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A mostrar mensagens de maio, 2023

Um certo verão

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Uma das desvantagens de passar férias em lugares que praticamente não têm livrarias (aconteceu-me ao longo de muitos anos, acreditem) é que, se não acertarmos nos livros que levamos connosco, é uma tragédia termos de gramar as estopadas que acreditámos serem leituras gratificantes e pode inclusivamente estragar-nos as férias (é por isso que devemos sempre levar um ou dois clássicos). Já me aconteceu mais de uma vez a decepção total, mas também já me aconteceu o contrário: levar uma pasta cheia e serem todos livros maravilhosos. Por exemplo, o ano em que li Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé, foi o mesmo ano em que li O Leopardo, de Lampedusa, e um romance absolutamente notável que é, na verdade, o que me leva hoje a escrever este post: La Coca, de Rentes de Carvalho. Já não me lembro se cheguei a escrever sobre a obra-prima aqui no blogue (estou com preguiça de ir ver), mas soube agora que a Quetzal assinala o décimo aniversário da publicação deste livro com uma edição novinha em folha e tenho mesmo de a aconselhar a quem ainda não conheça: a par de uma investigação sobre o contrabando e posteriormente o tráfico de droga no Minho e na Galiza, um relato proustiano (mesmo!) da infância e juventude do narrador que é delicioso. Avancem. Se não conhecem o autor, podem começar por aqui e depois papar os outros todos. (A capa do meu é diferente.)


P. S. Hoje Itamar Vieira Junior estará à conversa com Isabel Lucas na FNAC do Colombo às 18h30.


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É hoje!

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Em 2018, Itamar Vieira Junior, que então só havia publicado um pequeno livro de contos, impôs-se como vencedor do Prémio LeYa com Torto Arado, um romance deslumbrante sobre duas irmãs que viria no ano seguinte a ganhar os Prémios Jabuti e Oceanos com a edição brasileira. Quatro anos e um sucesso de estalo depois, oferece-nos o seu segundo romance, Salvar o Fogo (por favor, não percam); e no final de um périplo pelo Brasil (Rio, São Paulo, Salvador, Curitiba, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, sei lá que mais), chega finalmente a Portugal para o apresentar também na nossa terra. Mas vem igualmente passar a candeia a Celso Costa, outro autor brasileiro que estará entre nós nos próximos dias e foi o vencedor do Prémio LeYa em 2022 com A Arte de Driblar Destinos, romance de que aqui já falei há dias e é, entre outras coisas, um elogio à leitura. Para uma conversa sobre o Brasil de hoje e estes dois livros, sugiro que nos venham fazer companhia hoje à tarde na Livraria da Travessa. Como o espaço vai ser curto para tanta gente e nem todos moram em Lisboa, haverá transmissão online. O convite segue abaixo.


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Uma estante só sua

A brilhante Virginia Woolf sonhava com um quarto só seu, reivindicando com a sua obra ímpar um lugar para as mulheres que, no seu tempo (e muito depois disso), tinham mesmo de lutar por ele. Mas há escritores que, até por serem homens e já terem «o quarto» há muito tempo, são menos ambiciosos e sonham apenas com uma estantezinha. Estou a brincar, claro, e espero que me perdoem, mas não resisto a reproduzir uma história que encontrei espalhada por aí no dia da morte do elegante e ácido Martins Amis, um grande escritor britânico que foi tão longe como escrever um livro sobre um dandy nazi (A Zona de Interesse). Martin Amis pertencia à geração de ouro dos ficcionistas britânicos do século XX, com Julian Barnes, Salman Rushdie ou Ian McEwan, e foi justamente Rushdie quem contou no dia da sua morte que Amis uma vez lhe disse que o que realmente desejava era que, quando morresse, pudesse deixar atrás de si uma estante cheia de livros e dizer: «Daqui até ali são tudo livros meus.» O escritor recentemente atacado por um radical islâmico durante um festival literário completava a história dizendo que Amis se calara para sempre, que os amigos iriam ter imensas saudades dele, mas que, felizmente, ainda havia a estante que ele deixara.

Excerto da Quinzena

[...] Ao puxar, com um pouco mais de força que o necessário, a lâmina pulou em sua perna provocando um corte acima do tornozelo. E naquele fundo de sertão, sem socorro médico ou antibiótico, em menos de uma semana o ferimento infeccionado evoluiu para uma gangrena implacável e a jovem vida foi embora aos dezanove anos.


