Mensagens

A mostrar mensagens de 2025

Boas festas

Queridos Extraordinários, calculo que estejam a estranhar a minha ausência, o que é lícito, mas acreditem que eu própria pensava que iria ficar boa muito mais depressa. A operação correu muito bem, nas palavras do médico; e estou a recuperar muito bem, nas palavras da fisioterapeuta. Mas... este ficar completamente bem leva anos. Não posso sentar-me ao computador mais de uns vinte minutos seguidos; não posso transportar nada nas mãos por ter de andar de canadianas; não me posso dobrar; tenho de usar uma meia de compressão para evitar trombos, que é mesmo desconfortável (além de ter de levar injecções diárias na barriga); recomendaram-me pequenos passeios, mas só chove e não consigo pôr o pé na rua. Conto com os outros para tudo, em suma; e, ao contrário do que pensava (que iria ler imensos livros por estar de baixa), desenganem-se: como não arranjo posição para dormir, depois dormito de dia e já não tenho disposição para leituras. E, como do lado de lá sei o meu trabalho todo atrasado, aproveito todos os minutinhos para ver se ainda dou conta de algumas coisas urgentes para ter livros no início do ano. Resultado: isto está a ser MESMO CHATO! Nas papeletas que me entregaram antes da operação, falava-se em seis semanas, no mínimo, para voltar ao trabalho, e um mês para conduzir. Terei de ter paciência... está visto. Mas não tenho muita... pronto. Vim aqui dizer, por isso, que não vos abandonei, mas não é já que aqui volto, provavelmente só em Janeiro. De qualquer modo, não vos esqueço e quero desejar a todos e cada um umas boas festas, um Natal calmo cheio de livros como presentes, um 2026 com tudo de bom. Ter-me-ão no batente provavelmente em Janeiro, com novidades sobre livros e reflexões sobre a leitura. Voltem sempre e obrigada pelos vossos desejos de melhoras.

Fechado para obras

Queridos Extraordinários e amigos,


Pensei que ainda tinha tempo de escrever qualquer coisa de interessante hoje, mas tenho tanta outra coisa para deixar pronta que não consegui. É que amanhã vou ser operada à anca (vou pôr uma prótese, para ser mais concreta), processo pelo qual já passaram a minha irmã e a minha mãe e portanto era de esperar que eu não escapasse. Estou velha! Há três anos com dores, depois de doses de anti-inflamatórios que tive de abandonar porque me subiam a tensão; depois de muitas tentativas de adiar o processo com infiltrações disto e  daquilo que não resultaram, cansada de andar a gemer e a coxear e de não poder dar as minhas caminhadas, chegou mesmo a hora. Creio que não será nada de complicado, mas, como eu fecho para obras, assim acontecerá provisoriamente ao blogue, prometendo regressar em breve quando a saúde estiver restabelecida e eu aí para as curvas (não sei mesmo quando poderei sentar-me à secretária confortavelmente com uns posts novinhos em folha). Darei notícias mal possa e desejo-vos boas leituras neste entretanto. 

Obrigada, Gulbenkian

Para mim, a Fundação Calouste Gulbenkian foi sempre uma referência, não só em termos do apoio às artes e à cultura, mas também do ponto de vista social com o seu programa educativo. Na semana passada, o jornal Público trazia, de resto, mais uma boa notícia sobre um projecto que visa dar aos alunos de bairros desfavorecidos oportunidades iguais às que têm os filhos das famílias sem problemas financeiros. Como? Pois bem, a Fundação acha que os resultados escolares podem mudar nos bairros ditos problemáticos se os estudantes usufruírem de explicações; e está a recrutar professores e a escolher alunos para participarem da experiência. Os locais, para já, que vão receber estes Centros de Estudo Gulbenkian serão o Bairro Padre Cruz (Lisboa), o Bairro do Zambujal (Amadora) e o Vale da Amoreira (Moita); mas a ideia é, se os objectivos se cumprirem, estender a experiência a outros bairros carenciados. As crianças e jovens envolvidos neste primeiro ano serão à roda de 90, do 4.º ao 12.º ano. A Fundação tem uma relação próxima com as escolas destes bairros e pretende transformar alunos "invisíveis" em melhores alunos e alunos mais interessados, já que, além das explicações, proporcionará actividades culturais fora do local de residência e desenvolverá um programa de mentoria com pessoas que são modelos de referência. Aplaudo a iniciativa. Bendita Gulbenkian.

Conversa com a escritora

Imagem

Umas das boas surpresas de 2025 foi o aparecimento de Luísa Sobral como escritora de romances. Digo isto assim porque a Luísa, antes do romance que publicou em fevereiro e já vai em mais de uma dúzia de edições, já era na verdade uma escritora, só que de canções. Acredito que passar do registo curto para o mais longo não lhe tenha sido exactamente fácil; em todo o caso, as suas canções já eram histórias e, como tal, serviram certamente de treino para este mergulho na ficção mais longa. Aliás, Luísa Sobral conta muitas vezes como o seu romance nasceu de uma história verdadeira sobre a qual começou por escrever uma canção. Mas não bastou, e ainda bem. Foi para mim, editora, e para os muitos leitores, aquilo a que se chama uma estreia feliz, embora o livro não trate propriamente de felicidade. Ora, para quem ainda não conhece Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, recomendo que o leiam. E, se estiverem para os lados de Santiago do Cacém, podem assistir neste sábado, no âmbito da programação do Outono Literário, a uma conversa entre a autora e o jornalista João Morales, esse homem dos sete ofícios que consegue estar em todo o lado, sobre a dita obra, na Biblioteca Manuel José do Tojal, em Santo André. Será às 16h00.


Cartaz-Luísa Sobral[64].jpg

Comer e dormir com Camilo (salvo seja)

A terminar o ano em que se celebra o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, o jornal Expresso resolveu alargar a sua rubrica "Boa cama, Boa mesa" aos lugares que marcaram a vida do escritor romântico, levando-nos a passear com ele munidos de um pequeno roteiro saído com um recente número do semanário. Pretende-se que conheçamos em traços breves a história do menino que cedo foi deixado pela mãe e que dedicou a sua vida à escrita romanesca, tendo amado loucamente, tendo estado preso, tendo sofrido de tuberculose (li algures que o Dr. Sousa Martins chegou a ser seu médico) e tendo-se suicidado aos 65 anos. Em vários momentos da vida, uns mais boémios do que outros, o opúsculo transporta-nos a S. Miguel de Seide, aos sítios que Camilo frequentava no Porto (como o Teatro Nacional de S. João, o edifício da Rua de Santa Catarina onde se casou com Ana Plácido ou mesmo a Cadeia da Relação, onde escreveu Memórias do Cárcere), à cidade de Braga e também aos locais onde comeu e dormiu, para que lhe sigamos o rasto. Mas este livrinho também não esquece as suas obras maiores, proporcionando itinerários nelas baseados que serão por certo belíssimos de fazer com as palavras de Camilo no Coração, na Cabeça e no Estômago.

Ver para crer

O Manel mostrou-me um dia destes um vídeo divertido no qual Mariana Mortágua e André Ventura pareciam colegas cordatos e até amigalhaços. Era, está bem de ver, um desses numerosos filmes produzidos por inteligência artificial para, à primeira vista, ver se caímos na esparrela de acreditar e, logo a seguir, nos fazer rir. Leio num jornal espanhol (provavelmente o El País, que assinei numa altura em que houve uma campanha para ajudar os jornais) que hoje em dia a frase de S. Tomé «ver para crer» perdeu o sentido, já que podemos estar a ver duas pessoas falar, rir, dar a mão, jurar que se portam bem, mas tudo não passar de uma encomenda a essa coisa que hoje enche o nosso quotidiano chamada Inteligência Artificial. Como dizer, porém, a crianças e adolescentes que vão à Internet que aquilo que elas estão a ver e a ouvir não aconteceu se parece estar ali a prova do contrário? A capacidade de distinguir entre realidade e construção virtual têm-na os adultos (e não todos, daí que haja tantas notícias falsas e manipuladoras nas campanhas eleitorais), mas, neste artigo do El País de que falo, o seu autor, Pablo Lafuente Cordero, diz que, em tempos de Inteligência Artificial, é forçoso que a educação, seja na escola seja em casa, avance ao mesmo ritmo da tecnologia e evitar que os menores naveguem na Internet sem acompanhamento; é também necessário propor aos jovens exercícios simples que fomentem o desenvolvimento do pensamento crítico e que os levem a fazer perguntas antes de acreditarem em tudo o que vêem e reenviarem para todos os amigos um vídeo, uma fotografia ou uma história falsa. Concordo, claro.

Saramago

Provavelmente, já não irão a tempo (e eu estou a trabalhar, tampouco poderei ir), mas hoje às 11h00 passa no auditório da Fundação José Saramago um documentário sobre o nosso Prémio Nobel da Literatura. O intuito é celebrar aquele que seria o seu 103.º aniversário e, ao mesmo tempo, fazer-lhe um retrato através de vozes de outros, alguns de lugares longínquos, incluindo a própria realizadora Carmen Castillo, que é chilena. O filme tem por título José Saramago. O Tempo de Uma Memória e é, segundo a newsletter da Fundação, um objecto construído a partir de reflexões do escritor sobre vários temas, como a memória, a criação literária ou a passagem do tempo, que conta também com testemunhos de pessoas bastante díspares, como a actriz Maria de Medeiros, o astrónomo David Elbaz e o grande fotógrafo Sebastião Salgado. Eu adorei o filme de Miguel Gonçalves Mendes sobre o José Saramago (José e Pilar) e espero que este documentário fique disponível em breve para o vermos nem que seja em casa, nas nossas televisões. Há poucos documentários sobre escritores portugueses (e ainda há pouco estreou um sobre António Gedeão/Rómulo de Carvalho, que também não consegui ir ver).

Prémio PEN de Narrativa

Imagem

Conheci o escritor Paulo Moreiras no princípio deste século, ainda eu estava na editora Temas e Debates e tinha então começado a publicar literatura portuguesa. O Paulo tinha ganho uma bolsa de criação literária para escrever um romance pícaro, um género infelizmente pouco cultivado entre nós, e apareceu na editora com aquela maravilha chamada A Demanda de Dom Fuas Bragatela, que tem mais de vinte anos de edição mas, graças a Deus, continua disponível no mercado. Foi um início brilhante, a que se seguirem romances mais curtos (Os Dias de Saturno, O Ouro dos Corcundas...) e obras noutros registos, como um delicioso livrinho etno-literário sobre a ginjinha, e um conjunto de Bilhetes de Identidade sobre coisas tipicamente portuguesas (o tremoço, a morcela, o palito...) que em breve coligiremos num só volume ilustrado. Mas hoje queria dizer-vos que o romance do Paulo que mais se parece com o inaugural, intitulado A Vida Airada de Dom Perdigote, com um fantástico trabalho de recuperação da linguagem e da dinâmica picaresca, foi este ano galardoado com o Prémio PEN de Narrativa, que vai ser entregue hoje às 17h00 na Torre do Tombo em Lisboa. Teremos o maior gosto em que apareça para felicitar o autor.


