Mensagens

A mostrar mensagens de maio, 2017

Brincar com o fado

Há quem goste de fado e quem não goste – nesta arte, o mais difícil é mesmo o meio termo. Ouvi uma vez o fadista Camané dizer numa entrevista que, em criança e no início da adolescência, até tinha vergonha de dizer aos amigos e colegas que gostava de ouvir fado, não fossem considerá-lo uma carta fora do baralho... Efectivamente, não é lá muito fácil encontrar miúdos que ouçam regularmente a canção típica de Lisboa, mas ela não é um bicho de sete cabeças e, além de fazer parte do Património Imaterial da Humanidade, há que dizer que a sua história se mistura com a da própria cidade e dos seus bairros, bairros tantas vezes referidos nas suas letras: Mouraria, Alfama, Madragoa, Bairro Alto... E por isso é muito bem-vindo um instrumento que acaba de chegar para desmistificar essa imagem escura e pesada que o fado ainda possa ter para os mais novos: um livro intitulado Brincar aos Fados, que será apresentado amanhã, em pleno Dia da Criança, no Museu do Fado, pelas 17h00. Temos razões para ficar expectantes: a obra é assinada por variadíssimos escritores – David Machado, Nuno Camarneiro, José Fialho Gouveia, Filipa Martins, Maria Inês Almeida (quase todos com obra publicada para a infância) – mas também por alguns especialistas em fado, nomeadamente o letrista Tiago Torres da Silva e o fadista Rodrigo da Costa Félix. Não poderei lá estar - amanhã explico porquê – e por isso não ouvirei também os fadistas que irão abrilhantar a sessão, mas vou de certezinha comprar para os meus sobrinhos mais novos, para eles saberem o que é isso do fado.

Debaixo da pele

Imagem

Hoje sai para as livrarias o mais recente romance de David Machado, Debaixo da Pele, que nos mostra de forma muito especial como todos os nossos gestos têm consequências... Júlia nunca contou a verdade sobre o que lhe aconteceu. Nem aos pais, que a sentem cada vez mais distante; nem às amigas, que não vê há meses. Acreditou que dessa forma seria possível esquecer tudo; mas a memória que o seu corpo guarda não pode ser apagada, e por isso, apesar dos seus dezanove anos, Júlia só deseja ficar quieta, encolhida numa vida vazia, longe de tudo e de todos. No prédio onde mora, vive Catarina, a fiha de uns vizinhos cujas discussões violentas Júlia escuta através das paredes. Salvar essa criança torna-se então essencial à sua própria salvação. Mas será possível fugir do passado quando ele permanece debaixo da pele? Eis o ponto de partida deste romance fascinante e profundamente actual, que acompanhará os momentos cruciais das vidas de Júlia e Catarina ao longo de muitos anos. No mesmo ano em que se estreia o filme de Joaquim Leitão adaptado do seu romance anterior (Índice Médio de Felicidade), David Machado oferece-nos mais uma obra em que os jovens desempenham um papel crucial.


 


capa_Debaixo da Pele.jpg


 


 


 

Digitalmente vigiados

Tenho um sobrinho que se vai casar este Verão nos Açores – e porque, apesar de ter viajado bastante, nunca me calhou ir ao arquipélago, achei que devia aproveitar a ocasião para passar uns dias por lá e visitar, já agora, umas quantas ilhas. Tanto o Manel como eu estivemos a fazer pesquisas de voos e hotéis e a comparar preços, para a coisa não nos sair demasiado cara, ao longo de duas ou três noites. Resultado: durante um mês, se não mais, o meu mural do Facebook encheu-se de propostas açorianas (mesmo depois de eu já ter tudo marcado) a toda a hora. Irritei-me. Porque é que o raio do Facebook tem de saber das minhas consultas? Quando vou à Internet investigar qualquer coisa sobre um livro ou um país, da vez seguinte que entro na rede tenho logo de gramar com sugestões que se está mesmo a ver só aparecem por causa da dita busca. O algoritmo é tramado, assim fica difícil respirar… Gosto de procurar, mas não aprecio que encontrem as coisas por mim, nem que me venham fazer sugestões sem eu as pedir. Vivemos digitalmente«vigiados» e nem há maneira de iludirmos essa vigilância porque precisamos dos computadores para trabalhar e isso marca-nos logo como consumidores de um determinado tipo, a quem dizem que se comprámos tal livro também iríamos certamente gostar de ler um outro que, frequentemente, não tem nada a ver. Sou só eu que não gosto disto?

