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A mostrar mensagens de janeiro, 2012

Lixo e Lídia

As agências de rating classificam Portugal como lixo, para não dizer outra coisa pior. Bem sabemos que são americanas e que, num momento como este, faz bem aos Estados Unidos desviar as atenções do seu próprio estado calamitoso e cascar todos os dias nos países do Sul da Europa (até a França já começou a comer). Em todo o caso, não é a primeira vez que vejo a palavra «lixo» associada a Portugal. Num ensaio francamente interessante que a escritora Lídia Jorge escreveu há tempos para uma colecção dirigida pelo jornalista António José Teixeira (e que, tanto quanto sei, está mais ou menos parada), o ponto de partida era precisamente uma placa colocada num lugar onde Espanha deixa de ser Espanha para avisar quem vem que mudou de país. Ora, por baixo da palavra Portugal, alguém rabiscara a preto-preto, ao que parece, a palavra «lixo», e nem vale a pena perguntar se de lá, se de cá, porque não era basura que ali se podia ler. É esta a circunstância que serve de motor de arranque a Contrato Sentimental, um livro que fala sobre a nossa identidade e os nossos problemas com a pátria e não omite aspectos como a língua, a educação, a imprensa e as cidades que temos, entre muitas mais coisas. Se ainda aqui não tinha falado dele – o que é provável, dado que o livro saiu ainda eu não usava blogue e é dos que ainda está num limbo-estante para ser arrumado – aqui vai a sugestão. De qualquer modo, a acusação de lixo recordou-me uma bela frase que uma personagem diz na comédia cinematográfica Bem-Vindo ao Sul: Quando um habitante de um país do Norte vem viver para um país do Sul chora quando chega. Mas chora mais ainda quando se tem de ir embora...

Tarde demais ou em modo minúsculo

Ouvi recentemente numa reunião com o director comercial da LeYa que um livro tem uma esperança de vida média de sete semanas. Sete semanas durante as quais, com ou sem ajuda, terá de se vender e sair da livraria, pois, de contrário, sairá também, mas devolvido e para os armazéns da editora – e é quase garantido que não voltará a pôr lá os pés (na livraria, entenda-se). Tratando-se de um livro de um estreante, português ou estrangeiro, é preciso, pois, torná-lo minimamente conhecido ou «badalado» antes da saída, ou tentar que as críticas cheguem em cima da publicação para que alguma atenção recaia sobre ele durante essas míseras sete semanas. O problema é que há muito pouco espaço para falar de livros na nossa comunicação social – menos ainda para livros de desconhecidos, sobretudo se a saída destes coincide com a de outros títulos mais sonantes com direito natural a uma ou mais páginas. Então, não é raro que os mais necessitados se vejam confinados a uma colunazita de nada que, por bem intencionada que seja, não ajuda muito; ou, o que é pior, a um espaço efectivamente mais amplo mas, sim, sete semanas depois do que era preciso... Ou mais. Já vi críticas que saíram um ano depois da publicação dos livros a que diziam respeito. Não serviram a quem as escreveu nem a quem publicou o livro. Talvez sejam iguais ao silêncio, enfim.

As mulheres doentes

Dizem que as mulheres são boas doentes: metem-se na cama e querem é que as deixem em paz. Percebem que a febre é uma coisa passageira. Não fazem ondas nem chateiam especialmente os maridos, filhos, pais, quem com elas viva, enfim. Exceptuando as hipocondríacas, bem entendido. Já dos homens se diz o contrário, embora eu tenha sorte com o Manel, que é, até ver, um óptimo doente, inclusive porque recupera quase sempre com uma rapidez estonteante (uma aspirina e fica como novo). Mas, na generalidade, um homem com gripe é uma dor de cabeça para a família inteira, e quem o diz é o nosso Lobo Antunes, que escreveu estes versos deliciosos e muito a propósito:


 


Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes, que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte, nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças,
Tigres sem listras, bodes sem tranças,
Choros de coruja, risos de grilo,
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo.
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão-de-ló,
Não te levantes, que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer.

