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A mostrar mensagens de julho, 2014

Au revoir

Como ontem falei de Paris aqui no blogue, hoje dou um título francês ao post. Até porque a despedida comum em português tem um ar de coisa definitiva e, na verdade, o que hoje queria dizer aos Extraordinários era, justamente: Até à vista. Isto porque, como é habitual de há uns anos a esta parte, vou iniciar as férias amanhã, 1 de Agosto, e estarei ausente das Horas Extraordinárias durante um mês inteirinho, regressando apenas em Setembro. Neste último dia, cumpre-me agradecer aos aficionados a companhia que sempre me fazem – e que fazem, sobretudo, uns aos outros com frequentes comentários e muitas trocas de impressões, algumas bem-humoradas, outras mais acesas. Eu confesso que vou sentir a falta deste diálogo com muita gente que nunca vi, mas é como se conhecesse há anos; contudo, férias são férias – e um bom descanso também serve para nos trazer ideias e histórias novas, com as quais espero alimentar este blogue lá mais para diante. E um mês, já se sabe, passa num instante. Desejo a todos um bom Agosto – aos que saem da rotina, como eu, e aos que ficam a trabalhar. E, por favor, leiam. É também, acreditem, o que vou tentar fazer. Au revoir!

Uma capital para a literatura

Aqui há uns meses um grupo de escritores de nomeada provindos de países e continentes vários assinou um manifesto inovador, propondo a criação de uma Cidade Internacional da Literatura. Entre os signatários do documento encontram-se autores tão diferentes como Paul Auster, Pierre Michon, Javier Cercas, Alberto Manguel ou Peter Esterházy – e a ideia, ao que parece, não caiu em saco roto, parecendo até que a França apanhou a bola e quer, decididamente, marcar. É verdade que o país tem bons motivos para se considerar literário: não só pela sua história (tantos grandes autores, caramba!) e por publicar anualmente um número impressionante de obras literárias (basta ver a quantidade de novos romances que saem na rentrée – e não estou a falar de falsa literatura), mas também porque tem uma quantidade incrível de livrarias independentes e livreiros empenhados, que lêem os livros e não raro colocam na montra as suas opiniões junto dos títulos que apreciaram, num diálogo franco com os leitores. Além disso, a França possui já cidades da música, da arquitectura, da BD e do Design, fazendo-lhe falta uma cidade da literatura; outros países e cidades, como a Itália e a Alemanha, têm, por exemplo, casas da literatura que dinamizam o encontro entre público e escritores, pelo que talvez fosse redundante tornarem-se capitais literárias. Mas o objectivo agora não é apenas a promoção de autores e livros, é, sim, a criação de um espaço internacional partilhado para o debate de ideias, uma plataforma de encontro e trabalho que resulte em acções em defesa do património literário e da forma de consciencializar todos do valor que os livros nos trazem. E, se A França se põe a jeito e diz que Paris bem merece tornar-se capital da literatura, quem sou eu para dizer que devia ser noutro lado?

Diários do inferno

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Não é preciso gostar especialmente de textos diarísticos para pegarmos nos Diários de George Orwell, o famoso autor de O Triunfo dos Porcos. Estes incluem muitos episódios vividos pelo seu autor entre 1931 e 1949 (morreria tuberculoso no ano seguinte) nas mais de setecentas páginas da tradução portuguesa agora publicada, incluindo as viagens que realizou na juventude; mas são também reflexões muito importantes em termos de observação social (condições de vida dos mineiros, por exemplo) feitas por um homem que, relativamente bem-nascido na então Birmânia, decide ainda jovem abandonar o bem-bom familiar e expiar a culpa da sua «superioridade» vivendo entre mendigos e operários nas ruas de Londres e nos bairros de lata de Paris. Porém, as páginas dominantes nesta longa compilação dos seus cadernos – onze, para ser mais concreta – são as de comentário político, nomeadamente durante os anos da Segunda Guerra Mundial, em que o jornalista e escritor britânico assistiu ao dealbar dos regimes totalitários na Europa – na Espanha de Franco, na Alemanha de Hitler e na União Soviética –, que acabaram muito provavelmente por inspirar e servir de preâmbulo às suas obras mais emblemáticas entre nós: a atrás referida e, acima de tudo, a conhecida distopia 1984; aliás, falta neste volume um conjunto de textos apreendidos pelos esbirros de Estaline que contêm seguramente anotações preciosas – ao que parece, um diário da sua permanência na Guerra Civil espanhola – e que ainda hoje estará guardado nos Arquivos de Moscovo. Orwell combateu em Espanha ao lado de uma milícia de tendência trotskista, tendo sido ferido no pescoço. Não podendo alistar-se na Guerra Mundial em 1939 por causa da sua saúde débil, foi como correspondente da BBC Índia que, posteriormente, comentou o conflito, num momento em que já era um conceituado jornalista, famoso pela denúncia das injustiças sociais e grande opositor do totalitarismo. Portanto, para quem se interessa pela história da Europa no século XX – mesmo que não seja um grande apreciador de diários –, esta é uma boa sugestão de leitura.


