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A mostrar mensagens de março, 2014

Poesia ao alcance de todos

Comprei há muitos anos em Nova Iorque, na loja de um museu, um jogo de poesia com ímanes para colar no frigorífico. Tratava-se de um conjunto bastante versátil de versos que podíamos organizar segundo nos parecesse melhor e deixar na porta do nosso maior electrodoméstico, enchendo a cozinha de aromas poéticos. Os versos não eram grande coisa, mas a jigajoga tinha alguma graça. Também conheço um livro maravilhoso de Raymond Queneau, cujo original esteve, de resto, recentemente numa exposição dedicada aos livros na Fundação Calouste Gulbenkian, chamado Cent mille milliards de poèmes, feito com tirinhas cortadas ao longo das páginas, cada uma com seu verso, podendo construir-se mais de um bilião de sonetos diferentes, aproveitando-se de cada página a tira de papel mais conveniente, numa experiência bem engraçada de poesia combinatória. É uma outra maneira de brincarmos aos poetas, mas acabo de descobrir que se chegou ainda mais longe: um investigador da Universidade de Coimbra, Hugo Gonçalo Oliveira, criou o «poeta artificial», um software capaz de compor poesia sobre qualquer tema, através de uma rede de palavras relacionadas por sentidos, transmitindo sentimentos negativos ou positivos, apresentando configurações várias (quadras, sonetos, etc.) e suscitando emoção. Segundo o seu criador, não pretende este PoeTryMe – assim se chama o programa – ser melhor do que ninguém nem ombrear com poetas de carne e osso, mas tão-só estimular a criatividade e servir de fonte de inspiração. Se for jogo, há-de ser, digo eu, divertido. Mas espero que os seus «jogadores» não se lembrem depois de querer de repente publicar livros com o resultado das suas brincadeiras ou acusar de plágio os parceiros...

Encontro livreiro

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É já no próximo dia 30 que se realiza a 5.a edição do Encontro Livreiro, que terá lugar, como de costume, na Livraria Culsete, em Setúbal, a partir das 15h00, reunindo um mar de gente em torno do livro e da edição. Ocasião privilegiada de debate e partilha de pontos de vista, este encontro tem sido um importante momento de análise do mercado do livro e um fantástico depósito de ideias para o futuro, juntando editores, livreiros, bibliófilos, bibliotecários, jornalistas, tradutores, autores e leitores. Mas, além das conversas propriamente ditas e dos contributos de peso que sempre aparecem, todos os anos se distingue neste certame um livreiro excepcional com uma justa homenagem, entregando-se-lhe o diploma de Livreiro da Esperança, creio que em tributo a um homem que praticamente deu a sua vida pelos livros, Jorge Figueira de Sousa, o fundador na cidade do Funchal da incrível Livraria Esperança (se nunca ouviu falar desta livraria-ícone, investigue, porque é um marco nacional). Este ano o «galardão» vai para Antero Braga, que é o timoneiro de uma das livrarias mais bonitas do mundo, a Lello, na cidade do Porto. E o cartaz do acontecimento é do talentosíssimo Pedro Vieira, reproduzido abaixo.


 


Mais América

A jornalista e escritora Filipa Melo dinamiza há já vários anos sessões dedicadas à literatura dos Estados Unidos da América na Fundação Luso-Americana, em Lisboa. Hoje mesmo inicia uma nova oficina com vista a ajudar os participantes a escreverem melhor através da leitura de grandes obras (quem está atrasado pode iniciá-la no dia 3 de Abril) intitulada Asas sobre a América, nas quais tratará, em dez sessões, de «folhas de erva, corações solitários, caçadores, reis da chuva, sangue sábio, palmeiras bravas, som e fúria, damas do lago, todo-o-mundo...», ou, menos enigmaticamente, das grandes obras de Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Philip Roth, Saul Bellow, Carson McCullers, Flannery O'Connor, Emily Dickinson, Faulkner e Chandler (baralhei, para isto parecer um daqueles jogos em que é preciso encontrar correspondências com setas). Sob uma espécie de justo e criativo lema – Ler mais, escrever melhor (grande verdade) – as sessões decorrerão às quintas-feiras em horário pós-laboral (para alguns, pelo menos), entre as 18h00 e as 20h00, e, tendo em conta a escolha de autores, prometem mesmo uma lufada cultural. Os interessados podem inscrever-se através do e-mail fladport@flad.pt, pagando cinco euros por sessão (50 euros no total, 30 euros se forem estudantes). A literatura norte-americana no seu melhor e, ainda por cima, com orientação.