IMG-20251105-WA0004.jpg

Excerto da Quinzena

Lisboa, 21 de janeiro de 2017 (sábado) – Dívidas de gratidão para com o meu corpo. À parte uma asma alérgica trazida de África, entretanto debelada, uma apendicite operada de urgência em Espanha, já sob ameaça de peritonite, a artrite reumatoide do pulso, o meu foi sempre um corpo amável, cordato, satisfatoriamente competente em dar-me o que podia e em receber o que lhe era devido. Em 2014 veio-lhe um sobressalto, um desvio de rumo, talvez uma distorção. Sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo. Aprenderei a escutar os seus silêncios e o menor suspiro que dele me venha, sabendo que daqui em diante paira sobre nós os dois uma sombra, uma ameaça. Nele, corpo, mora a minha vida. Nada há mais saudável do que estarmos vivos.


 


João de Melo, Novas Fases da Lua (primeira entrada do diário)

25 de Abril

Imagem

Associo a cor vermelha ao 25 de Abril, naturalmente por causa dos cravos. E não me canso de falar da data libertadora aos mais novos, que não fazem a mais pequena ideia da fome que passavam tantos portugueses nas aldeias ainda sem luz eléctrica e nos campos onde trabalhavam de sol a sol com uma malga de azeitonas e meia sardinha para cada um. Parece muito populista, mas é a mais pura verdade. Eram tempos escuros; e não nos iludamos, muitíssimo piores do que aqueles que estamos a viver, apesar dos perigos que já vislumbramos e da falta de perspectivas para os jovens. Por isso mesmo, as comemorações desta nossa Revolução fazem sentido todos os dias e, assim, convido-vos a ler o livro Revolução, de Maria Inácia Rezola, responsável pelas comemorações oficiciais dos 50 anos do 25 de Abril, com quem tive o gosto de trabalhar há muitos anos, ainda na Temas e Debates, num livro ilustrado sobre os presidentes da República portuguesa. O lançamento de Revolução decorre na Associação 25 de Abril (where else?) e terá o formato de uma conversa entre a autora, o coronel Vasco Lourenço (um dos capitães de Abril), o historiador e comentador televisivo António Costa Pinto, conversa essa que será moderada pelo grande jornalista José Pedro Castanheira, também autor de vários livros, um dos quais o recente Histórias da Pide. Para nunca nos esquecermos.


Rezola.png

Literatura e música

Amanhã começa no Âmbito Cultural do El Corte Inglés um curso que tem todo o ar de ser interessante. Tem por título Melodia Passageira e assume-se como um minicurso de Literatura Portuguesa e Música. Ministrado por João Dionísio, que é docente de Crítica Textual e Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras de Lisboa, o dito curso está dividido em quatro sessões (além da de amanhã, haverá mais nos dias 20 e 27 de Novembro e a útima será a 4 de Dezembro). Amanhã falar-se-á de poesia feminina e lírica trovadoresca; no dia 20, a tónica estará no Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett; no dia 27, as odes de Pessoa vão casar-se com a música oitocentista; e, por fim, no dia 4 de Dezembro, as referências musicais da poética de Cesariny vão encontrar-se em Lopes Graça e noutros. Promete.

Lavagante

Se ainda não viram o filme de Mário Barroso chamado Lavagante, baseado numa pequena novela homónima de José Cardoso Pires, por favor vão ver. Se tiverem filhos adolescentes ou até mais velhos, mas que não façam a mais pequena ideia do que foi viver neste país à beira-mar plantado nos anos da ditadura, levem-nos convosco. É um belíssimo objecto artístico (o filme é a preto e branco, o que foi uma opção de tornar as cenas ainda mais realistas, porque tudo se passa durante o "reinado" de Salazar), com uma fotografia excelente, um bom gosto que é pouco comum entre os nossos realizadores, grandíssimos intérpretes, um guião realmente muito bem escrito (o cinema português está cheio de diálogos inverosímeis) e uma história de base que nos fala ao ouvido (às mulheres, especialmente) e nos recorda tempos em que o amor também podia ser censurado para sempre, separando-se dois amantes que iriam quase de certeza ser felizes. Numa altura como a que vivemos, de falsos moralismos e tentativa de regresso ao passado, em que certos políticos são realmente salazarentos, revisite-se a prosa de Cardoso Pires, e este Lavagante também, lido ou, pelo menos, visto. Vale a pena.

Língua e pátria

Imagem

No mesmo jornal que abre com a notícia de que não há vagas nos cursos de Português para quem os procura com vista à obtenção da nacionalidade, leio um artigo excepcional de José Pacheco Pereira que mostra como obrigar os imigrantes a falarem bem a nossa língua pode, na verdade, ser irónico, sobretudo vindo de quem vem. Mostrando em letras garrafais a maravilhosa frase de Pessoa sobre o seu "alto sentido patriótico", "a minha pátria é a língua portuguesa", o autor da crónica defende o respeito à língua-materna como uma das mais altas formas de patriotismo, e assume-se patriota porque foi Portugal quem o moldou e, sempre que está a viver noutro sítio, lhe falta alguma coisa, que também pode ser a sua língua. E a seguir põe o dedo na ferida e diz que os mesmos políticos que agora vêm impor o conhecimento da língua portuguesa aos estrangeiros que aqui querem ficar são, curiosamente, os que pior a tratam; e, o que é mais grave, os que pior a tratam publicamente, nas redes sociais, onde dão constantemente erros gramaticais e de ortografia, onde usam um vocabulário ínfimo e dominado pelos insultos, e onde substituem as palavras por bonequinhos, formando a população mais jovem no uso de num português a que vou chamar, palavras minhas, totalmente ranhoso. Depois, o cronista deixa o exemplo de uma caixa de comentários na página de Facebook do Chega que aqui reproduzo. E diz-nos com toda a razão que quem assim se exprime (nem "cuecas", caramba, sabe escrever) não pode ser patriota, já que um patriota não despreza a língua desta maneira. E atalha que, pelo contrário, muitos dos imigrantes que já sabem falar português procuram falá-lo com a maior correcção, em suma, bastante melhor do que os que os querem obrigar a fazer cursos nos quais, claro, acabaram as vagas. Tenho dito.


IMG_3869.jpg


 

Maya

Se não tem nada que ler este fim-de-semana (o que é quase impossível tratando-se de um leitor deste blogue... mas há sempre surpresas), vou sugerir-lhe um livro que li há pouco e de que aqui ainda não falei. Trata-se de A Mamã e Eu e a Mamã, de Maya Angelou, uma autora norte-americana negra nascida em 1928, que resolve claramente dedicar esta obra à sua mãe Vivian Baxter, que foi realmente uma heroína numa América altamente segregacionista e racista, e conseguiu ser autónoma, empresária e proprietária num tempo em que os negros não podiam ainda entrar em escolas e hotéis, senão como funcionários. Este é um livro da maior admiradora de Vivian (a filha, evidentemente) e da relação entre ambas (com seus altos e baixos, claro, mas quase sempre com uma avassaladora cumplicidade, principalmente nos maus momentos de ambas, que são bastantes); mas é também uma das várias autobiografias da própria escritora, a Maya que se contou a si mesma em sete livros não sequenciais. Neste, apesar do abandono da mãe (que a enviou muito nova com o meio-irmão para casa da avó no Arkansas, onde nada acontecia, e os mandou chamar sete anos depois de repente), Maya reage inicialmente mal ao regresso, mas acaba por se fascinar com Vivian e o seu poder para resolver tudo, enquanto o irmão não consegue perdoar inteiramente ter sido separado da mãe e acaba por se dar mal na vida. A leitura é muito fluida, muito à flor da pele, e o livro faz-nos um retrato da América contado a partir desta relação entre duas mulheres que foram quase tudo na vida. A nobelizada Toni Morrison diz que Maya Angelou não tem duplicado, e Oprah Winfrey confessou ter-se inspirado nesta mulher que, entre outras coisas, leu poemas na abertura da Administração de Bill Clinton. 

A sério?

Há exactamente uma semana, fui jantar com um casal de amigos a um restaurante que fica a meio caminho entre as nossas casas e que é assim uma espécie de cantina que frequentamos semanalmente há mais de vinte anos e cuja relação qualidade-preço é excelente. Além disso, os funcionários já nos conhecem e quase adivinham o que queremos. Sentamo-nos sempre na mesma mesa, que está guardada, e eu fico de frente para uma televisão que, estando calada, também nunca se apaga. Ora, nessa noite, havia um debate entre os dois candidatos à presidência do Benfica (Rui Costa e o outro, de quem não sei o nome mas ouvi na rádio que é advogado); e, enquanto escolhíamos e pedíamos o que iríamos comer, vi-os serem maquilhados, vi-os sentarem-se no estúdio, vi porem-lhes os microfones, vi as cores das gravatas, as expressões faciais, tudo com exagerado detalhe e alguma lentidão. Depois chegaram os "perguntadores" e reparei que eram quatro, mais do que os canditados. Para quê tanta gente?, inquiri só para mim. Depois veio a comida, desliguei do ecrã e estivemos a jantar calmamente e a conversar. Estranho foi quando acabei o excelente repasto perceber que o debate ainda durava, e que cada um dos candidatos estava a ter um tempo de antena (o relógio mostrava quantot tempo haviam falado) que nem os políticos em campanha eleitoral conseguem! Eu bem sei que este país gosta da bola, mas será ajuizado uma injecção de bola num canal noticioso em horário nobre quando há tanta notícia importante para dar? Noutro dia chatearam-se com a escritora Isabela Figueiredo por ela ter dito mal do preço certo. Pois para mim é ainda pior ocuparem tanto tempo num canal generalista com conversa futeboleira. Não chega já o exagero da conversa sobre bola em todo o lado? E a bola que passa praticamente três vezes por semana, se não mais? (Isto tem pouco que ver com o blogue, bem sei, mas porque será que os livros nunca têm direito a este privilégio?)

Ouvir ou ler?

A produção de audiolivros está a crescer (hoje já há muito por onde escolher) embora eu continue a achar que não é a mesma coisa ler livros e ouvir livros. Em todo o caso, confesso que, desde a leitura da crónica de Rogério Casanova no Público do último domingo, já não faço uma cara tão feia aos audiolivros e acabo por aceitá-los em circunstâncias excepcionais em pessoas que vêem bem. O cronista começa por contar-nos (descobrimos quem era Elena Ferrante, mas alguma vez saberemos a identidade de Rogério Casanova?) que, dada uma terrível contractura que sofreu, não conseguia posição para ler; e, enquanto ia tomando cápsulas de relaxante muscular umas atrás das outras para se livrar daquela dor aguda, tomou a opção de ouvir em inglês Os Irmãos Karamazov. Descontando a ironia magistral (leiam a crónica, que vale muitíssimo a pena), Casanova defende que "ouvir [um livro] é delegar parte da cognição a um autor desempregado" ( e eu concordo) e "ler é uma actividade tresloucada: consiste em ficarmos especados a decifrar uma sucessão de escaravelhos simbólicos até essas configurações gerarem pessoas, lugares, emoções e ideias dentro do nosso crânio", chegando mais à frente à conclusão de que "a diferença entre papel e ficheiros .mp3 é meramente estética: ler é uma alucinação com legendas, ouvir é uma alucinação com dobragem". Como disse logo ao início, não tenho a certeza absoluta de que assim seja, mas o cronista é um grande escritor e só as suas ideias e expressões já valem a pena. Claro que, depois de tantos comprimidos, ele esqueceu uma grande parte do que ouvira, mas isso, estou em crer, não era culpa do meio que escolhera.

