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A mostrar mensagens de janeiro, 2013

O miolo e a côdea

Há pouco tempo, descobri que os livros juvenis que mais sucesso faziam na LeYa eram, estranhamente, livros do meu tempo de miúda. A verdadeiramente prolixa Enid Blyton não fora, pelos vistos, ultrapassada pelos autores mais recentes, e a sua colecção As Gémeas continuava (e continua) imbatível. Achei curioso, porque já quase ninguém anda em colégios internos como as gémeas e o mais provável seria os leitores actuais não se identificarem com as suas histórias; mas, ao que parece, ainda são as partidas inocentes (como pôr aranhas na cama das colegas) a cativarem meninos e meninas, uma forma de poder fazer maldades sem ser mau (já chega de violência a sério nas escolas, com tanto bullying e cenas de pancadaria). Há também quem diga que o sucesso das Cinquenta Sombras não é, ao contrário do que eu pensava, a suposta pornografia, mas o facto de a história ser entre um trintão rico e uma rapariga pobre, receita que, pelos vistos, nunca se gasta e funciona sempre (e isso explica, até certo ponto, por que razão as obras do mesmo tipo publicadas no rasto da trilogia de E. L. James se vendem muito menos). Haverá então, por parte dos leitores de todas as idades, uma maior predilecção por um miolo antigo, familiar, confortável e desejável, sendo a côdea mais ou menos indiferente? Quereremos, no fundo, as coisas inocentes ou bonitinhas de sempre, e o resto é mero revestimento?

Post mortem

Quando morre alguém conhecido, não raro nos dias e semanas seguintes os jornais e televisões dedicam páginas e horas de encómio à figura quando, frequentemente, se esqueceram dela enquanto estava viva. Muitos escritores esquecidos tornaram-se, pela morte, autores incontornáveis e determinantes na história da literatura dos seus países. Muitos escritores médios, se não medíocres, apareceram depois de mortos como figuras de proa no contexto da época e grandes visionários. Lembro-me, por exemplo, de um autor que os «confrades» consideravam bastante mediano (embora vendesse muitos livros) ser brindado, depois da morte, com cinco páginas de elogios num só jornal, para espanto de muita gente que sabia o que se pensava dele. Mas, nisto de post mortem, o contrário é também possível e, passado o período do luto, há quem retire prazer de bater no ceguinho, pôr a nu a sua vida e dizer que andámos todos enganados achando que esse homem ou essa mulher eram excepcionais. Recentemente, a «vítima» foi Steve Jobs que, enquanto foi vivo era praticamente só um génio da informática, mas depois de morto se transformou num personagem verdadeiramente disgusting, que tratava mal as namoradas e era até avesso a tomar banho. Enfim, lembro-me de a grande Agustina ter escrito um álbum sobre a sua vida e não ter incluído nele o marido. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu, muito simplesmente, que ele ainda estava vivo... Quem sabe sabe.

Desfrutar do sofrimento alheio

Li há muito tempo (e quem me dera ter tomado nota desse texto a que um dia gostaria de voltar, mas perdi completamente as referências) que Freud teria dito (ou escrito, mas vai dar no mesmo) que, no tempo em que a ópera era um espectáculo popular, o povo não a perdia porque gostava de ver sofrer em palco. Não sei se o génio austríaco estava certo quanto à ópera, porque o povo deixou de a frequentar; mas a verdade é que os nossos telejornais cheios de coisas de fazer peninha e causar horror (com velhos, crianças e tudo isso que faz chorar e doer) não param de conquistar audiências (quanto mais horríveis, mais espectadores têm) – e o mesmo vale para os livros de testemunhos pungentes do tipo Queimada Viva, que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo desde que saiu e desencadeou, de resto, em Portugal, a publicação de muitos livros afins (todos eles com bastante sucesso). Não me admiraria nada que estivesse neste momento a discutir-se nas grandes agências literárias e editoras norte-americanas e inglesas a publicação da história trágica da indiana de 23 anos violada por seis crápulas num autocarro – e morta na sequência desse crime hediondo. E tenho a certeza de que seria best seller para figurar nos primeiros lugares dos Top de vendas em positivamente todos os países, independentemente do grau de repulsa de todos nós pelo sucedido. Teria então o mestre Sigmund razão ao dizer que as pessoas gostam de ver sofrer, mesmo que o palco se tenha transformado em página? É bem possível.

