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A mostrar mensagens de maio, 2014

A louca da casa

Já aqui falei num livro fantástico da escritora madrilena Rosa Montero, intitulado A Louca da Casa, misto de ficção e verdade sobre essa doida que é a imaginação. Pois é a respeito de imaginação que hoje trago uma história, quanto a mim, bem bonita. No último LeV (festival de Literatura em Viagem, realizado em Matosinhos), uma das sessões reunia dois físicos – Carlos Fiolhais e Nuno Camarneiro, o segundo ex-aluno do primeiro – que nos brindaram com uma conversa muito interessante sobre a ligação da ciência e dos cientista às artes e à literatura. Ficámos a saber que também eles dão importância à beleza (mesmo nas fórmulas matemáticas) e ficam felizes quando a hipótese certa é bonita (às vezes, há proposições tão belas que têm de estar certas, digo eu); mas o físico mais velho contou uma história deliciosa de Einstein, que hoje partilho com os leitores do blogue. Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.» Quem sabe sabe.

Qual é a coisa, qual é ela?

Já adivinharam? Pois, não é preciso pensar muito para saber que, nesta altura do ano, só podia ser a... Feira do Livro de Lisboa! Começa hoje, sim, um pouco mais tarde do que é costume, e durará até 15 de Junho, obrigando os alfacinhas que trabalham nos livros a esquecer o Santo padroeiro, as marchas e as sardinhas por um ano. Mas não faz mal: nós gostamos desta festa que é de adultos e crianças ao mesmo tempo, que nos leva ao Parque para uma passeata simpática (Deus queira que não chova) e que todos os anos traz caras e títulos novos. Sentimo-nos bem acompanhados com os autores, adoramos parar nos pavilhões a folhear as novidades e a mexericar nas bagatelas (no ano passado comprei dois livros de Robert Walser por três euros cada) e, sobretudo, gostamos de ver como são os leitores, que manias têm, o que gostam de ler, o que procuram. Aprende-se muito, garanto, e num instante passaram três semanas e nem demos por isso (excepto quando regressamos à nossa secretária e nos apercebemos de que o trabalho está atrasadíssimo). Este ano, a entrega do Prémio LeYa, para variar, será feita na Feira do Livro; mais para a frente, darei detalhes. Hoje, é mesmo só para celebrar o acontecimento e pedir que nos visitem e, claro, não se esqueçam de ler.

Treze anos de Quintas

Já aqui falei muitas vezes das Quintas de Leitura, um espectáculo mensal dedicado especialmente à poesia (mas com música, imagem e outras artes também) que acontece com a direcção de João Gesta no Teatro do Campo Alegre, na cidade do Porto. E amanhã comemoram-se treze anos de Quintas com uma sessão intitulada «A Poesia é uma arma carregada de futuro», na qual tenho o maior prazer de participar. Não, desta vez não irei exactamente como poeta, mas para integrar um painel de «combatentes» (com Ana Drago, Adolfo Luxúria Canibal, Mário Zambujal e Paulo Cunha e Silva) que, com a moderação do jornalista Carlos Vaz Marques, conversará sobre estes tempos tão difíceis para a cultura, em que todas as armas são úteis para derrotar a arrogância ignorante dos que nos governam. Na segunda parte, a fadista Raquel Tavares e o guitarrista Edu Miranda far-nos-ão companhia. As leituras de poemas (desta vez sugeridos pelos entrevistados) estarão a cargo de Paulo Campos dos Reis, Pedro Lamares (ah, que voz!) e Teresa Coutinho. A não perder, porque as Quintas são sempre de guardar no coração.

Mal Nascer

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Veja primeiro, leia depois. A não perder.


