Ensinar a (gostar de) ler

No tempo em que era professora, infelizmente não havia muitos colegas com os quais pudesse falar de livros. E o que mais me assustava era que, de vez em quando, apareciam na escola promotores de editoras (não necessariamente escolares), abriam o seu estendal na Sala de Professores e muitos dos docentes não só não compravam nada como nem sequer iam lá espreitar (mas perdiam imenso tempo a ver pulseiras, fios e anéis de ouro em bolsas de veludo). Tenho-me perguntado ao longo destes anos como será possível a quem não lê e não gosta de ler fazer aquilo a que hoje se chama «motivar os jovens para a leitura». Mas também não estou certa de que o gosto pela leitura seja transmissível – penso que a descoberta se faz quando um leitor encontra um livro (e nem precisa de ser bom) que, naquele exacto momento, faz um clique e estala qualquer coisa dentro dele; e isso é um milagre a dois, não inclui mais ninguém. Em todo o caso, é sempre preciso que alguém dê livros às crianças, sobretudo às que não têm livros em casa, para esse clique acontecer, e o professor pode, de facto, ser essa pessoa. Por isso, é bom que leia e goste de ler para escolher melhor o que entrega.

Comentários

  1. Quanto ao gosto da leitura não ser transmissível está enganada, minha amiga... são inúmeros os estudos que demonstram que ambientes ricos em experiências de literacia favorecem a aprendizagem da leitura e estão associados a níveis mais elevados de motivação para a leitura. Depois o que escola frequentemente faz para que essa motivação se vá perdendo, isso aí são outros contos

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  2. Imagino que tenhamos visto/ouvido a mesma notícia, porque a minha reacção/dúvida foi exactamente a mesma: como é que se motiva os jovens para a leitura? Ou, já agora, os não tão jovens, os menos jovens, os já não jovens, os que nunca foram jovens? E quem tem a missão de os motivar e não gosta de ler? E não sabe ler? E não sabe escrever? Como é possível motivar quem tem a missão de motivar os outros?

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  3. Eu, de certa forma, tenho essa experiência "al revés". Estupidamente (estupidamente porque sei a resposta de antemão e insisto em espantar-me todos os anos), pergunto aos meus alunos lá na faculdade, não os livros de que gostam, mas se alguma vez leram um livro. Já não me espanta muito, confesso, que a GRANDE maioria nunca o tenha feito. Espanta-me o garbo com que dizem "nunca", como se fosse um troféu não lerem. Dá-me medo, dá-me muito medo.

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  4. Fui professor 18 anos e relembro que a esmagadora maioria dos colegas de Línguas e Literaturas lia apenas os autores dos programas. Dado que os programas de Português foram esvaziados da literatura, o resultado foi que deixaram mesmo de ler. Desconfio, aliás, que os colegas nem gostavam propriamente de literatura mas foram para esses cursos porque sabiam ou gostavam de línguas estrangeiras e refereriam-se sempre aos tempos de faculdade como tempos de enfado em que os «obrigavam» a ler. Enfim! Peço desculpa aos, certamente, muitos professores a que esta caracterização é injusta. Mas eles sabem que é assim.

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  5. ..é possível criar leitores apaixonados onde menos se espera.
    Só quem ama os livros e as leituras pode passar isso a outros - como em tudo na vida, dar com amor/gosto é o príncipio de algo.

    Professor que não lê não sabe transmitir e criar no aluno a curiosidade e o prazer pela leitura.

    Pais ocupados com a «sobrevivência» não conseguem nem pensam em livros - salvo algumas excepções.

    Então cabe aos professores/`escola essa nobre tarefa - fazer dos meninos leitores curiosos.



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    1. O velho jogo de empurra pais/professores que não leva a lado nenhum!

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  6. «O encontro feliz com um livro foi combinado fora de nós.»
    Vergílio Ferreira

    Um Professor pode fazer parte (deve fazer parte) dessa «combinação».

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  7. claro que é trasnmissivel.

    ainda me lembro do clube de leitura do sétimo ano, criado graças a uma professora que gostava de livros e nos transmitia com grande qualidade esse amor...

    (foi uma raridade, a única em tantos anos de escola...)

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  8. Não sou professora de Português mas, como os alunos me vêem habitualmente com livros e lhes falo deles, pedem-me ajuda e conselhos sobre leituras muitas vezes. Empresto-lhes os meus livros, levaram há pouco A Casa e a Escuridão. Contudo tenho a certeza que isto só acontece porque não sou a professora de Português deles. Não há obrigações nem imposições, talvez resulte por isso. É um fenómeno curioso e muito gratificante.

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  9. No meu caso, muito devo à Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian, que visitava mensalmente a minha aldeia. E a uma professora da Escola Comercial e Industrial de Leiria, Margarida de Carvalho, então directora da biblioteca, que orientou a minha paixão já existente pelos livros. Foi graças a essa professora, por exemplo, que me tornei leitor de ficção científica.