Quarenta e um dias depois de entregar o segundo filho à sepultura, meu avô morreu de desgosto, o coração não aguentou o baque de tanto luto. Foi assim que me contaram, muitas e muitas vezes, principalmente minha mãe, em ato de exorcizar a dor que nunca a abandonou. Às vezes, ao me contar de novo a história, seus olhos se enchiam de lágrimas e no meio dos lamentos reclamava: «Seu avô poderia ter enganado a morte, meu filho, pelo menos por mais vinte e três dias, o tempo justo para te ver nascer e, quem sabe, ganhar motivo para viver mais.»


Após meu nascimento, minha avó Rosária sobreviveu mais três anos, dois meses e sete dias, até que o desgosto também a levou em uma noite fria de junho. Mas, enquanto teve vida, não passava um dia sequer sem pedir para ser chamada também. Sempre gostei de imaginar que era real o que minha mãe contava sobre meu nascimento, do raio de luz de alegria na alma de minha avó, motivo de adiar um pouco sua partida.


Consumados todos os atos da tragédia, a foice da morte apaziguada, meus pais receberam a incumbência de tomar conta da propriedade.


 


Celso Costa, A Arte de Driblar Destinos, Prémio LeYa 2022

Feira do Livro de Lisboa

Hoje começa a 93.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, que vai decorrer até ao dia 11 de Junho, ocupando-me três fins-de-semana e um feriado em que tantos estarão na praia e no campo a gozar o lazer. Mas esta Feira é um must, como sabem, e este ano regressa com a maior oferta editorial de sempre, embora, infelizmente, com o mesmíssimo número de pavilhões (tudo mais apertadinho, em suma), porque, com a tal Jornada Mundial da Juventude programada para o início de Agosto a requerer organização antecipada, não foi possível ir além do que foi feito em 2022. Mas serão cerca de 140 participantes, mais de 980 chancelas (nem eu sabia que havia tantas) e 340 pavilhões, em lugar dos desejados 379 que para o ano de certeza que lá estarão. O importante, porém, é que podemos deliciar-nos com esta montra a perder de vista e ao ar livre, ver muitos dos nossos autores favoritos e pedirmos-lhes o autógrafo ou um dedinho de conversa, apanhar ar entre a beleza dos jacarandás (atchim!) e conhecer os leitores, essa raça cada vez mais rara num País onde 61% das pessoas não leram um único livro durante um ano inteiro. Eu e os Extraordinários somos as aberrações.

Maravilhas da aldeia global

Toda a gente que me conhece repara que estou permanentemente a bramar contra as novas tecnologias. Claro que sei perfeitamente a falta que me fazem quando as não tenho, e o jeito que me dão a toda a hora, embora não seja de modo algum uma dependente, sobretudo do telemóvel, que uso apenas quando preciso mesmo de ligar a alguém, usar a Via Verde para o estacionamento ou ver o e-mail de longe. Nunca teria provavelmente escrito um romance se não tivesse um computador (na altura, era bastante primário, com disquettes), nem o meu trabalho renderia o que rende e chegaria ao público sem a ajuda da Internet, dos blogues, do correio electrónico, das redes sociais. Mas também tenho consciência de que o digital tornou as pessoas muito mais agressivas, pouco empáticas, obcecadas com os aparelhos, excessivamente comunicativas (ou seja, sempre a dizer sem dizer) e menos profundas, incapazes de ler um texto longo (é por isso que nas redes mostram só as cinco primeiras linhas e depois escrevem «Ver mais»). No entanto, esta semana reconciliei-me com a aldeia global. Queria publicar um livro, que por acaso tinha uma tradução feita por cinco alunas de um mestrado sob a supervisão de um professor em 2006, mas os contactos que o professor me facultara para as consultar eram quase todos obsoletos. Com muita teima minha (porque a maioria delas tinha nomes bastante comuns), lá fui fazendo buscas, do Facebook para o Instagram, do Instagram para o Linkedin, do Google para a faculdade onde estudaram há quase vinte anos, e lá consegui a proeza de encontrar o paradeiro de cinco desconhecidas, que já quase não sabem umas das outras, mas ajudaram também elas no que puderam. E, finalmente, o problema resolveu-se e o livro, se tudo correr bem, pode sair rapidamente. Um caso para dizer: agora vê se não dizes tão mal das proezas da tecnologia...