 


Pendure-se

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Quando a revista LER fez 25 anos, foi organizada uma grande festa durante uns dias no cinema São Jorge. Nessa altura, quem dirigia a revista interinamente era João Pombeiro – e a celebração saiu-lhe muito bem. Agora, já longe da LER, resolveu reinventar o acontecimento com outro a que chamou Cabide, A Revista ao Vivo (nem online, nem em papel) que vai realizar-se no mesmo São Jorge entre a próxima quinta e o próximo domingo, com um preço de lançamento de 9,99 euros para os três dias. Pedro Rosa Mendes, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, Tiago Rodrigues, Carlos Vaz Marques, Maria Filomena Mónica, Carla Hilário Quevedo, João Fazenda e João Miguel Tavares são alguns dos principais colaboradores deste primeiro número da Cabide. Entrevistas, ensaios, conferências, debates sem moderação, ocuparão várias sessões subordinadas a um tema que se pode dizer bastante oportuno: Sabemos tomar conta de nós? Não faltarão também o cinema, as exposições, o teatro e uma manhã infantil, além de uma mostra de rádio e uns quantos extras, que não vou divulgar. A capa desta Revista ao Vivo é de Luís Alegre e estará exposta na fachada do cinema. Interessante, sem dúvida.


 


Curiosidades

Andamos de novo a tentar organizar as estantes lá em casa – o espaço é sempre pouco e cada vez é mais difícil encontrarmos o que queremos. Agora, foram os livros em espanhol que ocuparam, com irrepreensível atraso mas finalmente por ordem alfabética, uma estante do corredor; para isso, porém, foi preciso arranjar espaço no meu escritório para os que lá estavam – e alguns, à medida que eram tirados do sítio, pareciam que saíam de uma cartola, e não da prateleira. Foi o caso de um romance de Júlio Conrado, cuja existência quase esquecera. Em anos sucessivos, Portugal foi país-convidado de Feiras do Livro e Festivais Literários (pelo meio, Saramago ganhou o Nobel) em Frankfurt, na Suíça, no Brasil, em Paris... E, segundo percebi, Júlio Conrado nunca foi convidado para participar em nenhum dos eventos. Vai daí, quem sabe se por indignação, se apenas por piada, escreveu um livro intitulado Desaparecido no Salon du Livre – uma paródia com «verdades, meias-verdades e muita ficção», tal como se anuncia na contracapa. Que dizer? Há outros escritores, que também não foram a lado nenhum, que reagiram de forma menos engraçada. E um que foi a todas, e que se recusou a partilhar o hotel com os confrades. Júlio Conrado tem, pelo menos, sentido de humor.

Elogio americano

Já se sabe que a Livraria Lello, na cidade do Porto, é considerada uma das mais belas de Portugal. Mas os livros têm outras casas dignas de respeito e há uns tempos o jornal britânico The Telegraph elegeu a biblioteca do Convento de Mafra como a mais espectacular do mundo; agora é o portal norte-americano Book Riot que diz que ela é a mais incrível biblioteca do globo. Conhece? Devia. Porque é realmente única: tem uns tons únicos, claros – o que é pouco usual nas estantes, quase sempre de madeira escura –, com o mármore da zona de Pêro Pinheiro a fazer conjunto; mas também possui um acervo estupendo, de cerca de 36 000 obras (sobretudo em francês, latim e português), tendo, segundo se diz, D. João V mandado emissários ao estrangeiro para comprar livros raros e valiosos. Alberga, por exemplo, uma edição do Corão de 1543 e uma das primeiras bíblias poliglotas europeias, só para dar dois exemplos. E, além disso, tem morcegos, que comem os insectos e assim têm ajudado a preservar os livros sem recurso a químicos. Fico contente com o reconhecimento porque sou fã incondicional desta biblioteca e já a visitei por várias vezes. Se nunca foi, atreva-se: os morcegos não fazem mal.