 


A Grande Guerra

Vem aí o Centenário da Primeira Guerra Mundial e prevêem-se comemorações de peso em todo o mundo. Os nossos jornais já começaram, de resto, a fazer reportagens sobre a participação dos militares portugueses na Flandres, onde muitos acabaram mortos e gaseados depois da tragédia que foi a batalha de La Lys, e também em Angola e Moçambique, onde estacionaram tropas portuguesas durante um dos mais sangrentos e mortíferos conflitos da História da Europa. Aparecerão, estou certa, muitos livros sobre a matéria – de ficção e não ficção –, mas nunca é demais lembrar os que publiquei aqui na LeYa que, de uma maneira ou de outra, se debruçavam sobre a guerra de 1914-1918. O primeiro foi finalista do Prémio LeYa, escreveu-o Cristina Drios, e gira à volta de um estranho soldado português, avô da narradora (Os Olhos de Tirésias). O segundo (A Segunda Morte de Anna Karénina), embora fale sobretudo de um casal desavindo nos princípios do século XX, marido e mulher actores de teatro, reproduz uma interessante correspondência entre dois jovens portugueses, um dos quais se alistou no Corpo Expedicionário Português para fugir a uma relação ilícita, acabando por perder a vida. Nestes dois romances, é importante salientar que a descrição da guerra de trincheiras é notável pelo rigor informativo, dando uma ideia muito verosímil do que foram os horrores da Grande Guerra.

Registo

Quando chegamos a certa idade, a memória começa a atraiçoar-nos. Embora saibamos perfeitamente quem é aquele actor que está no ecrã de televisão, não conseguimos pura e simplesmente recordar-nos do seu nome, nem do título do filme, que por acaso até vimos quando estreou, há coisa de cinco anos; se é que nos lembramos do enredo, o que vai sendo cada vez mais raro... Pois, é uma chatice – mas não há nada a fazer e o melhor é aceitarmos que a idade não perdoa. Com os livros, custa mais, evidentemente – e os que lemos há menos tempo são, curiosamente, os que desaparecem primeiro, tal como as recordações de infância são, frequentemente, aquelas que permanecem mais vivas na memória de um velho. Mas agora há um objecto muito útil à venda, que pode dar uma ajudinha e servir-nos de bengala nos momentos em que estivermos desesperados por já não sabermos de que tratava determinada obra. É uma espécie de caderno que podemos trazer sempre connosco, chamado Diário de Leituras, e no qual podemos anotar os títulos que nos vão passando pelas mãos, os seus resumos, as frases preferidas – e bem assim atribuir-lhes pontuações, o que evita que se vá reler um mau livro por não nos vir à ideia se dele gostámos da primeira vez. O preço é apenas de 7,5 euros e vende-se, tanto quanto sei, nas Livrarias Bertrand. Eu vou ser cliente, de certeza absoluta.

Sebastião em festa

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Já aqui falei aos extraordinários leitores deste blogue do mais recente romance de João Rebocho Pais, que se estreou nas lides da literatura há dois anos com O Intrínseco de Manolo. Mas regresso ao assunto porque hoje temos festa para o livro novo – um lançamento que conta com a apresentação da actriz, e também escritora, Ana Zanatti. Dizem Que Sebastião, seleccionado pelos jornalistas do Expresso como um dos livros a ler este Verão, deixa-nos bem-dispostos e confiantes de que, no futuro, os homens ainda se hão-de dar conta de que não podemos viver apenas dos números (o capitalismo financeiro, como já se viu, deu asneira da grossa) e é urgente que demos de novo às letras a devida importância. É isso, de resto, o que acontece a Sebastião – o protagonista da obra – que andava arredado das leituras havia demasiado tempo, tendo-as trocado pelos ficheiros Excel. Resultado: não tinha nadinha de jeito para dizer fosse sobre o que fosse que não incluísse estratégias de venda, o que lhe custou um enorme arraso de uma rapariga durante um jantar memorável e hilariante. Estamos, porém, sempre a tempo de corrigir os nossos erros – o que Sebastião fará (dizem) com a ajuda de livros e de escritores (nem sempre vivos, mas sempre prontos a partilhar com ele as suas histórias). Uma lufada de ar fresco na literatura portuguesa. Se quiser fazer-nos companhia mais logo, a sessão é na livraria Buchholz, às 18h30.


