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Boas festas

Chegou por fim aquela altura do ano em que parece que a maioria dos portugueses, cristãos ou não, fazem uma pausa de pelo menos uma semana para se encontrarem com as respectivas famílias, trocarem presentes, se encherem de bacalhau, sonhos (estou a falar dos doces) e bolo-rei e meterem combustível para o ano novo que quase nunca promete ser melhor do que o anterior. E eu não fujo à regra, pelo que este post é para vos agradecer terem estado mais este ano aqui no salão das Horas Extraordinárias (que já é um blog adolescente, vai fazer 15 anos em 2025) e para vos desejar que passem estes últimos dias do ano com muita saúde, com tranquilidade, sem tempestades de qualquer espécie, com pessoas de quem gostem e, claro, com os vossos e nossos livros. Eu volto dia 2 de Janeiro ao batente e espero que no ano que se aproxima os resistentes regressem também. Não podemos deixar de cuidar dos livros e das leituras. Boas festas e um excelente 2025!

Vaidade

Nós, editores, lidamos quase todas as semanas com os egos dos autores (que, ainda por cima, nem sempre são proporcionais ao seu génio ou talento). Aconteceu-me muito ao longo da minha vida profissional serem os escritores mais inexperientes os que mais se indignavam com uma simples emenda, e isto para dizer que muitos dos grandes autores percebem logo que falharam e até ficam gratos por termos dado com o erro ou a distracção. O Manel contou-me que há muitos anos, quando Lobo Antunes começou a publicar na Dom Quixote e lhe encontravam aqui e ali coisas que pareciam não bater certo, não só ele concordava como dizia logo aos editores que corrigissem, nem queria ser ele a ter esse trabalho. Mas às vezes também os consagrados mostram ter egos insuportáveis e, quando o Manel era ainda um jovem, no fim de uma reunião de trabalho, um desses grandes poetas que Portugal já teve entregou-lhe, à laia de presentinho, um bilhete de eléctrico já usado. Não percebendo o que fazer com aquilo, o Manel atreveu-se a perguntar para que era, ao que o génio respondeu que se tratava de uma coisa que ele próprio utlizara numa viagem e que, portanto, teria o seu valor. Que ego, não?... Verdade seja dita que o bilhete foi deitado ao lixo nesse mesmo dia, mas, pensando no post de ontem, será que, se fosse hoje, alguém o poria à venda no OLX, dizendo tratar-se de um bilhete com que viajara fulano de tal?

Ele há coisas

A vida não está fácil. Os sem-abrigo que, segundo me lembro, eram uma prioridade para o nosso Presidente, não diminuem, pelo contrário, estão a aumentar; e costumo ver alguns com a cabeça enfiada nos caixotes de lixo à minha porta, até porque a frutaria aqui ao lado deita fora muita coisa que está demasiado feia ou madura para ser vendida, mas que ainda se pode comer. No entanto, há quem ande no lixo por outras razões, e o jornal Público de dia 8 de Dezembro contava a história de um operário que, vejam lá, encontrou no lixo documentos anteriores à nacionalidade. É muito provável que o antigo dono fosse um coleccionador recentemente falecido e que a família, ansiosa por esvaziar a casa, tivesse posto no lixo aquela "papelada", desconhecendo tratar-se de algo precioso. O operário Mário Rui Ferreira,  numa rua da Figueira da Foz, encontrou então há uns anos uns maços de jornais antigos muito arrumadinhos, coisas que lhe pareceram do tempo da Revolução, e resolveu guardá-los numa garagem. Foi só, porém, quando teve de abandonar o local porque o senhorio precisou dele que olhou melhor para aquelas pilhas de jornais e viu que entre as páginas havia, afinal, documentos com... mais de mil anos! Ainda tentou vendê-los na OLX, e foi aí que, por sorte, encontrou do outro lado uma conhecedora séria que percebeu que se tratava de um conjunto documental raro e valioso. A senhora pediu para ver os documentos, avaliou-os e hoje está tudo, para consulta, na Torre do Tombo. Presumo que o senhor Mário Rui Ferreira nunca mais deixou de olhar para o lixo com olhos de ver e que enfie muitas vezes o nariz nos caixotes de lixo. Mas, graças a Deus, por boas razões.

Mil Camões?

Cada um tem o seu Camões, claro, e eu, que sou de certeza para quem me conhece uma adoradora da lírica, amei Os Lusíadas quando os estudei, apesar da divisão de orações que nesse tempo nos obrigavam a fazer; e amei-os não apenas pelo assunto, pela aventura, pela História, pelo Velho do Restelo com quem sinto cada vez mais afinidades, mas por uma enorme admiração por um homem que era capaz de fazer aquilo tudo a rimar e em decassílabos perfeitos. Camões é cantado por vários fadistas, sobretudo Amália, que chocou muita gente quanto se atreveu a isso. E disso falarei qualquer dia num programa que já começou a ser exibido, Mil Vezes Camões, e que  vos recomendo ver do início, pois os episódios que já passaram foram muito bons: com a biógrafa do grande poeta, Isabel Rio Novo; com o Miguel Esteves Cardoso (num jardim com gato e lagartixa à mistura); com o académico e escritor Frederico Lourenço, que falou das influências do maior poeta nacional. Quem os entrevista é Jorge Reis-Sá (e faz bem o seu papel, além de ser quem teve a ideia) e quem realiza é Ricardo Espírito Santo (não, o nome é só uma coincidência, podem ficar descansados). Passa na RTP 3, aos sábados, às 18h45 ou lá perto. É informativo, entretém e passa a correr. Não percam.

Entrevistas

Os livros de entrevistas estão na moda e enchem salas nos dias dos lançamentos (alguns até têm, ao que parece, um número limitado de convites). Ora se trata de uma só entrevista, como a que foi feita a Ramalho Eanes pela popular jornalista Fátima Campos Ferreira, ora das cinquenta ou mais entrevistas de Maria João Avilez para celebrar os 50 anos da Revolução, que incluem entrevistados como o nosso Presidente da República, António Barreto, Cavaco Silva, António Vitorino, Artur Santos Silva ou Manuel Braga da Cruz, entre muitos outros (e não esquecer que esta jornalista já tinha publicado há muitos anos um livro que juntava todas as entrevistas que fizera a Cunhal). Mas, fora as declaradamente políticas, temos as entrevistas dos podcasts transcritas em livro, como é o caso feliz de A Beleza das Pequenas Coisas, de Bernardo Mendonça, que inclui cinquenta conversas com personalidades tão distintas como Alexandre Quintanilha, Maria Filomena Mónica, Celeste Rodrigues, Artur do Cruzeiro Seixas, Capicua, Maria Teresa Horta ou Dulce Maria Cardoso. Isto para dizer que, na sequência do meu post de ontem, se estão sem saber o que oferecer a alguém, quem sabe se a solução não continua a ser um livro? De entrevistas, porque não?

Presentes

O Natal aproxima-se a passos largos e parece que mesmo quem se portou mal terá direito a presente, porque na verdade portar-se bem é uma coisa excepcional, e o mercado exige que haja presentes de Natal. No canal de rádio que ouço, a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) recomenda que ofereçamos livros, e livros há-os para todas as idades e todos os gostos. Curiosamente, um dos nossos mais lidos e vendidos semanários tinha um destes dias um guia de prendas (quiçá era patrocinado e eu nem reparei); mas fiquei um bocado desiludida com as sugestões, porque ao lado de montanhas de roupas, relógios, gadgets, CD e umas quantas inutilidades (parte das quais caríssimas), havia uns meros quatro livros numa página, ainda por cima a maioria estrangeiros e do tipo coffee-table book, e no fim outros quatro, esses já em português, mas, sinceramente, muito pouco representativos do que poderia ser um bom presente para nós, leitores inveterados. Ó senhores, acham que ler é obrigação, e não prazer, para porem lá aquela meia-dúzia tão mal escolhida e quase disfarçada? Por favor, ouçam rádio e aprendam: não há melhor presente do que um livro! Eu este ano, entre outros, vou oferecer o romance maravilhosamente humano Como Construir Um Barco, de Elaine Feeney, os Taludes Instáveis, de José Carlos Barros, o Visitar Amigos e outros Contos, de Luísa Costa Gomes, e outros que não posso dizer aqui, porque vão para quem também lê o blogue.

Excerto da quinzena

Nunca cheguei a dizer ao meu avô que o facto de hoje ser biólogo se lhe deve em boa parte. Deixou-nos quando eu tinha 14 anos, talvez demasiado cedo para assimilar por completo os seus ensinamentos. Como gostaria, se ele estivesse entre nós, de esgrimir argumentos e observações com ele sobre esse tema sem fim que é o mundo vivo. E, nos intervalos dessas coversas, talvez ver uma partida de ténis ou de snooker, comer um bom cozido à portuguesa. Nada relativo ao ser humano ou à natureza lhe era estranho, pois era capaz de ver o belo em tudo, até em coisas tidas como mundanas para um intelectual, como o desporto. Contento-me agora com a leitura dos seus livros e ensaios e com memórias felizes como o dia em que me introduziu a Júlio Verne e à sua Ilha Misteriosa, adivinhando que teria o mesmo prazer com as leituras da sua adolescência. Agora que releio os seus livros, imagino-me conversando com ele, discordando dele até mais vezes do que estaria à espera. No fundo, estou eternamente grato pela maior herança que me deixou, o segredo do prazer da vida: a curiosidade.


 


António Ovídio Baptista Vaz Pato, prefácio a A Ciência no Grande Teatro do Mundo, de António Manuel Baptista

Menos é mais

Quando era miúda, a minha mãe contava às vezes uma espécie de anedota sobre uma professora que pedia aos alunos que escrevessem uma história de vida, mas que poupassem nas palavras, pois não queria ter de ler biografias muito longas. Então, um dos seus alunos mais preguiçosos resolveu o problema tão fantasticamente que ela acabou por lhe dar a nota máxima. O seu texto resumia-se à seguinte frase: "Nasceu morto." Sim, uma vida em duas palavrinhas e está lá tudo. O escritor hondurenho Augusto Monterroso (1921-2003) ficou muito popular no seu tempo por ter escrito um dos mais pequenos contos da literatura universal, que rezava assim: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá." É incrível a tensão desta frase e tudo aquilo que pode levar-nos a pensar; o sururu à volta deste atrevimento do autor foi tal que o conto acabou por inaugurar um género chamado "microficção" para o qual colaboraram grandes escritores de todas as latitudes nos anos seguintes. García Márquez, por exemplo, teve a sua expriência com esta história:


Uma criança de cerca de cinco anos, que se perdeu entre a multidão de uma feira, aproxima-se de um polícia e pergunta-lhe: "O senhor não viu, por acaso, uma senhora sem uma criança como eu?"


Riu-se, não riu? Foi também atribuído ao norte-americano Ernest Hemingway um mini-conto que é o mais impressionante de todos quantos li até hoje, pois é incrível (e terrível) como se consegue dizer tanto com tão poucas palavras:


"Vendem-se botinhas de bebé, nunca usadas."


Menos às vezes é mais. Se conhece outros bons como estes, e assim pequenos, partilhe.