Morte assistida

O papa Francisco ficou zangado com Portugal por ter sido finalmente promulgado pelo Presidente da República o decreto que permite a morte assistida. Gosto do papa Francisco e adoro o seu sorriso e algumas das suas tiradas corajosas, mas sou claramente a favor da eutanásia e, por mim, estendê-la-ia até a outro tipo de casos menos drásticos. Admiro, de resto, a coragem de alguns para decidirem a hora da sua morte (seja por suicídio ou morte assistida), como aconteceu, por exemplo, com Stefan Zweig ou o escritor flamengo Hugo Claus. O primeiro fartou-se do mundo tremendo em que vivia e matou-se juntamente com a mulher no Brasil, o que, passe o paradoxo, é uma morte bonita. O segundo, que sofria de Alzheimer, deu uma entrevista à televisão e, quando se viu no pequeno écran uns dias depois, percebeu que já não estava em condições e resolveu que não queria fazer figuras tristes; sem dizer nada a ninguém, passou uns meses a organizar a sua partida, almoçou com todos os amigos para se despedir e, num belo dia, deu entrada pelo seu próprio pé numa clínica onde o ajudaram a morrer. Duas histórias que podem parecer realmente chocantes a alguns, sobre tudo aos católicos, mas que a mim me parecem actos de grande lucidez.

Uma Lolita moderna

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Publico este mês o segundo romance da autoria de Marieke Lucas Rijneveld (dos Países Baixos), que viu o seu livro de estreia, O Desassossego da  Noite, premiado com o Man Booker International Prize, o que é uma façanha, sobretudo se tivermos em conta que se trata de alguém extremamente jovem e que sempre morou longe dos grandes centros pensantes, numa quinta onde se criavam vacas. E à segunda arremetida não só não desilude como se mostra capaz de reinterpretar a Lolita de Nabokov. Minha Querida Favorita, assim se chama a nova obra, é a história de um verão asfixiante em que um veterinário rural se aproxima da filha adolescente do criador de gado para quem trabalha. Apesar de correrem boatos de uma doença que afecta seriamente os bovinos das redondezas, o veterinário só pensa em fugir aos traumas da infância e a um casamento que secou para se dedicar de corpo e alma à «sua querida favorita» que, sozinha na quinta nessas férias, prefere viver num mundo de fantasia a ter de aceitar o abandono da mãe. Nesse verão, os dois desenvolvem um fascínio tão obsessivo um pelo outro que chegam a cruzar todas as fronteiras concebíveis. E a confissão opressiva presente nestas páginas é uma história comovente e ao mesmo tempo chocante sobre o amor proibido, a solidão e a identidade. Como diz o crítico Jeroen Maris, «não é uma festa agradável, não senhor. Mas o leitor deseja estar na lista de convidados, pois de contrário perde uma grande, grande obra literária.» Cuidado com os estômagos sensíveis. A tradução é de Maria Leonor Raven e a capa de Rui Garrido.


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ADN

Uma Questão de ADN, um programa da TSF conduzido pela excelente jornalista Teresa Dias Mendes. é um dos que insisto em não perder. O ponto de partida é escolher alguém que está a dar que falar por alguma razão e juntar-lhe outra pessoa da mesma família (daí o ADN) para que a conversa a três siga naturalmente por caminhos mais privados e desconhecidos. Recentemente, calhou a vez a Paulina Chiziane, a propósito da entrega do Prémio Camões, e à sua filha, psicóloga clínica, Maria Salomé Cabo. E achei piada quando esta contou que nunca valorizara excessivamente o que escrevia porque, desde miúda, via a mãe deitar fora textos que lhe mostrara e que ela achara maravilhosos. O grau de exigência de Paulina, porém, acabou por condicionar a filha (que, ao que parece, escreve poesia que outros elogiam, mas não a publica). A questão tem a sua graça. Na arte de representar, há imensos filhos que seguem as pisadas dos pais (basta olhar para Hollywood); na música, são também muitos os casos de hereditariedade (basta ver os concertos de Caetano Veloso com os seus três filhos); porém, na escrita, embora haja alguns casos (Martin Amis é filho de Kingsley Amis),  julgo que há menos exemplos de escritores filhos de escritores. Será que os filhos têm receio do juízo dos pais, ou serão os pais que os tornaram demasiado exigentes?

