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A mostrar mensagens de abril, 2012

Intrinsecamente alentejano

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Há sempre um  monte de livros sobre a minha mesa para eu ler – e há outro monte virtual no meu computador. Há dezenas de pessoas que me escrevem pedindo que leia os seus livros ou que conseguem encontrar-me aqui e ali e me prendem uns minutinhos para me entregar em mão um romance que escreveram e querem publicar. É, por isso, de algum modo, excepcional eu publicar um livro de um autor que queria apenas fotocopiar uns quantos exemplares do seu texto para oferecer a amigos e família e pediu a um cunhado com talento que lhe fizesse apenas uma capa para tudo ficar mais bonitinho. A verdade é que eu vi essa capa por acaso, e li o título, e devo ter perguntado o que era aquilo e, já não sei bem como, dei por mim a ler o texto e a querer publicá-lo. Pois bem: O Intrínseco de Manolo é uma delícia alentejana, um romance sobre um homem intrinsecamente bom, vítima de uma calúnia que envolve o comportamento da mulher, que se põe todas as sextas a caminho da aldeia vizinha, por acaso espanhola. Mas quem se refugia no falatório há-de pagá-las – e bem, porque os bons homens preferem vingar-se com luva branca. Ternurento, cómico e ocasionalmente escatológico (preparem-se para a Idalina que – perdoem – é literalmente capaz de cozinhar um peido), esta é uma  estreia vigorosa que nos enche de boa-disposição e nos ensina o poder que a excepção pode ter sobre a regra.


 


Fim em beleza

Só recentemente pude meter a mão no vencedor do Man Booker Prize do ano passado, que alguns dos leitores deste blogue, mais sortudos do que eu, já tiveram ocasião de ler. Trata-se de O Sentido do Fim, de Julian Barnes, um romance absolutamente imperdível que, por qualquer razão, me fez lembrar também A Praia de Chesil, de Ian McEwan, galardoado, julgo, com o mesmo prémio (talvez as restrições à prática sexual antes do casamento, mas seguramente outras coisas mais). Para além do facto de os ingleses escreverem muito bem (a sua narração é tão fluida que somos arrastados do princípio ao fim sem darmos conta), Barnes é um ás a descrever sensações com poucas palavras, neste caso as de um homem que já foi rapaz, já teve um amigo que admirava, já teve uma namorada que desprezou com uma carta que nem era para ela, mas para esse amigo que se suicidou exactamente pelas mesmas razões que um outro colega de ambos o fez uns anos antes – e que não se podem aqui contar. Notável entre todas, a relação do protagonista com a ex-mulher, um desses amores que duram toda a vida sem sofrerem a mácula da separação e da troca. Com um fim algo trágico, mas extremamente belo, este O Sentido do Fim faz-nos compreender como um relacionamento de juventude, ainda por cima curto, pode minar a vida de um sexagenário até que alguém o leve a entender que é mesmo preciso que certas coisas terminem. Excelente leitura.

Geografia do gosto

Há muitos anos, quando comecei a trabalhar na edição, recebíamos na Gradiva, entre outras publicações, a New York Times Review of Books. Hoje é fácil ter acesso a ela com uns meros cliques no teclado do computador ou, simplesmente, comprando-a num quiosque (aquele onde consumo jornais, pelo menos); mas nessa altura ela vinha pelo correio dobrada com uma tira de papel mais grosso a envolvê-la e era todo um ritual esticá-la e lê-la de ponta a ponta. Porém, o País era mais analfabeto e o mundo menos globalizado, e nem sempre o que constava dos Top de vendas da NYTRB funcionava cá, como o provaram, de resto, umas quantas experiências que fizemos e se revelaram verdadeiros flops. Ninguém nesse tempo parecia apreciar verdadeiramente os thrillers ou as obras de auto-ajuda e as séries que acompanhávamos então na televisão raramente eram as que os norte-americanos produziam, não se vendendo, pois, como hoje acontece, os romances que lhes haviam servido de base. As coisas mudaram bastante nesse sentido e, nos tempos que correm, somos todos cada vez mais iguais em qualquer parte do mundo dito civilizado. É, no entanto, curioso verificar que, sem o apoio do cinema ou da televisão, alguns autores continuam a ser vítimas de uma certa geografia do gosto e, se em Portugal podem ser extremamente bem-sucedidos, em Espanha registam vendas diminutas e, no Reino Unido, são ilustres desconhecidos. Quando, por vezes, falamos de um autor de sucesso em Portugal a um amigo leitor que vem do país donde esse é oriundo, podemos inclusivamente levar com a frase surpreendente: «Nunca ouvi falar.»