Overdose

Vim de Penafiel há cerca de uma semana e tinha tanto trabalho à minha espera que ainda não consegui agradecer publicamente a homenagem que me foi feita pela Escritaria. (Faço-o aqui, desculpem.) Já lá tinha estado duas vezes enquanto editora: uma delas quando João Tordo recebeu o Prémio Literário José Saramago pelo romance As Três Vidas, a outra quando Mário Cláudio foi o escritor homenageado. E é a este último que roubo a palavra que titula este post e que está num balão de fala saindo da sua boca (trata-se de uma ilustração) numa exposição que se encontra na Biblioteca Municipal de Penafiel. E Mário Cláudio tem toda a razão, porque quem é homenageado na Escritaria sente uma overdose de si próprio: a cidade cheia das suas frases (ditas em entrevistas ou escritas em livros) esvoaçando em faixas pelas ruas e penduradas em fachadas de prédios; cheia também da nossa cara, com que estamos sempre a topar em variadíssimos materiais (até numa farmácia, numa caixa de medicamentos que tem escrita a expressão «remédio para a alma» e sugere a leitura de poemas nossos como terapêutica). Mas, melhor do que o busto, a árvore que é baptizada com o nosso nome, a escultura do livro aberto que inaugurámos no jardim (e que se acrescentam aos outros dos homenageados que já lá moram) e o quadro desvelado no Ponto C (um espaço cultural novo e excepcional) ou uma exposição inteirinha sobre a nossa vida nos livros, é conhecer as pessoas: não só os políticos, não só os programadores e a fantástica bibliotecária, não só artistas que deram conta da parte estética, não só os amigos que se juntam em conversas sobre nós e concertos em que se cantam palavras nossas, mas sobretudo aqueles que não conhecemos mas estão sempre ao nosso lado, que nos levam de carro de escola em escola, que nos apoiam nas entrevistas de bastidores, que nos trazem tostas mistas quando já desfalecemos de fome num dia que começa com actividades logo de manhã e vai até às 23h00. Gostei mesmo muito dos penafidelenses! Obrigada a todos todos os que fizeram esta Escritaria. Agora é preciso curarmo-nos deste excesso de admiração e amor e, pois claro, descer à terra. 

O que ando a ler

Movida já não sei bem porquê, levei de uma livraria num certo sábado um romance de uma autora chamada Anne Michaels, de quem não me parece que tenha lido alguma coisa antes desta. O livro chamava-se Abraço (como um antigo livro de crónicas de José Luís Peixoto) e talvez tenha sido a ideia de um texto que nos abraça que me fez comprá-lo sem mesmo ter lido a contracapa; ou então a frase «Finalista do Booker Prize 2024» debaixo do título, é o mais certo, porque se trata de um prémio de prestígio e geralmente contempla literatura de qualidade. Para não mentir, estou a levar tempo a lê-lo, apesar de não ser extenso; é, no mínimo, um texto fora do normal, muito fragmentado, dividido em partes em que as personagens são outras (noutro tempo e noutro lugar), mas quase sempre numa situação de guerra ou sentindo a ausência de alguém que lá está (soldado, ferido, enfermeira, médica...) e terá deixado os seus por desígnio ou altruísmo. A crítica chamou-lhe romance, e na verdade o Booker Prize é um prémio para romances, mas eu não lhe encontrei exactamente uma linha condutora, são episódios muito vagamente ligados, mesmo que bastante bonitos (a história de Mara com o pai é a mais bela até aqui). Ainda não percebi, porém, se estou a gostar. Em todo o caso, parece pelo menos uma coisa nova, diferente, o que é bom para quem, como eu, valoriza muito a originalidade. A tradução é que podia ser melhor, talvez tenha sido feita com demasiada pressa, escapou um «pudessem haver» que também fugiu ao revisor, e tem palavras esquisitas como «cobardice» e expressões mal traduzidas (um «by himself» que é claramente «sozinho» e foi traduzido por «por ele mesmo», parece erro de principiante). Coisas que acontecem aos melhores ou uma ajuda da IA? Espero que não.

Excerto da quinzena

Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefonemas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.


Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.


 


Itamar Vieira Junior, Coração sem Medo (no prelo)

Prémio Nuno Júdice

Ontem foi o anúncio da obra vencedora da primeira edição do Prémio Nuno Júdice, um prémio que foi criado para homenagear um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, que nos deixou há cerca de ano e meio. Concorreram 222 livros, tendo, numa primeira fase, sido seleccionados 39 semifinalistas e, numa segunda fase, 5 finalistas. Tive o gosto de presidir ao júri, até porque era amiga pessoal de Nuno Júdice, e de trabalhar na excelente companhia da minha colega Cecília Andrade (que publicará a obra galardoada na Dom Quixote em Março de 2026, no encerramento das comemorações do 60.º aniversário da editora), dos poetas Filipa Leal e Ricardo Marques e da editora Sandra Mendes. Está de parabéns a arquitecta Carla Louro, autora de Entra-se na Casa pelo Pátio, o único livro que estava no topo das preferências de todos os membros do júri e que, por isso, ganhou por unanimidade. É um livro de alguém que sabe o que é poesia, um livro feminino sobre a maternidade (lembrando às vezes a querida Ana Luísa Amaral), o doméstico, o luto, o fazer do poema (o que honra o patrono!) e a comparação entre os poemas e as casas, com analogias e metáforas muito boas. É também uma obra redonda, arrumada, coesa como poucas, que se diria de alguém muito lido e experimentado nas lides da poesia, mas que é (que coisa bonita!) uma obra de estreia. Parabéns, Carla Louro, por este livro claro, mas nunca simplista; emotivo, mas nunca sentimental.

Escrever à mão, parar entre palavras

Leio um artigo muito interessante que uma amiga me envia e está assinado por uma senhora de nome hispânico: María del Valle Varo García, docente universitária. Diz-nos que o cérebro tem regras próprias, e que as redes neuronais são mais ativas quando escrevemos à mão do que quando teclamos, como já sabíamos por experiência, mas não cientificamente; e acrescenta que, para que as palavras adquiram o seu pleno sentido e se tornem ideias ou conceitos duradouros, têm de passar primeiro pela memória de curto prazo; mas que, para a informação estabilizar, tem de passar por outro tipo de memória: semântica, afetiva, espacial ou temporal. Ou seja, a recordação de umas férias envolve uma memória episódica; por outro lado, saber que a capital da Itália é Roma remete para uma memória semântica, desprovida de contexto pessoal. Vale então a pena recordar que a escrita à mão activa uma rede mais ampla de regiões cerebrais (motoras, sensoriais, afetivas e cognitivas) do que a digitação. Esta última, mais eficiente em termos de velocidade, requer menos recursos neurais e promove uma participação passiva. O artigo ainda refere que nem todas as palavras levam o mesmo tempo a processar e que as pausas são muitíssimo importantes. Ora, estas muito mais frequentes na escrita à mão do que na digitação. «Devorar palavras não é o mesmo que absorver a sua essência», diz esta sábia senhora, e eu aplaudo. Agora, que já desistiram do telemóvel nas escolas, que tal reservar os computadores apenas para os alunos mais velhos?

As manias dos Nobel

Imagem

Para o Fólio deste ano, foram convidados três Prémios Nobel da Literatura! Não pude estar no primeiro fim-de-semana e perdi infelizmente, a bielorrusa Svetlana Alexievitch, mas assisti à leitura de um texto sobre genocídio por John Coetzee, o sul-africano que pôs a sala num silêncio absoluto e fez Alberto Manguel dizer-lhe que conduzir aquela sessão foi como arrancarem-lhe um dente. O terceiro Nobel convidado, o mais recente, o húngaro Laszlo Krasznahorkai, teve de regressar intempestivamente a casa assim que chegou, pois estava doente e com problemas respiratórios e, por isso, ninguém pôde ouvi-lo. Já a nobelizada do ano passado, Han Kang, recusa a maioria dos convites para festivais porque quer é escrever sossegada (e presumo que não goste muito de falar inglês, o que acontece com vários asiáticos que conheço). Mesmo nas entrevistas é muito parca; quando lançou o seu último romance, Despedidas Impossíveis, disse que só daria uma entrevista por país, e aqui em Portugal a benesse calhou à Visão. Mas nem por se esconder é menos lida, e nos 60 anos da Dom Quixote, um dos seis livros comemorativos é justamente A Vegetariana, um romance profundamente original que já teve muitas edições. Se ainda não o leu, tem agora esta versão especial.


index.jpg

Dois em Um

Imagem

Pronto, lá se foi a Escritaria donde venho mais morta do que viva; mas, como prometi que hoje já havia blogue, venho aqui dizer-vos que este ano se comemora o 50.º aniversário de carreira literária do querido João de Melo (eu sei que, olhando para ele, não parece possível alguém tão novo escrever há tanto tempo) e que logo à tarde, na Livraria Buchholz, no âmbito das referidas comemorações, vão ser lançados dois livros do autor do premiadíssimo Gente Feliz com Lágrimas e de muitos outros livros de ficção (e um dia poesia que esperamos não seja filho único). Sim, eu disse dois. Um deles é uma colectânea de contos, intitulada A Nuvem no Olhar, que será apresentado pela também romancista Ana Margarida de Carvalho; o outro é um diário que tem por título Novas Fases da Lua, no qual o escritor açoreano tão depressa fala das suas leituras ou comenta a situação, como se refere à própria vida e à escrita; este último vai ser apresentado por Guilherme d'Oliveira Martins. João de Melo é um dos poucos autores consagrados que lê os novos e comenta com eles as suas obras, obras que às vezes ainda apresenta, cita e prefacia. Por tudo isso e por muito mais, merece obviamente ter sala cheia. Vamos?


