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A mostrar mensagens de julho, 2021

Até já

No último post deste mês de Julho, já a preparar as férias (pois em Agosto o blogue fecha para repouso), deixo-vos uma história lida por aí e guardada para uma ocasião como a de hoje. O Buda tinha passado vários dias a explicar aos seus discípulos a importância do despojamento para uma vida feliz e uma boa meditação. Um dia, porém, dirigindo-se com um discípulo ao templo para rezar, passou por eles uma mulher e o Buda não só parou para a cumprimentar como ficou inclusivamente a conversar com ela bastante tempo, atrasando a chegada ao templo, o que intrigou sobremaneira o discípulo. Quando o Buda voltou para junto dele, encontrou-o estranho e taciturno, mas não fez perguntas e lá seguiram até ao templo; e, na altura em que, lá chegados, o mestre se preparava para ir rezar, o discípulo reteve-o à entrada, perguntando-lhe porque parara ele a conversar com aquela mulher se, afinal, pregara o desapego de tudo, pessoas e coisas. Foi então que o Buda sorriu e lhe respondeu simplesmente: «Olha, mas eu deixei a mulher lá atrás, foste tu que a trouxeste até aqui.» Fazendo como o Buda, vou deixar o blogue para trás este mês de Agosto, tentando despojar-me de tudo para umas férias descansadas. Em Setembro estarei, espero, de volta. Boas férias a quem vai e bom trabalho para quem fica. E sem vírus! Até já.


 


 

Outros Lugares

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Não é comum juntarem-se dois autores de editoras diferentes num evento em que cada um fala do livro do outro. Mas acontece: aqui há uns anos, quando ainda se podia mostrar a cara toda em todo o lado e a toda a hora, participei num lançamento simultâneo de dois livros, um de Miguel Real (que eu própria editara) e outro de André Barata. Dispensávamos assim mais apresentadores, ocupando-se os autores dessa função. Pois bem: hoje vai passar-se o mesmo na Livraria Ler por aí, da Casa Independente, pelas 18h30. Raquel Ochoa e Paulo Moura estarão juntos para falar dos livros Pés na Terra e Cidades do Sol, embora desejavelmente separados por metro e meio ou o que for que a DGS aconselha. Pés na Terra fala de viagens intercontinentais e oferece belíssimas descrições de lugares naturais por esse mundo fora, ao mesmo tempo dando boas dicas a pessoas (mulheres, sobretudo) que viajem sozinhas. Cidades do Sol fala especialmente de grandes metrópoles da Ásia, para onde o autor parte em busca de utopias, como reza o subtítulo. A sessão, que terá vagas presenciais muito limitadas, pode ser vista e ouvida no Instagram das editoras (Oficina do Livro e Penguin Random House) às 18h30. Não perca uma boa conversa sobre viagens.


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Gramáticas

O querido agente literário Ilídio de Matos (que já cá não está e de quem tenho saudades porque era um homem bom como há poucos) gostava muito de usar a expressão «estas gramáticas» com um significado todo dele. «Já sabe como são estas gramáticas, não sabe?», exclamava ele quando um editor fazia uma oferta milionária para tirar um autor a um colega. E de outra vez, quando lhe dirigiam perguntas estúpidas, queixava-se: «Estes parvalhões não percebem nada destas gramáticas.» E, se era melhor tratar de um contrato com urgência, podíamos ouvi-lo: «Vamos lá tratar destas gramáticas antes que alguém se chegue à frente.» Eu achava-lhe graça, e não era só eu. E agora lembrei-me dele porque estimo muito a gramática e (deixem-me brincar um pouco com isto) acho-a até bastante plural. Mas o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo mandou dizer que, depois do horroroso incêndio, vai abrir de novo as portas a todas, todos e «todes». E eu quase ouvi na minha cabeça o Ilídio a dizer baixinho que já nem o Museu da Língua conhece a gramática. Ele diria de certeza que todos cabem na palavra «todos» e que usar «todes» é sublinhar a diferença dos que querem ser iguais. Bem, o que é um facto é que a coisa deu brado no Facebook, com uns do lado de uma gramática e outros do lado da outra gramática. E uma escritora com bastante sentido de humor até comentou ao ver a palavra não dicionarizada: «A sério? A séria? A série?» Estou com ela. Sou mulher e sinto-me incluída no «todas», e no «todos» também.

