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A mostrar mensagens de setembro, 2023

Contra o veneno

Faz agora vinte anos que conheci Fernando Ribeiro, dos Moonspell. Eu era então editora de José Luís Peixoto, um grande fã da banda que fora interpelado pelo vocalista para elaborar um pequeno livro de contos baseado no álbum The Antidote. O escritor havia sido recentemente galardoado com o Prémio Literário José Saramago, estava mesmo nas bocas do mundo (o lançamento do seu livro Uma Casa na Escuridão tinha tido Eduardo Prado Coelho como apresentador e casa cheia num grande auditório); e a colectânea de contos era, segundo me recordo, escura e gótica mas incrivelmente bonita e com a característica cadência musical do autor. Lembro-me de que, no lançamento do álbum, tive de levar uns tampões para os ouvidos (o Coliseu estava ao rubro, mas não era o meu tipo de música, confesso...); porém, antes disso, foi mesmo muito bom trabalhar com o Fernando Ribeiro que, além de se ter mostrado um grande leitor, era também alguém surpreendentemente com os pés na terra e de uma organização irrepreensível. Agora, comemorando o vigésimo aniversário de Antídoto, o livro volta às livrarias numa edição de luxo, com fotografias de Maria Peixoto Martins, capa dura e sobrecapa. E, não há muito tempo, pude partilhar uma mesa com Fernando Ribeiro numa escola e confirmar que continua a ser uma pessoa muito especial e também um excelente comunicador.


 

Romances gráficos

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Chamam-lhes «novelas gráficas», talvez influenciados por nuestros hermanos, pois em Espanha a palavra romance não está associada a um livro, mas ao relacionamento romântico, e a palavra escolhida para definir uma ficção romanesca lá é mesmo novela (como o inglês novel). Mas, seja romance ou novela, o género está claramente na moda, combinando um enredo profundo com um bom desenho, ou seja, não sendo o que a BD foi em tempos para os leitores preguiçosos (livro de quadradinhos), mas fazendo subir o nível literário (até já houve um romance gráfico finalista do Booker Prize). Encontrei vários romances gráficos de uma autora argentina chamada Agustina Guerrero numa livraria de Cádiz no ano passado e apaixonei-me por eles. Resolvi então comprar dois títulos, e o primeiro sai agora em Portugal. Chama-se A Viagem e trata realmente de uma viagem ao Japão de duas amigas íntimas e do que encontram de completamente diferente na cultura japonesa. Mas é sobretudo um livro sobre a amizade entre duas mulheres de trinta anos e sobre as suas ansiedades, alegrias e neuras (uma quer ter filhos e não consegue engravidar, a outra fez um aborto e está muito marcada pela decisão). Se ainda não aderiu ao género, esta é uma boa obra para começar.


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O nosso Eça

Como seria mais do que justo (imperioso mesmo, dado os que já lá estavam...), hoje seria o dia em que os restos mortais do grande escritor português Eça de Queiroz iriam finalmente para o Panteão Nacional, o que não aconteceu por causa de uma providência cautelar promovida por um ex-autarca de Baião, que não quer que o corpo saia de lá (acha que chama gente ao local) e que conseguiu ser apoiado por seis dos vinte e dois bisnetos do escritor. Mas Eça é daqueles que não morre, por isso é tão importante que continuemos a lê-lo, a relê-lo e a aprender com ele, independentemente do lugar onde estiverem os seus ossos. A Fundação com o seu nome, cujo presidente é um trineto de Eça (o escritor Afonso Reis Cabral), tem, de resto, feito um excelente trabalho neste sentido; e até tinha um programa para o último fim-de-semana na famosa casa de Tormes (a de A Cidade e as Serras) que foi cancelado por causa da polémica, mas cujas actividades incluíam realizar a entrega do Prémio Eça de Queiroz (para um romance de um autor com menos de 40 anos, neste caso A História de Roma, de Joana Bértholo), promover visitas guiadas à casa e mostrar um arquivo seleccionado do escritor, com peças e documentos raros, bem como alguns objectos pessoais que habitualmente não são exibidos publicamente. Agora vamos ter de esperar, e com o tempo que a nossa Justiça costuma levar, Eça continuará no pequeno cemitério em que está mais uns tempitos.

