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A mostrar mensagens de maio, 2022

Poema contínuo

Não há dúvida de que há muito menos gente a ler poesia do que ficção, e este blogue é já uma prova disso, pois são muito mais os comentários, o interesse e as achegas quando falo de um romance do que quando menciono um livro de poesia (mesmo meu). O Manel um dia destes foi a uma sessão no Instituto Cervantes sobre Francisco Umbral (que é um verdadeiro poeta a escrever prosa) a propósito da saída entre nós de Mortal e Rosa, com tradução de Carlos Vaz Marques, pela editora Tinta-da-China; e veio de lá com uma história curiosa que o jornalista contou. Nos anos 1930, um poeta francês mandou alguns dos seus poemas para uma revista literária e, pouco depois, recebeu uma carta da direcção dessa revista elogiando os textos e dizendo que os publicaria. Como nesse tempo era hábito as revistas literárias em França pagarem os textos seleccionados, o poeta perguntou quanto iria ganhar com a publicação, ao que lhe responderam que... nada, pois pagavam apenas aos autores de prosa (como se um poema desse menos trabalho, enfim). Pois bem, como ele precisava mesmo de dinheiro, respondeu que então anulassem os versos e escrevessem tudo de seguida. Suponho que lhe pagaram, mas não sei o fim da história. De qualquer modo, é assim, tal qual, a prosa de Umbral, um «poema contínuo» deslumbrante.

Na Torre de Belém

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Em pleno século XVI – num período em que Portugal se cumpre como Império – a fortaleza da Torre de Belém torna-se palco de uma série de crimes insólitos e violentos. Acessível apenas por mar e aparentemente inviolável, o monumento é o símbolo máximo da expansão do reino, mas, nos seus pequenos detalhes, parece anunciar também a sua queda… António de Mello, o jovem Ouvidor da Casa do Cível encarregado de investigar as ocorrências e descobrir o autor dos homicídios, debater-se-á entre os que atribuem as mortes à sanha do demónio e os que, observando as afinidades das vítimas, crêem nos planos de uma seita que deplora as mudanças que se avizinham. Porém, em vez de soluções, encontrará cada vez mais obstáculos e a ideia de que, quanto mais avançar, mais tudo ficará na mesma. Num thriller absolutamente excepcional pelo qual perpassam muitas personagens históricas – de Pedro Nunes a Garcia de Orta ou Damião de Góis –, bem como temas tão diversos como a Cabala, a Inquisição, a Astrologia ou a corrupção e os actos praticados em nome de Deus, Luísa Beltrão constrói uma teia exemplar na qual o leitor se enredará tanto como o protagonista para concluir que o passado, ao contrário do que frequentemente se pratica, tem de ser compreendido, e não julgado. O lançamento é amanhã, na Biblioteca Palácio Galveias, às 18h30.


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Três mulheres

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Hoje, não vou estar por aqui pelo blogue e, quando estiverem a ler este post, estarei quiçá já guiando rumo ao Porto, onde acontece o lançamento do romance Três Mulheres no Beiral, de Susana Piedade, o terceiro livro que publico desta autora, que foi duas vezes finalista do Prémio LeYa. O primeiro tinha também que ver com três mulheres e chamava-se As Histórias Que não Se Contam; e o segundo, intitulado, O Lugar das Coisas Perdidas, debriçava-se sobre o desaparecimento de uma criança a caminho da escola e as desconfianças que, a partir de então, recaem sobre toda uma pequena comunidade. Deste que hoje se apresenta já aqui falei no blogue e até já reproduzi um excerto na sexta-feira passada que foi muito apreciado pela maioria dos Extraordinários. Se não conhecem esta autora, leiam-na, E, se estiverem pelo Porto esta tarde, apareçam nesta apresentação: seremos também três mulheres à mesa, o que tem a sua piada.