 

Os intelectuais

Um dia, o escritor norte-americano Richard Zimler, que vive em Portugal há muitos anos, contou-me que quando chegou, ainda bastante novo, à Europa, sentiu que podia respirar fundo em muitos aspectos (a América do seu tempo era terrivelmente puritana e atrasada, apesar de Woodstock e outras modernices); e que, entre outras coisas, no Velho Continente chamar intelectual a alguém era, de certa forma, um elogio, enquanto nos EUA funcionava (e funciona) quase como um insulto (alguém que só pensa e não faz nada? bah). Lembrei-me disto a propósito de um encontro a que fui recentemente em São Miguel e que celebrava o Centenário da Visita dos Intelectuais (a viagem de uma série de personalidades do Continente que foram visitar as ilhas em 1924, supostamente para as elogiarem no regresso em livros e artigos e conseguirem para o arquipélago uma atenção que ele infelizmente não tinha); mas desta história, que tem muitos pontos que vale a pena desenvolver, falarei mais tarde, com tempo; o que hoje me inquieta é saber que, cem anos depois, lá como cá, sempre que os políticos precisam, os intelectuais são chamados a reuniões para darem opiniões num disfarçado ou descarado pedido de apoio; mas depois, quando se ganham eleições e se constituem governos locais ou nacionais, a Cultura fica geralmente para trás, mal servida de dinheiros e sem ver quase nada dos seus projectos realizados. Coisas que não mudam num século e que se calhar não mudarão.

Um prémio póstumo

Na sexta-feira passada, estava eu a tentar recuperar de um ataque de sinusite, daqueles que nos imobilizam até tomarmos o segundo comprimido de antibiótico (ataque contraído uma vez mais por causa da temperatura estupidamente gelada do avião que me trouxe de Ponta Delgada), quando me vieram dizer que o poeta Nuno Júdice tinha vencido o Prémio Oceanos com o seu livro Uma Colheita de Silêncios. Já sabia, claro, que o livro era finalista do galardão, mas pareceu-me que o júri teve uma grande coragem em entregar o prémio a alguém que já não o pode agradecer, mesmo quando a intenção era premiar o melhor, porque é um gesto bastante raro e geralmente os organizadores dos prémios gostam mais de ter o vencedor presente na festa (para ser entrevistado e aparecer nos jornais e televisões). Sei que o nosso querido Nuno ficaria felicíssimo com mais esta distinção e que nos daria a notícia com aquele seu sorriso inesquecível; para ele, seria apenas mais um prémio internacional (para quem ganhou uma data deles, enfim), mas para nós, amigos e leitores, é importante saber que o seu último livro publicado em vida foi acariciado depois de tantas homenagens importantes e antes de outras que o nosso poeta merecia mas não poderá já ter. Mando, assim, um abraço a quem deu o prémio e saudades para quem o venceu.

A grande senhora

A grande Maria Teresa Horta, a única ainda viva das três autoras de Novas Cartas Portuguesas, foi considerada este ano pela BBC como uma das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo. É fantástico ver o nome desta escritora portuguesa entre muitos outros, de activistas, cientistas ou artistas de diversos países, como o de Nadia Murad ou Sharon Stone. Talvez, claro, a biografia exaustiva da autoria de Patrícia Reis tenha servido de lembrete (e parabéns à Patrícia por isso), mas ninguém pode negar a importância desta autora de poesia e romance, com uma série de livros premiados, e sobretudo uma das mais conhecidas feministas portuguesas, extremamente activa quando o feminismo era ainda mais necessário do que hoje, pois era um tempo em que, entre outras coisas tremendas, as mulheres não podiam abrir contas bancárias nem viajar sem licença dos maridos. Elogiadas por Simone De Beauvoir, Marguerite Duras, Iris Murdoch ou Doris Lessing, as Novas Cartas Portuguesas e o processo a elas associado instigaram vários protestos em todo o mundo, foram considerados a primeira causa feminista internacional e contribuíram para o despertar de muitas consciências. A estação pública inglesa, ao incluir Maria Teresa Horta entre as personalidades femininas do ano, faz justiça; e a Cecília Andrade, a minha colega que a publica há muitos anos na Dom Quixote, está também de parabéns!

Ignorância

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Todos os adultos, em algum momento da sua vida, alegam que os jovens são muito ignorantes em determiandos assuntos. Não sou excepção, e há muitos anos fiquei muito chocada quando a filha de uma amiga, que frequentava já a universidade, confessou não saber nada da repressão que Timor sofria (era no tempo que isso era notícia diária do telejornal) e um arquitecto recém-formado no Brasil confessou não saber quem era Salvador Dalí, de quem se fizera uma exposição no Rio Porém, também é verdade que os jovens sabem coisas que nós nem imaginamos e utilizam termos de que, frequentemente, me vejo obrigada a pedir tradução. Há séculos, na televisão, perguntaram a uma mulher, na rua, se sabia quem era Picasso (deve te sido quando ele morreu), e ela respondeu que era um cavalo (poderá ter confundido com «Pégaso»?). Bem, encontrei um cartoon com muita piada que aqui vos deixo e se refere a esta ignorância juvenil sobre a literatura. Nos concursos de cultura geral, é também onde os concorrentes (adultos e jovens) mais falham. Bom fim de semana.


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Tu cá, tu lá

Lembro-me perfeitamente, numa altura em que o meu pai viveu em Madrid durante a minha adolescência, de se comentar por lá que as pessoas tinham passado a tratar-se por tu, independentemente da diferença de idades ou do estatuto; que, embora num café ou restaurante, clientes e funcionários continuassem a manter alguma distância, os alunos tratavam por tu os professores e o mesmo acontecia entre desconhecidos (ao Manel, num comboio, o companheiro de compartimento apresentou-se-lhe e perguntou: «Y tu quien eres?»). É verdade que os Portugueses são mais formais, mas que em certos âmbitos isso se está a perder. Encomendei numa livraria física um romance que queria oferecer a uma das minhas sobrinhas (apesar de ser recente, não havia nem um para amostra...) e recebi no dia seguinte um e-mail a dizer: «Temos boas notícias! O teu livro chegou. Podes levantá-lo no balcão das encomendas», etc., etc., etc. O livro que pedi não era nada juvenil, por isso só me ocorre pensar que estamos a adoptar cada vez mais o «you» e que um dia destes ainda nos vamos tratar todos por tu, como aqui ao lado... ou a falar inglês.

O que ando a ler

Tinha aí um livro da Toni Morrison e, apesar de o título ser meio meloso e ter ressonâncias evidentes na minha cabeça com uma coisa horrível que fez um sucesso desmedido há anos (não digo o que era para nem sequer se sentirem tentados a espreitar), ando a ler A Nossa Casa É onde Está o Coração. O romance ganhou o Prémio Pen/Saul Bellow, a autora ganhou o Nobel de Literatura e em Portugal já vai na 3ª edição, o que eram, claro, bons prenúncios. E, mesmo que não seja nada que se compare à maravilha de Beloved, é um livro bastante interessante que fala dos vários traumas por que passa um jovem chamado Frank Money (mas sem money nenhum) que viveu uma infância terrível e que, regressado da guerra da Coreia (em que viu morrer muitos e teve de matar outros tantos), vai ter com Cee, a irmã mais nova, que o marido abandonou apenas com um vestido novo e está claramente em apuros, para voltarem para casa, em Lotus. O que acontece depois só lendo, e é o que estou a fazer agora.


P. S. Amanhã vou participar num debate em São Miguel, na Universidade, e só volto quarta, pelo que regresso apenas ao blogue na próxima quinta. Obrigada por esperarem.

Excerto da Quinzena

A mulher idosa olha fixamente para um semáforo no cruzamento. Os flocos que caem à frente dele brilham com tons diferentes à medida que as luzes mudam. Até agora passaram por nós apenas quatro autocarros, todos de rota costeira em ambas as direções. Ninguém parece ter entrado ou saído dos autocarros. Não me lembro de ter visto nenhum deles parar.


[...]


O floco solitário que agora mesmo pousou e se derreteu sobre a minha luva era tão próximo de um imaculado cristal de neve de seis pontas quanto é possível encontrar-se. O que pousa ao lado dele está parcialmente desfeito, mas as quatro pontas que restam retêm a sua forma delicada. Estas dendrites moles e em deterioração são as primeiras a derreter. O minúsculo centro branco, a parte que se assemelha a um grão de sal, demora-se um suspiro antes de se dissolver.


As pessoas dizem «leve como a neve». Mas a neve tem um corpo próprio, que é o peso da sua gota de água.


 


Han Kang, Despedidas Impossíveis (trad. de Maria do Carmo Figueira e Ana Saragoça), no prelo.

O que fica por ler

Incluo-me num gupo de pessoas (penso que bastante alargado) que vai deixando para a reforma alguns livros que pedem tempo, disponibilidade mental, atenção redobrada, leitura sem interrupções. No meu caso, há, entre outras, uma obra magna que não li na juventude e que, sei lá porquê, resolvi eleger para a idade madura. Falo de O Homem sem Qualidades, de Musil, que vergonhosamente continua à minha espera na estante. Tenho, mesmo assim, a consciência pesada desde que li na revista Máxima  há vários anos uma crónica do escritor António Alçada Baptista, na qual ele confessava ter guardado muitas obras longas e densas para quando fosse mais velho e, tendo chegado a essa idade, sentia tristemente não ter já as suas faculdades a 100% nem a paciência e a dedicação necessárias à leitura dessas obras de maior densidade. Pois não é que eu mesma já vou sentindo o mesmo?, que me disperso com muito mais facilidade do que antes e que  frequentemente dou por mim a contar quantas páginas ainda me faltam para chegar ao fim, fugindo-me a paciência para livros que, mais cedo na vida, teria lido decerto com outro entusiasmo? Pois é, o cineasta António-Pedro Vasconcelos, com quem eu falava muitas vezes de livros, dizia que o pior da morte era o que deixávamos por ler... Tinha toda a razão, claro, e o pior é que alguns livros já não os leremos por manifesta impossibilidade...

Para amalianos e não só

Escrevo há cerca de dois anos (se estou a fazer bem as contas) uma crónica para o jornal digital a Mensagem de Lisboa intitulada "O Nosso Fado", que é, grosso modo, dedicada à canção de Lisboa. Eu sabia muitas histórias partilháveis, até porque o meu pai era um boémio e nos levava aos fados frequentemente; mas às tantas essas lembranças esgotaram-se e tenho lido bastantes livros sobre a arte do fado, tendo começado pelos mais teóricos e indo depois às biografias e memórias. Há uns meses, por exemplo, li um conjunto de artigos publicados nos anos 1920 no jornal A Voz do Operário e reunido mais tarde num volume intitulado O Fado e os Seus Censores, de Avelino de Sousa. E há uns quinze dias estive a deliciar-me com Amália: a Ressurreição, do jornalista e escritor Fernando Dacosta, que traz muitas e divertidas achegas à biografia de Amália baseada numa longuíssima entrevista conduzida pelo seu amigo chegado Vítor Pavão dos Santos. Neste livro de Dacosta, estão porém muitos episódios que só os que conviveram com a diva de perto provavelmente sabem e uma ou outra história que talvez não tenha sido antes registada por poder ofender A ou B, que entretanto morreram e já não se podem incomodar. Uma delas compôs, de resto, a minha crónica mais recente para a Mensagem de Lisboa e fala de dois poetas sonantes e da sua relação com a maior fadista da nossa história. Se quiserem ler, deixo-vos o link. Se gostam de fado, o Museu do Fado tem apoiado uma série de obras muito interessantes sobre fado e vale a pena dar uma espreitadela à página da Internet.


