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A mostrar mensagens de abril, 2018

Nobel adiado?

Diz-se para aí que este ano pode não haver Nobel da Literatura… E tudo por causa do assédio sexual, que a Academia não é imune à boçalidade… Pois parece que, na sequência de 18 acusações ao marido de uma senhora que era um dos membros vitalícios do comité Nobel, houve pressões e demissões, entre as quais a da secretária permanente, que, apoiando a amiga vituperada, foi «obrigada» a abandonar o cargo e, portanto, no próximo anúncio veremos outra cara a sair daquela porta que se abre ao meio-dia em ponto, hora portuguesa. Como os membros da Academia são vitalícios, arranjar assim do pé para a mão substitutos de categoria para os demitidos (forçadamente ou não) não vai ser fácil... e a Academia tem de ter, ao que parece, 18 membros para tudo funcionar. O rei, patrono do Nobel, está em cima do acontecimento, evidentemente, e declara que pode mudar excepcionalmente as regras, mas não se exclui mesmo assim a possibilidade de este ano o anúncio do prémio ser mais tarde. Bem, não é a primeira vez que há escândalos em torno do Prémio Nobel (da literatura e não só), mas isso dá-me ideia para um post autónomo que vos apresentarei um destes dias… Até porque hoje devem ser poucos os que não aproveitam a ponte do Primeiro de Maio e estão a ler as Horas Extraordinárias...

Juntar os vencedores

Se entende inglês e pode ir a Londres passar um fim-de-semana grande, escolha, por favor, o período que vai de 6 a 8 de Julho e opte por um hotel, pensão, albergue (o que seja), que fique perto do Southbank Centre. É que é justamente lá e nessas datas que vai ocorrer um festival que reunirá muitos dos vencedores do Man Booker Prize dos últimos quinze anos! Imaginem o que será poder em três dias apenas ouvir Hilary Mantel e Salman Rushdie, Julian Barnes, Peter Carey, Alan Hollinghurst e David Grossman, Deborah Levy e, claro, a mais recente estrela, Paul Beatty! E ainda ver a raríssima aparição de mãe e filha juntas – falo, evidentemente, de Anita e Kiran Desai, duas gerações a ganharem o mesmo prémio. Vai ser preciso comprar as entradas muito antes, que há montes de gente interessada, e é bem possível que os bilhetes para estas sessões custem mais do que o bilhete de avião numa Low Cost; mas poupe-se para estas coisas, que fazem tão bem à alma! O evento culminará com a votação da melhor obra de ficção galardoada com o Booker dos últimos quinze anos (Os Filhos da Meia-Noite já ganharam este prémio no passado) e, de hoje a exactamente um mês, conheceremos os cinco finalistas e podemos ficar a torcer por um deles. O Man Booker Prize faz 50 anos e celebra-os da melhor maneira possível.

Eu, Salazar

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«Há algumas figuras assim, sobre as quais já tudo foi dito e sobre as quais está tudo ainda por dizer. Por mais odiado, seguido, idolatrado, contestado e questionado, é o vulto maior da política portuguesa do século XX, pela sua longevidade no palco político e pelo carácter que imprimiu ao imaginário nacional. Ainda hoje, nós portugueses, nos definimos pró ou contra Salazar». É com estas palavras de Nuno Camarneiro que se inicia a folha de sala de um espectáculo acabadinho de estrear (no dia 25 de Abril, como convém!) no Teatrão, Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra. Intitula-se Eu, Salazar, e assinam-no o próprio Nuno Camarneiro e Ricardo Vaz Trindade, ambos filhos assumidos de Abril, mas conscientes de uma pesadíssima herança que a figura em destaque legou ao seu Portugal e a todos nós. Paralelamente a este espectáculo, que estará em cena de quarta a sábado às 21h e aos domingos à tarde até 13 de Maio (mas esperamos que depois faça itinerância pelo País), existe um ciclo de mesas-redondas com conhecidos intervenientes, desde Fernando Rosas a Irene Flunser Pimentel, sobre temas relacionados com o Portugal do Estado-Novo e, claro, o próprio Salazar, no ano em que se celebram cinquenta anos que caiu de uma cadeira.