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Ai, o verão

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Vem aí o Verão, e o livro de que hoje falo celebra-o como na minha juventude o celebrava a série espanhola de televisão Verão Azul. Chama-se Os Reis do Mar e o seu autor é David Machado, que já antes nos tinha brindado com o maravilhoso Não Te Afastes, sobre um furacão que acaba por tornar amigos um rapaz e a cria de um rinoceronte fugida do Jardim Zoológico no meio da confusão. No novo romance, o jovem Samuel tem um único objetivo: encontrar a sua casa levada pelo furacão e voltar à vida que tinha com os pais na cidade. O seu amigo Rá contou-lhe as histórias sobre os Piratas do Multiverso e mil outras conspirações intergalácticas que parecem explicar tudo: o velho Benício e o seu tesouro, o veleiro que misteriosamente surge no horizonte, a sinistra criatura que habita na Ilha dos Lobos… e até o paradeiro da casa desaparecida. A jovem Kaya – que sonha ser jornalista – juntar-se-á a eles, ainda que a sua racionalidade nem sempre seja bem-vinda; mas os rapazes gostam ambos dela, e isso pode ser um problema...  Os Reis do Mar é uma empolgante aventura sobre o lugar – e a idade – onde a imaginação e o real se encontram. A ler, por crianças e adultos! A capa e as ilustrações são do magnífico Alex Gozblau.


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Aramburu

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Numas férias de há talvez quatro anos, carreguei para a praia diariamente um calhamaço pesadinho. Tratava-se de Pátria, do escritor basco Fernando Aramburu, que trata da divisão de duas famílias muito chegadas por causa da ETA e do homicídio de um dos homens, quiçá pelo filho do outro. As personagens (pais, mãe e filhos) são realmente um primor de desenho, desde o pequeno empresário que vem a casa almoçar e dormir a sesta até à jovem que tem um AVC incapacitante, mas escreve num iPad aos parentes, ou o seu irmão que se junta à organização terrorista. Mais tarde vi a série, basca, muito fiel ao original; e gostei, embora na minha cabeça os rostos das figuras fossem bastante diferentes. Hoje Aramburu estará em Portugal para falar desse livro, claro, que marcou decisivamente a sua carreira, mas sobretudo da sua obra mais recente em Portugal, O Regresso dos Andorinhões, traduzido por Cristina Rodriguez e Artur Guerra. A conversa tem lugar no Cervantes às 18h30 e terá por moderadora Ana Daniela Soares. Imperdível, parece-me.


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As outras artes

Costumo falar de livros e literatura nesta sala de estar, pois entendo que é esse o denominador comum que une os que cá vêm. Contudo, no último sábado consegui sair um pouco da casca e vi duas coisas que recomendo. A primeira é uma exposição do pintor Nuno Barreto, da Escola de Belas Artes do Porto, que viveu muitos anos em Macau antes de regressar à pátria, onde, de resto, morreu ainda novo. Não sei se foi a distância que o distanciou também de mim, se apenas a minha ignorância em termos de pintura portuguesa, pois não conhecia a obra deste artista; mas é uma belíssima exposição patente no Museu do Oriente, em Lisboa, que aconselho realmente entusiasmada. Depois, na sequência da visita a Lisboa da minha autora georgiana, também cineasta, soube que um dos seus filmes, My Happy Family, que assina com o marido, estava disponível na Netflix e fui vê-lo. Muito bom. É a história de uma mulher de meia idade, professora, que se farta da família chata que tem (os pais, o marido, os dois filhos já adultos...) e resolve fazer as malas, procurar um apartamento e deixar toda a gente... de boca aberta, pois a Geórgia é uma sociedade eminentemente patriarcal. Há muito quem pense que ela tem uma razão para abandonar o marido (e tem, mas nem ela sabe quando sai de casa). Um filme muito interessante e bem escrito que vale a pena ver.

Os filhos (maus) dos escritores

Quando se fala da família dos escritores, quem normalmente vem à baila são as viúvas... Nem sempre, ainda por cima, pelas melhores razões, já que algumas delas dependem dos direitos de autor dos falecidos para viver e gerem-nos ao tostão como quem conta os trocos na mercearia, para garantir que não são enganadas. Quanto mais sucesso têm os autores (como Jorge Luis Borges, só para dar um exemplo), piores costumam ser as viúvas (a dele parece que não é uma pessoa fácil). Mas hoje falo dos filhos dos escritores, que são raramente mencionados, a menos, evidentemente, que se tornem também eles próprios membros do ofício (há vários). E falo disto porque, há muitos anos, conheci uma filha de Paul Auster que era cantora, Sophie, embora nessa altura ainda estivesse a dar os seus primeiros passos na carreira. Não sabia que o escritor tinha mais filhos, mas a imprensa revelou recentemente que tinha um filho mais velho. Este filho foi, imaginem, acusado de matar a filha de dez meses com uma overdose de heroína, antes de ter sido ele próprio encontrado morto com uma overdose no meio da rua. Caramba! Conheço alguns escritores que tiveram filhos difíceis e problemáticos, mas nunca pensei que a um autor como Auster acontecesse uma tragédia destas. A realidade, pelos vistos, superou a sua ficção...

