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A mostrar mensagens de junho, 2017

Ignorância

Contaram-me que muitos americanos nunca viram um peixe senão em filetes, no prato, e que ficam estarrecidos quando lhes servimos aqui em Portugal um corpo escamoso, com uma espinha a meio, além de rabo e cabeça, ficando sem saber o que fazer com ele (mas depois gostam, claro). Também me disseram que, nos EUA, quando pedem a algumas crianças para desenharem uma galinha, elas a desenham depenada e embalada, tal como a encontram no supermercado. O Washington Post noticiou, porém, recentemente algo de bradar aos céus que até parece brincadeira... ou mentira. Publicando os resultados de um estudo realizado por um Centro de Inovação Americano, declara que 16 milhões de adultos norte-americanos (cerca de 7% da população) acham que o leite achocolatado que se vende nos supermercados provém de vacas castanhas, desconhecendo, aliás, que o chocolate é feito de cacau, leite, açúcar... Enfim, torna-se para mim cada vez mais claro como é que Trump chegou a presidente... Bom fim-de-semana!

Ai, Dylan

A escolha de Bob Dylan para vencedor do Prémio Nobel da Literatura está desde o início envolta em polémica. Primeiro, foi o facto de se tratar, acima de tudo, de um escritor de canções, e não de um escritor no sentido mais tradicional; depois, foi o silêncio do premiado, que esteve sei lá quanto tempo sem atender o telefone à Fundação Nobel e sem se pronunciar sobre a circunstância de lhe terem atribuído o galardão. Quando finalmente decidiu acusar o toque e parecia que tudo correria bem, faltou à cerimónia marcada para a entrega do prémio, em Estocolmo, alegando compromissos enquanto músico (sabe-se lá se com uma remuneração superior à do prémio, que é de 820 e tal mil euros). Mesmo assim, era obrigatório entregar o discurso de aceitação para poder receber o valor do prémio e só uma semana antes de o prazo terminar Dylan se dignou a fazê-lo; o discurso, que julgo estar disponível online para quem o queira ler, falava de alguns livros que marcaram o músico-autor (que escolheu, aliás este nome artístico por causa do poeta Dylan Thomas), entre os quais se destacava o romance Moby Dick. Mas agora uma professora diz que ele roubou várias frases sobre a obra de Melville a um site de resumos de obras literárias usado especialmente por estudantes de literatura que não têm vontade de ler os livros de fio a pavio... Oh dear! A polémica não pára. 

Livraria favorita

Há cada vez menos livrarias de jeito em Portugal – e muitos já se habituaram a comprar livros em supermercados, tabacarias e bombas de gasolina. Mas frequentar uma livraria que tenha pessoas que sabem o que fazem é muito diferente de fazer perguntas a um funcionário que se limita a ir ao computador para ver em que prateleira está o livro A ou B. É por isso que todos os anos os Portugueses são convidados pela APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) a votar na sua Livraria Preferida – e é bom quando vemos recompensado o esforço e o trabalho de livreiros que conhecemos e apreciamos. Foi o caso, por exemplo, da A das Artes, em Sines, que já ganhou este prémio no ano passado e foi agora eleita a livraria com melhor atendimento, e é o caso da Livraria Buchholz, desde 1965 junto ao Marquês de Pombal, em Lisboa, que, além de ser um espaço bonito que cheira a cultura por todos os lados, tem uma equipa muito simpática e eficiente. Parabéns por ter sido a Livraria Preferida dos Portugueses em 2017!

As vozes do silêncio

Já de há alguns anos a esta parte que a Fundação Calouste Gulbenkian, com a supervisão de Helena Vasconcelos, promove um concurso de leitura de textos literários – muitos de poesia, mas não só – feita por jovens. No fim-de-semana passado, os vencedores da edição de 2015 do Dá Voz à Letra (assim se chama a iniciativa) – João Teixeira, Matilde Anjos, Maria Casquinha, Pedro Freitas e Rita Sousa – realizaram um pequeno espectáculo dirigido por Carlos Pimenta e com sonoplastia de Tiago Jónatas intitulado Sons no Silêncio, aproveitando o belo cenário da clareira do Jardim da Gulbenkian. Os textos, escolhidos por Helena Vasconcelos, construíam um diálogo entre dois poetas (a que alguém chamou também uma espécie de duelo): Fernando Pessoa (melhor dizendo, Álvaro de Campos) e um poeta norte-americano que aquele muito admirava (e nós também): Walt Whitman, autor do fabuloso Leaves of Grass (Folhas de Erva). Terá sido estupendo, mas, para quem não sabia ou não pôde ir (o meu caso) vai haver uma repetição no próximo fim-de-semana (dias 1 e 2 às 16h00) – e a melhor notícia é que a entrada é livre.