Querido tempo

Disse um dia destes num daqueles questionários que todos os jornais publicam no Verão que gostaria de ter mais tempo para ler e escrever. Na verdade, vivo mergulhada o ano inteiro nos livros ainda não publicados de muita gente, e isso retira-me tempo (às vezes puramente mental) para, chegada a casa, ir escrever ou ler outras coisas. E muitas vezes pasmo como alguns escritores com empregos a tempo inteiro conseguem escrever livros quase todos os anos. Um dia, perguntei à mulher de um desses escritores se ele era dos que não dormiam, mas ela respondeu-me que ele dormia lindamente, só que não via televisão, não ia ao cinema, não saía praticamente ao fim-de-semana e, além disso, era capaz de escrever em qualquer lado, mesmo dentro do carro, enquanto ela fazia compras no supermercado. Será um caso atípico? Não sei. Ainda na sequência do post do Livrologia que ontem aqui referi, como é que um autor que trabalhou sempre tanto (e, ainda por cima, teve tantos filhos, que são outros trabalhos) como Jorge de Sena conseguiu produzir uma obra tão variada, vasta e consistente? Como é que Vergílio Ferreira, a dar aulas e a corrigir testes, nunca faltou com romances? Como é que médicos como Namora ou Torga têm obras vastíssimas? Cá para mim, é tudo uma questão de organização e de capacidade de não se dispersar (mas, claro, eles não tinham Internet e o mundo era então muito mais calmo). Querido tempo.

Com e sem plano

A Sapo, que alberga o meu blogue desde 2010, destacava um dia destes na página de abertura um post de «Miss X» sobre Jorge de Sena no blogue Livrologia. Era interessante (voltarei, aliás, ao assunto ali tratado) mas incluía uma questão associada aos processos criativos que é o que hoje me traz a estas parcas linhas. Imagino que quem ministre cursos de Escrita Criativa (não na universidade, mas a pessoas que gostariam de organizar melhor as ideias que têm para contos ou romances) fale aos formandos da importância de ter, antes de começar, um plano bem traçado. Eu, quando escrevia livros juvenis, tinha sempre um plano detalhado, capítulo a capítulo, que seguia para não me perder, embora, claro, a história muitas vezes me fugisse da mão e fosse parar a outros lugares. Mas, quando ouço em entrevistas ao vivo, nomeadamente em festivais literários, os autores falarem dos seus processos criativos, ainda que alguns se refiram a uma ideia enraizada e a um plano do desenvolvimento, outros há que afirmam não ter sequer qualquer esboço da história quando começam um livro e que este, por assim dizer, se vai escrevendo a si mesmo. Ora, no blogue que referi no princípio, há uma deliciosa frase de Jorge de Sena, profícuo autor, que diz assim: «Nunca concebi nada antes de começar a escrever. Nada escrevi que de uma vez não escrevesse e não considerasse escrito de uma vez para sempre.» Maravilhoso, não é? Só a beleza e a força desta frase mostra que os planos podem realmente não fazer falta nenhuma à literatura.

Excerto da Quinzena

O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas de televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforo por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia no crochet manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos de noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas [...]