https://amensagem.pt/2024/11/19/cronica-fado-levantar-voz-amalia-rodrigues/?fbclid=IwY2xjawGwJOVleHRuA2FlbQIxMQABHbuL77PAHQ8LK_JHKomUliKKtNWsvhcirHYE0U6DaWySa1nHRiPLyYQ89g_aem__MHiUisuBowmEqaX83OIjg


 


 

Escrever em Buenos Aires

Quando fui a Buenos Aires visitar um amigo que infelizmente perdi para uma doença, o Malba, que é um museu excepcional, era ainda muito recente. Esse meu amigo dava lá cursos de literatura e ainda hoje o Malba tem muitos programas para leitores e escritores. Agora, por exemplo, abriram as candidaturas a uma residência de escritores estrangeiros no Malba: cinco autores de qualquer nacionalidade e mais três, um do Chile, um de Itália e um espanhol (estes três com bolsas co-financiadas pelos seus países). Desde 2018 que o Malba convida escritores de outras línguas e paragens para desenvolverem, ao longo de cinco semanas, um projecto artístico que tenham em mãos. A residência acontece nos meses de Abril, Junho, Agosto, Setembro, Novembro e Dezembro. Quem sabe se não é a sua altura de concorrer a esta bolsa e ser seleccionado? É que escrever em Buenos Aires é altamente inspirador, garanto, pois as livrarias estão por todo o lado e abertas até tarde, há muitas actividades literárias por toda a cidade e o espírito de Borges cumprimenta-nos a cada esquina. As candidaturas estão abertas até 13 de Dezembro. Para saber tudo, aqui fica o link.


www.rem.malba.org.ar

Para sempre

2018 foi o ano em que Itamar Vieira Junior ganhou o Prémio LeYa com o romance Torto Arado. O livro foi publicado em Portugal e vendido depois ao Brasil, onde foi publicado em 2019 pela excelente editora Todavia. Por lá, ganhou uma enorme popularidade, até porque falava de coisas que era preciso dizer sobre as condições em que ainda hoje muita gente trabalha no Brasil, e ganhou os prémios Jabuti e Oceanos no ano seguinte. A partir daí, foi um ver-se-te avias, e hoje o livro está vendido em 28 países. Foram feitos espectáculos de teatro e musicais, e estão em projecto outro tipo de adaptações, como exposições itinerantes, novela gráfica, série, etc. No ano passado, a edição em língua portuguesa do segundo romance do autor, Salvar o Fogo, foi editada simultaneamente em Portugal e no Brasil, e também já houve variadas vendas deste livro ao estrangeiro. O romance é lindo e fala do trabalho e da propriedade da terra, como o anterior, mas também da pedofilia praticada pela Igreja e da vida de uma família muito especial. E Itamar, merecidamente, venceu de novo o prestigiado Jabuti na semana passada! Fiquei mesmo contente e orgulhosa por estar ligada a estes livros. Prevejo coisas muito grandiosas para este autor e conto acompanhar a sua obra para sempre. Parabéns, Itamar. Ainda o verei ganhar ao Nobel...

Palavrinhas

Quando pensamos na palavra «organização», pensamos numa coisa arrumadinha, no seu lugar, quieta, imóvel. E, porém, «organizar» tem, curiosamente, a mesmíssima raiz da palavra «orgasmo», que é tudo menos uma sensação organizada, provocando espasmos, contracções, explosões de seiva, tremores, calafrios e sacões dos pés à cabeça; enfim, não vale a pena ser exaustiva, quem já teve sabe como é – e sabe que não tem nada de organizado. Mas como se dá então esta afinidade etimológica? Investiguei e descobri que «organizar», na base, quer dizer qualquer coisa como «dispor de forma a tornar apto à vida» ou «dotar de um órgão»; e, lá está, sem órgão, feminino ou masculino, não há «orgasmo». Tudo se explica, não é verdade? Fiquemos então a saber que o vocábulo «orgasmo», no tempo de Hipócrates, estava relacionado já com um «órgão pleno de seiva» e que, mais tarde, em França, significava, vejam lá, «um vivo acesso de cólera»... Um dicionário bom é uma excelente companhia. Bom fim-de-semana, com ou sem orgasmos.

Adaptações

Há algumas autoras anglo-saxónicas que descobri nos últimos anos que aconselho sempre que me pedem uma sugestão de leitura: Elizabeth Strout, Maggie O'Farrell, Elaine Feeney, Claire Keegan. Desta última os livros são pequeníssimos, mas dizem exactamente o que devem dizer, são humanos, sem palha, magníficos, retemperadores. O primeiro que li, Pequenas Coisas como Estas, continua a ser o meu preferido e, na minha cabeça, enquanto o lia, transformou-se numa espécie de filme de Frank Capra, um realizador que adoro pela sua humanidade e que teria adorado ler os livros de Keegan, tenho a certeza. Aconteceu-me ver na televisão há uns meses, praticamente por acaso, o filme que adapta o segundo livro que li desta autora, Acolher, e curiosamente não fiquei desiludida, embora, confesso, estivesse desconfiada de que fosse possível conseguir adaptar mantendo a política do "sem gordura". Mas agora soube que Pequenas Coisas como Essas já foi também adaptado ao cinema e que a própria Claire Keegan participou na escrita do argumento. O filme de Tim Mielants, que estreou dia 1 de Novembro na Irlanda, conta com grandes actores como Emily Watson ou Cillian Murhy, e eu já estou com água na boca. Se a novela nos enche o coração de um amor e de um bem inigualáveis, nem imagino o que será o filme, sobretudo se o virmos em mood de Natal. Espero é que venha depressa e não desmereça a grande escritora, que merece o melhor.

Perguntas

Muitos romancistas referem que os seus livros não respondem a nada, pelo contrário, fazem muitas vezes as perguntas que os inquietam. No livro de conferências de Juan Gabriel Vásquez intitulado A Tradução do Mundo, o escritor colombiano conta que o editor de Tchékhov se irritou com ele por não ser capaz de tomar posições claras nos seus contos; e que Tchékhov terá ripostado que ele estava a confundir duas coisas: responder às perguntas e formulá-las correctamente. Na semana passada, ouvi a jornalista Isabel Lucas (também escritora, embora de não-ficção) dizer no programa da TSF de Nuno Artur Silva que, numa entrevista, as perguntas são tão importantes como as respostas, pois uma coisa leva a outra e, se as perguntas forem pobres, as respostas podem também não ser fantásticas. Já vi uma vez um escritor entrevistado ao vivo num festival literário desistir, aliás, de responder às perguntas tontas da sua entrevistadora, pegando-lhe na mão e dando-lhe umas pancadinhas no pulso, como a dizer, "pára lá, que eu faço isto sozinho", e a seguir fazer aquilo sozinho e dar um baile incrível sem precisar realmente de ninguém, porque estava a formular as perguntas certas e a responder-lhes. Isabel Lucas disse nesse programa de rádio que tinha muito medo das perguntas, e ainda bem que tem, porque as suas entrevistas a escritores, recentemente saídas com o título Conversas com Escritores, são boas e talvez o seu cuidado com as perguntas tenha que ver com esse medo e com o desejo de ganhar a confiança dos entrevistados, entre os quais estão nomes tão sonantes como os de Julian Barnes, Javier Marías, Paul Auster, Salman Rushdie ou Elena Ferrante. Esta é uma forma de saber quais foram as perguntas que levaram os romancistas a responder com a ficção. Vale muito a pena saborear por isso este livro de entrevistas.

A lição de Proust

Penso que foi no podcast Vale a Pena de Mariana Alvim que fiquei a saber que o último volume da Recherche foi apontado pelo escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez como uma das suas leituras-chave. Custa-me dizê-lo, mas não passei dos primeiros três volumes da Recherche. Conheço duas fãs incondicionais de Proust que a lêem e relêem continuamente, mas também conheço alguém que diz que é incrível como alguém consegue escrever cem páginas sem sair do lugar, mas que aquilo não é para toda a gente. Nem sei onde posicionar-me entre estas duas opiniões: percebo que é genial, um jogo fantástico entre escrita e memória, mas também acho chatinho (e, além disso, embirro com o Marcel, desculpem). Tudo isto para dizer que nos últimos tempos andei às voltas com um livro que percebi logo que era bom (não tanto como Proust, mesmo assim) mas que, quando o lia na cama, dava-me o sono ao fim de poucas páginas. E, porém, era incrível como a autora, Marlen Haushofer, descrevendo o dia-a-dia praticamente invariável da sua protagonista no campo, na companhia de uma vaca e de um cão (há gatas, mas passam o dia na delas), consegue fazer maravilhas, lá está, sem sair do sítio. O livro tem sido enormemente elogiado e é um hino à natureza. Chama-se A Parede porque, num fim-de-semana que a protagonista foi passar na cabana de caça de uns amigos, se ergue uma parede invisível na montanha que a vai isolar para sempre do resto do mundo. Sim, a parede não a deixará sair de onde está e obrigá-la-á a sobreviver num ambiente que não era o seu e a tornar-se outra pessoa. É de algum modo algo buñuelesco, curioso e inteligente, mas eu achei-o levemente chatinho. A tradução, boa, é de Gilda Lopes Encarnação.

Música enquanto podemos

Há tempos, pediram-me que escrevesse uma história para um livro infantil colectivo em que tinha de falar do Afeganistão. As suas vendas revertiam a favor de uma associação portuguesa que apoia raparigas afegãs que vêm fazer os seus estudos universitários para Portugal, uma vez que no seu país são proibidas de estudar. Para escrever esse livro, pedi para falar com uma delas, para lhe fazer perguntas corriqueiras sobre, por exemplo, o que comem e como se divertem; e tomámos um café numa manhã em que fiquei a saber muitas coisas que não sabia, entre as quais que ouvir música é proibido no Afeganistão e que alguém que seja apanhado a ouvir música pode ser preso e torturado. Já alguém imaginou um país sem música?! Eu nem queria acreditar! Mas, porque podemos ouvi-la aqui em Portugal sem problemas, sugiro então que assistam ao curso que começa hoje no Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa (já houve este curso no de Gaia antes) ministrado por David Ferreira. Chama-se História da Música Ligeira e vai da invenção da gravação sonora até 1959, ano em que supostamente o rock morreu. São cinco sessões que passarão pelo jazz, a chanson française, a bossa nova e o rock. Vamos lá?

Excerto da Quinzena

Ela acorda a meio da noite no lado de Larry na cama. Algures no escuro do seu corpo uma vela arde por ele, mas quando ela a procura para alumiar o exterior do corpo somente encontra escuridão. Durante o sono ouviu o vento a chamar e agora parece andar a vaguear pela casa como se a porta de entrada tivesse sido deixada aberta. Vai à janela e espreita o exterior, as nuvens velozes e alaranjadas, contemplando a cidade e ansiando por ela. Percorre a casa às escuras sentindo os pés a arrefecer, com a sensção de se ter tornado um fantasma do seu passado. Detendo-se à porta do quarto dos filhos a ouvi-los dormir, enquanto lá fora o vento sopra. Não há nada mais inocente do que uma criança a dormir, é deixar as crianças dormir e quando ele tiver regressado continuaremos como antes. Ela enfia-se na cama, esfrega os pés para os aquecer e acorda com uma luz estranha, escutando um uivo rouco do vento, a janela batida com gravilha molhada. Ainda meio a dormir, aproxima-se da janela com a sensação de a casa estar a voar, às voltas em plena ventania. [...]


