingos Sequeira, A Adoração dos Magos. A oportunidade de o acrescentar ao acervo do museu (que já possui os estudos para esse mesmo quadro e o cartão final) num tempo em que, infelizmente, não há dinheiro nem para mandar cantar um cego levou o director a convidar todos os portugueses a contribuírem com o que puderem, tornando-se verdadeiros mecenas de um dia para o outro. A iniciativa, muito aplaudida, de resto, pelos media e os artistas, teve resultados muito bons na primeira semana – em que imensas pessoas foram escolher um bocadinho desta tela magnífica para oferecer ao museu. Mas o museu precisa ainda de mais contributos e o facto de poderem ser pequeninos faz-me agora usar este blogue para difundir a campanha. Vamos pôr o Sequeira no lugar certo? Veja o link abaixo e ajude.


http://sequeira.publico.pt/

Vocabulário

Diz quem sabe que a geração que já nasceu com toda a tecnologia à disposição (e que não dispensa computador, telemóvel e, quando possível, também tablet, em que assistem a séries e filmes inteirinhos) tem menos vocabulário do que aquela que a precedeu. Sinto, na minha profissão, que de facto muitas palavras e expressões que eu ainda uso regularmente não constam quase nunca dos livros que me mandam para apreciação, embora também me surjam outras novas que não existiam quando eu era jovem (muitas delas aportuguesamentos de vocábulos ingleses, claro). E um dia destes uma colega minha que tem um filho de 15 anos no 11.º ano contou-me uma estranha história. Num teste de Filosofia, quase todos os alunos da turma erraram numa determinada resposta. E porquê? (Se pensam que isto tem que ver com filosofia, desenganem-se.) Pois bem, simplesmente porque nenhum deles sabia que a palavra «hábito» podia designar, além de costume ou prática frequente – o que era um dado adquirido –, a veste dos monges ou das freiras (como na conhecida frase «o hábito não faz o monge»), razão pela qual não conseguiram sequer perceber a pergunta. Olhem, os religiosos que rezem pela pequenada, que eu não sei onde isto vai parar...

A arca do tesouro

A correspondência (no sentido de troca de cartas entre pessoas) deixou simplesmente de existir; todos nós trocamos e-mails quando a coisa exige mais explicações e SMS terrivelmente curtas quando queremos dar apenas um recadinho. No entanto, a correspondência ajudou muito ao estudo dos hábitos desta ou daquela época e geografia; e, na Holanda, encontrou-se recentemente uma arca carregadinha de cartas (mais de 2500) que podem contribuir com dados muito interessantes para o estudo da vida no país durante o século XVII. Parece que as cartas, muitas das quais estavam seladas e nunca tinham sido abertas, foram arrecadadas por um chefe dos Correios; na altura, era costume pagar a franquia quem recebia a carta, e não quem a mandava; e havia, pois claro, quem não quisesse pagar, ou não quisesse receber a carta, como o homem que morria de medo de que ela lhe trouxesse a notícia de que estava para ser pai (e tinha razão). E, assim, durante séculos, toda a correspondência que não chegou ao destino ficou guardada na arca, até que nos nossos dias a arca foi descoberta... e aberta! Agora, os académicos de cinco universidades espalhadas pelo mundo estão a deliciar-se com a leitura de centenas de missivas de aristocratas, espiões, actores, músicos, editores, mercadores e até gente do campo praticamente analfabeta. Uma arca do tesouro, sem dúvida.

Aprender até morrer

Tendemos a associar estudo a obrigação e chatice, sobretudo na adolescência, durante a qual parece sempre que temos muita coisa mais interessante em que aproveitar o tempo. E, porém, um estudo recente realizado pela OCDE sobre as vantagens sociais da educação vem agora confirmar que são mais felizes as pessoas que estudam, até porque podem esperar mais da vida. «A educação ajuda as pessoas a desenvolver capacidades, melhorar a sua condição social e ter acesso a redes que podem ajudá-las a fazer mais conquistas sociais», dizem os autores da pesquisa, que acrescentam ser, em média, o grau de felicidade de quem faz o ensino universitário 18% superior ao de quem fica pelo ensino médio. Mas, além disto, revelam que quem estuda mais tem também sérias hipóteses de viver mais tempo, apresentando como exemplo um homem de 30 anos que viverá, em princípio, mais 51 anos se tiver uma formação superior, mas apenas mais 43 se tiver ficado pelo ensino médio (parece que a diferença para as mulheres não é tão acentuada, mas, ainda assim, há uns três anitos a mais de vida para quem andou na faculdade). Caso para dizer: aprender até morrer...

