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A mostrar mensagens de novembro, 2012

Paixões proibidas

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Hoje à noite estarei pela primeira vez no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. É uma vergonha, eu sei, mas a verdade é que ainda não tinha arranjado tempo para lá ir e o pretexto apareceu agora. No ano passado, lancei um romance de Ana Cristina Silva intitulado Cartas Vermelhas, que se baseia na história verdadeira de Carolina Loff, militante comunista que se apaixonou por um agente da PIDE e, contra todas as expectativas, abandonou as suas funções (era, inclusivamente, espia) para viver com esse homem que a interrogara na prisão (e que também acabou por deixar a família por causa desse amor). Ana Cristina Silva confessou, por ocasião do lançamento público deste romance em Lisboa, que gosta de escrever sobre os conflitos interiores e as contradições deste tipo de personagens (é doutorada em Psicologia, o que pode explicar, pelo menos em parte, esse fascínio) e que, assim que ouviu falar de Carolina Loff, percebeu que não resistiria a dedicar-lhe um romance. Embora a investigação não tenha sido propriamente fácil (ninguém gosta de falar de traidores), a autora supriu as dificuldades com muita imaginação, reconstituindo, em capítulos que atravessam o romance e antecipam os que se referem cronologicamente à sua vida, o encontro de Carolina com a filha que abandonara na União Soviética em criança e só voltaria a ver com vinte anos. Finalista na mais recente edição do Prémio Literário Fernando Namora, Cartas Vermelhas será hoje apresentado no Museu do Neo-Realismo, às 21h30. Se estiver perto de Vila Franca, não perca.


 


 


Blimunda digital

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Blimunda é uma das mais interessantes personagens femininas da ficção portuguesa – e foi também, não por acaso, o nome escolhido para a revista literária digital lançada no ano passado pela Fundação José Saramago (evidentemente, o criador da personagem). Esta Blimunda vai no número seis e, desta feita, vem com novo grafismo, da responsabilidade do atelier do designer Jorge Silva, e é integralmente dedicada ao nosso Nobel da Literatura por ocasião do 90.o aniversário do seu nascimento. Os textos são assinados por gente de respeito, desde logo os críticos Harold Bloom, autor de O Cânone Ocidental, ou James Wood (aqui traduzido por uma colega minha, a Ana Beatriz Manso), mas também os escritores John Updike, Mario Benedetti ou Carlos Fuentes, já para não falar do nosso amado Eduardo Lourenço ou da italiana Luciana Stegagno Picchio, grande estudiosa das literaturas portuguesa e brasileira e infelizmente desaparecida em 2008. As ilustrações que acompanham os artigos (de André Carrilho, Alex Gozblau, João Fazenda e muitos outros) estão em exposição na Casa dos Bicos, na estação de Metro do Aeroporto e ainda na Biblioteca das Galveias, ao Campo Pequeno. Na secção infantil da revista, a obra de Saramago para crianças é objecto de estudo por Luísa Ducla Soares e Andreia Brites. Descarregue-se e leia-se.


 


 


Exemplos

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Estamos numa crise terrível – e acredito que os mais novos, crianças que de há uns anos para cá estavam habituadas a ter tudo, desde brinquedos caros, telemóveis e consolas até à possibilidade de frequentarem duas ou três actividades extracurriculares do seu agrado, se sintam agora especialmente lesadas e com enorme dificuldade em aceitar as contrariedades (os adultos percebem melhor estas coisas). Mas pode chegar-se muito longe a partir do nada, garanto, e esse foi o caso de Amália Rodrigues, cujo exemplo de tenacidade, inteligência, criatividade e trabalho deve ser dado às crianças como prova de que o dinheiro não é o mais importante para fazer a diferença. A Minha Primeira Amália (perdoem a publicidade), que escrevi e foi ilustrado pelo grande João Fazenda, é lançado amanhã no Museu do Fado, às 18h30, com apresentação de João Paulo Cotrim. Vai haver fados, bem entendido, e até tocará um sobrinho-neto de Amália, com oito anos. Estão todos convidados e gostaria muito que aparecessem.


 