Da Pérsia ao Irão

Muita gente se lembra seguramente de um filme de animação chamado Persépolis que correu os festivais de cinema há uns anos e acabou mesmo por ter distribuição comercial e ser exibido também na televisão, além de ter sido seleccionado para os Óscares. Era a história da vida de uma rapariga iraniana, desde a sua infância ocidentalizada até às drásticas mudanças que a Revolução Islâmica trouxe ao Irão na sequência da queda do Xá. Esse filme baseava-se, porém, num livro autobiográfico de Marjane Satrapi – uma banda desenhada a preto e branco publicada originalmente em francês (em dois volumes depois reunidos) e mais tarde traduzida e editada num grande número de países. Pois bem, esse livro saiu em Portugal recentemente e merece leitura, porque é um excelente exemplo de como um jovem (no caso, uma jovem) ganha consciência política entre dois regimes tenebrosos, cada um à sua maneira. A par dos problemas vividos pela protagonista à medida que a realidade à sua volta vai mudando – os presos políticos, a proibição de estudar, a substituição da matemática pelo estudo do Corão ou a instrumentalização dos media pelo poder dos ayatollahs – há também um lado mais leve sobre o que é crescer, descobrir a sexualidade, namorar, beijar, estar apaixonado ou até sofrer uma traição. Um bom livro para oferecer aos adolescentes preguiçosos para ler.

Meter o nariz onde se é chamado

Uma das desvantagens de se ser editor é já não se poder entrar numa livraria sem essa preocupação de fazer vistorias: o primeiro passo é verificar se os livros que publicámos estão lá e, no caso de estarem (o que não é garantido), se a sua exposição é a mais conveniente (numa prateleira é muito pior do que num montinho sobre a mesa; e o melhor de tudo é estar em lugar de destaque, na montra ou num expositor em escadinha, que é onde costumam ficar as novidades). Só depois podemos, como se costuma dizer, partir para outra. É também por isso que é tão bom ir à feira do livro, na qual cada editor tem os seus pavilhões próprios. Aí, podemos andar à vontade a folhear e a cheirar livros, sem sentirmos que estamos a trabalhar. Além disso, os preços são mais acessíveis e existe algum fundo de catálogo exposto – o que nas livrarias começa a ser raro – e frequentemente em saldo. A Feira do Livro de Lisboa abre já amanhã e, apesar de ter de lá passar os fins-de-semana em sessões de autógrafos com os autores – noblesse oblige –, sobra sempre um tempinho para meter o nariz onde se é chamado. A feira fica aberta até dia 13 de Maio.