Boa viagem

No sábado 19 de Janeiro, a Revista do Expresso trazia um relato de viagem de Nuno Camarneiro à Grécia que, além de me aguçar o orgulho de ser sua editora, era de uma sinceridade desarmante que me comoveu. Gosto muito de livros e guias de viagem (tenho uma prateleira cheia deles, alguns de lugares aonde nunca fui, apesar dos planos nesse sentido), mas, por vezes, os seus textos são meramente objectivos e informativos – e este de que falo era um texto literário muito belo e, ainda por cima, ao alcance de todos, o que, em literatura, nem sempre acontece. Mas hoje estamos, por acaso, muito bem servidos em Portugal nesta matéria. O jornalista Carlos Vaz Marques (cuja voz Lobo Antunes elogia e cuja inteligência e cultura devemos todos elogiar) dirige, na Tinta-da-China, uma colecção, a todos os títulos exemplar, que reúne, por um lado, essa estupenda aventura que é a viagem e, por outro, a escrita literária dos viajantes-autores. Infelizmente, não consegui ler ainda todos os volumes (o tempo é curto e a colecção avança a bom ritmo), mas há alguns que me fizeram descobrir autores tão dotados como verdadeiros romancistas. O meu volume preferido foi Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach, de que penso ter falado aqui há muito tempo. Se por acaso não o leu ainda, está sempre a tempo de emendar a mão.

Dupla alegria

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É já neste fim-de-semana que a maioria das livrarias começarão a expor e vender o primeiro romance que lanço este ano. Para dizer a verdade, começo bem – não só porque o faço com um dos meus autores mais fiéis (publiquei toda a obra de João Tordo desde que se estreou), mas porque O Ano Sabático, assim se chama o livro, é – tenho a certeza – um dos melhores do escritor. E, por se tratar de uma história de gémeos, a alegria é, ainda por cima, dupla! Por um lado, teremos Hugo, um contrabaixista alcoolizado que abandona o Canadá para fugir às dívidas, regressando a uma pátria onde deixou a família e reside agora a esperança de se poder tornar alguém, antes que seja tarde de mais. Por outro, Luís, um pianista de sucesso que, depois de um encontro perturbador, trocará Lisboa por Montreal em busca de uma vida que não é a sua. Pelo meio, um tema musical que existe apenas na cabeça de ambos, nunca escrito na pauta, e bem assim um sonho de um que é concretizado no outro, uma rapariga que sara as feridas dos instrumentos musicais e conhece ambos, uma mãe implacável, uma irmã conciliadora, uma criança com muita graça. E grandes surpresas, página a página, multiplicadas por dois. Ou três. Identidade e Fraternidade. Não vai dar para não ler.


 


A vida e a obra

Há muitos anos, ainda na Temas e Debates, tivemos a trabalhar connosco uma rapariga que estava a fazer o mestrado em Teoria da Literatura. Tendo-se posto a ler Borges, encontrava-se absolutamente fascinada com o génio argentino (como é, de resto, perfeitamente justificável). Porém, a sua admiração ficou bastante afectada quando lhe falámos da pessoa por detrás do escritor e das suas posições um tanto ou quanto discutíveis. Talvez não o devêssemos ter feito, porque, naquele caso, ferimos o deslumbramento genuíno pela literatura do mestre e, diga-se o que se disser, uma obra pode ser lida e apreciada independentemente da vida do seu autor. Vem isto a propósito do grande Céline – o escritor – que, ao que se sabe, também não era, enquanto gente, flor que se cheirasse. E, contudo, quão absurdamente admirável é a sua Viagem ao Fim da Noite, um grito de arte numa noite que não podia ser mais escura do que a da Primeira Guerra Mundial, na qual tudo é podre, e fede, e está cheio de vómitos, sangue e merda. Esqueçamo-nos da vida de Louis Ferdinand, o homem, e concentremo-nos em Bardamu, a personagem, um soldado borrado de medo, assistindo à destruição e pilhagem de aldeias, à morte de soldados e civis, à frieza das altas patentes militares numa guerra de chacina, metido depois na África colonizada, e na América da indústria automóvel, e atirado, no fim, para um subúrbio da pátria a trabalhar num manicómio. A narração visceral desta vida, em linguagem certamente revolucionária para a época (ainda hoje rasga o ouvido e incomoda), tem de ser lida sem se pensar nos actos de Céline, mesmo que ele tenha dado os mesmos passos do protagonista e saiba, por isso, do que está a falar. E, com Borges ou qualquer outro, idem! Leiam-se as obras ignorando as vidas.