O Regresso de Han Kang

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A autora sul-coreana Han Kang, que venceu (com a sua tradutora) o International Man Booker Prize com A Vegetariana e da qual publicámos mais tarde Atos Humanos (o meu favorito) e O Livro Branco, está de volta aos escaparates com a história de um professor de Grego que está a perder a visão e de uma aluna sua que está a perder a voz. Ambos descobrem, porém, que existe uma dor ainda mais funda a uni-los: numa questão de meses, ela perdeu a mãe e a batalha pela custódia do filho; já ele ganhou o medo de perder a autonomia e o incómodo de, por ter crescido entre a Coreia do Sul e a Alemanha, estar sempre dividido entre duas culturas e duas línguas tão diferentes. Lições de Grego (assim se chama o romance) fala de um homem e de uma mulher comuns que se conhecem num momento de angústia privada – a perspectiva da cegueira dele encontra-se com o silêncio dela. Mas são justamente estes handicaps que os atraem um para o outro, levando-os a encontrar uma saída da escuridão para a luz, do silêncio para a expressão. Muito bom, como sempre.


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Influenciar

Levamos os dias a ouvir falar dos «influencers» ou «influenciadores» e do que pesam na economia de certas empresas. Contaram-me que há um casal lindo já não sei de que país (talvez da Austrália) que é pago chorudamente para andar a passear por tudo quanto é hotel de luxo no mundo inteiro e partilhar as fotografias em piscinas e praias de sonho, fazendo os elogios ao serviço e à localização. Literalmente, vivem de tirar férias todo o ano, o que cá para mim também deve ser bastante cansativo, mas já correram mundo e aparecem sempre lindos e em sítios convidativos, conseguindo que muitos dos que os vêem e lêem lhes sigam as pisadas (tendo dinheiro, claro) e dando muito a ganhar às tais cadeias de hotéis. Nos livros, a coisa não é muito diferente; e, no tempo em que o nosso Presidente era comentador televisivo, os livreiros diziam que às segundas-feiras se notava o movimento de saída de certos títulos que tinham sido referidos por ele na véspera, mesmo que ao de leve. Um dos autores que publico foi recentemente referido muito elogiosamente em três canais de TV na mesma semana por três comentadores (e não pela rama, devo dizer, eles tinham lido o livro) e, uns dias depois, não é que tivemos de reimprimir o romance em causa? Mas, curiosamente, nem as críticas nos jornais nem os programas de livros na TV ajudam muito, estes últimos porque passam a horas impossíveis e porque quem os apresenta não é, obviamente, um influenciador...

Excerto da Quinzena

Mas o melhor era o banho ao fim da tarde, quando o Sol descia e ficava enorme e cada vez mais encarnado, e o mar estava primeiro verde e depois verde mais escuro, e a seguir azul, e depois anil e depois quase preto. E a água estava quente, quente, e havia cardumes de peixes muito pequeninos nadando entre as algas avermelhadas.


E dava gosto mergulhar e dar beliscões nas pernas das mulheres, para que gritassem. E depois que o papá e o tio Arturo e o marido da titi Josefina nos pusessem às cavalitas e nos deixassem atirar-nos dos seus ombros para a água. E depois que um de nós fosse agarrado por dois adultos pelas pernas e os braços e que eles nos atirassem ao ar e dissessem «Cai na água como um gato», e as mulheres, com o traseiro inchado como um balão debaixo do fato de banho em forma de pêra, dissessem: «Não façam disparates com as crianças». E então os homens diziam-nos «Vamos pregar-lhes um susto» e nós corríamos atrás da mãe e das tias e das outras senhoras e elas saíam da água aos gritos e fugiam pela praia fora até que as apanhávamos e as levávamos agarradas até à beira-mar e ali elas sentavam-se na areia cheias de medo e a tia Honorina quase chorava, dizendo ao marido «Não, não, por amor de Deus, Arturín». E nós partíamo-nos a rir quando dizia «Arturín», e chamávamos «Arturín» ao tio Arturo pelo menos durante uma hora, até que nos cansávamos. Mas depois dávamos todos as mãos (e as mãos das mulheres tremiam) e entrávamos juntos a correr na água e atirávamo-nos de cabeça, mas as senhoras não, sentavam-se e ficavam onde a água não passava de três dedos, rindo como galinhas chocas.