 


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Neo-realismo para crianças

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Se os que estão desse lado tiverem a minha idade (ou forem mais velhos) lembram-se seguramente da imagem que hoje ilustra o post – e que foi a capa de um livro absolutamente icónico de Maria Rosa Colaço, escritora premiada e muito amada pelas crianças, intitulado A Criança e a Vida, que coligia frases e pensamentos de crianças sobre os mais diversos assuntos e provava como, por vezes, elas já nascem com a literatura e a poesia no sangue. O Museu do Neo-Realismo organiza um colóquio que começa hoje sobre a Literatura Neo-Realista para a Infância em que, participam, entre muitos outros, José António Gomes e Ana Margarida Ramos, professores e especialistas na matéria, e se falará de muita gente além de Maria Rosa Colaço e do seu livro: obras e escritores inesquecíveis, como As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, ou a produção literária infanto-juvenil de Ilse Losa, Sidónio Muralha, Matilde Rosa Araújo, etc… Alice Vieira relembrará Mário Castrim (seu marido e um impiedoso crítico televisivo) e serão apresentados livros infantis de Álvaro Cunhal.


 


P.S. Vou de férias amanhã e por isso só voltará a haver blogue no dia 26!


 


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Em Cabo Verde

Não é só em Portugal que os escritores de língua portuguesa se reúnem para discutir literatura (e outras coisas interessantes). A UCCLA e a Câmara Municipal da Praia promovem a partir de hoje e até domingo mais um Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na capital de Cabo Verde. É já a 8ª edição deste festival que tem contribuído para que escritores lusófonos de vários continentes troquem ideias e se conheçam. Nem sempre acontece na mesma cidade, pois já se realizou também nas cidades de Natal e Luanda. Na presente edição, o tema é Cidade e Literatura e haverá três subtemas: Literatura e Cidadania, Literatura e Criatividade, Literatura e Juventude. Estarão presentes autores de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Timor. O certame, no total de edições, já recebeu mais de 100 autores lusófonos, incluindo 5 prémios Camões: Arménio Vieira, Eduardo Lourenço, João Ubaldo Ribeiro, Pepetela e Mia Couto.

Portabilidade

Dizem-se manuais as coisas feitas à mão, mas, aqui para nós, os actuais manuais escolares são tudo menos manuais. Temos a mania de achar que no nosso tempo é que as coisas eram boas, mas os manuais de hoje (e o material escolar em geral) são muito sofisticados e infinitamente mais atraentes do que os do meu tempo, de cadernos com capa monocromática, normalmente preta ou a atirar para o rosa-velho, e borrachas malcheirosas. Estes manuais de agora têm capas muito manuseáveis, formato grande e mais arejado, ilustrações, cores garridas, esquemas, gráficos, enfim, é uma festa. E, mais do que isso, fazem a papinha toda aos alunos, o que, por acaso, não sei se é assim tão bom, porque talvez fosse mais salutar fazê-los ir em busca de textos complementares sobre as matérias estudadas, uma vez que, ao contrário de mim, até têm acesso a uma coisa miraculosa chamada Internet. Mas, no meu tempo (deixem-me puxar a brasa à minha sardinha), os manuais, embora tristonhos, cabiam todos numa simples pasta (mochila era coisa que ainda não se usava nessa altura senão para ir acampar) e não me lembro de trazer as costas curvadas ou precisar de mala com rodízios para transportar os livros até à escola. Um dia destes, estive a consultar alguns manuais de Português de 12º ano e já não podia com aquele peso todo nas pernas! O que faria se tivesse de andar com ele às costas… Não poderia existir um meio-termo, senhores?