Jornalista-escritora

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É muito comum, em Portugal e no estrangeiro, jornalistas (não só culturais) escreverem livros de ficção: ora sobre histórias de que inicialmente foram os repórteres, ora sobre assuntos com que deram de caras numa qualquer investigação para outra coisa, ora porque descobriram o gozo da escrita e não resistiram a tentar a literatura. É agora o caso de uma jornalista bastante conhecida, Anabela Mota Ribeiro, responsável há anos por muitíssimos programas culturais (um dos mais recentes com entrevistas a jovens nascidos depois do 25 de Abril, que acompanhei com imenso agrado). Hoje mesmo irá para a livraria o seu primeiro romance, O Quarto do Bebé, que ainda não li, mas tem uma bela capa e suscita curiosidade. Diz a folha de divulgação enviada pela editora: «Escrito em grande parte durante o confinamento e a doença, e concluído após uma longa gestação, O Quarto do Bebé é um romance autoficcional em forma de diário íntimo [...] Com ecos do universo literário da recentemente nobelizada Annie Ernaux, uma das grandes referências da autora, O Quarto do Bebé é um relato cru e corajoso que revela uma nova e envolvente faceta de Anabela Mota Ribeiro.» Pois, lá vamos ter de ler. O lançamento público vai ser na terça-feira, no Palácio Galveias.


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Encontros poéticos

Têm vindo a Portugal nos últimos tempos muitos poetas latino-americanos, e alguns espanhóis, para divulgação das suas obras em Portugal, já que a poesia é provavelmente, a par do teatro, dos géneros menos traduzidos entre nós. Fazem-no no contexto dos Encontros Poesia Ibero-Americana, um ciclo organizado pela também poetisa Lauren Mendinueta, colombiana com vários livros publicados em Portugal, que assinou além disso uma antologia de poetas do seu país publicada há uns anos na Assírio & Alvim, com tradução de  Nuno Júdice, intitulada Um País Que Sonha. Dentro deste ciclo, amanhã na Fundação José Saramago, pelas 18h30, terá lugar uma actividade ao vivo que incluirá os poetas Adriana Hoyos (Colômbia), Fernando Pinto do Amaral (Portugal) e Margarida Vale de Gato (Portugal) e terá a participação musical de Víctor Zamora (piano, Cuba), Nuno Rocha (guitarra, Portugal) e Edouard Rambourg (saxofone, França). A sessão conta com o apoio da OEI (Organização dos Estado Ibero-Americanos) e a entrada é livre, sujeita à lotação da sala. Vamos ouvir?

Ler para fintar o destino

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Está a chegar às livarias e às vossas mãos o novíssimo romance vencedor do Prémio LeYa, o maravilhoso A Arte de Driblar Destinos, de Celso Costa, que destronou os outros quatro finalistas no concurso de 2022. É um romance de formação que decorre numa aldeia do interior do Paraná, onde a escola oficial não vai além dos primeiros anos e os cuidados de saúde são precários, levando a que os males do corpo e da alma sejam tratados com o que se tem à mão ou com a intervenção de feiticeiros. É neste cenário que o protagonista – um menino nascido no seio de uma família que se vê constantemente em apuros para pagar os descalabros de um pai que não ganha juízo – é incentivado a prosseguir os estudos por uma professora primária e acaba acalentando o sonho de se tornar também professor e enganar o destino que lhe estaria reservado. Romance-mosaico que toma a educação como motor e garante da liberdade, o livro foi elogiado pelo júri e também por Itamar Vieira Junior, vencedor do prémio em 2018, que sobre ele disse: «A Arte de Driblar Destinos é um tesouro de rara honestidade e beleza.» Por que esperam para o ler? A capa, maravilha!, é de Rui Garrido.


