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A mostrar mensagens de janeiro, 2015

Os esquecidos

Já aqui vos falei do blogue da minha amiga Aldina Duarte, em que uma vez por semana se faz homenagem a quem não teve o reconhecimento que merecia pelo seu génio e talento. É sempre bom lembrar quem foi esquecido – e fiquei muito contente quando recebi há dias um press-release de João Morales, um jornalista que organiza festivais e encontros de escritores e teve agora uma belíssima ideia: a de, uma vez por mês, juntar dois convidados (escritores, pelo menos na primeira sessão) na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa (e que bonita livraria é), para recordar livros esquecidos. Por ano, são tantos os livros publicados que muitos passam injustamente despercebidos e, além disso, os mais antigos são difíceis de encontrar à venda e podem cair facilmente no esquecimento. Esta é, pois, uma boa maneira de ressuscitar uns quantos. Assim, amanhã, dia 31 de Janeiro, pelas 18h00, Bruno Vieira Amaral e Rui Cardoso Martins vão estar a conversar com João Morales sobre livros esquecidos. As próximas sessões ocorrerão no último sábado de cada mês, excepto em Fevereiro (será no penúltimo – e já me ponho aqui a pensar que João Morales não quer é faltar às Correntes d’Escritas que, neste ano, são mesmo no final de Fevereiro).

Matemática e poesia

Aqui há uns tempos escrevi (e escarneci) sobre uma «maluqueira» que alguém tinha inventado – um programa informático que permitia baralhar palavras e fazer de cada utilizador um poeta. Na altura, pareceu-me que era mesmo de loucos pretender que uma máquina fizesse poesia se lhe déssemos palavras para ela (des)arrumar, mas talvez tenha subestimado a relação que existe entre a composição numérica e a composição de palavras (talvez, no nosso cérebro, as combinações sejam todas uma única coisa, pelo menos). Digo isto porque sou surpreendida com uma proposta interessante do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no próximo dia 31 às 16h00: no âmbito do centenário do nascimento do escritor Joaquim Namorado e de uma exposição de obras suas (poético-matemáticas?) de pintura, o museu convida para uma conversa-palestra sobre Matemática e Poesia Eugénio Lisboa e Natália Bebiano: um crítico de literatura e ensaísta (mas com formação em engenharia, actividade que desenvolveu quase toda a vida), a outra doutorada em Matemática e professora catedrática em Coimbra (mas, ao que leio, especialista em matemática recreativa e uma referência no campo da literatura infanto-juvenil ). O assunto espicaça a curiosidade, naturalmente, e fico tentada a ir ouvir que afinidades têm duas coisas à primeira vista tão diferentes como a poesia e a matemática… Vamos ver, claro, se consigo ir até Vila Franca...

Falta de jeito

Eu bem sei que hoje não é dia de palavrinhas (nem de expressões em desuso), mas reparo nos originais que todos os dias inundam a minha secretária que a maior parte dos candidatos a escritores (e alguns escritores também) não sabem escrever a palavra «aselha», colocando um Z no lugar do S. Acho que eu própria, em miúda, pensava que o Z é que ficava lá bem quando chamava aselha a alguém, mas devem ter-me ensinado a ortografia correcta entretanto e não voltei a enganar-me. Uma aselha é, como sabem, uma pequena asa, uma pega, uma presilha; e vem seguramente da palavra «asa» que, segundo leio algures num blogue, já se escreveu em tempos «aza» (daí «azelha», que apareceu assim escrito em Camilo, por exemplo). Mas que ligação tem uma pessoa desajeitada a uma pega, não me dizem? Pois bem, nesse mesmo blogue alguém explica que em tempos que já lá vão, no Norte do País, se chamava aselha a um grande contentor de barro sem asas (coisa estranha nomear pela ausência, mas talvez seja verdade) e que de tal forma dava pouco jeito transportá-lo que passou a dar-se esse nome a qualquer um que se mostrasse francamente desajeitado ou, por outras palavras, a uma pessoa que não tinha por onde se pegasse. Justificação científica ou não, a história tem pés (de barro ou não). Mas é hoje uma completa aselhice pôr Z em «aselha».