Letras e poemas

Quando em Setembro saiu a minha Poesia Reunida, muitos foram os que se espantaram por não ter incluído nesse volume as letras que tenho feito de há uns anos para cá, seja para fadistas – como Aldina Duarte ou Carlos do Carmo –, seja para intérpretes de outros géneros musicais – como António Zambujo ou mesmo a Naifa. Pois bem, aproveitando que hoje me vou ouvir cantar de novo pela Aldina na Culturgest (acompanhada ao piano pelo fantástico Júlio Resende), quero aqui frisar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa; que, no que respeita à poesia, ela – no meu caso – vem quando quer; e que as letras, pelo contrário, vêm quando quero eu. Se bem que estas últimas tenham algo que ver com o que eu escrevia na adolescência (quadras e sonetos com rima e métrica definidas), a verdade é que o espartilho da música me obriga a fazer delas uma história que possa ser entendida por todos enquanto o intérprete interpreta. Na poesia, a liberdade é maior, e o leitor pode ler muitas vezes o mesmo poema e voltar atrás quantas quiser, sem que isso prejudique a leitura e a compreensão (pode até beneficiá-las). Tenho também consciência de que uma letra malandra como Flagrante (que fiz a pensar na juventude e na personalidade de Zambujo) não tem a profundidade de um poema – quiçá porque este (no meu caso, de novo) venha sempre de um lugar misterioso que não domino, que está fora da minha alçada, que tem qualquer coisa de transcendente. Por isso já sabem: se me pedirem letras, eu faço. Se me pedirem poemas, não sei.

Mudam-se os tempos

Dou comigo a pensar que, quando era mais nova, me entusiasmava com alguns livros a ponto de, como um verdadeiro cruzado, obrigar toda a gente que conhecia a lê-los. Hoje, não sei se pela idade, se pela quantidade de livros lidos, já me é difícil encontrar uma obra que justifique tal empenho. Mesmo autores que, no passado, me encheram as medidas parecem escrever actualmente obras menos profundas ou empáticas (senti isto, recentemente, com o último romance de McEwan, por exemplo, mas calculo que o problema seja meu, e não do livro). Em todo o caso, acredito que, para além do «envelhecimento», haja um certo número de obras que, no seu tempo, foram fulcrais, mas que, num contexto e época diferentes, já pouco dizem aos leitores. Falo disto porque, recentemente, desencantei da estante do Manel um clássico que queria muito ler (e dele falarei noutro dia), inserido numa colecção da Editorial O Século que prometia «As Maiores Obras do Nosso Tempo». Só que esse «Nosso Tempo» já não é este tempo que agora é o nosso, porque da lista de livros publicados e a publicar na colecção constavam apenas cinco títulos que hoje ninguém lê (para não dizer que quase ninguém sabe sequer que existem). Senão, vejamos: Vitória Quatro e Meia, A Glória de Don Ramiro ou A Solteira dizem-vos alguma coisa? Ou, se preferirem, Enrique Larreta ou Louis Bromfield são escritores que se encontram nas vossas estantes? Senti-me um bocado ignorante, devo confessar, e só me aliviou saber que não era a única a não conseguir identificar senão Thomas Hardy entre os autores da lista. Talvez daqui a uns anos ninguém se lembre dos livros que, entusiasmadíssima, li na juventude e obriguei toda a gente a ler. Há sempre demasiados livros condenados ao esquecimento.

Estavas linda, Inês, posta em sossego

Sim, foi mais ou menos como no poema. Estava eu posta em sossego – se é que alguma vez consigo sossegar no meio desta crise e com o stress que carrego há anos – quando tocou o telefone. Devo desde já avisar que este post é muito egocêntrico e que, se não quiserem assistir à minha vaidade, podem parar já de o ler e regressar amanhã para algo mais interessante. Mas, como ia dizendo, tocou o telefone – e, por acaso, umas horas antes, uma alma misteriosa viera dizer-me que tinha dado nessa manhã o meu número a uma pessoa, que não podia dizer porquê, mas que era imperioso que eu atendesse as chamadas, ainda que não identificasse quem estivesse a ligar. Não percebi grande coisa, mas estava com muito trabalho e só voltei a lembrar-me do recado quando ouvi a campainha e nenhum nome apareceu a piscar no pequeno ecrã. Pois bem, a notícia era boa: o meu último livro de poesia ganhara o prémio literário da Fundação Inês de Castro – e por unanimidade!, o que dá alguma segurança. O júri, composto por nomes de peso – Fernando Guimarães, Frederico Lourenço, José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio e Pedro Mexia – parece ter engraçado com A Ideia do Fim e achado que a sua temática era suficientemente inesiana para merecer o galardão. Uma coisa boa, para variar, num ano triste como este – e a reedição da Poesia Reunida já está a caminho!