Genialidade e destreza

O meu pai era um homem muito inteligente – e estou à vontade para o dizer porque levei a vida toda a ouvir quem o conheceu dizer-me a mesma coisa. Ainda hoje, quando alguém olha para o meu apelido e me pergunta se sou filha dele, à resposta afirmativa segue-se quase sempre uma frase atestando a genialidade do progenitor. Mas, apesar dela, o Luiz Pedreira tinha alguns problemas em atravessar ruas (levava uma eternidade), guiar automóveis (ia em segunda uma eternidade) e levantar dinheiro num multibanco (pedia à minha irmã). Conheci muita gente inteligente que nunca conseguiu tirar a carta de condução e acabo de ler no El País que Vargas Llosa não usa telemóvel nem correio electrónico (duas das razões que apontou para não poder aceitar o convite para dirigir o Cervantes). Cá em Portugal, lembro-me, por exemplo, de que Eduardo Lourenço continua a escrever à mão e já aqui contei uma história sobre ele e um fax que mostrava o seu pouco jeito para as máquinas. Um dia destes, contaram-me que Lobo Antunes só viaja sozinho se os voos forem directos, porque receia escalas e transbordos e não quer ficar perdido no meio do mundo; e o escritor Juan Goytisolo confessou num artigo que li recentemente que não fazia a mais pequena ideia do que era um iPad ou um iPhone e ainda escrevia com caneta, não tendo sequer passado pela máquina de escrever. É divertido ver como a inteligência tem tão pouco que ver com a destreza de carregar em botões... Assim, quando vemos um piolho ganhar um jogo de computador logo à primeira, não quer dizer que seja necessariamente inteligente.

Gripe e futilidade

Tive uma gripe dos diabos na semana passada: febrão, dores no corpo, a garganta arranhada, falta de apetite, enfim, uma incapacidade de ser eu mesma por alguns dias – e, quando digo «eu mesma», estou a falar de uma pessoa que lê habitualmente coisas de jeito. Assim, os dias em casa não puderam ser aproveitados em grandes leituras, os olhos fechando-se ou lacrimejando a maior parte do tempo. Ao fim de quarenta e oito horas melhorei ligeiramente, mas ainda mantinha os sentidos embotados: consegui ler as gordas de um jornal diário sem absorver grande coisa e, percebendo que não valia a pena insistir, tirei do saco de jornais que o Manel trouxe da rua uma revista que, pelos vistos, vem com o El País aos sábados e é dedicada à moda e às mulheres (o Babelia teria de aguardar tempos de maior lucidez). Pois foi uma boa surpresa: embora se trate de material com pouco que ler, a dita revista, chamada S Moda (imagino que o S venha de sábado, mas não tenho a certeza), é um primor em termos de produção e fotografia de moda. Num artigo de fundo sobre os grandes da moda espanhola nos últimos vinte anos (Zara incluída), um conjunto de fotografias protagonizadas por estilistas, sapateiros, joalheiros e modelos arrumados como personagens em cenários belíssimos fez-me lembrar cartazes de bons filmes franceses, italianos e americanos de há décadas, baseados de preferência em bons romances. Uma outra secção, dedicada desta feita a chefs de cozinha, parecia recriar personagens de livros bastante conhecidos – da Recherche à Origem das Espécies, de Tintim às aventuras de Verne. Tenho de confessar que nunca tinha folheado a S, porque ela não costuma sair do saco (tira-se o Babelia e já está), e fiquei impressionada com o aspecto gráfico e a qualidade de impressão. Para a semana, vou ver se a coisa se mantém, se foi tudo um delírio da febre. É que ver arte e literatura numa revista para mulheres pode ser excesso de optimismo ou simplesmente miopia gripal...