Recusas

A Academia Nobel, cinquenta anos passados das distinções de 1964, abre ao público os arquivos desse ano: actas das reuniões do júri, listas dos nomes propostos desde o início, etc. Desconheço se o faz sempre e em todas as categorias, mas na de Literatura tinha todo o sentido disponibilizar os documentos agora por uma simples razão: é que em 1964 Sartre recusou o Nobel (coisa rara e nunca vista) e, também por isso, a curiosidade do público era maior sobre a papelada referente ao galardão. Efectivamente, descobre-se que o existencialista francês tentou evitar o vexame da Academia Sueca, avisando-a por carta (concisa e delicada), uma semana antes da decisão sobre o laureado, de qual seria a sua posição se lhe atribuíssem o prémio. Ao que parece (há sempre fugas de informação), chegou de algum modo aos ouvidos de Jean-Paul Sartre que o seu nome estava na mesa e ele, com pinças para que não o vissem como presunçoso, correu a dizer que não podia nem queria aceitar a distinção honorífica com que eventualmente estavam a pensar brindá-lo por crer que isso acabaria por implicar a Academia nas posições políticas que assumia e que eram dele, e só dele. Havia já alguns anos que um ou outro jurado avançara o seu nome, e em 1964, pelos vistos, era o mais votado entre 76 outros escritores, como os poetas Auden e Celan, os dramaturgos Ionesco e Beckett ou os ficcionistas Borges e Mishima (tudo grandes figuras literárias). Ou a carta não chegou a tempo, ou a Academia fez orelhas moucas. Sartre foi o escolhido e disse que não, o que requer muita coragem, sobretudo quando está em causa uma quantia elevadíssima. E, não tendo conseguido evitar a fatalidade, depois da recusa as suas declarações já não foram tão simpáticas como a sua carta para o comité Nobel, criticando-o pela não atribuição do prémio a escritores como Neruda, Aragon ou Sholokhov e acusando-o de só distinguir «escritores do Ocidente» e «rebeldes de Leste»…

Utopia

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A Europa está de rastos, já o sabemos – e as ameaças que vêm de fora são muitas. Olhar para a Europa hoje e imaginar o que pode acontecer-lhe neste século é um exercício interessante, e foi exactamente isso que fez Miguel Real no seu mais recente romance, O Último Europeu, que acaba de sair para os escaparates. A obra tem como narrador um Reitor da Nova Europa, um enclave dentro de uma Europa que, com o esgotamento dos recursos, as guerras e a fome, se tornou um gigantesco baldio no qual imperam clãs violentos. Nesse pequeno reduto de calma, protegido do resto do mundo por um cordão de segurança, um grupo de sábios conseguiu, porém, construir uma sociedade perfeita, mesmo que algo fria, na qual os habitantes podem suprir todas as necessidades, desejar o desejável e viver em equilíbrio. As coisas correram maravilhosamente até ao momento da narração, o ano de 2284, mas agora a Grande Ásia, lutando com problemas sérios de demografia, reclama o espaço da Europa para arrumar os seus habitantes. E, então, aquilo que era um paraíso comandado por uma tecnologia de ponta, deixa de o ser. O Reitor, um dos poucos que ainda conhecem a história da velhinha Europa, encabeçará um grupo de pessoas em fuga para a replicação da sua utopia num outro território. Consegui-lo-á? Esta aventura, que só aparentemente é ficção científica, constitui uma reflexão extremamente actual que devemos acompanhar até para entendermos o que podemos fazer já pelo nosso futuro.


 


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Regresso

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Já aqui escrevi sobre o romance que venceu a mais recente edição do Prémio LeYa, O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral. É um texto surpreendentemente maduro para um escritor que conta apenas 24 anos (o júri ficou profundamente admirado porque acreditava que o autor tinha a idade do protagonista, 40 e picos) e cujo tema central é a relação, nem sempre fácil, por vezes bastante atribulada, de dois irmãos – o narrador e Miguel, este último portador de Síndrome de Down. A narrativa alterna presente e passado – uma viagem à aldeia do Interior onde os pais de ambos compraram em tempos uma casa e eles se refugiam agora por uns dias, procurando a paz necessária após um momento dramático; e as memórias de infância, momentos-chave que os dois viveram cumplicemente enquanto cresciam. Afonso Reis Cabral, embora natural de Lisboa, viveu no Porto até entrar na universidade. É por isso uma espécie de regresso a casa a sessão que faremos amanhã às 17h30 nas instalações da Cooperativa Árvore, com apresentação de Pedro Mexia. Se estiver no Porto ou lá perto, não falte.