Paul Lynch, Canção do Profeta, tradução de Marta Mendonça

A voz da poesia

Não costumo assistir a sessões de "poesia falada" ou "spoken word", mas, por dever de ofício, no domingo passado estive no Templo de Poesia, em Oeiras, a acompanhar uma espécie de concurso promovido no âmbito da Mostra Artes da Palavra. Era já a final (a semifinal fora na véspera), que incluía 8 concorrentes, entre os 15 e os 25 anos, que tinham de dizer em palco um poema de sua autoria (um pouco como os rappers), dedicado ao 25 de Abril, coisa que não lhes diz certamente tanto como aos mais velhos. Mas, embora alguns poemas mencionassem sobretudo os avós (até os pais já devem ter nascido depois da Revolução), a verdade é que muitos desses poemas eram extremamente comprometidos, implicados e preocupados com o estado do mundo e da política. Foi, devo dizer, uma lufada de ar fresco e uma grande alegria ver como a maioria dos textos tinham bastante qualidade literária, além da mensagem propriamente dita, que é o que nesta arte parece primordial. A vencedora, Lua Afonso, tinha apenas dezasseis anos e era impressionante a dizer os seus textos, mas a média era realmente bastante alta. A apresentadora, Maria Caetano Vilalobos, ela própria autora de poesia para "dizer", esteve também muitíssimo bem; descontraída, inteligente, com piada, dando sempre a volta e boa a improvisar quando se enganava, fez-me pensar que as televisões têm nestes espectáculos muitos jovens talentosos que deviam vir buscar para substituir algumas das suas supostas apresentadoras profissionais. 

Cheque-livro

Dou sempre cheques-livros no Natal à minha irmã, compro-os em geral numa livraria com ampla escolha, pois ela lê demasiado e nunca sei o que já tem. Mas estes cheques-livros de que aqui falo hoje são gratuitos e destinam-se a firmar ou formar leitores que tenham feito 18 anos neste ano ou em 2023. Sim, leu, bem, são completamente gratuitos e fazem parte de uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, «que tem como objetivo fomentar hábitos de leitura e aproximar os mais jovens das livrarias», aonde geralmente não entram sem os pais. Os jovens, que têm de residir em Portugal, têm direito a um cheque-livro de 20 euros, bastando, para o receber, inscreverem-se na plataforma e registarem-se. O voucher será então emitido após preenchidos os dados e pode ser trocado por um ou mais livros até 23 de Abril de 2025, que será... Dia do Livro! O endereço da plataforma vai abaixo:


https://souleitor.gov.pt


 

Almada em Madrid

Eu não sabia, confesso, mas Almada Negreiros passou um período da sua vida em Madrid que, ao que parece, foi bastante profícuo. Aconteceu entre o final dos anos 1920 e o princípio dos anos 1930 e deu-lhe a oportunidade de participar em tertúlias com os vanguardistas espanhóis que ocorriam em vários lugares, tais como o café Pombo, que ainda hoje é frequentado por poetas e pintores. Almada produziu em Madrid os murais para a residência de estudantes da Fundación del amo, na Cidade Universitária, os painés para o teatro Muñoz Seca e o Cinema Barceló e outras obras. Talvez por isso, a Embaixada de Portugal em Madrid organize, nos dias 23 e 30 de Novembro e 14 de Dezembro, visitas guiadas à Madrid de Almada Negreiros, que começam no Museu Rainha Sofia que até do dia 6 de Janeiro tem em exposição o Auto-Retrato de Grupo, obra do pintor modernista que costuma estar, se não erro, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Se vive em Madrid, não perca. Inscreva-se em: hola@laliminal.com


 


 


 

Ovídio

A filha de um amigo espanhol tirou o curso de Literaturas Clássicas e é hoje professora na Universidade de Manchester, onde se doutorou. Contou-nos, porém, que nem sempre é fácil ensinar Ovídio, sobretudo A Arte de Amar; antes de começar, é obrigada a explicar aos seus alunos que este autor romano nascido pouco antes de Cristo fala por vezes das mulheres de uma forma que hoje seria considerada inaceitável. E o problema é que os estudantes (mais as estudantes, na verdade) podem simplesmente recusar-se a estudar a obra, e até a ler o autor... Bem, por cá o professor Carlos Ascenso André está a traduzir toda a obra de Ovídio, e recentemente saiu Remédios contra o Amor, publicado em versão bilingue, o que (creio eu) é uma novidade. Espero que nas nossas universidades as raparigas não resistam a lê-lo, até porque, segundo o tradutor sugere, «os Remedia amoris eram bem mais do que o divertimento poético que pareciam, admitindo uma revisão do lugar da mulher, que assume um papel muito mais profundo nestes poemas». Leia-se, pois!

O que ando a ler

Oh, diabo, com o feriado na semana passada, esqueci-me completamente do post mensal sobre as minhas (e as vossas) leituras. Mil perdões. No dia 1, estava eu a ler o mais recente romance de Possidónio Cachapa, A Selva Dentro de Casa, cuja acção decorre no período da Guerra Colonial e tem por protagonista uma criança que vive numa aldeia com a mãe (o pai estava sempre a desaparecer e acabou mesmo por pedir a separação para poder viver com outra mulher). Enquanto nos conta (sim, o narrador é essa criança) a sua vida difícil (pobreza, professores violentos, mãe gelada, ausência do pai...), vamos sabendo do seu tio Quim, um jovem de vinte anos que combate em África e suporta de tudo (medo, mortes de amigos, tiros, até uma cobra enrolada na sua perna ferida). É um livro que parece ter sido escrito num tempo em que se evocava mais frequentemente o rural na literatura (a história passa-se no Alentejo), e constitui um bom retrato de  uma época que eu ainda vivi na infância, com madrinhas de guerra, aerogramas e soldados desejando feliz Natal e um ano cheio de «propriedades» aos familiares do rectângulo televisivo. A preto e branco, claro.

Palavrinhas

Um dia destes lembrei-me de que em tempos escrevia muitas vezes aqui no blogue sobre palavras estranhas (ou, pelo menos, palavras que faziam pensar) e ia investigar a respectiva origem. Há uns tempos, encontrei uma dessas palavras num livro de Mário Cláudio (é onde encontro mais preciosidades deste tipo) e há dias vi que a tinha anotado num papel, como a pedir que investigasse sobre ela, mas ainda não o tinha feito. A palavra é «algebrista», mas, no contexto, não tinha mesmo nada a ver com matemática, embora o termo também queira dizer, evidentemente, um especialista em álgebra. Parece que em certos locais, o algebrista é um endireita, e vamos lá então saber que relação tem a álgebra com este antepassado do osteopata. Indo às origens, descobrimos então que o vocábulo «álgebra» (começa com al, note-se) deriva do árabe «al-jabr», que significa originalmente qualquer coisa como a «arte de reunir ossos quebrados». Está, pois, explicado que um endireita, mesmo sem saber matemática, possa ter o nome de algebrista. Há coisas mesmo giras nesta nossa língua, não há?


 


 

O novo romance de Miguel Real

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O nosso querido autor Miguel Real nunca está parado. Vemo-lo a estudar na Biblioteca Nacional, a  participar em colóquios e histórias da literatura, a escrever artigos sobre colegas, biografias de grandes nomes, recensões a livros... Mas a verdade é que, depois de Cadáveres às Costas, de 2018, nunca mais nos entregava um romance, e já estávamos com água na boca. Graças a Deus, acabou por chegar a novidade: havia romance para 2024 e sobre um tema bem polémico, uma vez que se tratava da vida de Jesus contada pelo próprio. Assistirão portanto os leitores a muitos episódios que já conhecem (mas vistos por uma nova perspectiva) e a outros que desconhecem em absoluto, mais secretos e íntimos. Claro que Miguel Real teve a belíssima ideia de convidar um sacerdote para apresentar o seu livro e o lançamento é hoje na Livraria Buchholz em Lisboa. Espero que apareçam, pois o convite segue abaixo.


 


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Prémio LeYa

Amanhã, pelas 12h00, será anunciado mais um vencedor do Prémio LeYa (ou não). Este prémio, lançado em 2007, no ano da fundação da LeYa, já nos trouxe uma boa quantidade de autores novos, o que é sempre bom, embora tenha havido dois ou três anos em que não foi atribuído por não se encontrar entre os candidatos um romance que o merecesse. Já o venceram escritores de várias latitudes (de Moçambique, de Portugal e do Brasil) e de várias idades, o mais novo dos quais foi Afonso Reis Cabral, que tinha apenas 25 anos. Até hoje, só uma mulher o venceu (Gabriela Ruivo Trindade), embora tenham sido publicadas muitas obras finalistas de mulheres, entre as quais Ana Margarida de Carvalho, Isabel Rio Novo ou Susana Piedade, para citar alguns nomes. O júri também se foi alterando ao longo do tempo por várias razões (uma delas porque era importante ter sempre pessoas dos vários países de língua portuguesa e alguns membros destes países desistiram ao fim de uns quantos anos, outra por haver poucas mulheres). Mesmo assim, o saldo tem sido positivo, sobretudo (risos) para quem leva a massa para casa... Vamos estar atentos ao meio-dia, tipo anúncio do Prémio Nobel? Eu vou.

Excerto da Quinzena

(Como sexta foi feriado, chega só hoje.)


Ao que parece, quando era nova, a mulher era «mesmo muito inteligente» – algo que a mãe, durante o seu último ano de tratamento do cancro, tinha aproveitado todas as oportunidades para lhe recordar. Como se, antes de mor­rer, esta fosse a única coisa que ela tinha de deixar absolutamente clara.


Em termos de linguagem, esse epíteto podia bem ser ver­dadeiro. Aos quatro anos, e sem que ninguém lhe ensinasse, já tinha um bom domínio do hangul, o alfabeto coreano. Des­conhecendo por completo o que eram consoantes e vogais, tinha decorado combinações de sílabas como se fossem uni­dades. Quando fez seis anos, o irmão mais velho explicou-lhe a estrutura do alfabeto hangul, papagueando o que o seu pro­fessor tinha dito. Enquanto o ouvia, tudo lhe pareceu muito vago, mas acabou por passar toda a tarde daquele início da primavera de cócoras no pátio, preocupada com a ideia das consoantes e vogais. Foi nessa altura que descobriu a dife­rença subtil entre o som ㄴ quando pronunciado na pala­vra 나, na, e quando pronunciado na palavra 니, nih; depois disso, percebeu que ㅅ tinha um som diferente em 사, sah, e em 시, shi. Recapitulando todas as combinações possíveis de sílabas, descobriu que a única que não existia na sua lín­gua era ㅣ, ih, combinado com ㅡ, eu, e por essa ordem, razão pela qual era impossível escrevê-la.


Essas descobertas triviais tinham sido para ela tão emocionantes e chocantes que quando, mais de trinta anos depois, o terapeuta lhe perguntou qual era a sua memória mais viva, o que lhe veio à mente foi nada mais nada menos do que a luz do sol que batia no quintal naquele dia. O calor crescente nas suas costas e na nuca. As letras que ela tinha escrevinhado na terra com um pau. A promessa maravilhosa dos fonemas, que se tinham combinado de uma forma tão ténue.