 


António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno (1980), Publicações Dom Quixote

Viver noutro mundo

Sempre achei admirável pessoas de línguas diferentes apaixonarem-se, casarem-se e entenderem-se às mil maravilhas, porque tive na juventude um namorado flamengo com quem comunicava em inglês e faltavam-me sempre as palavras nos momentos certos... Um dos meus melhores amigos, diplomata, foi, porém, casado com uma japonesa que mal sabia falar inglês (e ele desconhecia o japonês) e viveram juntos muitos anos, embora o casamento se tenha desfeito quando saíram do Japão porque ela não se adaptou à vida na Austrália. No livro que leio neste momento, O País dos Outros, de Leïla Slimani, que já venceu o Goncourt com outro romance, Mathilde, uma jovem francesa, apaixona-se por Amine, um belo marroquino, durante a Segunda Guerra Mundial; e não hesita em segui-lo para Marrocos quando ele é libertado de um campo de prisioneiros, passando a viver num país em que estranha quase tudo: a língua, a sogra, as baratas, o calor tórrido, a falta de escolaridade da cunhada, a falta de liberdade das mulheres. Embora ame Amine e acabe por ter dois filhos dele (uma menina muito mística e um rapazinho mimado), da primeira vez que regressa à Europa por causa da morte do pai, sente uma identificação de tal modo grande com a sua pátria que chega a pensar em abandonar os filhos, esquecer-se de tudo e ficar para sempre no seu país, e não voltar ao país dos outros. Hoje existem muitíssimos jovens que adoram viajar para os confins do mundo (tenho uma sobrinha que andou a ajudar a reconstruir casas no Nepal depois de um terramoto e vai de férias para lugares como a Nicarágua...), mas será que conseguiriam viver em países que são mesmo outros mundos em todos os sentidos? Vale muitíssimo a pena ler este romance.

O malfadado

Apesar de o Novo Acordo Ortográfico (NAO) já ter sido aplicado oficialmente há muitos anos, não tenho a certeza de que seja impossível voltar atrás, porque sei que muitos adultos (como eu) que eram profundamente contra o NAO nunca chegaram a utilizá-lo. Na editora onde trabalho deixamos à consideração dos autores portugueses se querem ou não utilizar o NAO, e a maioria não quer, mesmo os escritores mais jovens; mas há alguns que, por serem professores, pais ou funcionários públicos (em suma, por já estarem habituados a ele no quotidiano), optam pela nova ortografia. No entanto, apesar de darmos aos portugueses essa liberdade, aplicamos a regra do NAO às traduções que publicamos. Só que um dia destes, uma tradutora que também é escritora e, como escritora, não usa o NAO, também não o usou como tradutora e foi o cabo dos trabalhos na revisão do texto... Bem, acho que as duas grafias vão conviver pacificamente até já não haver ninguém do tempo da antiga e a nova emergir naturalmente. Será? Continuam, porém, a sair artigos contra o NAO e o que se segue é bem interessante. Deixo-vos com 9 argumentos contra o NAO.


https://expresso.pt/opiniao/2016-05-11-Nove-argumentos-contra-o-Acordo-Ortografico-de-1990?fbclid=IwAR3MQOU9pVPab9VbTqd8ZrkqvwPB8utUA47NFfS8I4mZyHYsdZWOWg2rFLI


 

Escrita Criativa

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A  primeira vez que ouvi falar de escrita criativa, por oposição a escrita informativa, foi a respeito da formação universitária do escritor Ian McEwan, que publiquei ao longo dos meus primeiros nove anos de carreira editorial. A  biografia deste autor disponibilizada pela agente literária que o representava dizia expressamente que ele estudara Creative Writing na Universidade de East Anglia, uma instituição que se tornou aliás uma referência por ter deitado cá para fora muitos escritores e dos bons. Em geral, os cursos de Escrita Criativa em Portugal não estão ligados à Academia e a sua qualidade depende muito de quem os ministra e da experiência quer do orientador, quer dos frequentadores (que às vezes são meros curiosos que querem escrever um livro para oferecer a amigos). Agora, porém, a Universidade de Coimbra abriu um mestrado em Escrita Criativa orientado pelo Professor Manuel Portela e dizem-me que até o programa desse curso é já um livro. Parece-me coisa séria e divulgável, sobretudo porque pode andar para aí muita gente a hesitar no que estudar a seguir e as inscrições terminam já no dia 23 de Julho. Mais informações aqui:


https://apps.uc.pt/courses/PT/course/9202


 