Uma justa homenagem

Não sei se alguma vez aqui contei como fui parar à edição. Eu era professora de Português há uns três anos quando, um belo dia, um grande amigo do meu pai e – é bom que se diga – um literato, apesar da sua formação científica, me ligou a perguntar se eu gostaria de trabalhar numa editora. Esse grande senhor chama-se António Manuel Baptista, e, para os leitores do blogue que têm a minha idade, o seu nome está certamente associado a um programa de TV que, apesar de ser sobre física, tinha recordes de audiência, porque o professor tinha um poder de comunicação sem limites e tornava mais fácil a quem ouvia tudo o que, nos manuais, parecia assustador. Ora, ele era também, no final dos anos 1980, consultor da editora onde comecei, que se chamava Gradiva e publicava, de forma completamente nova em Portugal, livros de divulgação científica. O editor estava então a precisar de ajuda e terá perguntado a António Manuel Baptista se conhecia alguém que pude ser assistente editorial. Estou-lhe imensamente grata por se ter lembrado de mim, até porque, sem ele, hoje poderia ser uma professora insatisfeita, frustrada ou, na pior das hipóteses, sem emprego (embora também pudesse estar feliz, claro, mas, depois de tantos anos nos livros, calculo que não tão feliz como estou). Assim, porque esse grande homem faz hoje 90 anos, quero agradecer-lhe do fundo do coração a oportunidade que me deu e felicitá-lo pela sua grande cultura, pela sua visão humanista do mundo e por tudo o que nos deu nestes anos todos. Parabéns, António!

Uma questão de genialidade

Há muitos anos tomei contacto com um livro sobre o génio, da autoria de Douglas Hofstadter, chamado Gödel, Escher, Bach – e vencedor do Pulitzer em 1979 –, que pegava nestas três personalidades (um matemático, um «pintor» e um músico) para falar do brilhantismo da mente e de mais milhentas coisas que não são o que hoje me traz aqui. Hoje venho falar de um outro livro sobre o mesmo assunto, mas desta vez literário. Trata-se de Génio, de Harold Bloom, que saiu muito recentemente em Portugal, doze anos depois da edição americana (mas, caramba, são 900 páginas de letra miudinha e, num país com um mercado tão pequeno como o nosso, é precisa coragem para pagar uma tradução deste tamanho). Bem, Harold Bloom é uma espécie de Samuel Johnson da contemporaneidade, um crítico literário muito respeitado em todo o mundo e autor de uma outra obra corajosa chamada O Cânone Ocidental que já provocou rios de tinta. E, neste seu Génio, pega nos cem autores que, segundo a sua opinião, são os mais criativos de todos os tempos e divide-os numa espécie de mosaico que nada tem que ver com cronologia (só para dar um exemplo, Proust está com Beckett e Camões com Joyce). Este mosaico tem dez «azulejos» e cada azulejo está por sua vez dividido em dois, cada metade com cinco autores e a explicação do que os liga. Nós só temos três nos cem – o referido Luís Vaz, Pessoa e Eça – mas estão lá todos os maiores escritores que nos virão logo à cabeça quando pensamos em génios e ainda muitos outros sobre os quais vale a pena ler. Aos poucos, claro, porque são, como disse, quase mil páginas...

