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A mostrar mensagens de novembro, 2011

Intervalo

Pela primeira vez em mais de vinte anos de carreira, uma feira do livro estrangeira convida-me e paga-me para lá estar. Fica longe, bem sei, a cidade mexicana de Guadalajara – e tantas horas de avião vão ser mesmo um suplício. Mesmo assim, não iria dizer que não a um programa que inclui, entre outras coisas boas, dois Prémios Nobel da Literatura à conversa: Herta Müller e Vargas Llosa. Dificilmente teria oportunidade de os ver juntos outra vez... Resultado: aceitei e o blogue é que paga e vai ter de estar parado até ao fim do mês. Que me desculpem os leitores, sobretudo os que cá vêm ler-me todos os dias. Mas podem sempre trocar esta fraca prosa por umas horas extraordinárias com um bom livro.

O primeiro a saber

Um dia destes, jantámos com Pilar del Río e, como o assunto Nobel da Literatura veio mais uma vez à baila, ela contou-nos uma história deliciosa. Parece que, durante muitos anos, em Espanha, todos tinham esperança (e fé) de que o escritor Miguel Delibes recebesse, mais cedo ou mais tarde, o galardão (morreu, no entanto, em 2010 sem que isso chegasse a acontecer). Então, no dia e hora marcados pela Academia Nobel para o anúncio do premiado, não era raro ver à porta de sua casa um bando de jornalistas das rádios, televisões e imprensa espanholas, armados de gravadores, câmaras de filmar e canetas, para – a confirmar-se a suspeita – serem os primeiros a entrevistar o nobelizado. Mas, como disse, Delibes nunca chegou a receber o prémio. E, porém, num tempo em que estávamos ainda longe dos dispositivos portáteis e da tecnologia que permite saber a notícia em tempo real, o escritor dava-se ao trabalho de, assim que sabia quem fora o feliz contemplado por algum colega mais bem informado, vir cá fora dar a boa nova aos jornalistas, que tomavam nota, agradeciam e logo debandavam, deixando-o de novo em paz.

Mudanças de agulha

Num Natal passado, um dos meus irmãos teve um ataque de saudosismo e ofereceu-me de presente os DVD de uma antiga série de televisão chamada Holocausto, na qual praticamente se estreara a grande Meryl Streep e que fora um verdadeiro sucesso na altura em que a víramos juntos, ainda em casa dos pais. Os filmes e séries televisivas sobre a Segunda Guerra Mundial sempre constituíram um êxito no nosso país, ao contrário dos livros, que, à excepção de O Diário de Anne Frank e outros clássicos, foram sempre difíceis de vender – situação que se alterou apenas ao de leve com o testemunho de Irène Nemirovsky em Suite Francesa, a obra de Primo Levi ou o belíssimo A Música da Fome, do Nobel francês Le Clézio. Lembro-me de, em princípio de carreira, ir à Feira do Livro de Frankfurt incumbida de recusar delicadamente tudo o que me oferecessem sobre a Segunda Guerra Mundial, sob o risco de arranjar um mau negócio aos patrões; e de, mais tarde, essa espécie de restrição se ter estendido também à Guerra Civil de Espanha, uma vez que mesmo os melhores livros sobre o tema (vamos excluir Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway) – como Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas – tinham sido um flop em termos comerciais. Achei, por isso, engraçado que, entre alguns romances que publiquei no último ano, todos de autores portugueses, dois falassem justamente desta última guerra (Rio Homem, de André Gago, e Deixem Falar as Pedras, de David Machado, embora este só de raspão); e que um outro que publicarei em 2012 também se refira aos fuzilamentos de tantos civis na Galiza, tomando como personagens dois inimigos figadais com pais de lados opostos da barricada. Estarão por acaso as coisas a mudar e ainda me aparece um dia destes um romance português sobre o próprio Holocausto para avaliar?