 


Tintim a render

Na minha infância e adolescência alimentei-me de livros do Tintim em edições cartonadas, com lombada forrada a tecido, e muitos deles em francês, tendo talvez aperfeiçoado as minhas competências nesta língua com a leitura da famosa banda desenhada. Sempre me fascinou a figura de Tintim – com ar de miúdo por causa das calças curtas e do cãozinho, mas ao mesmo tempo repórter profissional em cenários de risco. Ainda hoje me lembro de ter tido um pesadelo por causa de umas páginas de Tintim – julgo que do álbum A Estrela Misteriosa – no qual uma aranha, tendo feito a teia na boca de um telescópio, sugeria a existência de um planeta com um enorme aracnídeo acoplado. Pois bem: tantos anos depois da morte de Hergé, o criador da figura, Tintim continua a render. Segundo leio, uma folha desenhada em tinta-da-china, em 1937, para servir de guardas a um ou mais álbuns, foi vendida por 2,5 milhões de euros num leilão em Maio passado, verdadeiro record no que toca a obras deste género. O anterior, de resto, já pertencia a Tintim – era a ilustração original da capa de Tintim na América e rendera 1,3 milhões.

Descobertas

A arca de Pessoa, de quem aqui falei ontem, embora de raspão, parece inesgotável – e continuam a aparecer composições inéditas do poeta que criou e assinou com diversos nomes e estilos. Boas notícias para os amantes de Fernando & heterónimos, claro, pois é bom termos sempre coisas novas para ler de alguém que há muito partiu desta vida descontente. Razões de sobra para ficarem satisfeitos têm também agora os apaixonados pela poesia do chileno Pablo Neruda, vencedor do Nobel da Literatura, pois a sua Fundação surpreendeu recentemente o mundo literário com a descoberta de uma vintena de poesias inéditas que somam qualquer coisa como um milhar de versos! Saídas das caixas de manuscritos em que jaziam há cerca de quarenta anos, estas poesias verão a luz na América Latina neste final de ano pela mão da editora Seix Barral, pertencente ao grupo Planeta, e no próximo ano na Europa, crendo-se que venham a ser traduzidas e publicadas em muitas línguas. Ficamos, claro, à espera… e em ânsias.

Eça paulista

Todos os estrangeiros que visitam o Brasil se esforçam por não falhar o Rio de Janeiro que, apesar de já não ser a capital, é uma das cidades mais belas e aquela onde parece que tudo está a acontecer. Mas, culturalmente, São Paulo tem bastante mais para oferecer a quem gosta de pintura, dança, cinema e museus. Entre um dos mais fantásticos, está o Museu de Língua Portuguesa, que já teve uma memorável exposição interactiva sobre Fernando Pessoa. A atenção aos escritores portugueses não ficou, no entanto, por aqui – e agora anuncia-se uma mostra dedicada ao nosso Eça de Queirós para 2015, segundo António Carlos Sartini, o director, que acrescenta que vai ser um trabalho de grande responsabilidade, dada a craveira do romancista e o interesse que sempre despertou dos dois lados do Atlântico, uma vez que Eça é considerado património de ambas as culturas, a portuguesa e a brasileira. Planeando férias para o Brasil no ano que vem, não falhe, pois, a beleza e as praias do Rio de Janeiro, mas preveja uma escapadinha à enorme São Paulo para ver uma exposição que promete ser muito interessante. Pode acompanhar os desenvolvimentos em www.museudalinguaportuguesa.org.br.

