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A mostrar mensagens de abril, 2024

Camões

Celebram-se em 2024 os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, mas, curiosamente, não se tem ouvido falar muito daquele que é sem qualquer dúvida o maior poeta português, o mais prolixo e variado, aquele cuja vida foi realmente uma aventura mas cuja obra demonstra um talento que muito dificilmente será ultrapassável. A editora Guerra e Paz levou o assunto a sério, e ainda bem, dando à estampa, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, a obra de um outro autor de renome, Jorge de Sena, sobre Camões; e, de uma assentada, lança O Pensamento de Camões (quatro ensaios sobre a lírica e a épica do mestre), Os Lusíadas e a Visão Herética (obra que inclui a versão integral d'Os Lusíadas apresentada por Sena) e Babel e Sião, que inclui um conto de Sena sobre Camões escrevendo o belíssimo Sôbolos Rios. E promete para breve mais dois volumes: Cartas e Poemas e ainda o segundo volume do Reino da Estupidez, onde podem ser encontrados mais dois ensaios sobre o grande Luís Vaz. Espera-se ainda, na Contraponto, a biografia do poeta pela pena de Isabel Rio Novo, que deve estar a chegar por estes dias. Não se fala, mas pelo menos publica-se. Caramba, o homem merece.

Um género sem género

Com a minha experiência ao longo dos anos, vejo-me mais ou menos obrigada a concluir que o género denominado «thriller» (não consigo traduzir, desculpem, e não, não é um policial), com bastante suspense, reviravoltas inesperadas e o efeito de nos deixar por vezes nervosos ou ansiosos, é mais lido por homens do que mulheres. E, porém, encontro no The Guardian um interessante artigo que refere que muitos dos mais significativos thrillers psicológicos foram escritos justamente por mulheres. Desde logo, o agora bastante badalado Ripley (O Talentoso Mr Ripley, assim se chama o livro), assinado por uma mestra do suspense, Patricia Highsmith, que inventou esta personagem tremenda e sonsa que se aproxima de um velho colega rico, o mata e depois se faz passar por ele, vivendo a vida de rico que sempre ambicionou. Mas também há uma menção a Daphne du Maurier e ao seu incomparável Rebecca, de que Hitchcock fez um filme inesquecível com Laurence Olivier no papel do viúvo que traz a nova mulher para a sua propriedade isolada, onde a governanta não a deixará sossegada, contando constantemente como era no tempo da falecida. Podemos ainda falar de livros como A História Secreta, de Donna Tart, sobre um grupo de estudantes que mata um colega logo na primeira página, ou Em parte Incerta, de Gyllian Flynn, ou mesmo o mais recente best seller A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins. Afinal, parece que também há mulheres dadas ao género, contrariando os dados oficiais...

Um regresso difícil

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Numa manhã de 1970, numa aldeia montanhosa italiana, a professora Silvia sai de casa, compra o jornal e, em vez se dirigir para a escola, penetra no bosque e desaparece. No jornal, leu a notícia terrível de que uma das suas alunas, de apenas onze anos, se suicidou – e sente-se tão culpada que não consegue encarar ninguém. A aldeia em peso procura-a por todo o lado, mas, à medida que os dias passam, fica claro que é talvez demasiado tarde para a salvar. Silvia vai ser, na verdade, encontrada faminta e descabelada por um rapazinho solitário, Martino, que chegou à aldeia há pouco tempo para se tratar da asma e costuma passear no bosque. Consciente de que a professora não está pronta para regressar ao convívio da família e dos alunos, será Martino quem lhe trará água e comida e quem conseguirá fazê-la contar-lhe tudo, prometendo não revelar o seu esconderijo a ninguém. Baseado numa história real, a partir de relatos de família e artigos de jornais, Voltar do Bosque – que evoca a prosa de Pavese – é a história de um trauma, de uma amizade improvável e da comunhão do ser humano com a natureza. Nomeado para o Prémio Strega em Itália em 2023, é um romance de estreia absolutamente excepcional.