Excerto da Quinzena

No começo da primavera, Agustina saiu de casa a arrastar as pantufas e, cheia de tremeliques, bateu à porta da amiga para lhe contar que o senhorio vendera o imóvel e os novos proprietários queriam despejá-la à pressa. Não faltavam imobiliárias, sociedades e Fundos a comprarem casas e lojas a granel por aquelas bandas. Mas uns levavam as investidas ao limite. Primeiro, deixaram-lhe um recado na caixa do correio. Depois, voltaram com promessas e papéis, garantindo‑lhe um apartamento jeitoso não muito longe, mais aconchegante, que era uma forma de dizer assim para o pequeno, nem os móveis lá cabiam; mas, quando ela recusou, trocaram logo as simpatias por ameaças e incumbiram dois brutamontes de lhe passar a mensagem. Quando lhe cortaram a eletricidade para a amedrontar, andou à luz de velas e lamparinas a óleo, sempre com medo de pegar fogo à casa, sobressaltando-se só de ouvir o batente ou a serenata dos gatos esfomeados à porta.


Assim nascia o terror.


[...]


Nem Piedade se livrou da praga.


Começou também com uns bilhetinhos metidos na caixa de correio, brotavam como cogumelos venenosos. Depois do primeiro, ela apanhava-os e deitava-os ao lixo sem os ler. Talvez os intrusos julgassem que a vergavam facilmente; naquela idade, as pessoas não precisavam de muito para morrer, e para eles tanto dava, mais velho, menos velho. Uma vez bateram-lhe à porta com uma conversa fiada de vendedores de Bíblias, como quem anuncia a chegada do Salvador, mas Piedade estava de sobreaviso e percebeu logo ao que iam. Fez-se de desentendida e despachou-os em três tempos, porque, ao contrário da maior parte dos vizinhos, arrendatários tratados abaixo de cão, a casa pertencia-lhe. Julgou que o assunto ficara arrumado, mas eles voltaram. No começo, sozinhos, de mãos vazias, como se lá tivessem passado por acaso,


– Bom dia, minha senhora, como vai?


cheios de salamaleques, só os olhos a espreitarem pelo postigo entristecido, sorrisos desafinados. Pouco depois, sobrevoavam a casa como abutres; as caras mudavam, mas o paleio era o mesmo. Vinham aos pares ou em grupo, fatos e gravatas com voz grossa, carregando papéis numa pastinha polida, uma caneta a jeito para o caso de a persuadirem com dois dedos de conversa, apontando-lhe as linhas com uma cruz como se ela fosse parva.


– É só assinar.


Já sem se esforçarem tanto por agradar, retocando os argumentos para parecerem diferentes:


– Diga lá, minha senhora, para que quer este casarão na sua idade?


 


Susana Piedade, Três Mulheres num Beiral

Ouvir

Tenho reparado ao longo da minha vida, em vários festivais e espectáculos, que muita gente que diz não gostar de ler poesia gosta, efectivamente, de ouvir ler poesia. A sorte para nós, que amamos a poesia, é haver muitíssima gente por esse país fora que a sabe dizer bem, porque, claro, se trata de grandes leitores , pessoas que a lêem há muito para si e para os outros, verdadeiros cultores desse género literário. No próximo dia 25, numa sessão intitulada Viagem ao Silêncio, o poeta e diseur José Anjos, na companhia de Paula Cortes (leitores), e com o acompanhamento musical de Alexandre Cortez (baixo) e Filipe Valentiom (piano), mostrarão no El Corte Inglés (às 18h30) como é bela a obra poética de Miguel Torga, esse criador que, como escreveu o grande Eduardo Lourenço, «podia dizer que escrevia como lavrava a terra». Com uma voz singular, a sua poesia faz a «apologia da natureza», tão esquecida da poesia contemporânea. E é bom que os jovens, como José Anjos, não se esqueçam destes poetas desaparecidos. Obrigada.