Maturidade

Há muitos anos, mais de vinte, traduzi um livro absolutamente notável de Primo Levi. Tinha o italiano ainda fresquinho e disponibilidade para me dedicar a um trabalho moroso e mal pago nas poucas horas que tinha livres. A obra chamava-se O Sistema Periódico e foi publicada no início dos anos 90, numa altura em que os romances de Levi fizeram sucesso (o lançamento do livro foi, de resto, no Instituto Italiano em conjunto com o de Se Isto É Um Homem). Recentemente, foi decidido reeditar esta autobiografia que se lê como um livro de contos, usando a minha velhinha tradução. E, porque tenho amor à pele, pedi um tempo para a rever com mais vinte anos de leituras e vivências em cima. E ainda bem: porque, apesar de o revisor ter dito que estava óptima, a verdade é que encontrei bastantes marcas da minha falta de maturidade, a maior das quais ter tido medo de usar a palavra «judeu» no livro inteiro, usando em vez dela «hebreu» porque os italianos usam «ebreo»... E, entre outras parvoíces, deixei Richiamo alla Foresta numa passagem que falava justamente de uma personagem de O Apelo da Selva, de Jack London. Claro que muita gente acha que o livro deveria chamar-se A Tabela Periódica, e não o Sistema – e pensam que isso foi também má tradução; mas a verdade é que se Levi quisesse ter-lhe chamado «Tabela» tinha a palavra italiana para tal. Não sei se, desta feita, ainda ficou muita coisa imperfeita, espero que não. Em todo o caso, deu para ver que envelhecer tem um lado positivo, afinal de contas. Do livro falarei um dia destes, quando estiver à venda.

Un chico Almodóvar

Gosto muito do cinema de Pedro Almodóvar, embora nem todos os seus filmes me tenham deliciado do mesmo modo. Há, porém, na sua obra uma característica que me agrada especialmente e que se prende com a dignidade que consegue emprestar a figuras que, à partida, estariam nas margens e seriam desqualificadas pela maioria de nós – entre outras, o travesti de Tudo sobre a Minha Mãe e o enfermeiro que tem relações sexuais com a bailarina em coma em Fala com Ela (e de quem não conseguimos deixar de gostar). Encontrei há uns meses num romance de Juan Marsé, Rabos de Lagartixa, um adolescente que faria as delícias do realizador; mas há um autor português que consegue a proeza de Almodóvar com as suas personagens, trazendo para o «plateau» duas mulheres-a-dias irresistíveis em O Apocalipse dos Trabalhadores, um garoto pobre de espírito que perdeu a mãe e pinta céus para ver se a encontra em O Remorso de Baltazar Serapião (Prémio Literário José Saramago) ou, mais recentemente, uma prostituta anã e um «homem maricas» perdidos da vida em O Filho de Mil Homens. Como disse o humorista Pedro Vieira num post do seu blogue Irmão Lúcia, «ninguém como ele maneja a insustentável leveza da crueldade». Chama-se valter hugo mãe e, até há uns meses, não usava maiúsculas. Mas é para ler com todas as letras. O nosso chico Almodóvar.

A língua da música

Todos os autores adoram ver os seus livros traduzidos noutras línguas e a circularem pelo mundo. A internacionalização chega a ser, de resto, chave para o sucesso no país em que os autores foram originalmente publicados, mais ainda se estivermos a falar de Portugal, onde, sei lá porquê, tendemos a dar sempre mais importância ao que se diz lá fora. Não sei se os romancistas portugueses acompanham a par e passo as traduções dos seus livros – imagino que não o possam fazer com certas línguas como o sérvio ou o japonês – mas tenho ideia de que o façam, pelo menos, com as línguas que conhecem; contudo, estou convencida de que nunca as acham tão «estrangeiras» como os poetas quando lêem as traduções dos seus poemas. Quando escrevo uma letra para um fado, por exemplo, faço-a com uma determinada música na cabeça, que não é obviamente a que ouvirei depois; e, mesmo que o resultado final (letra + música) seja francamente melhor do que o que estava na minha cabeça, há sempre uma espécie de desconforto inicial por causa dessa disparidade. Assim também, sempre que verifico traduções de poemas meus, a impressão é estranha, porque, ainda que tudo bata certo em termos do sentido, que não haja realmente nada a criticar, basta um verso mais comprido do que o original para fazer do poema outro poema completamente diferente. Porque a música também muda de língua para língua.