Levar à letra

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Por vezes afligem-me algumas pessoas que têm pouca elasticidade mental, não entendem uma metáfora ou um eufemismo e levam tudo à letra. Mas nem sempre a atitude de ser literal é defeito ou falta de inteligência – e a verdade é que se pode inclusivamente construir um objecto artístico bem interessante levando as palavras à letra. Que o diga, por exemplo, um criativo fotógrafo francês chamado Janol Apin, que resolveu pegar no nome de certas estações de metropolitano de Paris para compor imagens hilariantes, tentando fazer com que o cenário das fotografias correspondesse literalmente às palavras. Para achar graça, é necessário saber um pouco de francês, mas estou convencida de que os leitores deste blogue não encontrarão, à partida, grandes dificuldades. Em todo o caso, porque não posso aqui colocar todas as fotografias, adianto duas ou três composições: na estação Gare du Nord está na plataforma um pinguim e um esquimó; na de Porte Maillot, Apin ateve-se ao verbo porter (trazer, usar) e fotografou alguns jovens em maillot; e, na estação Rome, um centurião de coroa de louros olha o comboio que está a chegar. Abaixo, estão outras destas formas adoráveis de levar tudo à letra. Divirtam-se.


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Propriedade da língua

Disse-vos recentemente que fui convidada para falar num congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. A iniciativa teve um saldo muito positivo, pois pude ouvir intervenções extremamente interessantes por oradores de luxo em áreas como o teatro, o cinema ou a dança, em que sei menos e, por isso, aprendo mais (mas as da literatura também foram muito boas). Soube igualmente uma coisa curiosa nesse congresso, de que, de resto, já me podia ter dado conta: que muitas vezes, ao publicarem a obra de um autor brasileiro, os editores franceses escrevem «traduit du brésilien», e não «du portugais», como se de facto falássemos línguas diferentes cá e lá ou houvesse, pelo menos, donos diferentes da mesma língua. A este propósito contou Flora Gomes, o cineasta guineense, uma história deliciosa. Os guineenses declaram que o crioulo foi inventado na Guiné, e os cabo-verdianos afirmam que são eles os donos da língua. Ora, para evitar estes puxões para cada lado, alguém resolveu contrapor: nem num lado, nem noutro, mas numa piroga no meio do mar.

Um, três, cinco

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Sou pouco tecnológica e fico triste quando vejo dois namorados a jantarem juntos num restaurante sem trocarem palavra e sem conseguirem desviar os olhos dos respectivos telemóveis. Tiram fotografias ao que comem, que logo põem no Facebook, e escrevem SMS a amigos entre garfadas. Quando marcam um encontro, o primeiro a chegar raramente consegue esperar uns minutinhos sem enviar ao outro uma mensagem a avisar que já lá está, se é que não faz imediatamente um telefonema, como se não conseguisse aguentar ficar sozinho aquele lapso de tempo (mas, quando o outro chega, mal lhe fala). Desde que os aparelhos se tornaram não só úteis nos momentos certos, mas imprescindíveis a toda a hora, as pessoas deixaram-se escravizar por eles. Mas há quem pense que essa dependência é nociva e tenha arranjado uma alternativa. Numa estação em Grenoble, para os que ficam à espera há máquinas que imprimem pequenos contos para quem se quiser entreter até vir o seu comboio. O passageiro pode, inclusivamente, escolher entre histórias de um, três ou cinco minutos – e o conto é «dispensado» pela máquina em papel de recibo, próprio para ser deitado fora depois de terminada a leitura. Uma ideia que era bom que pegasse em mais sítios, aumentando a instrução das pessoas e distraindo-as por uns instantes dos malfadados telemóveis.