 


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Em desuso

A minha sogra – que, desde que ficou viúva, viveu sozinha no Porto muitos anos, e morreu aos noventa –, sempre que o Manel lhe telefonava e iniciava a conversa com um «Tudo bem?», respondia, com alguma amargura, que o «tudo» era só ela... Na verdade, esta forma de cumprimentar é bastante recente em Portugal e foi claramente roubada às telenovelas brasileiras para nunca mais lhes ser devolvida. Antes disso, as pessoas perguntavam, por exemplo, «Como está?» ou «Como vai?» (um pouco como o How are you? inglês ou o mais engraçado Ça va? francês que, literalmente, quer dizer «Isso vai?» e que creio equivalente ao Qué tal? espanhol). Os italianos, de resto, ainda usam correntemente Come va?, embora a frase traduzida pudesse estranhamente suscitar também uma resposta do tipo: «De comboio.» Em português, porém, todas essas maneiras de perguntar pelo estado do outro, físico ou mental, caíram em desuso com a apropriação do coloquialismo brasileiro – e praticamente morta e enterrada está a fórmula «Como passou» (que era por vezes acrescentada ou substituída por um «Passou bem?»), a que o meu pai, que era um brincalhão, respondia: «Fui cabendo.» Não gosto de dizer «Tudo bem?» a pessoas que conheço mal, a pessoas a quem guardo respeito, a pessoas mais velhas, a pessoas com quem faço alguma cerimónia (e continuo a usar «Como está?» em todos esses casos). Mas creio que a minha geração será a última a conhecer estas expressões e que, no futuro, este «Tudo bem?» acabará por se tornar simplesmente um «Tá-se bem?» ou coisa do género.

Esquerda, direita, marche!

Um dos problemas da política portuguesa assim que um governo toma posse é fazer tábua rasa de tudo o que foi feito pelo governo imediatamente anterior (do partido adversário, bem entendido), mesmo quando muitas dessas coisas eram francamente positivas. Na educação, então, nem é bom falar – e quantos alunos sofreram reformas sucessivas ao longo da sua vida escolar por causa disso… Fiquei, porém, bastante surpreendida quando, recentemente, o actual Secretário de Estado da Cultura nomeou para a direcção artística do Teatro Nacional D. Maria II Tiago Rodrigues: é que este actor e encenador é claramente uma pessoa de esquerda e foi até um dos principais oradores num encontro de apoio de gente da Cultura a António Costa quando este avançou contra Seguro. A seguir, nomeou como administrador do mesmo teatro Miguel Honrado, que até agora dirigia a EGEAC, empresa municipal encarregada da animação cultural na cidade de Lisboa e igualmente apoiante de Costa. Algum tempo mais tarde, Barreto Xavier nomeou Margarida Veiga para a Direcção-Geral das Artes – e lembro-me de Margarida Veiga estar no CCB na altura em que Guterres era Primeiro-Ministro, por isso calculo que seja próxima do PS. Não sei se o Secretário de Estado está a querer que o despeçam, se já está a preparar o futuro (diz-se que o PS tem tudo para ganhar as próximas eleições), se simplesmente não há na Direita ninguém que se aproveite para esses cargos; se, por último, decidiu fazer tábua rasa da tradição política portuguesa dos últimos anos e escolheu simplesmente quem lhe pareceu melhor.

