Fábricas de livros
Normalmente, quando um autor encaminha o seu livro para uma editora, espera um sim, mas não estranha demasiado quando vem um não e até agradece, se for bem-educado, quando o editor lhe escreve a explicar porque sim e porque não. Às vezes, também recebe um talvez e, depois da conversa com o editor, tenta transformar esse talvez num sim que quer que chegue mais tarde. Há, porém, editoras que substituem a resposta (seja ela qual for) por uma mera tabela de preços. O pai de um amigo meu, a quem a reforma deu para escrever versos (não necessariamente bons), tendo inquirido numa livraria da vizinhança o que devia fazer para ver os seus escritos publicados, acabou a enviá-los para determinada editora que lhe aconselharam. E a resposta – que, quando é séria, frequentemente tarda bastante – não se fez esperar: x euros por cada caderno de 16 páginas e tem o seu livro publicado, além de que lhe fazemos um lançamento numa biblioteca da sua cidade! O senhor, orgulhoso da sua produção literária e ferido com o que considerou uma desfaçatez, não aceitou; mas acabo de conhecer uma rapariga que, noutra editora, concordou em pagar o que lhe pediam para ver o seu livro editado e nunca sequer se encontrou com uma pessoa de carne e osso: mandaram-lhe as provas do livro, puseram-lhe uma capa que ela nem viu e, em mês e meio, tinha o livro à venda... em quase nenhuma livraria, pois claro. Não sei se podemos chamar desonestas às pessoas que assim trabalham – não são, afinal, muito diferentes de uma simples gráfica e não diríamos essa palavra feia se fosse a gráfica a imprimir os versos do pai do meu amigo ou o romance da rapariga; e, porém, há qualquer coisa de feio neste negócio que, se fosse mais sério, teria um crivo e se recusaria a publicar o que não merece estar por aí nas estantes das livrarias (mesmo que sejam poucas). Bem sei que hoje até as editoras ditas sérias põem cá fora muitos livros que nunca deviam ver a luz, mas, pelo menos, arcam com os seus custos...
nem sei o que dizer, Rosário.
ResponderEliminarhá alguma inocência nas suas palavras (ou talvez não).
Lobo Antunes há pouco tempo chamou os editores (salvo raras excepções) pelo seu nome (tal como os leitores, também não os tem em grande conta...).
isto é um negócio (cada vez mais).
a qualidade deixou de ser o mais importante porque os editores sabem que uma boa percentagem das pessoas que compram livros nem sequer os abrem, vão logo directos para a estante (mesmo nós os viciados, sabemos que não iremos ler uma décima parte dos livros que compramos...).
um bom ano de 2011 para a Rosário, com boas descobertas literárias.
É um pouco como pagar para trabalhar.
ResponderEliminarTenho o hábito de assinar com o meu nome, tudo o que torno público... chamem-me o que quiserem mas nunca hipócrita ou invertebrado.
ResponderEliminarAssumo e corro os riscos... mas foi assim que
fui ensinado a fazer, a nunca esconder a mão mesmo que atire a pedra.
Esta reflexão da Drª Mª do Rosàrio, dá-me que pensar e muito a sério... nem ela sabe o quanto vem ao encontro daquilo que venho matutando... pois a minha experiência pessoal é o que me diz.
Sinto que as grandes editoras estão muito viradas para os autores com nome ou melhor, mediatizados, seja porque razão fôr e porque
estes vendem.
Creio que é lógico, pois é um negócio e o seu objectivo é esse mesmo: vender!
Por isso, a um desconhecido ou estreante, sem conhecimentos, sei eu por experiência que se torna impossível publicar... é a verdade.
Mas, há quem sinta que deve ou tem de publicar,
e então há essas tais editoras que garantem a publicação, segundo elas dividindo o custo da primeira edição... os valores são semelhantes na
maior parte delas, sai mais barato que numa gráfica e tem-se a aparente vantagem de haver lançamento e uma distribuição...