Corpo a corpo

As férias aproximam-se – e, com a ideia da praia, muitas mulheres começam a preocupar-se seriamente com o corpo; matriculam-se em ginásios, fazem dietas radicais, sonham com plásticas, ou evitam despir-se, envergonhadas com os quilos a mais e a celulite. Lidar com o próprio corpo, quando este não é perfeito (o que acontece quase sempre) é uma carga de trabalhos para o sexo feminino, embora comecem a ser cada vez mais comuns rapazes e homens obcecados com o físico. Pois bem, Gostas do Que Vês?, de Rute Coelho, é um romance sobre a relação que duas mulheres muito diferentes – Natália e Cecília –, ambas com problemas de obesidade, têm com o próprio corpo. E, se uma vive amargurada com as dores nos joelhos, o peso dos seios que lhe entorta a coluna e o difícil relacionamento com o sexo oposto, pois a outra dá a volta por cima e tira claramente partido das suas curvas, virando as dificuldades a seu favor. O mundo contemporâneo é preconceituoso com a gordura, há discriminação e troça, os cânones da beleza feminina estabelecem como padrão corpos quantas vezes escanzelados... Na moda, já se criaram movimentos contra este tipo de manequins pele-e-osso, mas na vida de todos os dias, nas escolas e empregos, os gordos sabem muito bem o que se sofre. Este é um livro para eles – e para todos os que não estão felizes com o corpo que lhes calhou em sorte; mas é também um romance sobre as razões que nos levam a ter comportamentos estranhos – como o de comer demais – e sobre a forma de enfrentarmos os nossos dramas se queremos gostar do que vemos num espelho.

Relíquias

Uma das razões por que é um verdadeiro prazer ler Mário Cláudio – já aqui o disse – prende-se com o número de palavras que aprendo ou reaprendo a cada nova obra que publico. Nunca me esquecerei, por exemplo, daquele «bazulaque» que encontrei em Tiago Veiga e que quer dizer, entre outras coisas, «gordo»; ou do «plumitivo» que havia muito não via escrito em lado nenhum, talvez porque as «plumas» e «penas» com que dantes se escrevia tenham sido substituídas por meras teclas com caracteres desenhados. Um dia destes, aliás, descobri com saudade que imensas palavras que ouvia em adolescente se evaporaram do discurso contemporâneo e correm o risco de se ver para sempre sepultadas, desconhecidas que são dos nossos jovens com trinta anos (sei do que falo), por mais engraçadas, sugestivas e vivas que sejam. Falo, por exemplo, de «amásia», forma evidentemente insultuosa de nomear a concubina de alguém (sobretudo de um homem casado), de «lambisgóia», «serigaita» ou «pespineta» (em pequena, a minha avó usava este termo muitas vezes), palavras que têm um mundo inteiro lá dentro, cheias de cores e formas, e dizem mesmo aquilo que queremos dizer quando pensamos em alguém. E, por isso, resolvi que, uma vez por mês, vou recuperar aqui no blogue uma dessas deliciosas relíquias, pedindo aos extraordinários que as usem por aí, não vão desaparecer sem deixar rasto. A última de hoje é «pindérico», substituída pelo actual «piroso», vocábulo que não tem, convenhamos, a mínima piada.

Preconceito?

Desde que me tornei editora de autores portugueses, publiquei vários géneros de romance, entre os quais aquilo a que se chama vulgarmente romance histórico. Mas, quando tento fazer uma espécie de retrospectiva, reparo que as obras dessa, digamos assim, tipologia são as que menos críticas receberam da nossa imprensa. Tenho consciência de que alguns desses livros não apresentavam grandes inovações estilísticas – assumindo-se como ficções informadas à roda de episódio ou personagem histórico, mas sem voo literário; mas existem outros que, partindo de determinado facto ou tempo histórico, são tão ou mais inventivos em termos de voz ou estrutura do que os romances que não usam a história como pretexto – e pergunto-me se bastará aos recenseadores olhar para uma capa com gravura antiga ou ler uma sinopse referindo um tempo passado para os afastar da leitura e os levar a acreditar que dali não vem decerto literatura a sério. Será um preconceito, dado que existem muitos romances históricos levezinhos, sem alma, escritos por autores que apenas usam a ficção para dar informações a quem não sabe? Será porque a História pareça a quem faz crítica um pretexto para escritores sem imaginação? Que diabo! Publiquei este ano dois livros belíssimos, Mal Nascer, de Carlos Campaniço, e O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais, e não vi quase ninguém escrever sobre eles, sendo que um crítico que se deu ao trabalho de ler o último afirmou que era um dos melhores romances históricos publicados desde sempre em Portugal. A história e a literatura não podem andar de mãos dadas, que logo vem alguém desconfiar do casamento?