A vida de Pessoa

A personalidade fascinante de Fernando Pessoa, escrevendo por muito mais do que as quatro mãos que os miúdos aprendem na Escola Secundária, atraiu um número bastante grande de académicos para o estudo da sua obra, quer em Portugal, quer no estrangeiro, onde professores e escritores se apaixonaram claramente pela diversidade, pelo volume e pela maravilha dos textos saídos de arcas e mais arcas de tantos em tantos anos. Patrick Quiller, por exemplo, foi um dos responsáveis pela difusão de Pessoa em França, e Antonio Tabucchi, todos o saberão, mostrou-a aos leitores italianos. A edição da obra pessoana em Portugal tem estado, de resto, a cargo de dois investigadores estrangeiros: o colombiano Jerónimo Pizarro, que dirige a colecção na editora Tinta-da-China e ensina Pessoa na Universidade dos Andes, em Bogotá; e o norte-americano Richard Zenith, que coordena a colecção da editora Assírio & Alvim. Era a este pessoano, aliás, que eu queria chegar hoje, pois acaba de ser publicada o seu Pessoa: Uma Biografia, publicado pela Quetzal, um livro que esteve na final do Prémio Pulitzer e do qual  António Damásio disse ser «a equilibrada união entre o génio literário de Fernando Pessoa e os poderes analíticos do seu biógrafo». Muito curiosa com estas mais de mil páginas... para ir lendo e entremeando com outras coisas mais maneirinhas.

Lançamentos

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Hoje e amanhã são dias loucos, pois é bastante raro ter dois lançamentos em dois dias seguidos, mas desta vez, porque lancei vários livros no mesmo mês, aconteceu, e agora não há volta a dar. Hoje à tarde, no Centro Cultural de Cabo Verde, como já na semana passada anunciei, terá lugar a apresentação do romance de Mário Lúcio Sousa sobre Amílcar Cabral, A Última Lua de Homem Grande, que estará a cargo de Clara Seabra, José Hopffer e Julião Soares Sousa. Já no dia seguinte será a vez de o jornalista Luís Ricardo Duarte apresentar o magnífico Onde as Peras Caem, da escritora e realizadora georgiana radicada em Berlim Nana Ekvtimishvili, romance nomeado para o Man Booker International Prize e traduzido do inglês por Maria do Carmo Figueira. Este lançamento conta com o apoio da Embaixada da Geórgia e também a presença da autora que já esteve mais de uma vez em Portugal. Deixo, pois, os convites para que compareçam. Serão muito bem-vindos.


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Em forma de assim

Apesar de muitos dos nossos cineastas adaptarem obras literárias (Luís Filipe Rocha está neste momento a rodar O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, por exemplo), João Botelho é talvez o realizador português mais obviamente ligado à nossa literatura. Não podemos esquecer que o seu percurso, desde os anos 1970, com Conversa Acabada (sobre a amizade que ligava Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), incluiu numerosos filmes rodados a partir de grandes livros da literatura portuguesa, como o Filme do Desassossego, Os Maias ou Peregrinação. Agora, Botelho foi, porém, ainda mais longe e partiu da biografia de Alexandre O'Neill escrita por Maria Antónia Oliveira para rodar um filme sobre esse poeta maior da literatura portuguesa que foi também um grande publicitário. Ainda não fui ver o recém-estreado trabalho, mas os pequenos excertos que a TSF tem transmitido antes dos noticiários a anunciar este Um Filme em Forma de Assim indiciam algo muito interessante e remetem imediatamente para o nosso O'Neill no seu melhor. Vamos ver?