Língua franca

Toda a vida pensei que a nossa língua não tinha grande peso mundial por não ter um número de falantes suficiente e, sobretudo, por a maioria dos falantes do português estarem em países economicamente desinteressantes (pelo menos, até há pouco tempo, porque o Brasil já não é o que era). Como muita gente, achei que, se fosse jovem e tivesse tempo, ainda me poria a aprender chinês, tendo em conta o crescimento avassalador da China na última década e o poder que, se as coisas assim continuarem, eventualmente exercerá sobre o resto do mundo. Mas parece que a influência das línguas a nível global nada tem que ver, afinal, com a riqueza das nações ou a quantidade de pessoas que a falam. A revista Proceedings of the National Academy of Sciences publicou recentemente um estudo sobre a «língua do futuro» (entre os autores, figura um português, Bruno Gonçalves) que atesta que o que torna uma língua «franca» é a sua capacidade de mediar a comunicação entre línguas muito distantes entre si; ou seja, mapeando as redes que ligam as várias línguas mundiais (Twitter, Wikipédia e outras), os cientistas concluem agora que, mais do que o peso demográfico ou económico, o sucesso de uma língua deve-se à força dessas ligações. Assim, o chinês é falado por muitos, mas em regiões isoladas e, sendo igualmente de aprendizagem dificílima, não interage com os restantes idiomas e é considerado periférico. Já o português aparece na zona intermédia, ao lado de línguas como o sueco, do neerlandês e do dinamarquês, apesar de todas estas línguas serem muito menos faladas do que o chinês ou o árabe. O inglês lidera, claro, porque a maioria dos bilingues do mundo tem o inglês como língua materna ou segunda língua... Além de que, para se fazer entender em qualquer lado e qualquer situação, a maioria das pessoas usa o inglês. Parece que no Facebook, por exemplo, os portugueses escrevem imensas vezes em inglês nos seus murais.

Eça no prato

Todos os que leram Eça sabem que a comida tem uma grande importância em muitos dos seus livros – n’Os Maias, por exemplo, é descrito em pormenor um jantar em casa da Condessa de Gouvarinho, e alguns dos padres d’O Crime do Padre Amaro são mesmo uns lambões (lembro-me ainda dos arrotos de um deles no confessionário). Pois está de novo no mercado o livro Comer e Beber com Eça de Queirós, cujas receitas são assinadas pela grande Maria de Lourdes Modesto (que as elaborou tendo em atenção os vários pratos referidos na obra do romancista) e é prefaciado pela estudiosa Beatriz Berrini, que explica que, em Eça, a comida marca também, de forma decisiva, as diferenças de classe pela oposição da escassez à abundância (e como comem alguns, meu Deus!). Os 50 pratos incluem coisas tão populares como ovos com chouriço, cabidela ou bacalhau com grão (numa clara homenagem à cozinha tradicional portuguesa, que é a preferida das personagens aristocráticas queirosianas), mas também coisas bastante mais sofisticadas, como um consommé frio com trufas (para falar do exotismo de alguma gastronomia internacional, provavelmente saboreada pelo romancista em Paris) ou tão risíveis como, riam-se, os «folhados do cocó» E porque não experimentar também a comidinha de Eça, se ele nunca nos desiludiu noutros campos?


 


P.S. Já depois de ter escrito este post, encontro um artigo no Público em que a autora das receitas diz que nem sequer teve conhecimento desta reedição e pede que tirem o livro do mercado (a editora, por seu turno, diz que os direitos são da Fundação Eça de Queirós, mas que Maria de Lourdes Modesto estava ao corrente).

Ler sem pagar

Apesar de um bilhete para um concerto custar às vezes mais de 50 Euros – e o prazer e usufruto só durar umas duas horitas –, cada vez ouço mais gente dizer que os livros estão muito caros. Talvez não sejam caros, mas seja muito dinheiro, em todo o caso, para quem os quer comprar. O mercado português é pequeno (poucos habitantes e poucos leitores) e por isso as tiragens têm de ser pequenas, o que, na verdade, faz disparar o custo unitário dos livros, sobretudo por causa do montante da impressão. Com as notícias tristes de que os leitores portugueses regulares não estão a aumentar, também não é de crer que os livros fiquem mais baratos nos tempos mais próximos, embora muitos dos títulos não abrangidos pela lei do preço fixo (ou seja, que foram publicados há dezoito meses ou mais) estejam por aí à venda a três e cinco euros (livros bons, de resto). No entanto, para quem aprecia leitura digital e não se importa com o cheiro do papel (a geração mais jovem cresceu a mexer em botõezinhos e a olhar para ecrãs), há muita literatura de borla. E, se se tem a sorte de poder ler em inglês, a panóplia de livros grátis ao dispor é realmente considerável. Assim, deixo hoje aqui um link de cem sites donde pode descarregar de tudo legalmente sem pagar um centavo. E mais outro para livros portugueses. A sua algibeira agradece.