Dilema

Os artigos a favor e contra o Acordo Ortográfico, vindos de quem usa a caneta profissionalmente e de quem nada tem, à partida, que ver com as questões da língua, mas quer, mesmo assim, dar a sua opinião, têm-se multiplicado nas últimas semanas. Só para dar dois exemplos, no mesmo sábado escreveram sobre o assunto nos jornais Pedro Mexia e Bagão Félix, ambos contra o dito. Não escondo que também não me agrada o acordo e continuo a escrever à maneira antiga (as coisas antigas têm certo charme, de resto, mas não é por isso), embora a publicar alguns autores que já usam a nova ortografia. Mas agora fui colocada perante um dilema. Encomendaram-me um livro para crianças (de que falarei oportunamente), e o meu computador, que reclama actualizações semanalmente, começou a corrigir-me os "supostos" erros. Era realmente meia dúzia de palavras que perdiam o C (como espectáculo e electricidade) e pouco mais; mas, antes de lhes devolver a consoante desaparecida, pus-me a pensar que as crianças daquela idade já têm os manuais e livros de leitura com a nova ortografia e se calhar só lhes vou arranjar sarilhos numa idade em que precisam é de aprender a ler e escrever com o mínimo de ruído possível. Devo ser consistente ou volátil? Egoísta ou altruísta? Reservar a ortografia do meu coração só para quem a aprendeu nos bancos da escola e usar a nova para os fedelhos? Que fazer, em suma?

História de família

Prometi voltar quando tivesse o livro lido e cá estou eu. Os Malaquias – assim se chama o romance vencedor do último Prémio Literário José Saramago – ainda não está disponível em livraria, mas, se por acaso é sócio do Círculo de Leitores, não hesite, pois, além de uma leitura de qualidade, terá um objecto bem bonito nas mãos. Partindo de um episódio real que aconteceu na família da autora, Andréa del Fuego – a história de três irmãos que ficam órfãos na noite em que um raio fulmina os seus pais num casebre da Serra Morena –, a obra mistura a vida difícil de três miúdos que acabam por separar-se (e cujo futuro se adivinha penoso e triste) com um toque de realismo mágico que, entre outras coisas, faz viajar no corpo de um deles gente que morreu e acabou por transformar-se em partículas de pó, gás, suor, o que for. Escrita de forma muito especial, poética, ternurenta, mas também cruel quando é preciso, esta saga – autobiográfica ou não – convence e é mais parecida no tom com o Jorge Amado dos Capitães da Areia do que com a literatura brasileira contemporânea, mais desprendida e desconcertante. Mesmo achando que o fim precisava de um jeitinho, recomendo.

Fado meu

Fiquei extremamente feliz quando a Unesco considerou o Fado Património Imaterial da Humanidade há pouco mais de um mês – e só não escrevi logo um post entusiasmado porque na altura estava no México, na Feira do Livro de Guadalajara, e no meu hotel as tecnologias funcionavam mal e às vezes precisava de esperar 40 minutos para receber um email. Tenho desde pequena uma grande ligação e amor ao fado, sobretudo porque o mau pai era um boémio e levava-nos muitas vezes a ouvi-lo ao vivo. E, na medida do possível, vou acompanhando o que se faz e ouvindo o que sai. Foi com muito medo que fiz as minhas primeiras letras para o Carlos do Carmo e a Aldina Duarte, mas agora tomei-lhe o gosto e tenho um prazer imenso em escrevê-las, mesmo que umas me saiam melhor do que outras. Há algumas semanas, estive a «produzir» para o António Zambujo, que tem uma voz belíssima e uma afinação invejável, e estou mortinha por ver o resultado. Neste ano, também sairá um disco da Mísia, para quem fiz a letra de um fado que, afinal, não é um fado, mas uma espécie de tango. Dei ainda algumas letras ao Ricardo Ribeiro, que pensava fazer um álbum com o Pedro Jóia, mas ainda não sei se o projecto – ou as letras – vai para a frente. A fadista Carminho também mostrou interesse em que, no próximo disco (gravou um agora mesmo), eu trabalhe para ela. Enfim, se a edição deixar de precisar de mim, talvez o fado me queira.