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Escrever Um Livro

Conheci José Couto Nogueira há muitos anos, se calhar na mesma altura em que publicou um romance que, salvo erro, se chamava Um Táxi em Nova Iorque, contando a sua experiência pessoal na Grande Maçã como motorista de um táxi amarelo. Depois disso, ele não publicou muito mais, passando a dedicar-se aos cursos para quem quer escrever e apresentar um livro a um editor sem meter o pé na argola. Já há muitos anos que orienta estes cursos no El Corte Inglés ao longo de seis sessões em horário pós-laboral, convidando especialistas em vários assuntos (revisão, edição, etc.) para ajudarem à festa e tornarem tudo mais útil e realista. Eu fui uma vez falar de autores portugueses e editing e gostei. Este ano, o curso terá a visita de dois autores que irão falar do seu percurso pessoal e profissional, tornando a coisa ainda mais apetecível. A partir de 6 de Maio, sempre às 18h30, haverá lições também nos dias 13, 20 e 27 de Maio e 3 e 17 de Junho (10 é feriado). Se quer aprender os mandamentos da literatura e os pecados dos escritores, inscreva-se.


P.S. 25 de Abril sempre! (Até sexta!)

Dia Mundial do Livro

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Hoje é Dia Mundial do Livro (aniversário de Cervantes e Shakespeare!) e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros organiza uma celebração digna desse nome no Largo do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, para a qual convida todos aqueles que estão ligados ao livro, embora de formas distintas: escritores, tradutores, revisores, paginadores... e, claro, leitores, os principais responsáveis por ainda haver livros. As comemorações  iniciam-se às 18h00 e vai haver música e conversas sobre esta coisa maravilhosa chamada livro, cuja morte já foi anunciada muitas vezes, cujo desaparecimento foi uma ameaça em vários períodos da História da Europa, mas que parece continuar aí de pedra e cal, vivinho da silva, o que são óptimas notícias para os que visitam este blogue. Por isso, se tiver vontade de passar um fim de tarde com muita gente com quem tem afinidades, não falte. A entrada é livre.


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Personagens

Não leio muito teatro, embora já o tenha feito regularmente noutra época da minha vida; mas gosto dos Livrinhos de Teatro publicados pelos Artistas Unidos (ah, que falta nos faz o Jorge Silva Melo, que era tão bom, entre outras coisas, a apresentar livros); são uns livrinhos pequenos que se metem no bolso ou na carteira, andam connosco sem pesar e são ideais para quando vamos ao médico ou à fisioterapia (o meu caso) e temos de esperar às vezes meia hora pela nossa vez. Recentemente, André Murraças mandou-me um destes livrinhos com três peças suas (Sombras Andantes, O Triângulo Cor-de-Rosa e Fronteiras); e, com pena de não ter visto as peças (porque o texto promete), fiquei presa à última das três, porque, para mim, funciona um pouco como um estudo de personagens (tal como acontece com as «fichas» do romance As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral) e deveria ajudar aqueles que dão cursos de Escrita Criativa, por exemplo. Os lugares vão mudando (podemos estar num comboio para Auschwitz, em Nova Iorque, em Berlim ou num barco de migrantes a caminho de Lampedusa) e, em cada um deles, uma ou mais personagens são-nos apresentadas pelo autor-encenador-narrador com grande mestria. Os casos são muito variados: uma das primeiras pessoas que mudaram de sexo no mundo; um português que fugiu da Guerra Colonial saltando a monte para França; uma pretensa espia que ficou detida em Ellis Island; ou mesmo Harry Houdini. Muito eficaz e imaginativo, pode ser lido como um conjunto de microficções e também por quem gosta de ver como se constrói uma personagem a três dimensões.

Excerto da Quinzena

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Foi nessa contemplação que apareceu num canto escuro uma mulher desagasalhada a embalar uma boneca, parecia alheia a todos os conceitos, métodos e simbologias da noite. Transferi para ela a compaixão, a mesma que eu teria para a mãe de Deus. Mãe é mãe.


Flor regressou, parou junto da mulher — parece que nos vinha observando — e entregou-lhe uma moeda de um dinheiro, «Noite feliz», desejou-lhe, deu-me a mão e tirou-me para o adro onde homens e mulheres recém-comungados desfrutavam do salutar parlatório pós-missa, todos de cabeça coberta por lenços e chapéus, não fazia sol, mas os catequizaram que nem só do sol e da chuva deve a aura ser protegida, é mister também resguardá-la do enguiço do próximo e das botas de Satã.


_ Onde arranjaste o dinheiro?,


perguntei-lhe com um riso inquisitório.