Um Parténon diferente

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Se já foi a Atenas, conhece seguramente o Parténon, construído sob a supervisão do escultor Fídias entre 447 e 38 a. C. para albergar uma estátua colossal da deusa Atena e as reservas de prata da cidade, protegendo-as de um eventual ataque dos Persas. Durante a Idade Média o templo foi transformado em igreja cristã e, no Renascimento, em mesquita, calculem; mas hoje o Parténon é sobretudo um símbolo da democracia que, como todos sabemos, nasceu na Grécia. Ora, a artista argentina Marta Minujín, que tem um projecto intitulado «A Queda dos Mitos Universais», no qual se apropria de monumentos icónicos para os desconstruir e reconstruir, agarrou no Parténon para o tornar uma espécie de repositório de livros proibidos e fez um Parténon preenchido com mais de 25 000 exemplares de obras apreendidas na Argentina nos anos da ditadura. O seu monumento respeita a escala do verdadeiro Parténon e, depois de ter estado numa praça de Buenos Aires (primeira fotografia), vai ser replicado na cidade alemã de Kassel, onde está a tomar forma mediante a doação de exemplares pelos interessados. O link abaixo explica como podemos fazer. Que ideia fantástica, não?


http://www.documenta14.de/en/news/1601/call-for-book-donations


 


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Vinte anos depois

Em 1997, O Deus das Pequenas Coisas, maravilhoso romance de estreia de Arundhati Roy, seria o primeiro de uma autora indiana residente fora do Reino Unido a ganhar o Booker Prize e a conseguir traduções em dezenas de línguas, vendendo cerca de 8 milhões de exemplares e catapultando a escritora para a fama. O livro (que assiste ao crescimento de dois gémeos de sexos diferentes em Kerala e se debruça, entre outras coisas, sobre o problema das castas) é inesquecível, belo, terrível e profundo, e quem o leu ficou obviamente à espera de que a autora – que também era linda de morrer quando o escreveu – continuasse a brindar os leitores com obras-primas. Mas Arundhati Roy estava mais interessada em fazer política e foi escrevendo artigos e manifestos, deixando para trás a ficção… Até que, recentemente, vinte anos passados, regressou com um romance em lançamento mundial – O Ministério da Felicidade Suprema (publicado entre nós pela ASA) –, obra que levou, pelos vistos, dez anos a ser escrita e foi buscar alguma coisa ao activismo da autora, sobretudo no que toca às grandes injustiças da sociedade actual na Índia e aos tumultos na região de Caxemira. Estou curiosa, claro, e tenciono começar a leitura muito em breve. Mas tenho medo, porque a fasquia está alta e li algures que este livro está carregado de dez anos de mágoas, mas não é tão bom como o outro… Veremos.

Amor no papel químico

Quando comecei a trabalhar na edição, ainda ninguém tinha computadores pessoais – e só dois ou três anos mais tarde tive direito a uma máquina de escrever eléctrica. No início, a máquina era dessas pesadonas que faziam trrriiim quando chegávamos ao fim da linha; e eu tinha de pôr no rolo duas folhas separadas por outra de papel químico para ficar com uma cópia de tudo o que enviava. Parece mentira, não é?… Bem, mas uma folha de papel químico de um tempo passado, se encontrada na modernidade, pode conter verdadeiros tesouros. Os investigadores da obra da poetisa Sylvia Plath que o digam, pois descobriram, escondida dentro de um dos caderninhos da senhora, uma folha de papel químico dobrada que tinha a marca de dois poemas até então desconhecidos, escritos, pelos vistos, no início do relacionamento da escritora com o também poeta Ted Hughes, provavelmente no regresso da lua-de-mel. Durante cinquenta anos, ninguém tinha posto os olhos em tais textos nem sabido da sua existência, mas o carbono guardou memória das palavras e agora foi possível aos académicos ter novos elementos sobre a forma como Plath e Hughes interagiam e trabalhavam (o mesmo papel químico tinha um índice de um livro de Hughes dactilografado por Plath, julga-se). Com a tecnologia, acabaram-se estas preciosidades inesperadas. De que se farão as surpresas no futuro?