Mas tudo isto constitui uma verdadeira epopeia...
e só os que têm dinheiro ou fôlego resistem... ou
os acreditam muito.
Creio que sou destes últimos!
Isto é potenciado quer pela falta de resposta quer pela recusa das editoras, que podiam até dizer pura e simplesmente:
"Vá aprender a escrever!"
"O que você escreveu não tem qualquer interesse!"
"Publicar isto?Ah!ah!ah!"
"Sentimos muito mas o seu projecto não nos
interessa por isto ou aquilo (falta de qualidade por exemplo).
Etc.
Era tão simples... mas faz parte, julgo eu, da forma actual de agir, como em tudo, da falta de ética ou de profissionalismo, do desinteresse e do egoísmo que campeiam na sociedade e que ignora as pessoas pura e simplesmente.
Enfim, penso eu!
Isto porque lendo muita coisa que as editoras
publicam, de nomes mediáticos e sonantes da nossa presumida elite social ou dos meios de comunicação, que levam na capa o rótulo de:
"175 mil exemplares vendidos"... nos ficamos a
perguntar como é possível porque às vezes até
parece que não há tanta gente em Portugal?
Depois, lê-se e óh! Fica a sensação de que fazemos muito melhor... e porque não hei-de eu publicar também? Aí esbarramos na tal parede do anonimato e na falta de resposta ou na recusa... mas fica sempre a dúvida! E, lá está o
espaço para a tal edição paga ou partilhada...
De facto destas edições sui generis e a martelo,
ele há cada uma... aliás que nem ficam assim tanto atrás de outras publicadas por nomes que
são rostos da televisão e vendem só por isso...
Fica sempre a pergunta... ele de facto parece haver uma espécie de prostituição na edição de
livros, uma da parte das grandes editoras e outra
da parte dos, "chulos?", que de imediato surgem nesse espaço criado pela prostituição...
Os melhores cumprimentos aos participantes
deste espaço e me perdoem a franqueza, mas repito que serei tudo menos hipócrita.
Há espaço para que a vaidade dite as regras, logo, qual é a dúvida? Se fizer um cortinado de renda sou uma artista do crochet, se fizer um vestido sou uma estilista, se escrever um livro sou uma escritora. Se o publicar sou famosa, ainda que seja só no reflexo do meu espelho. Houve quem descobrisse e rendibilizasse o filão das pessoas que não se importam com o reconhecimento de facto do que escrevem e que não hesitam em publicar sob qualquer forma, pagando, e que consideram a sua opinião sob si próprios o suficiente nicho de mercado para avançarem. Habemus librum!
ResponderEliminarParece-me que a maioria das pessoas que publica por essas "editoras", fá-lo por puro desconhecimento. Não se informam e estão convencidas que para serem editadas, têm de pagar (o grande público está convencido disso).
ResponderEliminarMuitas dessas pessoas podem não ter talento, é verdade .... mas também há aquelas que o têm, mas que desconhecendo a realidade, ou simplesmente fartas de esperar por uma respostas das editoras "sérias", se deixam levar. Claro que também há os que pagam porque só querem ter o livro na estante deles e oferecer a mais uns familiares e amigos, mais do que propriamente para estarem nas livrarias.
O meu problema é que estas "empresas" se chamem de editoras, quando na verdade não passam de gráficas. Não fazem trabalho editorial e a distribuição é uma vergonha, mas enfim ...
Pessoalmente, acho que nunca o faria (prefiro ficar com os manuscritos na gaveta, caso sejam recusados), mas entendo a razão porque algumas pessoas o fazem, mais pelo desconhecimento que por outra razão.
E tenho de concordar com o António Luiz Pacheco, quando fala no "desrespeito" das editoras para com os que a eles submetem obras originais. Afinal, um simples «Não estamos interessado» seria melhor que o "nada" que grande parte delas oferecem a quem se tenta aventurar na publicação. Com este tipo de "recepção", não admira que tanta gente ache normal pagar para ser publicado. E é triste!