Uma questão de popularidade

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Há pouco tempo, publiquei aqui no blogue um post que, como era de esperar, desencadeou alguma polémica. É verdade que não consegui esconder a minha indignação por não serem sequer finalistas dos prémios literários portugueses mais emblemáticos obras que considero singulares quer na carreira dos respectivos autores, quer no contexto da história literária portuguesa, preteridas a favor de livros que, quanto a mim, nem tinham nada de diferenciador na obra dos escritores, nem peso literário que justificasse a distinção. Era uma opinião, como todas as que aqui exprimo, pessoal – e, naturalmente, houve quem discordasse, o que, de resto, considerei positivo, pois, se todos pensássemos do mesmo modo, este mundo já excessivamente globalizado seria uma monotonia completa. Na altura, porém, não terei formulado uma pergunta que ficou escondida algures no meu cérebro, uma pergunta ruminante que se prende com a provável diminuição do nível médio dos livros que hoje se publicam em todo o mundo. E só faz sentido voltar a ela agora porque o best-seller As Cinquenta Sombras de Grey, da «erotica star» E. L. James, foi escolhido como finalista dos National Book Awards na categoria de Popular Fiction, uma espécie de Óscares literários britânicos. Talvez os seus concorrentes não sejam muito melhores – que sei eu de Victoria Hislop, por exemplo? –, mas lá que me pareceu outra vez muito estranha a inclusão de um livro que a crítica classifica como literariamente pobre e até mal escrito num prémio desta dimensão, isso não posso negar. Lá popular é ele – está toda a gente a lê-lo em todo o mundo (Portugal inclusive) e até já originou um pedido de divórcio à americana (uma senhora queixa-se, aparentemente, de que o marido não lhe faz nada do que o senhor Grey faz à rapariga com quem tem uma relação escaldante sadomasoquista). Mesmo assim, se a redacção é tão frágil como dizem, é justo encontrar-se em posição de vencer? Ou o nível médio baixou mesmo e escrever mal já não tem grande importância desde que se cometa a proeza de chegar a um número incrível de leitores?


 


 



 


 


 

Ler nas favelas

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Há mais ou menos duas semanas, a LeYa Brasil iniciou a publicação de uma colecção de autores portugueses, na maioria desconhecidos do lado de lá do mar, aproveitando a circunstância do Ano de Portugal no Brasil para apresentar a nova literatura portuguesa aos leitores brasileiros. Cinco escritores – João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Patrícia Portela, Patrícia Reis e Sandro William Junqueira (a ordem é alfabética) – partiram então para o Rio de Janeiro, onde, além de lançarem os respectivos romances na Livraria da Travessa (popularizada há uns anos, se não erro, por causa de uma telenovela), participaram na primeira edição de um festival literário (FLUPP) que se realiza em favelas – cabendo, desta feita, a distinção ao Morro dos Prazeres, no bairro carioca de Santa Teresa. Trata-se de uma das favelas que foram pacificadas com a intervenção da Polícia – que restituiu aos seus habitantes a ordem perdida com o tráfico de droga e a violência daí decorrente – e que agora se tornou palco de leituras de poesia, apresentações de livros e debates vários. Além dos portugueses, importa assinalar a presença dos gigantes locais Ferreira Gullar ou João Ubaldo Ribeiro e de alguns autores estrangeiros como o alemão Thomas Brussig ou o palestino Najwan Drawish. Espectáculos diversos compuseram um programa que se pretendia, segundo os organizadores, «interdisciplinar». Ora que boa ideia esta, a de levar a cultura aos mais desfavorecidos, sem ser através do gesto caridoso de oferecer livros às crianças pobres e aos presos. Será que, com a crise, não faria sentido montar uma coisa do tipo aqui em Portugal?


 


 



 

Desistir?

Há uns tempos, António Lobo Antunes (70 anos) avisou os seus leitores de que, embora não deixe provavelmente de escrever, não publicará mais nenhum livro além dos que tem já começados ou terminados (mesmo que ainda não tenham saído): um romance e um livro de crónicas. Pouco depois, foi a vez de o autor amado por muitos leitores deste blogue, Philip Roth (79 anos), vir dizer, numa entrevista em França concedida à revista Les Inrocks, que Nemesis foi o seu derradeiro romance, que há três anos não escreve uma linha de ficção e que tem estado apenas a organizar os seus arquivos para a biografia que lhe será dedicada, pois quer entregar todo o material em vida ao seu biógrafo (não escreverá ele próprio as memórias, como inicialmente se terá pensado). Logo a seguir, o húngaro Imre Kertész (83 anos), que ganhou o Nobel da Literatura em 2002 e tem alguns romances traduzidos em Portugal (Sem Destino é o mais conhecido e foi interpretado pelos críticos como autobiográfico), anunciou que não tenciona voltar a escrever, uma vez que acha ter esgotado o assunto que percorre toda a sua obra (o Holocausto – Kertész foi um dos sobreviventes dos campos de concentração). Que levará um escritor a desistir de fazer o que fez ao longo de uma vida ou a privar quem o lê dos seus últimos escritos? Cansaço – sobretudo no caso de Kertész, a idade pesará? Desencanto com o público? Desejo apenas de se livrar de compromissos, pressões dos editores e leitores, aparições em público (não creio que Roth saísse muito de casa, segundo li, mas nunca se sabe)? Enfim, uma perda para quem gosta de os ler, mas certamente um bom tema para nele reflectirmos todos a partir de agora.