_ No pecado,


respondeu-me.


Sem mais cavaco, agarrou-me novamente pela cintura, ajustou seu passo esquerdo com o meu direito e bamboleámos rua acima, felizes por voltarmos aos dezassete, trinta anos depois.


 


Mário Lúcio Sousa, O Livro Que Me Escreveu


 


P.S. O lançamento é hoje, e tem música! Estão todos convidados. Apareçam!


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Memórias

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Há excelentes livros de memórias, embora não deixe de confessar que é um género que raramente visito, sempre condicionada pelo ofício de lançar autores de literatura e ter de acompanhar o que por aí se vai escrevendo em matéria de ficção. Mas estas Memórias Minhas, de Manuel Alegre, podem ser lidas aos bochechinhos, pois são, antes de tudo, feitas de pequenos fragmentos muito legíveis, embora arrumados depois em capítulos com temas específicos, maiores ou menores, o que facilita muito irmos direitinhos ao que nos interessa e também nos permite folhear e ir lendo aqui e ali uns parágrafos (eu, pelo menos, já li assim muitos episódios relacionados com a sua candidatura à Presidência da República e com a escrita e o mundo dos livros, que foi por onde quis começar). Importante é também o facto de o poeta-político nos dar um testemunho privilegiado quer do país cinzentão da ditadura que o mandou à guerra, perseguiu e exilou, quer do período democrático, no qual teve esperanças e desilusões, simpatias e desavenças, incluindo com os do seu partido. Esta é, pois, uma viagem para todos os que querem revisitar o Portugal dos últimos sessenta ou setenta anos e a sua história social e política, mas também alguns episódios pessoais que sempre tornam mais coloridos os livros de memórias.


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Mãe e filha

Mãe e filha chamam-se curiosamente Annie John, que é também o nome do romance onde ambas existem. Um livro da autoria da escritora Jamaica Kincaid, bastante conhecida (e já pensada muitas vezes para o Nobel da Literatura) lá fora, mas só agora lançada em Portugal com tradução de Alda Rodrigues. Kincaid, nascida em Antigua, caribenha e americana, ambienta a sua história nesta ilha, olhando para uma menina a crescer. Primeiro, vemo-la loucamente apaixonada pela mãe (que é trinta e cinco anos mais nova do que o marido, um construtor que já teve outras mulheres, mas a mais bonita de todas): acha-a linda, beija-a, abraça-a, a mãe é tudo para ela, embora também haja espaço para as colegas de escola, onde a pequena Annie é adorada e idolatrada, até porque é uma excelente aluna, e usa essa adoração como poder. Mas um dia chega a adolescência, como uma espécie de doença que atira Annie para a cama e a faz regredir inclusivamente no amor pela mãe, que não lhe dedica talvez o tempo e a atenção que a filha julgava merecer, até porque a vemos continuamente a lavar, cozinhar, estender roupa, ir às compras... E a descrição desse período tremendo de adaptação a uma nova condição feminina é realmente notável, raras vezes abordado de uma maneira pungente, que inclui mãe e filha num conflito mais silencioso do que gritado, mas grave e cheio de lágrimas. Vale a pena ler esta escritora, vamos acompanhá-la decerto noutros romances.

Arte, cultura e humanismo

Na semana passada escrevi aqui um post sobre escritores da mesma família e, mais especificamente, pais e filhos escritores. Os Extrardinários fizeram o favor de me lembrar muitos exemplos que não me tinham ocorrido (e alguns sem desculpa, pois até conheço as pessoas), entre os quais os de Sophia de Mello Breyner e do seu filho Miguel Sousa Tavares ou da sua filha Maria Andresen. Mas o filho de Miguel, neto de Sophia, de seu nome Martim (Sousa Tavares), também acaba de publicar um livro, perpetuando os autores da família; intitulado Falar Piano e Tocar Francês (é mesmo assim, não julguem que me enganei) parte da sua experiência como divulgador cultural e músico para reflectir sobre como hoje, um tempo de ecrãs e leituras de cinco linhas, nos relacionamos com a arte nas suas mais diversas formas: uma cena de um filme, um poema, uma partitura... Lançado publicamente ontem, a obra fala do que, por exemplo, o olhar de alguém que visita um museu acrescenta à pintura que está na parede, da mesma forma que quem lê um poema lerá um poema diferente de cada vez que a ele volte e diferente do de outra pessoa que igualmente o leia. Uma obra de arte precisa, em suma, de dialogar, e são estes diálogos com os objectos artísticos da sua preferência que leremos neste livro de Martim Sousa Tavares que foi apresentado por Salvador Sobral.