Andar para trás

Agora, que os Portugueses estão condenados a grandes sacrifícios por via da dívida externa do País, disse-me um político e economista que não teremos outro remédio senão vivermos como vivíamos nos anos 80 do século passado. Os custos não serão apenas os reais (subsídios cortados, desemprego, ausência de regalias e férias passadas no autocarro para a Costa de Caparica, e não em Punta Cana ou Varadero), mas também os da chicotada psicológica que foi terem-nos permitido ao longo de tantos anos experimentar o que, afinal, não passava de uma ilusão. Quando ouvi aquilo, perguntei-me se não teria sido melhor não termos chegado sequer a provar a guloseima, já que a experiência de passarmos de cavalo para burro é seguramente mais traumática do que a de permanecermos potros toda a vida. Que será, por exemplo, ficarmos de repente sem estruturas como a FNAC – hoje parte integrante do nosso quotidiano – que, na Grécia, segundo contou ao Manel um editor grego, já fechou as lojas e saiu do país? Ou deixarmos simplesmente de publicar livros, como também lhe explicou esse editor, não porque não haja leitores, mas porque as lojas, com a crise, não encontrarão forma de pagar? Depois de vivermos – mesmo que num arremedo de sonho impossível – no século XXI, será que conseguiremos realmente recuar trinta anos?

Lisboa e Porto

O Manel nasceu no Porto (em Gaia, para ser mais precisa) e, terminado o liceu, fez o que era natural para uma pessoa do Norte: iniciou a sua vida universitária em Coimbra. Porém, com o pretexto de que era em Lisboa que viviam os escritores e tudo acontecia, mudou-se de armas e bagagens para a capital pouco tempo depois, acabando aqui o curso de Direito. Muitos dos autores do Porto queixam-se de que são muito menos dignos de atenção por estarem longe do centro cultural do País – e talvez até tenham uma certa razão, se pensarmos que as revistas, os jornais e as televisões têm o grosso das suas redacções instalado em Lisboa e, quando precisam de um escritor para comentar qualquer coisa, é sempre na capital que o desencantam. É também em Lisboa que se vendem mais de 60% dos livros de Portugal inteiro, incluindo os vendidos no Porto, e que se apresentam mais livros em lançamentos públicos (porque até os autores do Porto quase sempre «reclamam» um segundo lançamento na capital, aproveitando a oportunidade para umas entrevistas). O Porto não tem obviamente a mesma dimensão que uma cidade como Barcelona tem para o país vizinho (e cuja concorrência com Madrid é fortíssima), mas tenho pena de que a geografia possa ser responsável pelas carreiras um pouco mornas de alguns escritores do Norte, que em nada ficam a dever a muitos dos seus colegas alfacinhas. Não me parece sequer que o asfalto das milhentas auto-estradas que se construíram os tenha ajudado.

Histórias Picantes

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À semelhança do que foi feito à roda do chocolate no ano passado, a Casa das Letras reúne agora num volume um leque de histórias que ardem na boca. Pediram-me uma e não sei se consegui cumprir, mas, para quem goste de ler e de pratos picantes, aqui tem este volume bonito (um bom presente de Natal) que junta contos de diversas autoras com receitas de fazer sair fumo pelo nariz. O lançamento é hoje às 18h00, na Livraria Barata, com apresentação do jornalista João Gobern.


 


Um clássico moderno

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Miguel Real leu o clássico de José Alencar sobre o tema e decidiu fazer uma espécie de réplica. Chama-se A Guerra dos Mascates e conta a história de um conflito entre aristocratas e comerciantes no Brasil do século XVIII, que leva, entre outras coisas, à elevação de Recife a cidade numa altura em que, no Pernambuco, Olinda era a única digna desse nome. Por estas páginas passam personagens deliciosas, algumas transitando de outros romances do autor, como Julinho e Violante, outras novinhas em folha, como o fantástico Lula Aparecido da Silva. A apresentação é hoje, na Livraria Fnac Colombo, pela professora Inocência Mata. Estão todos convidados.


 


Descascar o mito

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Recentemente, João Tordo «passou a coroa» à brasileira Andréa del Fuego, vencedora do Prémio Literário José Saramago de 2011 com o romance Os Malaquias, a publicar em breve pela Porto Editora e pelo Círculo de Leitores. Mas o galardoado em 2009 não parou de escrever durante o reinado e volta agora aos escaparates com um novo romance, Anatomia dos Mártires, no qual um jovem jornalista – ambicioso e ignorante – se verá enredado numa teia de acontecimentos que o levarão a investigar em profundidade a verdadeira história de Catarina Eufémia – a camponesa assassinada pela GNR em Baleizão nos anos 50 do século passado. Decorrendo em plena crise europeia – portanto, actualíssimo! – e com acção em Lisboa, Berlim e Dublin (é, desta feita, uma jornalista irlandesa a apaixonada do narrador), este romance descasca os mitos dos mártires religiosos e políticos de forma polémica e empolgante, confirmando João Tordo como um dos nomes mais consolidados da sua geração. A capa, do Rui Garrido, é belíssima.


