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A mostrar mensagens de maio, 2024

Excerto da Quinzena

Alegria precisa-se


Concordo com o Gonçalo M. Tavares quando diz que uma das coisas realmente importantes é a alegria. E dou comigo a pensar que conheço muito poucas pessoas alegres (não confundir com "eufóricas" ou "patetas-alegres", ou algo do género), a começar por mim, como se ser alegre estivesse fora de moda ou fosse um estado difícil de assumir, por uma razão qualquer. Por exemplo, no meu caso, o que sinto por vezes é uma alegria breve, embora seja o bastante para me pôr em andamento, como o motor de uma máquina. É a força da alegria de que fala o Gonçalo que nos empurra para a frente. Já a tristeza tem o poder de imobilizar, ou abrandar, ou mesmo bloquear qualquer movimento vital. Em mim, num só dia podem gerar-se os dois sentimentos. No sábado de manhã tive a aleria de encontrar a Maria Gil. [...] A alegria breve deste encontro anulou a tristeza de "duas baixas" no meu círculo de amigos, embora não habituais nem muito próximos, por mal-entendidos que não consegui desfazer [...]


 


Dina Ferreira, Os Dias de Uma Ex-Livreira à solta

História de um dom

Em dezassete anos do Prémio LeYa, venceram ou foram finalistas numerosos livros de autores que nunca tinham publicado. Um deles, João Ricardo Pedro, engenheiro de telecomunicações, ficou conhecido porque estava desempregado quando resolveu escrever ficção, tendo a sua vitória sido notícia em toda a Europa em plena crise económica (estávamos em 2011), o que lhe valeu ser traduzido em mais de dez línguas. O Teu Rosto Será o Último (assim se chama o romance) é fragmentado, originalíssimo e muito bom (especialmente sendo uma estreia!) e chamou logo a atenção do realizador Luís Filipe Rocha (autor de pérolas como Cerromaior, Sinais de Fogo, Adeus, Pai, o argumento da série Até Amanhã, Camaradas, ou mais recentemente Rosas de Ermera, que fala da permanência dos pais e da irmã de Zeca Afonso em Timor quando a ilha foi  ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial), que quis adaptá-lo ao grande ecrã. Passou bastante tempo desde então, é certo, mas na próxima semana será a antestreia do filme e todos poderão assistir a partir daí a esta história de um rapaz que tem um dom especial para o piano, mas não consegue aceitar a pressão de ser um génio. Amanhã, pelas 21h00, no espaço da LeYa na Feira do Livro de Lisboa, o realizador e o autor do livro vão falar do que foi esta experiência com o jornalista Rui Lagartinho. Apareça e será muito bem-vindo. Depois, claro, veja o filme.

Rio-Lisboa

Já que só se fala de música e de Taylor Swift em todo o lado (quem me dera que os escritores tivessem metade do público dela...), hoje trago também música a este blogue. Há uns anos, tomei conhecimento de que havia um projecto muito giro chamado Rio-Lisboa, que combinava fado e bossa-nova, e não pude ficar indiferente. O seu mentor, Bruno Fonseca, compositor e também guitarrista (entre outros géneros, de fado), convidou-me na altura para eu escrever uma letra, e gostei muito do som e das vozes desse álbum (as vozes vão variando de disco para disco, com a presença vitalícia de alguns membros como, por exemplo, Luanda Cozetti). Este ano o Rio-Lisboa homenageou a Revolução com novo álbum (chama-se Revolução) e convidaram belíssimos letristas como André Gago, João Monge ou Pedro da Silva Martins (que pertencia ao grupo Deolinda), além de me terem instado a reincidir, o que fiz com todo o prazer numa letra chamada "Às claras". O álbum foi seleccionado pela Antena 1 e o grupo está a fazer concertos nas FNAC para o dar a conhecer, além de vários espectáculos pelo País fora. Se gosta de fado e de MPB (música popular brasileira), não hesite em ouvir. É mesmo uma bela combinação.