Deixar marcas

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É bom quando a leitura de um livro deixa marcas, sinal de que mexeu connosco e de algum modo nos transformou. O livro que mais logo vamos lançar na Livraria Ler Devagar da LX Factory, apresentado pela escritora Dulce Maria Cardoso, não só deixa marcas nos leitores como fala de muita coisa que deixou marcas nas várias personagens. Mesmo que o tempo passe e a pele pareça imaculada, há coisas que nunca desaparecem, que ficam a latejar para sempre, como reza o título, Debaixo da Pele. Falando dos jovens e pelos jovens como poucos sabem, David Machado oferece-nos um romance em que crianças e adolescentes têm muita coisa a dizer, até porque alguns foram transformados em adultos pela força das circunstâncias – ou porque estavam completamente desprotegidos, ou porque o medo de que algo lhes acontecesse levou a que fossem demasiado protegidos. O resto? Só lendo e, claro, ouvindo Dulce Maria Cardoso mais logo. Estão todos convidados.


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Óbidos 2017

Depois de muitos rumores que punham em dúvida a existência este ano do FOLIO, em Óbidos – quiçá porque os fundos europeus tinham sido, ao que parece, desviados para o surf, afastando dois dos seus principais figurões (Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa, que estão agora na organização da Feira do Livro do Porto) –, a organização acaba de confirmar a iniciativa para Outubro próximo e, com ou sem fundos, a verdade é que existem convidados de peso. Sob o tema Revoluções, Revoltas e Rebeldias (muito bem, até porque aproveita para comemorar o centenário da Revolução Russa!), o certame trará à belíssima Óbidos o grande Raduan Nassar, que venceu o Prémio Camões no ano passado «apenas» com três livros, e o seu conterrâneo Milton Hatoum. Estarão do mesmo modo Laurent Binet (que escreve sobre o meio literário com humor), o espanhol Fernando Aramburu (de quem só tenho ouvido coisas boas) e, entre muitos outros já confirmados, o colombiano Jerónimo Pizarro, que é um dos maiores especialistas em Fernando Pessoa. De Portugal, teremos Mário Cláudio, Mário de Carvalho e Dulce Maria Cardoso, pelo menos. E haverá música, com Rodrigo Leão, Maria João e muitos outros, num cruzamento irresistível com a literatura. A programação é extensa – e por isso não temos razão para ter medo de que o festival não se realize. É só preciso saber esperar.


 

Galveias de volta

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Quando eu era estudante, gostava muito de ir ler e estudar para o jardim do Palácio Galveias, ao Campo Pequeno, onde havia uns pavões que às vezes largavam uns gritos impossíveis. Esta Biblioteca, que pertence à Câmara Municipal da capital e estava encerrada há cerca de dois anos, acaba de reabrir depois de obras importantes que transformaram um espaço de leitura para cerca de 100 pessoas noutro com mais de 330 lugares. Prestes a completar 86 anos de existência, a biblioteca tem um acervo de cerca de 120 000 documentos e é um sítio muito especial e luminoso onde, ao longo do tempo, se têm realizado, dentro e fora do edifício, vários lançamentos de livros e exposições (e agora já não há pavões para interromperem os discursos, pois foram postos no Museu de Lisboa, uma vez que fugiam para os túneis da Avenida João XXI e punham a sua vida e a dos automobilistas em risco.). Além de novas valências, como dois balcões para empréstimo de livros, uma loja e computadores para que os leitores possam aceder à Internet, há ainda novidade de uma máquina de auto-empréstimo, que permite a devolução de materiais fora da hora do expediente, e de um projecto de apoio aos sem-abrigo da zona, ensinando-os, por exemplo, a fazer um currículo. Estou morta por lá ir dar uma espreitadela. (A foto abaixo é de Enric Vives-Rubio, do jornal Público.)