Romance em imagens

Conhecia romances gráficos – até Paul Auster escreveu um – e, no fundo, não são muito diferentes da banda desenhada. O que não conhecia até à data era um romance em imagens, fotografias sobretudo, que compõem uma colecção com ar de poder ser vendida em leilão. E é exactamente assim o livro que tenho na mão, intitulado Artefactos Importantes e Objetos Pessoais da Coleção de Leonore Doolan e Harold Morris, Incluindo Livros, Roupa e Acessórios, publicado como um catálogo dos Leiloeiros Strachan & Quinn (quiçá os nomes são os dos autores). Folheando-o brevemente, parece o que anuncia: um catálogo com grafismo de catálogo, muito cuidado, com fotografias de pessoas, objectos, roupa, bilhetes de amor e respectivas legendas classificativas. Mas, bem vistas as coisas, é um romance, a história de amor entre duas pessoas. Ainda não li de fio a pavio, mas parece-me uma ideia inegavelmente interessante e original, se não mesmo a explorar. Parabéns a quem a teve, evidentemente. Espreitem, que vale a pena, e não se fiquem por ver, pois a leitura muda tudo.

Ventos do Brasil

Sou conhecida por alguns como a editora que, até hoje, mais Prémios Saramago arrecadou para os seus autores. Não é auto-elogio, porque em Portugal não são assim muitos os editores que se dedicam a procurar, como agulha em palheiro, a voz que faça a diferença; e, como eu adoro fazê-lo, é também natural que some mais autores novos do que conhecidos e consagrados. De qualquer maneira, na mais recente edição do prémio, não pude concorrer por não ter editado nos dois anos anteriores nenhum autor com menos de 35 anos. Fui, de qualquer modo, saber em directo quem era o premiado, não fosse algum colega ter começado a passar-me a perna. E fiquei a conhecer Andréa del Fuego, brasileira, autora de Os Malaquias, romance que mereceu o galardão e é inspirado num episódio que ocorreu na família da autora, como ela fez questão de avançar ao receber o prémio. O Círculo de Leitores lança-o para o mercado em Janeiro, mas logo depois ficará disponível em livraria com a chancela da Porto Editora. Ofereceram-me carinhosamente um exemplar antes de estar à venda e vou a meio. Lindíssimo, a lembrar um pouco um Jorge Amado dos nossos tempos. Quando acabar, decerto farei um post mais detalhado a propósito. Mas, para já, fiquem atentos.

2012 e os novos autores

Fui para a LeYa com a incumbência específica de publicar novos autores literários de língua portuguesa. Parece mentira, mas já lá vão dois anos... Em todo o caso, foi uma alegria ter podido dar à estampa, ainda no primeiro ano, o romance de estreia de André Gago, Rio Homem, que acabou por ser galardoado com o Prémio PEN Revelação, e o livro de Vasco Luís Curado, A Vida Verdadeira; e, já no ano passado, os romances de Pedro Guilherme-Moreira, A Manhã do Mundo, de Nuno Camarneiro, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, e de Filipa Fonseca Silva, Os Trinta, este último mais fresco e comercial, mas muito divertido. Agora, com a crise, estava sem saber se podia continuar a fazer aquilo de que gosto, porque se diz que, sem dinheiro, os leitores apostam sobretudo em nomes feitos e têm, além disso, em casa muitos livros que ainda não leram. Mas o susto passou e anuncio que, neste primeiro semestre, vou lançar mais três autores que nunca publicaram nada: João Rebocho Pais, com O Intrínseco de Manolo, obra notável ao nível da recuperação da linguagem popular sobre um alentejano intrinsecamente bom que acusam de ser cornudo; João Ricardo Pedro, o vencedor do último Prémio LeYa, com o brilhante O Teu Rosto Será o Último, no qual a estrutura faz da história uma espécie de interessante quebra-cabeças, e Bruno Margo, com o francamente original Sandokan & Bakunine – o título é desde logo um convite à leitura –, que parece David Lynch em livro e tenho a certeza de que dará que falar. Claro que continuo com os «meus» autores de sempre, e neste primeiro trimestre voltarei a publicar Paulo Bandeira Faria, de quem já tinha dado à estampa As Sete Estradinhas de Catete, agora com um romance sobre fazer as pazes, a Guerra Civil de Espanha, as desavenças de um casal moderno, os movimentos independentistas galegos e bascos e, enfim, o amor na infância, na idade adulta e na velhice. Chama-se A Despedida de José Alemparte. Prontos para isto tudo? Espero que sim. Os autores precisam e eu também.