Para Madrid!

Hoje começa a Feira do Livro de Madrid, no Parque do Retiro; e, em 76 edições que o certame já conta, esta é a primeira vez que Portugal conseguiu a proeza de ser o convidado de honra. Vamos, por isso, até ao dia 11 de Junho, levar os nossos livros e escritores até à capital do país vizinho, onde a literatura portuguesa é mal conhecida e está, infelizmente, ainda pouco traduzida. A conferência inaugural está a cargo de Eduardo Lourenço, que será certamente ouvido pelo nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, uma vez que se confirma a sua presença na abertura da feira. O programa de actividades juntou o clássico ao contemporâneo – e tanto se vai ouvir falar de Camões, Eça e Pessoa (obrigatórios nestas coisas – já para não falar de Saramago, muito popular em Espanha) como de Herberto, Sophia, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral ou Lídia Jorge, como ainda nos mais jovens José Luís Peixoto, Gonçalo Tavares ou Valter Hugo Mãe. Eu própria estarei no Pavilhão de Portugal no dia 5 de Junho, às 18h30, para a apresentação de uma antologia da minha poesia em espanhol, traduzida pela poetisa Verónica Aranda (o convite partiu dela e eu não podia senão aceitar). Por isso, a partir de amanhã pode certamente acompanhar pelos meios de comunicação social a nossa presença junto de nuestros hermanos!


                                                 

Latino e americano

Uma vez por outra, há um jornalista que fala de América do Sul para se referir à América Latina, esquecendo-se, sem dar por isso, do grande México e de todos aqueles pequenos países do istmo que liga a América do Norte à América do Sul (Guatemala, Nicarágua, Belize, Costa Rica…), já para não falar de umas quantas ilhas (Cuba, Porto Rico e outras). Porém, no recente Festival Literário da Gardunha verifiquei que essa não é a única incorrecção praticada com regularidade quanto ao universo latino-americano. Quando falamos em literatura latino-americana ou literatura da América Latina, pensamos, regra geral, na literatura dos países que nos deram grandes escritores como García Márquez, Mario Vargas Llosa, Borges, Cortázar, Rulfo, Neruda, enfim, toda essa constelação de países que, embora muitíssimo diferentes uns dos outros, têm um denominador comum: grandes escritores que escrevem em espanhol (pronto, para os que vierem já a seguir corrigir, «castelhano»). Mas, como dizia no referido encontro o cronista, tradutor e activista brasileiro Eric Nepomuceno (tradutor premiadíssimo de grandes obras como Cem Anos de Solidão e uma pessoa com muito de interessante para contar), a literatura brasileira também é latina e também é americana – então porque é que nunca se mencionam livros de autores brasileiros quando se fala de literatura latino-americana? Tem razão, evidentemente. Ainda vamos a tempo de corrigir isto, não?