 



 

O rapaz e o homem

Deliciosa novela esta, para ler de fio a pavio durante um serão, porque as páginas são menos de cem e a letra grande para não cansar os olhos. Boa noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio, é uma história inteligente e bonita que cruza o jovem aspirante a caixeiro António Felício e o tradutor Soares no escritório dirigido pelo senhor Vasques, onde também circulam o Moreira, o Borges e outras personagens que facilmente reconheceremos do Livro do Desassossego – porque este Soares que convoca o respeito e exerce o fascínio do António não é senão o Bernardo, heterónimo de Pessoa, um tipo bastante neurasténico que escreve poemas e come pouco, fala quase nada e está atento a tudo, mesmo quando parece que não. Contada pelo António – moço que veio da província e se instalou em casa da irmã, moura de trabalho por causa de uma sogra e de um marido insuportáveis que só merecem ser conhecidos no papel –, esta é a história do pequeno a olhar para o grande, do provinciano a admirar a capital, do rapaz sensível com medo de se rir da estranheza do génio. De leitura extremamente aprazível e até ternurenta, não falha nesta novela uma referência de passagem a Tiago Veiga, protagonista do mais recente livro do autor, como um anúncio velado do que estaria para vir.

Um novo evangelho

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Acabo de lançar um romance intitulado Os Últimos Dias de Pôncio Pilatos, da autoria da açoriana Paula de Sousa Lima. Centrado na figura de Pilatos – e na da sua mulher, Cláudia Prócula, uma das primeiras seguidoras de Cristo –, ele conta a história do casal nos seus últimos dias, quando Pedro e Paulo, perseguidos pelos Romanos, enfrentam a morte, e Pilatos se encontra, já ancião, a escrever um evangelho, única forma que descobriu de expiar a culpa e o arrependimento pelo destino trágico de Jesus. A narração dos sonhos premonitórios de Cláudia – que sabe desde a infância estar destinada a um marido que reconhece mais tarde na figura de Pôncio Pilatos – é fulgurante, bem como a recuperação dos episódios da vida de Cristo narrados por Pôncio nos seus escritos ou a descrição belíssima das investidas romanas no seio da seita cristã através das imagens de pássaros negros e nuvens vermelhas. E, com o prazer da leitura, vem igualmente o da tomada de conhecimento de factos menos difundidos, como o da intervenção de Cláudia na escolha dos seguidores de S. Pedro ou o fim do imperador afastado do poder. Para apreciadores de romance histórico, mas não só, este é um romance que sugere a existência de um evangelho que ainda não foi encontrado.


 


Reunião

Um dia destes, o Manel chegou a casa com uma boa novidade. Tratava-se, claro, de um livro, mas a verdade é que, sendo ambos editores, trazemos para casa tantas vezes livros que estes já custam a causar-nos surpresa. Porém, desta feita o exemplar que estava pousado no braço gordo do sofá era um livro de poesia – e tanto mais surpreendente porque publicado pela Quetzal, que, normalmente, não se dedica ao género. Mas, além disso, quem o assinava era João Luís Barreto Guimarães, um poeta que muito estimo e de quem nem sempre é fácil encontrar livros à venda nas nossas livrarias, com a obra espalhada por editores que desapareceram de vez ou que, pela sua dimensão, nem sempre conseguem espaço no ponto de venda. E, contudo, agora temos aí para ler e nos deliciar a Poesia Reunida deste autor, que começou a publicar no final dos anos 1980 e, como diz José Ricardo Nunes – outro poeta – no posfácio, nos oferece um universo quase transparente numa rara atenção ao quotidiano. Sinta-se convidado a ler.

Um abraço a todos

O País vai de mal a pior e estamos mesmo a precisar de mimos. Pois bem, um escritor português chamado José Luís Peixoto decidiu dar-nos um Abraço em forma de livro. Trata-se de uma colectânea de textos que escreveu ao longo do tempo e que, falando de si próprio e das suas memórias – o Alentejo, a infância, os amores, as leituras, as viagens –, nunca deixam o leitor de fora, envolvendo-o num abraço muito especial. Dividido em três partes – seis anos, catorze anos e trinta e seis anos: as idades, respectivamente, do seu filho mais novo, do seu filho mais velho e a sua –, este volume que ultrapassa as seiscentas páginas inclui alguns dos mais belos textos do autor, publicados em jornais, revistas e antologias, nos quais nos é estendida a mão para uma certa intimidade e ternura a que não poderemos ficar indiferentes. Experiências do ofício de pai e escritor, reminiscências de autores marcantes, reflexões sobre o presente e o passado do País, tudo cabe nestes textos envolventes como um verdadeiro abraço. Aproveite o mimo.