Paradoxos

Há menos de nada li um destaque na plataforma que alberga este blogue (a Sapo) referindo uma leitura por outra blogger de um conto de José Luís Peixoto publicado na Visão há quase vinte anos e chamado "Minto ao dizer que minto". É um conto sobre o próprio autor, usado neste contexto como personagem, o que não é inédito na obra de José Luís Peixoto, pois uma das suas primeiras narrativas curtas, publicada salvo erro na saudosa revista Ficções, tinha-o também a si mesmo como personagem. Mas aqui o que me interessa é o título do conto ser um paradoxo, pois levou-me de repente ao Paradoxo de Epiménides, aprendido há séculos. Epiménides, que nascera em Creta, disse um dia: "Todos os cretenses são mentirosos." Mas, sendo ele cretense, está a mentir-nos, certo? Bem, este paradoxo, citado numa das Epístolas de S. Paulo, é um daqueles enunciados que é verdadeiro se for falso e falso se for verdadeiro, uma vez que Epiménides é cretense e, portanto, mentiroso. Quando publiquei alguns livros de paradoxos de Martin Gardner numa outra "reencarnação editorial", percebi que afinal poderia ter adorado matemática e lógica quando era aluna do liceu. Infelizmente, couberam-me matérias muitíssimo mais aborrecidas e professores incapazes de aplicar a matemática ao jogo e ao quotidiano. Recomendo, para quem não conheça, os livros bestialmente divertidos de Gardner, ilustrados por um artista com um traço parecido com o de Sempé. A matemática às vezes é tão incrível como a literatura, mesmo para leigos, como é o meu caso.

Casa-armadilha

Caruncho, um pequeno romance, faz furor no país vizinho, o que é realmente justificado. Layla Martínez, a sua autora, é mais uma escritora de língua espanhola a debruçar-se sobre a luta de classes, tal como o fizeram a chilena Alia Trabuco em Limpa, a mexicana Fernanda Melchor em Paradaise ou a espanhola Elena Medel em As Maravilhas, escancarando as injustiças a que os pobres estão sujeitos desde sempre, especialmente os que servem burgueses novos-ricos que parece que têm prazer em humilhar o pessoal doméstico. Traduzido e posfaciado por Guilherme Pires, Caruncho tem duas narradoras, avó e neta, mas na verdade fala ainda de outras duas mulheres: a bisavó que soube livrar-se de um marido violento e infiel de maneira bastante original; e a filha da avó e mãe da neta, cujo fantasma circula agora pela casa que é, talvez, a principal personagem deste livro, porque encolhe e dilata, abraça ou repele, acolhe os mortos num armário e debaixo das camas, faz com que as panelas se despenhem no chão todas ao mesmo tempo. Herdeira do realismo mágico de Rulfo misturado com a beatice do catolicismo ibérico, e também dos contos de terror (evocou-me alguma coisa dos emparedados de Edgar Allan Poe em certas partes), consegue ser ao mesmo tempo uma novela extremamente moderna, com uma pontuação e um léxico que ajudam a identificar a voz das narradoras. Gostei muito, venham mais, Layla Martínez. Até porque a luta de classes continua e não podemos esquecê-la de maneira nenhuma.

Homenagem

No último ano perdemos alguns dos nossos grandes, entre eles António Mega Ferreira, uma das figuras mais cultas que Portugal já teve. Tive o orgulho de trabalhar com ele no final do século, quando Portugal foi o país convidado da Feira do Livro de Frankfurt, e depois acabei por ajudar a fazer os programas do Festival dos Cem Dias, da Expo'98, regressando logo a seguir à edição. Alguns amigos e pessoas próximas de Mega Ferreira vão fazer-lhe uma homenagem no próximo dia 28, às 18h30, na sala de Âmbito Cutural do El Corte Inglés. Filipe Pinto-Ribeiro tocará o ciclo para piano Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky, que era uma das peças favoritas do poeta, ficcionista, ensaísta e gestor cultural, e os diseurs Filipa Leal e Pedro Lamares vão ler um conjunto de poemas seus escolhidos por pessoas que o acompanharam em vida, como José Manuel dos Santos, Patrícia Reis, Duarte Azinheira, João Paulo Velez, Margarida Pinto Correia, Pedro Mexia ou Guilherme d'Oliveira Martins. Uma bela maneira de recordar um intelectual que sabia de cor o hino do Benfica e era das pessoas mais inteligentes e rápidas que conheci.