Falar em silêncio

Há dois ou três verões li um romance-maravilha – e postei a propósito aqui no blogue – de um jovem escritor argentino; intitulado O Viajante do Século, foi elogiado, entre outros, por Roberto Bolaño (que disse que a literatura deste século pertenceria a Andrés Neuman – assim se chama o seu autor – e a mais alguns, poucos, dos seus irmãos de sangue). Nas últimas Correntes d’Escritas tive o gosto de conhecer pessoalmente Neuman (mais baixo do que esperava e imensamente simpático), passei uma noite à conversa com ele e a mulher no bar do hotel e recebi de presente o seu romance mais recente, em edição brasileira, pois ainda não foi cá publicado. Não o achei tão bom como essa primeira obra que li, mas também seria difícil escrever dois romances geniais. Este Falar Sozinhos é uma obra menos ambiciosa, que cruza três formas diferentes de contar e sentir: a de um rapazinho de dez anos, Lito, e a dos seus progenitores. Mário, o pai, doente terminal, decide levar Lito numa viagem a dois, tentando antecipar um futuro que já não viverá; e a mãe, Elena, enquanto se preocupa com ambos, consulta o médico do marido para saber exactamente o que pode esperar e acaba por expiar a sua culpa de ser saudável numa relação com ele, entremeada por leituras de que retira para a sua vida o que há a aprender sobre doentes e cuidadores. O médico, personagem secundária, é claramente a minha figura preferida do romance e as suas reacções e comentários são notáveis. Um especialista da morte – é oncologista –, parece perceber melhor o que vale a pena na vida do que Mário, por exemplo, que está a perdê-la. Mas todos neste livro falam sozinhos, mesmo quando se dirigem a alguém.

Pecados mortais

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Hoje mesmo estará disponível nas livrarias portuguesas um romance cheio de personagens admiráveis que mostra que, por mais que fujamos do passado, ele continuará a perseguir-nos e poderá bater-nos à porta quando menos esperamos. O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais, tem como cenário uma ilha inventada, a piscar o olho a Cuba, e passa-se no princípio do século XX, não muito depois de ter terminado a escravatura e de os ilhéus se terem livrado do último governador branco. Santiago, o protagonista, é o sedutor nato que adora mulheres, especialmente as feias, e não desistirá de desencaminhar a virgem Ducélia Trajero, a filha que o açougueiro de Porto Negro guarda como um tesouro inviolável e que o funcionário do açougue – uma criaturinha desprezível – julga, sabe-se lá porquê, estar-lhe destinada. Mas em terras de clima quente os pecados, carnais e não só, sucedem-se a um bom ritmo – como, aliás, o do romance – e a vida de todos os aqui referidos e de muitos outros há-de sofrer inesperadas metamorfoses, podendo a penitência cumprir-se, por exemplo, num bordel, onde, além de um leque variado de prostitutas com histórias deliciosas, um mulato efeminado terá um papel determinante nos destinos de uns quantos. Finalista do Prémio LeYa no ano passado, O Pecado de Porto Negro lê-se de um fôlego apesar das suas muitas páginas e guarda surpresas espectaculares até ao fim.


 


Top Ten

Todas as semanas consulto os Top de vendas nacionais e os de algumas livrarias (a FNAC, a Bertrand, a Bulhosa...) – e é espantoso verificar como o que se vende mais não tem, grosso modo, que ver com o que é literário e, muito provavelmente, com o que ficará na História da Literatura e continuará a ser lido daqui por cinquenta ou cem anos. Por outro lado, constato que os escritores, verdadeiro motor da literatura, têm frequentemente gostos muito diferentes dos leitores-consumidores de livros e que, interrogados sobre o seu Top Ten, enumeram quase sempre títulos que hoje talvez nunca chegassem às listas dos mais vendidos. Peter Zane resolveu tirar teimas e pedir a 125 escritores contemporâneos anglo-saxónicos que fizessem a lista dos seus 10+. Entre os autores chamados a opinar, estavam ficcionistas como Norman Mailer, Jonathan Franzen ou Joyce Carol Oates – e, ainda que as obras do século XX referidas pelo conjunto tenham ultrapassado as 500, o verdadeiro Top Ten do Século XX acabou por incluir duas vezes Joyce e outras duas Nabokov, o que é uma surpresa, sendo que a obra mais vezes indicada – e portanto a número 1 – foi mesmo Lolita. A seguir vinham O Grande Gatsby e a eterna Recherche, Gente de Dublin e Ulisses, O Som e a Fúria de Faulkner e Rumo ao Farol de Virgínia Woolf (curioso também, porque a sua obra «escolhida» é normalmente As Ondas). Nos últimos lugares dos dez, surgem então os contos de Flannery O’Connor e Fogo Pálido, o outro Nabokov. Perguntassem a escritores francófonos e talvez fossem em menor número as obras escritas originalmente em inglês... Porém, no que toca ao século XIX, Tolstoi continua a bater os recordes com Anna Karénina, o livro mais votado pelos 125 interrogados, e só aparece um livro em inglês em quarto lugar, As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, sendo que o título que vejo aparecer mais frequentemente em listas deste tipo, Crime e Castigo, vem apenas em nono lugar. Fico a pensar como votariam os escritores portugueses se por acaso alguém se desse ao trabalho de lhes pedir os seus Top Ten.

