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A mostrar mensagens de julho, 2026

No Algarve

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Hoje vou sair bem cedo de Lisboa para me deslocar a uma ponta do Algarve (aquela que confina com Espanha) para mais um lançamento. Desta feita, sendo o autor do livro vereador da Câmara de Vila Real de Santo António, é lá mesmo que vai acontecer a apresentação, conduzida pelo ex-ministro (e grande leitor) João Pedro Matos Fernandes. Trata-se de uma tarefa difícil, pois Vocação para os Desastres é uma colectânea de contos, e todos sabemos que falar de um conjunto de textos muito diferentes entre si não é o mesmo que perorar sobre um romance. Porém, depois de ler e publicar estes magníficos contos, sei que o orador vai sair-se decerto muito bem, e convido-vos a aparecerem pela Biblioteca, onde tudo acontecerá mais logo, se estiverem pelo Sul. Para os que estiverem noutras paragens, por favor, leiam o livro – vale mesmo a pena conhecer o José Carlos Barros contista (o romancista e o poeta já vos foram apresentados antes, e são todos magníficos).


 

 

Perplexidades

 

Acreditou-se provavelmente durante muito tempo que os livros não chegavam a todos pela distância criada entre leitores e escritores – e vai daí fez-se tudo para aproximar estas duas raças (que, como verão, nem sempre coincidem, porque também há escritores que não lêem), organizando sessões, festivais, entrevistas ao vivo e encontros para que o leitor perdesse o medo de uma vez por todas da figura tutelar do escritor. Mas com o medo foi-se o respeito, e uma grande quantidade de (maus) leitores acharam que então também podiam ser escritores, deitando-se ao trabalho de alinhar ideias e frases e de as publicar, se necessário pagando. Numa sessão na Feira do Livro de Lisboa sobre os poetas publicados pela Dom Quixote desde o tempo de Snu Abecassis até ao presente, aparece um jovem já na altura de se passar o microfone ao público e explica o atraso por ter estado a lançar o seu próprio livro de poesia. Explica que gostaria de passar a publicar na Dom Quixote e pergunta o que tem de fazer para isso. A editora Cecília Andrade propõe-lhe que concorra ao Prémio de Poesia Nuno Júdice, desde que tenha um livro inédito. Mas, surpresa das surpresas, o jovem não sabe o que quer dizer «inédito»... Ou seja, acaba de publicar um livro, mas falta-lhe o conhecimento de um dos mais importantes vocábulos em matéria de edição. E é bem capaz de não ser situação inédita...

 

O que ando a ler

 

Estão aí todos? Mesmo todos? Espero bem que sim. Fecharam-se as portas da casa antiga para sempre e agora temos de viver neste apartamento experimental para onde trouxe o básico, mas que ainda necessitará provavelmente de umas obras. De vez em quando, farei os meus erros ou faltarei à chamada, tirando talvez tempo para aprender a arrumar este novo espaço. Veremos como corre. Por favor, vão dando o vosso feedback. Ora, num regresso ao passado, tomo o primeiro dia do mês para falar do melhor livro que li nas férias: chama-se Pirilampo e foi escrito por Natalia Litvinova, uma bielorrussa que vive em Buenos Aires desde os dez anos (foi para lá em 1996) e que escreve em espanhol, tendo ganho o Prémio Lumen de Romance com este seu livro que fala essencialmente de uma família que vivia muito perto de Chernobyl quando se deu a explosão na Central Nuclear e da influência desse incidente na vida de todos. Com avanços e recuos, a autora compõe as memórias (algumas inventadas) da narradora e dos seus parentes, que talvez brilhem no escuro por causa da radioactividade (daí o título Pirilampo), enquanto atravessa a segunda metade do século XX, levando-nos ao nazismo e ao estalinismo, mas também à actual xenofobia dos argentinos e à estupefacção de uma rapariga educada na União Soviética sobre a falta de disciplina na escola de um país democrático. Duro mas extremamente poético, tem uma prosa que brilha como um pirilampo. Vale mesmo a pena.