O milagre dos livros

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Diagnosticado com uma doença cardíaca grave, um jovem decide escrever o Livro da sua vida – e escrevê-lo literalmente com o coração. Sempre ao lado da mulher, leva  anos para completar a empreitada, passando fome e privações e vivendo a crédito, esperando pagar as dívidas quando o Livro for publicado. Assim que o termina, manda as folhas dactilografadas ao seu editor, mas este nunca as recebe. O desespero leva o casal e os amigos e vizinhos a uma busca desesperada em todas as estações de Correios do mundo, até que o editor dá a entender que finalmente recebeu o manuscrito e manda um cheque. Só que, quando o livro é impresso, não era o Livro… Então, começam a chover livros assinados com o nome do escritor por todo o lado, e o povo começa a ler desenfreadamente, tornando a leitura um fenómeno à escala global. O Livro Que Me Escreveu, do escritor caboverdiano Mário Lúcio Sousa, de quem já publiquei obras como Biografia do Língua (Prémio PEN), O Diabo Foi Meu Padeiro ou a biografia romanceada de Amílcar Cabral, A Última Lua de Homem Grande, finalista do Prémio Oceanos e do Prémio LeYa, é uma novela genial, um elogio maravilhoso à solidariedade e à leitura, essenciais na formação do ser humano. O lançamento, que inclui um concerto imperdível (o autor é também músico e vai tocar para nós umas mornas deliciosas), vai ser dia19 às 19h. Apareçam na Buchholz!


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As alegrias de um arado torto

Quando publicámos Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, em Portugal, o livro tinha sido o vencedor do Prémio LeYa, mas nem o autor nem nós alguma vez sonhámos que faria o longuíssimo caminho que está a percorrer desde então e que traria ao autor uma inesperada reputação (era um primeiro romance, antes só havia uma pequena colectânea de contos). Logo no ano seguinte, Torto Arado foi publicado no Brasil, onde o autor nasceu e onde venceu os Prémios Jabuti e Oceanos e vendeu até hoje (livros em papel + livros electrónicos) mais de 900 000 exemplares (é obra!). Mas o sucesso rasgou fronteiras. Foi adaptado ao teatro por Christiane Jatahy num espectáculo que está a correr mundo e, quando começaram a sair as edições estrangeiras, o livro começou também a ser nomeado para vários prémios (como o Dublin Literary Award) e em França ganhou há uma semana o prémio Montluc Résistance et Liberté, de resto, perfeitamente adequado a este livro. Foi ainda escolhido para a long list do Booker Prize Internacional e, há uns dias, recebemos a maravilhosa notícia de que, entre os treze romances nomeados para este prémo prestigiante, passou à final. Parabéns por tudo, querido Itamar. Desejo sinceramente que isto seja só o princípio de uma carreira fulgurante (leiam o segundo romance, Salvar o Fogo, igualmente imperdível) que leve ainda mais longe as suas palavras belas e profundas.