 


http://www.iheartintelligence.com/2014/08/31/free-books-100-legal-sites-download-literature/


 


http://observador.pt/2014/12/27/oito-paginas-da-internet-para-fazer-download-de-livros-legal-e-gratuito/

Na cozinha

Já estamos longe das festas (o tempo voa), altura em que muitos (muitas?) não conseguiram sair da cozinha para deixar tudo num brinquinho para a consoada, o almoço de Natal e a noite de fim de ano. Pois a mim, que sou fraca cozinheira, serve-me a cozinha de inspiração palavresca, tantos são os utensílios ali arrumados que dão origem a significados e expressões bem coloridos. Na gaveta dos talheres, por exemplo, encontro logo um bom garfo, que não é o que espeta, mas o que come bem; e também o que aprecia meter a sua colherada (mesmo que se diga «entre marido e mulher não metas a colher») ou que, mais subtil, dá uma colher de chá; ao lado, estão os que dão facadas no matrimónio, os que vão à faca na sala de operações, os que têm a faca e o queijo na mão ou lidam com assuntos que são uma faca de dois gumes, os desgraçados a quem põem a faca ao peito ou estão com a faca na garganta e ainda os de faca na liga, que são, de todos, os menos aconselháveis. Já no armário dos vidros, temos um bom copo, um copofone, o que está com os copos (tudo sinónimos), mas também o menino copinho de leite que não provou álcool no copo-d’água da irmã, bem como gente pires, gente manteigueira, gente meia-tigela e os que, no fim de uma discussão, gostam de levar a taça. Em baixo, entre as peças mais grosseiras, há um cara de tacho que arranjou um bom tacho sem saber fazer nada (dizem que foi tudo uma panelinha e que, quando isso vier a lume, ainda há-de sair da frigideira para o fogo) e também um homem que aprecia homens (com vossa licença: um paneleiro); nos carros, fala-se também de panela de escape, não é? Por fim, na prateleira do serviço que está a uso, lembro que a vingança é um prato que se serve frio, que Cristiano Ronaldo acusou Mourinho de cuspir no mesmo prato em que comeu, que há quem não vale o prato que come, que é bom deixar tudo em pratos limpos, que não comemos no mesmo prato de pessoas com quem não temos intimidade, que uma coisa rotineira é o prato do dia e uma coisa ou pessoa divertida é um prato ou um pratinho. E pronto. Já estão com vontade de partir a loiça toda?

Vende-se

Nos meus primeiros tempos de actividade no mundo da edição, trabalhei muito com autores de divulgação científica. Era o tempo dos sucessos televisivos de David Attenborough ou Carl Sagan – e livros como Cosmos tiveram um êxito estrondoso. Na colecção Ciência Aberta, foram publicadas muitas obras de autores de renome internacional e, por ocasião do respectivo lançamento, houve vários físicos, astrónomos, biólogos, etc., que se deslocaram a Portugal e contaram com numerosas audiências que hoje talvez já só existam para misérias televisivas como O Preço Certo. Certo é também que nessa época vi salas cheias no auditório do Instituto Franco-Português para ouvir Hubert Reeves ou Yves Coppens falar de estrelas e esqueletos ancestrais. O Instituto tinha então um animador científico muito dedicado e todos ganhávamos com o seu apoio. Com o tempo, a instituição perdeu peso (a França em geral também), mas, apesar de tudo, ainda eram feitos alguns lançamentos de obras de autores franceses e havia uma livraria francesa e uma mediateca interessante no edifício, além de aulas de língua. Pois sei que o Governo Francês vai fechar o Instituto Franco-Português e vender simplesmente o edifício (que já estava parcialmente alugado). A Alliance Française encontrará outro sítio para ministrar as aulas, a Livraria procurará um espaço de rua e a Mediateca simplesmente desaparecerá para todo o sempre. Uma pena, claro, não só para os franceses que vivem em Portugal, mas para todos nós que ali assistimos a festivais de cinema francês, a palestras, a peças de teatro, enfim, a um programa cultural de respeito. Existe uma petição contra o seu fecho e a transmissão de uma ínfima parte dos serviços para a embaixada no link abaixo. Eu assinei.