Calhamaços

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Aqui para nós, confesso que ler um calhamaço na cama não me dá grande jeito e que andar com ele atrás está fora de questão: a coluna ressente-se logo e uma fumadora como eu chega ao último patamar das escadas a ofegar como se tivesse corrido cinco quilómetros ou mais. Mas, pelos vistos, os calhamaços estão na moda – e há quatro editoras que acabam de pôr na rua obras maiores em todos os sentidos, não querendo saber de quantos quilos conseguimos transportar ou suportar em cima do peito ou da barriga. Para começar, está aí finalmente A Piada Infinita, do escritor-mito David Foster Wallace, romance ora cómico, ora trágico, sempre complexo e, seguramente, notável (só li umas cinquenta páginas do original há anos e fiquei logo a saber que o meu inglês era insuficiente, por isso a notícia da tradução é tão boa). Depois, o único romance do Prémio Nobel da Literatura que tinha sido traduzido em Portugal mas andava arredado dos escaparates, Peito Grande, Ancas Largas, de Mo Yan, está de novo à disposição dos leitores que queiram conhecer a obra do nobelizado chinês. Em terceiro lugar, a obra magna que é Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, que muitos de nós lemos nos quatro volumes de capa branca (amarelecida entretanto nas estantes) da Ulisseia, apresenta-se agora num só tomo para os mais novos (que são também os mais fortes) lerem de enfiada – e são mil e tal páginas de intriga política e sexual na cidade egípcia que foi uma espécie de Paris no Médio Oriente. Por último, um grande (em todos os sentidos) ensaio de Antony Beevor, A Segunda Guerra Mundial, vem mostrar-nos como um tipo sem carisma chamado Adolf Hitler conseguiu chegar aonde chegou (e dizer-nos que os tempos que agora atravessamos têm bastantes semelhanças com esses em que a guerra na Europa eclodiu). Tudo muito interessante, tudo a ler, mas ai, as costas não vão aguentar...


 


 


Contar segredos

Poucas pessoas conseguem entrar na Coreia do Norte, mas tenho um velho amigo teimoso que, desde pequeno, colecciona países e conseguiu passar uma semana nesse que é um dos mais fechados lugares do mundo e trazer notícias surpreendentes (embora outras mais previsíveis) de Pyongyang. Andava sempre com duas pessoas a acompanhá-lo: um guia, para o ajudar com a língua e o levar aos sítios certos (ou o inibir de ir aos que não deviam ser visitados), e um controlador, para garantir que o guia não dizia mais do que aquilo a que estava autorizado nem arranjava maneira de se colar ao viajante para tentar a fuga nessa ou noutra altura. Falou-me, entre outras coisas, de uma espécie de museu de dimensão escandalosa, salas atrás de salas, onde estavam guardadas e expostas positivamente todas as coisas que tinham sido oferecidas ao Dear Leader por outras nações do mundo – e aonde o povo ia em romaria ao fim-de-semana, como nós, portugueses, rumamos aos centros comerciais – e entre as quais encontrou, calculem, um galo de Barcelos. Agora, o escritor José Luís Peixoto publica o primeiro livro de viagens sobre a sua permanência na Coreia do Norte ao longo de duas semanas, durante as quais teve o privilégio de assistir às comemorações do centenário de Kim il-Sung (o que, segundo ele, tornou mais fácil o convívio, talvez pelo clima de festa). Pelo que li numa entrevista, terá mesmo muito que contar, pois, ao contrário desse amigo que referi, Peixoto conseguiu afastar-se da capital, ir a cidades que não recebiam um estrangeiro desde os anos 50 do século passado (onde as pessoas se assustaram com a sua presença, chegando até a fugir) e conversar com um povo pouco habituado a forasteiros, com o qual comeu, bebeu e, pasme-se, dançou. Dentro do Segredo, assim se chama a obra, traz-nos «um país de ficção», mas a viagem de José Luís Peixoto aconteceu mesmo.