Julián Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Morrer com os livros

Há uns dias falei de destruir livros em biblioteas e livrarias, e hoje o livro de que falarei vem a propósito. Diz-se que o autor checo Bohumil Hrabal afirmou ter vivido apenas para escrever Uma Solidão demasiado Ruidosa, romance que se tornou obra de culto para todos os que acreditam que os livros não vão morrer nunca, apesar de muitos os terem, ao longo do tempo, condenado à morte, sobretudo ditadores e líderes religiosos para quem o que traziam escrito podia ser uma ameaça ao seu poder. Mas nem a Inquisição nem a Censura fascista ou comunista foi capaz de matar a memória, e a palavra escrita e, até ver, os livros importantes continuam a ser escritos e lidos contra a barbárie e a arrogância da ignorância. Hanta, o protagonista deste romance de Bohumil, prensa livros e papel há trinta e cinco anos e, não resistindo a ler uma frase aqui e outra ali, acabou por tornar-se um homem extremamente culto que, entre a miséria e muitas canecas de cerveja, cita Hegel e Lao-Tsé. De há muito para cá, numa cave infecta e cheia de ratos (que também vão parar à prensa de vez em quando), separa das enormes pilhas de papel os livros que o mandam destruir e tem, por isso, toneladas de obras literárias no seu quarto de dormir, o que ninguém sabe e poderia perturbar realmente a sua paz. Mas eis que chega a grande prensa tecnicamente desenvolvida (que, na verdade, dispensará o seu trabalho manual), bem como os rapazes e raparigas com fardas coloridas e cursos superiores que são os novos prensadores a mando da nação... Que será do pobre Hanta e dos seus livros? Com um final inesquecível, este romance (que foi censurado na sua época, ensina que o riso silencioso dos livros se ouve sempre, mesmo entre as engrenagens de uma prensa).


 

Aulas gravadas

Leio tanta coisa em tanto sítio que depois perco o norte e já não consigo recuperar as fontes. No entanto, a referência nem é muito importante para o caso. A história tinha que ver com alunos de todo o mundo, mas especialmente de países em que o sacrifício financeiro para tirarem um bom curso é maior, que puseram um processo a uma universidade americana porque, depois de terem pago um valor altíssimo para frequentarem aulas de professores bons e famosos, descobriram que o que a universidade lhes dava não eram aulas ao vivo com esses craques, mas meras gravações. Um escândalo, segundo eles, porque desta forma não podem de modo nenhum interagir com o professor, são meros receptores de conteúdos... e, para isso, tinham ficado nos seus países a assistir pelo computador. Têm razão, evidentemente, e espero que ganhem o processo que instauraram pois, com uma mera gravação, a universidade pode estar a ganhar todos os anos propinas de muitos alunos que vão ao engano. Isto suscitou-me, porém, uma outra questão: o meu irmão mais velho é formado em Direito e teve professores que, embora em aulas presenciais, nada mais faziam do que ler as suas sebentas, iguaizinhas há anos. A minha sobrinha mais velha, que tirou o mesmo curso, passou pelo mesmo e até me contou que havia à venda gravações dessas aulas em pens, porque eram todos os anos iguais. E que ninguém abria o bico para interpelar o professor, que tinha como objectivo apenas despejar a matéria da sua sebenta. Fará assim tanta diferença, em alguns casos, tratar-se de uma aula filmada e gravada? Talvez não. Mas é um abuso trocar uma pessoa por um filme.

Morrer só

Na minha família, uma avó e uma tia morreram sós e foram encontradas já sem vida. Penso sempre que deve ser terrível para alguém sair do mundo sem o conforto de uma outra mão ou uma palavra calorosa de alguém próximo; mas talvez seja lirismo da minha parte. Num livro que já deve ter perto de cinquenta anos (A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson), o protagonista, ao sentir as primeiras bicadas da morte, escolhe ficar só; na verdade, ao receber a carta do hospital com o resultado dos exames laboratoriais (não tem telefone, mas vive no campo e nos anos setenta isso era mais ou menos comum), rasga-a e prefere ficar a recuperar ou piorar da sua doença a saber o que tem e tratar-se num centro de saúde onde (lá como cá) as pessoas têm de ir de madrugada para serem atendidas. Vivendo com a eterna dúvida, faz a vida que sempre fez desde que se reformou (era professor primário mas, lá como cá, as escolas fecham e os meninos são mandados de autocarro para a única escola que resiste, a muitos quilómetros dali), que é cuidar das colmeias e recordar o passado: da infância bastante pobre (este homem sempre viveu com os mínimos) aos últimos anos do casamento, passando pelos tempos da universidade e os namoros inconsequentes. Um retrato impiedoso de um país que parece muito o que não é num romance magistral há muito publicado em Portugal numa colecção que fez as minhas delícias, a Pequenos Prazeres da ASA.