O pior não são os autores

Mario Muchnik, um editor espanhol que trabalhou em grandes casas da literatura como a Seix Barral, do grupo Planeta, deu o título O Pior não São os Autores àquilo que chamou depois, mais concretamente, a sua autobiografia editorial. Homem experiente que conheceu dezenas de escritores importantes ao longo da vida (como Cortázar, por exemplo), descreve nestas suas memórias cronológicas a relação que estabeleceu com eles, querendo, porém, com o título afirmar que foram bem mais pacíficas do que as que manteve com quem o empregava. E, contudo, a frase escolhida não deixa de implicar que os autores são proverbialmente difíceis, exigentes e chatinhos com os seus egos tantas vezes inflamados. Sei de muitas histórias de escritores assim, evidentemente, mas, talvez porque a dada altura tenha optado por publicar os mais novos, na verdade não me posso queixar. Raramente os meus autores me dão água pela barba ou se armam em génios, nunca me inundaram com pedidos estapafúrdios ou exigências tolas, não são do tipo de vir chorar no meu ombro quando têm um bloqueio ou a crítica lhes dá uma catanada, enfim, se olhar para estes últimos dez ou doze anos, tenho de considerar-me uma sortuda (mesmo que não me esqueça de um ou outro momento mais crítico, como a ocasião em que um autor me pediu por telefone que metesse uma cunha para o seu livro receber determinado prémio…). Claro que a empatia não se estabelece com todos da mesma maneira e, como em tudo na vida, há uns que nos caem logo no goto e outros de quem nunca matamos uma certa distância reverente ou cerimoniosa. Mas não é isso que nos impede de trabalhar como é preciso e, se tudo continuar a correr assim, até poderei dizer um dia que o melhor de tudo foram os autores.

Boutique

Quase todos os grandes grupos editoriais em todo o mundo acabam por adquirir ou criar de raiz uma editora de prestígio a que alguns entendidos já chamaram editoras-boutiques. A Porto Editora comprou recentemente a Assírio e Alvim, e a Random House, nos Estados Unidos, tem uma pequena chancela literária chamada Nan Talese. Na LeYa, sempre existiu a Teorema, que tinha essa patine de editora de vanguarda dada por quem a fundou e sobretudo quem a geriu por mais de vinte e cinco anos. Mas, depois da saída de Carlos da Veiga Ferreira e, a seguir, de José Oliveira, não sabíamos bem o que iria acontecer à boutique. Foi, porém, decidido reunir esforços e fazer uma espécie de regresso às origens. Assim, manter-se-ão autores clássicos-modernos como Nabokov ou Primo Levi e autores de ruptura como Bret Easton Ellis e Jay McInerney, mas juntar-se-lhes-ão os novos portugueses e os novos estrangeiros literários, que alimentarão um catálogo que promete ser de qualidade. Os primeiros títulos a publicar, no final deste mês, serão O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais, e Longe da Terra, de Rebecca Makkay. Para o mês que vem há mais – devagarinho, claro, que a marca pede ponderação e cautela.

Mais vidas

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Em 2009, João Tordo foi galardoado com o Prémio Literário José Saramago com o romance As Três Vidas. O título nasceu do nome de uma livraria nova-iorquina (Three Lives) aonde o protagonista vai procurar informação sobre o paradeiro de Camila, a neta do patrão que sonhava ser funâmbula e por quem ele estava perdidamente apaixonado.  No final do ano passado, a edição brasileira deste mesmo romance, publicada pela editora Língua Geral (que tem divulgado no país irmão muitos autores portugueses), foi finalista do Prémio Portugal Telecom, um dos dois mais importantes galardões literários do Brasil. Estava, pois, na hora de disponibilizar de novo ao público português este livro que, tendo como pretexto a história de três gerações de uma estranha família,  atravessa praticamente o século XX e os seus mais relevantes episódios, como a Guerra Civil de Espanha, a Segunda Guerra Mundial e o famigerado 11 de Setembro. Mais vidas, pois, para um romance a não perder.