A Terra treme

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Quando era miúda, houve um grande terramoto em Lisboa e a minha mãe e a minha avó acordaram-nos a meio da noite, nem sei bem se para nos levarem escada abaixo para a rua, seis andares a correr, se para morrermos ali todos juntos (todos, não, porque o meu pai, por acaso, estava a ouvir fados na Parreirinha de Alfama, que então ficava aberta até altas horas). Caíram dos nichos as santas e abriram-se rachas nas paredes, mas, graças a Deus, não nos aconteceu mal nenhum (nem ao meu pai, que ainda trazia caliça no casaco quando chegou a casa). Mas houve um terramoto bem maior do que este, todos sabem, em 1755, e é dele que fala A Voz da Terra, de Miguel Real, que acaba de conhecer a sua quarta edição (primeira na Dom Quixote) e estará disponível dentro de dias com uma nova e bonita capa. A reedição reveste-se de importância não só por se tratar de um livro bom e premiado que se encontrava esgotado, mas porque algumas das personagens que por lá deambulam pertencem também a A Guerra dos Mascates, que saiu em Setembro último, embora aqui estejam mais novas. E, porque não é bonito privar os leitores da sua história completa de vida, ou quase completa, aqui está o livro no qual se pode saber o que aconteceu a Julinho e Violante. O livro foi finalista do Prémio de Romance e Novela da APE e ganhou o Prémio Fernando Namora no ano em que saiu a primeira edição.


 


Coisas sombrias

Publiquei em tempos um ensaio que, como outros não especialmente académicos, o mais certo é ter passado completamente despercebido, até porque nem sempre o vi arrumado no devido lugar nas livrarias. No entanto, com a água pela barba que a todos anda a dar esta história de os nossos deputados pertencerem à Maçonaria (ou a várias maçonarias), lembrei-me dele porque pode conter informação útil e não demasiado detalhada (para leigos, enfim) sobre esta e outras matérias. Trata-se de Na Sombra - Breve História das Sociedades Secretas e assina-o John Lawrence Reynolds. E fala-nos de forma muito acessível de organizações como os Assassini ou os Illuminati, dos Templários, Maçons, Druidas e Gnósticos, do Priorado do Sião e da Cabala, das Tríades, Máfias e até dos chamados Teóricos da Conspiração. Se tem interesse por estes temas, ainda deve haver muitos exemplares e, mesmo que lhe digam que está esgotado – os livros nunca ficam tanto tempo nas livrarias –, insista e encomende. Para saber o suficiente sem ficar a saber demais.

De pequenino se torce o pepino (ou não)

Não conheço nenhuma receita para fazer um leitor, embora suspeite de que há coisas que ajudam muito. Se, por exemplo, houver livros em casa – e os pais forem, eles próprios, leitores –, se as crianças tiverem quem lhes leia histórias desde pequeninas, interiorizarão a leitura como uma actividade natural e não resistirão a tentar. Mas creio ser necessária uma espécie de clique desencadeado por um livro particular (que nunca se sabe qual é) para existir paixão – e é essa paixão que determinará o hábito, a repetição do gesto e a capacidade de se enfrentar o fiasco que se pode tornar a leitura de um título e, ainda assim, não desistir de procurar outro. De todo o modo, fico muitas vezes a pensar se não haverá qualquer coisa de inato no gosto pela leitura, qualquer coisa não transmissível pelo outro nem passível de ser aprendido. Lembro-me por exemplo da minha afilhada que, em pequena, detestava tudo o que fosse actividade física e estava constantemente a ler, a ponto de, quando não tinha nenhum livro novo, reler os antigos e dizer que descobria neles sempre coisas em que não tinha reparado da primeira vez. A mãe contava que, se lhe dessem um papel para a mão, ela o lia obsessivamente até ao fim, tratasse-se de um folheto publicitário, de uma receita médica ou da lista de compras do supermercado. E nem se pode dizer que fosse uma menina típica de letras, pois, chegada a hora de escolher a área de ensino, até se viu obrigada a mudar de escola e deixar os colegas por ter optado por Artes, pensando seguir Design ou Arquitectura. Por outro lado, sei de pessoas que foram parar à edição por amor aos livros, oriundas de famílias que não liam nada. Talvez o bichinho dos livros morda alguns mesmo antes de saberem ler e a nossa insistência com outros para que experimentem não dê em nada por não terem dentro o veneno necessário.