Livros no Parque

Comecem a contar os dias (ou a descontá-los) porque de hoje a uma semana, no dia 29, começa a 94ª Feira do Livro de Lisboa, esse acontecimento anual onde gastamos sempre imenso dinheiro, mas onde podemos ver os livros mais recentes ou intemporais de quase todas as editoras portuguesas num único dia. Ufa! Para a dor que ainda tenho na perna direita (não estou curada, infelizmente, mas já tenho uma consulta agendada com outro médico) vai ser um suplício, mas, não podendo fazer a feira toda de uma vez (a subir, ainda por cima!), tenho até dia 16 de Junho para me entreter e, pelo caminho, assistir às sessões de autógrafos, às leituras de poesia, aos concertos, aos debates, às muitíssimas actividades paralelas para as quais, em geral, há umas cadeirinhas para nos sentarmos e repousarmos. Os horários de segunda a quinta serão das 12h às 22h; às sextas e vésperas de feriado teremos o fecho às 23h (mais uma horita para umas últimas compras); ao sábado estaremos em grande das 10h às 23h; e aos domingos e feriados das 10h às 22h. Mas a noite pode estender-se para as crianças mais destemidas dos 8 aos 10 anos que queiram acampar em tendas no parque e ouvir/ler histórias debaixo dos jacarandás. Vamos certamente ver-nos por lá e isto é só um aviso, pois voltarei a dar novidades sobre os primeiros dias da Feira muito em breve! Tomem nota das datas.

Presentes do 25 de Abril

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Tenho reparado nas minhas incursões às livrarias que este ano saíram numerosos livros sobre o 25 de Abril. Memórias, álbuns de fotografias de época, livros infantis que explicam às crianças o antes e o depois, colectâneas de canções de intervenção, um sem-fim de ideias muito bem-vindas que ajudam quem ainda não era nascido em 1974 a conhecer o que foi esta magnífica revolução, e quem assistiu a ela a louvá-la e recordá-la. Um dos mais bonitos projectos sobre a data mais linda foi uma caixa de postais produzida pela Câmara Municipal de Grândola: 50 postais (um por cada ano que já passou) escritos e pintados por artistas contemporâneos e guardados dentro de uma belíssima caixa; entre os autores, nomes como Afonso Cruz, Gonçalo Tavares, Jacinto Lucas Pires, Germano de Almeida, eu mesma (passe a imodéstia) ou Onésimo Teotónio de Almeida escrevem no verso de desenhos lindos feitos por Paulo Galindro, Mariana a Miserável, Mafalda Milhões ou Bernardo Carvalho, só para referir alguns. Também muitíssimo interessante é o livro de Luís Robalo Caderno de Abril, que foi lançado recentemente e que revisita canções para contar memórias pessoais em tom de crónica de uma época que quem viveu não esquece. Mais difícil de encontrar por ser uma edição creio que de autor (eu recebi-a de presente, obrigada ao escritor!), pode ser pedida pelo endereço de correio electrónico luispires60@gmail.com. Com estes dois já fica bem servido, mas há, claro, muitíssimo mais projectos abrilescos que ficarão para falar nos meses que aí vêm.



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Excerto da Quinzena

(Era sexta, mas esqueci-me.)


«Após dis a chocar uma virose, fico com febre e sinto. De súbito, a necessidade premente de reler um romance em particular. Só entendo prquê quando me sento na cama e o abro. Na página de rosto, deparo com uma dedicatória escrita a azul e numa caligrafia inconfundível:


29 de maio de 1996


Desejo-te rápidas melhoras.


Trouxe-te crepes e sidra do Fyra Knop.


Estou ansiosa por regressar lá contigo.