Zangas

Em todos os países existem escritores que não gostam de um ou mais dos seus confrades – e não estou a falar do que eles escrevem, mas dos indivíduos –, nutrindo por eles uma antipatia muito especial que, por vezes, chega a ser raiva ou ódio. Cá na terra, sabe-se que Lobo Antunes nunca foi à bola com Saramago, por exemplo, e que passou a gostar ainda menos dele depois de o Nobel lhe ter sido atribuído, quiçá porque, com esse gesto da Academia Sueca, viu perdidas as suas hipóteses de obter ele mesmo o galardão. Mas zanga a sério foi a que ocorreu em meados dos anos 1970 entre dois grandes (que ganhariam ambos o prémio tão ambicionado por Lobo Antunes, embora com anos de intervalo), García Márquez e Vargas Llosa, e que, inclusivamente, meteu tareia (o peruano socou o colombiano e mandou-o ao chão) e não deu direito a pedido de desculpas ao longo da vida nem a reaproximação. Ninguém soube exactamente a razão da briga, embora alguns jornalistas digam que a mulher de Llosa era o verdadeiro assunto; e as testemunhas da luta corpo-a-corpo comprometeram-se, tal como os dois contendores, a não alimentar a sanha dos jornais e a não revelar nada sobre a matéria. E foi isso que aconteceu, pois recentemente, a seguir à morte de García Márquez, Llosa foi de novo interrogado sobre essa velha cena, ocorrida em 1976, mas disse apenas que, se o adversário tinha cumprido a sua palavra, ele não via razões para não o fazer. «Os biógrafos que descubram a verdade», respondeu a rir.

O rapaz e o mestre

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Está na rua a última novela de Mário Cláudio, um primor sobre a relação de um génio com um dos seus discípulos dilectos. Trata-se nem mais nem menos de entrar, pela mão do escritor portuense, no estúdio de Leonardo da Vinci e de conhecer Giacomo, um adolescente de cabeleira loura aos caracóis, ainda não totalmente livre de piolhos, que o pai, cansado das suas tropelias, vem deixar aos cuidados do mestre, para que ele o alimente e eduque. Mas não será tarefa fácil, porque o rapaz, apesar da sua aparência de anjinho, é um diabrete – e a primeira coisa que faz é surripiar a bolsa de Leonardo, subtraindo-lhe as moedas com que ele iria pagar-lhe umas roupas novas para o tirar dos seus tristes farrapos. Em farrapos ficarão, pois, também as vestes por estrear, que, para génio que se preze, o castigo tem de ser mostrado logo de início. Este episódio é, porém, apenas o começar de uma relação que durará vinte e cinco anos, em que o grande cientista construirá a sua máquina de voo, exumará cadáveres, coreografará cortejos reais e pintará as suas principais obras sob o escrutínio do rapaz que, sem grande talento a não ser para a asneira, não sairá do seu lado e cultivará uma fidelidade e um ciúme equivalentes. Notável, este Retrato de Rapaz é como uma pintura muito bela e viva que deve absolutamente ser lida por todos os que gostam de Da Vinci e de literatura.