Génios

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Existem por aí muitos livros sobre o génio (não falo do mau génio, bem entendido, que também grassa em todas as partes). De repente, lembro-me de três muito diferentes: Génio, de Harold Bloom, o autor do famoso O Cânone Ocidental; Os Criadores, de Daniel Boorstin – um livro provavelmente já fora de mercado, mas extremamente legível sobre os pioneiros geniais em todas as áreas (da religião à fotografia); e, para não citar demasiados títulos, Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstadter, obra que ganhou o Pulitzer nos anos 1970 e entrelaça as mentes brilhantes de um músico, um pintor e um matemático, mas fala de muitas outras coisas, como lógica, criatividade, formigas e até budismo. Ainda assim, as três pessoas citadas no título desta última obra eram verdadeiramente geniais. Sobre Bach, não há palavras que cheguem para elogiar as suas composições; Kurt Gödel, supostamente a figura menos conhecida dos Extraordinários, que são mais dados às letras do que aos números, nasceu na Áustria no início do século XX e foi autor de importantíssimos teoremas matemáticos (entre os quais, os teoremas da incompletude e da completude). Mas, no fundo, é do génio de Escher que vinha falar-vos hoje, porque está em Lisboa uma importantíssima exposição da sua obra para ver no Museu de Arte Popular que termina a 27 de Maio; e, apesar de os bilhetes não serem propriamente baratos e de não estarem lá algumas das obras mais conhecidas do artista (a mão que desenha a própria mão, por exemplo), a mostra é fascinante e imperdível: para quem já conhecia e pode encher o olho (e os primeiros desenhos do holandês, menos divulgados, têm já muito que se lhe diga); e para quem ainda não conhece, mas tem de conhecer.


 


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Mentir melhor

Já não tenho a certeza, mas julgo que foi o escritor brasileiro Inácio de Loyola Brandão, delicioso octogenário, que nas últimas Correntes d’Escritas contou uma história que tem a sua piada. Dois amigos, um pianista e o outro escritor, estavam a beber uma cervejinha e a ouvir um disco de música clássica (para simplificar, vamos imaginar que Pedro e o Lobo, de Prokofiev, peça na qual os instrumentos imitam os sons da natureza na perfeição). Impressionado com o que escutava, o escritor disse ao seu amigo que os músicos tinham uma capacidade de mentir absolutamente fantástica e que tinha pena de não ter essa mesma possibilidade no seu ofício. O amigo músico encaixou a frase, processou-a no tempo devido e devolveu que o escritor estava completamente enganado, que um escritor tinha, efectivamente, capacidade de ser muito mais mentiroso do que um compositor. O interlocutor quis então saber em que argumento se baseava o pianista para fazer tal declaração, ao que este explicou: «Bem, é que eu só tenho 7 notas, enquanto você tem 23 letras!»

Histórias a arder

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O escritor Nuno Camarneiro decide viajar até uma zona de guerra no Médio-Oriente para melhor entender as razões do conflito e de quem nele participa. Mas o que começa por ser uma visita de estudo transforma-se rapidamente num pesadelo, quando o escritor e os seus companheiros de viagem são sequestrados por um grupo de fundamentalistas islâmicos. Ao longo de várias semanas terão de encontrar estratégias de sobrevivência que protejam o corpo, a mente e algumas crenças fundamentais. Os prisioneiros contam histórias, revisitam memórias, inventam jogos e vidas inteiras, tornam-se guerrilheiros da ficção. Numa guerra entre homens, ideias, deuses e civilizações não há partes neutras, e é difícil distinguir as vítimas dos agressores. A verdade escreve-se em muitas línguas, como as histórias e os sonhos de cada um. Este é apenas um resumo possível de O Fogo Será a Tua Casa, o novo romance de Nuno Camarneiro, disponível a partir da próxima semana. O livro é muito mais do que isto, evidentemente.


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O autor e as suas personagens

Disse um dia a inteligente e criativa Rosa Montero, falando do seu próprio caso, que, sempre que estava a escrever um romance, ficava um tanto ou quanto obcecada e raramente conseguia desviar dele a atenção. Mesmo quando não estava à secretária a escrever, estava quase sempre a pensar no livro e nas personagens, a rever mentalmente o que já escrevera ou a conceber frases e cenas para passar em breve ao papel. Contou mesmo que lavava os dentes com as suas personagens no espelho da casa de banho, se levantava da cama com elas e, ao fim da noite, ainda se deitava com uma ou duas. Pois bem, já não me lembro quem disse isto (alguém o contou num encontro de escritores e a minha memória guardou a frase, mas não o seu autor – ele/ela que me perdoe): que, no que toca à escrita de romances, os autores andam primeiro atrás das personagens; passado um tempo, caminham com elas, a seu lado; por fim, estão dentro delas. Atrás delas, com elas, nelas. Gostei da ideia.