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Lixo artístico

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Vasco Pulido Valente disse uma vez numa entrevista que adorava ler trash (lixo) – e chamava «lixo» a obras menores, mas decerto bem menos poluentes e fedorentas do que muitas que hoje encontramos publicadas e à venda. As artes não estão isentas de lixo – e o facto de o lixo ter começado a ser difundido junto com a arte faz com que muitos de nós tenhamos, em áreas que conhecemos pior, grandes dificuldades em separar o que é moderno, original e ousado do que é simplesmente – isso mesmo – lixo (que ainda não está na lixeira, mas para lá caminha). Houve, aliás, recentemente um bom exemplo disso. Num museu do Norte da Itália, expunha-se numa sala uma instalação da dupla de artistas plásticos Goldschmied & Chiari, que, segundo li, representava nada mais, nada menos do que o «hedonismo e a corrupção política vividas na década de 80». A obra de arte, intitulada Onde Vamos Dançar Esta Noite?, era composta de duas telas, beatas de cigarro, garrafas de champanhe vazias e papelinhos de Carnaval (vulgo confetti); e, por isso, a funcionária da limpeza, quando chegou ao museu de manhã cedo, calculou que tivesse ali havido festança na noite anterior e apressou-se a limpar… A sala ficou num brinquinho, mas a instalação foi parar a uma lixeira, dizendo talvez alguns que era onde merecia estar. Deixo-vos as imagens do antes e depois, para se divertirem.


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Exponenciar

Ainda ontem vos falava de uma livraria francesa e da esplanada e serviço de cafetaria que montou para potenciar as vendas de livros. Pois não é só lá fora que isto acontece, e a Livraria Lello – a mais bonita do mundo, ou uma das mais bonitas, pelo menos – tinha, segundo vos contei aqui no blogue, tomado a decisão de cobrar uma entrada no valor de três euros, quer para conter as hordas de turistas que não param de lá entrar (mais de mil por dia), quer para facturar (até porque, no futuro, terá de custear obras de restauro, que essas visitas contínuas acabam por provocar muitos danos num espaço como aquele). O bilhete de três euros foi, efectivamente, instituído há uns três meses – e muito criticado também, mas os proprietários defenderam-se bem, dizendo que, se os visitantes comprassem um livro durante a visita, o valor da entrada seria descontado no preço do livro. E agora leio que as vendas da Lello aumentaram, para ser mais concreta, triplicaram, em três meses apenas. Se isso significar que há mais gente a ler livros em virtude de uma simples obrigação de pagar para ver a livraria, então aplica-se aqui o ditado popular de que «há males que vêm por bem».

Comes & Bebes

Quando uma loja do meu bairro fecha – e outra abre no seu lugar –, quase nunca se aguenta muito tempo, excepto, claro, se for um desses sítios onde se pode trincar qualquer coisa e beber café. As pessoas não abdicam da sua bica, são gulosas e gostam de um bolinho e, enfim, têm de almoçar para aguentar ainda algumas horas de trabalho. Uma das mais icónicas livrarias do mundo – a Shakespeare & Company, em Paris – um lugar que foi poiso de Henry Miller e Allen Ginsberg, entre outros – resolveu, pois, criar uma bela esplanada à sua porta, para que os compradores de livros possam sentar-se a tomar o pulso às obras enquanto comem e bebem. O menu é um encontro de culturas – inglesa, francesa, norte-americana –, com vários chás, pâtisserie française e até bagels, sumos feitos na hora, sanduíches diversas e sem glúten, pensando também nos que têm restrições alimentares. Se a livraria da Rive Gauche já atraía turistas de todo o lado pelos seus livros raros, pois agora não se trata apenas de passar por lá, pode ficar-se sentado na esplanada a degustar livros, comes e bebes.