Métodos de ensino

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Se a questão é ensinar e valorizar quem aprende, vale tudo? Em certos casos, sim. Contaram-me há muito tempo que, em alguns países africanos, quando a SIDA começou a matar a sério, uma ONG distribuía preservativos gratuitamente pelas povoações que ficavam no meio do mato para, pouco depois, concluir que aqueles não tinham sido usados, porque os autóctones desconheciam para que serviam e não tinham ideia sequer de como os pôr. Numa iniciativa bastante arrojada, decidiram então na ONG fazer um filme realista com actores negros – que seria considerado pornográfico se não tivesse fins pedagógicos – em que um casal fingia fazer de tudo depois de colocar o preservativo (e também mostrava, logo a abrir, a sua colocação adequada); uma carrinha andava por essa África fora a convidar gente para ir ver o filme – e, se alguns saíam de lá excitados e direitinhos às namoradas, pelo menos estariam mais informados sobre os riscos que corriam se não se protegessem. Pois bem, há métodos para tudo e, no Facebook do escritor e crítico literário José Riço Direitinho, encontrei, partilhado de um site de um designer gráfico, um alfabeto bastante criativo inventado ao tempo de Estaline com o objectivo de combater o analfabetismo adulto (mas não creio que o ditador tenha tido conhecimento dele). Desenvolvidas nos anos 1930, as letras inspiram-se em posições sexuais várias, algumas das quais remetem para figuras míticas, entre elas a do centauro. Há pares, trios e conjuntos que dariam umas mini-orgias alfabéticas e, na letra i, a pinta é nada mais nada menos do que uma pilinha com asas (tipo drone) virada à boca de uma mulher de pé... Chocados? Acho que não. Enfim, não sei se alguém aprendeu a ler com este incentivo, mas aí vai um V de vagina bem ilustrativo do que pode ser a alfabetização de adultos em tempos de repressão e purgas...


 


Escrita criativa

A primeira vez que ouvi falar de escrita criativa foi há muitos anos, a propósito de um autor inglês que então era apenas uma promessa (Ian McEwan) e que saíra de uma universidade, East Anglia, que, ao que parecia, era uma espécie de fábrica de escritores. Muito mais tarde, contactei com autores portugueses que davam aulas ou promoviam oficinas de Escrita Criativa, com exercícios e tudo, e cheguei a publicar um pequeno manual que era seguramente uma boa ajuda para adolescentes sequiosos de passarem ao papel as suas ideias de forma organizada. Porém, nunca achei que ninguém se pudesse tornar escritor apenas por frequentar cursos desse tipo, acreditando, como ainda acredito, que o talento não se aprende – ou se tem, ou nada feito. Quando comecei a publicar autores portugueses, apercebi-me também de alguns malefícios destes cursos, pois os candidatos a escritores começaram a descrever os narizes das personagens até à exaustão e a dizer invariavelmente de quantos lugares era o sofá... Recentemente, li a este respeito uma notícia interessante. O reputado escritor Hanif Kureishi, que ensina Escrita Criativa na Universidade de Kingston, confessou num festival literário, perante um público numeroso, que considera a disciplina uma perda de tempo, que tudo o que conseguiu até agora foi que os alunos escrevessem umas frases boas e bonitas, mas não histórias boas, e que os vê demasiado preocupados com a prosa para poderem escrever um livro interessante. Referiu que 99,9% dos estudantes simplesmente não têm talento literário e que ler o que eles escrevem é tremendamente aborrecido. Outro escritor presente, ex-professor da mesma cadeira, concordou com as suas afirmações e, embora salvaguardando a importância do estilo, assegurou que não se é escritor sem talento e que muitos dos alunos do curso de Escrita Criativa nunca conseguirão passar de escritores medíocres e que é penoso andar a enganá-los no dia-a-dia. E mais: disse que os cursos de escrita criativa se tornaram um negócio em todo o mundo e que há pessoas que frequentam um workshop durante um fim-de-semana e acham que isso basta para se porem a escrever um romance... Enfim, se são os próprios professores a afirmá-lo, quem sou eu para dizer o contrário?