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  10. Sempre fui uma leitora voraz, desde os tempos em que passava os olhos pelas linhas de cada página, fingindo saber ler. Confesso, no entanto, que, no décimo ano, a obrigatoriedade de leitura de "Eurico, O Presbítero" quase aniquilou a motivação desta jovem para a leitura.

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  11. É isso mesmo Rosário!
    O meu filho do meio (13 anos) não gostava de ler por muitos livros que houvesse cá em casa e por muita insistência que houvesse da minha parte e da dos prof., mas este verão o tal clic deu-se, para alegria e surpresa minha!
    Fica aqui a sugestão: Robert Muchamore.
    (http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.com/2010/09/obrigado-robert.html)

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  12. Sem ir ao "lado" (como agora é moda dizer-se) das receitas mas ao "lado" do diagnóstico, deixem-me só acrescentar que o desinteresse dos professores pelos livros não é nem maior nem menor do que o desinteresse dos restantes membros da sociedade (dos trolhas aos executivos) pelos livros e que, felizmente e infelizmente (o Plano Nacional de Leitura arrepia-me pelas escolhas preconceituosas que faz), os professores não estão obrigados a "ensinar" as crianças a ler. Preocupa-me muito mais o panorama de muitas cassas, das mais pobres às mais ricas: a completa ausência de livros que se lêem por entretenimento. E aqui não há nada a fazer!

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  13. penso que o gosto pela leitura talvez surja de uma conjugação de factores: uma tendência e curiosidade latente desde cedo nas pessoas e a possibilidade do contacto com livros (em casa, em bibliotecas, na escola) ou de situações determinantes como alguns professores e projectos mais motivadores, por exemplo; mas não basta que pais e professores sejam motivadores, gostem de ler e coloquem livros à disposição, é necessário que as crianças ou adolescentes sintam intimamente uma predisposição para acolher essa motivação, esse interesse - e isso pode nunca acontecer, acontecer, ou acontecer mais tarde.
    a literatura não saiu dos programas de Português, deles contunua a constar a interpretação de textos literários de diversos autores, a leitura de obras integrais em cada ano lectivo, o estudo de alguns poetas e dramaturgos.

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  14. Os meus colegas de escola não gostavam muito de ler. Habituei-me a falar de livros, sobretudo com homens mais velhos que me abriam as portas a novos escritores. Só uma mulher professora de portugues no 6 ano é que me fez sentir em termos de mulheres os livros e agora este blog.
    Um homem que me ensine coisas sobre as estrelas (e planetas) ou me faça encontrar outros autores (ou relembrar) que desconheço ganha mais no meu agrado do que se me elogiar. Será por isso que ao contrario da maioria ds mulheres eles fixam bem o autor, a editora, o titulo ? Eu não.

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  15. Acredito até hoje que o meu gosto pela leitura resulta do facto de ter ouvido ler na escola e de ter tido a sorte de haver uma biblioteca da Gulbenkian a dois minutos da minha casa.
    Actualmente, como professora, procuro, com alguma regularidade proporcionar aos alunos espaços de leitura individual (silenciosa) e momentos em que os "obrigo" a ouvir-me ler. Penso que em alguns casos isso tem feito diferença.

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  16. Porque me parece muito a propósito gostaria de referir um blogue, do qual falei recentemente, criado no âmbito de uma biblioteca de escola que desenvolve um trabalho muito interessante http :/ www.bibliotecaesmiraflores.blogspot.com /
    Certamente haverá outros exemplos semelhantes. Não sei se o gosto pela leitura é transmissível. Mas, neste caso como noutros, a atitude de abertura perante a leitura e a escrita vai ficando lá.

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  17. Cresci numa casa onde não se liam livros. Ninguém me ensinou a gostar de ler, e no entanto gosto, e muito. Desde que me lembro. Tenho uma filha com 13 meses e desde que sinto que ela vê com olhos de ver que lhe mostro livros, que ela brinca com eles e até já finge que lê. Não lhe quero impôr a leitura, mas quero que perceba que ela exista. Li no blog da Laurinda Alves, a propósito da morte do seu tio mais velho, uma passagem que me marcou imenso e que deixo aqui: "Aprendi com este meu tio várias coisas, algumas delas muito práticas e concretas. Deixo aqui duas, por serem porventura as mais partilháveis. O meu tio ensinou os filhos a serem poupados e a gerir bem o dinheiro mas abriu uma excepção: podiam comprar todos os livros que quisessem, desde que os lessem. Esta atitude multiplicou os livros nas prateleiras de casa, mas também multiplicou neles o interesse pela leitura. Por causa deste meu tio e do exemplo feliz dos meus primos eu fiz o mesmo com o meu filho, com resultados igualmente estimulantes". Lindo, não é?

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