A Baixa

Um dia destes, ainda de férias, fui almoçar à Baixa com o Manel. Estava um dia de sol maravilhoso, e a Baixa com sol é irresistível. Visitámos livrarias e lojas, fomos ao Museu de Arte Contemporânea, vimos o rio ao longe e acabámos num outlet da Bertrand do Chiado a vasculhar uns livros a preço de saldo que, realmente, não nos interessaram nadinha (foi bom para a poupança). Então, lembrei-me de que há uns tempos me pediram dessa mesma Bertrand um texto e que o podia partilhar convosco (até para me poupar, palavra de ordem em 2012). Ele aí vai então:


«Oh, que saudades do meu pai, e de ser pequenina, e de viver num Portugal se calhar tão pobre como este, mas sem nenhuma consciência disso. Que saudades de ir pela mão dele à Baixa ver as iluminações de Natal – que nesse tempo só lá é que as havia. Que bom tirar a fotografia com o Pai Natal à porta do Hotel Avenida Palace, escolher depois um presente na loja de brinquedos do italiano da Rua do Ouro e, em frente a uma montra cheia de chapéus-de-chuva, lanchar na Pastelaria Ferrari, onde havia batidos de ananás divinos e muitos espelhos para olhar o mundo. Oh, que saudades de ser criança e subir o Chiado pela mão do meu pai, de passar a loja de tecidos donde a minha mãe trazia amostras de fazendas de xadrez para os kilts da minha irmã e pedia descontos; e que bom era – afinal, o melhor momento do passeio – quando o meu pai, muito vaidoso, ia provar um fato novo cortado pelo alfaiate do Picadilly e eu podia esperar, sem medo de pedófilos, na Livraria Bertrand, onde metia o nariz nos livros e andava de sala em sala a ver tudo, como numa espécie de museu… Hoje, o País continua triste, e pobre, mas temos pronto-a-vestir e refrigerantes de lata; já não resta quase nada do que compunha essa viagem bonita, nem me resta o meu pai. A única coisa que tenho, apesar de tudo, ainda é a Bertrand.»

Ai, o amor

O Teatro Nacional de São Luiz encarregou recentemente as Produções Fictícias da organização de um ciclo de «desconferências» dedicado ao tema geral O Fim da Crise. Eram três dias de conversas sobre o Dinheiro, o Amor e a Política e, tanto quanto me foi dado ver (não fui senão à sessão sobre o amor, mas disseram-me que na véspera tinha acontecido o mesmo), a sala estava cheia às 18h30 de um dia de semana, o que foi uma boa surpresa (talvez as pessoas não andem tão indiferentes como se diz). Sobre o amor, disse o moderador (Pedro Mexia) que ainda é um tabu para muitas bocas – pois, se todos o sentimos e desejamos, a verdade é que o léxico com ele relacionado é muitas vezes visto como pindérico e quase todos hesitamos em proferir esse «Amo-te» expressivo, embora a música e a literatura estejam cheias dele (passá-lo ao papel parece já não ser problema). Verdade ou não, a história que Mexia a seguir contou é deliciosa: num romance de Umberto Eco, um homem apaixonado por uma mulher (mas algo snob) diz-lhe a páginas tantas: «Amo-te, como diria a Barbara Cartland.» Eu é que amei esta.