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Os clássicos

Muito se tem discutido e dito sobre o que é um bom livro, e realmente não há respostas que sirvam a cem por cento para tudo, mas sabemos que, naturalmente, os livros que resistem ao tempo têm pelo menos alguma garantia de qualidade, sobretudo por conseguirem sobreviver a tantos outros que morrem ao seu lado (muitos dos quais em vida do autor). Tendemos a chamar «clássicos» aos mais imorredoiros, e o grande leitor e editor que é Francisco José Viegas prepara-se para dar um curso sobre alguns destes clássicos (romances e contos) que vão resistindo a todas as intempéries e desastres culturais e encontrando leitores contemporâneos. No mês que vem, com  início a 26 de Junho, inicia-se o ciclo Clássicos, antes que seja tarde, que incluirá obras tão variadas como Madame Bovary, Orgulho e Preconceito, Mau Tempo no Canal, Cem Anos de Solidão, Os Maias, Memórias Póstumas de Brás Cubas ou mesmo as Ficções do grande Borges. São cinco sessões, cada uma tratando dois livros, e acontecem no El Corte Inglés, em Lisboa. Aviso com antecedência, porque estas actividades costumam esgotar logo e,  portanto, se estão interessados, apressem-se com a inscrição. Sobre tudo isto, o melhor mesmo é consultar a página ambito-cultural.elcorteingles.pt. Está tudo lá.


 


 

Excerto da Quinzena

Fábulas de animais - incluindo fábulas de peixes mortos que falam - têm estado entre as histórias mais persistentes do cânone oriental; e as melhores entre elas, ao contrário, digamos, das fábulas de Esopo, são amorais. Não procuram pregar sobre humildade ou modéstia ou moderação ou honestidade ou abstinência. Não garantem o triunfo da virtude. Como resultado, parecem extraordinariamente modernas. Por vezes, os maus da fita ganham.


A colecção conhecida na Índia como Panchatantra apresenta um par de chacais que falam, Karataka, o bom ou melhor dos dois, e Damanaka, o malvado conspirador. No início do livro estão ao serviço do rei leão, mas Damanaka não gosta da amizade do leão com outro cortesão, um touro, e convence o leão a acreditar que o touro é um inimigo e a assassinar o animal inocente enquanto os chacais assistem.


Fim.


Nos contos de Karataka e Damanaka também lemos sobre uma guerra entre corvos e corujas em que um corvo finge ser um traidor e se junta às corujas para descobrir a localização da caverna onde vivem. Depois os corvos ateiam fogo em todas as entradas da gruta e as corujas sufocam até à morte.


Fim.


 


Salman Rushdie, Linguagens da Verdade, Ensaios 2003-2020, tradução de Isabel Lucas

Um século de vida e história

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Está a sair para as livrarias o novo romance de Paulo M. Morais, que foi uma vez mais finalista do Prémio LeYa. Chama-se A Boneca Despida e a sua protagonista, Julieta, seria talvez uma pessoa vulgar, não fosse o facto de ter vivido mais de cem anos. Cresceu sem mãe e longe do pai, junto de uma avó violenta que a escravizou. Não a deixaram prosseguir os estudos. Não lhe ensinaram os factos da vida. Casou sem paixão, teve filhos que amou e por quem sofreu de insondáveis maneiras. Acabou num lar, sozinha, como tantas outras. Do seu nascimento na ilha do Faial à pequena infância passada em Macau; dos tempos num colégio interno em Hong Kong ao regresso definitivo a Lisboa; da obediência à avó à sujeição ao papel de esposa e mãe; a história fascinante de Julieta (e a da sua boneca de bisque) é também a da mulher portuguesa ao longo dos anos cinzentos da ditadura, sempre contando os centavos, abdicando dos sonhos em favor da família, calando dúvidas e frustrações e passando por cima de sucessivos desgostos. Este é um registo absolutamente notável da história da vida privada de um país que, no lapso de um século, participou em guerras e conflitos, viu partir a sua gente, instalou-se nos subúrbios, virou do avesso regimes políticos, se tornou europeu, esqueceu os seus velhos, conheceu momentos de luz e sombra. E Julieta, claro, assistiu a tudo.