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Heróis da TV

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Na minha infância havia uma série de TV de grande sucesso baseada nos livros de Maurice Leblanc. Chamava-s Arsène Lupin, e o protagonista era um cavalheiro-ladrão inesquecível dos anos 1930. Hoje a Netflix desenterrou o herói, pondo-o na sua série Lupin, cujo protagonista lê os livros de Leblanc e se inspira neles para surripiar umas quantas coisas e vingar a memória do pai injustiçado... Pois bem, a figura do ladrão de casaca está em alta e acaba de sair O Último Amor de Arsène Lupin. Embora escrito em 1936, este livro  só foi publicado nos anos noventa, quando uma neta do autor encontrou uma pasta com o original em cima de um armário e, vendo do que se tratava, o entregou à editora. Nesta história, o ladrão de casaca guarda religiosamente um livro que foi de um ilustre antepassado – um general que serviu Napoleão – e que os Serviços Secretos britânicos procuram; e, simultaneamente, salva um tesouro incalculável que pertence ao seu último e único amor. É num cenário de intriga, pistas falsas, traições e paixão ardente que a história que fecha a saga de Arsène Lupin se desenrola. Todos os ingredientes dos romances anteriores do herói estão reunidos neste livro de despedida, cheio de reviravoltas inesperadas e até, quem sabe, com um final feliz. Para quem goste do género.


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Paraísos

Hoje vou levar finalmente a segunda dose da vacina (levei a Astrazeneca, daí que, mesmo com a antecipação de quatro semanas, tive de esperar até hoje); e, porque da outra vez fiquei completamente KO durante mais ou menos um dia e meio, deixo-vos um post leve e bonito do qual não espero comentários que exijam uma resposta da minha parte. Ora, se foi Jorge Luis Borges quem disse que o lugar mais próximo do Paraíso só podia ser uma biblioteca, pois muitos arquitectos por esse mundo deram-lhe seguramente ouvidos, tratando de fazer das bibliotecas locais realmente belos, confortáveis, incríveis. O jornal The Guardian mostra-nos então cinco obras-primas culturais entre todas as guardadoras de livros. Ficam na Austrália, na Bélgica, na Noruega, na Holanda e na China. São as finalistas do prémio anual atribuído a uma biblioteca pública, que tem em conta não apenas o funcionalidade do projecto arquitectónico, mas também o catálogo, a ligação à comunidade e, claro, a tecnologia da informação disponível. Veja estas beldades no link abaixo. Eu cá não queria estar no lugar do júri, mas talvez a biblioteca australiana seja a minha preferida. Até segunda!


https://www.theguardian.com/books/gallery/2021/jul/07/a-cultural-masterpiece-the-worlds-best-new-public-libraries-in-pictures?CMP=Share_iOSApp_Other&fbclid=IwAR3bJptTeUID3UyAxCnAGQHZI2dxr9H5Ie18mbRBqgUWQu0sa20Hn6hki6s


 

Tarrafal

Leio algures que existe um memorando de entendimento entre Portugal e Cabo Verde para propor o campo de concentração do Tarrafal, a que alguém chamou «o campo da morte lenta», a Património da UNESCO. Não só é uma forma de fazer com que não se esqueça, e assim não se repita, o horror, mas também um modo de convocar visitantes para o arquipélago sem ser apenas pelo clima e a paisagem. Conheço o Tarrafal, com as suas montanhas altas que parecem ter rostos desenhados na pedra, e com as suas praias de água transparente e coqueiros. Quando ali estive, da primeira vez que fui em trabalho à cidade da Praia (depois disso já fui mais três) levaram-me também a ver o Campo de Prisioneiros e, apesar de então estar bastante destruído e abandonado, deu para perceber as provações por que passaram os presos políticos que ali foram encerrados. Publiquei dois romances que evocam o Tarrafal: Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, e O Diabo Foi Meu Padeiro, de Mário Lúcio Sousa. O primeiro insere na ficção um velho sobrevivente português, o outro faz-se homenagem a todos os que, na realidade, estiveram presos no campo em épocas distintas: portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos. Ambos os livros devem ser lidos para que não esqueçamos, enquanto o Tarrafal não se torna Património da Humanidade por direito próprio.