A morte do artista

Imagem

Somos muito parcos em revistas literárias (falo dos portugueses), mas há por aí uma revista novinha em folha que é mesmo A Morte do Artista (sim, este foi o título escolhido pela sua equipa). Foi lançada, segundo sei, na Biblioteca Camões, em Lisboa, naquele mesmo dia 13 em que houve inúmeros ataques informáticos e o Papa canonizou os pastorinhos, pelos seus «donos», quatro amigos que se juntaram para dar corpo a um sonho: Manuel Halpern, João Eduardo Ferreira, Fernanda Cunha e Firmino Bernardo – para lá do artista plástico, fotógrafo e videasta Paulo Romão Brás, responsável pelo grafismo da revista. Tal como a saudosa Ficções e como a mais recente Granta, esta nova publicação pretende ser um repositório de originais – e terá poesia, ficção, ensaio e ilustrações. Desta feita o autor em destaque é Mário de Carvalho, que tem neste número inaugural justamente uma ficção da sua autoria nunca antes publicada e um ensaio de Natália Constâncio sobre a sua obra (este não sei se inédito). Mas, tanto quanto julgo ter percebido, também aqueles autores desconhecidos que têm textos dispersos que não conseguem publicar, terão nesta revista uma possibilidade de os partilhar com o público. Parabéns aos artistas (e que vivam muito tempo).


 


mortedoartista.jpg


 


 

De barriga cheia

Tenho vindo a reparar que, de há uns tempos para cá, as listas dos livros mais vendidos em Portugal têm sempre, nos primeiros lugares, livros de culinária (agora a vedeta é Marco Costa e o seu Receitas com Segredo – e temo dizer que não faço a mais pequena ideia de quem é Marco Costa, mas suponho que alguém vindo da TV, porque vende mesmo muitos livros!). Eu bem sei que nem sou o que se pode chamar um bom garfo, nem uma boa cozinheira (aliás, só cozinho mesmo quando tem de ser porque cozinhar me dá stress e, ainda por cima, o resultado é normalmente uma coisa sem piada); mesmo assim, acho que há claramente um exagero no número de livros e programas de TV dedicados à gastronomia em geral e à cozinha em particular nos dias de hoje: livros de receitas de famosos (Sá Pessoa, Avillez, Rui Paula, etc.), o que até seria mais ou menos esperado, mas também muitos outros de tias, primas, amigas e tipos giros de avental que gostam de cozinhar e põem toda a gente a dar-lhes atenção, já para não falar das receitas adequadas a quem quer emagrecer, ou é vegetariano, ou é alérgico à lactose, ao glúten e a outras coisas. Até o Manel foi fazer um dia destes um curso de cozinha para principiantes e já comprou mais uns livritos (embora ainda não tenha feito nada a partir deles, já me brindou com um excelente Bacalhau à Brás... ou Braz?). Alguém me explica este súbito interesse pela comida e os livros de receitas por parte de tanta gente?

Viagens com livros

Quando viajo, seja de avião, seja de comboio, levo sempre um livro comigo. Agora, que as pessoas vivem agarradas ao telemóvel e algumas falam ao telefone ou recebem mensagens com apitos durante toda a viagem, é mais difícil ler no comboio do que no avião. Mesmo assim, há quem tenha decidido que vale a pena tentar aumentar os níveis de literacia e os hábitos de leitura dos portugueses disponibilizando, em algumas viagens do Alfa-Pendular, um livro para ler durante o percurso. Este estará, em princípio, pousado no assento quando o passageiro chega ao seu lugar; mas, se não estiver, pode ser pedido na carruagem-bar, onde há, pelos vistos, um bom número de exemplares de reserva. O lema deste programa é «viagens com livros» – e os livros, mesmo os de autores estrangeiros como Edgar Allen Poe, são facultados em tradução portuguesa. Curiosamente, a iniciativa está a cargo de uma instituição de crédito – a Cetelem – numa parceria com a CP e no âmbito da política de responsabilidade social da empresa. Por isso, se viajar nos comboios que vão de Lisboa a Braga (ou vice-versa) neste mês de Maio, terá um livro à sua espera. Desconheço se, finda a viagem, pode ficar com ele.