Manhãs de nevoeiro

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Pois a verdade é que, quando vêm tempos maus, lá regressa a história do nosso rei que se perdeu em Alcácer Quibir e ainda há-de vir salvar-nos, aparecendo numa manhã de nevoeiro. Sebastião, a quem Camões deu Os Lusíadas em mão, tornou-se o Desejado por nunca ter reaparecido e nos ter mergulhado no domínio espanhol durante sessenta anos. Isso já se passou há séculos – e hoje até nos damos bem com os nossos vizinhos –, mas o sebastianismo é ainda uma marca portuguesa, segundo alguns dos nossos maiores pensadores e autores, tais como Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa, José Gil, Padre António Vieira ou António Quadros. Agora, é Miguel Real quem se ocupa do tema, na obra Nova Teoria do Sebastianismo, um interessante ensaio que recupera os escritos dos filósofos que se dedicaram a questões como as do Quinto Império ou do Encoberto e no qual, além disso, se explica o sebastianismo como inevitável para um povo que só consegue alguma coisa com cunhas ou através da sujeição a um partido político, quando não com rezas à Senhora de Fátima e sorte no Euromilhões. Isto liga-se, claro, ao recente problema da emigração dos jovens licenciados, o que torna este livro ainda mais actual e necessário. A ler, portanto, em dia de névoa ou não.


 


Em greve

Um dia destes, estava a pensar em greves (não ao blogue, fiquem tranquilos) e comecei a perceber que, excepto no caso francês, a palavra para dizer a coisa era muito diferente da portuguesa nas línguas todas que conheço e, portanto, não tinha uma origem comum. Fiz uma curta investigação e descobri que «Grève» era, efectivamente, o nome de uma praça em Paris (assim se chamava por ter gravilha) aonde iam os que não tinham trabalho para serem contratados à jorna. Porém, quando iam com quem os contratava e lhes desagradavam as condições, regressavam à praça à procura de nova oportunidade, pelo que «estar em greve» acabou por significar o abandono do trabalho por um salário mais justo. Em Espanha, a palavra para greve é «huelga» e está relacionada, no fundo, com «folga» (de «fole», calculem, porque se respira fundo depois de uma grande fadiga), dia em que não se trabalha (e, curiosamente, o verbo latino donde vem a palavra huelga descambou também para a palavra que quer dizer fo… fornicar, já que nuestros hermanos não brincam em serviço, mas nas folgas gostam de se divertir). Para os italianos, o termo é «sciopero», mais uma vez muito distante da nossa «greve», mas infinitamente mais lógico na sua composição, vindo do latim ex operare, ou seja, deixar de trabalhar. Por fim, em inglês, temos a expressão «on strike» e, embora o verbo to strike não apele ao espírito da interrupção laboral com vista à reivindicação de melhores condições, a verdade é que, lá nos confins de um dicionário, li que «striking» também era o movimento de baixar as velas para mostrar que não se queria ir ao mar e, portanto, tudo tem a sua explicação. Os meus quatro anos de alemão e um de neerlandês não chegam para brincar à etimologia com as greves destas línguas (também deve haver menos greves a norte, digo eu), mas talvez a extraordinária Cristina Torrão nos possa elucidar, pelo menos no caso alemão.

O tom e a voz

Diz-se muitas vezes que o verdadeiro escritor tem de ter uma voz, ou seja, tem de ser reconhecível em tudo o que escreve através de um estilo que lhe pertence e não é de mais ninguém (mesmo que nele se notem influências de autores queridos e amados, o que nada tem que ver com copiar a forma de esses escreveram). Quando estão a começar livros novos, também os escritores dizem frequentemente que têm tudo na cabeça mas ainda não encontraram o tom. Ora, é no mínimo engraçado que se usem dois termos – voz e tom – quando se está a falar de escrita, pois seriam, digo eu, mais imediatamente associados à oralidade. Mas também eu tenho tendência para pensar, quando ouço um dos meus poemas dito por outra pessoa, que aquela não é a música com que o escrevi. Por falar em música, leio numa entrevista a Annie Clark (artista pop) uma belíssima citação da biografia de Miles Davis, na qual se diz que a coisa mais difícil para um músico é «soar a si mesmo», expressão que, no fundo, equivale a «ter uma voz» em termos literários (isto anda tudo ligado). Ter várias vozes, como Pessoa & heterónimos, não deve ser, mesmo assim, confundido com não ter nenhuma, que é o que acontece quando deixamos um recado à senhora que nos dá uma ajuda na limpeza da casa e que, seja ou não um escritor a redigi-lo, deve ser sempre mais ou menos a mesma coisa. Já me aconteceu, porém, ser jurada num prémio de poesia e ter seleccionado dois livros completamente distintos que eram, afinal, da mesma pessoa. Não sei, mesmo assim, qual deles, para o seu autor, soaria melhor a si mesmo.