 

A poesia que não enerva

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Bem sei que são mais neste blogue os leitores de romance do que os de poesia, mas não desisto de publicitar a saída de de mais um número da revista Nervo, uma revista de poesia que não se verga às dificuldades e está aí viva e de boa saúde para revelar o talento poético de portugueses e estrangeiros. Neste seu n.º 19, lançado no passado dia 2 de Setembro e desta feita ilustrado pela pintora Sofia Areal, as novidades são muitas, desde logo um texto de Carlos Braga sobre o centenário do nascimento da grande poetisa Natália Correia, bem como um texto do poeta e romancista Frederico Pedreira sobre Dylan Thomas, incluindo poemas do autor galês traduzidos pelo seu punho. Mas há mais: textos de Carlos Luís Bessa, Rui S.Magalhães e Regina Guimarães, por exemplo, a par de poemas do brasileiro Iacyr Anderson Freitas ou da polaca Krystyna Dabrowska. Por isso, entre romances ou entre ensaios, atreva-se à poesia e comece, porque não?, pela Nervo, dirigida por Maria de Fátima Roldão.


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O Monte do Silêncio

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Francisco Camacho estreou-se com o incrível Niassa, premiado com o P.E.N. Revelação, e uns anos mais tarde escreveu A Última Canção da Noite. Esteve muito tempo sem publicar, mas agora volta em força com um livro que tem tudo para dar uma bela série de televisão. Chama-se O Monte do Silêncio, passa-se num monte alentejano, e é contado por Diogo, um dos sobrinhos do dono, um rapaz desmemoriado que consome drogas para compensar traumas de infância, alimentados por uma família cheia de segredos. Mas, num Verão em que tudo parecia pacificar-se, Nora, uma afilhada do tio que entrou para a família já adolescente, é encontrada morta; e, ao que parece, alguém viu Diogo no local do crime... Passado entre os anos 80 e os dias de hoje, com um contraste de ambientes que ilustram um país profundamente desigual, este romance é simultaneamente uma sátira sobre uma certa elite portuguesa, uma reflexão acerca do peso da família na construção da nossa identidade e um thriller psicológico com um enredo sinuoso que prende o leitor até à última página. O lançamento é logo à noite, no Teatro A Barraca, às 21h30. Quem apresenta é João Tordo e Pedro Boucherie Mendes.


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Grandes bibliotecários

Todas as pessoas que adoram livros ficam sideradas quando passam ao pé de caixotes de lixo na rua e vêem pilhas de livros que alguém deitou fora como se fossem meras caixas de papel ou cartão. Pior ainda é quando se fala de guilhotinar livros das editoras porque o stock é enorme e as vendas foram fracas... É verdade que os custos de armazenagem são altíssimos, mas oferecer livros a instituições implica o pagamento do IVA correspondente, pelo que a dada altura a única solução é mesmo cortar aos bocados (ai!). Mas isto não se passa apenas em Portugal, e li no mural de uma bibliotecária portuguesa a história de um grupo de colegas suas estrangeiras que se arrepiaram quando souberam que cerca de 2000 livros que não tinham sido requisitados uma única vez ao longo do último ano na sua biblioteca iriam ser... destruídos. Chocadas com aquele procedimento, resolveram então tentar evitar a calamidade e inventaram uns quantos leitores-fantasmas, criando cartões de leitura falsos nos quais eram registadas as requisições de muitos desses livros condenados à guilhotina. Pelos vistos, salvaram uma data de volumes, que continuam lá para quem os queira ler um dia. Contrariedades que desenvolvem o engenho.