A vida partilhada

Tive a felicidade de conhecer pessoalmente Al Berto no final dos anos 80 – e conservo ainda, entre outras coisas que estimo particularmente, uma carta que ele me mandou a respeito dos meus primeiros poemas publicados, na qual tenho imenso orgulho, não por ele ter sido uma figura importante das letras portuguesas, mas pela pessoa adorável que era – generoso, cheio de humor, bom companheiro, de uma afabilidade sem limites (além de dizer poemas fantasticamente com aquela voz grave que eu adorava). Al Berto é uma referência para todos nós que escrevemos actualmente poesia e já ouvi Eduardo Lourenço chamar-lhe «o último poeta-mito português». Agora, a também poeta Golgona Anghel lançou-se na tarefa hercúlea de pegar nos trinta e seis cadernos e agendas de Al Berto e editar, a partir desse material, os seus Diários entre 1982 e 1997. Não contem, porém, com a descrição pura e dura dos movimentos quotidianos do escritor, porque, como a organizadora se apressa a explicar no texto que define os critérios que seguiu para a edição, uma parte desse material funciona «como laboratório de escrita», o que é, de resto, excelente notícia para os amantes da sua poesia, que aqui encontrarão razões suficientes para rejubilarem com textos que nunca leram ou leram de forma mais definitiva mas ignorando o que haviam sido no embrião. E as entradas que dizem respeito à vida da pessoa (aonde foi, como se sente, quem apareceu, de quem recebeu cartas, etc.) são tantas vezes visitadas por essa poesia a que nos acostumou que, como se refere na introdução, o homem e o escritor não são separáveis na entidade Al Berto e a realidade parece constantemente atravessada pela literatura. Um pequeníssimo exemplo: «[...] passam as luas e marcam nos vidros da janela um sulco de claridade.» São muitas páginas para ir lendo devagar, como a crónica de um pequeno grande mundo que admiramos.

Voltar à base

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Os livros hoje têm uma vida curtíssima, porque outros rapidamente ocupam o seu lugar no espaço onde são vendidos e nos nossos desejos acendidos por entrevistas e artigos portugueses e estrangeiros. Alguns, porém, quando os julgávamos mortos e enterrados, regressam à base como uma espécie de fantasmas que não gostaram de ser esquecidos. Há para aí uns dez anos, publiquei, na Temas e Debates, um romance histórico chamado O Segredo da Bastarda, da escritora argentina radicada em Portugal Cristina Norton, que vendeu seis edições num virote mas, como muitos outros, acabou por desaparecer das livrarias ao fim de uns meses. Eis, no entanto, que o descubro agora no programa de um colega da Oficina do Livro, de cara lavada e, pelos vistos, revisto e ampliado, pronto a concorrer mais uma vez com as novidades e oferecendo-se, tentador, aos leitores que gostam do género histórico, mais ainda quando a acção e as personagens são portuguesas. Que os nossos reis tinham filhos fora do casamento, todos sabíamos, mas é voz corrente que D. João VI foi tantas vezes enganado pela sua Carlota Joaquina que dele não se esperavam bastardos (enteados, sim). O romance de Cristina Norton não é, no entanto, uma ficção completa, pois baseia-se em documentos encontrados numa outra investigação que provam que o monarca que fugiu para o Brasil com a sua corte também fez, afinal, das suas no campo da alcova. Com belas descrições da vida da bastarda durante a infância no país irmão e do choque do regresso à pátria cinzentona onde se torna próxima da rainha (e do rei, o que já não foi assim tão bom), este livro agradará certamente aos que apreciam ler sobre a História de Portugal e dos seus reis e súbditos. Promete-se um final levemente camiliano.


 



 

90 desassossegados anos

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Já não caio na esparrela de esquecer o aniversário de um grande escritor nem desiludir os que amam os seus livros e vêm aqui ao blogue conferir se por acaso me lembrei. Atrasei-me em relação a Agustina, mas hoje não quero deixar de dar conta da efeméride: Saramago faria 90 anos neste 16 de Novembro e a fundação com o seu nome vai comemorá-los com um «Dia do Desassossego» que pretende repetir a partir de agora nesta data e que, citando os responsáveis, «quer que se transforme numa festa cívica e da cultura». Os leitores são, assim, desafiados e saírem à rua com o seu exemplar de O Ano da Morte de Ricardo Reis (um dos seus melhores romances, digo eu) debaixo do braço para dizerem, desse modo, a toda a gente com quem se cruzem que esse é, decididamente, um livro que tem de ser lido (mas ninguém se ofenderá se levarem outra obra do autor). Na Casa dos Bicos, festejar-se-ão também os trinta anos da publicação de Memorial do Convento e haverá vários acontecimentos à volta disso (a entrada neste dia e no seguinte é gratuita!). Inspirando-se nas palavras do escritor – «Escrevo para desassossegar os meus leitores» – lança-se este belo apelo à leitura dos livros do nosso Nobel da Literatura. Não se esqueça do seu exemplar. Parabéns, Saramago.