Revelações

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Há cerca de dez anos, o escritor Mário Cláudio, que completou pouco antes da pandemia 50 anos de actividade literária, publicaria a exaustiva biografia de um bisneto de Camilo Castelo Branco, Tiago Veiga, poeta que a maioria dos portugueses desconhecia até então, embora o mesmo Mário Cláudio já tivesse ajudado a dar à estampa dois ou três pequenos poemários da sua autoria. Tiago Veiga, apesar de ter privado com confrades e gente ilustre de vários países, ser letrado e cosmopolita, escolheu viver retirado no Alto Minho e no anonimato, razão pela qual, quando Mário Cláudio publicou a biografia, muita gente pensou tratar-se de um heterónimo ou de mera invenção... Mas, descontando os milagres do Photoshop, um dos cadernos de imagens inserido no volume Tiago Veiga: Uma Biografia inclui uma foto do poeta com Mário Cláudio tirada, creio eu, nos anos setenta, quando se conheceram. Pois bem, depois de publicada a biografia, apareceram novos elementos sobre Veiga, entre eles um interessantíssimo diário da segunda mulher, uma pintora irlandesa, e o escritor Mário Cláudio teve de se despedir da figura com mais um pequeno volume dividido em três partes, intitulado Embora Eu Seja Um Velho Errante. É sobre essa nova obra que o autor conversará logo à tarde com o jornalista Valdemar Cruz numa sessão virtual que será transmitida na página de Facebook da Dom Quixote às 18h30. Faça-nos companhia e ficará a saber certamente uns quantos segredos.


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Viajar e ficar

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Agora, que em Portugal se vacina a população a uma velocidade estonteante (devemos ser dos mais rápidos da Europa, tentando compensar a irresponsabilidade das pessoas), faço fé em que as férias de Verão, mesmo com umas pequenas multidões a banhos, sejam mais tranquilas e menos contagiosas. Por enquanto, porém, estamos mais ou menos proibidos de viajar, e quando digo isto refiro-me ao facto de termos de fazer um teste com resultado negativo para podermos entrar num hotel ou num restaurante se a localidade for de risco elevado. Mesmo assim, se tivermos de ficar «em terra», há sempre a consolação da leitura, e podemos até ler sobre viagens, de preferência um especialista como Paul Theroux, do qual acaba de sair na Quetzal um conjunto de ensaios que dá pelo nome de Figuras numa Paisagem, no qual, sempre com os lugares como centro, o grande viajante revela enigmas pessoais e literários e facetas desconhecidas encontradas na obra de várias personalidades, desde Henry David Thoreau a Graham Greene, passando por Georges Simenon ou Joseph Conrad. Neste livro, desenham-se ainda perfis, sempre ligados à ideia de viagem, como o de Elizabeth Taylor durante uma viagem de avião ou o de Robin Williams numa visita à cidade da maçã. Parafraseando o Museu da Farmácia, a quem roubei a imagem abaixo, a melhor cura é a cultura.