Le temps des cerises

Quem gosta de cerejas procura sobretudo as de Resende ou então, mais fáceis de encontrar, as do Fundão (dizem que muitas vão direitinhas para a fábrica dos bombons Mon Chérimon cherry também soaria bem – mas ainda é possível encontrar muitas cerejinhas de qualidade nas frutarias portuguesas). E, neste tempo de cerejas, é mesmo para o Fundão que vou mais logo com o Manel e a minha amiga fadista Aldina Duarte, para participarmos no Festival Literário da Gardunha, que decorrerá durante todo o fim-de-semana. O festival inclui residências literárias e artísticas, uma feira do livro, exposições, teatro, música e actividades nas escolas. Além disso, o programa compreende vários lançamentos de livros e revistas literárias e uma série de mesas-redondas dedicadas ao tema da viagem (numa multiplicidade de sentidos), nas quais poderemos ouvir, entre outros, Carlos Mendes de Sousa, Lopito Feijó, Nelson Motta, Laborinho Lúcio, Manuel da Silva Ramos, Afonso Cruz ou Miguel Manso. Sábado à noite Cristina Branco vai cantar canções de Chico Buarque com o acompanhamento do trio de Mário Laginha e, no domingo de manhã, haverá uma caminhada poética de duas horas e meia (se quem caminha duas horas e meia vai dizer poemas, vamos ouvir certamente ofegar). Enfim, um bom programa de fim-de-semana, com muitas cerejas para a sobremesa. O pior vai ser voltar na segunda...

Um novo romancista?

Há vários anos, ainda na Temas e Debates, publiquei, com o Círculo de Leitores, a biografia de Bill Clinton – My Life, no original – um verdadeiro tijolo com revelações extremamente interessantes, sobretudo na época (a edição mundial foi, creio eu, em 2005 e tivemos de correr muito para traduzir tudo e ter o livro pronto na data). Não me recordo de o ex-presidente ter uma escrita especialmente elegante – e fiquei agora surpreendida com a notícia de que, em breve, escreverá a sua primeira ficção: The President is Missing. Ao que sei, Clinton vai ter, porém, uma ajudinha do seu companheiro de golfe, nada mais nada menos do que o ultrapopular James Patterson, que colecciona best-sellers nos Estados Unidos, embora por cá ainda não tenha realmente vingado. Intriga, suspense e drama nos corredores do poder é o que promete esta dupla, que também já explicou que o thriller anda à roda da Casa Branca, lugar de que Bill Clinton tem um conhecimento privilegiado, o que fará deste romance muito provavelmente um dos mais «informados» sobre a matéria. Poder-se-ia pensar que Clinton teve a ideia e que a sugeriu ao amigo escritor (os dois ganhariam com o livro a meias, penso eu), mas a verdade é que a ideia partiu de uma terceira pessoa. Quem? O advogado de ambos… Está-se mesmo a ver o que não vai o senhor doutor ganhar com isso.

Pimenta na língua

Não, não se trata de dizer asneiras… Pelo contrário, de falar muito a sério. Todos sabemos que hoje, no mundo inteiro, o inglês é a língua de comunicação por excelência entre pessoas de diferentes nacionalidades e que, em Portugal, até já há muita gente que a utiliza no meio de palavras da sua língua (sexy, input, top model, online, designer, fitness… ui, são tantas!), alegando que os vocábulos ingleses exprimem melhor o que querem dizer do que os seus correspondentes nacionais. O inglês instalou-se por causa das músicas, dos filmes, das séries – e, talvez, grosso modo, por causa do tamanho e da importância da América nas nossas vidas (foi por isso que a eleição de Trump foi tão falada por cá). Mas o senhor Jean-Claude Juncker, ao discursar para um grupo de diplomatas em Florença, nas vésperas das eleições francesas, sobre as negociações que o Brexit implica, disse não ter quaisquer dúvidas de que a língua inglesa vai perder importância na Europa (mesmo que isso vá acontecer lentamente) – e disse-o em inglês, para Theresa May ouvir lá na terra dela, passando imediatamente ao francês, quiçá para avisar os Gauleses que tivessem tino ao votar e não escolhessem ninguém que se lembrasse de referendar a saída da França da União Europeia. Pois, calculo que Juncker esteja chateado com os ingleses e queira pôr pimenta na língua do Reino Unido, falando tão pouco inglês quanto possível; mas não sei se tem razão ao dizer que a língua inglesa vai perder peso na Europa. Será?... É que as séries, os filmes, as músicas... continuarão, acho eu, a ser maioritariamente em inglês. E isso, creio, faz toda a diferença.