 


 


As máscaras

Confessei um dia destes que estava curiosa e que iria ler – e cumpri. O Manel trouxe-mo num sábado e, assim que pude, deitei-lhe a mão. Duas noites bastaram para o começar e acabar, porque são pouco mais de cento e vinte páginas em letra de bom tamanho para quem já usa lentes progressivas há uns bons anos. Chama-se O Lago, assina-o Ana Teresa Pereira e é o romance que acaba de vencer o mais emblemático prémio literário português, o da Associação Portuguesa de Escritores. Uma certa estranheza acompanhou-me, porém, ao longo de toda a leitura: sendo um livro de uma autora portuguesa, tive a sensação de que estava a ler uma tradução e até a ver o que eu teria traduzido de outro modo. Ou a autora só lê praticamente livros ingleses – e se calhar até pensa em inglês – e, por isso, quando escreve é bem capaz de ter, ela própria, de traduzir mentalmente (palavras comuns como «representar» ou «falas» no contexto do teatro são quase sempre substituídas por «actuar» e «linhas», do inglês «act» e «lines»); ou a colagem à língua inglesa é deliberada, uma vez que a história se passa em Londres, com uma actriz e um encenador anglófonos, e todos os títulos das peças e dos livros referidos aparecem naquela língua, mesmo quando a tradução é usada correntemente em Portugal (Death of a Salesman, em vez de Morte de Um Caixeiro Viajante, ou Three Sisters, em vez de As Três Irmãs, entre muitos outros). Não posso contar grande coisa do enredo, porque este é um daqueles casos em que até um resumo muito breve estragaria o prazer da descoberta (o próprio editor pôs um excerto na contracapa, e não uma sinopse), pelo que o máximo que avançarei é que se trata de um romance sobre a relação entre o actor e a personagem que deve compor, sobre a personagem escrita e a sua materialização, sobre a criação de uma obra dramática e a sua construção posterior em palco. E também sobre a paixão e o medo, a entrega e a perda. Interessante? Sem dúvida. Já vi filmes e li livros sobre o tema de que gostei muito mais, é verdade, mas também é possível que estivesse simplesmente de pé atrás. Por isso, o melhor é lerem para tirarem as teimas. Coisa maravilhosa mesmo é não ter encontrado uma única gralha.

Prenda de aniversário

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Recentemente, a Dom Quixote organizou uma sessão mais ou menos íntima para comemorar o décimo aniversário da primeira edição de O Vento Assobiando nas Gruas (sim, também se falou da estranheza do título), de Lídia Jorge. Quando digo «íntima», quero sobretudo dizer que não se tratou de uma festa com bolo e champanhe, embora, tanto quanto sei, a entrada não estivesse restringida apenas a uns happy few – aliás, acabou por aparecer muito mais gente do que o petit comité que a escritora imaginara. (Desculpem tanto estrangeirismo, não sei o que me deu hoje.) Devo dizer que foi, em muitos anos de livros, um dos melhores fins de tarde a que tenho assistido, porque, instigada pela jornalista Filipa Melo, Lídia Jorge não parou de dizer coisas interessantes, sérias quase todas – e muito sérias – mas não deixando de temperar a conversa com umas pitadas de humor que deliciaram a assistência. Entre elas, uma história que dedico especialmente ao meu leitor «Monchique», que é, segundo percebi, um amante de Agustina. Pois confidenciou Lídia Jorge que, pouco depois de ter publicado o seu primeiro romance (O Dia dos Prodígios), recebeu da grande senhora do Norte uma cartinha que dizia o seguinte: «Bem-vinda a esta arca da desaliança. Oxalá a leiam. Oxalá lhe paguem.» Genial, como só ela consegue ser. O romance de Lídia que fez dez anos, e que ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da APE e o Prémio Literário Correntes d'Escritas, está aí de cara lavada para quem perdeu a oportunidade de ler uma das cinco edições anteriores. A ele voltarei, naturalmente, um dia destes: uma sessão que rende dois posts já se viu que foi boa, uma prenda para quem lá foi.


 



 

O homem-ilha

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Perco-me por retrosarias e sou capaz de ficar horas a olhar para as suas montras ou lá dentro a mirar mil botões, fitas, novelos e fivelas como quem aprecia minúsculas obras de arte. Também por isso gostei tanto de ver o senhor Askenasi – o protagonista de A Ilha, de Sándor Márai – maravilhado diante da vitrina de um retroseiro, descobrindo a cor e o pormenor em tudo e compreendendo como andara, afinal, arredado das coisas belas da vida, embrenhado num quotidiano de livros, ordem e previsibilidade. O estudioso das palavras, professor de Grego, católico e sorumbático Askenasi ainda não está, porém, na ilha do título quando tira os óculos e vê o que antes nunca vira, mas numa estância balnear do Adriático, na qual se apeou a meio de uma viagem que o deveria levar de Paris, onde reside, à pátria de Homero – viagem que lhe aconselharam os amigos, convencidos de que assim recuperaria da insanidade que o fizera deixar a mulher, a filha e até o trabalho para viver com uma bailarina russa de reputação discutível e estranhas companhias. Mas nem a mulher abandonada nem a amante sensual parecem, porém, responder à sua satisfação, constituindo-se apenas como etapas anteriores a uma meta que Askenasi busca, incansável, e que pressente estar nesse lugar frequentado por turistas alemães pacóvios e metediços. Para a ilha, só irá realmente na sequência de um encontro com uma terceira mulher que o atrai ao seu quarto no Hotel Argentina e que ele crê irá dar-lhe a resposta que nem Deus é capaz de lhe dar. Magnífica, como toda a obra de Márai, esta novela lembra um pouco a solidão dos protagonistas de Morte em Veneza, de Mann, e do conto O Homem que Amava as Ilhas, de D. H. Lawrence, e também a novela homónima de Giani Stuparich, de que já aqui falei. Bela e imprevisível, representa o homem como a sua própria ilha, o indivíduo diante do seu destino inescapável.