Nu e cru

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Claire Franek e Marc Daniau, franceses, são os autores de um livro infantil chamado Tous à Poil, no qual personagens (entre elas um polícia e uma professora) a dada altura se põem em pêlo para entrarem no mar e tomarem uma boa banhoca, numa celebração descontraída do corpo. Mas esta visão desinibida da nudez não agradou ao partido de centro-direita UMP, cujo presidente foi à televisão manifestar o seu escândalo por uma professora aparecer nua num livro para crianças, dando o que ele achou um péssimo exemplo. Claro que isso só fez com que a obra chegasse ao Top de vendas em menos de nada e que os editores, autores e livreiros ficassem chocados com essa espécie de censura a um livrinho que não pretendia de modo nenhum ser ofensivo. Vai daí reagiram de forma bastante original, deixando-se fotografar completamente em pelota, cobrindo apenas certas partes do corpo com livros. «Todos nus contra a censura» era a frase que acompanhava o cartaz, que pretendia fazer a defesa dos autores da obra criticada pelo partido de Copé, sublinhando ainda que devem ser acarinhados todos os livros que ampliam horizontes e acendem o debate e que Tous à Poil permitia a todos os cidadãos, fossem eles quem fossem, compreender a informalidade da sociedade contemporânea e resolver os tabus sobre o corpo. E acrescentavam que, independentemente de se ser um médico, uma professora ou um bebé, todos temos rabo e genitais (e ainda bem). Essa é a verdade nua e crua. A foto aí vai.


 


Compras no estrangeiro

Uma vez fui a um festival de escritores nos arredores de Genebra, cujo país convidado era Portugal; e, numa manhã, Agustina Bessa-Luís convidou-me para a acompanhar, a ela e a Lídia Jorge, à cidade. Havia um outro poeta que estava interessado em ir connosco, Fernando Echevarría, mas a senhora do Norte tornou imediatamente claro que aquela excursão era apenas para mulheres. Pouco depois, percebi porquê: Agustina queria ir comprar, entre outras coisas, malas e sapatos (e até sabia onde ficavam as lojas que queria visitar e trazia os catálogos assinalados). Ao que parece, fazia-o sempre que se deslocava ao estrangeiro para festivais de escritores e contaram-me, a este respeito, uma história maravilhosa. Tendo sido convidada para um encontro de mulheres escritoras na Turquia, Agustina calhou numa mesa com uma palestiniana e uma israelita (além de uma outra portuguesa, que foi quem partilhou a história recentemente). Acontece que, na mesa em questão, os ânimos se inflamaram, e as escritoras da Palestina e de Israel, como era esperado, começaram uma discussão azeda que parecia não ter fim. Então, Agustina ter-se-á aproximado da sua conterrânea e ter-lhe-á sussurrado ao ouvido qualquer coisa como: «Ora bolas, e eu que só cá vim para comprar uns tapetes...»