Exercício sobre o futuro

Imagem

Nuno Gomes Garcia, que há uns anos foi finalista do Prémio LeYa com um romance que acompanhava as aventuras de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João (O Dia em que o Sol Se Apagou), vira-se desta feita para um tempo em que a sociedade está desumanizada desde que uma certa Marine terá alcançado o poder, transformando a França numa nação totalitária, mecânica, fria e demasiado padronizada. São as mulheres agora «donas» dos homens, reduzidos à condição de escravos – machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés pelos seus cache-tout (metáfora muito conseguida das burkas). Neste cenário, a cidadã Francine Bonne é aconselhada pelas autoridades a escolher um segundo marido, depois de Pierre ter sido considerado um peso morto; mas desconhece que, ao trazer para casa um macho que foge ao cânone e cuja origem está envolta em mistério, a sua vida e a de Pierre sofrerão uma absoluta transformação, a ponto de o regime se sentir abalado com a possibilidade de um suposto retrocesso civilizacional… Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva – tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflecte de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade actual. Acaba de sair.


 


AF_O Homem Domesticado K_3D.jpg


 


 

Críticos e escritores

Aconteceu em Espanha, mas vale a pena reter em qualquer lado. Um escritor viu um romance seu duramente criticado num jornal. Num texto curto, o crítico aproveitava mesmo assim mais de metade do espaço para dizer que o facto de a crítica ter vindo a perder prestígio fez com que o mercado ganhasse poder e muitos autores, para satisfazerem as exigências comerciais das editoras, entregassem produtos de qualidade duvidosa. Comentava o escritor atingido que a crítica tem, obviamente, razões para se queixar: recebe cada vez menos dinheiro e tem cada vez menos espaço (até porque aumentou o número de blogues literários, alguns mais lidos do que os suplementos dos jornais); mas contestava a afirmação de que, sem a vigilância da crítica, os escritores se tivessem tornado escravos do mercado, como se os críticos estivessem numa espécie de intocável Olimpo e não fizessem parte desse mesmíssimo mercado. É sabido que a imprensa actual tem tantos ou mais constrangimentos do que os escritores e que, especialmente em Espanha, há grandes grupos que detêm editoras e jornais e que, por isso, alguns jornais nunca criticam negativamente livros de autores publicados por chancelas do seu grupo… Além disso, diz o escritor, sempre houve livros bons e maus, independentemente do prestígio da crítica, tal como sempre houve bons e maus críticos, independentemente de os livros terem ou não qualidade. Curiosamente, ele não contesta o que o crítico diz sobre o seu livro (subtil e inteligente), mas apenas a sua arrogância, a sua superioridade moral, ao suspeitar dos escritores sem pensar por um segundo que os críticos estarão sob a mesmíssima suspeita. Porém, o mais interessante é quando, no final, reivindica um espaço de diálogo para críticos e escritores, uma vez que a relação é desigual: os críticos têm poder sobre a recepção e a aceitação da obra de um escritor, enquanto os escritores não o têm sobre o que os críticos escrevem. E conclui: emitir juízos de valor de cima de um pedestal não é útil nem para o leitor nem para a literatura – e talvez essa seja também uma das razões por que a crítica tem vindo a perder prestígio. Muito interessante.