Fronteira

Os festivais literários continuam por esse Portugal fora – e desta feita está na hora de desfrutar da sexta edição do Fronteira, festa em torno da literatura que decorre em Castelo Branco a partir de hoje e até ao próximo dia 14. A receita não difere do que é habitual em outros certames do género no País: mesas-redondas para discutir vários assuntos (entre eles, o que mudou na literatura portuguesa desde a atribuição do Prémio Nobel a Saramago, há vinte anos certinhos); idas dos autores às escolas para conversas com alunos; entrevistas ao vivo (desta vez com Mário Augusto, um jornalista que adora cinema); oficinas de ilustração. Os autores e outros participantes (moderadores, inclusive) é que vão mudando, mesmo que se diga que muitos deles estão em todas. Em Castelo Branco, vai ser possível ouvir, por ordem alfabética do primeiro nome, Ana Margarida de Carvalho, António Mota, Filipa Melo, João Ricardo Pedro, José Carlos Vasconcelos, José Mário Silva, Maria Bouza, Maria João Lopes, Mário Augusto, Pedro Brito, Pedro Mexia e Rachel Caiano. Espero não me ter esquecido de ninguém. Fronteira é a prova de que no Interior também acontecem coisas interessantes.

(Des)integrar

Integrar é palavra de ordem na escola. Quando, nos idos de 1980, dei aulas de Português em Lisboa & arredores, tinha uma turma de alunos com «dificuldades de aprendizagem» entre alunos cujo aproveitamento era absolutamente normal. Nesse tempo, estas turmas eram, é bom que se diga, reduzidas. Mesmo assim, alguns dos miúdos mais espertos desmotivavam-se, excepto quando eram muito bem formados e queriam eles próprios ajudar os mais necessitados. Depois veio a altura de integrar crianças que vinham de outros países, desde aficanos e brasileiros (aparentemente mais fácil por causa da língua) a ucranianos, moldavos, chineses e muito mais… Penso que a integração correu bem, sobretudo porque as crianças são muito elásticas. Mas agora uma equipa de investigadores descobre que integrar os estrangeiros na escola é bom, mas sem exageros – ou seja, que a mistura é saudável e tem efeitos mais positivos do que a falta de convívio com outras nacionalidades; mas que, se a percentagem de estrangeiros for superior a 20%, os miúdos, regra geral, saem-se pior do que a média. E porquê? Porque, sendo muitos, haverá tendência para se «guetizarem», enquanto, se o número de imigrantes não for tão alto, os nacionais puxam de algum modo por eles e eles pelos nacionais (os imigrantes de segunda geração lêem melhor do que os portugueses!). Em Portugal, os alunos estrangeiros ascendem a 10% do total de alunos, mas 70% estão em apenas 25% das escolas do País e existe uma concentração nas zonas mais desfavorecidas. Este estudo, desenvolvido pelo ex-ministro da educação David Justino e a investigadora Isabel Flores, avalia alunos de 15 anos nas áreas de Leitura, Matemática e Ciências.

Divulgação científica

Comecei no mundo da edição pelos livros de divulgação científica – e, talvez por isso, tenha uma fé inabalável na ciência. Foi nessa primeira editora onde trabalhei que conheci José Mariano Gago, na altura um dos professores e cientistas que aconselhavam obras para tradução e publicação em Portugal; e, embora nunca tivéssemos sido exactamente próximos, lembro com muita simpatia um almoço de trabalho durante o qual estivemos a falar sobretudo das nossas respectivas nespereiras que, naquele ano, por uma razão que não entendíamos, tinham dado nêsperas bastante sensaboronas. Adiante: toda a gente sabe a importância de Mariano Gago no desenvolvimento da ciência em Portugal – tiremos-lhe o chapéu, por favor, porque ainda por cima ele não era nada gabarolas a este respeito – e, por isso, a SociedadePortuguesa de Autores (SPA), numa homenagem mais do que merecida, criou um prémio anual para um livro de divulgação científica a que pôs o seu nome. Temos excelentes divulgadores – desde logo António Damásio, mas também Carlos Fiolhais ou Jorge Buescu – e por isso a escolha há-de ser bem renhida. Como Mariano Gago gostava, claro. Parabéns à SPA.