Escrita familiar

Embora no cinema seja bastante comum encontrar actores e realizadores em várias gerações da mesma família (os Coppola), na literatura os casos são bastante mais episódicos. Claro que não podemos esquecer os dois Alexandres Dumas (pai e filho), as três irmãs Bronte, ou mesmo o par de escritores britânicos de grande qualidade: Kingsley e Martin Amis (pai e filho). Mas, investigando mais a fundo, aparecem-nos algumas famílias de escritores bastante curiosas como a da autora de Frankenstein, Mary Shelley, que é filha de dois escritores e filósofos (Mary Wollstonecraft  e William Godwin) e casada com o poeta romântico Percy Shelley. Também o ficcionista Henry James teve dois irmãos escritores (Alice, que se dedicou à diarística, e William, autor de ensaios na área da psicologia e fundador do pragmatismo). A autora de A Cor Púrpura, Alice Walker, teve uma filha escritora e activista, Rebecca; o grande cronista brasileiro Luís Fernando Veríssimo é filho de Erico Veríssimo. Stephen King, além de ter uma mulher escritora, tem dois filhos que escrevem, embora não tenham a reputação do pai. E o mesmo aconteceu a vários escritores famosos como H.G. Wells, John Le Carré, Updike, Cheever ou Somerset Maugham, cujos filhos se dedicaram de algum modo à escrita (de livros, documentários ou guiões), mas nunca alcançaram a notoriedade dos pais. Por cá, Mário de Carvalho tem duas filhas escritoras, uma romancista (Ana Margarida de Carvalho), outra poeta (Rita Taborda Duarte). E, de há alguns anos a esta parte, Gonçalo M. Tavares viu o seu irmão José Gardeazabal (apesar dos nomes diferentes, basta olhar para ambos para ver as semelhanças) começar a publicar com grande regularidade. A escritora Hélia Correia é a companheira do poeta Jaime Rocha e, na geração mais nova, repete-se o caso com os poetas Inês Dias e Manuel de Freitas e com os irmãos Lucas Pires (Jacinto e Simão, que são filhos de Francisco Lucas Pires). Não sei se me esqueci de alguém...

Precisão

Já aqui falei dela, bem sei, mas vale sempre a pena voltar à irlandesa Claire Keegan, que é a escritora mais parcimoniosa que li na vida. Contida, como não há igual, ela é sobretudo autora de contos (às vezes longos) e amplamente premiada neste género, no qual recebeu o especial elogio do norte-americano George Saunders, ele próprio um génio da short story,  que atesta que Keegan é uma das melhores ficcionistas do mundo, e pronto. Mas Claire Keegan tem também uma pequena novela preciosa chamada Pequenas Coisas como Estas, que foi finalista do Booker Prize em 2022 e bem podia ter ganho; e, depois dela, saíram em Portugal Acolher (uma pequena maravilha sobre uma menina que passa o Verão com uma família muito diferente da sua) e, mais recentemente, A Uma Hora Tão Tardia, um conjunto de três histórias sem uma palavra a mais, que têm exactamente aquilo que tinham de ter, o que as torna obras-primas de contenção. A primeira mostra como podemos desistir de um casamento por coisas que poderiam parecer insignificantes, mas não são. A segunda, que é metaliterária, fala de uma escritora de 39 anos que vai trabalhar num livro com uma bolsa para a casa onde viveu Heinrich Böll e tem um encontro bastante estranho com um alemão. A última, que nos deixa de cabelos em pé, leva-nos a pensar que ser fiel, mesmo que sem grande entusiasmo, é se calhar a melhor coisa a fazer. Um trio de histórias absolutamente notável, que vem, claro, dar razão ao senhor Saunders.

Palavrinhas para guardar

Toda a gente sabe que adoro descobrir palavras novas; e, por isso, tem sido para mim uma alegria publicar nos últimos catorze anos os romances de Mário Cláudio, cheios de vocábulos saborosos, quantas vezes lidos pela primeira vez já depois dos meus cinquenta anos («bazulaque» foi um deles). Quando estes autores, que têm o domínio de um léxico tão amplo, nos deixarem, presumo que muitas destas palavras suculentas sucumbirão com eles e cairão no esquecimento, quiçá substituídas por mais umas inglesices chatas e óbvias. No entanto, em algo bem mais prosaico do que o texto literário (não vos digo já onde), encontrei um dia destes um monte de palavras tão curiosas que até pareciam inventadas por alguém que jogasse aos dicionários: viosinho, rabigato, diogalves, bical, cerceal, alfrocheiro, alvar roxo, gouveio... Bem, aqueles que gostam de vinho verão logo que não sou de muitos copos, pois todas estas palavras são, no fundo, castas da Bairrada, do Dão, do Douro, do Alentejo; li-as gostosamente em rótulos de garrafas enquanto estava à espera de que me trouxessem uma sopinha e tomei nota no telemóvel para as usar futuramente em algum texto ou cantiga. Claro que também havia touriga, verdelho, arinto, encruzado, tinta barroca e outras coisas de que já ouvira falar, mas estes engraçados nomes ficam realmente bem com vinho e com literatura. Quase de certeza, o Paulo Moreiras conhece a maioria, até porque uma das suas personagens se chama Alfrocheiro numa taberna.