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Um mapa literário

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Os mais velhos entre os leitores deste blogue lembrar-se-ão talvez de Bernard Pivot, um intelectual francês que ficou conhecido sobretudo pelo seu programa de televisão chamado Bouillon de Culture. O talento e a cultura abrangente de Pivot tornaram o seu programa um dos mais vistos e duradouros de sempre e até houve um episódio dedicado especialmente à literatura portuguesa que foi filmado no Palácio Fronteira, em Lisboa. Mais tarde, Pivot publicou um livro no qual destaca, com gradações de cinzento, os 100, 50 e 10 livros essenciais para ficar a conhecer a literatura de determinado país (são  muitos os países, mas já não me lembro quantos; e não sei onde o arrumei, senão dir-vos-ia que livros portugueses escolheu, mas recordo-me de que o último mencionado era O Memorial do Convento). Ora, um pouco na mesma senda, Backforward 24, pseudónimo de um leitor experimentado que, pelos vistos, publicou um livro com a lista dos romances que crê serem representativos de cada país (um apenas por país), criou agora um mapa literário, pondo imagens dos títulos e capas desses romances nos espaços ocupados pelos países. Claro que um só romance em cada país é manifestamente insuficiente e redutor, mas diz quem sabe que o autor do mapa não incluiu apenas clássicos, mas também obras contemporâneas. Eu adoraria saber que livro escolheu para Portugal, mas estou farta de olhar para o mapa e não consegui descortinar. Pode ser que alguém lá chegue antes de mim. Mas desde já acho tremendamente discutível que os Estados Unidos estejam representados por Não Matem a Cotovia, ainda que concorde com a escolha de Ulisses para a Irlanda. Aí está o link, se quiserem ver. Calculo que a tradução do texto tenha sido automática pois em vez de «Ernesto Sabato», aparece «Ernesto de sábado». Dêem o devido desconto.


https://www.pensarcontemporaneo.com/o-mapa-literario-do-mundo-os-romances-mais-representativos-de-cada-pais/?fbclid=IwAR2H1PIB2YRmJsaRIN6f2GNXYbLUmUd-OKjKewhMMvyKaHBPaqx-xnOXmtA


 


P. S. Afinal, descobri o pedacinho da Europa e o nosso livro é Memorial do Convento.


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Excerto da Quinzena

Portanto, o mestre disse: «Se dos troncos


    colheres um raminho a qualquer planta,


    os pensamentos teus se farão broncos.»


Então, junto a um silvado, se adianta


    a colher um raminho este meu punho;


    e o seu tronco gritou: «Quem me quebranta?»


E feito em sangue escuro testemunho,


    recomeçou: «Assim me dilaceras?


    Piedade a teu espírito não dá cunho?


Homens fomos e eis-nos silvas meras:


    bem deverias ter a mão mais pia,


    se em nós almas de serpes supuseras.»


E como em tição verde em que arderia


    uma das pontas, já a outra geme


    e range pelo vento que assobia,


assim juntos o lenho roto espreme


    sangue e palavra; e o ramo então de cima


    deixo cair, e quedo tal quem teme.


 


Dante Alighieri, A Divina Comédia, «Inferno», Canto XIII (versos 28 a 45),


tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal Editores

Doações

Muitas vezes falamos aqui no blogue (e uso o plural não de forma majestática mas porque muitos dos que aqui vêm também comentam) sobre o que vai acontecer às nossas bibliotecas no futuro, quando morrermos, sobretudo nos casos em que a geração seguinte não é leitora e não aprecia sequer o livro como objecto. Eu, que nem filhos pari, tenho a suspeita de que, se não oferecer os meus livros ainda em vida a quem goste de ler em papel, eles serão provavelmente vendidos a peso ou entregues para reciclagem por quem cá fique. Um escritor que conheço fez há pouco tempo uma coisa bonita: começou a esvaziar as suas prateleiras e a dá-las aos jovens investigadores que estudam a sua obra nas universidades e não teriam de outro modo possibilidade de adquirir todos esses volumes. Outros autores vendem-nos por junto a um alfarrabista e deixam o que a venda rende na conta bancária, assumindo que aos herdeiros faz mais falta o dinheiro do que a «papelada». António Lobo Antunes, que tem três filhas, decidiu recentemente doar o seu espólio à Câmara de Lisboa, que o instalará em Benfica numa nova biblioteca com o nome do escritor. Além de cerca de 20 000 livros, muitos deles dedicados por confrades portugueses e estrangeiros, e das primeiras edições da sua própria obra, haverá medalhas, certificados de prémios e manuscritos, bem como, por certo, estudos de outros autores sobre a obra lobo-antuniana. A partir de 2022 já poderá ser visitada a nova biblioteca. Em casa de Lobo Antunes, ficarão muitas paredes vazias...