 


P.S. Desculpem-me aqueles que já me deram os parabéns, mas, assim que soube do prémio, escrevi o que vai acima e achei que não devia desperdiçar...

2013

Uma colega editora passou-me um artigo muito interessante – e assustador – sobre os números de 2012 em Espanha em matéria de vendas de livros (julgo que do jornal ABC). Fiquei deprimida: não só aquilo que safou o mercado é de um nível confrangedor (nem vale a pena citar títulos, porque são os mesmos em todo o lado) como já nem os livros médios (Isabel Allende ou Antonio Gala, por exemplo, que eram best sellers assumidos) ultrapassam os 2500 exemplares em três ou quatro meses – e estamos a falar de um país com cerca de 40 milhões de habitantes... Esta razia, se ainda cá não chegou, deve colher-nos em 2013 e mandar-nos ao tapete – e, além dos naturais constrangimentos (melhor nem pensar nisso), a situação aborrece-me especialmente porque, desde que comecei a trabalhar na LeYa, não tive nenhum ano que fosse literariamente tão rico como o que se avizinha. Pois é, pela minha mão, passam neste momento as páginas de muitos romances extraordinários – alguns de mulheres, para quebrar a rotina, e já não era sem tempo! E não consigo deixar de pensar na injustiça que é conseguir juntar tanto livro bom e tanto talento num só ano e saber que esse ano vai ser, infelizmente para quase toda a gente, de contenção, quando não de penúria. Quero, por isso, perdendo completamente a vergonha (mas é por uma boa causa), pedir que se guardem (ou que guardem uns trocos) para algumas obras que porei à vossa disposição em 2013 – para começar, O Ano Sabático, de João Tordo, que será o meu primeiro lançamento deste ano. Aos poucos, falarei de cada uma das obras em pormenor – e juro não juntar muitas no mesmo mês para vos facilitar a vida. Fiquem atentos.

Estratégias

Um poeta meu conhecido, que organizava sessões em escolas secundárias com o intuito de interessar os jovens pela poesia, queixava-se há tempos de que a miudagem gosta cada vez menos do género. Calculo que as obras selecionadas (e, sobretudo, as não selecionadas) pelos programas de ensino tenham alguma coisa a ver com isso, mas é possível que, nestes tempos modernos, a forma de fazer chegar o texto aos alunos tenha de fazer uso de diferentes estratégias. Lembro-me dos filhos de uma amiga que estudaram no Liceu Francês e que, aos treze anos, já tinham «papado» Racine, Corneille e Molière sem dor; o professor distribuía os papéis aos alunos durante a aula – e a leitura transformava-se em representação teatral, substituindo-se os actores a cada nova lição. Os jovens divertiam-se e, sem esforço, liam os maiores dramaturgos franceses. Agora, no Reino Unido, o governo decidiu criar um concurso nacional de declamação de poesia, chamado Poetry by Heart, para alunos com mais de 10 anos. O «campeonato» pretende interessar os estudantes pelo texto poético, transformando a leitura e memorização de poesia numa espécie de desafio. Cada poema – de um total de 130 escritos maioritariamente a partir do fim da Primeira Guerra Mundial – vem acompanhado de uma biografia do respectivo autor e há um site de Internet que inclui uma longa lista de textos possíveis. Os alunos que conseguirem passar as eliminatórias regionais irão então a Londres, onde a final terá lugar, ganhando desde logo um fim-de-semana integralmente pago. Original, não?