 



 

Ler na íntegra

Há muitos anos, o jurado de um prémio de poesia sem grande relevo confidenciou-me que não tinha lido todas as obras a concurso e que o mesmo se passara com os seus colegas. Numa altura em que não havia a profusão de prémios literários que existe actualmente (quase todas as Câmaras Municipais têm um prémio com o nome de um escritor nascido nas suas bandas), haviam concorrido àquele mais de seis centenas de originais – e quase todos de um nível confrangedor. Por isso, assim que apareceram, após trezentos ou quatrocentos livros maus, meia dúzia de obras com inequívoca qualidade para vencer, os elementos do júri comunicaram uns com os outros, atribuíram o prémio à mais votada e já nem abriram as caixas que sobravam. Não sei se isto é verdade, e estou a vender o peixe pelo mesmo preço que mo venderam a mim, mas às vezes há decisões que me fazem pensar se, efectivamente, os jurados lêem mesmo integralmente as obras a concurso. Tendo em conta que em Portugal se publicam anualmente centenas de romances, será que é possível cumprir essa tarefa? Imagino que a maioria dos membros de um júri deste tipo sejam críticos, académicos, jornalistas ou mesmo escritores com outros afazeres – e não é crível que arranjem tempo para tantas leituras integrais. Mas sei também que essas pessoas, regra geral, já têm uma noção dos autores a quem, de facto, é fundamental prestar atenção, mesmo antes de saberem quais as obras concorrentes: os consagrados, bem entendido, e, talvez, dos mais novatos, aqueles a quem foram dedicadas muitas críticas positivas e espaço num ou noutro programa cultural de rádio e televisão. Este ano, porém, fiquei bastante surpreendida com os vencedores dos maiores galardões para romances em Portugal, e não porque os livros em causa não os mereçam (vou, aliás, lê-los a ambos e quiçá concordar com a escolha), mas por nenhum deles ter sido, desde a publicação, objecto de aplauso estonteante e haver até um que passou algo despercebido; e igualmente por estarem a concurso dois gigantes, dois livros que levaram uma vida a ficar prontos, implicaram um trabalho incomparável de investigação e construção ficcional e foram referidos em todo o lado de forma elogiosa, mas que não foram sequer finalistas de, pelo menos, um dos prémios. Falo, naturalmente, de As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, e de Tiago Veiga, de Mário Cláudio, que são marcos não apenas nas respectivas carreiras, mas também na própria literatura nacional, e foram preteridos nas selecções, primeiro, e nas votações, depois. Não houve, tenho a certeza, nenhuma espécie de favoritismo (ou o seu contrário); contudo, lembrando essa antiga conversa que refiro no início deste post, ocorreu-me que são os dois bastante volumosos – entre setecentas e cinquenta e mil e tal páginas – e não consegui deixar de perguntar-me se terão sido lidos na íntegra por todos os membros desses júris. Não desfazendo nos vencedores, claro, espero que esta minha dúvida não tenha nenhuma espécie de fundamento.

Crianças protagonistas

Uma vez, numa velhíssima série de televisão dedicada à sétima arte, ouvi um realizador dizer que uma das coisas mais difíceis em cinema era trabalhar com crianças e animais, pois não havia ensaios que anulassem a sua espontaneidade, nem estratagemas que os convencessem a ficar quietos quando era preciso. Por mim, há muitos filmes com crianças nos papéis principais que me fizeram delirar de comoção – entre os quais destaco a primeira parte de Cinema Paraíso ou o mais antigo Lua de Papel, bem como o inesquecível Na América, que se tornou um dos meus preferidos pelas interpretações das duas meninas que acabam de perder um irmão. Mas há, mesmo para os que não são fãs de Manoel de Oliveira, um belíssimo filme português chamado Aniki-Bóbó – a primeira incursão na ficção do mestre centenário – representado por crianças, que levanta questões sociais importantes, numa espécie de neo-realismo cinematográfico avant la lettre (os italianos só começaram depois). Manuel António Pina – de quem é imperioso voltar a falar para que nunca seja esquecido – escreveu um ensaio sobre a obra de Oliveira intitulado simplesmente Aniki-Bóbó, no qual defende que, depois deste filme, o cinema português nunca mais conseguiu ser tão poético. No final do volume, agora publicado na Assírio & Alvim, figura a preciosa filmografia do mestre portuense, que pode ser consultada sempre que a memória nos falhe sobre o nome de um filme ou a data da sua exibição. Na capa, Eduardito, Teresinha e Carlitos olham, na montra de uma loja, a boneca que contribui para umas das mais dramáticas cenas deste filme maior.