Depois de entrar para a escola primária, começou a ano­tar vocabulário na parte de trás do seu diário. Sem propósito nem contexto, apenas uma lista de palavras que a impres­sionaram; entre elas, a que considerava mais valiosa era 숲. Na página, este monossílabo parecia um antigo pagode: ㅍ, as fundações, ㅜ, a estrutura principal, ㅅ, a parte de cima. Gostava da sensação de o pronunciar: ㅅ–ㅜ–ㅍ, s–oo–p, a sensação de, primeiro, franzir os lábios e, depois, soltar o ar lentamente. E, por fim, os lábios a fecharem-se. Uma palavra terminada em silêncio. Fascinada por esta palavra em que pronúncia, significado e forma se entrelaçavam por entre a quietude, escreveu: 숲. 숲. Florestas.


E, no entanto, apesar de a mãe a recordar como sendo «mesmo muito inteligente», ela foi uma criança que passou pela primária e pelo resto do ensino básico sem atrair a aten­ção de ninguém. Não arranjava problemas nem tinha notas impressionantes. Sim, tinha algumas amigas, mas fora da escola não se dava com ninguém. O único tempo que pas­sava à frente do espelho era quando estava a lavar a cara; não era excitável como as outras miúdas da escola e, prati­camente, nunca foi incomodada por vagos desejos român­ticos. Quando as aulas acabavam, ia para a biblioteca local e lia um livro que não estivesse relacionado com a matéria das aulas, levava depois alguns livros para casa, aninhava-se debaixo do cobertor e adormecia a ler. A única pessoa que sabia que a sua vida estava violentamente dividida em duas era ela própria. As palavras que anotava na parte de trás do diário contorciam-se por vontade própria, formando frases estranhas. De vez em quando, essas palavras metiam-se no seu sono como espetos, fazendo-a acordar assustada várias vezes por noite. Dormia cada vez menos, era cada vez mais dominada por estímulos sensoriais e, por vezes, uma dor inexplicável queimava-lhe o plexo solar como se fosse um ferro de marcar.


A coisa mais dolorosa era a forma horrivelmente distinta como as palavras soavam quando abria a boca e as empurrava para fora, uma a uma. Mesmo a frase mais despropositada continha completude e incompletude, verdade e mentira, beleza e fealdade, com a fria claridade do gelo. Brancas, saindo como fio de aranha da sua língua e pela sua mão, essas frases eram vergonhosas. Queria vomitar. Queria gritar.


Han Kang, Lições de Grego, trad. Maria do Carmo Figueira

Os Papéis do Inglês

«Poeta, romancista, antropólogo, Ruy Duarte de Carvalho é uma figura basilar da literatura angolana pós-colonial. No seu percurso, a vida funde-se com a obra, criando um universo deveras fascinante, onde se colocam as mais importantes questões do colonialismo e do pós-colonialismo.» É assim que o jornalista Manuel Halpern inicia o seu texto na revista Visão sobre o lançamento do filme Os Papéis do Inglês, dedicado ao escritor que nos deixou em 2010, mas que tive o prazer de ver nas Correntes d'Escritas ao lado de Luandino Vieira e Peptela, os três abraçados. Realizado por Sérgio Graciano e com argumento de José Eduardo Agualusa, o filme fala de uns papéis que o pai de Ruy Duarte de Carvalho teria escondido no deserto do Namibe e que o ajudariam a resolver um mistério ocorrido nos anos vinte do século passado. Esta é pois a história de uma busca que tem por protagonista o próprio Ruy Duarte de Carvalho  (é o actor João Pedro Vaz que lhe veste a pele) e que regressa ao passado para nos mostrar as magníficas paisagens do Sul de Angola. Estreou há dias. Vamos ver?

Mafra

Começou ontem, salvo erro, a segunda edição do Festival Literário de Mafra, que decorre até dia 3 de Novembro. Não há desculpa para não ir, porque apanha o fim-de-semana e tem muita coisa para ver e ouvir. Comissariado por José Fanha, a programação inclui leituras, sessões de contos tradicionais, encontros com autores e muito mais. Sendo o tema os 50 anos do 25 de Abril, na abertura cantará Francisco Fanhais no Torreão Sul do Real Edifício de Mafra. Entre os escritores convidados, estarão Dulce Maria Cardoso, João Tordo e Djaimilia Pereira de Almeida. O romancista, poeta e jornalista Nicolau Santos e o economista João Duque são os responsáveis pelo serão de poesia. O prémio literário promovido pelo Município de Mafra será entregue a António José da Costa Neves pelo seu livro O Professor. O público infanto-juvenil terá também direito a histórias contadas por profissionais como Ana Sofia Paiva, Cristina Taquelim, Miguel Horta, António Fontinha e Jorge Serafim. A programação pode ser consultada no link abaixo.


Festival Literário de Mafra | Mafra

A nossa Terra

Vivemos hoje um tempo tremendo em matéria de alterações climáticas. Ouvi falar pela primeira vez do rasgão na camada de ozono nos primeiros anos da década de 1990 e, pouco depois, do que era a ecologia e de como podíamos minimizar os estragos que causávamos constantemente. Na editora onde então trabalhava, publicámos inclusive um guia para jovens consumidores ecológicos, que explicava os perigos para o Planeta de algumas substâncias (como os fosfatos nos detergentes) e ensinava os meninos e meninas a reciclarem muitos materiais. Mas chegámos a 2024 e parece que o que foi feito para salvar a Terra não chegou e que precisamos claramente de entender mais sobre ela para a podermos ajudar. É esse o objectivo do curso que o Professor Galopim de Carvalho vai começar a dar hoje no El Corte Inglés em cinco sessões, sempre à terça-feira, às 18h30, até ao dia 21 de Novembro. Inteligentemente, foi usado um verso de Gedeão para nomear estas lições sobre a Terra, Como Bola Colorida, e entre outras coisas falar-se-á da História da Terra, da Lua e do Sol, da vida humana, dos recursos do Planeta, do ambiente, da temperatura, das rochas, dos monumentos naturais e de muitíssimo mais coisas. Vamos?  

O poeta está de parabéns

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Não é muito comum um poeta ganhar o Prémio Pessoa, mas aconteceu há dois anos a João Luís Barreto Guimarães, um cirurgião plástico do Porto com obra extensa, bastante traduzida, que ainda por cima resolveu criar uma cadeira universitária sobre poesia para os candidatos a médicos no Instituto Abel Salazar, quiçá também para os humanizar e dar a perceber que os seres humanos são bem mais do que apenas corpos. Barreto Guimarães acaba de publicar um livro (Claridade), que tem uma capa lindíssima; e, quase simultaneamente à saída deste novo poemário, recebe nada mais nada menos do que o Prémio de Poesia António Ramos Rosa da Associação Portuguesa de Escritores pelo seu Aberto Todos os Dias, o livro anterior (cuja capa é igualmente belíssima), que evoca o período da pandemia para logo passar a um quotidiano mais positivo e às coisas que finalmente ficaram «abertas todos os dias». Segundo o editor, trata-se de «uma obra marcada pela ironia, mas também pelo sentido da gravidade, pelo pormenor e pelo retrato de conjunto, pela leitura da solidão mas também do amor, da amizade, das coisas de todos os dias.» Eu gostei muito, e agora vou ler o novo, que também já tenho. Se gostam de poesia, façam o mesmo.


 


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Não desistir

Li no The Guardian um interessante artigo sobre o escritor Hanif Kureishi (dramaturgo, romancista e guionista, vencedor há uns anos do Oscar para melhor argumento adaptado com A Minha Bela Lavandaria) que acaba de publicar em Inglaterra um livro chamado Shattered, sobre a desgraça que lhe aconteceu há cerca de dois anos. Num momento particularmente bom da sua vida, com os filhos criados e apaixonado pela mulher italiana, com dinheiro e a viver meio ano em Inglaterra, meio ano em Itália, estava a ver um jogo de futebol no iPad e a beber uma cervejinha quando teve uma tontura. Levantou-se, deu uns passos e desmaiou. Só que caiu sobre o pescoço e ficou paralítico de um momento para o outro. Nunca mais voltou a andar (diz que nunca mais saiu do rés-do-chão da casa onde mora, de três pisos). Esteve um ano a ser tratado em hospitais junto de outros a quem uma queda no jardim ou um tropeção nas escadas do sótão deixou paraplégios ou tetraplégicos. Kureishi gastou rios de dinheiro em fisioterapia e reabilitação, mas, embora consiga mover as pernas e os braços, não consegue ainda agarrar nada com as mãos. Escrever parecia por isso fora de questão, mas o seu cérebro não está parado e portanto resolveu ditar o livro à mulher, com quem gritava por não ser tão rápida a escrever como ele gostaria (sabe-se que sempre foi um tipo um bocado bruto). Diz-se que o livro é bastante escatológico, mas também um tributo a Camilla e a todos os que estiveram próximos nas alturas piores e não o deixaram desistir. Não consigo imaginar a força necessária para escrever um livro nestas condições. Tiro-lhe por isso o chapéu e presto-lhe homenagem. O artigo/entrevista, de Simon Hattenstone, pode ser lido aqui:


‘My body is broken, but I’m not going to give up’: Hanif Kureishi on life after the accident that paralysed him | Hanif Kureishi | The Guardian

Antepassados vegetarianos

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Guida Cândido, doutorada em História da Alimentação e autora de diversas obras de gastronomia premiadas, entre as quais A Vida Secreta da Cozinha Portuguesa ou Cinco Séculos à mesa, vem revelar-nos no seu novo livro (São Favas Contadas) que os vegetais já andam pelas nossas mesas há vários séculos, mesmo que alguns dos mais usados na culinária portuguesa – como a batata ou o tomate – só tenham marcado presença na Europa depois das viagens de Cristóvão Colombo. A par de 50 receitas que vêm desde o século XVI e estão presentes em livros de cozinha de grandes chefes, conta-nos como os legumes e vegetais contribuíram para a criação de uma ideia de alimentação limpa que haveria de tornar-se uma espécie de filosofia, o vegetarianismo. A professora Isabel Drumond, que assina o prefácio, apresentará hoje este livro na Figueira da Foz, cidade natal da autora. Apareça se estiver nas imediações!


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O Nobel

Na véspera do dia em que foi anunciado o Nobel da Literatura de 2024, uma jornalista da Antena 3, Mariana Oliveira, pediu-me um palpite. Disse-lhe que andava desconsolada com o Prémio, tantas vezes atribuído a pessoas que pouco haviam inovado em termos de linguagem, e oferecido por razões politicamente correctas; mas ela pediu-me que mesmo assim gravasse um depoimento e, começando com as minhas críticas, disse que gostaria que ganhasse alguém como Han Kang, que tivesse feito qualquer coisa de novo. Não tinha esperança, até pela idade da escritora (53 anos apenas), foi mesmo só uma espécie de desabafo. Porém, ao meio-dia, veio a notícia completamente inesperada de que o meu desejo se realizara. Ver em directo foi especial, ouvi aqui na editora baterem palmas logo a seguir e não vos conto os beijos e abraços que recebi nesse dia (ainda assim, a cara da Han Kang deve ter ficado muito mais lambuzada do que a minha). A autora tem publicados em Portugal quatro livros: A Vegetariana (que a trouxe para a ribalta por ter vencido o Prémio Booker Internacional); Atos Humanos, O Livro Branco e Lições de Grego. Estamos quase a lançar o mais recente Despedidas Impossíveis, que sai em simultâneo com a edição inglesa. Leiam a autora, capaz do lírico e do brutal. Para o ano serão outros os editores felizardos.

