Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2016

Recomenda-se

O diário espanhol El País tem uma ferramenta de sonho: Librotea, um recomendador de livros. Na verdade, é uma livreira digital – e é mulher porque as estatísticas dizem que as mulheres lêem mais e que as escritoras têm cada vez mais peso nas listas dos livros mais vendidos. Mas isso pouco importa para quem gosta de ler e, quando vai a casa de alguém, não consegue deixar de cheirar estantes alheias. Librotea permite conhecer as estantes de escritores, críticos, ensaístas e bloggers, gente da música, do cinema e das artes plásticas. Todos os leitores podem abrir um perfil na Librotea (librotea.com) de forma gratuita e criar as suas próprias estantes, seguir outros utlizadores, partilhar o que andam a ler nas redes sociais e até comprar os livros recomendados (através de ligações a livrarias virtuais) ou fazer crítica literária. A grande diferença entre este «recomendador» e outros do tipo (a Amazon também recomenda) é que, em vez de um complexo algoritmo, aqui os conselhos podem vir de especialistas ou outros utilizadores da rede com quem vamos sentindo afinidades; e, além disso, as categorias das estantes são muito mais amplas do que numa livraria online, pois podemos encontrar as listas de títulos que marcaram ou ensinaram a ler determinada pessoa que admiramos (Vargas Llosa está lá, por exemplo) ou uma estante de livros que atingiram o sucesso depois de adaptados ao cinema, juntando duas obras tão distintas como As Horas e O Padrinho. Para terminar, a Librotea permite ligações a entrevistas e artigos escritos no El País sobre as obras que pesquisamos. Uma espécie de boca-a-boca das novas tecnologias. Também quero disto em Portugal.


 


P.S. Se amanhã o blogue tiver um look diferente, não estranhem. São mudanças a favor de uma maior legibilidade em todos os tipos de dispositivos.

Felicidade a norte

Imagem

No ano passado, Índice Médio de Felicidade, de David Machado, foi um dos vencedores do Prémio da União Europeia para a Literatura. O romance, publicado em 2013, fala de uma família que enfrenta a terrível crise que assolou certos países da Europa (neste caso, Portugal), mas debruça-se sobretudo na esperança de um homem a quem acontece tudo, mas que nunca desiste de tentar ser feliz, até porque tem filhos e o futuro destes depende também da sua força. Estava na altura de comemorarmos o feliz galardão e decidimos fazê-lo a norte desta vez, já que, na altura em que o livro foi publicado, as apresentações decorreram todas na capital. Teremos, de resto, convidados de luxo que nos vão ajudar a aumentar o nosso índice médio de felicidade: a jornalista Teresa Sampaio e o escritor Valter Hugo Mãe – além, claro, do autor. A conversa promete e espero que possam fazer-nos companhia na Invicta amanhã à noite. O convite aí fica, para se orientarem.


conv_FELICIDADE_digital.jpg

Como escrever

O meu irmão, que foi em tempos professor numa universidade americana (a Brown, em Providence) falou-me de bibliotecas abertas toda a noite e de estudantes extremamente aplicados, que nem ao fim-de-semana saíam, de tal forma era exigente o currículo e caras as propinas (não havia ninguém que pusesse sequer a hipótese de chumbar porque os pais se endividavam muitas vezes para os filhos frequentarem aquela e outras universidades). Há pouco tempo, pus os olhos num artigo sobre os livros que os estudantes das universidades de topo dos EUA – o MIT, Yale, Princeton, Harvard, Columbia, etc. – tinham de ler; e muitas das obras não constituíram grande surpresa: a República, de Platão, O Contrato Social, de Rousseau, a Odisseia, a Democracia na América, de Tocqueville, O Príncipe, de Maquiavel, além de Hobbes, Aristóteles, Thomas Kuhn, Samuel Huntington ou mesmo o mais recente Nobel da Economia Joseph Stieglitz. Mas em quase todas as listas aparecia um autor que, para dizer a verdade, não me dizia mesmo nada, um senhor chamado William Strunk, conhecem? Fui ver então por que diabo era aconselhado de leste a oeste, chegando à conclusão de que o seu livro The Elements of Style é na verdade uma pequena bíblia de estilo, considerada desde 1923 pela revista Time uma das cem obras mais influentes em língua inglesa; escrito originalmente em 1920 (mas actualizado posteriormente por E. B. White), compreende regras fundamentais para a composição de um texto, incluindo um rol de palavras e expressões que as pessoas costumam usar de forma errada e outro de palavras que a maioria escreve com erros. Embora já não esteja em idade de redigir trabalhos universitários, hei-de espreitá-lo para ver se ele pode ajudar alguns escritores mais jovens a fazer melhor.