O admirável mundo novo

Leio no New York Times um relato na primeira pessoa – «I Was a Digital Best Seller» – de pôr os cabelos em pé. Tony Horwitz, assim se chama a autora, já tinha publicado alguns livros em papel, mas quis dar uma oportunidade ao mundo online, mais ecológico, e aceitou uma encomenda de um livro digital para o The Global Mail. Como a investigação implicava uma viagem (o assunto era o petróleo), recebeu um adiantamento para despesas de deslocação que se esgotou uns dias antes de começar a escrever; mas, animada com o material que recolhera, produziu o texto do livro ao longo do Inverno seguinte, altura em que soube que o jornal negociara a co-publicação do seu livro com uma plataforma digital de renome, a Byliner, conhecida por já ter conseguido vender 75 000 exemplares de vários títulos. Findo o trabalho – e já depois de ter gasto o que não tinha numa garrafa de champanhe a celebrar o fim da tarefa e a sonhar com os lucros – recebeu, no entanto, um telefonema do The Global Mail, explicando que estavam com problemas financeiros e já não podiam publicar-lhe o livro; pior: que a co-edição com a Byliner não tinha, afinal, sido fechada... Neste passo, Tony decidiu (deveria tê-lo feito antes) contactar o seu agente, que conseguiu em 24 horas um contrato com a Byliner, mas um bocado miserável: um adiantamento muito baixo e um terço dos lucros para Tony, sendo que o livro seria vendido apenas a 3 dólares… Uns dias mais tarde, o livro estava na página da Byliner, é um facto, mas sem publicidade, sem comentários nem críticas, perdido entre milhares de outros. Tony apercebeu-se da tragédia e afadigou-se a telefonar a jornalistas e amigos para a ajudarem a publicitar o livro em rádios e jornais e, ao fim de um mês de trabalhos forçados, a obra encontrava-se no Top 25 da Byliner. Só que, quando Tony perguntou quantos exemplares se tinham vendido, recebeu como resposta uns envergonhados 700 ou 800. E, um mês depois, o livro desaparecera completamente da página, como muitos outros, evaporando-se para sempre. Nem a própria autora tinha um livro para pôr na estante – sendo que o texto lhe consumira seis meses de trabalho... Bom, pelos vistos, um best seller digital pode registar vendas de menos de 1000 exemplares, incluindo nos EUA (e portanto convém não nos impressionarmos com os Top das livrarias online); por outro lado, no negócio dos livros em papel, ainda se privilegia o contacto humano, que ajuda muito, e, além disso, os autores têm sempre direito a um certo número de exemplares físicos que podem pôr nas suas estantes.

Troca por troca

Embora nunca tenha sido exactamente uma apreciadora do género (há, claro, excepções), sou de uma geração que assistiu a um boom de livros de ficção científica. Era o tempo em que se imaginavam mundos alternativos, vida extraterrestre, viagens a Marte, robots que nos livrassem das tarefas domésticas, guerras interplanetárias. E mais: telefones sem fios nos quais fosse possível ver o rosto de quem nos ligava, telecomunicações rápidas entre quaisquer países, envio instantâneo de imagens... Ora, muito do que lemos nesses livros proféticos já aconteceu, e o avanço tecnológico das últimas décadas frustrou, de certo modo, a criatividade dos autores que inventavam universos sofisticados e marcianos verdes. Ficou, de súbito, difícil falar do futuro, quando o futuro nos surge todos os dias em pequenas invenções que, há quarenta anos, pareciam apenas possíveis na imaginação de certos escritores. Em todo o caso, os leitores estavam precisados de se consolarem com outros mundos que não este – e foi talvez por isso que vingou um género literário que hoje tem muitos seguidores, a chamada Fantasia, que, ora recriando o passado, ora projectando um futuro no qual os humanos convivem com estranhas criaturas, oferece uma dose respeitável de magia a quem dela precisa. Continuo a não ser apreciadora, mas admito que estas sagas são um óptimo negócio.

Que mais inventar?

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Já todos vimos livros à venda com ofertas: de lápis, echarpes, perfumes, leques e sei lá que mais. Mas, na generalidade, trata-se de romances levezinhos, de componente romântica, vendidos a senhoras que gostam de histórias da carochinha e que, se não comprassem livros, comprariam as revistas de sociedade (que, não por acaso, também oferecem malas, faqueiros, bolsas de praia e tralha de cozinha). Só que agora vem aí um livro supostamente sério (bem, pelo menos, o autor é mencionado sempre que estamos à espera de saber quem ganha o Prémio Nobel da Literatura – o que considero um exagero, mas há quem não concorde) e traz uma folha de autocolantes de brinde para os leitores enfeitarem as páginas do romance... Não, não é brincadeira: trata-se do próximo livro de Haruki Murakami e a dita folhinha inclui ilustrações de cinco artistas japoneses famosos. Ao que parece, o nome do protagonista – em japonês, Tsukuru – significa «construir» e, assim, é dada ao leitor a possibilidade de ir construindo qualquer coisa ao longo da leitura, colando aqui e ali um dos bonitos stickers. Não sei se a ideia foi do marketing editorial, se do autor, porque os japoneses, ao que sei, apreciam brinquedos na idade adulta (vi uma reportagem sobre a matéria há uns anos e lembro-me de um administrador da SONY que coleccionava Barbies, tinha mais de 300); também não sei se aqui na LeYa os autocolantes se irão manter, mas lá que me parece mais uma forma de infantilizar o leitor, parece. Um dia destes, ainda vendem o Roth com páginas para colorir. Nem quero imaginar quais vão ser as ilustrações...