 


 


E se alguém de repente...

Aqui há uns anos, havia um anúncio um bocado parvo (mas devia ser bom, pois de outro modo não me recordaria dele) em que uma voz dizia à rapariga que ia pela rua que, se um desconhecido de repente lhe oferecesse flores, isso era Impulse (a marca do desodorizante que se pretendia anunciar). Quando fui trabalhar para a LeYa, dei-me conta de que na equipa comercial havia uma pessoa que se dedicava exclusivamente às vendas por impulso – e tenho ideia de que tomava conta de clientes específicos como as bombas de gasolina, entre outros, aonde as pessoas não vão especificamente comprar livros, mas podem levá-los «por impulso». Com o fecho de muitas livrarias no País e a ameaça de que outras irão pelo mesmo caminho, os leitores que vivem longe dos centros urbanos ficarão certamente mais pobres; porém, os optimistas defendem que é sobretudo para esses que servem as livrarias virtuais (que, ainda por cima, lhes farão chegar os livros directamente a casa). Estas desenvolver-se-ão em Portugal, estou certa, até porque o número de e-books comprados aumentará com os novos dispositivos; mas significarão, muito provavelmente, a perda das tais vendas por impulso. A página de abertura de uma Amazon já poucos livros tem e, ainda que as congéneres portuguesas não se tenham posto até agora a vender roupas de marca e electrodomésticos, a verdade é que o número de livros no écran inicial corresponde, quando muito, ao que está na montra de uma livraria, mas os restantes livros estão mais ou menos escondidos e é difícil, desse modo, impulsionarem alguém...

Estranheza

No dia 29 de Março, realizou-se o funeral do escritor mais português de todos os italianos: Antonio Tabucchi, o autor de livros de ficção como A Mulher de Porto Pim, Nocturno Indiano, O Fio do Horizonte ou Afirma Pereira, mas também um grande estudioso e apaixonado de Pessoa, com ensaios publicados sobre a matéria. Não concordo com a hipocrisia dos que, só porque uma pessoa morre, lhe tecem elogios rasgados que nunca lhe expressaram em vida. Mas não posso deixar de confessar que foi com alguma estranheza que li os comentários de Zita Seabra (que trabalhou na Quetzal quando Maria da Piedade Ferreira publicava as obras do romancista nessa chancela) no dia seguinte à morte de Tabucchi. Pois dizia coisas como «era o autor que nenhum de nós gostaria de ter» ou «quando chegava a Lisboa e não funcionava o aspirador... era insuportável de feitio». Acredito que Tabucchi não fosse um santo (já não há disso, e muito menos entre escritores), mas no dia da morte de um senhor autor em qualquer parte do mundo brindar a família, os amigos e os admiradores que lêem jornais com afirmações como estas parece-me simplesmente excessivo. Claro que há gente de quem não podemos esperar nada de sensato. Mas mesmo assim...

Dez anos depois

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Quando comecei a editar literatura portuguesa na Temas e Debates, Paulo Moreiras foi um dos meus primeiros autores. Fora selecionado, entre muitos candidatos, pelo Instituto do Livro e das Bibliotecas para uma bolsa de criação literária, que durante uns meses o aliviou na compra de muitos livros antigos em alfarrabistas e lhe permitiu escrever o seu primeiro romance picaresco, intitulado A Demanda de D. Fuas Bragatela. Trata-se de um texto absolutamente excepcional, que lhe valeu críticas muito elogiosas, entre as quais a do «melhor romance histórico da década»; é, de facto, um notável retrato do Portugal medieval feito com um humor contagiante – e recuperando uma linguagem que, infelizmente, caiu em desuso – que põe em cena um portuguesinho que não quis ser alfaiate e partiu à aventura, cruzando-se com alcoviteiras, meirinhos corruptos, padres que vendem parcelas de céu e muitas outras figuras que bem podiam ter saído de um auto de Gil Vicente. Recentemente, um grupo de teatro de Pombal levou à cena uma adaptação do livro feita pelo próprio autor, com casa cheia. Dez anos depois, aqui temos então de novo o Bragatela, havia muito esgotado, com uma capa que não fica nada atrás da primeira. (Permitam-me uma nota pessoal: Caro António Luiz Pacheco, este é daqueles livros que não pode perder.)