Poesia em prosa

Não é fácil fazer perguntas a um poeta sobre a sua obra – e às vezes é precisa a cumplicidade de um confrade para deixar sair o que se pensava impartilhável. A poetisa Ana Marques Gastão, que trabalhou ao longo de muitos anos no Diário de Notícias, entrevistou mais de quarenta poetas contemporâneos de várias gerações para o jornal e coligiu agora esses textos – revistos e aumentados – num volume que dá pelo título O Falar dos Poetas. Incluindo nomes tão distintos como Ana Hatherly, Vasco Graça Moura, Eduardo Pitta ou António Franco Alexandre – e não esquecendo outros, mais novos, como Tolentino Mendonça ou Luís Quintais –, este é um livro para matar a curiosidade sobre alguns autores, mas também para servir de guia e orientação a quem os estuda. Num formato grande e com excelente apresentação, uma boa forma de fazer falar, em prosa, umas dezenas de poetas.

O trabalho compensa

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Já sabemos que saem em Portugal cerca de quarenta livros por dia e que as livrarias e os supermercados não conseguem acolher tudo ao mesmo tempo. Primeiro devolvem-se os monos – que apresentam vendas insignificantes – mas, logo a seguir, vão os livros de venda média, de autores estreantes ou, pelo menos, não consagrados, porque é preciso lugar para as novidades. Faz agora um ano publiquei o romance Rio Homem, do actor e encenador André Gago, que Lídia Jorge apresentou no dia do lançamento. O autor trabalhou nele dez anos e, quanto a mim, fez uma estreia invulgarmente boa no mundo da ficção. E o trabalho compensou porque, recentemente, lhe foi atribuído o Prémio de Primeira Obra pelo PEN Clube, o que quer dizer que temos um bom pretexto para o recolocar nas mesas e estantes dos pontos de venda, onde há muito não estava. Se da outra vez não deu por ele, eis uma segunda oportunidade que não deve perder.


 


Heróis anónimos

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É já hoje o lançamento do novo romance de Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas, apresentado na Livraria Bulhosa de Entrecampos, às 18h30, pela professora Annabela Rita. Nele se celebram os heróis anónimos que, não ficando para a História, são decisivos nas alterações históricas das respectivas nações. Desta feita, o protagonista chama-se Vicente Maria Sarmento e está apostado em salvar da má vida a sua amante, até agora estrela de um bordel na Venda do Negro, propriedade de um homem sem língua mas sempre com pistolinha à mão. A tarefa não se revela, porém, fácil – são muitos os rivais – e o nosso Vicente da Bufarda terá de regressar ao crime para garantir o futuro da sua dama. O ouro e as jóias da rapina não pertencem, mesmo assim, a quem calculava – e há de certeza um rei português bastante aborrecido por, de repente, se ver sem fundo de maneio para as despesas da guerra. Divertido e com uma linguagem cuidada, este é um romance digno da melhor literatura picaresca. Apareça.


 


A doença da culpa

Muito bom o último Philip Roth publicado em Portugal – Némesis. Uma história passada em Newark no ano de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, no Verão que se seguiu ao desembarque na Normandia. Não se trata, porém, de um livro sobre a guerra (que, apesar disso, não deixa de estar presente), mas da chegada intempestiva de um vírus de poliomelite ao bairro judeu (e a outros bairros vizinhos) num período que é, obviamente, anterior à vacina. O protagonista do romance é um jovem atlético que toma conta de um grupo de crianças e adolescentes num campo desportivo durante as férias. Bucky (ou senhor Cantor, como preferirem), embora os casos não parem de aumentar entre os seus rapazes – e se tenham já verificado algumas mortes –, resiste estoicamente a abandonar o campo, apoiando os alunos e os respectivos pais. E, porém, quando a epidemia se instala, será acusado por alguns deles de ser responsável pelo contágio, tomando uma decisão que mudará completamente o seu destino. Roth é exímio em factores surpresa, pelo que o narrador deste romance se revelará apenas já passada a metade do livro. Mas é mesmo preciso chegarmos ao fim para apreciarmos este jogo fascinante de culpa e expiação, de doença e cura, de vingança como castigo para o único momento de fraqueza. Indispensável ler.