Kafka e a boneca viajante

Leio que Dora Diamant (ou Dwojra Diamen), que foi amante de Franz Kafka, contou uma história do escritor, passada um ano antes da sua morte, que terá inspirado o livro infantil chamado Kafka e a Boneca Viajante, de Jordi Sierra. Mas a história é bonita (e, mesmo que não seja verdadeira, vale a pena contar). Ao que parece, num parque onde costumava passear diariamente, Kafka encontrou uma criança lavada em lágrimas por ter perdido a sua boneca; e, como ficou realmente impressionado com tão fundo desgosto, ofereceu-se para a ajudar a procurar a dita boneca no parque, mas nem ele nem ninguém a encontraram. Então, teve uma ideia: ausentou-se numa pretensa nova busca e escreveu uma carta que depois entregou à menina como sendo da sua boneca, na qual esta pedia à «dona» que não se preocupasse com ela, pois tinha ido de viagem, estava bem, e depois escreveria de novo a contar as suas aventuras. A  criança parou de chorar, ficou mais consolada e, ao que parece, voltou a encontrar-se com o escritor checo, que acabou por oferecer-lhe uma outra boneca mais tarde (diferente da perdida, claro) com um bilhete que dizia: «As minhas viagens mudaram-me.» Verdade ou lenda, não importa muito; o que interessa é que originou um livro  que dá a conhecer Kafka aos mais novos. Mas saberão eles o que é uma carta em tempo de SMS e e-mails?

Censura

Aqui há tempos, escrevi neste mesmo blogue um post sobre o problema da opressão sobre os intelectuais anti-regime em Hong Kong e a circunstância de alguns jornalistas e escritores estarem desaparecidos, suspeitando-se de que o Governo os teria mandado «sequestrar» para os afastar da intervenção política. Aconteceu a alguns, de facto, que depois foram obrigados a dizer para a televisão que estavam bem e que tinham preferido retirar-se... Por muito que a China tenha mudado, a verdade é que não deixou de ser um regime ditatorial e, portanto, não seria de esperar que se deixasse criticar continuamente pelos meios de comunicação de Macau e Hong Kong. E, assim, depois de «raptos» e avisos, fez tudo para que que se fechassem as portas, ao fim de vinte e seis anos de actividade, de um dos últimos jornais que ainda levantava a voz contra o Governo, detendo colunistas e membros da sua direcção e congelando as respectivas contas bancárias. Com o aviso aos leitores de que a última edição sairia no dia 24 de Junho e se publicaria um caderno sobre as ditas detenções, os leitores foram em massa comprá-la em papel e a tiragem subiu dos 80.000 na véspera para os 500.000 exemplares. Quem apanhou um exemplar terá em casa uma preciosidade, pois não só o Apple Daily deixou de imprimir-se como deixou de estar sequer acessível online. A China não brinca, mesmo nos territórios de Macau e Hong Kong...

O senhor Pires

Quando conheci pessoalmente o senhor Pires (leia-se: José Cardoso Pires), ele já tinha infelizmente sofrido um AVC e, portanto, já não teria a energia de que todos os que lhe foram próximos fazem alarde (escreveu, de resto, um livro intitulado De Profundis sobre o buraco negro que viveu na sequência do derrame e que li oportunamente). Na Feira de Frankfurt de 1997, quando Portugal era país convidado, tentou subir na escada rolante que era de descer e deu cabo de um pé, mas já ninguém se lembra se tinha bebido um whisky a mais ou estava apenas distraído. Em novo, era dado ao soco e não se coibia de pregar uns murros num crítico que desdenhasse dos seus romances. Escreveu uma obra-prima chamada O Delfim, que recebi de presente de anos quando atingi a maioridade e foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes, bem como muitos outros livros importantes (eu comecei por Dinossauro Excelentíssimo). Diz quem privou com ele que era uma personagem fascinante, e quem queira saber porquê tem agora ao dispor uma biografia exaustiva pela pena de um dos mais elogiados escritores contemporâneos, Bruno Vieira Amaral (Prémio Literário José Saramago com o romance As Pequenas Coisas). Chama-se Integrado Marginal (um grande título) e está a fazer furor. O senhor Pires devia gostar de a ler.