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Lucy, volta sempre

Não perco um livro de Elizabeth Strout, cuja escrita me fascina sobretudo pela aparente simplicidade e coloquialidade. A sua obra é mesmo um «projecto literário», na medida em que certas personagens vão passando de livros para livros e até entrando nos livros que supostamente não lhes pertencem. Li até agora todos os romances dedicados a Lucy Barton, sempre tremendo que a autora a faça desaparecer num dia qualquer. Em Lucy à beira-mar, o que li mais recentemente na tradução de Tânia Ganho, tive bastante medo de que isso acontecesse quando a Lucy diz, logo num dos primeiros capítulos, que não sabia que não voltaria à sua casa de Nova Iorque (e, como estamos num ambiente pandémico, pensei o pior); felizmente, não foi desta e desejo sinceramente que a senhora Strout nos delicie mais vezes com esta Lucy, uma personagem que é mesmo de carne e osso, com uma normalidade tão original que até faz impressão como é que isto se consegue. Mas, pronto, sem querer contar demais, neste romance a sua vida dá uma reviravolta inesperada, que é uma seta para trás, e a história da cunhada recém-descoberta em Oh, William (outro livro fascinante) terá continuidade, um bálsamo para William, o homem que está a envelhecer muito depressa, e para nós, claro, que ainda vamos querer que Chrissy, uma das filhas do casal, tenha um bebé depois de tantos desgostos e tanta magreza. Leiam, leiam, nunca desilude esta escritora norte-americana. Se o próximo não for da Lucy, pode ser que seja da Olive Kitteridge. Veremos.

Lourinhã

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«Entre nós e as Palavras» (retirado de um verso de Cesariny) é o mote de mais um festival Livros a Oeste, que arranca hoje na Lourinhã e vai até ao próximo dia 13. O festival, que tem curadoria do jornalista João Morales e está nomeado para os Iberian Festival Awards deste ano pela sua importância cultural, vai celebrar indirectamente vários centenários de escritores (desde logo, Mário Cesariny, que já mencionei, mas também a poderosa Natália Correia, o original Mário Henrique Leiria, artista plástico além de escritor, e ainda o queridíssimo Urbano Tavares Rodrigues, pessoa extraordinária que tive o prazer de conhecer). Diz o vereador da Cultura da Câmara da Lourinhã que as actividades matutinas decorrerão especialmente nas escolas e que o programa dedicado aos adultos começará à tarde e estender-se-á pelo início da noite. Os convidados são muitos: Rosa Alice Branco, Luís Osório, Raquel Patriarca, Rui Cardoso Martins, Rita Ferro, Ana Paula Tavares, Rui Zink, o ilustrador Pierre Pratt e muitos outros. A fadista Aldina Duarte e eu vamos estar à conversa na sexta ao final da tarde na Biblioteca Municipal sobre a nossa antologia Esse Fado Vaidoso. Mas o programa é extenso (ver abaixo, embora seja mesmo difícil de ler). Apareça por estes dias na Lourinhã.


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Ler com a empresa

Há muitos anos, abri conta num banco por ter visto num jornal um anúncio desse banco para gestores de fundos de investimento, em que se dava preferência, entre outras coisas, a quem gostasse muito de ler. Geralmente, as empresas querem que façamos bem o nosso trabalho, mas não se costumam preocupar com a nossa cultura ou as nossas leituras (excepto se forem editoras, e mesmo assim...). Li por isso com agrado a notícia de que o El Corte Inglés põe os seus funcionários a ler. Com a colaboração do Plano Nacional de Leitura, criou um Clube de Leitura virtual que já vai no terceiro ano. Começou timidamente com pouco mais de 40 participantes e, no ano passado, passou as três centenas de leitores! Segundo um comunicado do ECI, a empresa, através desta iniciativa específica, quer contribuir para «o desenvolvimento intelectual e criativo e promover o sentido crítico dos participantes», porque ler também serve para aumentar o vocabulário e aperfeiçoar a comunicação, coisas importantes no atendimento aos clientes e quando se tem de falar com muita gente ao longo de um dia. Os livros do clube têm visado sobretudo autores portugueses ou estrangeiros que vivem em Portugal. Uma bela ideia que espero continue a dar frutos.