 


Pessoanos

A pessoa de Pessoa não pára de inspirar estudiosos e professores – e em todo o lado se organizam encontros à roda desta figura ímpar da literatura portuguesa, que se desdobrou em muitas. Desta feita, a começar já amanhã (uma semana mais tarde haverá outra sessão), a Casa Fernando Pessoa promove um Ciclo Internacional de Conferências subordinadas ao tema Fernando Pessoa: entre Filosofia e Literatura, que conta com a participação de uma especialista no espólio do poeta (objecto, aliás, do seu pós-doutoramento), chamada Cláudia Souza e professora na Universidade de S. Paulo, que falará sobre Pessoa e Novalis (as ressonâncias); Nuno Ribeiro (igualmente brasileiro, mas da Universidade Federal de São Carlos), que se debruçará sobre a Dramatização do Pensamento Filosófico em Pessoa; e – os últimos são os primeiros – Paulo Borges, professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa (e cabeça do Partido dos Animais, além de budista), cuja conferência terá como centro o heterónimo Álvaro de Campos. As palestras c omeçam às 18h30. Se quer saber ainda mais sobre o nosso Fernando, esta é uma boa altura para aumentar os seus conhecimentos.

Longe

Já sabemos que o País investiu nos últimos trinta e tal anos na educação de jovens que não vão poder fazer render o peixe dentro de portas... Todos conhecemos seguramente alguém que, por falta de colocação, vive hoje no estrangeiro – e a verdade é que o número está a aumentar. Só entre os autores que publiquei na LeYa nestes quatro anos, reparei que emigrantes é coisa que não falta. Além de Aida Gomes, que é funcionária da ONU e está de momento a trabalhar na Libéria (mas, de qualquer modo, reside oficialmente na Holanda), Bruno Margo (o autor de Sandokan & Bakunine) vive em Itália, onde a mulher, creio, faz investigação; Hugo Gonçalves e Paulo Nogueira estão no Brasil há algum tempo (um é editor, o outro jornalista); o meu saudoso Paulo Bandeira Faria vivia em Vigo (embora fosse professor no Norte de Portugal) e Norberto Morais (o autor de O Pecado de Porto Negro) trabalha actualmente em França. A mais recente vencedora do Prémio LeYa, Gabriela Ruivo Trindade, vive em Londres há uma dezena de anos e agora estou a editar o romance de uma autora que reside na África do Sul, calculem. Dos que estão em Portugal, muitos também se encontram longe: tenho dois autores no Algarve (e nenhum é de lá), um que anda entre Aveiro e o Porto (mas nasceu na Figueira e já andou lá por fora muito tempo), dois no Porto, um em Pombal... enfim, na capital é que eles param pouco. Quando nos vemos, a festa é maior, claro, e já ando com vontade de promover um piquenique de escritores, para que todos se conheçam, que há-de ser bem melhor do que o do Continente – de fazer parar o trânsito, claro, mas por outras razões.

Ilustrartistas

Não me tenho cansado de dizer aqui no blogue que a ilustração em Portugal vai de vento em popa. Não só são cada vez mais cuidados e bonitos os livros para crianças – e muitos deles comprados também por adultos, que se apaixonam pelas imagens e não lhes resistem – como os nossos artistas que trabalham nesta área são cada vez mais reconhecidos internacionalmente com prémios importantes. Desta vez, a revista norte-americana 3x3, The Magazine of Contemporary Illustration, distinguiu, de uma assentada, uma mão cheia de portugueses: Marta Monteiro, Sara Cunha, André da Loba, Ana Lúcia Pinto, André Carrilho (que é também um caricaturista de peso), João Vaz de Carvalho, Gonçalo Viana, João Fazenda (o talentosíssimo parceiro que tive no meu livro para crianças sobre Amália Rodrigues) e o já premiadíssimo André Letria. Do cartoon à banda desenhada, passando pela animação e pela ilustração para meios de comunicação social, Portugal marca pontos. Os trabalhos contemplados poderão ser vistos na edição da revista do próximo Inverno.