 


Literatura para comer

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Tenho reparado que de há uns tempos para cá fazem um enorme sucesso os livros de dietas, que, aliás, chegam quase sempre aos Top de vendas – e, como diz uma colega editora, nunca se viu, apesar disso, tanta gente gorda. Mas também é verdade que a comida está na moda, que proliferam chefs como cogumelos no mundo inteiro e que tudo o que é livro de cozinha de gente mais ou menos famosa – cozinheiros profissionais, gastrónomos ou simplesmente pessoas conhecidas que têm mão para os tachos – acaba por se impor no mercado e conquistar milhares de consumidores. E, porém, os autênticos devoradores de livros não são os leitores destas espécies, mas de outra, normalmente com páginas cheias de letrinhas pretas, sem ilustrações, que os transportam a um sentimento de delícia que nada tem que ver com papilas gustativas. No entanto, um pintor e designer polaco, Pavel Piotrovski, resolveu celebrar os gulosos dos livros com uma obra que apetece mesmo comer e a que chamou, não por acaso, o Livro-Sanduíche. Nele, as páginas satisfazem a nossa fome de leitura de uma forma muito especial. Ora veja.


 






Se bem me lembro

Já aqui falei de Nemésio e do seu programa de TV que tinha o nome deste post. Lembrar é um exercício bem interessante, mesmo em literatura, e o grande cronista Ferreira Fernandes resolveu lembrar-se de se lembrar, entre outras coisas, do que foram os meses em Portugal antes do 25 de Abril nesse ano de 1974. Diz quem sabe que se inspirou em dois outros autores, Georges Perec e Joel Breinard (que se dedicaram a outros anos), e com as suas memórias desses quatro meses compôs um livro intitulado muito justamente Lembro-me Que (o de Perec chamava-se Je me souviens e deve ter sido o que mais directamente influenciou o autor, pois este estava em França antes da data que quer celebrar com esta obra). O livro, que já tinha sido editado há uns bons anos, volta a ver a luz das livrarias no quadragésimo aniversário da revolução, e não reúne lembranças pessoais de Ferreira Fernandes, mas episódios que ajudam o leitor a entender como era o País «nas vésperas da grande mudança», como diz o jornalista José Mário Silva, que recentemente recenseou o livro para o Expresso. São cerca de 300 fragmentos de crónica que descrevem o que se passou e o que se escreveu (às vezes propositadamente de forma enviesada para enganar a censura) nos jornais entre 1 de Janeiro e 24 de Abril, factos que podiam parecer irrelevantes mas que já apontavam para o que viria a suceder, e bem assim curiosidades do dia-a-dia, como preços de produtos que hoje nos fazem perceber melhor a crise em que estamos. Vale a pena ler e admirar o estilo deste cronista muito dotado.

Cesário integral

No Dia Mundial do Livro, entre muitíssimas outras actividades, foi lançada em Lisboa a obra integral de um dos meus poetas favoritos, Cesário Verde. Curiosamente, a sua organização ficou a dever-se não a um estudioso português, mas a um académico brasileiro, Ricardo Daunt, professor catedrático da Universidade de São Paulo, que veio a Portugal expressamente para participar na sessão, em que falou também a professora Annabela Rita. Além da obra poética completa, revista e ordenada segundo semelhanças formais e temáticas dos textos de Cesário publicados em vida, o volume inclui uma biografia cronológica e ainda toda a sua correspondência anotada. Daunt tem uma admiração profunda por este português que Pessoa considerava um mestre e que foi, segundo ele, um precursor da modernidade na poesia portuguesa, «superando o impasse do modelo realista para criar uma poesia que não se contenta em permanecer no interior da cápsula do real». Tendo Cesário Verde morrido em 1886, sem ter reunido a sua obra, ela foi compilada um ano depois por Silva Pinto, mas houve coisas que ficaram dispersas e, além disso, não havia ainda nenhuma edição que incluísse a biografia e um estudo crítico. Está é, pois, uma boa razão para voltar a Cesário.