Respeitinho

Já aqui referi uma vez que, nas listas elaboradas em Dezembro pelos jornais, à guisa de balanço, dos livros do ano, constam quase sempre títulos que, efectivamente, não são desse ano, obras escritas e publicadas meio século antes, mas que, por virtude de uma nova tradução (assinada por alguém que imponha respeito) ou de uma reformulação (como a opção de juntar num só volume o que antes só estava disponível em vários), acabam por ganhar estatuto de novidade. Na lista que o suplemento «Actual» do Expresso publicou na semana passada sobre o que aí vem de peso em 2013 no que toca a livros, este fenómeno repete-se – e temos, por exemplo, destaque para Lolita, de Nobokov, que pertence ao catálogo da Teorema há muitos anos, mas agora sai noutra chancela com uma tradução de Margarida Vale de Gato. É simpático, se não completamente merecido, este respeito pelos grandes tradutores que, ao longo de muito tempo, nem sequer tinham direito ao seu nome no frontispício dos livros que traduziam, quase sempre remetidos à ficha técnica em caracteres minúsculos. Antes disso, porém, nos anos 40 ou 50 do século passado, quem traduzia era digno de consideração – e um dia destes, num velhinho livro que ando a ler, encontrei até o excessivo «Dr.» antecedendo o nome do senhor responsável pela tradução. O respeitinho é muito bonito.

Ficheiros secretos

Gostava de ser mosquinha para poder acompanhar as discussões dos jurados em determinados prémios literários – sobretudo quando não encontro razões claras para as suas escolhas. Imagino que as personalidades de uns tenham uma importância decisiva no sentido de voto de colegas mais influenciáveis e adorava assistir à argumentação que os leva a defender determinado livro em detrimento de outro. Recentemente, li que foram abertos os arquivos da Fundação Nobel relativos ao ano de 1962, no qual o contemplado com o galardão para a Literatura foi o norte-americano John Steinbeck, considerado por muitos académicos um escritor menor (tendo em conta nomes como Faulkner ou Hemingway, claro, porque a verdade é que, ao pé de certos escritores actuais, podíamos considerá-lo bastante maior). As «actas» revelaram então que Steinbeck só foi agraciado com o Nobel desse ano por falta de concorrência. Dá para acreditar? A selecção final incluía Karen Blixen (que morrera entretanto, e o prémio não pode ser póstumo) e o dramaturgo Jean Anouilh (mas a França tinha tido o Nobel dois anos antes); mas os verdadeiros adversários de Steinbeck eram Lawrence Durrell (que concluíra o Quarteto de Alexandria dois anos antes) e o poeta Robert Graves, ambos britânicos. Porém, quanto ao primeiro, alguns jurados consideraram dissuasivo da atribuição do prémio o erotismo manifesto do Quarteto; e, quanto ao segundo, ninguém queria premiar um poeta inglês enquanto Ezra Pound estivesse vivo (porque era claramente superior, mas não podia receber o prémio por causa das suas ligações ao fascismo italiano). Conta-se que o próprio Steinbeck, ao receber a notícia, terá comentado imediatamente que não merecia o Nobel; mas, pelos vistos, a sorte também protege os sensatos.

Como tornar-se espião

Quando comecei a ler o livro de que hoje falarei, senti, não por acaso, reminiscências de outro título do autor, O Inocente, cuja acção decorre em Berlim e envolve os preparativos, num subterrâneo, da construção do Muro entre as duas Alemanhas que, felizmente, veríamos ser desmantelado em 1989. Mel, de Ian McEwan, tem o mesmo mistério e o mesmo tom de secretismo, mas passa-se nos anos 70 do século passado numa Inglaterra que anda seriamente irritada com os primeiros avanços do IRA e a força da União Soviética. A protagonista do romance chama-se Serena Frome (não, Mel é o nome de uma operação secreta, não de uma pessoa ou dessa substância que as abelhas produzem) e é uma rapariga bonita, filha de um bispo de uma cidade pequena, que acaba por tirar o curso de Matemática na Universidade de Cambridge, embora goste sobretudo de literatura. Longe da alçada da família, depois de vários relacionamentos curtos e falhados e de muitos livros lidos, Serena envolve-se com o tutor de um ex-namorado, com quem aprende quase tudo e de quem se separa em circunstâncias bastante inesperadas. Mas é, no fundo, ainda com a sua «ajuda» que ingressa nos Serviços Secretos britânicos no fim da licenciatura, nos quais, afinal, as suas leituras lhe vão dar um jeitão. O resto – lamento muito – não se pode contar, porque, em matéria de espionagem, as surpresas são muitas a cada novo capítulo – e às vezes bastante desarmantes, diga-se de passagem. Embora prefira outros títulos deste autor, este Mel é tudo menos doce, mas deixa-nos a pensar na forma como são recrutados os espiões e no cinismo e na frieza com que determinadas operações são levadas a cabo pelos Serviços Secretos.