 


 


Profissão: escritor

Não passaria pela cabeça de ninguém esperar que um pintor fizesse um desenho ou pintasse uma tela gratuitamente – a menos, claro, que se tratasse de um acto beneficente. Quando se convida um economista ou um político para fazer uma palestra, o pagamento combina-se previamente e há muito boa gente que recebe pela tarefa mais do que vários dos meus salários mensais. (Diz-se que Clinton vive actualmente de fazer conferências, por exemplo, mas há muitos outros na mesma situação.) Se quisermos um cantor para animar um qualquer acontecimento, é bom prever um cachet jeitoso, ou ele não se dará ao trabalho de lá pôr os pés. Ora, vem esta introdução a propósito de um interessante artigo da jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho (ALC) no Público sobre o facto de em Portugal se partir do princípio de que um escritor não cobra senão os direitos de autor dos seus livros: se o querem num encontro, pagam-lhe, quando muito, as despesas de deslocação e, salvaguardadas as excepções (pouquíssimas), tudo o mais é por sua conta e risco, isentando-se quem encomenda o «serviço» de perguntar sequer quantos dias andou o pobre à volta do tema sobre o qual tem de dissertar ou escrever. O hábito instituiu-se e não é fácil corrigir a situação de uma hora para a outra, até porque, se um autor exigir ser pago por uma intervenção, haverá, diz ALC, uma dezena de outros que a farão de graça. Porém, numa altura em que cada vez há mais escritores a tempo inteiro, seria simpático pensar que a produção de um texto rouba se calhar tanto ou mais tempo do que um ensaio de meia dúzia de temas batidos a um cantor – e que por isso deve ser objecto de uma justa retribuição. De acordo com ALC, no Brasil o procedimento é já este. Está, pois, na hora de aprendermos com o lado de lá e batermos o pé.

O perigo das metades

Costumo acompanhar a produção poética nacional e tento, na medida do possível, estar em dia com os poetas mais novos; porém, como as nossas livrarias têm prateleiras cada vez mais vazias ou pequenas no que toca ao género – e muitas das editoras de poesia são empresas quase domésticas que não conseguem chegar aos grandes livreiros –, nem sempre é fácil andar a par de tudo, tornando-se, por isso, fundamental a leitura das páginas de livros na imprensa para nos informarmos do que não devemos deixar passar em branco. Foi assim, de resto, que no dia 16 de Março último fui atraída para a leitura de uma crítica que tinha como subtítulo «É urgente conhecer e reconhecer a poesia de X» (o X substitui o nome do poeta). Como não conhecia X (mea culpa) e sei que quase sempre os críticos incluem no seu texto excertos da obra sobre a qual escrevem, corri as colunas à procura de aspas, mas as primeiras que encontrei deixaram-me algo perplexa. Os versos citados eram: «Gosto de foder: gosto muito de foder. Gosto mais mais de foder do que a maioria das pessoas.» Na coluna anterior, achei outro excerto de um poema chamado para foder que rezava assim: «Quartos. Salas, Cozinhas, Casas de banho. Terraços. Jardins. [...] Etc. Urgente, não importa onde.» Não costumo ter ideias feitas em poesia, mas a verdade é que não percebi pelas amostras lidas a urgência de conhecer ou reconhecer X (não estava assim tão carente). Nada daquilo me pareceu ir além de uma simples provocação e senti que devia estar a ficar velha ou, pior, que perdera definitivamente a sensibilidade poética. Porém, a minha incredulidade levou-me a ler toda a crítica e, pelo meio, encontrei um poema inteirinho onde a ironia era mais apetecível; ora, como detesto falar das coisas pela metade, espero encontrar a obra de X por aí um dia destes, lê-la com atenção e voltar a falar dela com conhecimento de causa – às vezes, as metades não chegam para se sentir o sabor.