Beijos (que preferiam pousar nos teus lábios)


Johanna


Tinha malária quando me ofereceram o livro. Fora infetada algumas semanas antes no Serenguéti. Um mosquito picou-me na tenda em que dormia e adoeci assim que regressámos à Suécia. Fiquei internada no hospital de Hudiksvall. De  início, não sabiam como interpretar os resultados dos meus exames, e quando, por fim, me diagnosticaram com malária, todos os médicos do hospital fizeram fila para ver de perto a mulher com a doença exótica […]»


 


Ia Genberg, Os Detalhes, tradução de João Reis

O Japão dos Portugueses

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Japão, 1637. Na sequência dos avultados tributos exigidos às populações e da proibição de professar o cristianismo, cerca de 35 000 camponeses e cristãos, liderados por um general-menino que tem a reputação de fazer milagres, invadem várias fortalezas governamentais e acabam por instalar-se no desactivado castelo de Hara, que reconstroem em conjunto e onde resistem, ao longo de vários meses, ao cerco das tropas do xogunato. Entre os que lutam contra a tirania imposta, encontram-se Jana – uma viúva que chega com o filho pequeno – bem como o ronin Haru – samurai renegado e agora ao serviço do povo. Apesar do ódio que inicialmente nutrem um pelo outro, Haru não consegue ficar indiferente a essa mulher que carrega um mistério e sabe pegar em armas, nem ao ciúme que lhe provoca a relação dela com o missionário Clarimundo, um dos poucos portugueses que ainda não deixaram o Japão. Numa confusão que só o caos da guerra poderia causar, os sentimentos entre estas três personagens vão exacerbar-se à medida que a batalha evolui. Tal como no final do cerco, não existirá redenção, só a grande busca da liberdade e do amor. Coração-Castelo é o aguardado regresso de Raquel Ochoa ao romance histórico e foi finalista do Prémio LeYa. Se quiser acompanhar-nos no lançamento, apareça mais logo, aqui está o convite.


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Leva e traz

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No próximo sábado celebra-se o Dia Internacional dos Museus e a associação Assarapanto teve uma belíssima ideia no sentido de contribuir para um incremento da leitura. Como se sabe, neste dia não se pagam entradas, pelo que a afluência aos museus de adultos e crianças costuma ser maior. Então, a proposta é deixar um livro no museu para ser roubado por alguém que até pode deixar igualmente um livro para alguém mais roubar. Este leva-e-traz (na verdade, o projecto chama-se Um Livro no Museu) pode ser feito em onze museus a norte, a saber: Museu Nacional Soares dos Reis (Porto); Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto: Polo Central e Galeria da Biodiversidade, Centro Ciência Viva (Porto); Museu da Memória (Matosinhos) e Museu da Quinta de Santiago (Matosinhos); Museu Nogueira da Silva (Braga); Museu de Alberto Sampaio (Guimarães); Paço dos Duques de Bragança (Guimarães); Museu de Olaria (Barcelos); Casa Museu José Régio (Vila do Conde) e Casa Museu Abel Salazar (São Mamede Infesta). Mas a Assarapanto quer que para o ano este projecto se repita em mais zonas do país, porque museus e leitores há-os em toda a parte. Se visitar um dos referidos museus e vir lá um livro perdido, não devolva na recepção, é mesmo para quem o quiser apanhar!


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Três dias

Como provavalmente a maioria dos portugueses, conheci a escrita de Michael Cunningham, romancista norte-americano, através de As Horas, um livro bastante particular dividido em três partes que foi vencedor do Pulitzer Prize, no qual acabaria por basear-se um filme com o mesmo nome e actores famosíssimos como Meryl Streep, Julian Moore, Nicole Kidman e o maravilhoso Ed Harris, que desempenha o papel de um doente com SIDA. Lembro-me de ter gostado muito de ler o romance, mas nunca mais tinha tocado em nada de Cunningham e agora comprei Dia, que saiu há pouco tempo cá em Portugal. Também este romance tem três partes, cada uma dedicada ao mesmo dia (5 de Abril) em três anos distintos: um antes, outro durante e o último no final da pandemia que assolou o mundo e infelizmente, antes da vacinação em massa, levou muitas pessoas que conhecíamos (e que desconhecíamos). Esse é também um dos factos de Dia (a capa merecia ser menos xaroposa...) que, embora não seja comparável a As Horas, tem pormenores muito interessantes e originais, entre os quais a forma como dois irmãos adultos resolvem criar a personagem de um irmão mais velho que é tudo o que ela e ele ambicionariam ser (com perfil no Instagram alimentado diariamente e tudo!) e também a relação sempre ambígua entre dois cunhados que estão há séculos apaixonados pela figura um do outro, mesmo se um deles é heterossexual. Se já sabíamos como a pandemia mudou decisivamente a nossa vida, este é um bom livro para que nunca o esqueçamos. E também a história de uma família tocada por um inescapável infortúnio.

Ginástica mental

Arranjaram-me há uns anos um portátil que é mesmo uma desgraça. Primeiro, por causa do álcool-gel durante a pandemia, apagaram-se simplesmente as letras mais usadas das teclas pretas: primeiro o A, depois o E; tive de as substituir por etiquetas circulares autocolantes com o desenho das vogais feito por mim, regularmente substituídas elas próprias porque o papel se desfaz com o tempo e fica tudo nojento. Enquanto começavam a desaparecer também o O e o S (e a tecla da vírgula ficou igual à do ponto), as teclas começaram a saltar e tive mesmo de pedir ajuda aos informáticos. Lá deram um jeito com uma chavinha e aparafusaram o A e o E, mas pouco depois o O saltou, só que, como estava a acabar um trabalho urgente e tinha dois emails a que tinha de dar resposta imediata, resolvi tentar usar palavras que não tivessem O para não ter de sair da sala com o portátil ao colo e ir lá abaixo pedir a uma alma caridosa que me aparafuse a tecla desavinda. E, juro, foi mesmo uma «ginástica mental» (expressão que não tem O), mas consegui praticamente não usar a vogal problemática do meu teclado. Fiquei contente por descobrir que conheço muitos sinónimos e tenho um léxico bastante alargado para estas emergências (ler traz muitas vantagens). Se assim não fosse, não iria conseguir responder tão depressa a um email assim urgente. Mas, ufa, nem imagino o que foi para Georges Perec escrever todo um livro sem a letra E... Sim, e outras maluquices.

Alexandre O'Neill

Comecei a ouvir falar de poesia muito cedo. Não só os meus pais e avó sabiam muitas coisas de cor que nos diziam regularmente, como andei numa escola primária que tinha um patrono poeta, João de Deus, cujas poesias líamos na sala de aula e nos saraus de final do ano. O meu próprio pai escrevia poemas e conhecia muitos poetas (Cesariny, Ruy Cinatti...) além de ser amigo desde sempre de Alexandre O'Neill, porque tinham frequentado ambos o mesmo colégio em miúdos (aliás, também com o físico António Manuel Baptista), embora o meu pai fosse dois anos mais velho. A minha mãe conta que, quando engravidou do meu irmão mais velho, engordou imenso e o médico a mandou dar passeios a pé, muitos dos quais eram feitos na companhia de Alexandre O'Neill. No sábado passado, foi lançado Alexandre O'Neill: Uma Biografia Literária, de Maria Antónia Oliveira, que é há muitos anos uma estudiosa deste grande poeta igual a si próprio (e também um grande publicitário), e vale muito a pena (mas vale mesmo, não é só por às tantas referir o meu pai por causa de uns papéis e uns poemas de juventude que a Cristina Ovídio, filha do acima referido físico, encontrou há uns tempos). Por isso, mesmo que não se interesse especialmente por poesia, atreva-se a este volume, pois a vida literária deste enorme poeta está cheia de dados curiosos que vão de certeza agradar-lhe.

Ser célebre

A mortalidade é uma chatice para muita gente, e há uma parte dessas pessoas que tentam desesperadamente cá ficar nas memórias alheias quando se forem embora. Muitas nem sabem que é também por causa disto que ambicionam ser célebres ou, no mínimo, conhecidas pelas suas boas acções e invenções. Mas ser vedeta ou personalidade pública deve dar imenso trabalho: ser investigado, perseguido, policiado, acompanhado por milhares de pessoas a todo o instante, abordado na rua, etc., etc., a mim parece-me um verdadeiro inferno. Falo disto porque saiu para os escaparates um livro chamado Vida de Nobel, no qual o jornalista científico Stefano Sandrone entrevista mais de duas dezenas de vencedores do Prémio Nobel para dar a conhecer as histórias das suas vidas e o que mudou desde que ganharam o Prémio mais ambicionado do Planeta. Trata-se de cientistas nas áreas da Química, da Física e da Medicina e ainda de alguns economistas, que deixam aos mais novos a sua história, os seus conselhos e incentivos. A Literatura ficou de fora desta leva de pessoas, mas alguém poderia pegar na ideia e perguntar realmente o que muda na vida de um escritor que ganha o Nobel. Os livros normalmente ficam piores, diria eu, e a vida um horror com tanto convite...

Aconselhar

Quando saí da faculdade, sentia-me um pouco perdida sobre o que ler, pois os professores tinham sido uma grande orientação ao longo dos anos. O que me valeu foi ter muitos amigos leitores, alguns dos quais são uma grande ajuda. Claro que nem sempre os nossos gostos concidem, pois a nossa experiência de vida e de leitura (e até de formação) é necessariamente diferente. Um destes amigos, por exemplo, é um apaixonado da História e lê quase sempre ensaios, enquanto eu prefiro a ficção; outro prefere ler os clássicos, que geralmente não desiludem, enquanto eu tenho por hábito ler os novos autores nacionais e internacionais. Mas é sempre bom receber um conselho sobre o que ler e troco muitas opiniões e livros com a minha irmã, que, depois de se ter reformado, não faz mais nada senão ler, a sortuda. Para quem não tem pessoas próximas que ajudem, há sempre os blogues de livros (este também, claro). Em França, os livreiros assinalam nas montras os seus «coup-de-coeur» com um post-it na capa dos livros de que gostaram com palavras elogiosas (há até prémios dados por livreiros). Cá, a newsletter da Bertrand também inclui opiniões de alguns livreiros de norte a sul do País («o seu livreiro é o seu melhor conselheiro», diz o título, a que se seguem alguns livros destacados pelos funcionários). Não há razões para não ler só porque não sabe por onde começar. Ouvir opiniões é sempre um bom começo.

Escritores do presente

Li há tempos um artigo muito interessante sobre o desaparecimento de certos tempos verbais da linguagem escrita (na oralidade, sempre foram tempos menos comuns, como o imperfeito do conjuntivo, o condicional composto e o pretérito mais-que-perfeito; em francês, também o «passé simple» por oposição ao «passé composé»). Dizia o seu autor que este «desuso» pode significar uma falta de capacidade para olhar o passado e aprender com ele e, por outro lado, uma incapacidade de ser prospectivo, de pensar o futuro. Vive-se hoje no hoje, e pronto; e, de facto, muitos dos romances que recebo actualmente nem parecem realmente romances, mas apenas apontamentos para escrever um romance, fichas com ideias para desenvolver mais tarde, do tipo: «Ele encontra a namorada com outro e faz uma cena. Enquanto discutem, o amante desaparece e ela fica admirada por ele não ter ficado ali.» Pois, parece bastante pobre, e é. Mas, se isto seria aceitável em principiantes, a verdade é que muitos dos mais considerados escritores estão a deixar-se contaminar por esta moda em vários países, fazendo pensar que mesmo quem aprendeu a gramática com os velhos professores está cada vez mais tentado a usar a linguagem dos guiões das séries televisivas e contar histórias em tempo real. Estará o presente a absorver-nos ou é só a influência do audiovisual?

ENervados

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Já sei que hoje terei menos leitores interessados aqui no blogue, porque vou falar de uma revista de poesia, a Nervo, e a maioria dos Extraordinários (termo que um dos comentadores inventou e foi pegando) já tornou muito claro que não lê poesia regularmente. Mas, como há outros que a apreciam (e eu aprecio-a muito!), venho então avisar esses que desde dia 2 já está disponível mais um número (o 21!) dessa revista que está aí para ficar e é dirigida por Maria de Fátima Roldão, ela própria poetisa. Desta feita, participam os espanhóis Antom Laia e Gabriel Insauti (este traduzido por Luís Filipe Parrado), os brasileiros Claudio Daniel e Lana Ruff, os portugueses Helder Macedo, João Paulo Esteves da Silva, Jorge Roque, Carlos Poças Falcão, Miguel Filipe Mochila e Rui Pires Cabral e ainda o angolano Zetho Cunha Gonçalves. Publica um texto sobre o poeta Ramos Rosa o ensaísta António Vieira e ainda teremos direito a poemas de e. e. cummings na tradução de Luís Pignatelli. Francisca Carvalho assina desta feita as imagens da capa e do interior. Leia-se poesia.


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À procura do pai

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No Wisconsin – onde está como escritora-convidada pela Universidade –, a narradora deste livro recebe da senhora que lhe alugou o quarto o pedido para que conte a história do marido, que se encontra muito doente no hospital. Embora fique relutante, a escritora acaba por ficar a saber o que aconteceu a Daniel – uma criança que, nos anos cinquenta, foi dada para adoção por uma telefonista solteira, ficando então à guarda de uma instituição. À medida que os dias passam, o médico e a assistente social apercebem-se, porém, de que o bebé é mestiço, o que representa um escândalo num lugar onde a população é maioritariamente branca e num tempo sujeito ainda a rigorosas leis de segregação racial. Caberá à assistente social investigar a paternidade de Dan, coisa que a mãe biológica se recusa a revelar. Mas, se o objetivo de encontrar a família certa para a criança parece ser nobre, nem tudo parece porém corroborá-lo. Anna Kim – de ascendência coreana a viver na Áustria (que virá a Portugal para o Folio em Outubro próximo) – foi especialmente sensível a esta história real e escreve um romance em torno da noção de raça, tema que ainda hoje marca as sociedades e se impõe no espaço privado, dividindo famílias ou impedindo a progressão de carreiras. De um modo inteligente e tocante, História de Uma Criança fala de como olhamos para o outro e do que acreditamos ver nele. A tradução é de Paulo Rêgo.


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Excerto da Quinzena

No início da semana observara as modas atuais e dirigira-me imediatamente a uma loja de vestuário onde, a transpirar, adquirira roupas, as experimentara atrás de cortinas e mergira transformado.


E agora esperou, com os pés largos nos sapatos novos firmemente plantados à sua frente.


– Provavelmente – disse-lhe Phil mais tarde –, provavelmente o problema foi que todos se lembravam do que eu fiz. Provavelmente a culpa não foi tua.


Mas George nunca acreeditou nisso e nunca se esqueceu de ter ficado à espera naquele quarto, um jovem corpulento, com os pés largos plantados à sua frente. Quando o corredor finalmente se silenciou, vestiu o pijama novo e enfiou-se na cama; pela janela aberta ouviu vozes e cantorias. O ar da noite da Califórnia estava pesado, não com o cheiro de artemísia mas com o odor de flores desconhecidas.


 


Thomas Savage, O Poder do Cão, tradução de Elsa Vieira

O que ando a ler

Leio Paradaise (escreve-se mesmo assim, não estranhem, é o nome pomposo de um condomínio de luxo no qual se passa a história, escrita por Fernanda Melchor, a mexicana que recentemente ganhou em Portugal o Prémio Correntes d'Escritas com o anterior romance, Temporada de Furacões). Muito elogiada em toda a parte pelo seu estilo directo e torrencial, em que a palavras parecem literalmente jorrar de uma fonte inesgotável, Melchor dá-nos desta feita um pequeno livro que é de grande eloquência no tratamento da desigualdade. Partindo de duas jovens personagens, uma rica e outra miserável, descobriremos em pouco tempo como se aparentam no disparate, na bebida, no desejo, na imaturidade e na falta de contenção: Franco, o menino rico, é um gordo que se masturba o dia inteiro, filho de um advogado que não lhe liga pevide (o rapaz vive com os avós, que o deixam fazer tudo) e o que quer é fornicar com a vizinha trintona boazona, de cujos filhos pequenos se faz amigo para conseguir alguma intimidade com a família e o passaporte para entrar em casa da família (donde rouba cuequinhas de renda sujas da apaixonada). Na outra ponta, temos Polo, o jardineiro do condomínio, um negro sem um tostão furado, que chumbou a todas as disciplinas por faltas e está ali de castigo para devolver à mãe o que ela gastou com ele por causa do que não fez na escola e também por causa do que não devia ter feito a uma prima que vive com eles. Mas, para saber o que vai irremediavelmente ligar estas duas figuras, sem nada de aparentemente positivo ou agradável, o melhor é mesmo mergulhar nesta torrente de má conduta e ver como se vão ajudar na concretização dos respectivos desejos...