A minha quinta

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Já aqui falei mais de uma vez de um projecto maravilhoso que envolve poesia na cidade do Porto – e hoje é sobretudo aos leitores do Porto (e arredores) que dirijo este post. João Gesta, fantástico programador no Teatro do Campo Alegre, inventou há anos as Quintas de Leitura, que são dos mais bem-sucedidos eventos culturais que conheço, e – graças a deus – nunca mais desistiu delas. Uma quinta-feira por mês, há um espectáculo dedicado a um poeta com um livro lançado no ano anterior e, desta feita, coube-me a sorte de ser a convidada. No dia 31 de Janeiro, estarei, assim, no Teatro do Campo Alegre, numa sala com lotação para 300 pessoas (que medo...), a conversar com valter hugo mãe no início e, a seguir, a ler poemas ao lado de diseurs profissionais que tornam as nossas palavras mais bonitas. Mas não é tudo. As imagens projectadas no ecrã enquanto dura a conversa são belíssimas fotografias de Pedro Teixeira Neves que se casam com os poemas na perfeição – e haverá, ainda na primeira parte, um momento de guitarra e outro de dança. Depois do intervalo, quando eu já me tiver descontraído do sufoco que é estar em palco, Júlio Resende sentar-se-á ao piano ao lado da fadista Aldina Duarte, para quem já escrevi letras, e esse será seguramente um dos pontos altos da noite. As reservas de bilhetes já começaram (e diz-me João Gesta que mais de metade da sala está preenchida). Sei que prometi um lançamento no Porto da Poesia Reunida quando tivesse disponibilidade, mas haverá melhor lançamento do que este?


 


Morte certa

Os jornais têm sido unanimemente entusiásticos com um livro recente de uma jornalista, Susana Moreira Marques, que escreve habitualmente no Jornal de Negócios. Muito difícil de classificar – porque, sendo uma reportagem e um livro de viagens, compreende também momentos de grande literatura e testemunhos de evidente crueza – Agora e na hora da Nossa Morte – assim se chama a obra – «rouba» o título a um livro de poesia de José Agostinho Baptista para falar de uma visita a um grupo de doentes terminais em Trás-os-Montes, abrangidos por um programa de prestação de cuidados paliativos ao domicílio da responsabilidade da Fundação Calouste Gulbenkian. Osso duro de roer, porque estar tantos dias ao lado de pessoas que sabem a morte certa e próxima tem forçosamente de exigir muita coragem, muito estofo, e ao mesmo tempo de virar do avesso a cabeça de quem está vivo e com saúde, emprestando-lhe uma perspectiva da existência inteiramente nova. Fulgurantes, para mim, foram as primeiras quarenta e tal páginas – notas de viagem curtas, por vezes de apenas uma linha, cheias de poesia, profundidade e sentimento, que nos deixam adivinhar as aldeias agrestes com as suas neblinas e as famílias enlutadas mesmo antes de os seus queridos as deixarem. A seguir, vêm os relatos na primeira pessoa, como entrevistas não editadas, de doentes amaldiçoados ou de membros das suas famílias transformados pelas circunstâncias, unidos na desgraça, pesados de lembranças e culpas e desejosos de redenção. Por fim, as fotografias de André Cepeda dão rostos às vozes e mostram os lugares da tragédia que se avizinha. Não saímos os mesmos destas páginas.

Rei morto, rei posto

Cada vez é mais difícil ficar vivo depois de morto. Não, não me enganei. Aqui há dias comentava com um colega que, nos tempos que correm, se o escritor não estiver aí de carne e osso, as vendas dos seus livros decaem imediatamente. Como diz Vargas Llosa, vivemos cada vez mais numa civilização do espectáculo – e, por isso, estar morto pode ter custos elevados. Embora se reeditem cada vez mais clássicos, a verdade é que muitos dos autores desaparecidos correm o risco de deixar de ser lidos a curto prazo. E digo isto porque me contaram uma história que vem confirmar como a morte pode matar não só o autor, mas também a importância da obra que legou. Duas escolas portuguesas foram recentemente fundidas, dando origem a um moderníssimo edifício, cheio de comodidades que as velhas não tinham e com capacidade para albergar a totalidade dos alunos que as frequentavam. Essa escola recebeu o nome de António Damásio, português de quem todos, naturalmente, nos orgulhamos e que, se não me engano, está hoje mesmo em Portugal para abrilhantar uma sessão nesse novo edifício que carrega o seu nome. Nada de estranho, se não soubéssemos que um dos estabelecimentos de ensino «evaporados» se chamava, não por acaso, Escola Vitorino Nemésio, escritor português que é autor de um dos mais belos romances de sempre – Mau Tempo no Canal – e que, além de poeta e ficcionista, foi um grande professor e comunicador (os mais velhos leitores deste blogue recordar-se-ão seguramente do programa de TV Se Bem Me Lembro). Ora, não tendo nada contra Damásio, aborrece-me mesmo assim que deixemos de ter o nome de Nemésio numa escola lisboeta – e pergunto-me se isto não quer dizer que, por um lado, quem tomou a decisão não tem noção da importância do autor açoriano na literatura portuguesa e, por outro, que já quase ninguém o lê...