 

Os trabalhos dos escritores

Hoje, nos países que têm um mercado considerável na área do livro (não o nosso, infelizmente, que ainda é uma ervilha), o ofício de escrever já é visto como qualquer outro; em certos territórios, como os EUA, é inclusivamente muito bem pago (os autores que foram destacados na revista Granta de que aqui falei anteontem, por exemplo, devem receber adiantamentos milionários das editoras que os publicam). Nesses lugares, quase todos os autores de ficção vivem exclusivamente do que escrevem (e vivem bem); mas nem sempre foi assim e, no dia 1 de Maio, por ser Dia do Trabalhador, li num jornal espanhol um artigo muito interessante sobre os trabalhos que alguns escritores hoje conceituados tiveram de fazer para sobreviver e pagar a renda de casa quando estavam a começar. Juan Marsé, por exemplo, trabalhou desde muito jovem como ourives (e diz que isso o ajudou a ter atenção ao detalhe nas suas narrativas), enquanto Vargas Llosa foi, entre outras coisas, escritor-fantasma de novelas para uma senhora endinheirada (o que lhe terá servido certamente de inspiração para as radionovelas que aparecem em A Tia Júlia e o Escrevedor). Kafka, como se sabe, vendia seguros; Borges era bibliotecário (mas não me parece que tenha sido por precisar de dinheiro); Jack London foi caçador de baleias no Árctico; Colette trabalhou como cabeleireira e George Orwell saiu da Birmânia (onde era polícia) para ir lavar pratos em Londres. Bolaño vendeu quinquilharia e lâmpadas no México e Charles Bukowski foi carteiro durante muitos anos. Enfim, trabalhos que, pelos vistos, não prejudicaram o ofício de escritor.

Inspirações

Podemos aprender a gostar de poesia com poetas assim-assim, e não com os melhores; e podemos acordar para o desejo de nos tornarmos escritores por termos lido determinado livro que não tem necessariamente de ser uma obra-prima (se calhar, as obras-primas são tão perfeitas que nos inibiriam de experimentar). Li recentemente um artigo engraçado sobre os livros que fizeram com que alguns escritores hoje conhecidos quisessem começar a escrever. E, desde logo, achei curioso que um autor como Jay McInerney (As Mil Luzes de Nova Iorque) tivesse sido inspirado sobretudo pelos poemas de Dylan Thomas (é que nada o faria prever). Rachel Kushner parece mais consistente quando diz que foi Cormac McCarthy quem a inspirou, bem como a mais leve Jodi Picoult, que parece ter sido despertada para a escrita por E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell. Já a sul-africana Nadine Gordimer (Prémio Nobel da Literatura em 1991) admite que foi Evelyn Waugh (o autor de Reviver o Passado em Brideshead) quem a fez querer ser escritora, enquanto Richard Ford aponta Faulkner como o autor que o levou à ficção. Desconheço se todos os escritores sabem o livro ou o autor exacto que os fez, passe a redundância, escritores, mas eu acho que comecei a gostar de escrever poesia por causa de João de Deus.

Os mais talentosos da América

De dez em dez anos, a famosa revista Granta publica um número especial, dedicado aos jovens escritores (jovens quer dizer com menos de 40 anos) mais talentosos dos EUA. São geralmente nomes a que devemos prestar atenção, pois a maioria acaba mesmo por vingar num mercado que é imenso – e grande parte consegue traduções em várias línguas. Há dez anos, por exemplo, estava nessa lista um autor que fez as minhas delícias – Jonathan Safran Foer, de quem publiquei um notável romance intitulado Está Tudo Iluminado na Temas e Debates e que, uns anos mais tarde, pariria Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (hoje na Quetzal), de que se devem lembrar porque deu origem a um filme que, se não me engano, foi aos Óscares. A lista deste ano inclui alguns autores que têm saído na Teorema pela mão da minha colega Carmen Serrano (a quem tiro o chapéu pelo feeling): Ben Lerner (já falei aqui do livro 10:04), Anthony Marra (O Czar do Amor e do Tecno) ou Garth Risk Hallberg (o autor de A Cidade em Chamas, muito comentado em todo o lado). Mas há mais nomes, como os de Ottessa Moshfegh, que integrou a shortlist do Booker Prize de 2016 com o romance Eileen, ou Rachel B. Glaser, Chinelo Okparanta, Sana Krasikov, Claire Vaye Watkins, embora ainda cá não estejam traduzidos. O número da Granta que conta tudo saiu no dia 4 de Maio. Em inglês, claro.