Presente!

Sou há pouco tempo editora do escritor Mário Cláudio e, embora nos vejamos raramente (ele vive no Porto e eu trabalho em Lisboa) – e os nossos encontros sejam, em regra, breves –, a verdade é que, quando nos reunimos, aprendo sempre alguma coisa com a sua experiência e a sua inteligência (perdoem-me a rima, mas para estas palavras não há sinónimos). Há uns dias, ele fez-me reparar numa coisa a que ainda não tinha prestado atenção – e estava, de resto, bastante indignado ao partilhá-la; dizia-me que hoje, quando as pessoas falam de Agustina, usam o passado, como se ela tivesse morrido (fez noventa anos em 15 de Outubro e não publica há uns tempos, mas, caramba, está viva); e contou-me que, num colóquio recente, os participantes, mesmo diante da filha, falavam de Agustina como de alguém a quem, efectivamente, já não corresse sangue nas veias, o que – imagino – deve ter sido bastante incómodo. Fiquei, por isso, muito contente quando nesse mesmo dia fui ao Facebook e tinha um convite do editor Vasco Silva, da Babel, para gostar da página de Agustina Bessa-Luís; e, quando fui lá pôr o Gosto, tive o brinde de um belo cabeçalho com a frase Longos dias têm noventa anos numa clara alusão ao aniversário da escritora, evidentemente, mas também a um dos seus livros de que mais gosto (Longos Dias Têm Cem Anos), cujo exemplar já se está a desfazer na minha estante de tão manuseado. Os bons escritores – entre eles, Agustina – estarão vivos até depois de mortos; e, mesmo então, terão – parece-me – todo o direito ao presente do indicativo.

Editores-escritores

Há pessoas que estranham que não tenha publicado os meus livros – a maioria, pelo menos – nas editoras por onde fui passando; as únicas excepções, em mais de quarenta títulos (entre livros de crianças e livros de adultos), foram uma encomenda recente (e mesmo assim reflecti antes de a aceitar) e uma teimosia antiga (do então patrão, mas talvez devesse ter sido ainda mais teimosa). Conheço um editor-escritor que, como dono da empresa, decidiu ao contrário, tornando-se o seu próprio editor; e outro que publica regularmente na editora para a qual trabalha sem nenhuns problemas de consciência. Mas outros há que publicaram os seus livros na concorrência, embora eu já não consiga dizer, a esta distância, se já eram editores na altura, se foi justamente a escrita a levá-los à edição. E até se passou comigo uma história engraçada, que foi terem-me pedido há muitos anos para ler e avaliar um original, e eu ter descoberto mais tarde que se tratava do romance de um editor conhecido (livro que, parece-me, nunca chegou a ser publicado e, aqui para nós, ainda bem). Actualmente, tenho dois colegas no meu local de trabalho que se estrearam como autores de ficção quando eram jornalistas, tendo um deles sido inclusivamente galardoado com um importante prémio pela obra de estreia e o outro contado nada mais nada menos do que com António Lobo Antunes na apresentação pública do romance. Pois a verdade é que, desde que se tornaram fazedores de livros alheios, não voltaram a publicar – e o mesmo aconteceu, por exemplo, a Nelson de Matos, que foi durante muitos anos editor da Dom Quixote, mas antes disso tinha escrito um romance intitulado Giestas da Memória (o Manel também publicou quatro livros de poesia, mas deixou-se disso quando passou a editor). Será que as duas actividades se anulam ou se complementam? Ler tirará a vontade de escrever ou acentuá-la-á? E como reagir quando um colega de repente nos pede para lhe lermos um original e descobrimos que, afinal, é dele e até não nos importaríamos de o publicar, mas não sabemos se ele quer fazê-lo na própria editora?