Geografias

Os meus irmãos e eu, quando éramos pequenos, adorávamos jogar ao STOP (não sei se se lembram do que é) e, entre os temas mais apreciados, estavam os Países e as Cidades, que preenchíamos sem hesitação, fossem próximos ou distantes, mesmo quando começavam por letras esquisitas como Q ou Z. Recordo-me de conhecer capitais de países africanos que nunca estudei na escola (ler dava uma boa ajuda, mas consultar atlas também fazia parte dos tempos livres); embora hoje se calhar a disciplina de Geografia não vá muito longe, os jovens portugueses também têm hipótese de viajar mais cedo (com o Erasmus, por exemplo) e sabem localizar bastantes países num globo terrestre. Mas nos EUA, muito virados para si próprios (quando não para o umbigo do seu Estado apenas),  os habitantes ignoram a geografia mundial. Na época da guerra do Iraque, mesmo os que diziam ser claramente a favor da intervenção americana nunca sabiam onde ficava o Iraque quando lhes estendiam um mapa-múndi. E, mais recentemente, foi entregue a um grupo numeroso de norte-americanos (alguns universitários) um mapa da Europa dividido em países, mas sem nomes, para que o preenchessem. E algumas das respostas foram, como não podia deixar de ser, hilariantes. Além dos mais ou menos óbvios Reino Unido, França, Itália (a bota ajuda muito) e Rússia (o fantasma da Guerra Fria não desaparece de um dia para o outro), que quase todos assinalam correctamente, a Europa Central é descrita muitas vezes como Transilvânia e os territórios da ex-União Soviética como o país de Borat (ai, o cinema); Portugal é a Espanha ocidental ou fica em branco, e há quem ponha uma seta abarcando os países nórdicos dizendo apenas «Hot blonde people» ou «Bjork is here somewhere» ou ainda «Cold» (com alguma razão). O pior resultado acontece na zona dos países mais novos (os que ocuparam a ex-Jugoslávia, por exemplo), que ninguém sabe nomear. Pois é... A notícia revela algum escândalo e apreensão – a Europa é velha – mas saberíamos nós o lugar de cada um dos Estados norte-americanos num mapa em branco? Acho que não.

LeV

Está aí mais uma edição do festival LeV – Literatura em Viagem, que já há vários anos se realiza com o apoio da Câmara Municipal de Matosinhos na Biblioteca Florbela Espanca daquela cidade e tem, desta feita, a organização dos Booktailors. Embora o nome do encontro sugira que o assunto é a literatura de viagem, não é bem assim, pois todas as viagens que podem ser feitas à roda de um livro, especialmente as interiores, são, afinal, o mote das mesas redondas que acontecem ao longo do festival desde 2007, mesmo que já tenham sido convidados alguns autores que se dedicavam especialmente ao género acima referido, como, por exemplo, o grande viajante Paul Theroux. Este ano, a abrir as hostilidades – a expressão não poderia ser mais adequada –, teremos José Sócrates, uma presença bastante inesperada num encontro literário; no entanto, diz o presidente do município que, nestes 40 anos do 25 de Abril, era importante poder ouvir alguém que fizesse uma comparação entre um tempo em que os primeiros-ministros não saíam praticamente de Portugal e os tempos actuais, em que estão mais tempo a viajar do que sentados nos seus gabinetes. E haverá também uma homenagem a Rentes de Carvalho, exposições de fotografia, mesas-redondas, idas a escolas, lançamentos de livros. Eu também vou lá estar, no domingo à tarde, na sessão de encerramento, para falar de como é fazer texto para ser musicado, na companhia do Azeitona Miguel Araújo Jorge, Mafalda Veiga e Verônica Ferriani. Estando pelo Norte, dê lá um salto.