Fado literário

A minha amiga fadista Aldina Duarte tem uma velha relação com os livros e a literatura, pois, segundo ela conta frequentemente em entrevistas, a mãe a deixava em pequena numa biblioteca conhecida quando acabava a escola e só vinha buscá-la umas horas depois. A Aldina é de facto uma leitora compulsiva (sempre com um livrinho dentro da mala) e ecléctica – lê desde ensaio sobre o corpo ou a arte aos clássicos mais empedernidos e à literatura mais vanguardista. Os seus álbuns estão também, de certo modo, ligados à escrita; um deles chama-se Contos de Fados (e tem que ver com narrativas), outro Romance(s) (não é preciso dizer mais nada) e o mais recente tem por título Quando se ama loucamente – o que apontaria talvez para uma ligação a Florbela Espanca, mas não: efectivamente, tem que ver com a obra da escritora de culto Maria Gabriela Llansol. Pois bem, hoje à noite Aldina vai cantar este seu álbum literário no CCB – e eu vou lá estar. Se gosta de um fado assim profundo, não perca o concerto. De contrário, leia os belos poemas da Aldina Duarte, uma grande escritora de letras, além de leitora.

Livros caros e porquê

Quase toda a gente se queixa de que os livros são caros (mesmo os editores-leitores), e a Planeta Tangerina (PT) – a quem faço vénia – publicou no seu blogue um muito interessante e esclarecedor post sobre, no fundo, porque isso acontece em Portugal e a percentagem que cada parte envolvida na feitura de um livro arrecada para si. O link vai no fim deste meu post, até porque as professoras podem falar deste assunto aos seus alunos e aos pais que usam a desculpa do dinheiro para não comprarem livros aos filhos. Os Extraordinários, se lerem com atenção o artigo da PT, verão que um país pequeno está sempre mais sujeito a um preço mais alto do livro em virtude de as tiragens serem menores. Contudo, talvez fosse possível alterar um pouco as coisas. O Manel contou-me que uma vez, numa feira internacional, uma editora já não sei de que país (nórdico, provavelmente), achando diminuta a tiragem que ele lhe indicava como habitual em Portugal para um livro de venda média, lhe perguntou quantos exemplares de cada título as bibliotecas portuguesas lhe compravam (isto porque, no seu país, cerca de 3000 exemplares de todos os títulos publicados eram comprados pelas bibliotecas, não sei se pelo Governo, se pelas Câmaras Municipais). Ele respondeu que nenhum e que, por vezes, as bibliotecas ainda escreviam cartas a pedir livros às editoras… Bem, as coisas já não são exactamente assim, claro, mas, se as bibliotecas se abastecessem um pouco mais, mesmo seleccionando os títulos a comprar (evitando o lixo e adequando as compras ao público frequentador), isso não tornaria o livro mais barato?


 


http://planeta-tangerina.blogspot.pt/2018/03/para-onde-vai-o-dinheiro-quando.html?m=1


 