Vir e ficar

Um dia destes, estive a ler um livro de poesia que começa logo por ter um belo título: Vim Porque Me Pagavam. A sua autora, Golgona Anghel, é uma romena que veio para Portugal ainda jovem (julgo que o pai era diplomata) e aqui viveu anos importantes da sua vida e formação. Escreve em português e, segundo sei, nada tem já que ver com o seu país natal, não conseguindo sequer imaginar-se a fazer poesia na sua língua. Dá aulas, salvo erro, na Universidade Nova de Lisboa. Se lhe pagámos ou não para vir para Portugal, nem interessa muito, porque o que interessa realmente é que estamos felizes por nos ter adoptado (ou a termos adoptado): a sua escrita é belíssima, irónica, crua, culta e intempestiva. Cheia de referências literárias e, ao mesmo tempo, de linguagem coloquial e agradavelmente festiva, um excelente livro de estreia de alguém que veio seguramente para ficar.

Turismo gastronómico

Este fim de ano foi um festival de livros de cozinha, de chefs conhecidos e menos conhecidos, de senhoras que têm mão para os temperos, de vedetas de TV que adoram convidar gente para jantar ou juntar amigos a uma mesa. Mas, antes desses, já tinha saído a obra de Miguel Pires, Lisboa à Mesa, que tem sido de grande utilidade cá em casa. Não que eu seja um bom garfo – desde que me dêem um bom pão e batatas fritas aos palitos sem gordura, já estou satisfeita. Mas sou casada com um senhor que, apesar de magro, não desdenha uma boa refeição (qualidade é diferente de quantidade) e está sempre ansioso por experimentar uma boa tasquinha ou um restaurante mais bem apetrechado, desses que agora se diz terem cozinha de autor. Quando vamos para fora, faz parte da «excursão» o restaurante onde almoçamos e jantamos e aqui em Lisboa o guia de Miguel Pires dá muito jeito para escolher o sítio e telefonar a marcar, não vá haver muita gente a lê-lo ao mesmo tempo e a ter as mesmas ideias. Além disso, para quem prefere fazer as refeições em casa e acha que é melhor cozinheiro do que esta gente que aparece nas revistas, o livro tem uma lista interessante de lojas, mercearias, talhos e mercados onde podemos abastecer-nos. Que podemos querer mais?

De viva voz

Por razões que não são para aqui chamadas, ando a ler muita coisa sobre Amália e o fado. Não sou uma leitora voraz de biografias, confesso – estou sempre mais inclinada para a leitura de ficção e tenho um defeito estrutural que se chama falta de curiosidade, sobretudo no que toca a vidas de pessoas reais. E, porém, gosto muito de ouvir uma pessoa a falar de si própria e de descortinar quanto de ficção e de verdade existe na construção do seu discurso. Talvez por isso não tenha conseguido saltar páginas no livro de Vítor Pavão dos Santos, Amália – Uma Biografia, que reproduz na primeira pessoa um relato da vida da fadista a partir de vinte e cinco conversas com o autor que, deliberadamente, excluiu do texto todas as suas perguntas e intervenções. Temos, assim, Amália a falar de si desde que nasceu como se fôssemos visitas privilegiadas de sua casa ou um psicoterapeuta atento aos dramas e traumas da sua existência num consultório da capital. E, ao lê-la deste modo – como se de ouvido colado às suas palavras –, podemos entender melhor a rapariga que foi e a mulher que se tornou, com todas as suas fragilidades, complexos e até vaidades, que, já se sabe, não há grande estrela que as não tenha. Eu, que admirava a grande senhora sem simpatizar com ela, senti-me por vezes psicanalista a detectar sinais que justificam alguns seus comportamentos e acabei por render-me ao lugar-comum de que a infância determina realmente muito do que somos e, no caso de Amália, isso é gritante. Com o fado a festejar a sua «entrada» no Património Imaterial da Humanidade, uma sugestão de leitura a ter em conta.