Mal me quer, bem me quer

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Hoje será distribuído e posto à venda um belíssimo romance que esteve entre os finalistas da última edição do Prémio LeYa. Chama-se Mal Nascer, escreveu-o o alentejano Carlos Campaniço e conta, alternadamente, a infância de um mal-nascido e a sua vida adulta como médico na pequena vila donde fugiu aos maus-tratos de muitos que lhe queriam mal (entre eles, o padrasto) e aonde regressa muito mais tarde, fugido aos absolutistas (é um liberal assumido), para se vingar. Porém, ao contrário do que esperava, a verdade é que ninguém reconhece Santiago tantos anos depois, nem mesmo os seus piores inimigos; e, pela sua posição, todos o enchem de vénias e salamaleques e até lhe arranjam noiva na rapariga cujos pais foram os principais responsáveis pela terrível meninice que ele teve. Mal-entendidos à parte, a descrição da vida tremenda de Santiago como guardador de porcos e enteado mal-amado numa vila dominada por um latifundiário amargurado com a morte do filho varão e a narrativa dos seus amores por uma rapariga casada que o ajuda no consultório estão cheias de passagens maravilhosas que compõem uma obra com suspense até à última página e cheia de peripécias que nunca deixam quebrar o ritmo. Amanhã, no lançamento, Afonso Cruz apresentará o romance e, aposto, há-de ter muito para dizer. Se quiser, apareça por lá.


 


De pequenino

Os mais pequenos também têm direito a que alguém reflicta sobre aquilo que lhes cai bem, e hoje inicia-se na Universidade de Aveiro o III Ciclo de Conferências para a Infância e Juventude, dedicado à literatura infanto-juvenil. A universidade recebe três conferencistas, um por semana, a começar pelo escritor Álvaro Magalhães, que escreve para jovens há mais de trinta anos e ficou conhecido pela sua série de livros Triângulo Jota, posteriormente adaptada à televisão, que vendeu milhares de exemplares e se tornou uma das mais populares entre os leitores. No dia 14, é a vez de ter a palavra a ilustradora Catarina Sobral, uma interveniente mais nova nestas coisas dos livros, mas muito justamente premiada na última Feira do Livro de Bolonha entre centenas de candidatos de todo o mundo e já antes galardoada com o seu Achimpa! na gala da Sociedade Portuguesa de Autores. Por fim, no dia 21, Sandie Jones Mourão, investigadora na área da literatura para a infância e juventude, falará da obra de outro grande ilustrador, Bernardo de Carvalho, um dos membros da Planeta Tangerina, e Rui Ramos (não o historiador) centrar-se-á na importância da leitura para a «ecoliteracia», um assunto bastante oportuno (eu própria já escrevi um livrinho há uns anos em que espero ter ajudado as crianças a perceber o problema do desperdício contemporâneo e a construir um país mais limpo e ecológico). As sessões têm lugar no Departamento de Línguas e Culturas e são organizadas por Ana Margarida Ramos, que se tem destacado no estudo e investigação da literatura para os mais pequenos. Se a matéria lhe interessa e estiver por perto, não falte.