Correntes d'Escritas

É hoje, é hoje! Sim, é hoje que começam aqueles dias mágicos que todos os anos nos permitem respirar das indisposições com o País e o mundo, ou seja, as Correntes d’Escritas. São mais de 75 escritores convidados de 11 países falantes de português e espanhol – com muitos repetentes, claro (desde logo, Luís Sepúlveda, Manuel Rui e Inês Pedrosa que, tanto quanto me consigo lembrar, estiveram na primeira edição do encontro, sendo por isso pioneiros), mas também alguns estreantes, como o jornalista João Miguel Tavares, o escritor de viagens Tiago Salazar, a poetisa Matilde Campilho e o romancista espanhol Andrés Barba, de quem referi há bastante tempo aqui no blogue um livrinho notável intitulado As Mãos Pequenas. A sessão inaugural estará desta feita a cargo de José Tolentino Mendonça e seguir-se-ão até sábado doze mesas com os vários participantes, a última das quais já em Lisboa, no Instituto Cervantes. Mas, além dos escritores, temos filmes, exposições, projecção de fotografias dos anteriores encontros pela mão do genial Daniel Mordzinski, visitas a escolas e até momentos de grande humor, pois os membros do Governo Sombra são todos convidados destas Correntes. E, evidentemente, saberemos por volta do meio-dia de hoje quem é o vencedor do Prémio Literário promovido com o apoio do Casino da Póvoa. Razões mais do que suficientes para eu estar bastante entretida durante uns dias…

Boccanegra

Imagem

Santiago Boccanegra, neto de marinheiros, sobreviveu à poliomielite lendo Moby Dick e vingou-se dos duros que o perseguiam na escola fazendo-se boxeur. Trabalha agora como segurança de um hotel de Lisboa, onde Laura Rutledge, única sobrevivente de um desastre aéreo, se perde como prostituta de luxo. Depois da tragédia que lhe é infligida nas Montanhas Malditas, o misterioso albanês Aamon Daro cultiva papoilas na Birmânia e, com o lucro do ópio, colecciona obras de arte, que gosta de encenar ao vivo. Jin, uma tímida adolescente norte-coreana, apaixona-se graças a uma canção dos Beatles e é obrigada a fugir para o Ocidente. Num caderno enterrado com a musa do poeta Dante Gabriel Rossetti aparece um soneto posterior ao óbito – e talvez seja de Pessoa. Um rapazinho com um tumor cerebral compõe música nos lençóis do hospital sem nunca a ter aprendido. Saint-Exupéry, desaparecido no deserto líbio após a queda do seu avião, encontra, além da raposa que o ignora, uma criança de uma tribo que se julgava extinta. Estas e muitas outras personagens reais e ficcionais formam uma enigmática teia em que os fios soltos acabam por unir-se num final surpreendente, a que não faltarão aves, música, morte e redenção. Finalista do Prémio LeYa em 2014, Os Dez Livros de Santiago Boccanegra é um romance fascinante e profundamente inovador que se lê como quem assiste a um filme, incluindo a banda sonora. Não o percam.


 


Boccanegra K (2).jpg


 