Queridos anos 60

Quem viveu nos anos 60 e viu a série Conta-me como Foi, não pôde deixar de evocar episódios e cenas da sua vida naquela reconstituição de época primorosa. E agora, por muito que nos digam que Portugal evoluiu de forma espectacular nos últimos quinze anos, há um livro fantástico à venda – LX60, de Joana Stichini Vilela (texto) e Nick Mrozowski (projecto gráfico) – que nos ensina como o País nunca mais foi o mesmo depois dos anos 60 do século passado. Foi só nessa década, por exemplo, que os lisboetas puderam andar de metro, viver nos Olivais, atravessar a ponte de carro para a outra margem do Tejo, comprar num supermercado ou ir à Feira Popular (coitada, já lá vai), dançar nas discotecas ou mesmo passar um fim-de-semana num hotel de luxo como o Estoril-Sol (que também já não temos). Mas nem tudo foram rosas, claro, com a Guerra Colonial, a PIDE a matar e torturar, a esperança média de vida aos sessenta e tal anos, mais de 80% dos partos em casa, umas cheias que destruíram centenas de lares e um terramoto que assustou todos na capital. Contra algumas dessas pragas, havia, porém, tertúlias nos cafés, livros proibidos que passavam por baixo dos balcões, programas de TV inteligentes como o Zip Zip e revistas pensantes como O Tempo e o Modo. Claro que o povo também se divertia com o Festival da Canção, as Misses e Eusébio a jogar à bola… Este livro, para quem viveu nos anos 60, é precioso: remete-nos para um tempo que foi marcante numa certa emancipação dos portugueses e das portuguesas (ah, a mini-saia!) e leva-nos numa viagem ao passado de um País que estava cheio de vontade de ser outra coisa. Para ler e folhear.

Pré-presidente

Correndo o risco de desagradar a alguns dos leitores deste blogue, confesso aqui abertamente que não tenho qualquer simpatia pelo actual presidente da República e nunca me comoveu a sua história de self-made man difundida pelos seus eleitores para que, pelo menos, o admirássemos; não nego, mesmo assim, que durante muito tempo o achei uma pessoa séria, embora a minha opinião se tenha manchado com aqueles juros altíssimos dos seus investimentos no BPN (quando a esmola é grande o pobre desconfia), mas nisso também não serei muito original. Jorge Sampaio foi um presidente mais ao meu gosto, admito, alguém que não apareceu na esfera da política só depois do 25 de Abril e suficientemente culto e informado para não meter gafes, não contar piadas sem piada, não se desculpar com os netinhos por não estar onde era preciso e, sobretudo, não dizer que a mulher tem uma reforma de caca ou outros dislates do mesmo tipo a pessoas que ganham o ordenado mínimo ou estão desempregadas; sério também ele, teve além disso a coragem de demitir um governo que, a esta distância, se calhar até era menos incompetente do que o actual (que o que decide à terça altera à quinta, pensando melhor por outras cabeças). Desconhecia até recentemente que Sampaio mantinha uma espécie de diário desde jovem – e foi com esses muitos caderninhos como base que o jornalista José Pedro Castanheira lhe traçou agora a biografia que, longe de ser apenas uma «vida», é a história de Portugal (e não só) com ele como protagonista. Mas atenção: o livro que saiu é apenas um primeiro volume, que vai até à sua entrada na Câmara de Lisboa como presidente; o resto – creio que a parte que melhor conhecemos, mas, nestas coisas, nunca se sabe – será objecto de um segundo tomo. Para quem se interessar, uma vida cheia e inspiradora.

O que ando a ler

Hoje é dia de dizer o que ando a ler. Pois bem, a Assírio & Alvim está a reeditar toda a obra de Almeida Faria. O seu primeiro romance, publicado em 1962, quando o autor tinha apenas 19 anos, acaba, de resto, de sair. Rumor Branco, tão diferente de tudo o que fora escrito até à data (e ainda hoje moderno), foi uma espécie de bomba nas letras nacionais, pouco habituadas às transgressões gramaticais (ausências de pontuação, minúsculas a seguir a pontos finais...) e a certos «maneirismos» (foi assim que alguns críticos lhes chamaram) que faziam pouco caso de uma história no sentido tradicional e impunham, em vez dela, fragmentos com um protagonista (Daniel João), nos quais não eram raras as rimas internas, as palavras cruas que na altura deviam soar ofensivas, certas ideias claramente anti-regime e muita, muita filosofia. E, por se tratar de uma escrita nova, novíssima, alguns intelectuais acolheram-na muito positivamente, noutros provocando, pelo contrário, irritação maior. O leitor tem a liberdade de fazer o seu próprio julgamento (o livro foi reeditado para ser lido ou relido, evidentemente), mas não deve perder, além do texto, a polémica que nasceu entre um seu defensor, Vergílio Ferreira (que assinou o prefácio à 1.ª edição) e Pinheiro Torres, o crítico que tentou, de algum modo, apequenar a obra, virando-se não contra o autor (a quem até reconheceu talento), mas contra o escritor que a apadrinhara (esta troca de galhardetes consta do volume agora editado). E nem interessa assim tanto saber se ganha o «existencialista» ou o «neo-realista», porque são absolutamente notáveis os textos de um e de outro, magnificamente cultos e escritos com perfeição, cheios de maldade ilustrada e recadinhos muito bem investigados, tudo coisas difíceis de encontrar nos tempos que correm, em que, salvaguardadas as excepções, as polémicas são mais pequeninas, mais mesquinhas e mais mal escritas. A ler de ponta a ponta, claro.