João de Melo.png

Escritaria

Imagem

Não ia realmente falar disso, mas, como já foi referido, adiante! Hoje à tarde rumarei a Penafiel, onde já decorre desde segunda-feira a 18.ª edição da Escritaria, um festival literário dedicado a uma personalidade ligada às letras que já homenageou escritores como Saramago, Lobo Antunes, Hélia Correia, Lídia Jorge, Mário Cláudio, Ana Luísa Amaral..., e que este ano resolveu atribuir-me esse papel, pelo que estou imensamente grata. Além de a cidade ficar com um busto e uma frase minha para todo o sempre, as actividades dedicadas ao que tenho feito ao longo dos últimos quarenta anos são muitas e desde já quero agradecer a todos os que aceitaram o convite da Escritaria para participar nos painéis dedicados às minhas várias facetas: a de poetisa, a de editora, a de autora de literatura infanto-juvenil, letras para fado e canções, crónicas, contos e também, claro, deste blogue, que alimento quase diariamente desde 2010 (é obra!). Na sexta, haverá um concerto com Aldina Duarte e Pedro Lamares (com a participação da harpista Ana Isabel Dias) e, no domingo, um concerto de Marta Y Micó (José-María Micó é um grande poeta e compositor do país vizinho que musicou e gravou umas letras minhas, que traduziu). Passarão pelas mesas pessoas que me são muito queridas ou que tiveram uma importância fundamental na minha vida nos livros (e não menciono os seus nomes, sob o risco de me esquecer de alguém, mas haverá críticos, editores, autores que publiquei, tradutores e gente da música e da família), mas o programa completo consta de várias notícias que têm saído nos últimos dias e pode ser consultado na página do município de Penafiel. Se estiverem a norte, apareçam! (E o blogue só regressa na segunda, mil desculpas!)


post_imagem_geral_escritaria_25_v1_post_1080x1350_

O futuro da edição

Embora trabalhe num grupo editorial de peso, não me são estranhas as preocupações das editoras independentes, não só em Portugal, onde a ausência de livrarias de nicho ou de fundo é marcante, mas também lá fora, em países onde as coisas vão de mal a pior. Num artigo da Bookseller, divulgado pelo consultor editorial Nuno Seabra Lopes, tomo conhecimento de que cerca de vinte editoras independentes do Reino Unido publicaram uma carta aberta explicando que se encontram numa «crise existencial», pedindo ajuda para poderem sobreviver. Elencam os problemas que as afectam, entre os quais o aumento dos custos de produção (papel, energia...); as dificuldades logísticas e comerciais (parcialmente devidas à saída da União Europeia e às decorrentes complicações alfandegárias); a dificuldade em penetrar no mercado livreiro ou nas redes de distribuição (como cá, em que só as grandes editoras conseguem chegar a todo o retalho); a falta de cobertura mediática e a diminuição do espaço para a promoção de livros na imprensa; e ainda o excesso de trabalho dos funcionários destas editoras e a sua insegurança quanto ao futuro, que gera muitas vezes problemas de depressão e/ou esgotamento. Houve várias chancelas que acabaram e editoras que tiveram de fechar portas, afectando claramente o mercado, pois de repente tudo corre o risco de se tornar industrial e apenas entertaining, o que é perigosíssimo para o desenvolvimento das mentalidades. Cá (excepto no caso da não pertença à União Europeia) passa-se exactamente o mesmo, e não me parece que tenhamos um executivo especialmente preocupado com os livros e a leitura. Deveríamos escrever-lhe uma carta aberta?

PEN de Narrativa

Imagem

Por ocasião do baptizado do filho varão, Felipe III de Espanha e II de Portugal promove festejos imperdíveis na cidade de Valladolid, sede da Corte e capital do império. E, se para aquele umbigo do mundo – onde desaguam todos os vícios, velhacarias e vilanias – concorrem nobres e ladrões, damas e rameiras, será mais do que certo que, depois de um périplo por Badajoz, Sevilha, Trujillo ou Toledo, siga também para lá Tanganho Perdigão Fogaça, conhecido por Dom Perdigote, a fim de cumprir o seu destino. Mas nem tudo se apresenta de feição a este espadachim nascido no ano em que morre Camões; claro que, entre as muitas peripécias vividas, encontra o amor da sua vida e conhece o pintor El Greco, o escritor Quevedo e até o autor do Quixote; porém, será envolvido na tentativa de assassinar um dramaturgo que integra a embaixada inglesa, enviada para ratificar a paz entre as duas nações. Quem o irá salvar? Na senda do seu romance de estreia – A Demanda de Dom Fuas Bragatela, aplaudido entusiasticamente pelo público e a crítica –, este romance pícaro irrepreensível chamado A Vida Airada de Dom Perdigote acaba de ganhar o Prémio PEN de Narrativa por unanimidade. Parabéns, Paulo Moreiras, já não era sem tempo.


index.jpg

Excerto da Quinzena

Estávamos no verão de 2008 quando Francis Ford Coppola chegou à Argentina. Vinha fazer um filme; há muitos anos que não realizava nada. Meses antes, comprara uma casa em Buenos Aires para passar uma temporada e conhecer a cidade; como também tinha vinhedos em Mendoza, queria estar a um pulo de avião. Na equipa de filmagem que criou aqui, havia um assistente de arte que, assim que leu o guião, começou com uma grande gabarolice; dizia que o seu melhor amigo era a reencarnação de Tetro, o protagonista boémio e maldito do filme que iam rodar. O boato não tardou a chegar aos ouvidos de Coppola.


Como qualquer artista necessitado de estímulos, o realizador quis conhecer de imediato o alter ego da sua personagem. Por acaso, esse amigo reencarnado era o meu marido e, numa noite quente de dezembro, fomos os três – ele, a minha filha de três meses e eu – conhecer o monstro sagrado. Eu não fora convidada pelos meus lindos olhos, mas porque falava inglês; quanto à minha filha, bom, não tínhamos com quem a deixar.


 


María Gainza, Um Punhado de Flechas, trad. Helena Pitta

Prémio Camões

Na semana passada, tivemos a excelente notícia da atribuição do Prémio Camões à poeta, ficcionista e historiadora angolana Ana Paula Tavares, cuja Poesia Reunida seguida de Água Selvagem foi dada à estampa pela editorial Caminho no ano passado. A Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas anunciou que o júri distinguiu a escritora pela sua “fecunda e coerente trajetória de criação estética e, em especial o seu resgate de dignidade da Poesia”, sublinhando ainda que, "com a dicção do seu lirismo sem concessões evasivas e com os livres compromissos da produção em crónica e em ficção narrativa, a obra de Ana Paula Tavares ganha também relevante dimensão antropológica em perspetiva histórica”. A contemplada, actualmente professora na Faculdade de Letras de Lisboa, cidade onde reside e onde se licenciou em História,  dedicou o prémio a todas as poetas e todas as mulheres, especialmente, claro, as de Angola. É a terceira premiada deste país, seguindo-se a Luandino Vieira e Pepetela, e a oitava mulher em 37 edições que o prémio já leva. Parabéns, Ana Paula Tavares!


 


P.S. Amanhã começam, na Casa Fernando Pessoa, os dias de poesia Lisbon Revisited, que se prolongam durante todo o fim-de-semana. Este ano, os convidados são Nuno Moura, Inês Lourenço, Filipa Leal e Bernardo Pinto de Almeida, bem como os estrangeiros Najwan Darwish (Palestina), Katerína Iliopoúlou (Grécia), Slobodan Ivanović (Montenegro) e Stella Nyanzi (Uganda). Se gosta de poesia, não falte.


 


 

Dançar Eça de Queiroz

Amanhã estreia um espectáculo de dança que exerceu sobre mim grande curiosidade. Trata-se de uma adaptação da obra Os Maias, de Eça de Queiroz, que apesar da sua popularidade e intemporalidade nunca tinha antes chegado aos palcos do bailado. A autoria cabe ao coreógrafo Fernando Duarte, que divide esta sua criação em três actos e, segundo a folha de sala da Companhia Nacional de Bailado, revitaliza assim "a narratividade da dança, uma dimensão amplamente apreciada e reconhecida pelos públicos", deste modo "evocando, reinterpretando e dando nova vida a personagens e questões" universais. Estou curiosa porque não será fácil passar da literatura para outra arte mantendo a verve e a ironia do nosso Eça, mas sinto-me tentada a ir ver, até porque acompanhará o espectáculo ao piano o talentoso António Rosado e teremos ainda solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa. Até dia 26, no Teatro Camões, em vários horários, consoante o dia.

Palavrinhas

Estava eu a escrever a palavra «velado» quando pensei logo que ela implica algo que está escondido, coberto por um véu (uma mulher velada, uma história abordada veladamente...). Porém, todos sabemos que o prefixo «re-» implica repetição (reler é ler mais de uma vez, por exemplo); e, assim, fez-me uma certa espécie que «revelar» não quisesse dizer que uma coisa está ainda mais velada e escondida do que é normal (que tem mais de um véu), mas justamente o contrário, ou seja, a mesmíssima coisa que «desvelar», que usa o elucidativo prefixo «des-» (que, como toda a gente sabe, é de negação, como em «desfazer» ou «desatar»). A nossa língua está cheia destas singularidades; e, consultando o querido Dicionário Houaiss, apareceu-me então «velar» com o sentido de «estar alerta», de «vigiar», atitude absolutamente necessária quando «velamos» um doente, por exemplo; e, efectivamente, precisamos muito de estar alerta para podermos «descobrir» alguma coisa (e «descobrir» é também tirar aquilo que cobre, tirar o véu), que é o que significa o verbo latino que está de facto na origem da palavra «revelar». Se pensarmos bem, a revelação da fotografia é, no fundo, o que se descobre no papel quando este é mergulhado no líquido, a imagem que estava velada e que de repente se deixa ver. Que giro.

O fado do fado

Leio quase tudo o que encontro sobre fado. Não só é um assunto que me interessa desde há muito, mas também escrevo uma crónica mensal no premiado jornal digital A Mensagem de Lisboa sobre a matéria e, por isso, estou constantemente à procura de histórias e episódios engraçados para dividir com o público. É sobretudo por causa disso que me interessa divulgar um livro que acaba de sair (o lançamento será no dia 17, na Fundação José Saramago), da autoria de Sérgio Luís de Carvalho, intitulado Lisboa Fadista. Fala de tudo um pouco: das origens sempre polémicas e discutíveis da canção de Lisboa até ao seu estatuto de património imaterial pela UNESCO, sem dúvida merecido. Como passou o fado de uma arte fechada nas casas de fado para os grandes palcos? Como foi que, depois de adorado e trauteado por todos os Portugueses, levou uma tareia tal depois da Revolução que só era cantado lá fora e se tornou uma canção quase envergonhada, recuperando apenas a sua popularidade mais de vinte anos mais tarde?  Como se tornou o fado um símbolo do País e nos faz levar a mão ao peito e comover, sobretudo quando o ouvimos fora de Portugal e com saudades de casa? Tudo isto está, pelos vistos neste Lisboa Fadista. Se gosta de fado, não o pode perder.

Revisitar Portugal

Imagem

Há muitos anos, quando eu trabalhava na Temas e Debates, a editora do Círculo de Leitores Guilhermina Gomes publicou uma colecção que teve um tremendo sucesso chamada Crónica do Século XX em Imagens. Era dirigida pelo jornalista Joaquim Vieira e tinha dez volumes cartonados, um por década, sendo constituída sobretudo por fotografias e pequenas legendas que contavam a história do País. Creio que se venderam cerca de 200.000 colecções e ainda hoje os volumes aparecem muitas vezes nas listas dos alfarrabistas. Hoje, com a Internet, temos uma página digital que faz este mesmo trabalho, página essa da responsabilidade de Gonçalo Farlens, um estudante de História na Faculdade de Letras de Lisboa nascido em 2002, que se dedica a narrar episódios da história nacional através de fotografias de época. E agora, além dessa página, temos o livro homónimo Portugal Antigamente, assinado pelo mesmo Gonçalo Farlens, que segue exactamente o mesmo princípio, juntando num só volume não apenas as imagens dos mais emblemáticos factos ocorridos em Portugal desde a implantação da República até ao funeral de Amália, mas também representações de episódios de que não nos lembraríamos assim de repente e, afinal, ali estão para nos recordar do que na época sentimos (a erupção do vulcão dos Capelinhos, por exemplo, ou o mítico bar Frágil). Muito interessante esta viagem fotográfica!