 


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Envelhecer

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O País enfrenta um problema grave: a falta de natalidade aliada ao envelhecimento de cada vez mais pessoas. Seja Feita a Tua Vontade é, por isso, um livro extremamente actual. Conta a história de um médico octogenário que decide que não quer continuar a viver. Metódico e informado, prepara a sua morte: ocupa um quarto da casa, comunica à família as suas intenções e deixa, pura e simplesmente, de se alimentar. Apesar do choque inicial que a notícia provoca, um dos netos resolve ajudá-lo a cumprir esta sua última vontade. Visita-o diariamente, e as horas que passam juntos a rememorar o passado e a conversar sobre os tempos que se aproximam constituem uma terna despedida, uma espécie de luto pacificado. Mas eis que, numa reviravolta completamente inesperada, o médico acorda um dia com uma súbita vontade de viver… E essa atitude intempestiva, em lugar de representar um alívio, abala a já conquistada serenidade, dando lugar a uma convulsão em que mesmo o afecto é posto em causa. Num momento em que a eutanásia e a qualidade de vida dos mais velhos estão na ordem do dia, Paulo M. Morais constrói neste romance, que foi finalista do Prémio LeYa, uma narrativa fulgurante que nos leva a pensar como a família – e a sociedade – se deve estruturar para lidar com a morte próxima de um dos seus elementos. A ler, pois claro.


 


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Livros e raparigas

Um dia destes, em conversa com a mulher de um jornalista, escritor e (grande) tradutor brasileiro, falávamos de Os Desastres de Sofia e da famosa colecção Biblioteca das Raparigas que todas as pessoas da nossa idade liam (no Brasil, não se devia chamar das Raparigas, claro, mas das Moças). No entanto, o título deste post tem pouco que ver com isso... Refere-se, antes de tudo, a raparigas que gostam de ler e que não se importaram de ser fotografadas com um dos seus livros favoritos ou aquele que mais as marcou. Foi, de resto, pelo blogue de uma delas – o Planetamarcia, da Márcia – que soube da iniciativa do fotógrafo Mário Pires. Ele propôs-se retratar nada mais nada menos do que 98 raparigas que amam os livros e agora o resultado desse trabalho, que nasceu de um blogue, é uma exposição chamada Book Loving Girls que pode ser vista na FNAC de Cascais desde o dia 5 de Junho. Junto das fotografias, um texto da autoria das fotografadas justifica a escolha do livro que seguram nas mãos. E Mário Pires, que esteve a fotografar seis anos, diz que os livros têm um poder transformador e que isso é bem visível nas fotografias. De Sophia de Mello Breyner a Paul Auster, de Vargas Llosa a Clarice Lispector, de Lídia Jorge a V. S. Naipaul, de Agustina a José Mauro de Vasconcelos, as nossas raparigas lêem mesmo de tudo. Basta ver no link abaixo.


 


http://booklovingirls.tumblr.com/


 

Epitáfios

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Perguntam por vezes aos famosos o que gostariam de ver escrito nos seus túmulos – e há respostas bem divertidas, tendo em conta que estar morto deve ser mesmo muito chato. E hoje, que estava com falta de imaginação, vou aproveitar-me descaradamente de algumas lápides que alguém partilhou um dia destes no Facebook e reproduzir o que tinham escrito: «Aqui jaz a minha esposa (nome)... fria como sempre.» (Sinceridade acima de tudo.) «Eu bem vos disse que o médico não valia nada.» (Não sei se a família se arrependeu, mas a acusação sobrevive ao morto.) «Um amigo e eu apostámos quem conseguia estar mais tempo debaixo de água. E eu ganhei.» (Não lhe serviu de grande coisa, diria eu). «Agora você está com o Senhor. Senhor, cuidado com a carteira.» Por último, um túmulo apenas com as datas de nascimento e morte que diz: «Finalmente.» (Podia ser um marido insuportável e violento, nunca saberemos.)  Enfim, há gente para tudo, mortos incluídos. Pode ser um exercício engraçado pensarmos no que gostaríamos de ver escrito na nossa lápide. Eu, mesmo assim, prefiro ser cremada.