Um Nobel da literatura mal conhecido

Li há muitos anos alguma poesia de Rabindranath Tagore, um Prémio Nobel da Literatura oriundo da Índia,  nascido em 1861. Não conhecia, porém, nada da sua prosa (lamento, mas é verdade), talvez também porque ela não abunde em tradução portuguesa e, quando visitamos as livrarias, somos sobretudo chamados por livros vertidos para a nossa língua e livros actuais. Tratando-se de um escritor importante, devemos, pois, agradecer que a E-Primatur (que tem vindo a recuperar alguns clássicos fora de circulação, e não só) tenha recentemente dado à estampa A Casa e o Mundo, publicado originalmente em 1916 e considerado então extremamente inovador pela forma como toma como centro da narrativa uma mulher, cujo marido (um marajá) a ama e ilustra para mal dos seus pecados, pois logo aparece um revolucionário algo interesseiro que a arranca do seu sossego palaciano. Mas é também um livro sobre a dificuldade de um país mudar, se libertar do opressor, se autonomizar, fazer as escolhas certas, ter, em suma, a sua identidade – com todos os erros crassos inerentes às tentativas de alcançar o progresso. Muitíssimo interessante em termos históricos e políticos, às vezes algo rocambolesco e gracioso nos seus volte-face, original na pluralidade de vozes, de vez em quando fez-me recordar, no tom, Hermann Hesse e os seus livros indianos. A Casa e o Mundo foi considerado um dos dez livros asiáticos mais importantes de sempre. A edição portuguesa tem uma capa belíssima.

Bolaño e os contos

Na revista que a Livraria Bertrand me envia regularmente por email (obrigadíssima!), descobrem-se factos e recomendações bem interessantes; de uma destas últimas vezes encontrei ali um resumo de um artigo sobre o escritor chileno Roberto Bolaño sobre alguns conselhos que este romancista, contista e poeta (como gostava de considerar-se, embora para nós seja sobretudo um ficcionista) terá dado sobre a escrita de contos. Além de dizer que quem quisesse dedicar-se ao género não poderia falhar de forma alguma a leitura de contos de uns quantos autores (entre os quais estão, obviamente, Cortázar, Rulfo, Tchekhov, Borges, Bioy Casares, Francisco Umbral, Camilo José Cela e Raymond Carver), Bolaño defendia que não se escrevesse apenas um conto, mas mais de um conto ao mesmo tempo, alegando que, de contrário, se ficaria a escrever o mesmo conto até morrer. Chega mesmo a recomendar no seu artigo, a quem tenha energia para tal, que escreva cinco ou seis contos de uma assentada (e, se tiver pedalada, dez ou doze!). O autor de Detectives Selvagens e 2666, que morreu demasiado jovem (aos 50 anos) e decerto com ainda tanto para dar, era o mais promissor escritor latino-americano da sua geração e é dos mais lidos em Portugal. Mas é também, curiosamente, um admirador confesso de Edgar Allan Poe, cujos contos, segundo ele, quase bastariam como material de leitura para quem quisesse ler uma panóplia variadíssima de contos.

De braços abertos

Já aqui vos falei de um livro de Claire Keegan, a escritora irlandesa que chegou à final do Booker Prize com Pequenas Coisa como Estas, um pequenino romance magistral que me evocou a cinematografia de Frank Capra por uma certa bondade que não é comum. E agora temos disponível em português uma mini-novela (a autora, pelos vistos, é de textos concisos) intitulada Acolher que uma vez mais não deve ser perdida de forma alguma. É um texto belíssimo sobre uma menina – filha de uma família numerosa na qual há sempre bebés no colo e na barriga da mãe (como, aliás, sucedeu na vida da própria autora) – que, num certo Verão, é levada para casa de uma família de acolhimento. E, enquanto vão passando os dias no meio de um amor que ela nunca sentiu dos próprios progenitores, sempre ocupados com os filhos mais novos e o trabalho, nós vamos descobrir um segredo triste que, claro, uma vizinha conta imediatamente à miúda, ou não se passasse tudo num meio extremamente pequeno em todos os sentidos. A cena final faz chorar (não vale ler antes!) e, apesar de não ter muito mais de 60 páginas, é realmente um livro enorme em muitos sentidos. Uma autora a reter, sem dúvida alguma.

Excerto da Quinzena

Mais tarde, naquela mesma manhã, estava a tomar um café num bar à esquina do escritório do especialista em investimentos – a estudar, pela primeira vez na sua vida, a página de economia do jornal da manhã – quando se apro­ximou uma sorridente mulher de meia-idade e lhe disse que depois de ter lido o que ele contava sobre a sua libertação sexual em Carnovsky se sentia também ela menos «repri­mida». No banco da Rockefeller Plaza onde foi descontar um cheque, o segurança cabeludo perguntou-lhe entre dentes se podia tocar o sobretudo do Sr. Zuckerman: queria contar à mulher quando à noite chegasse a casa. Enquanto atravessava o parque, uma jovem mãe do East Side elegan­temente vestida que passeava com o seu bebé e o seu cão atravessou-se-lhe no caminho e disse-lhe:


– O senhor precisa de amor, e precisa dele constante­mente. Tenho pena de si.