Prémio LeYa

À beirinha do fim-de-semana, recordo que hoje o Prémio LeYa vai ser entregue a José Carlos Barros pelo seu romance As Pessoas Invisíveis no Museu da Cidade de Lisboa, às 18h00. O romance começa nos anos 1940, quando um alemão se torna amigo de um português por alturas da exploração de volfrâmio, e termina nos dias que se seguem à morte de Sá Carneiro. Fala de poder, de cura, de invisibilidade, de como uma pessoa aparentemente boa acaba cometendo um crime que a leva para África, onde brancos corruptos continuam a praticar a escravatura nas roças muito depois da sua abolição e fazem dele um homem-de-mão. Fala do campo, dos montes e das suas plantas medicinais e de uma santinha que alimenta os tios com os seus milagres até ao dia em que... Fala de um caderno encontrado muitos anos depois de ter sido escrito, em que se refere um segredo que esteve guardado a sete chaves e que provoca tragédias depois de revelado. É um livro mesmo muito bom e bonito, de um romancista e poeta que acha sempre as palavras certas e que já tinha sido finalista do prémio LeYa há uns bons aninhos com um romance muito curioso chamado Um Amigo para o Inverno. José Carlos Barros é para ler e guardar. Se quiserem conhecê-lo, apareçam mais logo.

Romance biográfico

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O escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, vencedor de muitos prémios literários com as obras anteriores (O Novíssimo Testamento, Biografia do Língua, O Diabo Foi Meu Padeiro) tornou-se finalista do Prémio LeYa em 2021 com A Última Lua de Homem Grande, sobre um dos vinte maiores líderes da história da Humanidade: Amílcar Cabral. Com uma vida cheia, mas apenas 49 anos e tanto por fazer, Cabral regressa a casa certa noite para encontrar a morte. Sem poder fugir aos tiros, cai junto do automóvel e, observando a Lua cheia, reconstitui, em prodigiosas regressões, todos os passos da sua vida pública e privada para compreender quem o terá assassinado e porquê.  Usando a terceira pessoa num original e inusitado monólogo, aquele a quem os seus chamavam «Homem Grande» revisita a infância, a relação com a mãe, a vida de estudante, os amores, as traições, o sonho da independência para as suas duas pátrias – Guiné e Cabo Verde – e põe a nu o absurdo de uma guerra, os meandros dos interesses internacionais e os desmandos do poder em África. A não perder. (O lançamento será no dia 17 no Centro Cultural de Cabo Verde.)


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Coleccionar

Quase todos nós fomos, em algum momento, coleccionadores. Eu fiz colecção de postais aos doze anos, mas há quem tenha preferido cromos, selos, moedas, canetas, paliteiros, caixinhas ou outra coisa qualquer. Há um belíssimo livro de Edmund de Waal, oleiro e ceramista, chamado A Lebre de Olhos de Âmbar, que se debruça justamente sobre uma colecção de pequenas peças japonesas (netsuke), muito em voga no final do século XIX, como, aliás, outras «japonesices». De Waal herdou esta colecção de um tio-avô e observa-a com a maior das atenções: as peças variam muito, incluindo animais, pessoas exercendo ofícios, frutos e até cenas eróticas; as pecinhas cabem numa mão fechada e têm um certo ar de talismãs. O autor resolve então ir atrás dos anteriores proprietários e regressa a uma riquíssima família de judeus, os Ephrussi, cultos e amigos dos impressionistas, que viviam entre Viena e Paris e se tornaram grandes coleccionadores de arte, nomedamente um dos irmãos, Charles, que privou com os Goncourt, e foi o primeiro proprietário dos netsuke. Vale muito a pena ler este delicioso livro premiado sobre tempos que não voltam e pessoas que também já não há. Em 5ª edição, creio, o que para uma não-ficção sobre arte está bem acima das expectativas.

Memória e especulação

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Em plena Baixa do Porto há uma rua icónica com uma fiada de prédios, onde os modos tripeiros convivem com a música dos artistas, a sinfonia das obras, a vozearia dos bares e os bandos de turistas curiosos. É numa dessas casas que vive a octogenária Piedade desde que se lembra e onde tem amigas de longa data. Mas o terror instala-se quando – ofuscados pelo potencial deste Porto Antigo – os proprietários e investidores não olham a meios para se livrarem dos velhos inquilinos. Neste cenário tenso e desumano desenrola-se a história de Três Mulheres no Beiral, que é também a de uma família reunida por força das circunstâncias, mas dividida por sentimentos e interesses: Piedade, que trata a casa como gente; o filho incapaz de se impor e tomar decisões; a neta que regressa ao lugar onde foi criada para reviver episódios marcantes do seu passado; e o neto egocêntrico e conflituoso que sonha ser rico desde criança e a quem a venda da casa só pode agradar. Com personagens extremamente bem desenhadas num confronto familiar que trará ao de cima segredos que se pensavam esquecidos e enterrados, a autora, Susana Piedade, mantém tudo em aberto até ao final neste texto notável e de rara humanidade que foi finalista do Prémio LeYa em 2021. Sai hoje.