Os dois irmãos

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Há uns livros que, sendo romances, não são só romances. E é este o caso de Cláudio e Constantino, de Luísa Costa Gomes, recentemente publicado pela Dom Quixote e, ainda por cima, com uma capa que dá logo vontade de o comprar e ler num instantinho. É um romance (também) que fala da vida de dois irmãos (Constantino diabolicamente pensante e estridente, Cláudio – o mais novo – melancólico, frágil e sonhador): dois meninos de famílias muito boas (com casa grande, criados, preceptores, avós e muitas tias fantásticas); meninos de outro tempo e de outro país (há vestígios de quando e onde, mas nunca se refere exactamente um lugar ou um ano – e é melhor assim, porque esta história serve, na verdade, a todos os tempos e lugares). A autora chamou-lhe «uma novela rústica em paradoxos», um nome que está certo, bem entendido, mas pode parecer a alguns demasiado «caro» e afastá-los da leitura. Pois que nada vos afaste, caríssimos extraordinários, porque esta pérola é uma espécie de Alice no País das Maravilhas escrita por uma portuguesa, um romance profundamente afectuoso e pleno de graça sobre questões abordadas desde sempre pela Filosofia (o ovo de Colombo, o infinito, o círculo vicioso e muitos outros paradoxos apaixonantes). É também extremamente simples nas suas proposições – ou não fossem os dois irmãos ainda crianças, embora já com um fraquinho pelas primas Florença e Tristeza (os nomes são igualmente bem apanhados, garanto) –, o que torna a leitura escorreita e agradável, embora a linguagem seja especialmente cuidada, nada de equívocos. E tem episódios e personagens inesquecíveis, além de – obviamente – muitas histórias que nos fazem pensar, muito para lá de terminado o romance. Um livro muito raro na nossa literatura, enfim.


 


Correspondências

Antes que me venham dizer alguma coisa menos elogiosa, vou já avisando que este post é daqueles que não dizem nada de especialmente interessante (lamento não me ter lembrado de um tema com um mínimo de sumo, mas não pode ser sempre); em todo o caso, calculo que quem goste de livros goste também de um certo tipo de correspondências (acontece comigo) e tenha alguma curiosidade em saber, por exemplo, que livros foram publicados no ano do seu nascimento (os mais conhecidos, enfim). Eu, pelo menos, fui atraída por essa, chamemos-lhe assim, futilidade sem préstimo aparente, mas acabei por topar com um autor em que ainda não pus os olhos (Robert Heinlein) e fiquei de orelha arrebitada – já é qualquer coisa. Além disso, descobri que A Trégua, de Mario Benedetti (que apreciei muito, tal com o extraordinário ASeverino), foi escrito no ano em que nasci (se se derem ao trabalho de ver alguns dos grandes livros saídos entre 1911 e 1999, ficarão a saber a minha idade), bem como O Tambor, de Günther Grass, o alemão que viveu muitos anos em Portugal e ganhou o Prémio Nobel da Literatura. Se quer, pois, saber que grandes obras foram dadas à estampa no ano em que veio ao mundo, divirta-se: eu deixo-lhe aqui o link, enquanto vou pensar em algum assunto mais digno para o post do dia que aí vem.


 


 


http://homoliteratus.com/quais-foram-os-grandes-livros-publicados-na-data-de-seu-nascimento/