Pronomes

Em tempos, recebi várias queixas por ter escrito aqui no blogue que uma pessoa que escrevia (e que eu publicara) era extremamente jovem mas «uma senhora escritora»; como essa pessoa era não-binária, levei nas orelhas da Comissão de Igualdade de Género por lhe chamar «senhora» quando na verdade estava a fazer-lhe um elogio. Mas, como um problema nunca vem só, descobri uma das queixosas num vídeo em directo a acusar-me de ter usado «o pronome senhora». Só que «senhora» é substantivo, e não pronome... É o que temos e os pronomes estão mesmo pelas ruas da amargura... Em primeiro lugar, porque uma tradução apressada do impessoal «you» entrou no português e nunca mais vai sair, substituindo um «nós» ou um «se» que seria muito mais normal em frases do tipo «É normal, quando chove, vestir-se/vestirmos uma gabardina» (em vez de «vestires», especialmente se não tratamos por tu o nosso interlocutor); mas ainda pior é termos comido definitivamente os pronomes reflexos em verbos como «reunir», «resignar», «derreter», «casar» e muitos outros, pois uma pessoa «casa-se» mas «casa o filho com uma rapariga adorável», e o pronome reflexo faz toda a diferença, embora hoje as pessoas só casem umas com as outras. É um desabafo porque, vindo a ouvir rádio antes de aqui chegar, soube que as pessoas agora não «se reúnem», apenas «reúnem», não sabemos é o quê.

Escritaria

Hoje começa em Penafiel a 17.ª edição da Escritaria que tem como homenageado o brasileiro Arnaldo Antunes e será mais multidisciplinar ainda do que de costume. Além de Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, estarão presentes Mafalda Veiga, Mia Couto, Martim Sousa Tavares, Luísa Sobral, Rui Reininho, Samuel Úria, Márcia e Adolfo Luxúria Canibal, e muitas das sessões acontecerão num novo espaço cultural da cidade designado Ponto C. Haverá mais concertos, mas também conversas, lançamentos de livros e uma entrevista de fundo ao autor e músico a quem este ano é dedicado o encontro. Num espaço público da cidade, como habitualmente, ficará a silhueta de Arnaldo Antunes junto de uma frase sua. O festival já homenageou Saramago, Manuel Alegre, Miguel Esteves Cardoso, Pepetela, Mário Zambujal, Lobo Antunes, Mário Cláudio e muitos outros cultores da língua portuguesa. Esta edição terminará no dia 27.

Excerto da Quinzena

Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci, no Caleijão. O des­tino fez-me conhecer casas bem maiores, casas onde parece que habita constantemente o tumulto, mas nenhuma eu trocaria pela nossa morada coberta de telha francesa e emboçada de cal por fora, que meu avô construiu com dinheiro ganho de-riba da água do mar. Mamãe-Velha lembrava sempre com orgu­lho a origem honrada da nossa casa. Pena que o meu avô tivesse morrido tão novo, sem gozar direi­tamente o produto do seu trabalho.


E lá toda a minha gente se fixou. Ela povoou-se das imagens que enchiam o nosso mundo. O nasci­mento dos meninos. O balanço da criação. O traba­lho das hortas e a fadiga de mandar a comida para os trabalhadores. A partida de Papai para a América. A ansiedade quando chegavam cartas. Os melhora­mentos a pouco e pouco introduzidos com os dóla­res que recebíamos. Mamãe deslisava como uma sombra silenciosa no trafêgo da casa. Mamãe-Velha não parava, indo de um lado para outro, como se nada pudesse fazer-se sem a sua fiscalização e os seus gritos. A minha avó só sabia querer a sua gente descompondo.


Ao lado da casa grande, de quatro quartos, ficava a casinha desaguada, onde Mamãe fazia a despensa, e que nos dias de chuva servia para abrigar as gali­nhas da criação. Encostada à casa de moradia, ela tinha de longe, com o seu teto retangular, inclinado para drenar a água, um ar de bezerro a pojar nas mamas da mãe.


Baltasar Lopes, Chiquinho

Chico

O grande escritor de canções Chico Buarque de Holanda é, para quem não saiba, filho de um grande historiador e académico chamado Sérgio Buarque de Holanda, autor, aliás, de livros importantes. Essa circunstância levou o nosso querido músico e cantor, aos nove anos, a viver um período em Roma, onde o seu pai leccionou numa Universidade. Inscrito numa escola internacional, o hoje Prémio Camões aprendeu italiano sobretudo com os títulos dos jornais no quiosque defronte de casa e com a rádio, a cozinheira e a miudagem da rua, uma vez que a maioria dos seus colegas, filhos de diplomatas, falava inglês no colégio. Mas isso não o impediu de conhecer a cidade de lés a lés, percorrida de bicicleta, nem de dançar nos braços de uma actriz como Alida Valli, uma das musas de Visconti. Bambino a Roma, o livro que acaba de sair em Portugal, é um delicioso conjunto de memórias de Chico Buarque do tempo que passou na Cidade Eterna aonde um dia chegam do Brasil as notícias do suicídio de Getúlio Vargas. Bastante saído da casca, já com pulsões sexuais aos nove anos, o bonitão do nosso Chico namorisca as italianas, joga à bola, discute com os irmãos mais velhos e observa uma Roma que não mais esquecerá. Lê-se como um romance.

Um físico prodigioso

Os mais velhos ainda se lembram certamente de um programa de televisão sobre física nuclear anterior ao 25 de Abril, conduzido por António Manuel Baptista. Era estranho, claro, um programa sobre um tema tão específico em horário quase nobre, mas o seu autor sabia de tal forma comunicar que, uma vez, as vendedeiras de um mercado fora de Lisboa lhe confessaram não perceber nada do que dizia mas adorar ouvi-lo falar mesmo assim. Foi este senhor que me meteu na edição em 1987 (era amigo do meu pai e sabia que eu gostava de livros): quando um editor lhe perguntou se conhecia alguém que o pudesse ajudar, não hesitou em recomendar-me para o lugar e foi assim que começou a minha vida editorial. Tenho-lhe uma grande dívida, claro, e mais logo estarei na homenagem e no lançamento de um livro seu, agora reeditado pela Tinta-da-China; chama-se A Ciência no Grande Teatro do Mundo e, para quem não o conheça, vale muito a pena ver a clareza com que as coisas são lá explicadas. É o neto deste prodigioso físico, também António, quem vai conduzir a conversa com Carlos Fiolhais. Não falte. Na Ler Devagar, às 18h30.

Verdes

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Não é há muito que se ouve falar de vegetarianismo ou veganismo, mas os legumes e as leguminosas fizeram desde sempre parte da alimentação dos omnívoros. São Favas Contadas, o novo livro de Guida Cândido, vem revelar-nos que os vegetais já andam pelas nossas mesas há séculos, mesmo que alguns dos mais usados – como a batata ou o tomate – só tenham marcado presença na Europa depois das viagens de Colombo. Mas sabia que, por exemplo, se comiam couves na Roma antiga durante os banquetes para evitar a embriaguez e que, no período medieval, os legumes eram usados como resposta aos jejuns impostos pela Igreja? Que, sendo a motivação inicial do vegetarianismo a pureza espiritual, essa filosofia entusiasmou os Iluministas a ponto de acreditarem que a dieta vegetariana, associada à abstinência do álcool, podia resolver problemas tão graves como a pobreza e a fome no mundo? E que, apesar de o primeiro livro português exclusivamente vegetariano só ter sido publicado em 1916, podemos encontrar receitas com vegetais, em versão doce e salgada, desde o século XVI? Viajemos então com esta especialista em História da Alimentação aos primórdios do vegetarianismo e confeccionemos, tantos séculos depois, cinquenta antigas receitas com trinta espécies de vegetais nas nossas cozinhas modernas.


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Orgia checa

Nunca falho um Philip Roth quando aparece um novo e fico sempre com água na boca enquanto não arranjo tempo para ele. Desta vez arranjar tempo foi fácil, pois estava a terminar outro livro e meti-o logo que o terminei, à frente de uma data deles que esperavam na pilha. Tratava-se ainda por cima de A Orgia de Praga, escrito há quase cinquenta anos mas um dos livros da tetralogia Zuckerman Acorrentado, de que já lera os outros três. Como o título indica, passa-se maioritariamente em Praga, no tempo do comunismo, e fala de como os artistas e escritores checos aí vivem permanentemente espiados pelos soviéticos, vigiados e mesmo castigados, quantas vezes impedidos de escrever e publicar. Olga, por exemplo, passa a vida a pedir a Zuckerman que fornique e se case com ela e a liberte do ostracismo e da violência a que é votada pelo seu país. Tentando reagir a uma vida de opressão, muitos artistas acabam por se vingar em orgias e festas lúbricas nas quais o nosso Zuckerman participa quase sem querer. Não tão interessante como os outros três (O Escritor Fantasma, A Lição de Anatomia e Zuckerman Libertado) e bastante mais curto (lê-se em duas ou três noites), é apesar de tudo um Philip Roth.

Inquietações

No âmbito do FOLIO, o festival literário na bela vila de Óbidos que foi transformada numa enorme livraria pelo saudoso José Pinho, teremos hoje às 18h00 a primeira mesa do FOLIO Autores. Nela participam Hanna Bervoets e Eleanor Catton e a moderação ficará a cargo de Ana Daniela Soares. O tema do FOLIO este ano é "Inquietação", e ninguém mais apropriado para falar dele do que Hanna Bervoets, autora holandesa de um romance elogiadíssimo por Ian McEwan e intitulado Tivemos de Remover Este Post. Trata realmente de coisas muito inquietantes, pois tem como personagens um grupo de jovens com empregos precários que resolvem tentar melhorar o nível de vida aceitando trabalhar para uma poderosa empresa dona de uma rede social muitíssimo frequentada. As suas funções consistem em moderar conteúdos, ou seja, retirar o que é ofensivo segundo as normas da empresa, que na verdade pouco têm que ver com as nossas. Mas saberiam eles, quando aceitaram o trabalho, a dose de violência e inquietação que lhes seria servida a cada hora? Eleanor Catton, por sua vez, foi a vencedora do Man Booker Prize em 2013 com um romance chamado Os Luminares, passado na Nova Zelândia, que trata de outras inquietações, como o tráfico de ópio e a prostituição. Eu vou a Óbidos ouvi-las. Venham também. Até segunda.

O Ruído dos Tempos

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David Machado, autor que escreve para crianças, adolescentes e adultos, que já viu um dos seus romances adaptado ao cinema e já venceu o Prémio Literário da União Europeia, entre outros, publicou há menos de um mês Os Dias do Ruído, uma ficção fascinante sobre a actualidade, em que as redes sociais têm um papel preponderante nas reacções de algumas das personagens, que assim se sentem amadas, acompanhadas, admiradas, mas também ameaçadas e agredidas, ao ponto de terem de recolher-se num esconderijo com medo das palavras e de alguns dos seus autores. O lançamento público ocorre hoje na Cinemateca, sob a forma de uma conversa entre o autor e dois jornalistas, Marta Anjos e Ricardo Alexandre, para a qual quero convidar-vos, se estiverem por Lisboa. Senão, não percam de qualquer forma o livro, que vale muitíssimo a pena e, sobretudo, fica a ecoar durante muito tempo dentro de nós.