Regresso à terra-mãe

A minha mãe nasceu em Ovar um pouco por acaso, embora tivesse lá familiares que a minha avó visitava quando chegou, intempestiva, a hora do parto. No entanto, as suas ligações à terra natal eram sobretudo afectivas – nunca me lembro de a minha mãe ir a Ovar durante o tempo em que vivi lá em casa – e passaria muito tempo até que nós, os filhos, conhecêssemos o lugar em que nasceu. Mesmo assim, Ovar tem para mim um qualquer apelo genético e, quando há uns meses um responsável do Museu de Ovar me convidou para ali ir falar da minha poesia, numa sessão que inclui leituras e música, não pude de forma alguma recusar. Será já amanhã essa oportunidade de voltar ao berço da minha mãe para conversar com Carlos Granja, que dirige a cerimónia, e os leitores ovarenses, entre os quais encontrarei quiçá um autor que publiquei há uns anos, Jorge Almeida e Pinho, que escreveu um interessante ensaio sobre a tradução, O Escritor Invisível, a partir da sua tese de mestrado,um autor que gosto sempre de rever, a ele e à família, embora esses encontros sejam normalmente casuais e breves. Bem, se estiverem por perto, apareçam. A noite (que no museu só começa às 21:00h) promete ser interessante. Para mim, pelo menos, vai ser um serão diferente.

Uma Karénina renascida

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Há cerca de seis meses, publiquei mais um romance de Ana Cristina Silva, autora finalista, com Cartas Vermelhas ou O Rei do Monte Brasil, de prémios literários importantes – por exemplo, o de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores ou o Fernando Namora, promovido pela sociedade Estoril-Sol. Amanhã celebraremos, porém, a sua obra mais recente, A Segunda Morte de Anna Karénina, na Biblioteca do ISPA, onde a autora é professora, e para tal contaremos com a apresentação do grande ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa. Façamos, pois, ressuscitar esta personagem de Tolstoi através de um casal desavindo, que se encontra, vinte e tal anos depois de uma separação terrível e violenta, no funeral do filho morto na Primeira Guerra Mundial em França, para onde fugiu a uma relação proibida e donde escreve cartas em que fala dos horrores das trincheiras e da sua tremenda solidão. Cartas que são encontradas pela mãe e lhe desvendam tudo sobre um filho que não pôde criar por razões que envolvem um segredo e uma história de traição. A sessão realiza-se às 18h30. Não falte.


 


P.S. O horário neste cartaz está errado. A sessão é às 18.30!


 


Beber e criar

Contaram-me que, num programa de televisão (Prós e Contras, apresentado por aquela senhora a quem falta algum savoir-faire), uma qualquer miúda tonta, querendo defender as praxes universitárias, terá dito que também os jornalistas principiantes eram praxados e supostamente obrigados pelos colegas mais velhos a uma bebedeira de absinto (estou a contar o que li, pode não ter sido exactamente assim). Acredito que a vertigem do absinto, bebida por excelência dos simbolistas, com o seu altíssimo teor alcoólico, tenha ajudado à criação de algumas belas páginas de Verlaine ou Mallarmé, mas nunca me constou que tivesse sido útil aos que escrevem diariamente em jornais e têm de trabalhar as mais das vezes sob pressão e em resposta rápida a um acontecimento preciso. Nem sequer tenho ideia de que nas redacções haja o costume de consumir em horário de trabalho bebidas alcoólicas inspiradoras ou causadoras de um certo relax espiritual. Mas eis que leio numa breve coluna de um diário português que determinado grupo de comunicação social pretende instalar o hábito de soprar o balão por parte dos funcionários à entrada nas suas instalações. Desconheço se a iniciativa tem por base alguns amargos de boca (suponho que o absinto nem seja assim tão amargo) decorrentes de notícias esparvoadas provocadas por eflúvios alcoólicos, mas, a menos que o actual absinto também já venha bastante adulterado, custa-me a acreditar, de tal modo a prosa que hoje leio nos jornais é devedora de voo literário...

Porto sem livros?