A inteligência artificial ataca em várias frentes

A ciência faz maravilhosas descobertas para o nosso bem e a tecnologia não lhe fica atrás. Infelizmente, uma coisa que representa um avanço impressionante, a denominada abreviadamente IA (Inteligência Artificial), já está a ser usada de forma tremenda em vários ramos, desde a criação de traballhos de teses académicas para estudantes preguiçosos, artigos para jornalistas com excesso de trabalho e, naquilo que hoje me interessa aqui trazer, traduções feitas sem intervenção de um profissional. É uma maneira de poupar nos custos, mas muito perigosa, porque a IA não é tão culta como se pensa e trabalha com o que tem, e o que tem está longe de ser suficiente. O resultado são traduções coxas, deficientes e muitas vezes aldrabadas (li uma de Dickens há pouco tempo e via-se que tinha sido feita por IA, dados os muitos dislates encontrados); mas, se um bom revisor aceitar o trabalho louco de as corrigir, o resultado melhorará e acabar-se-á em três tempos o trabalho dos tradutores sérios, que é o que interessa a todos nós. Por isso, se pensa, como eu, que não podemos deixar a IA passar a perna aos tradutores e leitores, por favor assine a petição abaixo. Nós, que gostamos de livros, merecemos.


https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT120289&fbclid=IwAR1F35gRIe_FLpSlE0xvraO72axc77DSJCC5mw_QqVijeFL1dQ1FAe8PzIo_aem_AYh8H4ENhPEJZuCnQiMtrj9R7hp6WreGgrQOSb62JUe1GaUyBHwM4zg1yFw2T5MeKNBfp52FNaz0Gs3OXb3BBgQThttps://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT120289&fbclid=IwAR0dQBpT3l087h07TEHCjgW5I5rXXlssy68gIFLhY8GzlwyW0dAmLF7KoOw_aem_AWnWZJDWSk81H5-dkLXaVddiQHyXgSJxRlST9VNAh6ZO30z2quB6vLHCJkvbasDUyeITzD1ar4Pd3OyiHyLsDrqm#google_vignette


 

Excerto da Quinzena

"São só sonhos. Também deves ter pesadelos, às vezes. Se calhar não tens, como és padre."


Ele riu-se. "Acho que tive mais do que a minha conta." E disse-o com aquela voz baixa e meiga com que costumava falar às viúvas, sabendo que o fazia. "Às vezes uma pessoa sente-se melhor quando fala deles."


"Com quem é que tens andado a falar deles todos estes anos? Deve ser com o velho Boughton."


Ele acenou com a cabeça. "Com o Boughton."


"E com Jesus, acho eu."


"Com Jesus."


"Nunca me contaste nada dos teus sonhos. Nadinha."


"Há muito tempo que não tenho sonhos de que valha a pena falar. Às vezes, anda uma coisa a perseguir-me e não sei para onde fugir. Depois acordo. A maioria deles resume-se a isto. Corro como o diabo. Já não corro assim desde os dez anos. E depois acordo com o coração a bater muito depressa."


"E é isso que dizes a Jesus."


 


Marilynne Robinson, Lila, tradução de Maria do Carmo Figueira

Burro velho

A minha avó costumava dizer que «burro velho não aprende línguas», mas não lhe dou razão. Já aqui vos falei um dia destes de um livro incrível de uma escritora que começou a publicar à beira dos oitenta (Escovar a Gata é o seu título) e, no ano passado, não deixei de me referir também a Aurora Venturini, uma senhora de idade que tentou toda a vida publicar os seus escritos e acabou por ganhar um prémio importante na velhice com o maravilhoso (e sórdido) As Primas, tendo, acabadinho de sair por cá, um outro romance que ainda não li (A Família Caserta). Bem sei que escrever e publicar pode ser o corolário de uma aprendizagem anterior («aprender línguas» de raiz pressupõe memória, que é o que mais nos falta quando vamos para velhos); mas, se tomarmos «línguas» como simples metáfora, posso dizer-vos que este ano já me fartei de aprender com quem sabe dois «idiomas» que desconhecia, mesmo escrevendo letras de canções há tanto tempo. Não é que fui convidada para fazer a Marcha de Alfama (uma delas) que vai ser cantada e dançada no desfile do Santo António e que, logo a seguir, sou chamada a produzir um texto para Cante Alentejano no âmbito de um projecto de valorização e modernização desta arte que é Património Imaterial da Humanidade? E o melhor é o que vou aprendendo pelo caminho. Velha, mas não burra.