Na sala das publicações periódicas da Biblioteca Pública, um cavalheiro de idade deu-lhe uma palmadinha no ombro e num inglês com forte sotaque – o inglês do avô de Zuckerman – disse-lhe que tinha muita pena dos pais dele. – Não contou a sua vida toda no livro – disse com tristeza. – Na vida há muito mais coisas. Mas você deixa-as de fora. Para se vingar.


E por fim, de volta a casa, tinha um negro forte e jovial da Con Ed à sua espera para ler o contador da eletricidade.


– Ouça lá, você faz aquilo tudo que vem no livro? Com aquelas garinas todas? Você é um caso sério, homem. – O con­tador da eletricidade. Mas as pessoas já não liam só os con­tadores da eletricidade, também liam aquele livro


 


Philip Roth, Zuckerman Libertado, tradução de Francisco Agarez


 

Das coisas belas

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Confesso que nunca tinha lido esta pérola nem ouvido falar do autor, que era sobretudo um diplomata que se dedicava à escrita de peças de teatro. O conhecimento veio através do professor Miguel Viqueira, que usou o texto como trabalho de mestrado com alunas do curso de Tradução na Faculdadede Letras e, assim que o li, fiquei completamente seduzida. Na Espanha católica dos anos cinquenta, um rapaz aguarda, ansioso, a chegada do verão e dos primos, principalmente Helena. Mas, de um verão para outro, Helena transformou-se. Pode a inocência tornar-se subitamente desejo? E pode o que se sente… ser pecado? Este é um livrinho absolutamente maravilhoso sobre a transição da infância para a adolescência. Tão simples que é impossível não nos revermos nele. Quando apareceu, em 1952, Helena ou o Mar do Verão foi considerado por um o grupo de leitores entusiastas uma das obras mais extraordinárias da narrativa espanhola do pós-guerra. Passados tantos anos, permanece intacto o seu poder de sugestão e o lirismo da escrita de Julián Ayesta. O jornal El País considerou-o um dos dez mais belos textos ficcionais espanhóis do século passado.


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O rio que flui

Lembro-me muito bem de quem me aconselhou Tudo É Rio, de Carla Madeira, uma escritora brasileira que não conhecia. Foi a cantora Luísa Sobral que, além de compositora e intérprete, escreve livros infantis e canções incríveis, é uma leitora de mão cheia e tem até uma espécie de clube literário. Ora, numa conversa trocada à pressa, recomendou-me esta maravilha que li nas férias e que me fez obviamente ter vontade de ler mais romances da autora. Tudo É Rio está magnificamente escrito, tem imagens realmente poderosas, mas, além do trabalho de linguagem, em que nada parece forçado e tudo flui, a história que gira à roda de três personagens é realmente um assombro. Lucy, que fica órfã muito cedo e é criada por uma tia que nunca realmente consegue amá-la como filha, torna-se a prostituta que todos os homens desejam. Dalva, pelo contrário, é uma mulher triste e bem-comportada, com um casamento feliz que, curiosamente, acaba por ser estragado pela existência de um filho. Venâncio, o pai da criança, fez o erro da sua vida por ciúme e não parece que consiga que a mulher lho perdoe, pelo que vive amargurado e se satisfaz de vez em quando no bordel, mas não se encanta especialmente com a poderosa Lucy, que, raivosa, promete conquistá-lo. Por estes caminhos desencontrados passam então laços realmente insuspeitos, surpresas constantes e reflexões muito válidas sobre o valor da família, o amor, as afinidades, os erros irreparáveis e os limites do perdão. Obrigada, Luísa: muito bom mesmo. Vou procurar outros de Carla Madeira que, se não estou em erro, virá este ano ao FOLIO.