Não é escritor só quem publica livros, há muita gente que o é e nunca publicou nenhum. Porque é verdade: é quase impossível fazê-lo sem conhecimentos (ou sem ser jornalista, ou sem ter papás famosos).
ResponderEliminarPor outro lado, há pessoas que não são nem nunca serão escritores e publicam livros.
(Claro que tudo isto passa pela definição de escritor)...
Uma regra de ouro a todos os principiantes: não publicar numa editora que exija custos de publicação! A não ser que se escreveu, por exemplo, um livro de memórias para familiares e amigos.
"puseram-lhe uma capa que ela nem viu" - isto também acontece nas editoras "sérias". Já me aconteceu na Asa!!! Via a capa no dia do lançamento!!!
Corrijo a última frase: Vi a capa no dia do lançamento!!!
EliminarA incapacidade/incompetência da grande maioria das editoras em responder com seriedade a quem lhes envia originais e o relativo baixo custo da impressão digital convidam quem quer publicar um livro a recorrer a essas "fábricas de livros". É especialmente mau quando a matéria de facto não tem qualidade. E é especialmente triste quando o autor que, pagando, se publica tem alguma escrita de qualidade e quando se repara que as editoras "sérias" publicam muitas porcarias que só saem porque o autor, real ou oficial, é uma figura que aparece na televisão e só por isso é quem valor de mercado.
ResponderEliminar"Declaração de interesses": nunca recorri a essas "fábricas de livros".
Talvez seja melhor nem falar dos concursos literários...
ResponderEliminarDigamos que certos sonhos têm a sua descida aos infernos; num país que prima pela desonestidade, este mercado não seria virgem.
Quantos foram os artistas de grande talento que morreram no anonimato? Artistas, de um modo geral. Grandes músicos que tocam nos becos escusos das cidades e cujos nomes sequer se conhecem. Escultores, escritores, pintores ... À laia de exemplo: quanto vale hoje uma tela de Van Gogh e quanto valia à época de sua morte?
ResponderEliminarQuantos são os outros, pseudo-artistas, que vendem suas obras como se vendessem água no deserto, e que, de tanta publicidade, conhecemos seus nomes, suas fisionomias, conhecemos tudo menos o seu talento?
Nem sempre o sucesso é sinónimo de qualidade e talento e v.v.
Quem produz arte quer mostrá-la. O grande público dir-lhe-á se valerá a pena continuar, ou se há que se parar e ir riscando as paredes ...
Penso eu, ainda que esteja errada, que, no caso em tela, as editoras querem fazer o seu negócio. E fazem. Não são (apenas) elas que têm de dizer se a obra é merecedora de publicação, ou não. Se o autor quer, publique-se! Pagando, obviamente.
Senhora Maria do Rosário, desejo-lhe, para 2011, muitas e boas horas extraordinárias. Tendo-as, teremos nós também, seus leitores, boas leituras. Bom Ano Novo!
guidab
Como já se disse aqui mas parece-me não ser demais acentuar era bom que as editoras ditas "sérias" o fossem do princípio ao fim ... ou seja, ainda calculando que recebam uma grande quantidade de "impublicáveis", que dissessem ao candidato um pequeno "NÃO, OBRIGADO, não estamos interessados " ... Um e-mail custa assim tanto??? É assustadora a falta de profissionalismo que grassa ... Assim, é difícil não acabar numa edição "paga" ...
ResponderEliminar... porque sempre é melhor receber uma tabela de preços como resposta do que resposta nenhuma...
EliminarHaverá diferença entre uma tal edição "paga" e uma edição de autor ?
Referiu um aspecto interessante, caro Anónimo. Há escritores que, uma vez famosos, se vangloriam de ter publicado edições de autor no início da sua carreira. Quiçá através de uma editora que enviou uma tabela de preços como resposta.
EliminarPois é, isto tem que se lhe diga!