Amigos dos livros

Imagem

Li num jornal de Barcelona uma notícia muito bonita, até porque em Portugal já não é fácil encontrar livrarias em que os clientes consigam estabelecer com os livreiros relações de grande proximidade (há-as, evidentemente, mas sobretudo longe dos grandes centros). Xavier Vidal, o proprietário da livraria Nollegiu, aberta há pouco mais de dois anos em Barcelona, conseguiu num domingo de manhã uma verdadeira proeza, quase uma utopia: a de juntar mais de uma centena de clientes que, por amor aos livros, o ajudaram a fazer a mudança para outro local. Não em carros, nem sequer transportando caixotes; mas colocando-se ao longo do caminho que une as duas lojas, a antiga e a nova, numa autêntica cadeia humana, cada um passando ao companheiro do lado o conteúdo inteirinho da livraria! Xavier Vidal reconhece que tem clientes excepcionais, uma vez que até crianças acorreram a ajudar, sem medo do peso de alguns volumes; mas estes clientes consideram que Xavier merece isto e muito mais, porque soube fazer da sua pequena loja um espaço onde os leitores se sentem em casa. De tal forma o estabelecimento soube atrair os vizinhos desde que se instalou que, em pouco mais de dois anos, se tornou demasiado pequeno para tantos interessados e foi preciso avançar cem metros na rua para que ocupasse uma loja maior e pudesse servir melhor a clientela. Um dos transportadores disse à jornalista do El Periódico que não basta aos leitores queixarem-se de que as livrarias estão todas a fechar, é preciso pôr mãos à obra de todas as maneiras e feitios para evitar que isso aconteça. Bem, a imagem diz tudo.


parte-cadena-humana-que-traslado-los-libros-nolleg


 

Brasil-Alemanha

Não, não se trata de um jogo de futebol mas, se o fosse, seria certamente um combate renhido; é coisa mais suave, cordata e amigável, embora seja um negócio, como quase tudo nestes nossos tempos. A senhora Merkel tem interesse em que a literatura alemã seja mais difundida em língua portuguesa – e está no seu direito, claro, até porque pode pagar para isso. E desta feita paga viagens a sete editores brasileiros independentes, alguns dos quais já publicaram traduções de obras alemãs, clássicas e contemporâneas, para visitarem no seu país uma caterva de editores, que lhes vão apresentar a sua produção de autores nacionais. Além disso, os brasileiros contactarão uma agência literária e também o Museu da Tipografia, já que o papel, pelos vistos, ainda há-de fazer muitos livrinhos no futuro, alemães e não só. Os editores do Brasil parecem entusiasmados com o périplo que lhes é oferecido entre 20 e 27 deste mês de Fevereiro, dizendo que é sempre bom conhecer confrades com programas editoriais semelhantes; e que, claro, vão aproveitar, assim como quem não quer a coisa, para apresentar também os autores brasileiros que publicam, esperando que a troca funcione. O pior será se a Alemanha se esquecer de que aqui neste cantinho da Europa também falamos português e vender os direitos mundiais para a língua portuguesa dos escritores alemães aos editores visitantes, privando-nos de uma tradução portuguesa feita chez nous. Mas, uma vez que a senhora Merkel não parece gostar muito de António Costa, é melhor não lhe dar ideias...

Ler com os dedos

A Madalena, meu braço-direito na editora, nunca se cansa de aprender – é mesmo uma das suas maiores qualidades – e, depois de mestrados, pós-graduações, cursos livres e sei lá que mais, está neste momento no primeiro ano do seu doutoramento. A temática, confesso-vos, é pouco convencional – Materialidades da Literatura – e tive alguma dificuldade em entendê-la inteiramente; o que vale é que, de vez em quando, encontro coisas escritas por aí que ajudam a diminuir essa estranheza: uma delas foi a notícia de uma série de livros publicados para crianças cegas ou com problemas graves de visão (numa editora francesa chamada Les doigts qui rêvent) que estão longe de se parecer com páginas em braille – e aqui, sim, podemos falar à vontadinha de materialidade; se os meninos não vêem mas tocam e sentem, cheiram e ouvem, a ideia é contar-lhes as histórias com obras mais tácteis, com volume, formas, tecidos e papéis variados, com guizos e outros adornos barulhentos, que de alguma maneira se tornem eloquentes, ajudando-os a criar imagens a partir do toque, do perfume, do ruído; outros trazem inclusivamente um CD com a gravação da história e reproduzem as texturas da natureza para aproximar as crianças dos meios em que vivem as personagens. No mesmo artigo, descubro outra maravilha para crianças invisuais, O Livro Negro das Cores, com uma história que permite a crianças que não vêem descobrir as cores através de descrições que mostram que estas também se podem tocar, cheirar e sentir. O texto é impresso simultaneamente em braille e em caracteres convencionais (mas as crianças que vêem podem lê-lo de olhos fechados!) e as ilustrações são em relevo mas – coisa curiosa – apenas a preto e branco. Vejam o link que vos deixo. Boas materialidades para a literatura!