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Coisas simples e tão boas

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Há uns tempos «encontrei-me» com um ilustrador e autor de literatura infantil galego por causa de um livro de David Machado sobre o alfabeto e, afinal, acabámos a trabalhar juntos em vários projectos (e até o visitei na Corunha, uma vez que lá fui dizer poesia). Ele assina David Pintor, tem um traço perfeitamente identificável e já ilustrou inclusivamente um livro sobre Lisboa numa colecção sobre cidades. Mas agora escreveu e desenhou aquilo a que eu chamaria uma obra-prima de simplicidade e inteligência, livro que toda a gente adorará folhear: A Minha Árvore Secreta. Não só as páginas duplas são de tirar o fôlego, mas a mensagem (chamemos-lhe assim para simplificar) é incrivelmente importante no âmbito da salvação do planeta e da preservação da natureza. E ao mesmo tempo é um livro delicioso sobre as relações familiares, as amizades, os tempos livres, a alegria, a desilusão (e, claro, sobre como nunca devemos ficar de braços cruzados perante as contrariedades). Eu gostaria de ver uma peça de teatro baseada neste livro, e que os pais todos levassem os meninos a vê-la. Como ainda não existe, leiam e mostrem este livro aos pequeninos e aos grandes. Todos adorarão, asseguro.


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Excerto da Quinzena

Nesta casa, em que as mulheres vivem juntas, de um lado, e os homens do outro, construída em volta de um grande pátio central, Annette fica pela primeira vez com uma ideia pálida, ou melhor, bem garrida, de como vivem as famílias árabes, quem ocupa que lugar na comunidade e onde se situam os limites que demarcam os movimentos de cada um. Entra num mundo desconhecido e não se arroga o direito de julgar. Ou será que sim? Julgar, não, não lhe chamaria assim, mas não consegue evitar não pensar absolutamente nada. Quando vê a cara triste da belíssima Aïcha, que não tem filhos e por isso vai ter uma jovem rival na família. Durante as semanas da sua permanênca, ocupa, na qualidade de francesa, doutora, e devido ao empenhamento da FLN, um papel híbrido entre homem e mulher. É tratada pelas mulheres como uma mulher um tanto bizarra e, pelos homens, como um homem um tanto bizarro. É a única mulher autorizada a comer com eles se quiser; é a única mulher autorizada a sentar-se junto ao pai, debaixo da figueira, ao pé da qual pastam algumas ovelhas da família. Estará já a pensar no que será o futuro? [...]


Anne Weber, Annette, Epopeia de Uma Heroína (Prémio do Livro Alemão),


tradução de Helena Topa

Medos e mais medos?

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Aqui há tempos, encontrei-me com a cantora e compositora Luísa Sobral por causa de um podcast que ela tinha sobre letristas. E, maravilha das maravilhas, desse contacto nasceu um belíssimo livro para crianças que publicámos em Abril. A Luísa tinha-o todo escrito, e em verso, como uma canção, e até já tinha algumas das ilustrações feitas por Camila Beirão, que é uma ilustradora com um grande talento e muito bom gosto. O livro, chamado Quando a Porta Fica Aberta, fala de uma menina que, quando a mãe vem apagar-lhe a luz, para ela dormir, quer que se fechem as portas do armário, não vá sair de lá de dentro algum monstro ou coisa esquisita. Mas... pelo contrário! Dentro do armário, como a mãe da Emília explicará, sucedem-se as festas mais espectaculares e, por isso, não há nada a temer. Lindo e inteligente, este é um livro que até os adultos gostam; e, se tiverem jeito para a música, podem tentar cantar a história, e não só contar, aos mais pequeninos! O lançamento, integrado no festival 5L, será na manhã de sábado, às 11h, na Ler Devagar. Toca a levar a criançada, que as autoras têm muitas surpresas!