Ainda a ortografia

Dizem-me que as pessoas sempre deram muitos erros de ortografia, que não é só de hoje; mas, por acaso, na escola primária que frequentei (na qual se aprendia pela Cartilha Maternal de João de Deus) dar erros era uma humilhação e, quando uma menina tinha mais de três erros num ditado, era mesmo uma escandaleira e uma vergonha. Talvez fosse só ali, na escola João de Deus, por o patrono ter criado um método de aprender a ler que foi muitíssimo popular e eficaz, mas, naquela escola ou nas outras onde andei, procurei sempre escrever com correcção. Hoje, muitos dos que me mandam livros para publicar preocupam-se estranhamente pouco (ou nada) com a questão ortográfica, o que fica muito mal a um escritor. E há dois erros que se repetem em quase todos os originais: o «eminente» por «iminente» (o que está para acontecer, «iminente», nada tem que ver com a elevação e a importância do «eminente»); e o «edílico» por «idílico». Será que a pessoa estará sob algum transe «etílico» e só considera que existe «idílio» quando há álcool à mistura? Bem, desculpem lá mais um post pedagógico, mas há erros que já cansam e, assim, se os perpetradores lerem o meu blogue, pode ser que aprendam de uma vez por todas.

Prémios e prémios

A atribuição do Nobel torna, regra geral, os autores conhecidos em países onde nunca foram publicados ou, tendo-o sido, onde não tinham mais de um ou dois livros traduzidos. Não foi exactamente o caso de Jon Fosse, o último contemplado, que até já tinha cá o seu atento editor, embora muita gente se tenha estreado como seu leitor só depois do anúncio do prémio. Recentemente, Itamar Vieira Junior teve a alegria de ver Torto Arado nomeado para o International Booker Prize: e, curiosamente, desde a nomeação já muitos editores estrangeiros se interessaram pelo livro, apesar de este estar já vendido em mais de vinte países! Por outro lado, publiquei no final do ano passado o maravilhoso romance vencedor do Prémio Campiello em Itália (e de mais três outros prémios) chamado As Minhas Estúpidas Intenções, de Bernardo Zannoni; e, ainda que o prémio seja importantíssimo no país de origem, em Portugal ninguém ligou a mínima ao livro. Também me lembro de andarmos todos há vinte anos atrás dos romances que ganhavam o prémio Goncourt, e hoje já poucos leitores saberão quem foram os irmãos Goncourt e que prémio é este (aliás, cada vez se publicam menos escritores franceses cá na terrinha). Em diferentes épocas, a agulha dos prémios muda de zona geográfica;  falo por mim: há já uns anos que nem reparo em quem ganha em Espanha o Prémio Planeta... 

O que ando a ler

Há uns tempos, por causa de uma crónica que eu tinha escrito sobre uma empregada que os meus pais tinham na minha infância a quem eu chamava «mamã Fernanda», fui convidada a integrar um painel de discusssão na Biblioteca de Oeiras sobre o trabalho doméstico e partilhei a mesa com Manuel Abrantes, um investigador que estuda o este assunto. Gostei de o ouvir e de o conhecer e soube mais tarde que, longe de se limitar aos escritos académicos, estava a atrever-se a uma ficção que se centrava numa rapariga que vem da aldeia, ainda antes do 25 de Abril, para, como então se dizia, «servir» em Lisboa. Pois o romance saiu há pouco, chama-se Na Terra dos Outros e foi lançado nas Correntes d'Escritas, onde tive a oportunidade de pedir o autógrafo da praxe. Gira em torno de uma personagem feminina, Maria do Carmo, que toda a sua vida limpa e trata de casas, mesmo quando emigra com a família para Roterdão; desde senhoras finas e antipáticas até patroas companheironas com boa onda, passando por casos bicudos em que se torna involuntariamente cuidadora de um homem de idade com uma doença degenerativa, tudo calha a esta pobre mulher comum, igual a tantas, que é uma anónima a quem talvez só mesmo Manuel Abrantes dedicasse um romance. Mas o final grito do Ipiranga é uma boa surpresa e João Tordo dedica-lhe um elogio. Uma ficção que é também um documento e dá que pensar...