 


 

Mudam-se os tempos

A notícia de que José Rodrigues dos Santos era considerado pela maioria dos portugueses (a amostra de pessoas que responderam ao inquérito foi de 28 000) o melhor escritor nacional deixou obviamente muitos amantes da Literatura escandalizados (talvez se tivessem já esquecido de que há uns anos, num inquérito promovido pela televisão, Salazar fora considerado a figura portuguesa mais importante de sempre). Uns dias depois, li um pequeno artigo sobre recordes, que incluía os livros de ficção mais vendidos desde a publicação, e concluí que, de facto, os tempos mudaram e, com eles, também as vontades (desculpem roubar a expressão a Camões, mas não estou ainda preparada para citar Rodrigues dos Santos). Parece que até há pouco tempo a obra ficcional que tinha chegado a um maior número de leitores era A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, que vendera mais de 200 milhões de exemplares em todo o mundo (suponho que a escola de língua inglesa a tivesse integrado nos programas de ensino); e parecia estar de pedra e cal até que a saga de Harry Potter lhe tomou o lugar, vendendo mais de 450 milhões no conjunto dos sete volumes. O problema não está, mesmo assim, em comparar Dickens e J. K. Rawling, mas em saber que o livro do primeiro será também provavelmente destronado muito em breve pelas Cinquenta Sombras de Grey, que já passou a barreira dos 100 milhões e saiu há menos de meia dúzia de anos. Outra razão para quem gosta de livros ficar escandalizado.

Rio novo

Imagem

Está à venda há uns dias um romance que foi finalista da última edição do Prémio LeYa e, apesar de moderno, não deixa de se inscrever numa linhagem literária que inclui autores como Camilo, Agustina ou Mário Cláudio, o que é, aliás, muito curioso, dada a idade da autora. Nuno Júdice diz da prosa deste Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo, que cada página é «um prodígio de invenção e inovação» e eu faço vénia ao poeta e membro do júri. Sobre o enredo, avançaria, muito resumidamente: No Inverno de 1864, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no Porto com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia, torná-la sua herdeira e arranjar-lhe um marido. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Parece simples? Pois não será. Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, Rio do Esquecimento descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e fala da morte de uma maneira muito especial. A ler sem moderação.


 


P.S. Para quem esteja pelo Porto, o lançamento deste romance, com apresentação de Mário Cláudio, realiza-se no próximo dia 23, as 18h30, na FNAC de Santa Catarina.


rio_do_esquecimento6a.jpg


 


 


 

Verdade e consequência

Não, não é um jogo; é, pelo contrário, uma coisa séria – ainda por cima vinda de um homem muito divertido, Luís Fernando Veríssimo (LFV), um tímido ao vivo que, na página do jornal, está sempre cheio de humor. Como certamente sabem, entrou recentemente no domínio público (expliquei o que isto era na sexta-feira passada) o livro Mein Kampf, de Adolf Hitler, tendo sido  publicado ou republicado em variadíssimos países. O facto causou bastante indignação nuns lugares, polémica noutros, e o livro chegou até a ser proibido aqui e ali (no Rio de Janeiro, segundo li, havia intenção de apreender os exemplares das livrarias). Mas LFV diz que não vê grande problema em que a obra circule para “historiadores, estudantes de psicologia de massas e até curiosos sobre como pode alguém galvanizar uma nação inteira e mudar a sua história”. Com uma condição, claro: ele sugere que Mein Kampf venha acompanhado de um "DVD com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos descobertos em Auschwitz e outros campos de extermínio, no fim da Segunda Guerra Mundial. Cenas terríveis dos esqueletos das cidades bombardeadas e dos milhares de refugiados tentando sobreviver em meio aos escombros, enquanto o mundo ficava sabendo, nos julgamentos dos criminosos, das barbaridades cometidas em concordância com a Kampf do Hitler. Assim, o comprador do livro teria o nazismo como teoria e o nazismo na prática.” LFV tem razão: se certas teorias pudessem vir acompanhadas das suas consequências, talvez muitas barbaridades pudessem ser evitadas por aquilo a que chama, com muita graça, uma espécie de “remorso preventivo”...