Mentiras

Talvez mentir seja uma coisa a que ninguém escapa, pelo menos durante a infância, para evitar um castigo. Eu, que não gosto nada de mentiras, também já terei pregado algumas petas, sobretudo para fugir a reuniões indesejadas (sociais e profissionais). Quando cheguei à edição, quase «de fraldas», alguém me disse que devia estar preparada para as mentiras que a gente do meio contava sobre o que tinha lido (mas que, afinal, não tinha lido). E houve até quem sugerisse que, quando eu estivesse desconfiada de que determinada pessoa não tinha lido um livro que fingia ter lido, lhe falasse da cena do cão para ver o que dizia, pois raramente há cão – e aí se apanharia facilmente o mentiroso... Pois bem, leio agora no The Guardian que mentir sobre o que (não) se leu é, efectivamente, prática corrente (e não exclusivamente de editores e escritores); e que – calculem – até existe há vários anos um Top dos livros que as pessoas dizem ter lido, mas não leram, actualizado com regularidade. Curiosa, fui espreitar. Pensava que se tratasse de Proust, Joyce, Tolstoi ou mesmo a Bíblia, mas fiquei altamente surpreendida ao perceber que as leituras sobre as quais mais se mente são de obras como O Senhor dos Anéis, O Código Da Vinci ou a série James Bond, de Ian Fleming... Não vou mentir-vos: a verdade é que não li nenhum dos três, mas não tenho qualquer vergonha de o confessar. No Reino Unido, porém, não ter lido os livros que serviram de base a filmes de sucesso deve parecer quase pecado. Ou será, no fundo, que os tempos estão mesmo a mudar e a exigência baixou drasticamente?

A oeste

Amanhã começa mais um festival Livros a Oeste, organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã (é a sexta edição!), cuja programação é desde o início traçada pelo crítico e jornalista João Morales (também responsável pela rubrica Recordar os Esquecidos, de que já aqui falei, na Livraria Almedina, em Lisboa). Além de uma feira do livro, como é costume, haverá actividades ligadas às escolas (concursos literários, conversas com autores, peças de teatro) e outras abertas ao público, que poderá assistir a mesas-redondas, tertúlias, leituras de poesia e apresentações de livros até ao dia 13, destacando-se a sessão em torno da última edição de O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, comemorando o cinquentenário da publicação, com a presença do autor. O festival inclui ainda exposições – uma da ilustradora Tânia Clímaco, outra, feita por alunos de um agrupamento de escolas, de microcontos e microlivros (deve ser micro-engraçada!), outra feita por professores. No último dia à noite, para um fecho em beleza, haverá um concerto de Sérgio Godinho. Cristina Norton, Miguel Real, Rui Zink e Fernando Pinto do Amaral estão entre os escritores convidados. Mais informações no blogue do festival:


 


http://livrosaoestefestival.blogspot.pt/

À conversa

Imagem

Dizem muitos escritores que os computadores foram uma invenção de estalo que lhes facilitou enormemente a vida, pois a mão nem sempre consegue acompanhar a velocidade a que pensam (claro que há quem prefira ainda escrever à mão e só depois passar ao computador, mas é uma minoria). O arquitecto Siza Vieira, porém, afirma que pensa a desenhar e que «há uma ligação entre mão e mente muito estreita». Mesmo depois de receber todos os prémios que podiam orgulhar alguém da sua profissão – o Pritzker, o RIBA, o Mies van der Rohe… – continua a achar que os prémios são menos importantes do que a arquitectura que se deixa – e Siza deixa muita coisa, cá e no estrangeiro, porque, embora tenha querido ser escultor, tornou-se um dos mais famosos arquitectos do mundo. É sobre a sua vida, de resto, que vai falar no próximo dia 7, às 17h00, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, no âmbito das conversas (Quase) Toda Uma Vida, dedicadas a seniores e moderadas por Anabela Mota Ribeiro, que ali acontecem uma vez por mês. Tenho também curiosidade sobre o que lê, pode ser que fale nisso.