Regras

Há desde sempre o mito de que o escritor é um ser completamente desregrado, mas são muitos os escritores actuais que partilham com os leitores as regras que os norteiam, desde que Elmore Leonard (recentemente falecido) o fez nas páginas do New York Times. Desta vez, foi a britânica Zadie Smith, autora de livros como Dentes Brancos e do mais recente NW a estabelecer dez pequenas regras para se ser escritor – e a primeira, comum a quase todos os que se dispuseram a contribuir, é a de que, antes de se começar a escrever, é preciso ler, ler muito, gastar mais tempo a ler do que com qualquer outra actividade (presumo que dormir não contará como actividade). Porém, entre os seus conselhos, um dos que mais apreciei foi o de devermos ler os nossos textos como se não fossem nossos, como se fôssemos outras pessoas e, de preferência, pessoas que não gostam assim muito de nós (difícil, não é?). Outra das regras (ah, como concordo com esta!) é a de deixar o que escrevemos a marinar tempo suficiente antes de o editarmos: uma das coisas que mais vejo nos dias que correm é os potenciais escritores entregarem os livros logo que terminam as primeiras versões; além de erros e gralhas desnecessários, há muita incongruência de que eles próprios se dariam conta se tivessem sabido esperar. Também me pareceu imensamente válida a sugestão de não confundir nunca um elogio com um feito, uma conquista: o facto de alguém ter gostado do que escrevemos não nos deve convencer de modo algum de que fizemos o melhor de que somos capazes. Por último, adorei um conselho que poucos autores que conheço seguem: o de trabalhar num computador sem Internet!

Lusofonia

Recentemente, ouvi Adriano Moreira elogiar a criação da CPLP e, porque sou tímida quando se trata de intervir em sessões com muito público, não tive coragem para lhe perguntar qual era agora a sua opinião sobre a entrada da Guiné Equatorial na dita comunidade (que eu saiba, lá não se fala português). Já me parece mais simpática a deliberação do Parlamento Galego para que a língua portuguesa seja introduzida no ensino com vista a estreitar laços com a lusofonia, uma vez que galegos e portugueses falam variantes muito próximas de uma mesma língua ancestral. A proposta, que visa introduzir de forma progressiva o estudo do português em todos os níveis de ensino, foi votada, de resto, favoravelmente por todos os partidos com assento parlamentar e terá nascido, o que é ainda mais interessante, no seio da sociedade civil, que conseguiu as assinaturas necessárias para levar o assunto ao Parlamento (deviam estar fartinhos de o castelhano estar a tornar-se a língua dos galegos mais novos, por causa da escola e da televisão). Curioso ainda é o facto de o domínio do português passar a ser tido em conta para a entrada na função pública na Galiza. Os galegos tomarão agora todas as medidas ao seu alcance para que as televisões e rádios portuguesas sejam vistas e ouvidas no seu território com o objectivo de formar os mais jovens (coitados, lá vão ter de levar com as terríveis novelas a toda a hora). É provável que estejam também a pensar nas vantagens da sua relação com o Brasil e Angola, mas lá que a Galiza é muito mais portuguesa que espanhola a falar, isso não se pode negar.

O que ando a ler

Interrompo um livro (um dia destes falarei dele) para deitar mão a um pequeno volume de José Cardoso Pires, vendido com o jornal Público, chamado Histórias de Amor e composto por alguns contos e uma novela. Um livro, apetece dizer, no qual é proibido beijar. E porquê? Bem, porque pertence a uma pequena colecção de obras censuradas pela PIDE e vendidas justamente com os sublinhados todos da censura por que passou (não a azul, senão teriam de ter sido impressas a quatro cores, mas ainda assim com toda a indignação expressa com riscos e pontos de exclamação à margem). O veredicto relativo a Histórias de Amor diz que o livro é «imoral» e que nele «o aspecto sexual é revelado indecorosamente». Nos dias de hoje, a afirmação quase dá vontade de rir porque, ao acompanharmos o texto, vemos que são os beijos que saem todos sublinhados, mesmo em frases nas quais a rapariga diz que nunca beijou ninguém nem o fará antes do casamento... Avessos à ternura, estes agentes da censura não suportam lábios, coxas ou nádegas, suor ou saliva, seja em que contexto for, e também assinalam a linguagem que crêem menos própria, mas que, no caso, são termos como «camandro» ou «do catano» (se fosse do Caetano, estaria bem, claro), bastante inocentes ao pé do «Fogo!» que os adolescentes hoje despejam a torto e a direito pela boca. Mas, abstraindo os cortes, ou por causa deles, vale a pena conhecer este livrinho do escritor que viria a fazer coisas notáveis.