Domínio público

Trabalhei numa editora que, até à minha entrada, se dedicara exclusivamente a realizar colecções de livros para serem vendidas ou oferecidas com jornais – uma espécie de rebuçados que levavam muitos a adquirir os diários e semanários que estavam precisados de leitores. Não sei se as pessoas interessadas nos livros dados ou comprados a baixo preço também liam as notícias, mas sei que havia um factor que contribuía decisivamente para a selecção de determinados títulos: estarem no domínio público. Quer isto dizer que os respectivos autores tinham morrido há, pelo menos, setenta anos – altura em que os herdeiros perdem – desculpem-me o mau jeito nas palavras – direito aos direitos de autor. Pois bem, na febre que parece haver agora de fazer listas de livros a propósito de tudo e de nada, um site disponibiliza dezoito livros que todos devemos ler antes de morrer, assinalando que não temos desculpa, uma vez que se trata de livros gratuitos – ou, melhor, no domínio público. Entre eles, estão, evidentemente, A Divina Comédia ou Dom Quixote, Hamlet ou Os Miseráveis, Orgulho e Preconceito ou Moby Dick. Muitos dos referidos estão à venda nas nossas livrarias, mas o site oferece links para descarregarmos as versões digitais, julgo que nas traduções brasileiras. Atreva-se, se quiser.


 


http://ncultura.pt/18-grandes-livros-gratis-que-voce-deve-ler-antes-de-morrer/

Às cegas

Os portugueses começaram tarde com esta prática, mas o aparecimento da Internet e dos chats acabou por precipitar também entre eles os encontros às cegas – e, ao que parece, até já houve casamentos que nasceram assim. Há quem ache a coisa perigosa (e pode ser, uma vez que nunca se sabe quem é a pessoa com quem nos vamos encontrar) e quem a ache excitante (e pode ser, mais ou menos pelas mesmas razões); mas, para comemorar o Dia dos Namorados, uma livraria de Sidney teve uma ideia genial: a de promover blind dates entre os leitores… e os livros. Curioso? Posso adivinhar. A ideia é contrariar a normal escolha de um livro através do nome do autor, do título, da capa ou da sinopse e apelar ao espírito aventureiro dos leitores, vendendo o livro embrulhado em papel pardo com umas pistas apenas, do tipo «Saga Familiar, História Recente, Tragédia Pública» ou «Romance de Estreia, Estados Unidos, Seres Sobrenaturais». Assim, alguns leitores mais informados até podem adivinhar de que livro se trata, mas outros, se calhar mais indecisos, terão este empurrãozinho para arriscarem uma leitura. Se quiser, veja no link abaixo qual o encontro às cegas mais ao seu gosto.


 


http://www.elizabethsbookshop.com.au/shop/detail/blind-date-with-a-book/

Liberdade de expressão

Nunca pensei ver o nome de J. K. Rowling, a autora da famosa série Harry Potter, premiada com o PEN de Liberdade de Expressão, galardão que no ano passado distinguiu a revista satírica francesa Charlie Hebdo e que, em anos anteriores, foi já entregue Tom Stoppard e a Salman Rushdie. Mas a verdade é que a inglesa o receberá este ano “pelo mundo da fantasia sem preconceitos” presente na saga juvenil que criou, alegando a Associação Americana de Escritores que Rowling ensinou às crianças a importância de dizer o que pensam e de ouvir as opiniões dos outros. Além disso, a senhora que se tornou rica em poucos anos com a sua escola de feitiçaria é, ao que parece, uma activista da liberdade de expressão, bem como uma importante colaboradora de uma ONG que se dedica a proporcionar o reencontro de crianças abandonadas com as suas famílias. J. K. Rowling vai receber o prémio numa gala no Museu de História Natural, em Nova Iorque, a 16 de maio.