E pronto: pela segunda vez, desde que me lembro de trabalhar na edição, o Porto vai provavelmente ficar sem feira do livro. Até já me tinham dito que em 2014 o certame voltaria à Rotunda da Boavista, sítio adequado e bonito, mas, de repente, leio no jornal que, afinal, a realização da feira foi suspensa por quebra de confiança e, porque não dizê-lo?, por falta de garantia de apoio financeiro por parte do município. No ano passado, apesar de ser de Lisboa e ter feira assegurada no Parque, esperneei: tenho muitos autores do Norte, alguns até da própria Invicta, e amigos leitores a quem ficaria mais cómodo ir à feira lá em cima; além disso, não conseguia perceber bem porque eram necessários à APEL 75 000 euros para se armarem uns pavilhões numa avenida, colocarem umas mesas para autógrafos e venderem uns livros. Mas depois explicaram-me que não estava a ver bem a coisa, que, para lá da verba da inscrição (não tão pequena como isso), a maioria das editoras tem sede em Lisboa e, como tal, tem de fazer transportar (com custos nada desprezíveis) não apenas muitos livros, mas também os próprios pavilhões e, em certos casos, igualmente o pessoal que vende e toma conta das faltas. Esses, deslocados da cidade onde moram, têm de dormir em qualquer lado (nem que seja uma pensão barata, três semanas podem perfazer um valor jeitoso) e comer, pelo menos, duas refeições por dia. Deslocá-los, seja de carro ou de comboio, custará dinheiro. E, se eu quiser ir mais longe, posso até imaginar que as contas de telemóvel de alguns sobem bastante, com pais e mães a quererem saber dos filhos que ficaram em casa – longe, portanto. Enfim, bem vistas as coisas, talvez esses 75 000 euros «reclamados» ao município nem sejam um montante tão exagerado como ao início possa parecer, sobretudo pensando nas pequenas e médias editoras, que dificilmente poderiam, sozinhas, bancar tanta despesa. Mas, enfim, espero que a coisa ainda se resolva e alguém abra os cordões à bolsa para que haja livros este ano também a norte.


 


P.S. Já depois de ter escrito o post, li isto, o que podem ser boas notícias:


http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=3720793


 

Aldina Duarte

Hoje vou abrir um parêntese nesta coisa dos livros e aproveitar o post para dar os parabéns à grande fadista Aldina Duarte, que comemora 20 anos de carreira com um concerto (na verdade, dois, porque amanhã há outro) na Culturgest, em Lisboa. Mas é um parêntese muito ténue, garanto, porque a Aldina, que se tornou uma grande amiga e para quem eu tenho o maior prazer em escrever (tenho feito letras para ela desde que nos conhecemos), é uma leitora invulgar – que lê ensaio, que lê poesia, que lê ficção, que não vive sem um livro dentro da mala, vá para onde for, e que tem uma enorme ânsia de saber (passa, aliás, muitas horas em livrarias à procura de livros mesmo difíceis de encontrar). Quando vai jantar a nossa casa, a primeira coisa que a Aldina faz é vasculhar todos os livros novos que temos em cima da mesa e ainda não arrumámos e, se não conhece um ou outro, quer logo saber tudo acerca dele. Por causa do seu amor pela literatura, neste que é o seu 20.º ano de carreira, a Aldina e eu resolvemos trabalhar juntas num projecto que dará origem ao seu próximo CD, a sair lá mais para o fim do ano: nada mais, nada menos do que um «romance» em fados (uma espécie de literatura musical, portanto). Tendo como base as melodias do fado tradicional, conta-se uma história de amor de fio a pavio (e nesta há um triângulo, para criar mais intriga), através de quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos, alexandrinos, fados com refrão e sei lá que mais, que a Aldina nisso não facilita e obrigou esta sua letrista a um enorme leque de «espartilhos». Mas, até o CD estar disponível, espero que este ano de comemorações corra bem à Aldina (ela merece) e que continue sempre a ler e a cantar para todos nós. Parabéns!