 


P.S. Infelizmente, fiz este post antes de ir de férias e a conversa, pelos vistos, não vai acontecer neste dia. Mas, como verão abaixo, o substituto é de peso...


 


IMG_6372.PNG


 

Ver passar comboios

Um dos amigos que ganhei com o casamento é um engenheiro que se especializou em transportes e que sabe absolutamente tudo o que há para saber sobre comboios (alta velocidade, ramais, construção, linhas desactivadas, percursos, acidentes, etc.). É fascinante, de resto, ouvi-lo falar do assunto e aprender tanta coisa que nunca me tinha sequer passado pela cabeça. Os comboios atraem muita gente e há um certo romantismo em redor das longas viagens ferroviárias – o Expresso do Oriente, o Transiberiano – mas também um lado trágico por detrás da construção dos caminhos-de-ferro, sobretudo em territórios com condições climáticas extremas (em alguns lugares, as mortes foram numerosas). Raramente, porém, se fala dos profissionais que dedicam a vida aos comboios – e agora o jornalista Carlos Cipriano, mediante entrevistas e recolha de testemunhos, resolveu fazer, em Guardas de Passagem de Nível, o retrato de quem está na base da pirâmide: heroínas anónimas que, longe de ver apenas passar os comboios, vivem à beira da linha, em lugares tantas vezes inóspitos aonde a tecnologia ainda não chegou, e garantem que «a composição» pode seguir e que os transportes rodoviários e os peões não atravessam a passagem de nível. Para quem goste de comboios, como eu, é para espreitar. O livro é publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Livros saídos da casca

Diz a sabedoria popular que, quando Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. É mais ou menos este o princípio que rege uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Aveiro que consiste em fazer com que os livros vão ter com os leitores, já que eles, se calhar, não se lembrariam de ir à biblioteca buscá-los ou sentar-se por lá a lê-los. O nome do projecto é «Saio da estante e vou ter contigo num instante», frase bem achada e com laivos de musicalidade; e, pelo que sei, implica que três funcionários da biblioteca (entre os quais, a mentora da ideia, Jeanete Conceição) percorram as ruas do Bairro da Beira Mar duas vezes por semana e se aventurem na conquista de novos leitores com um trolley carregadinho de livros, revistas e CD. A acção foi precedida de um inquérito porta a porta, que permitiu saber quem eram os interessados – sobretudo os mais velhos, que já pouco saem – em receber em sua casa estes materiais, mas rapidamente se estendeu a muitos «vizinhos», que não só parecem apreciar o que estes funcionários lhes levam, mas também os dois dedos de conversa que com eles podem trocar. Todas as terças e quintas há distribuição – excepto se chover; mas, agora que o Verão vem aí, não há-de haver muitas «folgas».

O que ando a ler

Interesso-me, naturalmente, pelo que produzem alguns escritores que começaram a publicar já neste século XXI – e não passei, por isso, ao lado do romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas, de que falei aqui no blogue na altura em que saiu e que, mais tarde, ganharia o Prémio Literário José Saramago, entre outros. Mas, sendo esse um livro bastante peculiar, com uma longuíssima lista de personagens que, frequentemente, não chegam a cruzar-se, era muito difícil saber o que o autor faria a seguir, sobretudo em termos de estrutura. O que ando a ler é justamente o seu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso, recentemente publicado pela Quetzal. E é um livro muito diferente (o que são boas notícias), mais articulado, de grande maturidade (literária e não só), que poderia claramente ter sido escrito por alguém mais velho, dada a ampla reflexão sobre uma panóplia de assuntos e a cultura que habita o texto sem nunca se exibir. Partindo da história real do assassínio de um primo do próprio autor aos vinte e um anos – morte violenta –, o romance é, a um tempo, a investigação sobre os factos e as suas razões e uma permanente revisitação da vida familiar e social do narrador, com páginas belíssimas (e também tristíssimas) sobre a infância e figuras inesquecíveis, como, de resto, já se encontravam na obra anterior. A ler, evidentemente.