index.jpg

Uma nova revista

Quem leu a Odisseia, de Homero, sabe bem que Ulisses, quando regressava a casa finda a Guerra de Tróia, ficou prisioneiro dos encantos da bela Calipso durante anos numa ilha chamada Ogygia. Pois bem, é justamente o nome dessa ilha, Ogygia, que hoje dá nome a uma revista literária e artística açoreana que tem (como Calipso) artifícios bastantes para atrair e prender os leitores, sejam estes masculinos ou femininos. Editada nos Açores e dirigida por duas mulheres que são grandes leitoras, Avelina da Silveira e Paula de Sousa Lima (esta última finalista do Prémio LeYa com o romance Paraíso), trata-se de uma revista online cujas colaboradoras são exclusivamente mulheres. Neste número, podemos por exemplo encontrar a escritora Leonor Sampaio da Silva, de quem publiquei este ano o magnífico Passagem Noturna, as poetisas Dora Nunes Gago ou Ângela Almeida e a pintora convidada Nina Medeiros. Além dos textos literários, contos ou poemas (pronto, também escrevi um), a revista, cujo número inaugural é dedicado ao tema da ilha, contém ainda textos críticos e entrevistas. Vale muito a pena, claro, folhear esta novidade cujo link aqui vos deixo.


https://pub.marq.com/Ogygia1/

No Porto

Imagem

Afonso Reis Cabral viveu parte importante da sua vida no Porto, e é lá que vai acontecer logo à tarde a apresentação pública do seu mais recente romance, O Último Avô, que teve uma gestação demorada, mas valeu a pena, até porque já vai em segunda edição. Desta feita, será o escritor Mário Cláudio o orador da sessão e esperamos o melhor, já que nos deu a entender que, ao fechar o livro, o romance o atingira realmente como um clarão. Lembro que o livro conta a história de Augusto Campelo, um genial escritor que, pouco antes de morrer, queimou no jardim de casa um manuscrito a que dedicara muito tempo e que ninguém sabia de que tratava, embora os mais próximos acreditassem ser finalmente a obra sobre a sua experiência na Guerra Colonial, que descrevia frequentemente como traumática em entrevistas. Mas, na verdade, essa sua vivência é apenas um lado deste O Último Avô, pois não há como esquecer o lado do neto-narrador e a rememoração de episódios familiares, por vezes igualmente traumáticos, que incluem a fuga de casa da sua mãe, filha mais nova do escritor, no final da adolescência. Uma guerra de palavras também. Não percam. O convite fica abaixo.


IG_convite_o_ultimo_avo_PORTO.png

Gémeos separados

Imagem

Ela coleciona camisolas. Ele tem dois gatos. Ambos adoram Nova Iorque e, aconteça o que acontecer, hão de mudar-se para lá quando fizerem 28 anos. Porém, de repente, ele diz que quer passar algum tempo sozinho.


E se uma das metades de um par de gémeos não quiser continuar a viver? E se a outra não conseguir viver sem essa metade? É esta a questão central do presente romance, em que a narradora é a gémea de um rapaz que se suicidou e relembra muitas histórias de infância e também as suas vidas adultas com mágoa, saudade, raiva e insegurança em relação ao futuro. De uma maneira aparentemente desprendida mas muito perspicaz, Aquilo em Que Preferia não Pensar conta a história do que acontece quando a pessoa com quem construímos as bases de toda uma vida desaparece subitamente, e as memórias que restam são as de um pai que já era ausente antes de ter morrido e de uma mãe geóloga, fria como uma pedra. Finalista do Booker Prize Internacional, traduzido em mais de uma dezena de línguas, o romance de Jente Posthuma é uma exploração comovente do luto, contada através de episódios breves e cirúrgicos, impregnados de uma suave melancolia e, o que é surpreendente, de um humor inesperado e corrosivo. Um livro que se debruça também sobre o facto de a saúde mental depender tantas vezes da vida familiar. Quase a sair para as livrarias e muito, muito original.


_opt_VOLUME1_CAPAS-UPLOAD_CAPAS_GRUPO_LEYA_DQUIXOT


 

O regresso

Imagem

Depois de há três anos ter publicado o seu quarto romance com a Casa das Letras chamado Velhos Lobos, Carlos Campaniço regressa com uma história claramente alentejana. Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha – o lugar onde decorre a acção deste romance – a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução. Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e vêem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento. Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia, é curiosamente o carteiro o elo de ligação entre todos, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa. Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e com uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos uma obra profundamente original sobre o período da Reforma Agrária.index.jpg

Excerto da Quinzena

«[…] Mas é em relação a uma mancha antiquíssima que sobretudo pretendo precaver os passos do menino, mancha de que umas vezes me envergonho, mas de que outras vezes, confesso sem rebuço, me comprazo numa espécie de infame altanaria. É necessário que compreenda que no íntimo da nossa cepa jazem águas negras e abissais, as quais águas, ainda quando não se agitam, não cessam de despedir pútridos vapores, soprados pelas mais diabólicas das entidades, habitantes dos círculos do Inferno. Nos nossos avós, e de uma maneira genérica em toda a nossa parentela, detecta-se uma como que chaga do espírito, sempre aberta, ardendo na impaciência de contaminar quem dela se acerque. Os nossos mais longínquos antepassados viveram numa inquietude que os empurrava de terra para terra, incapazes de assentar num sítio que lhes fosse favorável, encandeados por uma estrela que jamais lhes entremostrava o rumo, e que os trazia num sobressalto que lhes devorava as entranhas. Arrastados pelo fogo de uma paixão que tudo consumia, e que nada se mostrava susceptível de saciar, sacrificavam o próprio tempo que lhes calhava, e gostaria de assegurar ao menino, o que infelizmente não é viável, que jamais teriam imolado a dignidade. Na província de Trás-os-Montes, julgo eu, donde somos oriundos, acertaram em nos pôr a alcunha de “os Bro­cas”. Se consultar o menino um bom dicionário, encontrará como sinónimo deste vocábulo “verruma”, e “alavanca”, e “furador”, e “patranha”. Confiro à sua imaginação que desde já se me antolha riquíssima o encargo de decidir da justeza de tal antonomásia.»


Mário Cláudio, Camilo Broca, 5ª edição no ano do bicentenário de Camilo Castelo Branco

Mapas literários

Há uma editora chamada Bairro dos Livros que constrói uns livros-objectos fascinantes que são, na verdade, guias literários de várias cidades portuguesas acompanhados de mapas que nos permitem fazer uma visita exclusivamente literária a essas cidades. Com eles, descobrimos os escritores que ali nasceram e viveram, os que escolheram a cidade como pátria ou local de férias, os que por lá passaram e deixaram marca. Mas não só: vão à procura de referências ao local em romances e poemas de escritores nacionais, partilhando esses excertos ou episódios de forma a enriquecer a nossa cultura literária; e, por outro lado, descrevem-nos historicamente muitos dos locais a visitar que foram referidos na obra de escritores. São ilustrados e bilingues, para que os turistas também se possam entreter. Recentemente, foi publicado o guia dedicado à Sertã, cidade onde decorre inclusivamente uma maratona da leitura muito conhecida e sobre cuja Capela da Nossa Senhora dos Remédios escreveu o nosso Eça a seguinte quadra: «Fui à Senhora dos Remédios/Levei três vinténs de prata/Fui a pé, vim a cavalo/Não há coisa mais barata.» Já disponíveis estão os guias do Porto, de Baião, de Évora, de Matosinhos, da Póvoa de Varzim e de Penafiel. Valem mesmo a pena! Para mais informações, deixo-vos o link:


www.bairrodoslivros.com

O que ando a ler

Imagem

Antes que me esqueça, hoje às 18h30 faremos o lançamento em Lisboa de O Último Avô, de Afonso Reis Cabral, na Casa do Jardim da Estrela. O convite, de resto, vai abaixo, e espero que apareçam por lá. Mas hoje é também dia de falarmos sobre o que andamos a ler e de um livro sobre o qual tinha bastantes expectativas, porque foi o escolhido pelos estudantes universitários portugueses como favorito entre os finalistas do Prémio Goncourt de 2024. Trata-se de Jacarandá, de Gaël Faye, e conta a experiência de um jovem, filho de pai francês e mãe ruandesa, ao longo da adolescência e dos primeiros anos da idade adulta. Ele, que nunca ouvira falar do genocídio do Ruanda, recebe na sua casa dos arredores de Paris um menino de 12 anos ruandês, que fica a saber ser seu tio e ter perdido toda a família nos massacres. Tornam-se quase irmãos, e visitá-lo-á com a mãe uns anos mais tarde para aprender, afinal, tudo o que não sabia sobre a família materna e sobre os horrores perpetrados no ano de 1994 durante cem dias em que a maioria hutu liquidou quase um milhão de tútsis, etnia a que pertencem os seus parentes. Livro interessante do ponto de vista histórico e muito elucidativo sobre este facto concreto, em termos literários não é especialmente rico e tem um estilo bastante seco. O jacarandá de que fala o título é a árvore sob a qual os quatro primos do narrador foram enterrados e à qual a irmã deles, Stella, nascida muitos anos mais tarde, gosta de subir em jeito de homenagem. Vale a pena sobretudo pela informação.


convite_o_ultimo_avo.png

Os quadros de Nuno Júdice

O grande poeta Nuno Júdice deixou-nos há cerca de ano e meio, mas não cessam as manifestações de homenagem à sua vida e obra. No último dia 20, por exemplo, foi inaugurada uma exposição no Museu de Portimão (Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande ) intitulada Nuno Júdice: o Prazer das Imagens, com curadoria de Manuela Júdice, Filipa Leal e José Gameiro, que desafia os visitantes a conhecerem melhor a personalidade do poeta através dos «seus» quadros. Este «seus» explica-se de duas maneiras: não só Nuno Júdice desenhou, fotografou e fez colagens ao longo de toda a sua vida, em vinte cadernos, a par dos poemas que ia escrevendo; mas também adquiriu, ou recebeu de presente, uma obra pictórica ou fotográfica digna de ser mostrada ao público, da autoria de artistas tão conceituados como Júlio Pomar, Manuel Amado, Graça Morais, Rui Chafes, Jorge Martins ou o mais novo Duarte Belo, filho de outro sublime poeta (Rui Belo). A exposição ficará aberta até Janeiro e incluirá ainda documentários sobre o escritor. Uma boa razão para ir ao Algarve, menos fútil do que a praia.

Onze

Imagem

Há uns anos, fui entrevistada por Luísa Sobral para um podcast que a cantautora então tinha sobre letristas. Não havia muito tempo ainda, o seu irmão Salvador estreara uma letra minha num espectáculo de TV com o pianista Júlio Resende, e a Luísa gostava muito dessa letra e estou em crer que também por isso viera entrevistar-me. Conversa puxa conversa, percebi que era uma grande leitora desde pequena e que um dos momentos mais felizes da sua infância era ir com a mãe à livraria escolher os livros que levavam para férias. Um bom leitor não faz obrigatoriamente um bom escritor, mas desenganem-se os que pensam que se pode ser um bom escritor sem ter lido muito. Este ano, com grande alegria, publiquei o primeiro romance da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé. As estreias são sempre difíceis, sobretudo quando se trata de personalidades públicas que, já se sabe, evocam frequentemente comentários infelizes e invejosos; mas esta não podia ter corrido melhor. Vamos na 11.ª edição e há cada vez mais gente a comentar positivamente este livro sério e cheio de poesia sobre a vida de duas mulheres antes e depois da construção do Muro de Berlim. Se ainda o não leu, vai muito a tempo. Parabéns, Luísa Sobral. Uma grande leitora e uma grande escritora.