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Outra maneira de comprar livros

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A grande Amazon já não é apenas uma livraria online – e há pouco tempo abriu a sua primeira loja física em Nova Iorque, planeando abrir mais uma dúzia até final do ano. Ou seja, em lugar de ir ao site da livraria, um cliente da Amazon pode entrar agora nessa loja e comprar livros usando os muitos computadores-tablets da própria loja. Há, porém, quem ache que este sistema tira todo o prazer a um comprador de livros habituado às livrarias: ver livros ao vivo, folheá-los, encaixá-los no lugar da estante donde os tirou para cheirar, espreitar capas, trocar opiniões com os funcionários ou as pessoas que vêm com ele. É que, na loja da Amazon, os livros, aparentemente, não estarão lá para isso; só haverá, na verdade, exemplares dos maiores êxitos de vendas. Existirão ecrãs por todo o lado para os mostrar, serão ouvidos slogans e frases sobre esses best sellers, e a ideia-base é que as pessoas estarão obviamente! interessadas em comprar os livros que a Amazon mais vende online e irão lá só para saber quais são. Ainda por cima, o preço dos livros na loja é mais caro do que no site se não se for já um «Prime member» da Amazon, o que leva a crer que estas livrarias físicas sirvam também para fidelizar pessoas a essa espécie de clube. Sob os títulos expostos (poucos, parece-me), mostra-se a percentagem de leitores que lhes atribuiu a pontuação máxima, mas o autor parece a coisa menos importante de todas. Segundo leio, é tudo bastante desumanizado – ninguém na loja que possa, por exemplo, tirar uma dúvida ou aconselhar um título. Dizem que isto arruma todo o prazer que se tem de comprar livros.


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Exclamar!

Confesso que embirro bastante com pontos de exclamação, mais ainda se forem constantes. Uma frase precisa, por vezes, de ser exclamativa, mas uma narrativa coberta de pontos de exclamação faz-me sempre pensar num diário adolescente («Estou tão triste! Ninguém gosta de mim! Os meus pais não me compreendem!»). Leio um artigo sobre a matéria, no Atlantic Daily, no qual nos dizem quantos pontos de exclamação usaram grandes escritores ao longo da sua carreira. Elmore Leonard, nas suas 10 Regras para Escrever, aconselha a não usar mais de dois ou três por cada 100 000 palavras; porém, nos seus mais de 40 romances, que totalizam 3,4 milhões de palavras, deveria ter usado apenas 102, mas parece que usou mais de 1600... Mesmo assim, a sua média é muito baixa: 49 pontos de exclamação em cada 100 000 palavras; Joyce, com apenas três romances, conseguiu uma média de 1105, Fitzgerald de 356, Hemingway de 59, Salman Rushdie de 204, Virginia Woolf de 258, Jane Austen de 449. Nenhum destes escritores é conhecido por ser especialmente exclamativo, e porém... Espero que ninguém se lembre de contabilizar os pontos de exclamação de Shakespeare – ou a regra de Leonard cairá por terra, obrigando-me também a rever a minha embirração.

Estupefacção

Vendo a história como ma venderam a mim – e tomara que não seja verdade. Foi um bibliotecário que ma contou e fiquei, no mínimo, estupefacta. Todos os que lêem este blogue sabem que existem editoras que ganham dinheiro com livros pelos quais provavelmente nem passam os olhos, livros que os autores pagam para serem publicados (mediante a compra de um determinado número de exemplares que cobrem os custos de produção – e tudo o que se venda a mais é lucro puro e duro). Esse bibliotecário tem uma velha amiga, cujo filho – um jovem ainda – escreveu um livro; um livro que foi publicado nestes moldes. Houve um lançamento na terra do rapaz para amigos e familiares; e, sendo amigo da mãe, o bibliotecário lá estava. Mas fez a «asneira» de folhear o livro e encontrou não só gralhas, mas erros ortográficos. Estando presente um representante da editora, não resistiu a dizer-lho, ao que ele respondeu simplesmente que o jovem tinha dispensado o serviço de revisão, pois custava mais cerca de 80 cêntimos por página. Estupefacção completa. Este livro está por aí à venda nas livrarias e pode ser comprado por qualquer pessoa. Pode até ser comprado por gente que não domina a sua língua e vai ficar a pensar que algumas palavras que sempre escreveu de determinada maneira se escrevem, afinal, de outra. Para mim, que passo os livros que publico a pente fino – e, mesmo assim, quantas vezes me penalizo com qualquer coisa que inadvertidamente deixei passar – isto chocou-me. Não me vou pronunciar sobre o negócio que vive à custa do ego alheio (se calhar, a cosmética e as curas de emagrecimento também), mas pôr à venda um livro crivado de erros é uma desfaçatez e uma falta de respeito pelo autor e por todos os leitores.