A filha do juiz

Deu-me para a literatura americana e, depois de Carson McCullers e Salinger, devorei um romance de Eudora Welty. Chama-se A Filha do Optimista e foi dos tais comprados a preço de saldo na Feira do Livro. Diz o New York Times Book Review que é o melhor da autora, mas quanto a isso não faço juízos, até porque o meu conhecimento da obra de Eudora Welty é ainda diminuto e sei que os contos são uma das suas coroas de glória. Mas adiante: enquanto lia, parecia que estava a ver um filme daqueles a preto e branco, passado nos arredores de New Orleans, com aquelas senhoras gordas sentadas num terraço na má-língua, criticando a flausina Fay, muito mais nova do que elas, que era uma pobre dactilógrafa e sacou habilmente o juiz McKelva, o viúvo que nunca se refez completamente da morte de Becky, primeira mulher e mãe da filha – personagem ausente mas, decididamente, a mais forte. O juiz está com um problema de saúde, pelo que Laurel McKelva vem de Chicago de propósito para o acompanhar: o pai é tudo o que tem na vida depois de ter perdido o marido na guerra. E o choque entre Laurel e Fay (entre a contenção e o histerismo) será o motor para a consciência do que aconteceu, as memórias do passado, a percepção dos erros do juiz com Becky e a solidariedade das vizinhas mais velhas e mais novas, sempre implacáveis nos seus comentários. Contando tristes episódios com uma ironia e tanto, Eudora Welty sabe criar ambientes e personagens com extremo realismo e ser por vezes, através da língua afiada das mulheres, de uma maldade que lembra um pouco a nossa Agustina. Uma frase no meio do romance de que gostei, a respeito dos vivos que perdem quem amam (o caso de Laurel, que perdeu os pais e o marido): «A culpa por sobrevivermos àqueles que amamos é justo que a carreguemos; sobreviver-lhes é uma desconsideração que lhes fazemos.» A ler, em suma.

A favorita

Existe uma livraria muito especial em Sines chamada A-das-Artes (se quiserem, podem acompanhar o que por lá se passa com facilidade, pois Joaquim Gonçalves, o seu proprietário, tem conta no Facebook e, além disso, alimenta um blogue oficial, no qual põe fotografias dos livros que vão chegando, mês a mês, e vai contando novidades e escrevendo críticas ao que vai lendo). Recentemente, a Ipsos Apeme, empresa líder em estudos de mercado, novas tendências e comportamento dos consumidores, resolveu lançar, com a ajuda da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, um desafio aos leitores para que votassem online na livraria portuguesa que, quanto a eles, tivesse o melhor atendimento. Pois bem, A-das-Artes foi a favorita! Bom sinal, claro, até porque é talvez a única resistente do litoral alentejano e uma das poucas a sul com um bom fundo (expressão que nada tem que ver com o que parece) à disposição na própria livraria, claro, mas também em várias bibliotecas e escolas onde Joaquim Gonçalves organiza actividades. Conheço muitos autores que já lá foram e se divertem sempre muito com o proprietário e os circunstantes, coisa que não me espanta nada. Parabéns, pois, para ele e a sua forma de atender quem gosta de livros.


 


P.S. Depois de publicado este post, avisam-me que a iniciativa é, efectivamente, da APEL. Perdoem-me a informação errada, por favor.

O que ando a ler

Gosto de conversar com os meus autores sobre os livros de que gostam e que andam a ler (coisas muito diferentes entre eles, evidentemente) e, em parte, estes bate-papos também me servem para descobrir que estou em falta com muitas coisas. Na última Feira do Livro de Lisboa, ouvi, por exemplo, David Machado falar com um tremendo entusiasmo de um romance que ainda vende 250 000 exemplares todos os anos nos EUA e deve ser um dos livros mais lidos pelos jovens (não crianças, entenda-se) norte-americanos. Trata-se de À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, que fui ler imediatamente – e um pouco culpada pelo atraso. É um excepcional relato feito pelo protagonista, Holden Caulfield, um adolescente de boas famílias que acaba de ser afastado do terceiro colégio caríssimo em que foi matriculado, por falta de interesse e más notas (na verdade, só passou a Inglês, pois adora livros e tem imenso jeito para escrever, tal como, de resto, o irmão mais velho, que trabalha como argumentista em Hollywood). Sem saber como aparecer em casa depois de receber aquela notícia, iremos acompanhá-lo entre esse sábado e a quarta-feira seguinte (o dia em que é suposto reunir-se à família, em vésperas do Natal) e assistir em directo ao seu périplo por Nova Iorque, a uma solidão que nos magoa, uma desadaptação que gostaríamos de o ajudar a resolver, um sem-número de encontros que não contam nada, mas lhe ocupam o vazio, muitos copos e idas a bares, muitas recordações de engates, de marmelada e do carinho por esse irmão que morreu com uma leucemia e cuja morte é também a razão da «perdição» do jovem narrador. A linguagem – muito apropriada à idade de Holden e, aposto, de dificílima tradução (a tradução, a propósito, é de José Lima) – deve ter feito furor na época e ainda hoje serve certamente para que muitos leitores de dezasseis anos se identifiquem com o narrador. Mas, tenha-se a idade que se tiver, é difícil não gostar deste rapaz que não sabe o que há-de fazer com a sua inteligência e a sua integridade e que é de uma sensibilidade irresistível. Não se atrasem, pois, como eu, para a leitura deste livro.