_opt_VOLUME1_CAPAS-UPLOAD_CAPAS_GRUPO_LEYA_DQUIXOT

Metroteca

Imagem

Embora se vendam cada mais livros em todo o mundo, ao que parece a maior fatia é de obras que pouco contribuem para a formação intelectual e ética e o desenvolvimento pessoal dos leitores; e além disso o que não baixa de maneira nenhuma é o tempo que hoje se passa diante dos ecrãs do computador ou do smartphone a ver vídeos ou mandar umas bocas nas redes sociais. Na Polónia, os hábitos de leitura estão a baixar, e o município de Varsóvia resolveu criar uma Metroteca. Uma forma que permite aos habitantes, através de uma tecnologia de ponta, alugar ou levar de empréstimo livros nas estações de metropolitano. Na primeira criada para o efeito, foi decorado um espaço de 150 metros quadrados com um acervo de 16.000 livros fornecidos por editoras a que nenhum passageiro fica indiferente. Basta aos interessados passarem o livro que querem ler por uma máquina que identifica o chip e isso permite saber onde anda o livro através de um localizador até ser devolvido à metroteca, evitando filas. Há livros sobre todos os temas e arrumados em estantes brancas e bonitas de forma fácil de encontrar. Quem quiser até pode ficar a ler no próprio metro. Um bom exemplo do que é tentar espalhar cultura mesmo debaixo de terra.


203817df7237316ce7ca6b8c91b3be19-31371654.webp

Homenagem

Nem sempre é fácil compreender as influências de determinado escritor, especialmente quando começa o seu percurso, por assim dizer, mais profissional; mas há casos em que saltam logo à vista os escritores que leu e por quem se apaixonou. Lembro-me de sentir que Borges estava muito presente na cultura de Afonso Cruz quando li a sua primeira Enciclopédia Universal, por exemplo, e agora é mais do que evidente a paixão reverencial de Miguel Bonnefoy por Cem Anos de Solidão no romance-homenagem O Sonho do Jaguar, que recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e o Prémio Femina, tendo sido ainda finalista do Prémio Médicis, do Prémio Renaudot e do Prémio Jean Giono. O autor, que viveu em Portugal e está agora em França (escreve, aliás, em francês), é filho de um chileno e de uma venezuelana, e escolhe precisamente Maracaíbo, na Venezuela, como lugar de acção, e como personagens três membros de uma mesma família cuja história começa com um órfão abandonado à porta de uma igreja e recolhido por uma pedinte. Às muitas semelhanças com o romance de García Márquez soma-se uma cultura vastíssima, um trabalho brutal sobre as metáforas e, sobretudo, um ritmo alucinante e uma imaginação prodigiosa. Embora me pareça que no fim esmorece ligeiramente (talvez pelo exacerbamento anterior), é uma homenagem incrível ao nobelizado colombiano e a um estilo que agora os latino-americanos acham fora de moda, mas que fez história durante décadas. Leia-se, claro.

Tirar do anonimato

Imagem

María vive uma dupla crise, pessoal e profissional. Há um ano que decidiu afogar as mágoas no álcool, que o chefe perdeu a confiança nela e que ninguém valoriza o seu trabalho de investigação no jornal; e, como se isso não bastasse, o seu relacionamento está por um fio. Encontra-se ainda embriagada quando uma manhã recebe um telefonema em que a mãe lhe anuncia a morte da avó que, no período da guerra civil espanhola, escondeu imensos militantes comunistas na sua pensão e se tornou uma das mulheres mais importantes da vida de María. É no velório que esta descobre uma mulher idosa e franzina que não conhece mas que deixa a sua mãe estranhamente inquieta. Ao perguntar de quem se trata, fica a saber que se chama Isadora, mas percebe imediatamente que existe entre ambas um segredo incómodo. Tentando endireitar-se, María pensa então fazer uma pesquisa sobre a vida aventurosa da sua avó. Porém, quando procura documentos, encontra a foto de uma mulher com uma tatuagem no peito onde se lê FELD-HURE. Por trás, um nome  e uma data: Isadora Ramírez García, 14 de outubro de 1945. E então começará uma investigação sobre as mulheres não judias que foram levadas pelos alemães para o campo de concentração de Ravensbrück, algumas ainda adolescentes, para servirem como prostitutas e cobaias de experiências médicas terríveis. Isadora, a amiga da avó, sobreviveu ao horror e quer contar a María sua história antes de morrer. Esta é a narrativa de O Barracão das Mulheres, um romance-reportagem interessantíssimo que tira do anonimato muitas mulheres injustamente esquecidas ou desprezadas e conta a sua história.


_opt_VOLUME1_CAPAS-UPLOAD_CAPAS_GRUPO_LEYA_ASA_EGM


 

Filosofia para todos

Os que têm a minha idade lembrar-se-ão decerto do estrondoso sucesso que teve um livro chamado O Mundo de Sofia, que era uma introdução à filosofia escrita de uma forma lúdica e de fácil compreensão que esteve nos Top de vendas em todo o mundo e inaugurou um estilo a que depois se chamou no meio editorial uma narrativa não-ficcional. Era realmente incrível como uma coisa que parece a todos os adolescentes tão complexa na escola secundária afinal era muito mais simples na formulação de Josteein Garder. Na mesma linha, o escritor e investigador português Simão Lucas Pires vai dar um curso de Filosofia para todos, uma introdução a esta disciplina fascinante, a partir do Espanto, que o autor considera «um corte na monotonia do quotidiano» e algo que nos faz «perder o pé». Assim, em cinco sessões semanais entre os dias 2 e 30 de Outubro, o curso falará sobre a interpretação da realidade, a pretensão do saber, a resistência à assunção da ignorância e muitas outras interrogações em que o espanto se perfila, na vida humana e na obra de escritores. Tudo no El Corte Inglés, às 18h30. Uma filosofia acessível aos leigos.

Destronar a língua materna

A língua mais importante no mundo não é a língua materna com mais falantes, mas aquela que é a segunda língua de mais pessoas. Pois, o inglês. Quando vamos a um país cuja língua não dominamos, puxamos logo do inglês como língua de comunicação; e, devido à produção em massa de séries, filmes e música em inglês (sobretudo nos EUA), não só uma quantidade enorme de palavras inglesas são usadas quotidianamente em Portugal (sobretudo nas empresas, onde todos os cargos foram convertidos à tradução inglesa e os Recursos Humanos, quando entra alguém de novo, chega a chamar à recepção ao novo funcionário «On Boarding»), mas também a língua do país é permeada por construções gramaticais do inglês. Hoje, por exemplo, muitos portugueses usam o «tu» em lugar do «nós» ou do impessoal «se» (e tudo por causa do «you», que é simultaneamente «tu» e toda a gente); as redes sociais estão a abarrotar de anglicismos ou palavras em inglês; mas o que acho mesmo a pior das notícias é que, nas provas feitas este ano nas escolas concluiu-se que os alunos do 4.º ano (portanto, com 9 ou 10 anos) se saem melhor em Inglês do que em Português. Foram realizadas mais de 340.000 provas. Teme-se o pior.

A norte

Imagem

Amanhã estarei muito longe de Lisboa, na verdade, já quase em Espanha, pois terei uma actividade no Centro de Estudos Mário Cláudio, que fica em Venade, Paredes de Coura. O Centro, dirigido actualmente pelo professor Cândido Oliveira Martins, promove mensalmente uma série de Diálogos Interartes, nos quais é suposto estarmos acompanhados por alguém que pratique uma arte diferente da nossa mas esteja ligado a nós e à nossa própria arte (que, no meu caso, será a literatura, a que faço ou dou a conhecer). Mas, curiosamente, escolhi para me acompanhar Jorge Reis-Sá, alguém que faz a mesmíssima coisa do que eu, mas, como eu, acaba por estar ligado a uma outra arte, a música, e sempre através dos livros. Enquanto eu escrevo letras para fados e outras canções, o Jorge dirige na Imprensa Nacional uma colecção de livros com as letras de ilustres autores como João Monge, Rui Reininho, Carlos Tê e outros. Falaremos disso, claro, do que ambos escrevemos (temos até um prémio em comum, o da Fundação Inês de Castro) e da sua recente participação em programas culturais televisivos sobre Camões e Camilo, em que também é preciso uma certa arte para uma pessoa se sair bem. Se estiver a norte, apareça para dialogar.


cartaz setembro regresso ao parnaso-120925.png

A culpa do Leste

Imagem

Falo hoje de um livro maravilhoso de uma autora búlgara, Joanna Elmy, que virá ao FOLIO no primeiro fim-de-semana para trocar conversa com Luísa Sobral a propósito de Fronteiras. Trata-se de Feitas de Culpa, um romance já traduzido em vários países. Yana, estudante búlgara recém-chegada a uma pequena cidade americana através de um programa de intercâmbio, presencia uma noite um acidente de viação. A vítima é outra estudante do Leste Europeu, condutora da bicicleta que embateu com o carro, que falece no local. A morte da rapariga é rapidamente esquecida, pois faz parte de uma série de acidentes semelhantes, sem importância para as autoridades. Mas, para Yana, é um catalisador que a desperta para a sua condição. Enquanto permanece nos EUA como imigrante ilegal, após o término do programa de intercâmbio, Yana começa então a relacionar a sua vida precária com as da mãe e da avó, intrinsecamente ligadas à sua, vidas cheias de tristeza e de culpa por a sua liberdade significar o sofrimento da geração precedente. Narrado a partir do ponto de vista de três mulheres assombradas pela violência, pelo vício e pela impossibilidade de encontrar um lugar para viver, este romance conta as suas vidas, que coincidem com a história contemporânea da Europa de Leste – da ditadura totalitária do regime comunista pós-1944 ao período de transição democrática da década de 1990 e à imigração para o Ocidente –, um território dilacerado, cujas cicatrizes mal saradas Yana, a sua mãe Lilly e a sua avó Eva herdaram.


index.jpg


 

Palavrinhas

Uma das palavras mais usadas e que mais coisas parece significar é «género». Além de apontar para as propriedades comuns de um dado grupo de pessoas, animais ou objectos (como em «o género humano»), ou de uma dada categoria taxonómica (uma espécie), é ainda utilizado com o sentido de estilo, modo ou tipo (o género de vida que alguém leva, por exemplo), como categoria gramatical (género masculino ou feminino de uma palavra), como sexo (idem), como categoria literária (a literatura «gender» ou o escritor que escreve vários géneros, poesia, romance, ensaio) ou artística (género cubista); e, no plural, «géneros» refere-se também a produtos, alimentos ou mercadorias (há falta de géneros na Palestina actualmente para ajudar as populações à fome). Curiosamente, a etimologia desta palavra de origem latina aponta para o sentido de «nascimento, descendência, origem, raça» (os genes, enfim...) e é por isso que uma pessoa «generosa» é, na base, não uma pessoa que oferece géneros desinteressadamemente, como eu pensava, mas um «fidalgo ou nobre, de família ilustre, de boa qualidade (que, no fim da linha, é o que pode oferecer os tais géneros). Sempre a aprender.