 


https://www.change.org/p/sauvonsifp?utm_campaign=responsive_friend_inviter_chat&utm_medium=facebook&utm_source=share_petition&recruiter=68497557

Ficar por aqui

Em 2014 aumentou o número de estudantes que, findo o 12.º ano, quiseram «ficar por aqui» e não se candidatar à Universidade. As razões seriam, aparentemente, óbvias: muitos pais já não têm como suportar as propinas e aparentemente não há emprego para tantos licenciados, pelo que sacrificar três a cinco anos numa academia sem qualquer perspectiva de encontrar trabalho à saída tornou-se uma perda de tempo para muitos. Mesmo assim, o Barómetro Educação em Portugal 2014 crê que os jovens que assim pensam estão mal informados, porque as maiores vítimas do desemprego são, na verdade, os que menos qualificações têm, e não os licenciados, mesmo que uma grande parte destes trabalhe fora da sua área de formação (mas encontra mais facilmente o que fazer). Os dados permitem, em todo o caso, concluir que cerca de 45% dos alunos perderam a fé nas instituições e que acreditam que o investimento em educação deixou de compensar; e que – mais grave – as famílias acompanham este raciocínio, já que em 2012 eram quase 80% os pais que queriam que os filhos tivessem um curso universitário e, no ano seguinte, esse número desceu para cerca de 70% e tudo leva a crer que tenha baixado mais uns seis pontos em 2014. Vários motivos são avançados para esta mudança súbita de opinião, mas os responsáveis pelo Barómetro referem que a falta de leitura de livros e jornais, quer pelos jovens, quer pelas suas famílias («que estarão a migrar para outras formas de informação e entretenimento cultural»), são grandemente responsáveis pela ideia de que estudar mais não vale realmente a pena. E, enquanto isso, quem quer mandar fica certamente contente com as notícias, uma vez que é bem mais fácil dominar os ignorantes do que os cultos...

O medo

Todos ficámos chocados com o que aconteceu há dias em França quando dois fundamentalistas islâmicos entraram na redacção de um jornal satírico e liquidaram em minutos uma data de jornalistas, ferindo muitas outras pessoas. As reacções do mundo ocidental não se fizeram esperar, pois o atentado punha claramente em causa a liberdade de expressão e aparecia não só como uma espécie de vingança (os cartoonistas estavam sempre a meter-se com o Estado islâmico), mas também como um aviso, uma ameaça. (Lembremo-nos de que uns quantos jornalistas foram decapitados uns meses antes, e os vídeos enviados para o mundo ver que nada daquilo era bluff.) Porém, apesar do horror, o balanço dessas reacções resumia-se muito claramente a uma ideia: não podemos ter medo, não vamos cair na armadilha. Vi nos jornais e nas redes sociais muitos jornalistas portugueses sublinharem este aspecto. E, no entanto, nunca o jornalismo português me pareceu mais inerte e obediente do que agora. Até os títulos das notícias de certos diários (às vezes é preciso ler duas vezes para os perceber) parecem tirados ipsis verbis dos comunicados enviados pelos assessores de imprensa dos ministérios, e os artigos reproduzem-nos comentando pouco e pouco questionando; um jornalismo correctinho, sem risco, porque não estamos em altura de perder o emprego e é melhor não chatear o dono do jornal, que até é do partido do Governo? Ora, se temos medo do patrão, como não vamos ter medo da Al-Qaeda? Talvez este exemplo internacional – um dos cartonistas disse seis meses antes da tragédia que preferia morrer de pé a viver de joelhos e que continuaria, por isso, a fazer o que achava que devia fazer – sirva para agitar as águas dos nossos jornais que, quando não andam pardacentos, parecem preocupar-se apenas com escândalos ou a cor das cuecas de Sócrates. Espero que muitos dos nossos profissionais da comunicação social sejam, de facto, Charlies, pelo menos uma vez por outra.