Parar para ver

Embora este seja assumidamente um blogue sobre livros – ou, melhor ainda, sobre leituras –, as minhas horas extraordinárias também se fazem de outras coisas que não a literatura. E, numas miniférias como as que recentemente gozei, aproveitei, entre outras actividades, para ver e rever filmes (e tenho desde já de confessar que A Toupeira não me entusiasmou por aí além e achei o guião às vezes descosido) e ir a exposições. E do que gostei mesmo (e aconselho a todos, porque só vai ficar mais uns diazinhos) foi da exposição dedicada à Natureza-Morta na Europa que está na Fundação Calouste Gulbenkian. Constituindo a segunda parte de uma outra que se pôde ver em 2010, esta revela-nos pinturas dos séculos XIX e XX bastante diferentes dos modelos clássicos das frutas, jarras de flores e secretárias com livros, embora também as haja desse tipo. E estão lá todos os nossos pintores de eleição, de Van Gogh a Picasso, de Renoir a Eduardo Malta, de Gauguin a Amadeo. Não se pode perder, evidentemente, mas, se tiver um horário flexível, aproveite um dia semana ou um período de menor movimento. Caso contrário, terá de ficar à espera para entrar ou, o que é pior, de aguardar pacientemente que o visitante que chegou antes de si saia da frente do quadro para que o possa ver com tempo e sem se sentir acossado por quem chegou logo a seguir e está já a pressioná-lo para que se despache.

Unidos pelos livros

Em livrarias, museus, bibliotecas e vários outros espaços públicos e privados, reúnem-se de há uns anos para cá comunidades de leitores que, com a ajudinha de um «literato», analisam obras literárias e partilham opiniões sobre o que lêem. Podem ter o seu poiso na capital (como no caso das sessões que Filipa Melo organiza na Almedina do Saldanha, por exemplo), mas estão espalhadas por todo o País e têm como organizadores jornalistas (Helena Vasconcelos costuma seguir um grupo na Culturgest e Miguel Carvalho na Almedina do Arrábida Shopping), escritores (valter hugo mãe acompanha uma comunidade em Gondomar) ou gente simplesmente lida (Maria João Seixas orientava há uns anos as sessões na Biblioteca de Almada). Tive a alegria de participar em alguns destes encontros e fiquei emocionada com as conversas à volta dos livros, sobretudo as que partiam de pessoas que só então começavam a ler regularmente e estavam tão fascinadas com a experiência que não se calavam um minuto, querendo partilhar o entusiasmo. E outra coisa que descobri é que muitas daquelas pessoas, se ali não fossem, estariam irremediavelmente sós (mesmo que com um livro nas mãos), representando também a comunidade de leitores uma espécie de grupo de amigos com afinidades que se encontra para um bom serão de conversa. Parabéns, pois, aos que as organizam.

Ventos do Norte

Conheço mal a literatura nórdica – confesso que nem a trilogia Millenium li, não só por falta de tempo, mas porque, como não sou grande apreciadora de policiais e thrillers, mesmo quando me dizem que são excelentes, acabo por preferir uma ficção mais literária. Em todo o caso, penso que Portugal está mal fornecido de literatura nórdica, provavelmente pela dificuldade em arranjar tradutores, mas recentemente apareceram alguns livros interessantes. Um deles é, seguramente, a colectânea de contos do norueguês Kjell Askildsen – mestre da narrativa breve, segundo anuncia a badana – intitulada Uma Vasta e Deserta Paisagem. Enquanto a lia, não pude deixar de pensar naquele misto de contenção e contundência que perpassa os diálogos de Bergman e, mesmo que a Noruega e a Suécia sejam países muito diferentes, a verdade é que reconheci nestes contos uma espécie de alma do Norte – simultaneamente seca e desarmante – que conhecia dos filmes do realizador sueco. Este é um livro de histórias de gente só, de relações condenadas ao fracasso, de pequenas tragédias pessoais contadas com humor negro q.b. e uma simplicidade e subtileza invejáveis. O livro recebeu o Prémio da Crítica na Noruega.