O Último Avô

Imagem

Já está nas livrarias o mais recente romance de Afonso Reis Cabral, um dos mais jovens autores portugueses literários de peso, que venceu o Prémio LeYa com o primeiro romance (O Meu Irmão) e o Prémio Literário José Saramago com o segundo (Pão de Açúcar). Tardou a entregar o terceiro, mas compensou a espera com a qualidade, por isso perdoamos-lhe o silêncio e o atraso. Em O Último Avô conheceremos Augusto Campelo, o mais genial escritor português, que queima o manuscrito no qual trabalhou durante anos, deixando para trás um mistério: seria o tão esperado romance sobre a experiência traumática da Guerra Colonial, de que tantas vezes falava, mas à qual nunca dedicou um livro? Subsiste a dúvida: o escritor morre uma semana depois. Resta por isso ao neto a missão de descobrir a verdade e de compreender (ou não) o gesto do avô. Mas essa busca arrasta-o sem querer para um terreno bem mais doloroso, que se prende com a fuga e a morte prematura da mãe, cuja ausência é sublinhada há anos por um quarto trancado na casa do avô. Atravessando a intimidade de três gerações de uma família marcada por perdas, conflitos e paixões, O Último Avô conta a história da relação entre um escritor tirânico e o seu único neto, entre a herança literária e a vida real. Brilhante, garanto-vos.


index.jpg

Línguas raras

Quando um autor é publicado pela primeira vez, tem sempre muitas perguntas para fazer que se prendem com o seu futuro como escritor «universal», e uma delas geralmente está relacionada com a tradução do seu livro no estrangeiro. Como são poucas as editoras lá fora que têm leitores de língua portuguesa, é preciso muito trabalho para conseguir uma tradução de um autor português desconhecido em qualquer país, mais ainda se não se investir na retroversão para inglês de um excerto para difusão, o que resulta caro. Mas, depois de os livros começarem a disparar (o que, por exemplo, aconteceu com o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, depois de ter ganho prémios de peso em Portugal e no Brasil), por vezes acabam por vender-se em línguas muitíssimo raras, como o persa, o tamil, o urdu, o telugu... Não foi bem isso que aconteceu com o espantosamente bem-sucedido Pedro Alecrim, do querido António Mota, a história de um rapazinho que perde o pai publicada originalmente em 1988 e com mais de 40 edições até hoje; mas acaba de ser traduzido para a língua mirandesa, um  feito a que poucos têm o privilégio de assistir. Parabéns, António, por este Bai Pedro Bai, uma tradução que quase ninguém consegue, mesmo os autores famosos!

Excerto da Quinzena

Disseram-me isto: que o meu avô abriu uma cova no jardim das traseiras e de seguida a regou com gasolina; depois, atirou-lhe o manuscrito e, com um sorriso, acrescentou ao cozinhado a chama pequena de um fósforo. Com empenho e combustível, até uma pequena chama faz grandes coisas.


Antes, durante anos, escondeu um caderno escrito à mão que teve o efeito de o calar, como se só houvesse histórias naquelas páginas. Assemelhava-se a certos reformados cujo derradeiro interesse, por norma uma genealogia vaga ou uma filatelia desinteressante, os faz sumir da actualidade.


Agora falava pouco do passado, ao contrário do que acontecia na minha adolescência, que ilustrara com as coisas da guerra: havia casacos de ouro, crânios em praias portuguesas, gorilas de dorso de prata atravessando as estradas de Cabinda, um cabo de metal tenso entre duas árvores para decapitar quem por elas passasse, corpos esquecidos em pás de retroescavadoras; e até um tiro de G3 que subiu direitinho pelo olho do cu de um macaco.


Encantava-me de tal maneira ouvi-lo, prendia-me cego numa mentira de amor, como se quem conta e quem ouve dessem as mãos, que eu achava que o avô e o contador de histórias eram a mesma pessoa. A África do avô tinha sempre uma fuga, o contraponto da violência. Uma criança nunca morria sem que o sangue desenhasse uma rosa, nunca uma cidade saqueada surgia sem que alguém tentasse repor um frasco de compota às prateleiras das mercearias. Tudo era violento e delicado na guerra, como tudo parecia violento e delicado no avô.


 


Afonso Reis Cabral, O Último Avô

Lisboa setecentista

Durante muito tempo, o escritor e jornalista Tiago Salazar ocupou-se essencialmente do tema da viagem, correndo o mundo, publicando livros que os lugares que visitava evocavam e tendo até um programa de viagens na televisão. Depois, quando deixou de escrever em jornais e passou a conduzir um tuc-tuc em Lisboa, fazendo viagens culturais e literárias, começou a interessar-se mais pela História e a escrever romances sobre personagens que merecem ser lembradas. Assim, publicámos da sua pena O Magriço (um dos Doze de Inglaterra), O Pirata das Flores (uma espécie de Sandokan nacional) e mais recentemente O Judeu de Santa Engrácia, a história de um judeu condenado à morte acusado de roubar uma igreja ainda inacabada (o que era falso), porque a justiça portuguesa já não funciona há muitos séculos. Este romance é, de resto, o ponto de partida para uma conversa-conferência que ocorrerá mais logo, às 18h30, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés, onde o Tiago falará da Lisboa da época e das diferenças que existem entre essa e a que percorre actualmente todos os dias no seu tuc-tuc. O Judeu de Santa Engrácia, em espírito, acompanhar-nos-á ao longo da sessão e, claro, merece mesmo ser lido. 

Em nome da terra

A partir de amanhã e até dia 14, na Aldeia do Melo, terra natal de Vergílio Ferreira, realiza-se a quarta edição do festival literário Em nome da Terra. Serão 40 os convidados para o certame, entre escritores, músicos, pensadores, performers, sendo o homenageado deste ano o filósofo José Gil, que terá inclusivamente uma rua da aldeia baptizada com o seu nome. Segundo a organização, este ano «o programa foi desenhado como um mapa de experiências entre leitores e autores» e inclui, além dos sempre interessantes debates, actividades para todas as idades. Darão um ar da sua graça autores como Afonso Cruz, Ondjaki, Valter Hugo Mãe ou Francisco José Viegas, e haverá espectáculos musicais assegurados por Teresa Salgueiro, Márcia, Joana Alegre, Rogério Charraz e muitos outros. Os mais pequenos terão direito a histórias contadas ao vivo e estará patente ainda uma exposição de Rita Cortesão chamada «Cartas ao Futuro» e alusiva à própria aldeia. Tudo em nome da terra de Vergílio e da sua memória.

A vida dos ricos contada pelos próprios

Hoje, fala-se muito de autoficção quando, num conto ou romance, o lado autobiográfico é assumido pelo autor desde o início; e, por muito que alguns achem que isso é uma espécie de literatura menor por contar o real sem ter de recorrer à imaginação, a verdade é existem obras completas autoficcionais que dão direito ao Prémio Nobel da Literatura, como foi o caso da de Annie Ernaux, autora que nunca escondeu que os seus livros falavam acima de tudo de si própria. Foi, de resto, esta escritora e o seu O Acontecimento (a história de um aborto que terá feito) que espicaçou a escritora Colombe Schneck, judia parisiense nascida em 1966, cuja mãe se salvou dos campos de extermínio escondida num convento católico durante a Segunda Guerra Mundial, a escrever também uma ficção sobre uma gravidez indesejada (e descuidada) que lhe "aconteceu" aos dezassete anos e que desencadeou um aborto. E essa é só a primeira e maravilhosa história de Trilogia de Paris, um tríptico esplendoroso no qual aprendemos como vivem os verdadeiramente ricos, as roupas de alta-costura que recebem das avós e as férias em Saint-Tropez, mas em tudo o resto iguais a nós, excepto numa espécie de contenção a que o estatuto aristocrático os obriga e que aqui é especialmente visível na ficção chamada «Duas Burguesinhas», título que pressupõe já uma certa frontalidade que não inclui qualquer vergonha (não escolhemos em que família nascemos). Esta trilogia de momentos vividos em Paris é de uma sinceridade sem limites e, como a descreveu Deborah Levy, possui uma «escrita valiosa», representa «um estudo profundo sobre a existência em várias idades e fases da vida». Eu adorei.

Uma questão de vírgula

Li no Linkedin um texto muito bonito de um escritor-fantasma chamado Pedro Matos Viegas (sim, ele identificava-se como ghost writer de figuras públicas) um texto sensível e bonito em defesa da vírgula antes de um vocativo e chamado "Não deixem a vírgula morrer". Para quem não estudou estas coisas no Secundário, posso dizer-vos que se trata da vírgula que se põe em frases como "Parabéns, Pedro", "Bom dia, avô" ou "Olá, mãe". A verdade é que nós, que aprendemos que essa vírgula antes do vocativo é obrigatória, não gostamos mesmo nada de a ver ausente em todo o lado, incluindo em títulos de livros e filmes (o nosso amigo que escreve o artigo cita, por exemplo, a longa-metragem Amo-te Teresa). Se virem bem, dizer "Olha, Jorge" é um pedido a Jorge para que olhe para qualquer sítio para onde o falante apontou; enquanto "Olha Jorge" quer dizer que uma terceira pessoa olha para um sujeito chamado Jorge. Não é a mesma coisa, como podem confirmar por aqui, e é triste quando alguém que paga um anúncio de página inteira num jornal para felicitar uma pessoa por um prémio ou outra distinção (imaginem um "Parabéns, José Saramago!" inserido num suplemento literário pela sua editora quando ele ganhou o Nobel) não se lembre de incluir a vírgula necessária que, como se queixa o Pedro Matos Viegas, quase nunca está. Por isso, vejam lá se para a próxima não se esquecem da pobrezinha nos vossos textos. Eu espero nunca a comer. Adeus, Extraordinários, até amanhã.

Escritores de canções

Grande foi a polémica quando o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a Bob Dylan. Além de ele ser autor de canções, só tinha escrito duas ou três obras ditas literárias; e para a maioria das pessoas que acompanha a literatura contemporânea pareceu injusto. Sérgio Godinho, porém, achou muito bem, defendendo que um escritor de canções é efectivamente um escritor e que a canção é um género como qualquer outro, não necessariamente menor. Já não ficámos tão surpreendidos quando o Prémio Camões foi entregue a Chico Buarque: ou por já estarmos habituados, ou pelos olhos azuis e a beleza do homem, ou porque a língua portuguesa se faz bonita poesia na voz do cantor brasileiro, ou porque ele escreveu vários romances bons e isso lhe dá o direito a ser considerado um grande escritor. E este ano a Feira do Livro do Porto, depois de ter homenageado uma data de poetas e romancistas naturais da Invicta (Ana Luísa Amaral, Agustina, Mário Cláudio...), lembrou-de de eleger como escritor homenageado Sérgio Godinho no ano em que faz 80 anos, com uma programação alusiva à sua vida e obra, que inclui alguns livros de ficção, um dos quais recente, sobre suicidas, mas é sobretudo feita de maravilhosas canções. Pergunto apenas porque não ganhou um prémio (literário, pois claro) Leonard Cohen, que também merecia tanto? (A Feira do Porto acaba no próximo domingo, só para avisar.)