Prémio de carreira

O que não falta por aí são prémios literários, dos simbólicos e de pequeno porte aos valiosos e renomados. Mas prémios para uma carreira são menos, e menos serão as carreiras que os merecem. Porém, há obras que os justificam cabalmente, como é o caso da da escritora Lídia Jorge, de grande dimensão, diversificada e significativa, e traduzida em vários países. E tanto assim é que a escritora algarvia acaba de receber o Prémio Vida Literária Vítor Aguiar e Silva, promovido conjuntamente pelo município de Braga e a Associação Portuguesa de Escritores (APE). O prémio é bienal e, na primeira edição, que ocorreu em 2021, o contemplado foi o grande ensaísta e tradutor João Barrento, um germanófilo incorrigível que tem feito maravilhas por todos nós. Na altura da entrega, o presidente da APE, José Manuel Mendes, falou da importância de associar o nome de Vítor Aguiar e Silva, Prémio Camões em 2020, a este prémio de carreira, homenageando assim o grande catedrático da Universidade do Minho e especialista em Teoria da Literatura ao mesmo tempo que distingue a vida literária de um outro autor. Como se costuma dizer, um belo 2 em 1. Desta feita, parabéns a Lídia Jorge e à Língua Portuguesa, cujo dia é hoje.


 


 

Cinema e literatura

A relação entre livros e filmes é antiga, e muitas das longas metragens que vamos vendo por aí são baseadas em contos, peças e romances, ainda que por vezes os títulos sejam diferentes e as adaptações francamente livres. Há também vários cineastas que escrevem os argumentos dos próprios filmes (Woody Allen, por exemplo) e, ainda que o contrário seja menos comum, este mês a Cinemateca de Lisboa vai ajudar-nos a descobrir (ou redescobrir) alguns escritores que também realizaram filmes. Num ciclo chamado Escritores-Realizadores, alguns são notórios (Marguerite Duras, por exemplo, fez vários filmes) ou foram recentemente falados (Annie Ernaux e o Les années Super 8 que assina com o filho, creio); mas muitos leitores desconhecem que Paul Auster ou Stephen King também fizeram cinema, e bem assim Pier Paolo Pasolini, Alain Robe-Grillet, Jean Genet ou Fernando Arrabal. Consulte, pois, a programação de Maio da Cinemateca e veja os filmes destes escritores-cineastas. A inciativa tem justamente a colaboração da Associação Portuguesa de Escritores.

Palavras

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A partir de hoje e até ao próximo dia 13 de Maio, realiza-se, na Vila de Redondo, mais um encontro literário Palavras ao Vento, que coincide com a XXV Feira do Livro de Redondo e conta com o Alto Patrocínio do nosso Presidente da República. O programa, de que é responsável o poeta e romancista Frederico Pedreira (que eu saiba, não somos parentes), é bastante diversificado, tendo como convidados vários escritores, desde os vencedores do Prémio Literário José Saramago Afonso Reis Cabral e Bruno Vieira Amaral (que estarão à conversa no dia 6 de Maio às 21h00), até ao humorista Ricardo Araújo Pereira, que já hoje à noite será interpelado pelo jornalista e editor Carlos Vaz Marques. Haverá também um jantar queirosiano para o qual os interessados terão de se inscrever pelo link que deixo abaixo, além de uma homenagem a Natália Correia, apresentações de livros, concertos e muito mais.Toca a ir ao Redondo.


eventos@cm-redondo.pt


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O que ando a ler

Andamos em arrumações na nossa biblioteca. Não só porque já não encontrávamos nada (e às vezes tínhamos de voltar a comprar um livro que sabíamos ter), mas também porque tivemos de deixar-nos de manias e alienar algumas coisas para que outras pudessem entrar. Ora, nos montes que se iam formando no chão com escritores de determinadas nacionalidades, apareceu um pequeno romance que eu nunca tinha lido, intitulado A Última Escala do Tramp Steamer, de Álvaro Mutis. Peguei-lhe e estou a terminá-lo. Mutis é, como alguns saberão, o escritor colombiano que fica nos antípodas de García Márquez. Os seus textos estão cheios de referências literárias e a sua prosa é claramente europeizada, como acontece, de resto, neste livro. Europeizada também é a jovem libanesa dona do cargueiro que atravessa toda a história e que marca, nos portos onde vai atracando, os encontros dela com o capitão, um basco que sabe que a sua relação só durará enquanto o velho Tram Steamer tiver casco para navegar e que é, na verdade, quem contou a sua história ao narrador que, ao longo da sua vida, se terá cruzado várias vezes com o cargueiro Alción. Com uma linguagem levemente enfatuada para o meu gosto, é apesar de tudo uma bela história e o livro que catapultou Mutis para o sucesso e reconhecimento dos pares, embora o texto merecesse uma tradução mais cuidada (Amberes, por exemplo, é a palavra espanhola para Antuérpia e deveria ter sido traduzida).