Equivalências

Mia Couto é um grande escritor de língua portuguesa – e um escritor amplamente reconhecido lá fora, vencedor e finalista de prémios muito importantes (como o Man Booker International, por exemplo). Sempre me perguntei, porém, como seriam as traduções dos seus livros, uma vez que o prodigioso Mia é também um inventor da língua, de termos que poderíamos adoptar assim que os lêssemos na sua obra, como – só para dar um exemplo – «esparramorto» (nunca mais me esqueci desta palavra depois de a ter saboreado em A Varanda do Frangipani). Talvez os seus tradutores saibam mesmo muito português, conheçam a palavra «esparramado» («morto» hão-de conhecer), consigam encontrar uma equivalência qualquer que não perca a graça; mas o resultado não será, decerto, tão gostoso e imediatamente compreensível noutro idioma, mesmo românico. Agora, o escritor moçambicano está a escrever uma trilogia dedicada a Gungunhana – A Mulher de Cinzas já foi, aliás, publicado – e, tanto quanto me foi dado saber por uma entrevista recente, deixou-se das suas palavrinhas mágicas para se centrar noutras coisas. Mesmo assim, não resistiu a dizer que o que fazia ao escrever era «brincriar»... Mais uma para a colecção.

Da estante

Mergulho num velho livro com a capa a desfazer-se, um desses romances publicados há muito tempo que, por qualquer razão, toda a gente leu na juventude e, no entanto, me passou ao lado. Não se riam: trata-se de Olhai os Lírios do Campo, do brasileiro Erico Veríssimo, tanto quanto sei um dos autores preferidos da escritora Alice Vieira. Se calhar, devia mesmo tê-lo lido mais cedo, porque, não sei se é do papel amarelecido, se da impressão feita ainda a partir de caracteres de chumbo, o livro me está a parecer coisa um pouco antiga, um pouco datada. Conta a história de Eugénio, um rapaz pobre com vergonha dos pais e da sua condição, que com esforço consegue tornar-se médico; mas, atraído desde menino pela vida desafogada dos ricos, troca uma colega muito querida por uma rapariga de famílias finas, dada à psicanálise e saída da casca, com quem será, de resto, muito pouco feliz e que o fará sentir-se permanentemente humilhado. E, lamentavelmente, não poderá voltar à sua vida com a compreensiva e engraçada Olívia (esta, sim, uma personagem interessante) pois, quando o livro começa, está Olívia a morrer num hospital onde pede que chamem o seu Genoca, que – é mais do que provável – não chegará a tempo. Não querendo contar muito mais, para não estragar o prazer a quem se atreva a este clássico, tenho a sensação de que Eugénio ainda vai aprender a gostar de si mesmo olhando os lírios do campo. Estou a cem páginas do fim e já se fala de Hitler e de judeus, pelo que é de esperar que, diante do Holocausto, possa o homem relativizar a sua própria tragédia. Talvez então o romance me consiga agarrar.

Vamos comer a sopa

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Lançamos hoje à tarde na FNAC do Chiado um livro infantil da autoria de Ana Margarida de Carvalho (a autora do premiado romance Que Importa a Fúria do Mar) e de Sérgio Marques, ilustrador também galardoado por várias vezes. É um livro delicioso sobre dois irmãos muito diferentes em tudo – o É e o Não É (mais conhecido por Noé) – e tem por título a Arca do É. Esta arca – ao contrário da arca de Noé que se enche de animais nos dias do dilúvio – vai cheia de legumes que corriam o risco de morrer afogados com a grande chuvada; mas, vinda a bonança, os animais são devolvidos ao seu habitat enquanto os legumes, depois de colhidos, bem… não voltam à terra. Que fazer então com eles? Uma sopa, claro! Não perca hoje a sessão de apresentação, a cargo de uma especialista, Ana Margarida Ramos. E use esta história bonita e bem ilustrada para que os seus filhos e netos passem a dizer sim à sopa.


 


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Longe do Mundo

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Ontem saiu para as livrarias o romance vencedor da última edição do Prémio LeYa, intitulado O Coro dos Defuntos e assinado por António Tavares. Nele, vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção do romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma estranha metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar… Com personagens inesquecíveis e um recurso narrativo extremamente original, um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974, a homenagear o grande Aquilino.