Pais e filhos

Uso o título de um dos livros de que mais gosto do russo Turgénev (lido há muito, confesso, tenho de o reler) neste blogue para falar de um romance que li recentemente chamado O Aniversário. O seu autor, Andrea Bajani, já me tinha sido aconselhado pela fotobiógrafa de Pessoa (e viúva de Tabucchi) Maria José de Lancastre, que até me emprestou outro título dele para eu ler no original. Mas este O Aniversário não conta, na verdade, a festa de anos de ninguém, mas o décimo aniverário de uma espécie de divórcio entre um filho e os seus pais. Não estrago o prazer do leitor ao contá-lo porque as primeiras páginas do romance, a sinopse  e a cinta explicam logo que um homem se despediu dos pais num certo domingo, como fazia todos os domingos, só que o fez pela última vez, embora nem o pai nem a mãe o soubessem. E, quando começa este divórcio, ficamos com a ideia de que o filho é talvez um pouco egoísta; mas, à medida que a leitura vai avançando e conhecemos melhor o poder do pai e a escolha da mãe de se submeter, de abdicar da vida a favor do marido (abrevio muito, mas não quero naturalmente abrir o jogo), não podemos senão concordar com a partida definitiva do filho. O escritor francês Emmanuel Carrère, a propósito da obra, fala de um "escândalo" que se traduz num "livro escandalosamente sereno" e essa é uma excelente descrição para este romance muito contido, prudente, discreto, quando poderia ser demasiado colorido ou trágico. Um autor que sabe fazer as coisas e a que apetece regressar.

Boas notas não chegam

Uma vez, uma rapariga que me tinha enviado um original para apreciação ficou muito revoltada por eu lho ter recusado ao fim de apenas umas vinte ou trinta páginas. O seu principal argumento para não aceitar o meu veredicto era ter sido muito boa aluna a Português. Mas boas notas não chegam para se ser escritor; e, se alguns autores de não-ficção até podem tornar-se escritores muito competentes e com rasgo (conheço alguns), a verdade é que para o escritor de poesia ou ficção o talento é mesmo necessário, e isso nada tem que ver com saber gramática (embora ajude). Um dia destes, de resto, li por aí que, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, um menino russo chamado Joseph Brodsky recebeu do professor um relatório escolar impiedoso. Além de o acusar de ser mal-educado e preguiçoso, dizia que o aluno raramente fazia os trabalhos de casa, que tinha os cadernos desorganizados e sujos e que a sua letra não passava de um monte de rabiscos. Ao que parece, Brodsky odiava a escola soviética, demasiado disciplinada e repetitiva, e deixou os estudos bastante cedo. Mas, se os professores não o conseguiram cativar, como ele confessou mais tarde, "as fachadas dos edifícios ensinaram-me mais sobre os egípcios, os gregos e os romanos do que qualquer sala de aula". Mesmo fora da escola, Brodsky apaixonou-se pela arte e pela poesia e foi justamente pelos seus poemas contrários ao regime de teve de exilar-se. Pouco depois de ter ido viver para os EUA já cometia a proeza de escrever poesia directamente em inglês. Em 1987 ganhou o Nobel da Literatura. Ter boas notas é importante para muita coisa, mas para ser escritor... não tanto.

Book 2.0

Já se inscreveu para o Book 2.0, que começa amanhã e dura apenas dois dias? Não falte, se quer ter uma ideia sobre o que será o futuro dos livros. É a terceira edição deste evento organizado anualmente pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, e desta vez as conversas, debates e masterclasses acontecem no auditório da Fundação Champalimaud em Lisboa. Como ontem disse, estamos a viver tempos difíceis em relação à literatura (o digital rouba e deseduca o público de ler um texto mais extenso, pensar e estar sozinho); e portanto pode ser importante ouvir alguns especialistas e pessoas do ramo falarem de como reinventar o livro a leitura nos anos que aí vêm. As sessões dividem-se entre os dias 3 e 4 e os participantes são muitos, desde editores, livreiros e autores, decisores políticos e activistas da leitura, jornalistas e leitores e ainda pessoas que têm histórias para contar sobre como o livro foi importante nas suas vidas (penso que Carlos Fiolhais, Dino d'Santiago, Cristina Ovídio, Dinis Machado ou mesmo o nosso Presidente estão entre essas). Se precisarem de informação, deixo o link abaixo. Espero ver-vos por lá!


https://book.apel.pt


 

O que ando a ler

Ora sejam muito bem-vindos de novo ao blogue, se é que já vieram de férias, se é que ainda aí estão (e espero que sim). Depois de arder uma parte significativa do País, lá se foram tantas árvores que falar de livros em papel até pode parecer pecado. Porém, neste intervalo silencioso ouvi dizer que o Governo acabou com a rede de bibliotecas escolares e com o PNL (não consigo ainda confirmar se é um corte total, se foi apenas uma espécie de transferência para outro local do tipo boneca russa), e portanto não posso desistir do meu papel de divulgadora e impulsionadora da leitura, até porque isto não anda lá muito fácil para a literatura a sério. Havemos de trocar ideias sobre o assunto nos próximos tempos, claro, mas neste primeiro dia é para dizer que ando/andei a ler dois livros que falam do luto, nenhum deles de ficção: um pequeno livro de homenagem a um pai, O Meu Pai Voava (assina-o Tânia Ganho, escritora e tradutora), que colige episódios, memórias e reflexões sobre o pai e o vazio que deixou (muito bonito mesmo, o pai da Tânia fez-me lembrar tantas vezes o meu pai, sobretudo na sua falta de pragmatismo e no seu alheamento em relação às notas dos filhos na escola); e um livro de Valter Hugo Mãe chamado A Educação da Tristeza, ilustrado pelo próprio autor e cujo texto é impresso a cores que designam mortes particulares, com vários textos sobre a dificuldade em aceitar a morte de pessoas próximas (o sobrinho de 16 anos, a melhor amiga, o pai...) e sobre o desaparecimento de uma alegria que os mortos levam com eles e que não conseguimos recuperar como eles se calhar gostariam. Ambos muito recomendáveis. (Amanhã falaremos, se possível, de coisas mais alegres.)

Sexo e literatura

Se já é difícil falar de sexo de forma que não pareça didáctica ou ordinária, escrever cenas de sexo em ficção resulta ainda mais difícil. Cai-se facilmente no literariamente feio (como a mulher a lavar-se no bidé depois de fazer amor), no óbvio (como nos romances de quiosque, com seios sempre perfeitos), nas metáforas de mau gosto (poupo-vos a algumas que até sei de cor) ou até nalguma coisa próxima da pornografia (demasiado descritivo). Mas curiosamente parece que a escritora Sally Rooney quebrou o tabu e teve muito sucesso, tal como Miranda July, de quem temos cá publicado De Quatro, ou a estreante Yael van der Wouden que ganhou um prémio importante com A Guardiã, um romance que ao que parece tem umas quantas cenas de sexo sem nunca perder o nível literário. Leio num artigo que me enviaram que os jovens americanos declararam querer ver menos sexo e mais amor platónico e puro no cinema, mas apreciam muito o sexo em romances e livros de fantasia. Será que ver sexo é que é o problema? Será que ao ler cenas de sexo não as vêem nas suas cabeças? Conheço algumas pessoas que leram De Quatro (algumas jovens) que acharam que tinha sexo a mais; e eu própria achei que, depois do maravilhoso As Malditas, Camila Sosa Villada foi excessiva nas cenas de sexo no livro seguinte que li dela. Estaremos a ficar puritanos? Não sei, tenho de ler o premiado A Guardiã para tirar teimas.


P. S. Amanhã começa Agosto. Boas férias para todos. O blogue volta em Setembro. 

Isabela

Os leitores deste blogue sabem certamente quem é a escritora Isabela Figueiredo, hoje publicada pela Caminho. Ela tornou-se inicialmente conhecida pelo seu livro Caderno de Memórias Coloniais, em que relata sem paninhos quentes a  experiência da sua família em Moçambique quando era uma colónia portuguesa (livro que teve depois uma versão revista e aumentada, que é a que hoje circula) e confirmou o seu talento com o romance A Gorda, que tem umas idas e vindas a África porque a família da história é de retornados (as plantas, a decoração da casa, etc...)  mas é sobretudo a história da dificuldade que tem uma jovem mulher gorda em ter um relacionamento amoroso. O seu terceiro livro, Um Cão no meio do Caminho, foi traduzido em França e vai sair em Setembro, na rentrée, mas já faz parte da lista de semifinalistas do Prémio de Romance da FNAC 2025. Desejamos sorte à autora, claro, que esperamos chegue pelo menos à final, e recomendamos aos Extraordinários que, se não a conhecem, leiam qualquer dos seus livros, que são todos bons, cada um no seu género.

Os homens não lêem mulheres?

Num estudo realizado no Reino Unido por uma ONG chamada Women's Prize Trust (WPT) envolvendo 54.000 livros, concluiu-se que os homens compram sobretudo livros escritos por homens (mais de 80%), parecendo desconfiar de que os livros escritos por mulheres são xaroposos e ocos. Num post de um clube de livro que pelos vistos a rainha Camilla tem, o comentário do argumentista de cinema Richard Curtis (Notting Hill, O Diário de Bridget Jones...) em relação ao livro proposto de uma escritora foi excessivo (qualquer coisa como «Que nojo!»). Felizmente, a própria filha do argumentista parece ter-lhe dado uma lição e sugerido bastantes autoras muito boas; e a atrás referida ONG lançou uma campanha chamada «Homens Que Lêem Mulheres», pedindo a escritores consagrados (Salman Rushdie, Ian McEwan e outros) que falassem das suas escritoras preferidas, levando então o senhor Curtis a mudar de ideias e maravilhar-se com Elizabeth Strout, Chimamanda, Arundhati Roy e mais uma dezena de mulheres escritoras, confessando ter descoberto nelas uma humanidade que até era mais ao seu gosto do que a encontrava nos livros escritos por alguns dos seus autores preferidos. Em Portugal, ao que parece, segundo uma tese defendida na Universidade Nova de Lisboa por Clara Nunes da Silva que teve por amostra 400 leitores (200 homens e 200 mulheres), 81% dos homens inquiridos escolheram livros escritos por homens, o que significa que o padrão se repete provavelmente em todos os países. Faz-nos falta uma ONG como a WPT a ver se as coisas mudam por cá, até porque as mulheres não são esquisitas (lêem livros de homens e mulheres indiferentemente) e, como até lêem mais livros do que os homens, mereciam ser mais lidas por eles.

Os nomes

Lembro-me de que, quando li Alice do Outro Lado do Espelho numa edição da Estampa, naquela colecção de capa preta com folhas azul-claras, nos meus tempos de faculdade, uma pergunta de Alice ficou para sempre na minha cabeça: "Must a name mean something?" Os seus interlocutores, se não me engano Tweedledee e Tweedledum, queriam saber o significava o nome Alice, e ela respondia-lhes com aquela pergunta; um nome tinha de significar alguma coisa? A querida poeta Ana Luísa Amaral chamou a um dos seus últimos livros What's in a name (leiam-no) e esta conversa toda vem a propósito do facto de um colega meu me ter contado que leu no romance de Miguel Bonnefoy de que aqui pus um excerto na última sexta-feira que o nome com que baptizaram a Venezuela não foi dado por acaso; antes de aquele território ser o país que é hoje, tinha uma data de pequenos canais e alguém pensou logo em Veneza, numa Veneza de trazer por casa, enfim, dado os canais serem bem menos sumptuosos. Mas foi por isso que se chamou Venezuela, a prova provada de que os nomes (próprios, claro) têm muitas vezes um significado. É até pena que muitos dos comentadores deste blogue não assinem com os seus verdadeiros nomes, pois talvez descobríssemos neles coisas engraçadas.