Regressar

Já aqui disse – tenho a certeza – que, com todos os livros que ainda não li (e com tantos outros que tenho de ler profissionalmente no dia-a-dia), é mesmo raro eu regressar a um romance lido noutra época da vida (com a poesia, bem entendido, isso não acontece). Há tempos, como aqui contei, não resisti, porém, a Italo Calvino e ao seu brilhante Se numa noite de Inverno Um Viajante – e ainda bem! Mas a experiência do reconhecimento imediato e da satisfação plena que obtive com Calvino nem sempre se repete – e a reacção pode até tornar-se bastante decepcionante: porque já não temos aquela idade, porque a nossa cultura é outra e mais ampla, porque mudamos de gostos ao longo da vida… O que não muda, de facto, são os grandes autores; e, por razões que Vossas Excelências em breve saberão, precisei de regressar a um livro muito amado, pelo que, numa noite da semana passada, fui à estante buscar um velhinho romance de Marguerite Duras do qual guardava a mais poderosa das memórias. Trata-se de Uma Barragem contra o Pacífico, texto que conta muita verdade da vida da própria autora e da sua família na Indochina, para onde foram atrás da promessa de uma vida melhor. E tudo, mas tudo, o que lembrava ainda lá está intacto, exactamente como da primeira vez: e a primeira vez foi mesmo há muito tempo… Milagres que, por serem milagres, quase nunca acontecem. Leiam, se o encontrarem.

Vergonha?

Apesar de se ler cada vez menos (falo de literatura, e não de SMS ou murais de redes sociais) – e de algumas pessoas fazerem arrogantemente alarde da sua ignorância –, a verdade é que ainda há muito quem se envergonhe de não ter estudos (por isso mentem tantos políticos a propósito dos seus currículos) e de não ter lido as obras que certos académicos consideram obrigatórias ou fundamentais (o Proust, claro). Muita gente do meio intelectual tem mais dificuldade em confessar, junto de confrades ou publicamente, as suas lacunas quanto à leitura de uns quantos títulos – alguns ficam calados no meio de uma conversa entusiasmada (e isso nota-se); outros, mais afoitos, metem a colherada na conversa com generalidades que denunciam em três tempos a sua falta de conhecimento. Mas… com tanto livro, como ler tudo? Eu, que vivo à procura do novo e publico o contemporâneo, como vou alguma vez ter tempo para ler tudo o que está para trás e falhei por qualquer razão (o Ulisses de Joyce, por exemplo)? Devo ter vergonha dessas minhas lacunas? Claro, mas que fazer? Hanif Kureishi, num interessante questionário que o The Guardian propõe de vez em quando a escritores, confessa que nunca leu uma  linha de Jane Austen, confissão que, vinda de quem vem, considero um acto de coragem extraordinário. A seguir diz: «My shame is big.» Mesmo assim, a verdade a acima de tudo.

O que ando a ler

Volto a falar de um livro que já aqui mencionei aquando da atribuição do Man Booker Prize do ano passado, mas ainda não tinha lido: Lincoln no Bardo, de George Saunders, o escritor norte-americano celebrizado pelas suas short-stories que se atreveu ao romance e arrecadou logo na estreia um prémio de peso. Com razão. Lincoln no Bardo (o título estranha-se mas depois entranha-se) é uma peça literária excepcional, um exercício que apela ao teatro e seus coros (quase tudo são, afinal, falas, exactamente como num texto dramático para ser dito em palco) e, simultaneamente, à citação (prática tão querida aos anglo-saxónicos, que têm dicionários de quotations a propósito de tudo), mas que aqui se refere a livros de testemunho e crónica social (inventados, diria eu, apesar da versomilhança dos títulos e autores) que servem, juntamente com as referidas falas, para nos contar a história central: a de que o presidente Lincoln, na mesma noite em que dava uma festa de arromba, perdeu um filho pequeno que amava profundamente. Por não estarem na terra natal, é emprestado provisoriamente ao presidente lugar num jazigo para o túmulo da criança; e é aí que vamos encontrar Abraham Lincoln visitando o seu menino, tirando-o do caixão, abraçando-o, falando-lhe em silêncio e chorando amargamente. E é aí também que os habitantes desse cemitério, uns espíritos melhores do que outros (mas três principalmente - e um deles, o reverendo Everly Thomas, talvez nem espírito seja...) irão tentar de tudo para que o pequeno Willie saia daquele lugar que, enfim, não é um bom lugar para uma criança. Para isso, porém, é preciso que o pai volte e o leve com ele, mesmo sem o saber que o leva quando partir. Belíssimo, estranho, musical - com um coro de vozes que captam imediatamente a nossa simpatia-empatia, recomendo vivamente e quase me penalizo por ter esperado tanto tempo para o começar.