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Lembrar e celebrar

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Embora alguns editores estejam periodicamente a trazer ao de cima autores portugueses desaparecidos (como Agustina, Jorge de Sena, Fernando Namora, Alves Redol...), num mundo em que «quem não aparece esquece» existem excelentes autores que tendem a ficar esquecidos (eu, por exemplo, acho que o genial Carlos de Oliveira é um desses casos e aconselho a todos a leitura das suas obras). Mas, além da publicação, há outras coisas que ajudam ao «renascimento» dos escritores, e este ano Vergílio Ferreira teve sorte. Na semana passada, durante o festival Em Nome da Terra foi inaugurada em Melo (Gouveia), terra serrana natal do professor, a Casa Vergílio Ferreira - Para Sempre, que, tendo sido a casa dos seus pais, será um novo espaço cultural que celebrará a sua obra e servirá do mesmo modo de lugar literário inspirador para outros autores, que ali poderão fazer residências literárias com uma bela vista. O festival, que vai na sua 3.ª edição, passará doravante por esta casa, onde se fará também anualmente a entrega do Prémio Vergílio Ferreira. O projecto da «Casa Amarela» teve curadoria de Valter Hugo Mãe e conta com muitos objectos oferecidos pelos netos do escritor, como um relógio «napoleónico», segundo leio no site da Rádio Renascença. A casa está cheia de livros, entre os quais seguramente o romance Para Sempre, no qual o protagonista recorda a sua vida durante uma tarde de Agosto numa casa que supostamente foi aquela. Mais um lugar para visitarmos.


 


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Mães e filhas

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Não escondo que amo profundamente a minha mãe centenária e que sempre tivemos uma boa relação, embora isso não nos tenha dispensado de várias discussões porque, sobre muitas coisas, pensamos de maneira diferente. Já a minha irmã foi sempre mais pai e o feitio da nossa mãe também nunca facilitou as coisas. A relação entre mães e filhas é em muitos casos difícil e não faltam filmes e livros a prová-lo, como A Pianista, de Elfried Jelinek, Carta à Minha Filha, de Maya Angelou, ou Beloved, de Toni Morrison, só para referir alguns. Às vezes, mesmo que o amor seja inegável, mãe e filha não conseguem estar juntas e uma briga acaba por separá-las para a vida. Ora, acaba de ser lançado um romance que fala justamente disto, Como Amar Uma Filha, da israelita Hila Blum, livro finalista do Prémio Fémina em França, no qual a protagonista (a mãe que apenas consegue ver os netos de longe porque não fala com a filha há muito) dialoga com as escritoras que a autora confessa gostar de ler: Susan Sontag, Margaret Atwood ou Alice Munro. A coisa promete e a capa é belíssima. Vou espreitar.


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Mapa cerebral

No início da minha carreira na edição, li muitos livros de divulgação científica e cheguei a traduzir um livro de Carl Sagan que falava da descoberta da área de Broca no cérebro de um Homo sapiens, aquela onde reside a capacidade de associar o pensamento ao discurso, de criar a linguagem. Mas há ainda muito por descobrir em termos do nosso cérebro... No ano em que nasceu Pessoa (1888), um espanhol de 36 anos, Santiago Ramón y Cajal, propôs-se desenhar o sistema nervoso central, célula por célula, em busca do cantinho do cérebro onde se escondiam as ideias dos filósofos, a imaginação científica  e a fantasia literária, mas, claro, logo entendeu que a tarefa era inglória. O primeiro passo para esta missão quixotesca acaba, porém, de ser dado, tendo sido finalmente mapeado o cérebro... da mosca-da-fruta. Não se ria. Trata-se de um insecto com comportamentos quase tão complexos como o ser humano: interpreta canções durante a corte e a cópula; consegue observar, cheirar, ouvir, andar e voar; é capaz de orientar-se em distâncias longas e possui memória de longo prazo. O mapa do cérebro da larva destas moscas tem uma estrutura com 3016 neurónios e 548.000 ligações entre eles. É só preciso multiplicar isto por 100 e temos um cérebro humano adulto. Já não falta tudo para saber onde vão os escritores buscar as suas ideias e histórias... O artigo do El País onde descobri isto pode ser lido aqui:


https://elpais.com/salud-y-bienestar/2024-10-02/el-primer-mapa-de-un-cerebro-adulto-abre-una-nueva-puerta-para-investigar-la-mente.html


 


 


 


 

Excerto da Quinzena

E, no Outono, entrei para a escola.


A 7 de Outubro.


Escrevo em cardinal e não por extenso, porque foi assim que este número nos foi gravado a fogo: o desenho de um punhal deitado que dobrava a lâmina para baixo para se enterrar nos nossos corpos espantados de criança. «7.» Depois desse sete-seta, nunca mais voltaríamos a acreditar na bondade dos adultos. Na primeira classe, aprendíamos que a nossa infância morreria, todos os dias, mais um pouco.


A mãe levou-me pela mão, estrada fora, com outras mulheres que iam acompanhar os filhos no primeiro dia. Riam-se muito e falavam alto, nervosas.


«Ficas com o senhor professor que logo venho-te cá buscar.»


Havia crianças que choravam, que se agarravam à saia das mães, que se despegavam a custo ou à bruta, conforme o caso. Eu, não. Sabia que não adiantaria nada.


Várias mulheres repetiam por delicadeza, bem alto, a voz sempre nervosa:


«E se ele se portar mal, bata-lhe, senhor professor. Arrime-lhe, que tem a minha autorização.»


 


Possidónio Cachapa, A Selva dentro de Casa

O homem das sete vidas

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Na cabeça de Steven, o avô paterno, que via sobretudo nas férias de Verão na aldeia, era igual a todos os avôs que conhecia, sem nada de estranho ou assinalável. Até ao dia em que, já depois da sua morte, lhe foram parar às mãos uns cadernos escritos por ele ao longo de muitos anos, que revelavam uma pessoa completamente diferente: um homem que estava longe de ser bom e que, pertencendo a uma família judia, conseguira a proeza de se tornar gangster, mercenário, espião e até oficial superior das SS durante a Segunda Guerra Mundial, acabando prisioneiro num campo de trabalho russo. E mesmo que se trate de alguém que cometeu crimes hediondos, é impossível aos leitores desta história não sentirem uma secreta admiração por este homem que, tendo vivido tantas vidas em tantos lugares, conseguiu afinal fazer-se esquecer. Steven Braekeveldt, apostado em tirar o avô do anonimato, entrelaça em O Homem Que Se Fez Esquecer ficção e realidade para nos contar uma vida única em episódios que recuam ao final do século XIX e que incluem personalidades conhecidas de todos, entre as quais o escritor John Steinbeck e o repórter Robert Kappa, de quem o protagonista foi amigo quando viveu em Nova Iorque. Uma narrativa alucinante com um ritmo incrível, a não perder.


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O bósnio irreverente

Disse-vos anteontem que iria falar-vos de um autor bósnio, o escritor Velibor Čolić, recentemente dado a conhecer cá em Portugal através de O Livro das Despedidas, o seu primeiro livro escrito originalmente em francês. A França é, de resto, o lugar onde o autor se refugiou depois de ter desertado da guerra da Bósnia, depois de ter sido feito prisioneiro e depois de ter fugido da cadeia, apesar de pesar cento e tal quilos. Tal como ele diz, os editores chamam romance ao que escreveu, mas é só para vender melhor, porque não se trata de um romance. E tem razão, claro, o seu livro é sobre a sua vida, contada sem reservas, com muito álcool à mistura, com sexo, com todas as enormes dificuldades que sente um refugiado político em integrar-se num país novo, um país onde os que vêm de fora são olhados de lado e frequentemente maltratados. Mas talvez aqui a história de todas estas vicissitudes (atenção: o relato é tudo menos um «choradinho» porque este senhor não tem papas na língua e é tão bom a fazer crítica como autocrítica) nem seja o mais importante; o que este livro tem é uma linguagem avassaladoramente inventiva que me fez pensar que em todas as páginas há frases que eu gostaria de coleccionar. E, tratando-se de alguém para quem o francês é a língua do exílio, e não a sua própria língua, dá que pensar como consegue o nosso bósnio escrever tão maravilhosamente. Aconselho mesmo. Em algumas parte fez-me lembrar o filme Eu, Daniel Blake, não sei bem porquê. Mas mais cínico, mais autêntico e menos condescendente. Há bastante tempo que um livro de um autor desconhecido não mexia tanto comigo.

O que ando a ler

Terminei-o ontem e tenho de confessar que, apesar de se tratar de um romance que começa mesmo bem, que promete, que é diferente, acabou por não me convencer. A autora Deborah Levy já cá tem vários publicados e, se não me engano, foi finalista do Booker Prize duas ou três vezes. Porém, este Azul de Agosto não é o meu género de romance e arrastei-me ao longo das suas páginas: quanto a mim, nem constitui uma história bem contada, nem um livro sem grande história mas com uma linguagem ou uma estrutura poderosa. Na verdade, achei-o um livro sobre coisa nenhuma. Talvez o defeito seja meu, pois a autora é, segundo já percebi pelo que tenho lido, muito estimada e considerada, mas mais uma vez é aquele tipo de livro feito à medida para os tempos e as questões fracturantes, o que me parece sempre oportunista, até porque o assunto nada tem que ver com essas questões. Mas, enfim, posso ser eu a envelhecer e a gostar de cada vez  menos coisas, e a premissa até é interessante: uma pianista que deixou o palco em Viena a meio de uma peça de Rachmaninoff e não voltou a tocar (e que gostaria de saber porque foi abandonada em criança e entregue a um mestre de piano, que a adoptou e está agora às portas da morte). Tem uma dupla, que encontra em vários países por onde passa e corre o risco de ser ela mesma. Leiam e dêem-me a vossa opinião.

FOLIO

Todos os anos nos preparamos para vários festivais literários em muitos lugares do País. O momento mais alto do ano, para mim, é sem dúvida o das Correntes d'Escritas, não só porque o acompanho quase desde o primeiro momento, mas também porque atingiu uma dimensão impressionante (cheguei a ver Adriano Moreira discursar de pé para mais de 700 pessoas) e porque quase sempre inclui intervenções memoráveis, já que os temas são muito vagos e permitem aos convidados falar do que querem. Mas em Outubro temos o FOLIO, outro dos festivais literários a que nunca falto, e este ano ainda menos, pois tenho lá três autoras que publiquei: Hanna Bervoets, a holandesa que é autora de um pequeno romance admirável que fala de um grupo de jovens que modera conteúdos numa rede social, Tivemos de Remover Este Post; Anna Kim, austríaca de ascendência coreana, que escreveu História de Uma Criança, um romance que fala de um caso real de segregação na América dos anos 1950 (ela vai estar a dialogar com um autor bósnio de que um dia destes vos falarei); e Mónica Ojeda, a equatoriana que escreveu Mandíbula, um romance sobre uma professora que rapta uma aluna num colégio da Opus Dei. O FOLIO está quase a começar, por isso não deixem de consultar o programa, pois vai de certeza valer muito a pena.


https://foliofestival.com/programa/


 

Revisitar

Apesar das centenas de livros que saem em Portugal todos os meses (é impossível acompanhar tudo e há muita coisa boa que passa despercebida porque não consegue ocupar os melhores lugares dentro das livrarias e não chega quase a ser vista), tenho-me dado conta de que há muitos autores que estão a ser repescados e lançados como novidades. Noutro dia, reparei que Manuel Vásquez Montalbán, que tinha deixado a Asa pouco antes de eu entrar na LeYa, há uns quinze anos, começou a ser republicado pela Quetzal, editora que também está de novo a dar à estampa o grande Gonzalo Torrente Ballester e que lançou já A Saga/Fuga de J.B. e mais recentemente o delicioso Filomeno (a que Saramago chamou "espantoso" no lançamento, na presença do autor, sem se lembrar que "espantoso" em castelhano quer dizer "horroroso"); esse romance traz-me muitas recordações, até porque Ballester participou nessa altura, junto com Torcato Sepúlveda e Saramago, num programa de televisão conduzido por Francisco José Viegas sobre livros; e foi justamente por causa desse programa (e do livro Diplomacia, de Kissinger) que eu e o então editor com quem trabalhava tivemos uma discussão que me levou a pedir a demissão no dia seguinte. Isto foi em 1996, e já não interessa para nada, mas não deixem de ler estes dois autores agora relançados, que valem mesmo muito a pena.