É hoje

Já há uns tempos que a jornalista Maria João Costa, da Rádio Renascença, grande responsável naquela estação pela área cultural e sempre presente em festivais de escritores e eventos literários, entrevistando autores como uma verdadeira formiguinha, conduz em Lisboa, na Livraria Férin, ao Chiado, um programa denominado Ensaio Geral. Inicialmente, havia apenas um convidado (na sua maioria, escritores com livros acabadinhos de sair) que era entrevistado em directo para a rádio, mas diante de um público que se deslocava à livraria e, numa segunda parte, já fora do ar, podia interpelar o eleito e ouvir ao vivo a resposta à sua pergunta. Agora, porém, o programa tornou-se mais criativo e variado, porque ao escritor se junta outra figura de nomeada, muitas vezes não directamente ligada à cultura, fazendo o debate mais vivo e diversificado. Hoje mesmo, pelas 18h45, estarão na Férin a Patrícia Reis (recentemente galardoada com o Prémio de Literatura Lions de Portugal pela sua novela O Que Nos Separa dos Outros por causa de Um Copo de Whisky) e o chef Ljubomir Stanisic, fazedor de refeições de sonho e, ao que sei, júri em concursos televisivos de culinária. O programa de tertúlias Ensaio Geral conta ainda com a colaboração dos Booktailors. E a Maria João Costa é uma excelente jornalista cultural.

O rasto dos leitores nos livros

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Não costumo pedir livros emprestados, embora empreste livros com grande frequência. Não é que seja niquenta e me custe ler o alheio; mas a verdade é que já tenho tantas leituras atrasadas entre os volumes que o Manel e eu trazemos para casa todos os meses que não há quase nunca ocasião para pedir a alguém mais um livrinho que seja. No entanto, já me aconteceu no passado ler muita coisa que não me pertencia – e é muito curioso verificar as marcas que cada leitor pode deixar num livro: sublinhados a lápis ou a caneta fluorescente (muitas vezes referentes a passagens de que se gostou ou a frases que simplesmente vão ser úteis no futuro), páginas dobradas que mostram que o dono do livro não chegou se calhar até ao fim, gralhas assinaladas (nem sabem o jeito que daria aos editores que os leitores no-las enviassem para correcção em edições futuras), pequenos apontamentos que são também indícios da leitura feita e da consequente reflexão; e, ainda, a marca que marca o livro – e que até pode vir de outro livro qualquer (o que nos permite saber o que o nosso emprestador andou a ler para além, claro, do livro que nos emprestou). Neste Natal, a Livraria Barata pediu-me que lhes facultasse um poema meu já antigo alusivo à quadra natalícia para o porem num marcador que seria oferecido aos compradores da livraria. Talvez algum dos Extraordinários o encontre um dia dentro de um livro, emprestado ou não. Ele aqui vai e, se calhar, está neste momento a marcar páginas de um livro que nada tem que ver com poesia...


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Uma balada muito simpática

Não sei se os leitores deste blogue – mais avessos à poesia do que à ficção – já ouviram falar de Margarida Vale de Gato, poetisa e tradutora de poetas, entre os quais René Char, Christina Rossetti e W. B. Yeats (e também de prosadores como Henry James ou Oscar Wilde). Acontece que ela é também uma lutadora e ficou em estado de choque quando a Junta de Freguesia da Penha de França resolveu deslocar a sua biblioteca do solar que ocupava há muitos anos para um miserável piso térreo num prédio que pertencera à EPUL, alegando que a Junta (que agora agrega também a freguesia de S. João) precisava de mais espaço (e um solar vinha a calhar, digo eu). Depois de petições, audições com os responsáveis e uma manifestação, nada se conseguiu para reverter a situação, pelo que o que restou à poetisa foi, como ela diz, esta «graçola amarga, ou grosseira esperança», a balada que aqui reproduzo e peço que façam circular. A bem dos livros e dos leitores, claro.


 


Balada do Guarda-Livros da Penha de França

Isto são versos datados.
De gancho, engajados, démodés.
Isto é um poema de época.
É uma letra de intervenção do tempo
em que uma biblioteca tinha um palácio.
Tínhamos mapas antigos. Tínhamos
cartazes de anúncios, tínhamos capas de peles
de animais, tínhamos livros de vestir
bonecas e tínhamos volumes pequeninos,
com 100 anos para lá de velhos,
havia no palácio pessoas que estudavam os livros
e não eram os reis, havia pessoas
que tratavam dos livros e não eram os aios.
 
Os livros podem sempre estragar-se
com a humidade e mais catástrofes.
Os bichos comem os livros com certa
facilidade, fazem carreiros
dentro do miolo, são do tamanho de uma unha,
se fossem maiores comiam um livro ao dia.
E conforme os livros eles vão ficar sujos.
Temos de evitar. Com mau tempo os livros
estragam-se e empolam, os livros como
a comida não podem ficar ao Sol.
 