Um senhor editor

Quando comecei a ir à Feira de Frankfurt, tive várias reuniões com representantes de uma editora britânica chamada Weidenfeld & Nicolson, editora independente que, como muitas, seria comprada mais tarde pelo grupo Orion e ainda mais tarde pela Hachette (que comprou, julgo eu, todo o grupo Orion). Mas só agora, que leio a notícia da morte de Lord Weidenfeld aos 96 anos, conheço a história deste homem singular que publicou a Lolita de Nabokov no Reino Unido nos anos 1950 (ainda só havia a edição francesa). Era um judeu rico que, fugindo à anexação da Áustria pelos nazis, foi recolhido por cristãos no Reino Unido, onde se tornaria um dos sócios da editora que partilhava com Nigel Nicolson, filho de Vita Sackville-West, autora que pertenceu ao Bloomsbury Group (de que fez também parte Virginia Woolf; diz-se que Vita foi quem, de resto, inspirou Orlando). Weidenfeld foi feito cavaleiro pela rainha Isabel II, era um senhor que dava festas esplendorosas (a ponto de um antigo embaixador dizer que Kissinger e De Gaulle nunca saíam dos seus jantares antes do fim) e também um filantropo até ao fim, pois, quando o Estado Islâmico começou a sua acção terrorista, criou um fundo para trazer refugiados cristãos da Síria, alegando que tinha obrigação de pagar a dívida a quem o tinha salvo dos campos de concentração. Enfim, a Inglaterra fica sem o deão dos seus editores, mas é bom saber tudo o que de bom trouxe ao nosso mundo.

Bilinguismo

 Os filhos de uns amigos portugueses que foram trabalhar para o estrangeiro quando a crise lhes bateu à porta já não falam praticamente português; percebem tudo, e respondem aos pais com monossílabos ou dissílabos internacionais (Okay, Ja, Yes...) ou uns refilares bem lisboetas, mas entre eles e na escola já só comunicam em inglês, pelo que vão provavelmente esquecer a língua materna não tarda nada Acontece muito a quem vive e estuda fora desde pequeno e, mesmo que seja uma pena – eu cá sempre adorei o bilinguismo –, é quase inevitável. Nos EUA, onde há muitos luso-descendentes, mais concretamente em Brockton, no Massachusetts, uma escola resolveu, porém, tentar emendar a mão. Num programa que contempla exclusivamente crianças oriundas de famílias de expressão portuguesa, experimenta-se agora aquilo a que a directora chama a «imersão» no português, leccionando metade das disciplinas na nossa língua e a outra metade na língua do país de acolhimento e promovendo, assim, o verdadeiro bilinguismo. A proposta pareceu agradar a vários pais, pois, ao que leio, vai ser preciso fazer um sorteio para encontrar as 50 crianças felizardas que, divididas em duas turmas, vão poder desfrutar deste ensino bilingue. Talvez seja mais produtivo do que, como vi na Suíça, mandar os filhos aprender a língua dos pais apenas uma vez por semana – e, o que é terrível, no único dia em que não há aulas...

O de sempre

Já aqui trouxe a questão, é um facto, mas quase sempre a restringi aos maus hábitos do nosso pequeno Portugal. A verdade é que a política da borla, ou de fazer trabalhar de borla, no tocante aos escritores acontece pelos vistos em muitos sítios, e o Reino Unido parece ser um deles. O director do Festival Literário de Oxford (FLO), que em vinte anos não recebeu um centavo pela sua participação, explicando que, a princípio, a organização era pequena e não tinha verbas e trabalhou quase por patriotismo, cansou-se – e acaba de se demitir porque o FLO não quer pagar aos escritores convidados. Diz ele que hão-de pagar às senhoras da limpeza, aos designers, aos cozinheiros, aos motoristas, aos assessores de imprensa, enfim, a toda a gente que trabalha para que o FLO seja um sucesso… excepto aos escritores, que são a verdadeira razão do encontro, aquela que fará, na verdade, com que alguém compre um bilhete para ir ao certame. Como diz o senhor Philip Pullman na carta que escreveu a explicar os motivos da sua demissão: Enough is enough. Lá como cá.