Afinal, havia outra

Aqui há tempos queixei-me de que não havia em Lisboa nada como o Café Pinguim do Porto, onde há muitos anos se declama poesia (aliás, aproveito para agradecer aqui ao Eduardo Leal a oferta da Antologia dos Poetas da Cave nas últimas Correntes, obrigada!). Logo no dia seguinte a ter publicado o post, recebi uma mensagem via Facebook informando-me de que estava enganada e no Teatro Cinearte: A Barraca, ali a Santos, se diz poesia todas as quintas às 22h30 e já vão na 70.ª sessão (perdão, não sabia mas prometo ir quando puder). E um dia destes, no jornal Público, num artigo sobre a «nova moda» das tertúlias em Lisboa, descubro que também no Bar do Teatro Rápido, ao Chiado, se lê poesia à quinta-feira (embora aqui as leituras sejam espontâneas e, portanto, nunca se saiba o que se vai ouvir, mas também, como diz o organizador, «aqui não há pedestais»). No Povo, um bar do Cais-do-Sodré, há igualmente leituras de poesia às segundas (e fado todos os dias), pelo que a leitura de poemas é habitualmente acompanhada de música, o que fica sempre bem. De um género mais performativo (com cenário, actores e tudo), a poesia tem também voz no Café Zazou, perto da Sé, onde desde Setembro do ano passado há dias dedicados à leitura (também de contos). Afinal, havia outras, e eu é que estava «desinformada»…

Balanço

Foi bom estar nas Correntes d’Escritas mais um ano, mas não é muito fácil transmitir a quem não esteve o que por lá se passou. E eu também já não tenho a memória antiga, nem me muni de um caderninho para tomar notas em todas as mesas (mas desde já prometo fazê-lo para o ano). Tenho, porém, de confessar que há esperança, pois a maioria dos escritores jovens e estreantes no encontro se portaram à altura, tendo sido um grande prazer escutar as palavras de Patrícia Portela, João Ricardo Pedro, Ana Margarida de Carvalho, Inês Fonseca Santos ou Joana Bértholo. Ou seja, vamos ter gente nova a escrever coisas inteligentes por muitos anos e isso é a melhor notícia. A conferência inaugural, com sala à cunha para ouvir Adriano Moreira falar de pé (com noventa e tal anos, recorde-se), também foi um sucesso – e não esquecerei algumas das suas afirmações, como «o poder da palavra desafia a palavra do poder», «a lei não resolve problemas, inventa-os» ou «temos mais estatística do que sabedoria». Adorei as piadas à solta, porque estamos necessitados de rir, e os discursos que chamaram lágrimas sem demagogia. E, para coroar tudo, apanhei no ar uma frase que fecha o post de hoje e tem que se lhe diga. É de Unamuno: «Um pedante é um estúpido adulterado pelos estudos.»

O que ando a ler

Mais ou menos na mesma altura em que me pedem uma mini-entrevista sobre a importância dos clássicos da literatura, deito a mão a um clássico alemão, Mário e o Mágico, uma das novelas italianas de Thomas Mann, menos conhecida do que Morte em Veneza, porque esta teve filme – e que filme! –, mas não menos interessante. Com muitos curiosos pontos de contacto com outros livros que têm por cenário estâncias balneares (A Ilha, de Sándor Márai, A Ilha, de Giani Stuparich, ou mesmo a parte inicial de O Diletante e a Quimera, de Pedro Medina Ribeiro), Mário e o Mágico tem a sua acção centrada numas férias de Verão em finais dos anos 20 e foi publicado originalmente em 1930. A bela Itália é o destino de lazer de uma família alemã (pai, mãe e casalinho de filhos), que suporta mal o calor de Agosto em Torre Venere e as atitudes dos burgueses e aristocratas locais algo xenófobas e nacionalistas. Porém, apesar de terem vontade de regressar (melhor, de não ter chegado a ir), a verdade é que vão ficando, porque as crianças aproveitam o sol e a praia e, enfim, não faz sentido estragar-lhes as férias. A tragédia, contudo, anuncia-se logo nos primeiros parágrafos, e acontecerá durante um espectáculo de prestidigitação, cuja vedeta se comporta como um ditador, capaz de manipular e humilhar o público; um ditador que é tão-só uma alusão à ascensão de Mussolini e do fascismo italiano e ao momento em que, abdicando da sua individualidade, os homens passam a agir como títeres e a aceitar o que lhes é imposto. Narrado como uma conversa entre o veraneante e um interlocutor desconhecido, esta é uma novela sobre como certos comportamentos privados podem levar ao estabelecimento de regimes totalitários.