 


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Interpretar

A tradução é um trabalho profundamente exigente: é preciso conhecer bem a língua de partida e escrever maravilhosamente na língua de chegada; é preciso ter senso comum, cultura e, quantas vezes, imaginação e elasticidade mental para resolver questões que quem não se quer dar ao trabalho normalmente remedeia com chatíssimas notas de rodapé. Conheço vários bons tradutores que admiro, com intuição para a tarefa, com um sentido apurado para o que fica bem no idioma para que traduzem, com respeito pelo autor e pelo leitor. Nunca lhes chegaria aos calcanhares se tentasse fazer o mesmo, estou certa; mesmo assim, acho que me sentiria muito mais à vontade diante de um livro e alguns dicionários do que numa daquelas cabinas de intérpretes que se dedicam à tradução simultânea em encontros e congressos, sobretudo quando aparecem situações de quase impossível solução. Contaram-me que, um dia, Cesária Évora foi ao Japão e, numa entrevista, tinha, claro, uma intérprete à disposição. Quando, porém, o jornalista perguntou à cantora como ia a sua carreira, ela respondeu, bem ao seu jeito, «que se ia desenrascando». Ficou então estarrecida a pobre intérprete japonesa, que, acto contínuo, lhe perguntou como é que podia traduzir aquele verbo. Mas Cesária respondeu, lacónica: «Olhe, desenrasque-se.»

Bio-romance

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O narrador deste romance é um condenado à morte a quem é concedido um último desejo; e o que escolhe é contar uma história, mais precisamente a da vida do Língua, um escravo que falou aos sete meses de idade e teve direito a biografia encomendada pelo rei de Portugal. Dá-se então um verdadeiro milagre: não só a história parece não ter fim, porque a vida do Língua está recheada de episódios em que os detalhes são de extrema importância, como começa a juntar-se cada vez mais gente para a ouvir – são às centenas os que todos os dias chegam à falésia de armas e bagagens, filhos, mulas, araras e macaquinhos, dispostos a fazer do lugar a sua casa só para não perderem pitada do relato. E, enquanto o narrador vai ganhando anos no cadafalso parindo magia, é toda uma comunidade que se vai criando em torno da maravilha de contar histórias, passando a língua a ordenar o tempo em vez do relógio. Inspirado na vida de um homem, talvez o único que viveu o colonialismo, a abolição da escravatura, a guerra da independência, a independência, a ocupação, o capitalismo, o imperialismo e o comunismo, sucessivamente e num mesmo lugar, Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga, é uma homenagem às pequenas histórias que nos salvam da penosa realidade.


 


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Santa ignorância

Nunca tinha estado com o padre e professor Anselmo Borges e, num almoço não há muito tempo, tive a sorte de ficar sentada ao seu lado e de o ouvir sobre vários assuntos com muito interesse. Às tantas, ele disse qualquer coisa de polémico e um jornalista que estava na mesa perguntou-lhe se podia publicar o que acabava de proferir. Ele concordou, mas pediu cuidado na reprodução do que lhe ouvira. É que, ao que parece, numa conferência que ocorrera uns meses antes, Anselmo Borges declarara que o futuro teria de passar pelo “ecumenismo”. Encontrava-se, pelos vistos, presente na sala da conferência uma jovem estagiária de um jornal que, nunca tendo decerto ouvido a palavra “ecumenismo”, redigiu a notícia do seguinte modo: Padre Anselmo Borges diz que o futuro terá de passar pelo “comunismo”. Dá vontade de rir, claro, mas é grave; e ainda temos sorte de, falando-se de futuro, não ter pensado nas novas tecnologias e inventado o “e-comunismo”. Enfim...

As crises e Agustina

Ouvi recentemente esta história a Mário Cláudio, que tem uma grande ternura por Agustina, mesmo que tenha um dia escrito que ela era tão depressa uma espécie de mãe como uma bruxa a quem apetecia amordaçar. Num tempo em que Portugal se encontrava numa grande crise que não era esta (às vezes acho que a crise é o nosso estado quase natural e os bons tempos a excepção), Agustina foi convidada a ir com outros escritores a um festival literário perto de Bordéus. Por lá, havia bastante fausto e pompa, e o encontro realizava-se num château riquíssimo e belamente decorado. Antes do jantar, a castelã, calculando que Agustina precisasse de usar o toilette antes de se sentar à mesa e usando um eufemismo, perguntou-lhe se não queria “ir lá dentro”. Ao que a escritora do Norte terá respondido logo, lembrando a crise: “Não, obrigada, estamos numa altura de retenção.” Só ela.