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5L

E não é que o Festival 5L voltou a ser presencial? Maravilha. Até dia 8, há actividades por essa Lisboa fora para dar e vender (e desculpem não ter avisado antes, já estamos em cima do acontecimento, hoje à tarde o certame abre com uma conversa entre Leïla Slimani e Dulce Maria Cardoso sobre o silêncio e a escrita, com a moderação de Tânia Ganho, escritora também ela e tradutora). Mas haverá mais debates, filmes, performances e lançamentos de livros nesta que é a terceira edição do 5L, festival organizado pela Câmara Municipal de Lisboa com a curadoria de José Pinho, o livreiro empenhado e criativo que fez o FOLIO e encheu de livrarias a vila de Óbidos. Este ano, o 5L associou-se à Temporada Cruzada Portugal-França, pelo que teremos connosco vários autores franceses, entre eles o poeta Jean-Pierre Siméon, que estará numa mesa com Nuno Júdice. As coisas passam-se em vários locais, desde o foyer do São Carlos (onde eu própria vou falar do que é descobrir novos talentos com o editor da Companhia das Ilhas, Carlos Machado, no dia 8 às 12h) até ao Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, passando pela Livraria Ler Devagar e muitos outros espaços. Consulte o programa e vá ouvir falar de livros!

Uma questão de invisibilidade

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É obra quando um livro, como uma espécie de corredor de fundo, consegue furar por entre outros setecentos e tal livros e cortar a meta com distinção e levar o Prémio LeYa. Foi o que aconteceu, de resto, com As Pessoas Invisíveis, de José Carlos Barros, conhecido também como poeta, mas já finalista deste mesmo prémio há uns anos com Um Amigo para o Inverno, que recomendo vivamente. As Pessoas Invisíveis é um romance admirável que fala de vários tipos de invisibilidade. Mas fala também de jazidas de ouro perdidas em terrenos anónimos, da morte de Sá Carneiro, de uma amizade insuspeita entre um provinciano e um engenheiro alemão, de trabalho escravo em São Tomé, de curandeiros e santinhas, de um homem que anda a apontar tudo num caderninho para Salazar saber e, sobretudo, de alguém que descobre ter vários poderes, entre os quais o de ser invisível, que é também o de desaparecer no melhor da história. O Prémio LeYa, anunciado em Dezembro, vai ser entregue no próximo dia 13, e a apresentação estará a cargo de Rodrigo Guedes de Carvalho numa sessão em que o Presidente da República e o Ministro da Cultura nos honrarão com a sua presença. Apareça!


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O que ando a ler

Estou a ler várias coisas, algumas no trabalho, outras em casa. Mas, como ia viajar e não queria ir demasiado carregada, levei o mais recente livro de Leïla Slimani publicado em Portugal, com tradução de Isabel Castro Silva, intitulado O Perfume das Flores à Noite. Não é, como os seus livros anteriores, uma ficção, mas sim um texto autobiográfico sobre a necessidade de o escritor se encerrar (a disciplina de fugir da vida, dos encontros, dos amigos, é profundamente necessária a quem quer, de facto, tornar-se escritor); e, ao mesmo tempo, a experiência que a autora aceitou de, durante uma noite, ficar fechada num museu em Veneza (claro que lá estava o guarda da noite, mas isso não conta), onde pode circular livremente por todas as salas ou apenas dormir numa caminha de campanha que alguém lá pôs. Lemos, pois, o resultado das suas deambulações e pensamentos durante esse período (muitos dos quais reminiscências das suas leituras, e também aqui é impressionante ver a bagagem literária de uma escritora ainda jovem como Slimani). Gostei especialmente da parte em que prevarica e quase mete a cabeça na retrete para dar umas passas num cigarro evitando os alarmes do museu, mas ainda me falta um terço para chegar ao final. O perfume das flores à noite prende-se com uma memória de adolescência associada à ideia de liberdade, que não é o contrário de encerramento, embora possa parecer. Vale bem a pena ler.