Gostava de dizer duas ou três palavras sobre o assunto:
ResponderEliminarA humildade é uma condição prévia na abordagem à edição. Depois:
1) É possível ser-se escritor e suficientemente crítico com o próprio trabalho para não publicar. Principalmente nos mais jovens, saber esperar, observar, ler muito, é uma virtude, não um defeito. O tempo também integra a literatura.
2) Quando um escritor considera que tem qualidade para ser publicado, há sempre uma coisa que lhe falta: o olhar de um bom profissional (o editor) que o ajude a fazer do bom muito bom ou excelente. Isso é respeito por si próprio e pelo leitor.
3) Hoje custa-me, sinceramente, a ter respeito pelo escritor que, no início de carreira, diz que escreve para si e para nenhum leitor. O livro existe para ser lido. Na altura ou mais tarde, se se sai é colocando o leitor na equação.
4) As virtudes da edição tradicional esmagam as do print-on-demand ", em termos de qualidade. A longo prazo, o print-on-demand " vai arrasar a leitura, porque o leitor vai sentir que deixou de haver um critério objectivo. Um (bom) escritor não devia profissionalizar-se no print-on-demand ". Experimentar, sim, mas sempre com um olho crítico.
5) Falta tudo a fazer na devolução do protagonismo aos livros. É possível vender um bom livro, é possível fazer com que seja lido. É possível vender um livro como um filme. Quando pensamos que a cultura não venda, veja-se a realidade de uma rede social como o facebook . 90% das entradas são culturais. É por isso que as pessoas se interessam. Principalmente depois de terem passado o dia a levar com lixo noticioso e lúdico.
Muito mais haveria a dizer. Cumprimentos, PG-M
Errata:
Eliminarem 1) "saber esperar, observar, ler muito, SÃO VIRTUDES, NÃO DEFEITOS"
5) Quando pensamos que a cultura não vendE..
- a estatística é minha (90%).:) PG-M
Olá, estou a estudar Português e eu aconteceram em seu blog que bom!
ResponderEliminarO facto de ser dificil publicar uma primeira obra deveria levar a que os candidatos a escritor/a produzissem algo que fosse impossível de recusar pelo editor. Como em tudo o resto, é preciso ser-se excelente para se ser aceite num negócio (reparem na palavra) competitivo.
ResponderEliminarÉ aconselhável conhecer-se o mercado e estudá-lo. Apresenta-se o produto a quem o pode produzir e comercializar e tem de se saber quais os argumentos que fazem da obra um objecto digno de alguém que não se conhece apostar o seu dinheiro, pois é disso que se trata.
Passei dois anos a escrever um romance. Estudei o mercado e o público alvo. Consegui que fosse aceite à primeira e por uma editora importante.
Deu trabalho? Muito. Muitissimo. Mas veleu a pena não ser ingénuo.
E o título é?
EliminarSai na fornada de Abril/Maio. Nessa altura indicarei qual é.
EliminarCaro JML
ResponderEliminarEstudou o "Manual do Gestor de Produto"... e
ainda bem para si. Mas, faz-me lembrar o que
ouvi uma vez dizer, não ao Senhor de La Palisse,
mas a um presumido atirador veterano que dava o seguinte conselho a um iniciado:
"A táctica é acertar no alvo!"
Nem um treinador de futebol conseguiria dizer melhor...
Ah!ah!ah!
Um Bom Ano e desejo-lhe sincero sucesso na
venda da obra que publicou.
Caro Sr.Pacheco,
Eliminarnão li nada sobre isso. Trabalho é há mais de dez anos em livrarias a limitei-me a aprender com os leitores e com os romances que vão saindo.
Por muito que custe a resposta é tão simples como a de um treinador de futebol. É isso que é lixado para os românticos literários nacionais: é mesmo preciso trabalhar a sério (e em diversos aspectos do aspecto editorial e comercial do livro) que é o que talvez faça mais falta a muita gente.
1 bom ano para si e que tenha mais sorte (ou trabalhe melhor)