 


P.S. Não me perguntem por Madrid. Não fui. Uma tristeza. Febre e dores em vez de alegria e livros. Enfim, melhores dias virão.


 

O que ando a ler

Pronto, agora é a sério... Ontem disse que estava a reler um romance de Han Kang – e é verdade –, mas também preciso de ler alguma coisa musical para ir intercalando com a prosa da sul-coreana que, neste novo livro, dá vários nós no peito, na garganta e no estômago, mesmo à segunda vez (é que agora já a estou a ler na nossa língua e isso muda tudo). E nada melhor do que o luminoso Vinicius de Moraes para encher o coração de coisas boas. Falo de uma das grandes ideias que a Companhia das Letras teve nos últimos tempos, a de publicar em Portugal o Livro de Letras do poeta brasileiro, que inclui tudo aquilo que cantamos de cor enquanto lemos, relembrando as músicas que nos afeiçoaram a essas palavras (de Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, Pixinguinha) e as vozes que no-las trouxeram (Elizeth Cardoso, Chico Buarque, Maria Creuza, Odete Lara, Amália Rodrigues, além, claro, da do próprio Vinicius, que ora cantava, ora recitava, e era sempre um show). O volume, imperdível, inclui ainda um artigo de Alexandre O’Neill sobre um concerto que Vinicius deu em Lisboa em 1969, um ensaio bastante extenso do crítico José Castello e ainda outro, mais curto, de Eucanaã Ferraz, o poeta que organizou a poesia completa de Vinicius de Moraes. Coisa para me acompanhar “por toda a minha vida”.


 


P.S. Nos próximos dias 5 e 6, não haverá post, vou a Madrid para a Feira do Livro dedicada a Portugal e a sessão de lançamento do meu livro em castelhano. Até dia 7!

O que... vou ler

Bem sei que hoje era dia de escrever sobre o que ando a ler (na verdade, releio o romance de Han Kang que há de sair daqui no Verão porque a autora virá em princípio a Portugal em Setembro – mas temos tempo, falarei dele quando estiver nas livrarias). No entanto, há um assunto que se impõe: a Feira do Livro de Lisboa, claro, que abre hoje! É nela que comprarei certamente o que andarei a ler a partir de meados do mês, por isso, acho que estou perdoada por quebrar a rotina. A Feira é, para mim, um dos pontos altos do ano, em que consigo encontrar escritores que não vejo habitualmente e sentar-me com os meus, aqueles que publico, para umas horinhas de conversa entre autógrafos. E, mesmo que ela pareça mudar pouco ao longo dos anos, a verdade é que a Feira tem sempre novidades. Este ano, faz-se simpática e acolhedora para cães e bebés, por exemplo, pois passa a ter um fraldário à disposição, bem como um lugar denominado Refrescão para os animais de quatro patas, que ainda não leem, mas podem parar ali para  beber água enquanto acompanham os donos ao longo de um passeio pelos pavilhões - que serão mais de 280 desta vez, o que quer dizer que haverá mesmo muito por onde escolher na hora de comprar, sobretudo a preço baixo, porque essa invenção da Hora H se vai, felizmente manter. Nos tempos mais próximos, andarei por lá, especialmente ao fim-de-semana, entre outras coisas, a comprar livros. Aproveite também para o fazer até dia 18, que o tempo foge e os livros estão à espera.