Um prémio merecido

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Já se encontra à venda desde o dia 31 de Março o romance português que foi contemplado recentemente com o Prémio LeYa. Chama-se O Teu Rosto Será o Último e é da autoria de João Ricardo Pedro. Trata-se de uma estreia absolutamente invulgar que o júri quis distinguir sobretudo pela estrutura que, assim às primeiras, parece a de um conjunto de contos independentes, mas que, ao fim da primeira parte, se percebe ter sido uma opção mais do que reflectida e planeada. Lê-lo é o que faz falta, porque eu – que tive a felicidade de o ler três vezes – tenho a consciência de que tudo o que possa dizer sobre ele ficará sempre aquém da fruição que oferece a sua leitura. E, no entanto, para levantar a pontinha do véu, deixem-me contar que nele se fala de uma família – sobretudo de três gerações masculinas (mas também de uma mãe muito especial, de uma mulher que já foi uma menina muito especial e de outras figuras exteriores à família que não deixam de ser personagens muito especiais) – num contexto que abarca o Portugal da ditadura, da Guerra Colonial, da Revolução de Abril e da contemporaneidade; e existe uma maturidade literária rara num estreante que, ainda por cima, tem um tipo de humor bastante raro nas nossas letras, aplicado curiosamente nas cenas que nos poderiam indispor por uma certa crueldade e frieza, mas produzem, dessa maneira, uma espécie de baque seco e desarmante. Conheçam, pois, Augusto (o avô, médico no Interior), António (o pai, marcado pela guerra), Duarte (o neto, genial ao piano) e, acima de todos, o autor, que ainda nos vai dar muitas alegrias com este livro e os outros que queremos que ele escreva. Serão, prometo, horas extraordinárias.


 


Vá lá, não custa nada

Há pessoas que detestam separar-se dos seus livros e nem aos amigos os emprestam. Talvez reconsiderem quando já lhes faltar o espaço para os guardar e então pensem melhor. De qualquer modo, todos temos livros que não vamos ler, ou porque não apreciamos o género, ou porque não gostamos do autor, ou simplesmente porque já não temos idade para histórias da Carochinha. Está a decorrer até 15 de Abril uma campanha de recolha de livros para Timor chamada Um Livro, Um Sorriso. A iniciativa conta com a organização de uma ONG com um nome esquisitíssimo em cooperação com  o Governo de Timor, e tem os CTT como parceiros. Basta, pois, ir a um balcão dos correios e depositar um desses livros que estão a mais lá em casa, desde manuais escolares a livros para crianças. Eles enviá-los-ão para Timor sem encargos para quem oferece. Vá lá, já falta pouco.

Portugal em conversa

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Por ocasião da publicação de dois livros de ensaio – Nova Teoria do Mal, de Miguel Real (Dom Quixote), e Representações da Portugalidade, organizado por André Barata, António Santos Pereira e José Ricardo Carvalheiro (Caminho)–, está marcada para amanhã às 18h30 uma conversa com a presença de André Barata e Miguel Real na FNAC do Colombo. Mas não será uma mera apresentação de livros, esperando-se que o público interpele os autores sobre o que os moveu para a escrita e edição das respectivas obras num momento especialmente ingrato para o País, em que se torna importante assacar responsabilidades pelo estado em que nos encontramos, sejam elas alheias à nossa singularidade enquanto povo, sejam elas fruto de marcas vincadamente portuguesas, porque, como se diz em Representações da Portugalidade, “a identidade não tem a ver apenas com o que somos, mas também com o que queremos fazer com aquilo de que dispomos”. Apareçam.