Coragem e desilusão

As férias também servem para nos pormos em dia com o cinema e, nesses dias livres que decorreram entre o Natal e o Ano Novo, vi ou revi alguns DVD com o Manel (Tabu e Aconteceu no Oeste, por exemplo), filmes na TV (Casablanca e West Side Story, entre outros) e até uma adaptação do romance de Tolstoi, Anna Karenina, numa sala de cinema de Lisboa. Tenho de dizer que, embora Leonard Bernstein fosse um músico genial, Amor sem Barreiras (a tradução de West Side Story) me pareceu irremediavelmente datado (mesmo que o conflito entre modernos Jets e Sharks subsista); mas, no geral, os filmes velhinhos continuam bem mais interessantes do que o novo. Tolstoi merecia, efectivamente, melhor. Mesmo que Keira Knightley seja muito bonita e esforçada, e exista na mise-en-scène uma aproximação ao teatro que é uma ideia muito bem arranjada e de um bom gosto a condizer com a época e a história, a verdade é que falta pathos a este filme e, à excepção de Jude Law, que é um marido perfeito, tudo carece da garra e da glória que genuinamente esperávamos. Bem sei que é de louvar a coragem de quem se mete com a literatura russa, mas, mesmo assim, foi uma desilusão.

O efeito dos prémios

Há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei um livro de J. M. Coetzee que era uma mistura de ficção e não-ficção; tomando a história inventada de uma conferencista que devia fazer uma palestra numa universidade sobre literatura, mas se debruçava inesperadamente sobre o tema dos direitos dos animais, o livro apresentava na íntegra a sua palestra fictícia, à qual agregava os comentários de quatro especialistas reais, entre os quais o filósofo Peter Singer. Era uma obra francamente original intitulada As Vidas dos Animais, mas vendeu-se muito mal na altura em que saiu, quiçá devido ao seu carácter híbrido. E, no entanto, por um bambúrrio de sorte, Coetzee venceu o Nobel da Literatura nesse ano e o livro em causa era um dos poucos da sua autoria disponíveis no mercado. Resultado: tornou-se um êxito de vendas em pouco mais de um mês... O anúncio dos prémios e a sua divulgação nos meios de comunicação social têm um efeito inegável nos consumidores, mesmo no que toca à literatura. Em 2011, publiquei o primeiro romance de Nuno Camarneiro, No Meu Peito não Cabem Pássaros, que vendeu moderadamente, como costuma acontecer a obras de estreia. Porém, assim que se soube que o autor vencera o Prémio LeYa com um inédito que há-de ver a luz lá para Março, as livrarias começaram a encomendar desenfreadamente o romance anterior, foi preciso reeditá-lo a correr, e na semana que antecedeu o Natal as vendas devem ter sido mais do que no período que decorreu entre a publicação e o anúncio do prémio. É verdade que Nuno Camarneiro foi entrevistado por todas as televisões e jornais nacionais e apareceu nos noticiários à hora do jantar, entrando na casa de muitos portugueses que se calhar não frequentam livrarias regularmente, mas estaria condenado a ser um escritor praticamente desconhecido se não tivesse ganho o prémio?