Jesus na primeira pessoa

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Para o autor livro de que hoje vos falo, Jesus é uma coisa e Cristo é outra. Quando em pequeno Miguel Real explicou ao catequista que não acreditava que ninguém que tivesse morrido pudesse voltar à vida, este ficou tão chocado com aquela sinceridade que foi queixar-se à mãe do rapazinho, de quem recebeu a resposta que merecia. Foi desde então que o problema da Ressurreição não mais deixou de preocupar o escritor e, tantos anos volvidos, o levou a escrever esta Autobiografia de Jesus tomando a voz do Filho de Deus, já que nada se conhece que Jesus tenha deixado escrito pela sua mão e os Evangelhos praticamente não falam do que foi a sua vida familiar, a sua aprendizagem, as suas revelações, a sua conduta com as mulheres e, sobretudo, a sua tremenda solidão. É sobre tudo isso que trata este romance de um autor frequentemente atraído pelos assuntos religiosos. Com um final incrivelmente inventivo e inesperado, parece que aquele nó cego criado na mente do autor durante a infância vai certamente ser desatado durante a nossa leitura.


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Posadas

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Tenho uma enorme simpatia e ternura por Carmen Posadas, autora uruguaia que publiquei na Temas e Debates no princípio da minha carreira como editora (já tinha sido assistente editorial noutra casa, mas foi em 1998 que pude passar a escolher os títulos, e um dos primeiros romances estrangeiros que publiquei foi Pequenas Infâmias, desta autora, que ganhara pouco antes o Prémio Planeta). Lembro-me de termos inaugurado o auditório da FNAC do Chiado, que tinha aberto pouco antes, com o lançamento desse livro, que foi então apresentado por Francisco José Viegas, e de ter sido um prazer conhecer Carmen ao vivo, porque é uma pessoa muito querida, bonita e sem peneiras (apesar de ter todas as razões para as ter). Quando saí da editora, em 2005, perdi-a como autora (não foi a única, são ossos do ofício), mas fico contente que ela tenha vindo parar à LeYa, embora não pela minha mão, e vou de certeza ao lançamento de Hoje Caviar, Amanhã Sardinhas, livro que assina com o irmão, Gervasio Posadas, lançamento que vai ocorrer dia 30. Não li ainda o livro, mas não vou perdê-lo: filhos de um diplomata, os autores contam as aventuras e desventuras de passar a infância e a adolescência mudando permanentemente de morada (Madrid, Londres, Moscovo...) e elogiam uma mãe embaixatriz que, estando onde estivesse, era sempre capaz de resolver todo o tipo de situações, embora se metesse em sarilhos com frequência. Deixo-vos o convite para se quiserem aparecer.


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Angola por quem lá viveu

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Já aqui falei deste livro e, por causa de um comentário que logo surgiu, queria sublinhar que ele foi escrito por alguém que nasceu e viveu em Angola até 1975, e que já o seu avô morava ali desde o início do século XX, ou seja, o autor não está a inventar, sabe bem do que fala. Mas hoje é a festa de lançamento, e não podia deixar de trazer Amarelo Tango, de Nicolau Santos, de novo à baila, até porque gostaria muito que nos acompanhasse nesta apresentação, que irá ser feita por outra pessoa que nasceu em Angola, voltou a seguir ao 25 de Abril e escreveu sobre tudo isso no magnífico livro O Retorno; sim, Dulce Maria Cardoso. Por isso, se puder, apareça mais logo; senão, leia este maravilhoso relato de três gerações de portugueses em Angola, que é também a história de um país e das suas mudanças ao longo do tempo, contada por quem lá estava e queria ficar, mas não pôde. Até logo.


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Complementaridade

Há algumas pessoas extremamente ingénuas que acham que se consegue ser um bom escritor sem ter lido nada. Até já me aconteceu aconselhar um autor que me tinha mandado um original a ler mais (percebia-se pelo que escrevera que precisava muito de ler) mas ele respondeu-me que não gostava de ler, gostava era de escrever (e eu fiquei de cara à banda). Enfim, há que perceber que a leitura e a escrita não existem uma sem a outra e que a segunda só se aperfeiçoa lendo e escrevendo muito. Não há escritor conhecido que não tenha lido imenso (geralmente é o gosto pela leitura que leva alguém a ser escritor). Mas qualquer escritor tem de ler mesmo enquanto está a escrever porque em certos casos é preciso fazer investigação sobre determinados assuntos ou buscar sinónimos para palavras (e o dicionário também é bom de ler, acreditem). Até para uma simples crónica, por exemplo, abro sempre pelo menos dois ou três livros para confirmar isto ou aquilo e não meter a pata na poça, confiando demasiado nas minhas memórias; mas, mesmo que não seja matéria de pesquisa, ler dá-nos ideias, ensina-nos novas técnicas narrativas, aumenta o nosso vocabulário, ilustra-nos sobre a forma como podemos estruturar uma história e por vezes até nos dá vontade de começar uma coisa nova. Stephen King fala de tudo isto em Escrever, um livro maravilhoso para os que estão a começar no ofício de escritores, mas há muitos outros guias que podem ajudar, sendo que todos eles dizem o mesmo: que a leitura é o primeiro passo para quem quer escrever.

Excerto da Quinzena

Observo-a. As suas mãos são transparentes, e tem uma tatuagem imprecisa no bíceps esquerdo. Uma cobra-real. A sua saia malva deixa entrever um delta de varizes na barriga das pernas, uma cartografia azul-clara. O seu corpo regista tudo. Posso ler todos os amores passageiros, os abortos, as traições, as viagens, as rendas por pagar. Um flamingo ferido, um anjo tantas vezes caído que já não consegue levantar-se. O verniz das suas unhas está lascado, deslavado, tão cansado como as suas olheiras. Quase adivinho uma tosse forte e profunda que lhe dilacera o tronco muito magro -- como se cada amante de passagem tivesse bebido o ar do seu peito até à última gota. Apesar de uma espessa camada de maquilhagem, vejo duas, três crateras no seu nariz. Treme enquanto fuma o seu longo cigarro mentolado.


 


Velibor Čolić, O Livro das Despedidas, tradução de António Gonçalves

Drogas

A leitura é a minha droga, e às vezes bem dura, como sabem todos os leitores destas Horas Extraordinárias. Ainda assim, duvido que me prejudique, como acontece com outras que infelizmente têm matado muita gente ao longo dos tempos. Mas a verdade é que o consumo de algumas drogas é muito mais antigo do que supomos e que, desde que supervisionado por especialistas, pode ter efeitos bem mais positivos e rápidos para a saúde mental do que pensamos. Este é, por exemplo, o caso dos psicadélicos, como nos diz o livro Psicadélicos, da autoria de Pedro Teixeira, professor e investigador, que vai estar hoje a falar do assunto destas novas terapias no El Corte Inglés às 18h30, dividindo a mesa com João Taborda da Gama, advogado especialista em regulação de drogas, e Maria do Carmo Carvalho, professora universitária nesta área. A moderação é da jornalista Filipa Melo. Para quem quer saber mais, até pode ir lá e perguntar.

Festival de Poesia de Lisboa

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Hoje inicia-se o Festival de Poesia de Lisboa, que se prolonga até ao próximo domingo e inclui actividades várias num figurino nem sempre vulgar, pois em várias das sessões as conversas serão entremeadas por música e leituras. Não fui às outras edições do festival, tenho de confessar, mas achei bem simpático que quisessem homenagear-me na sessão de abertura, embora saiba bem que isso quer dizer que já estou com certa  idade (no sábado, aliás, entro dolorosamente na terceira). Na primeira sessão vou falar um bocadinho do meu percurso como poetisa e na sexta 20 partilhar uma mesa com dois amigos, o Fernando Pinto do Amaral e o Nuno Miguel Guedes, com moderação do sempre gentil Alex Cortez. Se gosta de poesia e se anima com estes encontros, deixo abaixo algumas ideias. Hoje o blogue tem mais cartazes do que palavras, mas há dias em que eu também preciso de descansar.


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Uns sapatos muito especiais

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Acusado de ter engravidado uma senhora de origem francesa, Estanislau Augusto dos Santos vai como degredado para Angola logo no início do século xx. É lá, porém, que lhe sai a sorte grande, tornando-o acionista de um pequeno império composto de pastelaria, cervejaria, fábrica de refrigerantes e quatro cinemas. Casa-se por procuração com uma jovem de quem terá três filhos, mantendo embora uma relação com a mulata Rosalinda, de quem terá mais um. Encabeça as reivindicações dos comerciantes contra o poder da Metrópole e passa por peripécias várias, quase chegando a ser preso; abalado e desgostoso com a situação, decide regressar a Portugal em 1964. Quem fica a tomar conta dos negócios é Tati, o filho mais velho, que tem um jeito especial para falar com os operários quando as coisas começam a azedar. No início dos anos 1970, o único neto de Estanislau que tem o seu nome andará envolvido na luta pela independência de Angola, mas compreende que os seus sonhos são de papel – e que o papel se rasgou. É esse neto que, anos depois, se apaixonará por uma jovem que o fará regressar ao maior segredo da família, o que liga toda a narrativa em torno da cor de uns sapatos: amarelo tango. Esta é a saga absolutamente fascinante de três gerações de uma família, contada num mosaico de pequenos episódios que – do cómico ao trágico – nos oferecem de forma magistral a história de Angola no último século. Amarelo Tango é o primeiro romance do jornalista Nicolau Santos.


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Um caderno só seu

É impossível não pensar em Um Quarto Só Seu, de Virginia Woolf, quando lemos O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes, nascida em Roma em 1911, filha do Embaixador de Cuba. Este seu romance, escrito nos anos 1950, é um livro sobre a falta de tempo e espaço para si própria que sente uma mulher casada com dois filhos já universitários, pois dela se espera que resolva tudo em casa, apesar de ter também um emprego como secretária, pois a guerra foi há pouco tempo e o seu ordenado tornou-se necessário para equilibrar as contas da família. De repente, porém, compra um caderno e começa a escrever nele as suas reflexões, os seus pensamentos e, claro, também os seus segredos. Esconde o caderno sempre muito bem escondido, mas passa a vida apavorada a pensar que um dos filhos ou o marido possa dar com ele e descobrir-lhe os pecados (mais intenções do que actos). Porém, o mais interessante nesta história é que aquilo que ela critica na filha (demasiada liberdade, uma relação avançada...) acaba por ser um pouco o que ela, afinal, deseja para si própria. Muito curioso também é o conservadorismo extremo do filho que, num toque surpreendente, acaba por cair nas suas próprias armadilhas e fazer o contrário do que prega. Esta é uma autora que vale muito a pena ler, agora redescoberta e republicada em muitos países, elogiada por Annie Ernaux e Elena Ferrante. A tradução é de Ana Cláudia Santos.