Vergílio

Ocorreu no passado mês de Janeiro o centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, um dos mais marcantes escritores portugueses do século XX, conhecido sobretudo pelos seus livros Aparição (que fazia parte das leituras obrigatórias no Ensino Secundário, não sei se ainda faz) e Manhã Submersa, mas autor de uma obra extensa e notável que não pode ser esquecida. Das celebrações fazem parte exposições, conferências e também edições novas de alguns dos seus livros. A Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, distrito de nascimento do romancista, dedica-lhe por exemplo uma exposição de fotografia e uma conferência, e organiza uma viagem literária à terra natal do autor pela mão de António Dias de Almeida. Serão lançados pelos CTT os selos comemorativos do centenário e, no Centro Cultural de Belém, terá início este mês o ciclo «Vergílio Ferreira e Mário Dionísio: Literatura, pensamento e arte», com coordenação da professora Maria Alzira Seixo. Nas Correntes d'Escritas, que decorrem de 23 a 27 na Póvoa de Varzim, a Quetzal assinalará igualmente o centenário. Na Universidade de Évora haverá um Congresso Internacional dedicado à obra de Vergílio Ferreira. O vencedor do Prémio Vergílio Ferreira, que distinguiu já autores de nomeada como Mário Cláudio, Eduardo Lourenço e Lídia Jorge, será entregue a João de Melo em Gouveia a 1 de Março, data em que se assinalam vinte anos sobre a morte do escritor. E tudo isto será pouco para um autor tão grande.

Renunciar

Vivemos numa Europa em decadência, mas ainda é a Europa em que podemos acreditar no Deus que escolhermos ou em nenhum. Na Arábia Saudita, um poeta palestiniano, Ashraf Fayadh, foi condenado à morte simplesmente por renunciar ao islão, e o seu pai morreu de ataque cardíaco ao ter conhecimento da notícia. Centenas de outros escritores juntaram-se então numa acção de protesto a nível mundial para o apoiar, realizando leituras públicas dos seus poemas numa campanha organizada pelo Festival Internacional de Literatura de Berlim. O objectivo principal era pressionar os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido para que intercedessem a favor de Fayadh, impedindo que as autoridades sauditas cumprissem a pena. Os poemas foram lidos na quinta-feira 14 de Janeiro em 122 eventos de 44 países numa acção convocada na semana anterior à divulgação do veredicto de um recurso interposto pelo poeta, no qual Fayadh argumentava que a sua condenação fora baseada em alegações falsas ou não provadas. No início do mês, os organizadores do Festival de Berlim enviaram uma carta a Barack Obama, David Cameron e ao governo alemão, assinada por 350 autores e associações, pedindo-lhes que interviessem no caso e que a ONU suspendesse a Arábia Saudita do Conselho de Direitos Humanos. Entre os autores que subscreveram o pedido estavam os prémios Nobel Mario Vargas Llosa e Orhan Pamuk. Até agora, nada. Que bom, enfim, ser escritor na Europa.

O que ando a ler

O Luto de Elias Gro, romance de João Tordo publicado há cerca de um ano com o selo da Companhia das Letras, foi, curiosamente, escrito por Lars D., personagem do mais recente O Paraíso segundo Lars D., também de João Tordo. Confusos? Não fiquem. O que quero dizer é que, neste novo livro de Tordo que ando a ler – e que tem como personagem Lars D., um escritor doente e terrivelmente amargurado –, aprendemos que ele deixou um livro terminado antes de desaparecer de casa num belo dia e que essa obra tem o título do romance que João Tordo publicou há um ano (e que ainda não li). Esta é, porém, apenas uma marca deste autor que, desde que me lembro, gosta de usar personagens de uns livros noutros livros e de ligar romances que, às vezes, não têm outros laços além de um pequeno pormenor como esse. O Paraíso segundo Lars D. conta a história de uma ausência demasiado presente – a de Lars, um homem de meia-idade que encontra uma rapariga bonita a dormir dentro do seu carro e que, oferecendo-se para a levar à estação de comboios por sugestão da mulher, para que ela encontre um caminho que já perdeu, não mais regressa a casa. É esta mulher abandonada que nos narra a história, não a do que realmente aconteceu ao marido depois de ter saído com a rapariga (essa ser-nos-á relatada por um narrador impessoal numa segunda parte e tem momentos muito fortes), mas a do seu casamento de anos com o escritor e a da grande cumplicidade que encontra num jovem vizinho, estudante de Teologia, com quem acaba por partilhar o drama que está a viver. Um livro sobre o medo e a solidão e sobre a incapacidade que alguns têm de viver a alegria.