Ensaio geral

Tenho um grande respeito por uma série de jovens que adoram livros e se preocupam em divulgar coisas boas em termos culturais num país em que a televisão acha que serviço público são espectáculos de variedades absolutamente decadentes e concursos em que, para ganhar, basta um golpe de sorte. Uma dessas profissionais é Maria João Costa, da Rádio Renascença, que fez, entre outras coisas, uma belíssima reportagem sobre Agustina Bessa-Luís e apresenta há muito o programa Ensaio Geral. Os Booktailors, outros jovens que dedicam a vida ao livro e à edição, juntaram-se a este programa radiofónico para lhe darem uma vida diferente e, de há uns meses para cá, com a parceria da Livraria Férin, organizam a sua gravação ao vivo. Assim, uma vez por mês (na primeira sexta-feira), o Ensaio Geral não é apenas para os ouvintes da Renascença, mas também para quem queira deslocar-se à dita livraria com o objectivo de assistir à entrevista, ver o convidado de carne e osso e ainda, já depois de terminada a gravação, fazer as perguntas e intervenções que entenda convenientes. Hoje à tarde, pelas 18h30, serei eu a “actriz” deste ensaio geral. Vou enquanto poeta, mas nunca se sabe se não farei uma perninha como blogger... Estão todos convidados.

O livro do Lopes

Lopes foi, curiosamente, um dos apelidos usados por Ricardo Araújo Pereira para uma das suas figuras (o Lopes da Silva, lembram-se?), e é de novo um humorista, Luís Afonso (o autor de Bartoon), quem o vai buscar para nomear um "escritor pós-moderno" que, antes mesmo de publicar o livro que escreveu, chama um realizador para o adaptar ao cinema, esperando, afinal, que o filme acabe por fazer vender o livro e ambos lucrem com isso. O objecto é singular: chama-se O Comboio das Cinco e tem na sobrecapa um círculo recortado que deixa ver um relógio marcando as 12:10, o mesmo que, na capa, pertence à fotografia de uma estação ferroviária na qual um passageiro (o actor e diseur Pedro Lamares) aguarda, entediado, um comboio. Lá dentro está a história escrita pelo tal Lopes, propositadamente desconexa e desengraçada (o escritor pós-moderno não é especialmente dotado), entremeada com cartoons que reproduzem a conversa sobre a adaptação cinematográfica entre Lopes e o realizador, este bastante mais lúcido e naturalmente desconfiado em relação ao sucesso do empreendimento. O enredo envolve um casal desavindo, sempre às turras, que espera um comboio que talvez não venha (ele professor universitário, ela jornalista), mas o mais original é que Lopes assinala várias passagens do texto, identificando-as como de qualidade literária, de crítica social, de profundidade, de superioridade intelectual do narrador ou simplesmente como lugares-comuns. Não nego que prefiro o Luís Afonso das tiras diárias no jornal Público, mas vale a pena espreitar este livrinho que se lê em duas horas, nem que seja para reflectir no papel do escritor nos dias que correm.

O que ando a ler

Espero que tenham tido umas boas festas, mesmo que o clima do País não esteja para grandes alegrias. O melhor, contudo, é levantar a cabeça e encarar 2013 com coragem e, claro, bons livros, que esses não hão-de faltar. O que ando a ler devo-o a dois comentadores deste blogue, Anabela F. e Mário Rufino (desculpem se me esqueci de mais algum), que aqui o aconselharam; e é uma obra estranha, inclassificável e absolutamente imperdível (mas às vezes tão perturbadora que temos de fazer, aqui e ali, uma pausa para recuperar o fôlego). Trata-se de uma espécie de romance gráfico e autobiográfico, considerado um dos livros do ano pelo New York Times, que tem por subtítulo Uma Tragicomédia Familiar, embora a vertente comédia me tenha parecido bastante negra. A sua autora,  Alison Bechdel, é sobretudo conhecida como ilustradora e autora de BD, embora mantenha um diário desde os dez anos, que lhe serviu, de certa forma, para compor esta maravilha que é Fun Home, não traduzido na edição portuguesa porque este "fun" é também a abreviatura de "Funerária", uma vez que a personagem central - o pai de Alison - dirige o negócio de gatos pingados da família, ao mesmo tempo que lê Proust e Joyce, vive obcecado pela jardinagem e pela decoração da casa, é tremendamente exigente com os filhos e, não menos importante, se diverte às escondidas com rapazes, alguns deles menores... A descoberta da homossexualidade do pai por Alison, quase na mesma altura em que ela própria revela aos pais que é lésbica, acaba por criar uma teia de culpas e mal-entendidos no momento em que o progenitor é atropelado e não se chega a saber se foi acidente, se suicídio. E essa morte e a dúvida à sua volta são o motor para a narradora nos contar a vida da família Bechdel, na qual todos, afinal, parecem viver sozinhos (a capa dá, de resto, uma boa ilustração disso), carregados de mistérios, complexos e solidão. Um caso sério de literatura culta (as leituras do senhor Bechdel são de respeito) aos "quadradinhos". A não perder.