Metamorfoses

No mês passado, cumpriu-se o primeiro centenário da publicação de Metamorfose, o livro mais lido de sempre do checo Franz Kafka, que conta a história de um homem que um belo dia acorda transformado em barata (é muito mais do que isto, claro, mas era só para explicar de que metamorfose se trata). Pois bem, apesar de Kafka se ter tornado uma figura de proa da literatura de todos os tempos, e de a cidade de Praga o ter – e à sua pequenina e bonita casa – como um dos ícones que mais turistas atraem, leio num blogue que na Checoslováquia o escritor nunca foi realmente muito lido. Parece que a primeira tradução para checo de Metamorfose (o original é alemão) só se fez em 1929 (o texto teve sucesso nos EUA antes de se tornar conhecido na terra natal) e, como foi levada a cabo por intelectuais anarquistas, isso gerou a ideia de que o seu autor era revolucionário (e era, mas de uma outra maneira); o problema foi que, mais tarde, quando a Checoslováquia se tornou comunista, se passou ao outro extremo, e a obra do mestre, então considerado um reaccionário, foi proibida pela ditadura. Enfim, metamorfoses que não ajudaram nada e que, pelos vistos, apesar de em 1990 se ter criado uma fundação com o nome do escritor, não levaram a que a Checoslováquia faça sequer uma comemoração oficial do centenário deste pequeno grande livro.

Leitor livre

Muitas vezes falo neste blogue de livros de que gostei e recebo sugestões vossas nos comentários, achando que essa partilha vale muito a pena. Mas, recordando as palavras de Virginia Woolf, prefiro pensar que não vos estou a recomendar nada, mas simplesmente a dar-vos a minha opinião. Senão, vejamos: diz a escritora britânica que o único bom conselho que uma pessoa pode dar a outra sobre o que ler é justamente que não se deve aconselhar, pois cada um deve seguir o seu próprio instinto, servir-se do seu senso comum e chegar às suas próprias conclusões. Deixar que alguém entre na nossa biblioteca e nos diga como ler e o que ler é, segundo Woolf, destruir «o espírito de liberdade que se respira nesses santuários». E afirma também: «Toda a literatura, quando envelhece, tem a sua pilha de desperdícios.» E de que maneira! Frases sábias de uma das escritoras mais interessantes de sempre. Eu, mesmo fazendo a vénia, gosto que me falem de livros que não li e de autores que não conheço, ainda que também descarte muitas leituras de obras que alguém me apregoa mas que, sei lá porquê, não me seduzem. Cada um que decida o que for melhor para si. Os leitores, em suma, devem ser livres de escolher.

O que ando a ler

Há muito tempo que não lia um livro tão triste, digo eu. Triste e ao mesmo tempo muito belo. Esteve, de resto, na long list do Booker Prize deste ano, mas não passou à short list – e tenho pena, porque adorei este Lila (que é o nome da protagonista), da norte-americana Marylinne Robinson, nascida em 1947 no Iadho, mas há muito a residir no Iowa, a cujos habitantes dedica, aliás, a obra (curioso, lembrou-me Carson McCullers). Lila é, aos quatro anos, arrancada de uma barraca imunda de migrantes esfomeados e levada por uma mulher – Doll – que não lhe é nada, mas decide salvá-la de um destino terrível. Juntam-se as duas a um grupo de trabalhadores nómadas pagos à tarefa, deambulando pela América, experimentando os terríveis tempos da Grande Depressão e o medo de Doll de que alguém venha cobrar-lhe o rapto da menina e fazer-lhes mal, razão por que anda sempre com uma faca – único objecto que lega a Lila quando, uma noite, desaparece. Lila não tem absolutamente mais ninguém no mundo e, por isso, dificilmente escapará a muitos anos de uma vida indigna de sacrifício e deambulação até ir dar a uma terra pequena onde o reverendo John Ames, viúvo e triste como ela, mudará a sua vida. Com diálogos incríveis, personagens densas e humanas, descrições da natureza de tirar o fôlego, citações da Bíblia que são um hino à literatura, um encadeamento perfeito de passado e presente, este romance incomoda-nos e toca-nos muito, magoa-nos e ao mesmo tempo alivia-nos, ensinando-nos que às vezes o amor dedicado a alguém desprotegido pode salvar a vida dessa pessoa, mas sobretudo a nossa. Uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira.