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A mostrar mensagens de 2021

Excerto da Quinzena

Esta semana o excerto chega mais cedo, à quinta-feira, com desejos de Boas Festas, muita saúde, um Natal feliz e, claro, boas entradas em 2022. Eu cá só volto no dia 3 de Janeiro, até porque neste período já estamos todos a pensar em tudo menos no trabalho. Leiam e não comam demais (o excerto explica porquê):


Descontente consigo própria, a pessoa com excesso de peso que era Marion saiu do presbitério. Ao pequeno‑almoço tinha comido um ovo quente e uma fatia de tor­rada muito devagar, em pequenas trincadelas, seguindo o conse­lho de uma articulista da Redbook que afirmava ter perdido dezoito quilos em dez meses, e que a Redbook fotografara com uma espécie de fato de treino à Barbarella, a mostrar a sua cintura futurística de inseto, e que tinha também aconselhado emborcar uma lata de uma bebida de emagrecimento nacionalmente publicitada em vez do almoço, fazer três horas de exercício vigoroso todas as sema­nas, repetindo mantras como O que na boca é obra de um momento, nas ancas são anos de tormento, e comprar e embrulhar um pequeno pre­sente para si própria para abrir sempre que conseguisse perder x quilos. Com a exceção do sortido de comprimidos para dormir para uma década, não havia presente que Marion quisesse o suficiente para servir de recompensa, mas tinha começado obedientemente a frequentar aulas de ginástica na Igreja Presbiteriana às terças e quintas‑feiras de manhã, e teria ido hoje se Judson não estivesse em casa. Privada da devida meia sanduíche, com maionese, a que uma hora de queima de calorias na Presbiteriana a autorizaria, almoçara dois talos de aipo com queijo fundido nas estrias. Estes tinham‑na levado quase até à porta, rumo ao plano inclinado de uma tarde sem tentações, mas um dos biscoitos que fizera com Judson tinha‑se partido ao meio. Vendo‑o partido num tabuleiro de arrefeci­mento, no meio dos seus colegas inteiros, sentiu pena dele. Era a sua Criadora, e comê‑lo era uma espécie de obra de misericórdia. Mas a sua doçura tinha‑lhe despertado o apetite. Quando o descon­tentamento a apanhou, já tinha comido mais cinco biscoitos.


Jonathan Franzen, Encruzilhadas, tradução de  J. Teixeira de Aguilar

Era uma vez

Aqui há dias falei na sessão de apresentação das Obras de Mário Soares; e não me sentiria bem comigo mesma se falhasse uma referência ao livro Era uma vez Jorge Sampaio, apresentado, ao que parece, no mesmo local e no dia imediatamente a seguir. Jorge Sampaio já tinha sido objecto de extensa biografia, baseada nos seus imensos «caderninhos diários», mas agora trata-se de algo bem diferente: um volume reunido por amigos mais ou menos próximos (João Bonifácio Serra, José Gameiro, José Pedro Castanheira, Jorge Simões...)  que pediram a 250 pessoas (é obra!) que recordassem em poucos parágrafos uma história com o ex-presidente ou dessem um testemunho sobre o que nele mais admiraram. Da família aos amigos de seis e sete décadas, colegas de liceu e da faculdade, companheiros nas lutas políticas, no exercício da advocacia, na Câmara de Lisboa, no Partido Socialista, na Presidência da República, na defesa dos Direitos Humanos, muitos são os que contribuem com belos textos sobre Jorge Sampaio (incluindo Cavaco Silva!), não falhando também as imagens escolhidas por muitos fotojornalistas que acompanharam a carreira política deste homem singular. Uma justa homenagem.

As listas

Valem o que valem, é a verdade, as listas dos melhores livros, álbuns, filmes, peças de teatro, exposições, que os jornais publicam no final de cada ano. Em Portugal, custa-me dizer, não valem assim muito porque, no que toca, por exemplo, aos livros, estes são distribuídos pelos críticos e, portanto, o que um lê o outro habitualmente não lê, ou seja, haverá poucas obras que todos leram e todos gostaram (o «melhor do ano» é o que tem mais votos, em suma). Mesmo assim, as listas são um bom indicativo do que se anda a publicar e, quanto às estrangeiras, elas já foram um excelente guia para nós, editores, sobre o que ia saindo lá fora e o que fazia sucesso, num tempo em que não havia Internet e, como tal, só tínhamos conhecimento dos livros depois de estarem publicados. Hoje, recebemo-los ainda em Word ou em provas num PDF, e às vezes querem que os compremos com apenas uma sinopse, sobretudo se o autor for conhecido. Por isso, há já muitos livros nas listas de jornais estrangeiros que já estão publicados em Portugal e que até saíram ao mesmo tempo que a edição original (lembro-me de que isso aconteceu, por exemplo, no passado com alguns volumes da série Millenium ou com a biografia de Mandela). Em todo o caso, como gosto sempre muito de bisbilhotar o jornal The Guardian, deixo-vos a lista deste ano dos seus críticos.


The best books of 2021 | Best books of the year | The Guardian

Humanidades e tecnologia

Num mundo hiperdigitalizado como aquele em que hoje vivemos, as Humanidades ainda terão lugar? Ao que parece, sim; e muitos dos que dirigem empresas profundamente tecnológicas vêm, surpreendentemente, das chamadas Letras: Susan Wojcicki, directora executiva do YouTube, estudou História e Literatura; Reid Hoffman, co-fundador do LinkedIn, e Stewart Butterfield, co-fundador da Flickr y Slack, licenciaram-se em Filosofia; e Carly Fiorina, ex-directora executiva da Hewlett-Packard, é formada em História e Filosofia Medieval. Os seus contributos para a reflexão sobre o futuro da ciência, a criatividade e o pensamento crítico são cada vez mais necessários ao desenvolvimento da sociedade tecnológica, sobretudo em matéria de tratamento de dados e inteligência artificial (IA). Aliás, as empresas de IA nos Estados Unidos contratam cada vez mais pessoas de Humanidades, especialmente gente ligada à comunicação, que saiba explicar ao público determinados conceitos e procedimentos, e também especialistas em ética. Há até uma máxima em Silicon Valley neste momento que, no fundo, se traduz por «Menos tecnologia, mais Platão», o que tem a sua graça se pensarmos que, de facto, as pessoas andam sempre agarradas às máquinas e parecem menos pensantes do que quando não as tinham. Será que as coisas estarão a mudar ou é só uma inversão, ou seja, o digital mete-se nas letras e as humanidades nas ciências? Leia-se sobre este assunto um artigo bem interessante no El País do último dia 10. Foi dele que tirei algumas das questões que acima ponho.


El relevante papel de las humanidades en un mundo cada vez más tecnológico | Futuros Educación | EL PAÍS (elpais.com)

Leonor Xavier (1943-2021)

Começámos mal esta semana. Morreu-nos a escritora e jornalista Leonor Xavier, sobre a qual sempre se dirá que era alguém realmente especial. Acho que ainda o meu pai era vivo quando falei com ela pela primeira vez, na antiga Feira das Indústrias de Lisboa, já não sei bem à saída de que evento, pois o Raul Solnado, com quem a Leonor viveu muitos anos, era um amigo próximo do meu pai nos últimos anos das vidas de ambos. Mas, ao longo do tempo, estivemos imensas vezes juntas, quer nas editoras por onde eu fui passando, quer em festivais ou feiras do livro, quer até em almoços ou jantares por esta ou aquela razão (lembro-me de um no Ritz por ocasião de um saudoso Prémio Máxima). E a Leonor era aquela pessoa que tinha sempre uma palavra agradável para os outros, que, com a sua capacidade de estar com todos, tinha amigos de todos os quadrantes políticos, que tinha uma forma de viver tão positiva que nem nas piores alturas da sua doença acreditámos que iria abandonar a vida, porque tinha a força de um boi e deve ter iludido a morte um montão de vezes. Jornalista e escritora, biografou Maria Barroso, Rui Patrício e Raul Solnado e escreveu sobre a sua experiência com o cancro e sobre a sua vida em Passageiro Clandestino e Casas Contadas. Aguarda-se em 2022 o seu livro Adolescência, que deixou entregue na editora. Que descanse em paz, como se costuma dizer.

Mário Soares, a obra

Como trabalhei alguns anos numa editora de certa forma associada ao Círculo de Leitores, que era quem então publicava os livros de Mário Soares, fui muitas vezes a apresentações por esse país fora com ele, e era sempre um gosto ouvi-lo e ver como tinha tantos admiradores, mesmo entre os mais jovens. Era, além de uma pessoa incrivelmente inteligente, um homem com imenso humor e sempre com um sorriso para toda a gente, nunca mal-encarado. Há uns dias, fez-se na Fundação Calouste Gulbenkian a apresentação do volume zero das suas Obras Completas, que muito provavelmente chegarão aos 20 volumes, já que o antigo Presidente da República era um homem que escrevia muito e, ao que sei, nunca se chegou ao digital. Nessa sessão, contou-se uma história muito divertida. Mário Soares convidou o poeta e artista plástico Mário Cesariny para um evento no Palácio de Belém e este respondeu que não podia ir, pois não tinha um fato escuro nem dinheiro para o ir comprar. Então, o Presidente respondeu-lhe que viesse com o fato claro, até porque, com aquela sua magreza, o fato escuro não devia ficar-lhe nada bem. Agora, sem o homem, leia-se a sua obra.

Grandes ideias

No prefácio a Livros, título do novo projecto do cantautor João Afonso, o jornalista Carlos Vaz Marques escreve que «cada livro tem dentro dele uma música própria à espera de quem a escute» e que «nos seus melhores momentos, livros e canções são fruto da mesma raiz». Tem razão. João Afonso, como explicou recentemente em entrevista à TSF, resolveu pegar em livros que tiveram uma importância decisiva na sua formação e musicou-os, transformando o seu trabalho num objecto muitíssimo especial, que é um livro/CD de 70 páginas com contributos de vários artistas plásticos, ilustradores, fotógrafos e autores portugueses, de André Letria a Isabel Rio Novo, de Henrique Cayatte a Jorge Silva Melo, de Augusto Brázio a Ricardo Araújo Pereira, para citar apenas meia dúzia. Com arranjos de Miguel Fevereiro, estas canções literárias vestem-se de voz e guitarra e inspiram-se em obras juvenis como O Principezinho, Tintim ou A Ilha do Tesouro, mas também em livros mais exigentes, como Metamorfose, de Kafka, A Relíquia, de Eça, ou mesmo os enormes clássicos como a Bíblia ou a Odisseia. Mas que boa ideia esta de casar música e livros! Estou morta por ouvir.

Uma medida necessária

Quando hoje lemos notícias, artigos de opinião, crónicas, etc., num jornal ou revista, não raro descobrimos erros de ortografia, pontuação, faltas de concordância, palavras usadas com um sentido que não têm... Nos rodapés das televisões acontece tanta vez que o Facebook está cheio de partilhas de fotografias de ecrãs com erros de palmatória. Ora, os meios de comunicação, que chegam a tanta gente, tinham obrigação de ter mais cuidado com o português pois podem ser responsáveis pela disseminação das incorrecções que publicam. Soube que há um jornal no Brasil, a Folha de S. Paulo, que se preocupa seriamente com esta questão. Todos os dias os jornalistas e colunistas da Folha recebem uma mensagem de uma linguista contratada sobre os erros encontrados no jornal do dia anterior, a sua correcção e uma explicação detalhada dos porquês de ser dessa maneira, e não de outra. Pode parecer que os jornalistas recebem a mensagem e a apagam sem ler, mas não, porque a verdade é que têm certamente medo de que os erros tenham sido feitos por eles próprios e querem de certezinha aprender de uma vez por todas para não sofrerem mais nenhuma «humilhação» junto dos confrades. Eu acho uma excelente prática que deveria ser adoptada por todos os media para o nosso bem comum. E, já agora, vou escrever a um comentador da TSF que passa a vida a dizer «ciclo vicioso» em vez de «círculo vicioso», o que é extremamente irritante num homem da sua importância.

Um poeta a ganhar na prosa

Na semana passada, como certamente se deram conta, foi anunciado o vencedor do Prémio LeYa 2021, em cuja lista de finalistas estavam catorze romances. Eram, pela primeira vez, mais de uma dezena (o máximo estabelecido pelo regulamento para enviar aos jurados), mas a colheita era boa e, como no ano passado, por conta da pandemia, o prémio foi interrompido, o júri aceitou ler uma dose maior. A impressão geral sobre o nível dos concorrentes foi boa e, ao  que parece, haverá mais livros além do vencedor para publicar; mas a escolha do galardoado foi unânime e teremos um poeta entre os romancistas que já arrecadaram o prémio. Chama-se José Carlos Barros! O autor é arquitecto-paisagista e transmontano (com um sotaque bonito que não perdeu, apesar de viver no Algarve há muitos anos). Já esteve ligado à gestão autárquica e foi deputado à Assembleia da República, onde teve a pasta do Acordo Ortográfico. Escreveu pelo menos dois romances, O Prazer e o Tédio (adaptado ao cinema) e Um Amigo para o Inverno (finalista do Prémio LeYa em 2012), um livro maravilhoso sobre um episódio real acontecido em ditadura que poucos conhecem. E agora é o mais recente vencedor do Prémio LeYa com As Pessoas Invisíveis, que espero que seja tão bom como os anteriores e a sua poesia. Enquanto este não chega, leiamos os já publicados.

Excerto da Quinzena

Chegámos a Boston num autocarro da Greyhound. As ruas estavam resplandecentes, os contornos dos edifícios definidos, as linhas exactas. A cidade tinha qualquer coisa de familiar, uma atmosfera demasiado europeia para aquilo que procurávamos. Precisávamos de sair dali depressa. Esperámos pelo Rui deitados na relva do Boston Common. Vários grupos de rapazes e raparigas jogavam futebol americano, ou frisbee, ou faziam ioga. Havia uma transparência desarmante em todos os seus gestos, uma segurança evidente na forma como se moviam: estavam felizes, certos de que cada coisa se encontrava no devido lugar. Não parecia existir neles a necessidade de sair em busca de vidas alternativas. Possivelmente, nas suas cabeças, o mundo fora daquele parque estava coberto por uma neblina cerrada.


– Esta merda é completamente Hemingway – comentou o Marco.


– Eu sei. Até mete nojo.


–Temos de deixar estas cidades bonitinhas. Para isto tínhamos ficado em Lisboa. Temos de ir para sul.


 


David Machado, A Educação dos Gafanhotos

Jornal crioulo

Quando ouvimos alguém falar crioulo, há de vez em quando uma palavra em português que salta da conversa mas não destoa. O português entretece-se naturalmente com o crioulo (que não tem algumas palavras para certas coisas) e, com tantos caboverdianos em Portugal é até estranho que ninguém antes se tenha lembrado de fazer revistas ou jornais em crioulo por cá... Mas nunca é tarde, e a Mensagem de Lisboa já deu o passo, aproveitando ter recebido uma bolsa de jornalismo europeu da Newspectrum para línguas minoritárias. O padrinho desta bela iniciativa será o artista Dino d'Santiago, e vai coordenar o projecto a jornalista e cantora Karyna Gomes, que estudou jornalismo em São Paulo e já trabalhou para a Associated Press e a nossa RTP. A notícia foi dada pelo próprio jornal Mensagem de Lisboa, dirigido por Catarina Carvalho, com o que poderia ser um primeiro título em crioulo, cheio de palavras começadas por K, e é menos fácil de compreender do que eu pensava. Mas vai dar para aprendermos crioulo, porque as notícias serão bilingues e assim chegamos lá por comparação. Numa Lisboa que é mulata há séculos, calculo que se trate do primeiro jornal português-crioulo. Se Dino d'Santiago diz que se trata de um enorme passo para a humanidade que espera ver replicado noutros territórios europeus, eu só posso concordar e aplaudir aqui do meu cantinho. Parabéns a quem foi da ideia! Leiam o primeiro artigo de todos aqui:


https://amensagem.pt/2021/12/02/lisboa-crioula-projeto-jornalismo-mensagem-dino-dsantiago-kriolu-preconceito/?utm_medium=email&mc_cid=0a2a49c2dd&mc_eid=c4234557ea


 

Natália

Já sabem que não sou muito «televisiva» e, embora acredite que há séries francamente boas, é muito raro dispor-me a ver uma até ao fim, principalmente porque estou sempre a perguntar-me se não deveria aproveitar esse tempo para ler, pois a idade avança e cada vez há mais livros à minha espera. No entanto, um dia destes resolvi alinhar em ver um documentário intitulado Insubmissa em dois dias seguidos (são mesmo duas partes, antes e depois do 25 de Abril) sobre a escritora Natália Correia, essa mulher telúrica que chegava e logo vencia pela aparência, a coragem, as ideias, a voz, a frontalidade. A realização é assinada por Joaquim Vieira e a investigação e o roteiro são da romancista e guionista Filipa Martins, que já tinha colaborado em vários filmes e séries (Três Mulheres, Bem Bom, etc.) e que aqui intervém também como «a ouvidora» de todos os testemunhos; e são muitos, pois não só assistiremos a conversas com pessoas que sempre soubemos das relações de Natália, como Helena Roseta ou Fernando Dacosta (este último escreveu até sobre o Botequim, bar que foi uma espécie de casa de Natália aberta ao público), mas também vários desconhecidos que com ela privaram, como o empregado do bar, o jovem pianista que lá tocava ou uma professora de Matemática muito sua amiga. Gostei! Um ritmo muito inesperado, boa música de fundo (embora às vezes um pouco alta), muitas novidades, um retrato extraordinariamente bem feito de uma escritora e mulher muito especial. Até, vejam lá, em matéria de intimidade... A certa altura alguém conta que, por ocasião de uma sua participação num determinado evento fora de Lisboa, no hotel só lhe reservaram um quarto e Natália não ia sozinha. Ela fez uma fita: mas como era possível dormir na mesma cama com um homem? Só para saberem, o senhor que a acompanhava era... o marido. Vejam o documentário na RTP PLAY, que vale muitíssimo a pena.

Palavrões

Um dia destes, o linguista Marco Neves, autor de vários livros e de um blogue já aqui referidos, perguntava-se qual seria o palavrão mais comum usado em Portugal para poder responder à curiosidade de um amigo estrangeiro. E, hesitando na entrega de uma solução que não correspondesse à verdade, acabou por usar o Facebook para fazer uma espécie de inquérito a pouco mais de uma centena de pessoas. Não ficou muito convencido com o resultado (the f word), avançando que, se os contributos tivessem sido mais numerosos, o mais provável era ter chegado ao mais suave "merda" (a proposta era cada um dizer o que lhe sairia pela boca se desse uma topada na perna da mesa). Comigo, acertaria no "merda" (não vou muito além disso, confesso); mas vejo tanta miudagem a dizer "fogo" pela boca fora que, na verdade, talvez o veredicto fosse mesmo a palavra vencedora, que enfeita capas de livros (fazendo-os vender como pãezinhos quentes) com o subterfúgio do asterisco em vez do O. Mas onde terão ficado as saborosas imprecações que a minha avó usava em maus momentos, como "Raios", "Irra", "Poça", "Arre" ou "Livra"? Será que já desapareceram ou desaparecerão em breve com a morte dos mais velhos? Vamos deixar que os nossos ouvidos se acostumem ao "fogo" e ao "fosga-se", ou mesmo àquele palavrão bem nortenho que ainda faz corar, ou rir, os sisudos lisboetas? Já pensou qual é o seu palavrão?

Entre | Vistas

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O site Entre | Vistas, que já aqui referi mais de uma vez, já leva sete anos de vida. Parabéns a esta plataforma digital, como hoje se diz, que publicou ao longo do tempo centenas de conteúdos extremamente interessantes (entre outros domínios, na área do livro e das viagens) e foi parceira de eventos culturais emblemáticos, como o Bode Inspiratório, projecto que juntou dezenas de escritores e artistas plásticos num «folhetim à antiga» e valeu a Paula Perfeito um convite para marcar presença no último FOLIO. São mais de sessenta entrevistas a figuras de todas as disciplinas, que têm coisas para dizer, histórias para contar e ideias para partilhar e debater. José Luís Peixoto, Carlos Mendes de Sousa, Chakall, Rosa Montero, Marina Costa Lobo, Pedro Norton de Matos, Afonso Cruz e muitos mais dão-se a conhecer nas respostas a perguntas que nunca são as banais e favorecem uma conversa que vale sempre a pena acompanhar. As recensões e os artigos sobre locais a visitar (dentro e fora de Portugal) também são muito úteis, bem como algumas notícias e informações sobre eventos e prémios, como o Prémio Camões atribuído recentemente a Paulina Chiziane. Os sete anos mereceram um novo logo bem bonito, de Sara Vaz Pinto, que aqui reproduzo. Vale a pena visitar.


www.entre-vistas.pt


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O que ando a ler

Às vezes, os amigos editores oferecem-nos livros que publicaram, querendo partilhar connosco a alegria de uma escolha. Recentemente, aconteceu-me com uma colega da Quetzal e recebi de presente o magnífico O Esplendor dos Brunhoff, de Yseult Williams, que conta a história de uma família europeia que é praticamente desconhecida do grande público, apesar dos seus feitos notáveis e das figuras que constituíam a teia das suas relações pessoais. A história deste clã narra-se a partir do patriarca Maurice (antes Moritz) de Brunhoff (1861-1937) no tempo da guerra franco-prussiana e passa para a geração dos seus filhos magníficos, entre os quais se encontram o ilustrador do elefante Babar e a directora da revista Vogue em Paris (o marido desta última, Lucien Vogel, é uma personagem igualmente fascinante). Porém, se esta família passou quase incógnita, foi certamente porque pelos corredores das suas casas andaram muitas pessoas cujos nomes acabaram por ofuscar o dos Brunhoff, como Diaghilev, Jean Cocteau, Picasso, Dior ou Chanel. Apesar de discretos, os Brunhoff, para que se saiba,  já davam cartas no início do século XX e estão ligados à edição das primeiras revistas de moda francesas (sendo uma delas a Gazette du bon ton), bem como à fotografia artística, à imprensa e à arte em geral. Não se livraram, mesmo assim, de duas guerras mundiais e dos campos de extermínio na Polónia. O seu destino consta desta biografia aliciante que ando a ler.

Viagem de sonho

Certamente que todos os que lêem este blogue se lembram de João Pinto Coelho, que há uns tempos nos presenteou com o retrato de muitos dos Extraordinários feito pela sua pena e é o autor do extremamente bem-sucedido Perguntem a Sarah Gross, que teve cinco edições e continua a ser uma referêcia sobre o Holocausto. Pois bem, a pedido de várias famílias e de muitos leitores, o escritor resolveu organizar uma viagem aos locais mais emblemáticos do romance, incluindo a cidade polaca de Oswiécin, praticamente ignorada pelos turistas que vão à Polónia, a majestosa Cracóvia e até os campos de extermínio de Auschwitz. E, como se não bastasse esta novidade, é o próprio João Pinto Coelho quem guiará os viajantes ao longo dos quatro dias de visita. Todo o percurso é fantasticamente explicado no site do qual forneço abaixo o link, ou não fosse este autor o mais organizado que tive até hoje (lembram-se da planta da escola em Perguntem a Sarah Gross?) e aquele que, talvez pela sua formação em Arquitectura, mais noção tem do que é uma apresentação rigorosa e bonita de qualquer projecto. Esta faz logo crescer água na boca, garanto, basta ver o pequeno vídeo de abertura e ouvir a música. Tenho a certeza de que os Extraordinários, se puderem, vão de certeza inscrever-se assim que vejam a proposta.


www.trilhosdesarahgross.com


 

Pessoa e a sua casa

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Amanhã, a Casa Fernando Pessoa faz vinte e oito anos e muitas coisas mudaram lá dentro e cá fora desde aquele dia de 1993 em que as portas da casa de Campo d'Ourique em que Fernando Pessoa viveu se abriram ao público pela primeira vez para mostrar vários objectos que pertenceram ao poeta maior, bem como móveis e livros. Pela direcção da casa, passaram pessoas com ideias  muito diferentes, como Manuela Júdice, Clara Ferreira Alves, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa e, hoje, Clara Riso, que imprimiram à casa a sua marca pessoal e desenvolveram importantíssimos projectos (a digitalização da obra de Pessoa foi um deles e devemo-lo à escritora Inês Pedrosa). Desde há uns dias que se iniciaram as comemorações com uma oficina online sobre leitura em voz alta, orientada por Teresa Lima, especialmente dedicada a pessoas sem experiência na matéria. E amanhã a entrada na exposição da Casa Fernando Pessoa será gratuita e haverá visitas guiadas, algumas delas com interpretação em Linguagem Gestual. Ao fim da tarde, com a presença de Manuela Nogueira, sobrinha de Pessoa, haverá leitura de poemas por Ângela Pinto. Parabéns!


P. S. Amanhã também, de acordo com o que se vem tornando costume há alguns anos, o Museu da Farmácia organiza uma sessão sobre o que vamos poder ler em 2022. Abaixo o cartaz.


Convite Farmacia.png


 

Excerto da Quinzena

Falei à Alexandra no Prozac. Ela ficou admirada. «Pensei que era contra as terapêuticas medicamentosas», disse. «Mas parece que se trata de uma coisa completamente nova», expliquei. «Não cria habituação. Não tem efeitos secundários. Nos Estados Unidos até as pessoas que não estão deprimidas o tomam porque as faz sentir muito bem.» Claro que a Alexandra sabia tudo sobre o Prozac e deu-me uma explicação técnica de como o medicamento actua, contando-me tudo sobre os neurotransmissores e os inibidores da captação de serotonina. Não consegui acompanhá-la. Disse-lhe que já andava um bocado lento na captação e que não precisava de mais inibidores, mas parece que percebi mal aquilo a que ela estava a referir-se. A Alexandra tem algumas dúvidas em relação ao Prozac. «Não é verdade que não tenha efeitos secundários», disse. «Até mesmo os seus defensores admitem que inibe a capacidade do doente para atingir o orgasmo.» «Bem, desse efeito secundário já eu ando a sofrer», por isso tanto me faz tomar o remédio como não tomar.» A Alexandra deu uma gargalhada, mostrando os dentes um pouco grandes, no maior sorriso que alguma vez consegui arrancar-lhe.


 


David Lodge, Terapia, tradução de Maria do Carmo Figueira

Lamentável

Ontem recebi uma comunicação sobre a nova modalidade do Prémio Literário José Saramago. Este prémio, que foi fundado em vida do escritor, que o entregaria pessoalmente a todos os vencedores até à sua morte, destinava-se a estimular a carreira de jovens escritores até aos 35 anos, premiando um romance de língua portuguesa publicado no biénio anterior. Além de ter sido decidido subir para os 40 anos a idade-limite quando o prémio foi entregue a Afonso Reis Cabral, em 2019, e de este ano não ter sido atribuído para que a  próxima edição coincidisse con o Centenário de Saramago (abarcando, pensei eu, três anos de publicações), toda a filosofia do prémio foi alterada de um dia para o outro sem explicação: passou a ser um prémio para romances inéditos (tal como é o Prémio LeYa e o Prémio Agustina Bessa-Luís, ou seja, mais um) e o romance vencedor é publicado, obrigatoriamente, em Portugal pela Porto Editora (assim, nenhuma outra editora pode tirar vantagem do prémio, como até aqui acontecia, e quiçá é até uma maneira enviesada de caçar jovens autores feitos pelas outras editoras quando já estão no ponto certo). Que grande flop! Que desilusão! Além de considerar que ficam francamente lesados todos os escritores de língua portuguesa com menos de 40 anos que publicaram romances (alguns mesmo bons!) nos últimos três anos e que já não poderão concorrer, é uma lamentável falta de originalidade e, sobretudo, uma traição ao próprio patrono mudarem o espírito do prémio tal como ele o conheceu e celebrou. Ainda me custa mais saber que a Fundação que leva o nome do Nobel aceitou uma coisa destas.

A volta ao mundo

Todos se lembraram de Verne e da sua Volta ao Mundo em 80 Dias, título agora surripiado por um livro que, apesar de ainda não traduzido em Portugal, já me está a fazer crescer água na boca. Trata-se de Around the World in 80 Books, do crítico e académico David Damrosch, nascido no Maine e professor do Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Harvard. Fui espreitar e salivei: é que as suas escolhas não são os inescapáveis clássicos de sempre (claro que está lá a Bíblia, a Divina Comédia ou o Decameron), mas livros de muitas épocas que incluem títulos bastante inesperados, como o romance gráfico Persépolis ou obras de Cortázar, Perec, Connan Doyle e Clarice Lispector. E a divisão em capítulos (folheei o índice na Amazon, embora ainda não tenha comprado o livro) é feita através de lugares, o que me pareceu extremamente original: Londres (onde está Dickens e Virgina Woolf), Paris (com Proust, Duras...), Veneza (com Italo Calvino e outros), Cracóvia (com Celan, Primo Levi ou Kafka), Cairo (com Chimamanda pelo meio) e muitas outras cidades ou países donde sobressaem escritores que conhecemos... e não conhecemos. Estou mesmo a pensar comprá-lo e dar uma volta ao mundo no sofá. Já sei que vai ser traduzido em Portugal, mas oportunamente noticiarei.

Nada é inocente

Recebo várias vezes por semana a lista e os links das críticas, entrevistas ou meras referências a livros publicados pelo grupo editorial para o qual trabalho. Misturadas com elas, aparecem todo o tipo de artigos e notícias, desde receitas a inquéritos de satisfação, desde que neles figure algum nome (real ou semelhante) ao de um autor nosso. Mas estranhei um dia destes a inclusão nesse rol de um artigo publicado no jornal Tal & Qual, que é, na verdade, o que aqui me traz hoje, pois prende-se com a forma como, nos dias que correm, as notícias são apresentadas só para chamar a atenção dos leitores. Dizia o título: «Prostituição na agenda de Marcelo.» Quem ler isto assim de repente até pode pensar que o senhor Presidente tem agendado algum encontro com uma prostituta quando isso é totalmente falso. Afinal, há uma representante da mais velha profissão do mundo que gere um bordel em Évora, Ana Loureiro de seu nome, que, defendendo a legalização da prostituição (eu também), procura o apoio do Presidente se o Parlamento lograr fazer uma lei sobre a matéria. Ana Loureiro mandou um e-mail para a Presidência da República a pedir para ser recebida por Marcelo e foi atendida por duas das suas assessoras (embora o Tal & Qual escreva «acessoras», raios!). Não me parece, pelo que li, que o assunto tenha exactamente entrado na agenda do Professor, mas os títulos aldrabados servem para lermos as notícias até ao fim e eu caí na esparrela. Nada é inocente e eu também já tinha idade para não o ser...

Dos Açores à China

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António de Freitas, um jovem aluno do seminário de Angra nascido na ilha das Flores poucos anos antes do dealbar do século XIX, decide abdicar da vida monástica e embarcar, em 1810, numa viagem rumo aos longínquos mares da China, onde sonha fazer-se rico. Para companheiro de fortuna e infortúnios, desencaminha um rapaz que com ele estudara na Terceira, também sem vocação beata mas com apreço pela leitura e talento para a escrita, que é na verdade quem há-de contar a sua história. Depois de inúmeras peripécias e confrontos, numa sucessão de episódios de autêntica pirataria,  o par instala-se então em Macau, acabando António de Freitas por dedicar-se ao tráfico de ópio – na época, um negócio regularizado –, enquanto o seu amigo se entrega doidamente ao vício. Nas Flores, restará um dia um vistoso túmulo de tíbias cruzadas e caveira e um mosteiro cuja elevação está rodeada de mistério. Entre o relato de viagens e o romance histórico, o romance de Tiago Salazar O Pirata das Flores, acabadinho de sair, discorre sobre a aventurosa vida de uma personagem extremamente arrojada para a época, à boa maneira de um Sandokan ou de um capitão Morgan.


 


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Uma revista muito especial

Uma das alegrias de ter este blogue traduz-se na circunstância de, uma vez por outra, haver uma alma gentil e caridosa que me propõe um tema para um post ou me presta informações que dão origem a textos para o blogue quando estou especialmente desinspirada. Desta feita, recebi um e-mail do Extraordinário Luís Filipe Sabino, dando-me conhecimento de uma revista digital editada pela Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia, que importa divulgar aqui porque, pelo que me foi dado ver, é um instrumento extremamente interessante para todos aqueles que trabalham com texto, edição, tradução e revisão, a maioria dos quais (calculo eu!) nem tem a mais pálida ideia de que existe esta publicação e de que pode ser de facto de enorme utilidade: o que eu já me diverti com a fantástica lista de falsos amigos português-espanhol (alguns dos quais encontro erradamente traduzidos muitas vezes) e que gozo foi descobrir os nomes de aves de todo o mundo em português, o que teria de certeza ajudado imenso o nosso grande tradutor Francisco Agarez quando traduziu Zona de Desconforto de Jonathan Franzen, reputado romancista e ornitólogo. Muitos dos artigos prendem-se com tradução automática e software, mas outros, publicados desde 2004, debruçam-se sobre a língua portuguesa e serão muito legíveis por qualquer pessoa que se interesse por tradução. Assim, sem mais, aqui vai o link, com o agradecimento a Luís Filipe Sabino, autor também de alguns artigos:


https://ec.europa.eu/translation/portuguese/magazine/pt_magazine_pt.htm


 

Mais Saramago

Se fosse vivo, José Saramago teria feito 99 anos no passado dia 16, data em que se iniciaram em todo o País, e não só (suponho que Lanzarote esteja a comemorar), as celebrações do centenário do escritor que culminarão no dia 16 de Novembro, mas em 2022. Entre as muitas acções planeadas, das quais já aqui falei há umas semanas, uma delas reveste-se de especial importância porque envolve a criação da primeira cátedra que leva o nome do nosso Prémio Nobel da Literatura. É uma cátedra da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), cuja formalização aconteceu no dia 5 de Novembro, tendo como parceiros a Fundação José Saramago e a Livraria Lello, e não poderia fazer mais sentido naquele local, já que a Viagem a Portugal, recentemente reeditada num belo volume, começa exactamente em Miranda do Douro e estende-se por todo o território do Nordeste transmontano. A cátera terá como áreas de actuação, além do ensino propriamente dito, a investigação e a acção cultural, incluindo tertúlias, conferências, seminários, cursos, teatro e residências artísticas. Haverá naturalmente um foco na obra de Saramago, mas as actividades não se reduzirão à obra do mestre nem ao território nacional e pretendem envolver toda a população local. De algum modo, serão também implicados aqueles que venceram o Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores. A série de documentários sobre eles, Herdeiros de Saramago, de Carlos Vaz Marques, acaba, de resto, de ser justamente premiada.


 



 

Mulheres na Presidência

Um dos programas da Presidência da República é aproximar a escola da cultura portuguesa, convidando turmas de alunos de várias idades para ouvirem e dialogarem com, chamemos-lhes assim, personalidades dos mais variados âmbitos. Num ano foi com escritores, noutro com cientistas, noutro com artistas plásticos e não só; e, se não me engano, houve igualmente encontros com desportistas, alguns deles de renome internacional. Com todos se aprende e, a reboque destes encontros, os miúdos podem visitar o Palácio de Belém e os seus magníficos jardins. Desde o princípo de Outubro, o Presidente soube aproveitar o facto de as mulheres estarem na moda e resolveu dedicar-lhes um ciclo intitulado Mulheres de Coragem, no qual mulheres com vidas para contar vão  a Belém conversar com alunos de todo o País sobre as suas experiências. Já foi a vez de Carmen Garcia, uma jovem enfermeira que se tornou conhecida por causa de um blogue e é cronista de jornais, Selma Unamusse, a belíssima cantora, ou Rute Neves, comandante dos Bombeiros Voluntários de Santo Tirso; mas até ao fim do ano, os miúdos ainda terão oportunidade de ouvir a fadista Aldina Duarte, a ilustradora Yara Kono e a realizadora Cláudia Varejão. Para o ano há mais.

A língua

Há tempos, recebi uma crítica ferocíssima de uma senhora (por sinal, académica) do Brasil que não entendeu uma crónica que escrevi sobre a importância da língua materna para o entendimento de todas as outras disciplinas. Nela, eu contava que um número significativo de alunos não era capaz de resolver um problema de Matemática por não conseguir perceber o enunciado (ou seja, o português). Porém, a senhora achou que eu estava a puxar a brasa à minha sardinha e a obrigar os brasileiros a falar como nós, portugueses, aqui no cantinho da Europa, quando na verdade não era nada disso. Cascou em cima de mim, reclamando uma língua autónoma para o seu país. Ora, depois de ler uma notícia no Diário de Notícias na semana passada, acho que a académica referida vai ficar felicíssima: os professores, os educadores de infância e muitos pais de crianças pequenas estão preocupados porque, depois de um longo período de confinamento, os meninos e meninas regressaram às aulas a usar o léxico do país-irmão. Dizem «bala» em vez de «rebuçado», «geladeira» em vez de «frigorífico», «grama» em vez de «relva» e «ônibus» em vez de «autocarro», além de usarem o sotaque do Brasil. A razão? Pois bem: passaram meses ao computador a ver youtubers brasileiros, como Luccas Neto (que, seja lá quem for, enche o Altice Arena, a que os pais levam filhos com... três anos!) ou o seu irmão (que opera mais na faixa adolescente) e tem 36 milhões de seguidores. Lembro-me de que, no final da minha adolescência, as telenovelas (nesse tempo, exclusivamente brasileiras) conseguiram que os portugueses passassem, num fósforo, do «Como está?» ao «Tudo bem?», que nunca mais se perdeu. Mas com crianças que ainda mal sabem falar, a coisa parece bem mais grave.

Amor, amor

Muitas vezes subestimamos o amor adolescente. Quando há um desgosto, alguém diz logo que passará em três tempos e logo aparecerá uma nova paixão. O livro que acabo de ler, uma maravilha tão boa e tão triste que comove a cada palavra lida, mostra bem que há amores tão profundos na juventude que, quando tudo vai contra eles, o desespero pode levar os seus actores a situações-limite. Falo de Trilogia, de Jon Fosse, um romance em três partes (daí o título), inicialmente publicadas autonomamente e em datas diferentes, mas que vivem de certeza melhor agarradinhas umas às outras. São três momentos de uma relação entre Asle e Alida, dois jovens de dezasseis anos muito apaixonados, ele completamente só no mundo (a mãe morreu-lhe há pouco), ela com problemas familiares: um pai que desapareceu quando era pequena (e se ela o amava!) e uma mãe bastante brusca e amarga que não a trata bem. Alida descobre que está grávida e, por isso, ela e Asle terão de fugir da aldeia, mas para isso precisarão de um barco que não têm; e depois de uma casa que não têm; e depois de alguém que ajude Alida a ter a criança; e de matar a fome, enfim... de muitas coisas que não são exactamente fáceis de arranjar num lugar onde não conhecem ninguém e uma rapariga grávida com aquela idade é vista como uma indigente. Tudo isto provocará episódios tremendamente tensos, e lemos este livro sempre com o coração nas mãos, e tristes por eles: pelo rapaz que ama e fará tudo (tudo mesmo) pela sua namorada; e pela rapariga perdida, uma mãe imberbe e sempre tão cansada que conta absolutamente com o namorado para continuar. É lindo, como já era Manhã e Noite, do mesmo autor. O Nobel bem que podia ir para o senhor Fosse um dia destes. Na Noruega, os reis deram-lhe uma casa no recinto do próprio palácio.

Excerto da Quinzena

Às quatro da tarde de uma quarta-feira, a revisora Kim Eun-sook levou sete bofetadas na face direita. Foi atingida repetidamente, e com tanta força, no mesmo sítio que a rede de vasos capilares sob a maçã do rosto se rompeu e o sangue começou a correr pela pele rasgada. Quantas bofetadas apanhara até isso acontecer? Não tinha a certeza. Limpou o sangue com a palma da mão ao sair para a rua. Naquele final de Novembro, o ar estava frio e límpido. Quando ia a atravessar na passadeira, estacou, pensando se deveria voltar para o escritório. A pele estava a ficar cada vez mais retesada sobre a face, que inchara de um momento para o outro. Ficara surda do ouvido direito. Mais uma bofetada e o seu tímpano teria rebentado. Engoliu o sangue com um sabor metálico que se lhe acumulara nas gengivas e dirigiu-se para a paragem do autocarro que a levaria a casa.


Han Kang, Atos Humanos, tradução do inglês de Maria do Carmo Figueira

Correspondência

Uma das coisas mais tramadas de se viver em Lisboa é não poder ir ali ao Porto num saltinho sempre que acontecem por lá coisas às quais gostaríamos de assistir. Por mim, estaria sempre caidinha em todas as Quintas de Leitura, por exemplo; e agora neste espectáculo cujo anúncio me fez logo água na boca e que acontece hoje mesmo ao fim da tarde, no Foyer do Teatro do Campo Alegre, pela mão e pela voz do grande Isaque Ferreira, que irá ler... Não, não vale contar já a surpresa. O título do espectáculo é, aliás, um tanto ou quanto misterioso: Por assim dizer: correspondências. Já adivinhou? Talvez. Isaque Ferreira reuniu cartas de escritores portugueses e propõe-se lê-las com a sua maravilhosa interpretação. Sabendo de que são capazes os nossos escritores, umas destas cartas trarão queixinhas, outras má-língua, outras falarão do grande escultor que é o tempo e decerto não faltarão também correspondências sobre amores próprios e alheios. O que eu não dava para ir lá escutar e ver esta sessão, até porque a correspondência é coisa que morreu depois da invenção do correio electrónico e é por isso uma preciosidade ainda maior. Se está pela Invicta, não falte. Faça isso por mim.


P. S. Não perca também hoje à noite Tocata e Fuga - Os Dias de Mário Cláudio, um documentário de Jorge Campos, na RTP.

De volta com o burro

Já aqui temos falado várias vezes do escritor Paulo Moreiras, de quem publiquei vários livros ao longo da minha vida editorial e que é, como já aqui o disse, um dos primeiros leitores do dia das Horas Extraordinárias, comunicando-me as gralhas encontradas quase sempre a tempo de eu as corrigir antes que cheguem mais leitores. O seu romance de estreia, A Demanda de D. Fuas Bragatela, é um romance pícaro excepcional e marcante; e, além dos romances que se lhe seguiram, Paulo Moreiras foi sempre escrevendo também sobre comida (de que é apreciador, claro), tendo realizado, entre outras publicações, uma espécie de bilhetes de identidade de vários produtos portugueses (fava, morcela, tremoço, etc.) em conjunto com o Instituto de Literatura Tradicional. Mas o seu último romance publicado, O Ouro dos Corcundas, já era de 2011; e as pessoas andavam a perguntar-se que seria feito deste autor divertidíssimo, se ele deixara a escrita para se dedicar a algo mais. Pois bem, ele acaba de lançar os contos que andavam dispersos por revistas e outras publicações num único volume intitulado O Caminho do Burro. Os contos, para o este autor, são, de resto, uma espécie de laboratório onde experimenta diferentes abordagens, formais e não só, que o conduzem então aos seus romances. O meu exemplar já cá canta e tenciono lê-lo assim que acabe o que tenho em mãos. Tendo o Paulo Moreiras voltado a editar, oxalá esteja também na calha um novo romance.

Poesia outra vez

Diz-se que Portugal é um país de poetas. Não sei se isso é exactamente verdade, mas que há sempre bons poetas para lermos em todas as gerações, lá isso há. Recentemente, por exemplo, saíram dois livros de poesia dignos de referência aqui no blogue. O primeiro é de uma nova colecção, a Claro Enigma, e o poeta, que já tinha publicado um livro de poesia, chama-se Rui Teixeira Motta e não deixou que o Direito que pratica profissionalmente o tornasse prosaico. O seu novíssimo poemário chama-se Refracção e, se se pode resumir um livro de poesia (eu acho que não, mas pronto), este fala da própria poesia, mas também do amor, da morte, do quotidiano, da beleza, e é, de acordo com o prefaciador (o poeta António Carlos Cortez), uma «poesia de imagens» (mas não só). O segundo livro é de Marta Chaves (que já havia sido falada aqui o blogue a propósito da saída do seu muito belo Varanda de Inverno) e intitula-se Avalanche, mas se nos cair em cima será boa coisa; olha para dentro mas também para o outro, para a memória, sem esquecer o futuro, e inventa o que há de certos meses noutros meses (uma ideia original que atravessa o livro). Deixo-vos dois poemas, um de cada um dos livros, pela ordem em que os mencionei, para se deleitarem.


 


As luzes da cidade


 


Pela tarde


Gostava de ser eu a puxar a manivela


E acender todas as luzes da cidade


Velas de cheiro


Ardendo até ao coto.


 


E nessa espécie de claridade


No mesmo gesto


Ser eu a criar a noite.


 


Eis o degelo


 


A fruta do futuro


há-de rolar pela colina.


Toda a gente anda para colhê-la.


 


Mais patranha que façanha


quem inventou a velocidade


gerou o atropelo.


 


 


 

Em cima da hora

Ana Patrícia Severino esteve como Conselheira Cultural na Embaixada de Portugal em Berlim e criou por lá uma residência literária que deu frutos e acolheu na cidade alemã um grupo de escritores portugueses, entre os quais se contam Isabela Figueiredo, Patrícia Portela ou Rui Cardoso Martins, por exemplo. E, como não é pessoa de ficar quieta, agora, que saiu da capital alemã e está na nossa Embaixada em Madrid, repetiu a proeza com o apoio do Instituto Camões, integrando esta residência literária na capital espanhola um programa mais extenso de divulgação da literatura portuguesa no país vizinho. A residência começará ainda neste mês de Novembro e durará até Janeiro de 2022. Eu bem sei que estou a avisar em cima da hora, mas quem sabe se alguém que lê este blogue não tenha um projecto literário à medida com que possa candidatar-se até 11 de Novembro? O regulamento pode ser encontrado aqui:


Regulamento-residencia-literaria-madrid.pdf (instituto-camoes.pt)

Parabéns

Embora o aniversário seja só amanhã, dia 6, não podia deixar de, daqui deste blogue, felicitar o escritor Mário Cláudio pelas suas 80 primaveras (mais de 50 delas de actividade literária, é obra!). É um autor que leio há muito (talvez desde que comprei Amadeo numa edição da Imprensa Nacional com uma bela capa do pintor de Amarante e do mundo) e de quem sou editora desde que vim para a LeYa; um autor em quem admiro a subtileza, a cultura ampla e o bom gosto, mas também a coragem e a desfaçatez quando são necessárias; em quem invejo o domínio da língua portuguesa (quantas palavras novas já aprendi com ele? «Bazulaque» foi a mais divertida, confesso) e aquele sentido de humor que às vezes carrega uma certa verrina bem-vinda; em quem aprecio o facto de se importar com o que os mais jovens escrevem e acompanhar o que se publica, mas conhecer bem o que veio antes dele; em quem adoro uma personagem que passeia pelo seu mural de Facebook chamada Adozinda, que diz uns palavrões que fazem corar as pedras da calçada e só podia ser do Norte, como o próprio Mário Cláudio. Aqui estou então a congratular-me por dez anos em tão boa companhia, desejando que venham mais, e cheios de livros com L maiúsculo como todos aqueles a que nos tem habituado. Parabéns, Mário Cláudio.

Aprender até morrer

Os livros sobre a Segunda Guerra Mundial nunca passaram de moda, por mais que tenham decorrido setenta e tal anos sobre o seu fim. Sobretudo nos países ocupados, a literatura sobre o assunto foi prolífica e de todos os tipos, de tal modo que até se permitiram livros muito fantasiosos e de teor romântico e meloso à custa da tragédia. Mas, ainda que a literatura sobre o assunto seja realmente variada e numerosa, há sempre coisas que não chegam aos leitores, e confesso a minha ignorância sobre o facto de na Dinamarca só uma pequena parcela de judeus ter sido afectada pela perseguição nazi e levada para um campo de concentração. Falo de 500 pessoas, mais coisa menos coisa, das quais, ao que sei, só 125 não regressaram de Theresienstadt no final da guerra. A razão? Pois bem: em primeiro lugar, o rei tinha ascendência germânica, o que lhe permitiu saber do tratamento desumano que estava a ser dado aos judeus noutros países com antecedência, levando então os judeus dinamarqueses para a Suécia, que era um país neutro. Mas houve mais: os judeus dinamarqueses nunca foram obrigados a usar a estrela amarela identificadora, porque o rei alegou que estavam protegidos pela constituição da Dinamarca e que, se a ordem fosse dada, ele próprio e a sua rainha, bem como todo o povo, também a usariam. Então, os nazis meteram o rabinho entre as pernas e a exigência nunca chegou a ser feita. Partilho a história porque penso que nunca precisámos de tantos exemplos de coragem deste tipo como hoje. 

Olhem quem aí vem

Lembram-se certamente de vos ter aqui falado de O Infinito num Junco, um livro incrivelmente belo da espanhola Irene Vallejo sobre a história do livro desde a Antiguidade, que se lê como um romance e foi elogiado, premiado e traduzido em praticamente todo o mundo. A sua autora é, evidentemente, uma apaixonada pela leitura e (como compreende logo quem lê o livro) tem formação em Estudos Clássicos, sendo autora também de um Manifesto pela Leitura, no qual considera dos livros a verdadeira máquina do tempo. Ora, no âmbito das comemorações dos 99 anos de Saramago no próximo dia 16 (o início das comemorações do Centenário do nascimento do nosso Nobel da Literatura), Irene Vallejo estará entre nós para ler este seu manifesto imediatamente antes de um concerto pela Orquestra Metropolitana de Lisboa (que quiçá a acompanhe). E no dia seguinte, ao final da tarde, proferirá uma conferência na Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito dos Seminários Internacionais de Estudos Globais promovida pela Cátedra de Estudos Globais da Universidade Aberta. Será, sem qualquer dúvida, sobre o livro. Aviso com tempo, porque, já se sabe, neste blog serão muitos os interessados em ouvi-la.


 

O que ando a ler

Não sei muito bem explicar porque deitei a mão a este livro, até porque praticamente não tinha lido nada sobre ele, a não ser que fora finalista do Man Booker Prize (o que, de há uns anos a esta parte, também deixou de ser uma referência para mim). Talvez tenha sido um lado guloso escondido que me atraiu para o título, embora eu já não fique com água na boca por causa de doces, como acontecia na infância, comendo, aliás, cada vez menos guloseimas. O que é certo é que, assim que foi publicado, quis ler este Açúcar Queimado, da escritora norte-americana, de família indiana (e os costumes indianos aqui, bem como as comidas, são muito importantes), Avni Doshi, que já tinha escrito para a revista Granta (o que não é para todos) e feito uma especialização na Universidade de East Anglia, em Inglaterra, donde saíram escritores de renome como Ishiguro ou McEwan. Trata-se de mais um livro que fala da relação entre mãe e filha, mas aqui a mãe especializou-se em dar uma vida difícil à sua criança desde muito cedo, pelo que há muitíssima raiva latente, embora também uma grande preocupação, já que Tara (a mãe) começou a esquecer-se de tudo de repente (o lume aceso, por exemplo) e é, de facto, preciso que alguém cuide dela, mesmo que isso possa significar o fim do casamento de Antara (a filha). Mas a história presente alterna com as memórias que Antara tem de como ambas foram construindo a sua relação, ora rodeadas por familiares e amigos, ora pelos vários amantes de Tara. Vamos lá ver se isto não acaba mal...

Excerto da Quinzena

Três minutos mais tarde, os convidados agrupam-se no salão e na sala de estar e os doces são servidos. O pastor Pringsheim, do alto da sua golilha engomada, envergando uma sotaina comprida de onde espreitam as botas largas e engraxadas, está sentado entre os convivas, beberricando as natas frias que coroam o chocolate quente e conversando, com o rosto transfigurado, de uma maneira muito natural e espontânea, o que, ao contrário do seu discurso clerical, surte um efeito notável nos seus interlocutores. Cada um dos seus gestos parece querer dizer: Vejam, também eu posso esquecer o sacerdote que há em mim e ser um homem mundano, alegre e inofensivo!


 


Os Buddenbrook, de Thomas Mann, numa tradução de Gilda Lopes Encarnação

Fim de mês

Depois de tanto tempo sem eventos presenciais e desejosos de pôr o pé na rua, largar os ecrãs falantes dos computadores e ver a carinha das pessoas ao vivo, as actividades multiplicaram-se desde final de Agosto; e, digo-o por experiência própria, nem houve tempo para tanta coisa. Mas, mesmo com Outubro a fechar portas, eis que o jornalista João Morales anuncia Braço das Artes, na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, para acabar o mês em beleza. As actividades, entre dia 29 e dia 31, dividem-se entre a literatura e a música, mas, além da presença de escritores (Luísa Costa Gomes, que completa 40 anos de carreira literária, Paulo Moura, Ana Cássia Rebelo e muitos outros), haverá espaço para os livreiros falarem da sua rotina e também da sua vertente como editores (a Snob ou a Tigre de Papel, por exemplo) e para ouvirmos opiniões sobre o mundo dos livros pela voz de quem pensa essas e muitas outras coisas (Nuno Nabais, Luís Osório...). Os concertos vão trazer-nos artistas como Júlio Resende e Marco Oliveira e haverá ainda um recital de poesia. Vai ser bom poder dar o braço às artes neste fim-de-semana.

Viajar com os livros

Alguns visitantes e aficionados deste blogue lembram-se seguramente de eu aqui ter falado de um livro da jornalista Isabel Lucas intitulado Viagem ao Sonho Americano, que reunia as suas reportagens sobre literatura norte-americana depois de visitar a um enorme número de Estados de norte a sul e de leste a oeste. A sua leitura é uma forma excelente de conhecer a América pelos livros; e de tal modo agradou aos leitores que a jornalista recebeu um convite para repetir a experiência com a literatura brasileira. Temos aí, portanto, ao nosso dispor Viagem ao País do Futuro (este «país do futuro» foi o nome que Stefan Zweig deu ao Brasil, onde se exilou e, paradoxalmente, acabaria por se suicidar) para ler e chorar por mais. Mas este país do futuro é mesmo um país do futuro? Não será antes um país onde muitas regiões ainda têm imensa gente a viver no passado (remeto-vos, por exemplo, para Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, livro incluído nesta viagem de Isabel Lucas)? Diverso, desigual, cheio de uma beleza que não acaba mas também de tantas contradições, o Brasil mostra-se aqui em todo o seu esplendor literário; Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, o grande Machado de Assis, Mário de Andrade, Milton Hatoum, Raduan Nassar, são alguns dos autores que fazem o mosaico brasileiro que Isabel Lucas agora nos oferece. O lançamento é mais logo, com apresentação de Abel Barros Baptista na Livraria Palavra de Viajante, em Lisboa. Não faltem.

Eça viajante

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Quando pensamos em Eça de Queiroz, pensamos imediatamente na sua veia de romancista, no seu humor, na sua crítica social, no seu apurado sentido de observação. Não nos vem imediatamente à cabeça o Eça que viveu noutros países, foi diplomata e olhou para Portugal lá de fora, embora, claro, conheçamos essas circunstâncias. Vale, porém, a pena olhar para um Eça diferente: o que viaja e escreve sobre o que vê. Entre os seus escritos, há muitas impressões de viagem (já aqui partilhei algumas sobre os horrores que achou de Havana), mas nos próprios romances, como A Cidade e as Serras ou A Relíquia, há dezenas de passagens que se referem a locais de viagem, como tão bem recordamos o 202 dos Champs Elysées em Paris. O livro muito recentemente publicado na colecção Terra Incógnita, da Quetzal, intitulado Outras Paragens, é uma antologia de textos publicados na imprensa pelo escritor maior das nossas letras e também de excertos retirados da sua obra romanesca. Deixo-vos, a finalizar o meu post, para fazer água na boca, uma citação que alegra a newsletter que anuncia este livro:


«Antigamente contava-se a viagem quando se tinha viajado.
Hoje empreende-se a viagem unicamente para se escrever o livro.»
Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra


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Humanidade

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Às vezes, fico deprimida com a forma como o mundo está a funcionar. Um dia destes fiquei parada numa rua à espera de que um automóvel, três lugares à frente do meu, descarregasse uma série de coisas (a segunda faixa foi substituída por uma ciclovia e todos tivemos de esperar pacientmente) e, enquanto ali estive, só vi pessoas a olharem para os telemóveis encostadas a prédios ou na paragem do autocarro. Estamos a criar seres mecânicos... Para recuperarmos a humanidade, leiamos então o magnífico e comovente e belíssimo Notas sobre Um Naufrágio, de Davide Enia, um livro que parte da experiência pessoal do autor na ilha de Lampedusa – aquela que antes da separação das placas tectónicas pertencia ao continente africano (é por isso que ainda é mais significativa a tentativa de chegar à ilha por tantos africanos) e que se tornou local de desembarques sucessivos – e ouçamos o escritor italiano, também actor e dramaturgo, conversar hoje à tarde com o encenador e grande leitor que é Jorge Silva Melo. Depois da mesa-redonda em Óbidos, moderada por Cândida Pinto, está na hora de ouvir falar o belo italiano (com tradução consecutiva) nesta sessão apoiada pelo Instituto Italiano de Cultura em Lisboa. Apareçam!


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Autor do mês

A Livraria Lello, no Porto, tem, entre outras iniciativas, a de «Autor do Mês». O escritor eleito tem, no seu mês, direito a um grande destaque da sua obra literária nas mesas e estantes, mas também pequenos objectos (entre eles, habitualmente, alguns manuscritos) expostos ao longo do espaço da livraria e, mais importante ainda!, um encontro presencial em que conversa sobre a sua vida e a sua escrita (presumo que nos tempos da pandemia terá sido impossível realizá-lo, mas graças a Deus as iniciativas deste tipo, mesmo que com a obrigação de inscrição prévia, estão de volta). O autor deste mês na Livraria Lello é o multifacetado Afonso Cruz, que estará logo às 21h00 a conversar com o jornalista Sérgio Almeida, também ele autor. Afonso Cruz é, para além de músico, cineasta, ilustrador e produtor de cerveja, aquele escritor que se pode dizer ter caído logo no início da carreira no goto do público e, como tal, ser um autor de sucesso; é também bastante versátil no que à literatura diz respeito, pois, entre os seus mais de trinta livros, podemos encontrar romances, contos, literatura infanto-juvenil, ensaios, poesia, teatro e até umas enciclopédias belíssimas que não sei como classificar. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais e  tem certamente muito para contar às gentes do Porto que possam ir ouvi-lo mais logo.

De pequenino

Falei aqui há tempos no blogue de uma iniciativa do Museu de Lamego e da Rede de Bibliotecas da mesma cidade que me pareceu muitíssimo meritória: a de envolver a população escolar na criação de textos literários, fosse em verso ou em prosa, a partir do património artístico da cidade. Numa primeira edição, os alunos tinham visitado o museu para escrever exclusivamente sobre peças do seu acervo. Mas agora o projecto das Estórias (Im)prováveis foi um pouco mais longe na desejável combinação de Escrita e Arte e passou a incluir os monumentos de Lamego, estendendo o património potencialmente inspirador e, com isso, aumentando também o número de concorrentes e a variedade dos textos a concurso. Estas histórias e poemas, que celebram a aproximação dos mais novos ao objecto artístico e as sensibilizam para o património da sua região, estão agora disponíveis para download gratuito no link abaixo. Que haja mais ideias destas pelo País fora é o que desejo!


https://bit.ly/Publicacao_EstoriasImprovaveis2020-2021

As crónicas

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Na capa, a rapariga bonita com um bebé loirinho ao colo chama logo por nós. Trata-se, de facto, uma fotografia belíssima dos anos 1940 de uma mãe com o seu primeiro filho, uma criança que ainda não sabia que viria a tornar-se um grande escritor. Falo de António Lobo Antunes, já de olhos notoriamente azuis, mesmo que a fotografia seja a preto e branco, e de um livro recentemente dado à estampa que não devemos evitar. Chama-se simplesmente As Crónicas e é uma colecção das melhores crónicas de Lobo Antunes organizada pela sua editora, Maria da Piedade Ferreira, que reuniu textos publicados na imprensa e ainda nove crónicas inéditas. O trabalho de Lobo Antunes cronista, ainda que durante muito tempo ele o tenha diminuído (chamando-lhe «prositas» e «coisinhas»), é genial e marcante, além de chegar a muitíssimo mais gente do que os seus romances que, como cita a crítica literária Teresa Carvalho no i, serão a sua «catedral de palavras». No entanto, às igrejinhas e capelas não se pode deixar de ir (é mesmo preciso fazer a peregrinação!) até porque, apesar de falarem fundamentalmente da vida do autor, remetem para hábitos e idiossincrasias de um país que é o de todos nós e para a nossa memória colectiva, tenhamos a idade que tivermos. Impossível não nos identificarmos e empatizarmos com estes textos. Obrigada ao escritor e à editora por este volume, prefaciado pelo nosso Presidente da República.


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RG ou GR (Georges Remi)?

Hoje venho sugerir uma exposição que está patente até ao dia 10 de Janeiro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Chama-se HERGÉ e leva o nome do autor de Banda Desenhada que inventou uma das personagens mais fantásticas de sempre: Tintim – o jovem repórter sem idade, de calças à golfe, cabelo louro com remoinho e cão sempre atrás, que fez as delícias de uma multidão de portugueses dos 7 aos 77 anos e com cujas aventuras eu aprendi as minhas primeiras palavras em francês nos álbuns de capa dura que pertenciam ao meu irmão mais velho. Mas a exposição mostra-nos também o Hergé que existiu antes e depois de Tintim: o pintor talentoso, o coleccionador de arte contemporânea, o designer e publicitário – enfim, as variadíssimas facetas que o tornaram um dos mais importantes artistas do século XX. A exposição, que é itinerante e tem origem num museu em Louvain-la-Neuve, na Bélgica, onde nasceu Georges Remi, que é o verdadeiro nome de Hergé (serão as iniciais ao contrário?), contou em Portugal com uma adaptação de Ana Vasconcelos. Tem ainda a vantagem de ser um programa ideal para adultos e crianças!


P. S. Sobre Tintim e pais que põem os filhos a ler, vale muito a pena ler a crónica de Miguel Esteves Cardoso do jornal Público de dia 13 deste mês.

Memórias

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É natural que, ao chegar a determinada idade, quem tenha tido uma vida cheia e conhecido muita gente interessante tenha vontade de escrever as suas memórias. Vários editores estrangeiros já o fizeram, sobretudo aqueles que viveram a edição em tempos mais íntimos e afáveis e sofreram o embate da concentração, dos grandes grupos, do primado dos marketeers, da iliteracia dos leitores que só compram lixo... Um dos mais conceituados editores brasileiros que conheço, embora não pessoalmente, fê-lo também. Trata-se de Luiz Schwarcz, o homem que fundou a grande editora Companhia das Letras, hoje pertença da Penguin Random House, na qual publica, por exemplo, João Tordo no Brasil. A editora sempre foi estupenda e certamente Schwarcz muito teria a contar sobre ela; mas, curiosamente, O Ar Que Me Falta (que tem por subtítulo História de Uma Curta Infância e de Uma Longa Depressão) não parece falar exclusivamente da sua vida nos livros, referindo-se antes à sua história familiar que é, creio, desconhecida de todos, e à sua luta contra a depressão. Espero que os livros o tenham salvo. O lançamento é hoje às 18h30,  na Fundação Saramago, e traduz-se numa conversa entre Schwarcz e a jornalista Isabel Lucas.


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Excerto da Quinzena

«Uma vez em que o avô me mandou comprar um pacote de esparguete [à loja do senhor Júlio], foi a mulher dele quem apareceu. Não tinha acabado de mastigar e de vez em quando uma espinha aflorava-lhe aos lábios e voltava para dentro, como um priosioneiro a fazer o que podia para se ver em liberdade. Tinha os olhos muito abertos. Sem mais, avançou para mim.


– Diz ao teu avô que são horas de comer – vociferou.


E disse ainda, aos gritos, que era preciso parar com aquela palhaçada. Que era todos os dias a mesma coisa. Queria comer em paz. Não me voltava a abrir a porta nem que estivesse a noite inteira a bater.


Quando acabou, as espinhas não estavam lá: tinha-as mastigado no meio dos insultos.»


Hugo Mezena, Gente Séria, Planeta, 2018

Estranhos encontros

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Lembro-me de há muitos anos, ainda eu estava na Temas e Debates, ter surgido um jovem romancista colombiano (nessa altura, ele morava em Barcelona) muito aplaudido na sua estreia. Tive mais tarde a oportunidade de o conhecer pessoalmente em Bogotá, já com sucesso firmado, pai de duas gémeas, com vários livros publicados e a conquistar um lugar maior na literatura colombiana. Chamava-se (chama-se) Juan Gabriel Vásquez e tornou-se um caso sério da literatura em castelhano, havendo até quem diga (talvez por ser ele também elegante e bonito) que vai ocupar o lugar de Vargas Llosa. Pois bem, Juan Gabriel Vásquez já esteve várias vezes em Portugal, numa delas para receber o Prémio das Correntes, noutra para uma conversa com o Primeiro-Ministro António Costa, que aprecia bastante a sua obra. Mas não é o único político a lê-lo, porque no próximo dia 19, às 18h30, o romancista volta a Portugal e, desta feita, vai «contracenar» na Casa da América Latina com... preparem-se... Paulo Portas. E eu que achava que os políticos tinham pouco tempo para ler... Curiosos? Pois inscrevam-se, que os lugares são contados. A sessão será moderada pela jornalista do Expresso, Luciana Leiderfarb.


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Óbidos

Óbidos é uma cidade literária por excelência, cheia de livrarias que tanto podem funcionar em igrejas como em mercearias, e tem todos os anos o seu festival FOLIO. Pois o deste ano começa já amanhã. Com a curadoria de Ana Sousa Dias e Pedro Sousa, é dedicado ao tema do Outro nas suas mais variadas acepções: o estranho, o estrangeiro, o louco, o migrante, o turista, o adversário... e eu sei lá que mais. Vai valer a pena porque vêm muitos autores estrangeiros para apresentar e discutir as mais variadas perspectivas do tema, como Itamar Vieira Junior, Leila Slimani, Juan Gabriel Vásquez, Ilya Leonard Pfeijffer, além de muitos escritores portugueses, como Isabel Lucas, José Luís Peixoto, Ana Bárbara Pedrosa e muitos outros. No dia 17 à noite, o músico e escritor caboverdiano Mário Lúcio Sousa dará um espectáculo com Teresa Salgueiro e, já no final do encontro, o italiano Davide Enia, de quem publiquei muito recentemente Notas sobre Um Naufrágio, vai estar numa mesa com o autor de Grand Hotel Europa para falarem de migrantes e viajantes sob a batuta da repórter Cândida Pinto. Mas há muito mais: sessões nas escolas, contadores de histórias, exposições, leituras de poesia e muito mais. De 14 a 24, um nunca acabar de boas razões para irmos a Óbidos. O programa no link abaixo:


http://foliofestival.com/download/FOLIO2021-programa.pdf


 

Olive veio para ficar

No Verão falei-vos do primeiro romance que li de Elizabeth Strout (O Meu Nome É Lucy Barton) e no Outono falo-vos de Olive Kitteridge, romance da mesma autora que, com ele, venceu muito justamente o prémio Pulitzer. O livro tem, antes de tudo, uma protagonista inesquecível: ao contrário da maioria das personagens femininas que hoje se passeiam pela ficção premiada, Olive é sincera, cáustica, incorrecta, bruta, enfim, autêntica e, como todas as pessoas reais, com várias atitudes infelizes ao longo da vida (de que nem por isso se arrepende muito). Já a puseram numa série que ganhou um Emmy, mas não sei dizer se é boa ou má nem se podemos vê-la em Portugal. Do livro, sim, posso dizer muita coisa: que é profundamente original, com uma estrutura montada a partir de histórias independentes nas quais Olive às vezes não se demora mais de uns segundos (muitas foram, aliás, publicadas autonomamente em revistas); que é incrivelmente humano numa época em que a literatura está cheia de exemplos de plástico onde só há vítimas ou pessoas politicamente correctas e bem-comportadas (aqui há sangue e carne, para o bem e para o mal); que é um retrato de uma certa América com muita gente ignorante que tem o crime à distância de um gesto ou de um pensamento (matar à facada, pôr fogo...), deprimidos, traumatizados, burros, e bons também (Henry, o marido de Olive, é tão bom que o adoramos logo nas primeiras páginas); que é uma leitura nada óbvia que nos enriquece e que puxa por nós, como já raramente encontramos quando lemos livros há cinquenta e tal anos. Uma boa notícia: Olive veio para ficar e existe um segundo livro recentemente publicado em Portugal chamado A Segunda Vida de Olive Kitteridge. Não vos posso contar como acaba a primeira, mas também não vou perder a nova. Façam o mesmo, vale muito a pena.

Do bom e do bonito

José Carlos Barros, de quem há uns anos publiquei o romance Um Amigo para o Inverno, finalista do Prémio LeYa (leiam-no, por favor!), é quanto a mim um dos mais interessantes poetas da actualidade. Não só os seus livros de poesia são bons, como são cada vez melhores. E têm uma coisa que eu adoro em livros de poesia: não são meras colecções de poemas, são projectos unos, com uma ideia agregadora. Estes de que hoje falo pertencem ao livro Penélope Escreve a Ulisses e congregam uma série de textos dactilografados numa velhinha máquina de escrever. O editor, Guilherme Pires, da Caixa Alta, fez do conjunto um livro quase demasiado belo para ser verdade (talvez até pela sua sensibilidade às velhas máquinas de escrever, que colecciona e repara): um objecto bonito que merece o que tem dentro, ou vice versa. Sei que aqui no blogue está tudo mais virado para a prosa, mas por favor não percam esta pérola, juntem-na ao vosso colar de leituras e, garanto, ficarão mais ricos. Um pequeno exemplo (infelizmente aqui não posso respeitar o tipo de letra de máquina porque as definições do blogue não o permitem), mas há tantos poemas tão simplesmente lindos neste livro que podia ser qualquer outro:


 


Manhã


 


A manhã chegava


com os cabelos ainda


desatados


 


que sabíamos nós do mundo


senão fazer-lhe


uma trança?

No jardim

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Desde que entrei na LeYa, vai para doze anos, não me lembro de ter feito um lançamento que não fosse o tradicional. Mas, na minha vida de editora, já apresentei um livro em passeio pelo Tejo (estava então na Temas e Debates e tratava-se de um romance fotográfico de Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena), já assisti a um lançamento de uma biografia juvenil de Mozart com um concerto na Casa da Música e já lancei em terra de boa ginja (Óbidos) num sala onde se podia beber um livro sobre esse fruto. Agora, se tudo correr bem, vamos aterrar no jardim da Biblioteca do Palácio Galveias e deixar a miudagem brincar ao mesmo tempo que ouve rimas, desenha, pinta vê o desenhador desenhar. Queira Deus (e S. Pedro, já agora) que o tempo se porte à altura porque o livro merece conviver com a relva, o ar puro, as brincadeiras e tudo o mais. Trata-se de O Meu Cavalo Indomável, de David Machado e Ricardo Ladeira, e contamos divertir-nos bastante com os autores, os actores Ana Sofia Paiva e Sandro William Junqueira, os contadores de histórias e, claro, os miúdos. se lhe apetecer, apareça!


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Actos de coragem

Li um artigo extremamente interessante sobre um professor universitário de Filosofia em Portland que bateu com a porta, dizendo que, infelizmente, a universidade onde ensinava há tantos anos sacrificou as ideias à ideologia. Alegando que, quanto mais tentou combater o iliberalismo mais retaliações teve (suspensão, inclusive), Peter Boghossian escreveu à reitora uma carta de demissão, dizendo que a sua especialidade foi sempre o pensamento crítico, a ética e o método socrático, mas que deixou de os poder pôr em prática na instituição onde os alunos já têm medo de falar e da censura dos colegas. Parece que, além de ensinar os filósofos clássicos, Boghossian convidou para as suas aulas todo o tipo de palestrantes, no sentido de estimular o pensamento crítico e o debate, desde advogados de Wall Street a gurus religiosos ou cépticos das alterações climáticas; mas, como se tratava de personalidades polémicas, os alunos queixaram-se e, em vez de explicar as funcionalidades da coisa, a direcção mandou o senhor uns tempos para casa. O professor considerou então que a faculdade se demitiu do seu papel de ouvir pessoas com opiniões e crenças diferentes e falar abertamente de tudo, formando os alunos para pensarem todos da mesma maneira e não fazerem ondas. Pior: a instituição considerou alguns filósofos machistas e proibiu que fossem ensinados... Afinal, quem pregava inclusão e diversidade não as praticava. Boghossian bateu com a porta e fez bem. Mas é uma pinguinha no oceano, pois na verdade muitas universidades em todo o mundo se tornaram guetos de ideologia sem ideias, um perigo que manda os génios e os válidos para as masmorras como no tempo de Galileu e deixa os imbecis a liderar... Se quiserem ler a carta, aqui a têm:


https://bariweiss.substack.com/p/my-university-sacrificed-ideas-for?utm_campaign=post&utm_medium=web&utm_source=facebook&fbclid=IwAR2rEySMWz43sx73rWiiUfoxWC4A4CtbWuV7ygBErG7j48sPV6c0Kdh-GW4

Videoconferências

A EC.ON, Escola de Escritas Online, está a brindar-nos com as suas Sessões Ícone (é a 19ª vez!) desde o último sábado. E desta feita o tema das Videoconferências é, no mínimo, polémico: Tempo de Amnésias vs Mediações Literárias. Parece algo pomposo, bem sei, mas quando vemos os participantes ficamos imediatamente de orelha arrebitada. No último sábado (desculpem, não fui a tempo de avisar), a conferência esteve a cargo do escritor e professor universitário Helder Macedo e no dia 16 deste mês estarão a oferecer-nos a sua visão os autores do programa de poesia Nada Será como Dante e excelentes diseurs Filipa Leal (poeta) e Pedro Lamares (actor). Uma semana depois teremos a jornalista e poeta Inês Fonseca Santos e no dia 30 será a vez de Valter Hugo Mãe. Em Novembro poderemos escutar a bióloga e escritora Clara Pinto Correia e, já em Dezembro, a programadora cultural Manuela Ribeiro, que organiza o encontro Correntes d'Escritas há mais de vinte anos, e o jornalista, letrista e programador Nuno Miguel Guedes, que encerra as sessões. Sempre ao sábado! Saiba tudo aqui:


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Livros para sempre

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Talvez por se ter estreado no Verão, ainda aqui não falei da maravilha que é ter em Portugal a colecção de Clássicos da Penguin, aqueles livrinhos com capas lindas que todos os que lemos em inglês estamos fartos de «lamber» nas montras, comprar e cobiçar e que, finalmente, se encontram entre nós, traduzidos em português e editados pela Penguin Random House. A colecção completa 75 anos em Inglaterra e, na sua génese, era uma aposta em divulgar os clássicos de vários géneros (ficção, poesia e ensaio) a bons preços e num formato simpático para o público em geral, numa afirmação de que a literatura não é coisa apenas de elites intelectuais. Por cá já foram lançados os primeiros sete títulos, incuindo alguns em língua portuguesa (Os Maias, O Livro de Cesário Verde ou Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto) e também obras emblemáticas como A Metamorfose, de Kafka, A Quinta dos Animais, de George Orwell, ou Um Quarto Só Seu, de Virginia Woolf. Estes livros são sempre prefaciados, como é o caso de Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, de Rosseau, que conta com prefácio de Francisco Louçã. «Classicizemo-nos!»


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O que ando a ler

Como qualquer pessoa que estudou Literatura Inglesa na universidade, detive-me, claro, na obra de Shakespeare; mas a sua vida nunca foi flor que se abrisse nessas aulas, até porque houve sempre muito mito e pouca certeza sobre a vida de um dos mais incríveis criadores de sempre. Talvez até por desconhecer os pormenores da sua vida familiar (pai, mãe, irmãos, mulher, filhos, e a relação de William com todos eles), li com ainda maior interesse e curiosidade o romance Hamnet, de Maggie O’Farrell, que conta, com base na informação realmente existente e com uma pequena dose de ficção bem-vinda (de resto, assumida pela escritora), como o génio do teatro conheceu a mulher que o enfeitiçou, como se casaram e tiveram três filhos, como um desses filhos, Hamnet, morreu ainda criança e como os pais e as irmãs (mas sobretudo a mãe) reagiram a esse episódio trágico. Extremamente poético, visual, com descrições belíssimas do campo e cheio de nomes de ervas e plantas que enchem o ouvido e cheiram bem, esta é uma prosa muito rica de uma autora que apetece acompanhar. O romance venceu no ano passado o Women’s Prize for Fiction e foi considerado “excepcional” pela New Yorker, um excelente sinal. A tradução é de Margarida Periquito.


 

Excerto da Quinzena

(Excepcionalmente hoje, porque amanhã é dia de dizer o que andamos a ler.)


Detesto as boas donas de casa. Se são pobres, esfalfam-se a trabalhar, se são remediadas ou ricas arranjam uma ou mais pessoas para se esfalfarem em seu lugar. De qualquer dos modos são escravas do trabalho ou então da vigilância com outras escravas às suas ordens. A vida a correr lá fora, os maridos e os filhos a correrem com a vida, metidos nela, e as donas de casa a esfregar, a limpar, a dar brilho aos metais. Ou a ver as outras a fazê-lo. Olhe que o pó não está bem limpo. Olhe que a torneira não está bem areada. Isto não pode continuar assim, isto tem de acabar, olá se tem! O que a vida já correu e elas sem a verem. Sem darem por nada. Ficaram sozinhas e não se dão conta. O marido morreu sem nunca ali ter estado, os filhos fugiram para se casar com outras donas de casa que estavam escondidas dentro de raparigas bonitas, alegres e apaixonadas.


Maria Judite de Carvalho, Tanta Gente, Mariana


 

A família indo-portuguesa

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A escritora Raquel Ochoa, de quem já publiquei livros de ficção e não-ficção, estreou-se com um romance que lhe valeu o Prémio Literário Agustina Bessa-Luís e já vai em dez edições... Chama-se A Casa-Comboio e conta a história de quatro gerações de uma família indo-portuguesa, cristãos que residem em Damão e acabam em Lisboa. Honorato, Rudolfo, Baltazar e Clara são os fios que ligam a saga fascinante dos Carcomo ao longo de mais de um século. Habitando uma espécie de «casa-comboio», a sua história é baseada na de uma família verdadeira e a autora visitou a maioria dos locais onde tudo aconteceu. Com uma notável capacidade de efabulação, elogiada na atribuição do prémio por Vasco Graça Moura, que então pertencia ao júri, a autora abre-nos a janela sobre o modus vivendi de tantos indo-portugueses – quer a experiência feliz, quer a traumática, em territórios como Goa, Damão e Diu, outrora sob o domínio da Coroa e do Estado portugueses e hoje bastante esquecidos. Se gosta de romance histórico e tem, como tantos, fascínio por esse país tão especial, não perca.


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Saramago

José Saramago foi, até hoje, o nosso único Prémio Nobel da Literatura e é, por isso, natural que nos orgulhemos dele, ainda que possamos preferir os livros de outros autores ou até achemos que outros escritores portugueses ou de língua portuguesa teriam merecido receber a mesma distinção. Mas isso não menoriza o trabalho de Saramago nem nos deve privar de o celebrar de muitas formas. E é isso, no fundo, que fará a Fundação José Saramago e os seus parceiros nesta iniciativa, incluindo o Plano Nacional de Leitura, começando as comemorações do centenário do escritor exactamente um ano antes de ele se completar, ou seja, no próximo dia 16 de Novembro de 2021. O programa foi recentemente apresentado e não vale a pena estar a descrevê-lo aqui, pois mais fácil será deixar a cada um tempo para a respectiva leitura, já que, num ano, muita coisa acontecerá. Assim, deixo-vos o link para festejarem o escritor nas datas e das formas que melhor entenderem. Mas juntem-se à festa lendo-o e relendo-o, que é o mais importante.


Plano Nacional de Leitura (pnl2027.gov.pt)


 

Aviso

Estas minhas Horas Extraordinárias já fizeram mais de dez anos; e, embora quem comente no blogue sejam quase sempre as mesmas pessoas (que já se instalaram neste salão há muito e nele parecem sentir-se bem), a verdade é que aqueles que o consultam ou lêem e dos quais não sabemos o nome são muitos mais e têm aumentado de número com o tempo (quiçá porque acompanhavam outros blogues que entretanto fecharam). Mas isso tem levado a uma situação um pouco incómoda, que é a de eu ter passado a receber quase todos os dias newsletters de editoras brasileiras e portuguesas e pedidos de morada para envio de exemplares de livros, com vista a uma referência ou crítica aqui no blogue. Ora, para que fique claro, eu falo nas minhas Horas Extraordinárias sobretudo de duas coisas: dos livros que publico e que gostaria muito que os Extraordinários lessem; e dos livros que leio nas minhas «horas extraordinárias», publicados por outras editoras, quando os compro tendo em conta os seus autores, ou o que pessoas e meios de comunicação sobre eles dizem, ou ainda os prémios que eventualmente vencem. Mais nada. Mesmo assim, atenção, nada do que aqui escrevo passa de um comentário pessoal e sempre subjectivo, e que isso não se confunda por favor com crítica literária ou recensão ou algo mais académico. Não me considero, por fim, uma influencer... Saiba por isso quem me lê aqui que já não tenho estantes livres em casa e que, mesmo que me mandem livros, só vou falar deles se os acabar por ler e gostar. Poupem no correio, sobretudo nesse que vem de tão longe. Obrigada na mesma, mas não tenho mais tempo para poder fazer essas leituras.

O preço das coisas maravilhosas

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Qual o peso da família nas nossas vidas, e qual o peso do dinheiro? Que acontece quando uma mãe decide não cuidar da sua filha, e quando uma filha decide não cuidar da sua mãe? Seríamos diferentes se tivéssemos nascido noutro sítio, noutro tempo, noutro corpo? Em As Maravilhas, romance de Elena Medel vencedor do Prémio para Melhor Livro do Ano em 2020 no país vizinho, há duas mulheres: María, que em finais dos anos sessenta deixa a sua vida numa cidade de província para trabalhar em Madrid; e Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos mais tarde, mas por razões diferentes. E há, claro, a mulher que as une e de quem praticamente não se fala: filha de uma e mãe da outra. Este é um romance sobre o dinheiro, ou melhor, sobre como a falta de dinheiro pode determinar uma vida inteira de precariedade e matar todos os sonhos. Mas é também uma história sobre o passado recente da Península Ibérica, desde finais da ditadura até à explosão do feminismo, contada por duas mulheres que tão-pouco podem ir às manifestações lutar pelos seus direitos porque têm, claro, de trabalhar. Saudado por José Luís Peixoto («Entre o que há de melhor na literatura contemporânea») e Valter Hugo Mãe («Aleluia que chegou a Portugal»), As Maravilhas acaba de ser publicado e agora precisa de ser lido.


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Nervosíssimos

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Já aqui falei mais de uma vez de uma revista de poesia chamada Nervo; e, se lhe desejei sorte no arranque, pois a verdade é que agora chegou a hora de lhe dar os parabéns, pois, num país que se diz de poetas, mas no qual as pessoas aparentemente não compram livros de poesia (as tiragens são sempre tão pequenas...), a Nervo, com a energia e a força da sua mentora e poeta, Maria de Fátima Roldão, chegou há poucos dias a uma dúzia de números publicados, o que é obra e obra louvável. Se quisermos ser exaustivos, são quatro anos de poemas, um número publicado previsivelmente a cada quatro meses (mesmo com o raio da pandemia pelo meio!). Foram 152 poetas no total, entre portugueses (117) e estrangeiros (35), estes últimos com traduções incríveis de variadíssimas línguas (hebraico e neerlandês, entre outras). Foram também mais de uma dúzia de artistas plásticos que conceberam trabalhos de grande qualidade para a capa e o interior numa grande sintonia entre palavra e imagem. Venham mais doze, é o que me apetece dizer, e parabéns aos implicados e aos leitores que a compram, lêem e tornam possível. Toca a ler poesia!


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O divino escritor

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No passado dia 14 comemoraram-se 700 anos sobre a morte do grande poeta Dante Alighieri, o autor de A Divina Comédia e, simultaneamente, o primeiro escritor a usar o «italiano» como língua literária. Vasco Graça Moura traduziu o «calhamaço» que está, de resto, publicado na Quetzal; e fê-lo em verso, respeitando a rima, o que ainda é mais difícil. É talvez por isso um pouco difícil de seguir, pois não é exactamente uma tradução, mas uma criação poética a partir do original (e, por vezes, as paráfrases resultam um pouco arrevezadas no intuito de se salvar a métrica e a harmonia musical). Mais clara é uma tradução recente feita em Espanha, embora não em verso, por José-María Micó (que, além de ser um excelente tradutor e poeta, toca muito bem guitarra e acompanha a sua mulher, Marta, que canta). Trata-se de uma tradução quiçá menos «criativa» do que a de Graça Moura, mas fundamental para os que conhecem mal a história daquele período (em Florença, sobretudo), porque inclui anotações preciosas. Ambas as traduções são bilingues e, de certa forma, complementares para quem queira conhecer a Divina Comédia. Já para quem queira conhecer o seu autor, o Dante que é também o narrador e a personagem da Comédia, aquele que visita o Inferno, o Purgatório e o Paraíso guiado por Virgílio, o autor da Eneida, saiu agorinha pela mesma Quetzal uma biografia exaustiva da autoria de Alessandro Barbero intitulada Dante: Uma Vida, que conta de fio a pavio a existência deste homem genial marcado pelo exílio, pela escrita e pelo amor. Não vamos poder perdê-la.


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Para o outro

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Num momento em que «receber o outro» está na ordem do dia, sobretudo pelo que aconteceu com a tomada do poder pelos Talibãs no Afeganistão, destaco um livro dedicado ao Outro, de um escritor italiano, Davide Enia, que resolveu levar a cabo uma tarefa invulgar (testemunhar dezenas de desembarques de migrantes na ilha de Lampedusa) e nos oferece um livro absolutamente imperdível, comovente e humano como poucos sobre a matéria. (Chorei em muitas páginas, e a tradutora, Tânia Ganho, também.) Misto de romance e reportagem, Notas sobre Um Naufrágio fala com todos e de todos: os que atravessaram vários países, e depois o mar, para chegarem à Europa em condições inimagináveis – rapazes feridos e nus, raparigas violadas e grávidas, crianças e adultos que viram morrer familiares durante a travessia; e dos que os ajudam a desembarcar – voluntários, mergulhadores, pessoal médico, a Guarda Costeira… No meio, fica o autor, para contar sem paninhos quentes o que realmente acontece em terra e no mar e como as palavras são manifestamente insuficientes para compreender os paradoxos do presente. Lampedusa é também o lugar onde se reinventa a relação de Davide Enia com o próprio pai, um médico recém-aposentado que o acompanha à ilha por mais de uma vez. Testemunharem juntos o sofrimento público e a tragédia dos migrantes ajuda-os a construir um diálogo privado completamente novo que substitui os silêncios do passado e mitiga a dor de ambos com a doença de um familiar muito próximo. Notas sobre Um Naufrágio é uma obra-prima que trata da  tremenda fragilidade da vida humana. Profundamente actual e necessário. O autor estará no FOLIO em Outubro.


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Vinte anos

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Praticamente ao mesmo tempo que comemoramos os vinte anos de um dos mais tremendos acontecimentos históricos de sempre (sim, refiro-me aos atentados em Nova Iorque do dia 11 de Setembro de 2001) reparo que a Quetzal faz sair uma edição belíssima, comemorativa dos mesmíssimos vinte anos da publicação da estreia literária de José Luís Peixoto, Morreste-me  (cuja primeira edição comercial tive o orgulho de publicar  na Temas e Debates e que teve até uma edição especial com os direitos a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro). Aquilo que começou por ser um texto publicado por um rapaz ainda muitíssimo jovem no suplemento DN Jovem (no qual tantos autores deram os primeiros passos na carreira das letras, poetas e ficcionistas) acabaria por transformar-se num livro extremamente falado, lido, comentado e estudado em todo o mundo sobre a morte de um pai amado e próximo, sobre o luto, a ausência e as recordações, sobre a incapacidade de viver sem essa presença marcante e, ao mesmo tempo, sobre como esse diálogo, essa espécie de carta do filho ao pai, acaba por ser a salvação. Se nunca o leram, está na hora. Impossível não sentir empatia e compaixão. Maravilhoso, comovente e realmente incrível quando pensamos que este foi o embrião de tanta coisa.


 


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