 

As nuvens

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Como se costuma dizer, abriu a rentrée, e lá começam os lançamentos. O meu primeiro (quase como o primeiro teste de um ano lectivo) é o de Teoria das Nuvens, de Mário Cláudio, já amanhã na cidade de Porto, a que se seguirá no sábado dia 9 às 17h00 uma sessão de autógrafos na Feira do Livro do Porto, no pavilhão da IBook. Teoria das Nuvens é ao mesmo tempo um livro sobre a actualidade (uma professora com um esgotamento é mesmo uma personagem dos dias de hoje) e um livro sobre esse frade-poeta do século XVI que é San Juan de la Cruz, cujas vida e obra são o assunto de uma tese de doutoramento que ocupa o namorado da referida professora. Como se escreve na contracapa: «Numa cidade portuguesa, facilmente identificável, mas também na Espanha do Século de Oiro, um punhado de personagens ruma ao horizonte da sua redenção. Uma fotógrafa e um músico, uma empregada doméstica e um académico da literatura, um velho coleccionador, um poeta místico, e uma criança eterna, encontram-se e desencontram-se ao sabor do acaso. Correm as nuvens sobre os passos que levam, companheiras da idade humana que lhes coube trilhar.» O convite para o lançamento aqui fica.


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O que ando a ler

Descobri há uns tempos, por recomendação de amigos, uma série de pequeninos livros belíssimos, publicados com a chancela BCF. O «B», descobri bem mais tarde, é de «Brito» e tem que ver com o nome de um dos proprietários, o filho do saudoso editor Manuel Brito, da Contexto, onde Al Berto publicou a sua obra. O primeiro desta série que li (e de que aqui falei) foi a pérola escrita pela cineasta Chantal Ackerman, Uma Família em Bruxelas; e agora estou a terminar As Malditas, o primeiro romance da argentina Camila Sosa Villadas. Trata-se de um história tremenda e dura sobre um grupo de travestis nos anos em que a SIDA começa a ceifar vidas, curiosamente contada por uma delas: a própria Camila, que nasceu rapaz, e negro, e pobre, em Córdoba, Argentina. (Se viu a série espanhola Veneno, é algo do mesmo tipo.) E não escrevo «trans» porque a autora acha a palavra que a Europa e os EU usam hoje algo eufemística, mas é na verdade um livro sobre meninos e rapazes que sempre se sentiram raparigas, sempre gostaram de vestir saias e de se pintar, que injectaram silicone nas mamas e nas nádegas, raparam os pelos, fizeram operações, que se prostituíram, tiveram chulos, foram maltratadas, presas, gozadas. Mas é também uma história de gente imensamente solidária, sensível, inclusiamente capaz de recolher um bebé encontrado no cesto de lixo de um parque ou receber uma mãe solteira para ter o seu filho no bordel. Penso que todos nós beneficiaríamos com esta leitura antes de darmos opiniões sobre aquilo que não conhecemos sobre a problemática trans. A história pessoal da narradora, bem como das suas muitas amigas, é realmente comovente e capaz de iluminar. A única coisa que não apreciei especialmente foi uma tentativa algo forçada de introduzir um elemento de realismo mágico (a uma das travestis, a María muda, crescem penas no corpo), mas, enfim, é um pormenor.

De volta

Pois cá estamos de volta, já no mês de Setembro, a este blog que continuará a falar de livros, edição e questões afins enquanto houver quem leia. Para mim, o Verão tem sido produtivo em termos de leituras: este ano, os meus doze dias de férias renderam bastante e saldaram-se, ainda bem, por excelentes experiências. Talvez tenha partido mais avisada desta vez, com recomendações de gente séria, mas li uns sete livrinhos de que vos falarei nos próximos tempos. Não vou é ter tempo para intervir e conversar durante o dia de hoje, porque estarei mais ou menos fechada no antigo Museu dos Coches a assistir ao encontro profissional Book 2.0., um certame sobre o futuro do livro e da leitura com muitos participantes portugueses e estrangeiros. Hoje fala-se da «Educação como portal para o Potencial Humano», coisa em que acredito muito se, claro, estivermos a falar de educar com livros (e menos com ecrãs, que alguns países, como a Suécia, já começaram a tirar da sala de aula). Na segunda-feira, que viremos todos mais frescos (quem é que quer saber de coisas demasiado sérias à sexta?), começarei então a actividade regular. Mas chamo já a atenção para dois eventos: para os amigos de Lisboa, a Festa do Livro de Belém, que começou ontem e acaba dia 3 e que, além de livros, vai ter um concerto do Sérgio Godinho; para os amigos do Porto, a Feira do Livro, que homenageia o grande poeta e amante de gatos Manuel António Pina até dia 10, aproveitem! Bom fim-de-semana!