Mexidos ou quietos

Li há tempos que, nos Estados Unidos, a situação com a obesidade dos jovens é cada vez mais preocupante. Não só não se alimentam de forma racional (a fast food está nos antípodas da dieta mediterrânica) como passam em média umas seis horas sentados ao computador ou «ligados» a tablets e smartphones, sem o mínimo desejo de levantar o rabo da cadeira para ir dar um passeio higiénico. Aqui, pelo contrário, vemos muita gente a praticar desporto, caminhar, correr, e os jovens jogarem futebol, fazerem surf, andarem de bicicleta. Mas o tempo que passam agarrados às máquinas de comunicar (e que tanta vez só servem para deixar o operador mais sozinho, a jogar um jogo normalmente violento ou parvo) é também excessivo, sobretudo se comparado com o tempo que estão a ler. Pois é, os hábitos de leitura da malta jovem, segundo o Plano Nacional de Leitura, não são nada animadores... E foi mesmo por causa disso que o PNL criou o projecto Craques da Leitura, que associa a leitura aos atletas. Porque, ao contrário do que se pensa, há muitos desportistas que gostam de ler e a quem sabe muito bem ler umas páginas todos os dias para relaxar, sobretudo na véspera de uma prova importante. São esses atletas, de várias modalidades, que vão estar em encontros e conversas com os jovens portugueses para os incentivar à prática da leitura. Como explica o artigo cujo link partilho abaixo, as crianças dos 6 aos 15 anos podem inscrever-se nestas actividades através das escolas, das bibliotecas e dos centros desportivos da sua área. Uma bela maneira de ocupar jovens em férias, pois, diante dos atletas, até perceberão melhor como é importante, além do corpo, mexer os olhinhos sobre as páginas.


Atletas também são ″Craques da Leitura″ (jn.pt)


 

O que ando a ler

Se entrarem por estes dias numa livraria, vê-lo-ão de certeza. É que a capa, linda de morrer, chama inequivocamente a atenção. O livro tem por título O Homem do Casaco Vermelho, e esse casaco vermelho, que se parece com um roupão com borlas caindo do cinto, deixa ver um chinelo sofisticado e colorido que pertence ao doutor Pozzi, cujo rosto só conheceremos no interior do livro e pertence a um dos mais belos homens do seu tempo. Médico italiano tornado francês, culto, rico e que contribuiu enormemente para o progresso de alguns processos cirúrgicos, sobretudo na área da ginecologia, salvando muitas vidas, esta figura (a par do conde Montesquiou com quem viajou para Londres) é o núcleo do novíssimo livro de Julian Barnes, autor que se interessou por ele a partir do momento em que viu esse quadro maravilhoso em que veste o casaco vermelho. E, como amante da França, o escritor britânico toma Pozzi como ponto de partida para nos falar da Belle Époque e dos seus protagonistas (no jornalismo, nas artes, nos duelos, na maledicência...) que, de resto, vão aparecendo retratados ao longo do livro em pequenos «cromos» que eram oferecidos com uns chocolates, como cá em Portugal acontecia com os rebuçados já não sei de que marca. A obra, que não é de ficção nem fácil (é preciso conhecer muitos daqueles tipos), é mais uma homenagem à adorada França do autor, sobretudo porque, com o seu sentido de humor habitual, Barnes a compara com a sua ilha na mesma época, e lá a «époque» não é obviamente tão «belle»... Irreverente, informado, surpreendente, é o livro que estou a acabar de ler.