De repente, um despacho, ninguém pergunta.
De um dia para o outro uma alínea
e tropeça o palácio debaixo dos sapatos
de pelica da presidente da junta
que logo tratou de se descalçar.
Pôs-se à vontade e ligou ao património
para mandar vir obras. — E os livros?
indagaram as pessoas dos computadores
que chamam os livros pelos elevadores.
— Os livros fazem, claro, parte das obras.
proferiu a senhora vereadora, que dormitara
ao consultar a comissão na hora do chá.
Arranjamos-lhes uma cave aconchegada.
— E a humidade?
— A humidade é o menos — precaveu a assessora
da divisão da direção — fazemos-lhes um terraço
para enxugarem ao relento.
— E os leitores?
— Evidentemente — triunfou o relator
admirando o relatório — aqui está o leitor
tipo de perfil. Aqui têm a planta
da auditório polivalente.
 
A coleção de História de velino é que ficou deslocada.
A cidade atual dispensa Tito Lívio.
Não se pode tomar chá nem café perto dos livros,
os livros só servem para o passado
e para o imaginário. Não há impacto
societal entre livros e funcionários.
 
O guarda-livros, assim retiradas as espécies
das estantes, assim dos arquivos as fichas, assim
escolhidas para lixo as pouco queridas,
levantando nos aros as pregas do nariz, medita:
Pode haver uma praga que justifica pôr uma pastilha
para dar cabo dos bichos ou ser juiz de mim.

Embrulhos

Agora, que vimos de uma época em que muitos passaram horas a embrulhar presentes, podemos deter-nos por alguns instantes nos «embrulhos» dos livros em 2014. Não falo obviamente daqueles que oferecemos aos familiares e amigos e que, provavelmente, foram envolvidos em papel e fita da loja em que foram comprados. Falo, sim, das capas – da maneira de embrulhar cada livro de forma a torná-lo apetecível nos escaparates, concorrendo com centenas de outros, sem trair, porém, o seu conteúdo e o seu público. Descubro um artigo do New York Times sobre a matéria, uma espécie de eleição das melhores capas do ano transacto; e, embora muitos destes livros não sejam conhecidos dos portugueses nem estejam cá publicados, a verdade é que se afigura especialmente interessante a ligação entre o respectivo título e o design aplicado. Algumas destas capas são verdadeiras obras de arte. Outras terão a simplicidade que lhes convém. Numa delas, o desenho ganha tal protagonismo que são omitidos o título e o autor, como se a imagem fosse tão forte que obrigasse o potencial leitor a afastar a capa para ver de que livro se trata. Enfim, uma amostra do que se fez bem (segundo o New York Times, pelo menos) em 2014. Dêem uma espreitadela ao site, se vos interessa o assunto e gostam de coisas bonitas.


 


http://www.nytimes.com/interactive/2014/12/08/books/review/best-book-covers-2014.html?smid=fb-share&_r=0

O que ando a ler

Ora então sejam de novo bem-vindos a esta vossa casa. Espero que tenham passado umas boas festas, que o ano que agora começa vos traga coisas boas e que, claro, tenham podido ler bons livros. Como não tivemos post no dia 1 (eu sei, a culpa é minha), passei para hoje o meu relatório de leitura. Antes das férias estava a falar com um colega sobre os críticos e ele aconselhou-me a espreitar um excelente romance do argentino Ernesto Sabato que tem algumas linhas magníficas sobre a matéria. Chama-se O Túnel. O protagonista é um pintor, Juan Pablo Castel, que, além de ter bastante desprezo pelos críticos de arte (mais ainda pelos que o aplaudem), faz a crónica de um assassínio a partir da cadeia onde está preso; María Irribarne, a mulher que Castel matou, parecia, porém, a única pessoa capaz de prestar atenção a um pormenor de uma tela do pintor. Desde o momento em que a viu espreitar essa cena a um canto do quadro, Castel não descansou enquanto não a conheceu e essa relação tornou-se obsessiva. Depois, as coisas não correram assim tão bem, está visto. Mas o romance é notável sobretudo pela capacidade de dedução e argumentação, pois o seu narrador equaciona sempre todas as possibilidades e esse exercício a que eu chamaria, por vezes, exasperante é também uma prova de inteligência sem limites. A ler, claro.