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A mostrar mensagens de outubro, 2018

Pensar palavras

Ando o dia inteiro de roda de palavras, e um dia destes, ao ler um e-mail de um agente espanhol, olhei para a palavra castelhana «enlace» (que, no contexto, seria aquilo a que chamamos link, adoptando a palavra inglesa, mas que é «ligação, enlace») e perguntei-me porque seria que o «desenlace» de um romance se chama «desenlace», se é o momento em que todas as pontas se atam, e não aquele em que se desatam ou desligam… Não tendo chegado a nenhuma conclusão (a verdade é que também não dei uma importância desmedida ao assunto), encontrei pouco depois num texto os verbos «fincar» e «vincar» separados por meia dúzia de linhas e logo me pareceu que, quer porque as palavras fossem demasiado parecidas (a única diferença está na consoante inicial, surda num caso, sonora no outro) quer porque as acções carregassem ambas uma certa dose de força imprimida (para enterrar/cravar, para marcar/fazer o vinco), ambas deveriam ter a mesma origem. Mas não: ao que parece, «fincar» está mais ligado a «ficar» (ficar com muita força?); e de «vincar», enfim, pouco se sabe, o Houaiss diz que a palavra «vinco» tem origem obscura, embora já existisse no século XIII. Nada feito, às vezes o que parece não é.

Magazine

Recebi há poucos dias o Magazine, uma nova revista (ou jornal, não sei bem defini-lo), produzida pelo El Corte Inglés, que inclui a programação de actividades do bimestre Novembro-Dezembro no seu espaço cultural (Âmbito Cultural, como lhe chamam). A publicação vai no seu segundo número e existe desde que se fizeram obras no sétimo andar do El Corte Inglés de Lisboa e se criaram salas novas que, ao que parece, servirão melhor quem ali quer fazer lançamentos, por exemplo, mas que também são muito úteis para um sem-número de cursos e actividades que, ao ler a revista, concluo valerem muito a pena. Se já estivesse reformada, digo-vos que iria a muitas destas sessões (aprender até morrer), entre as quais os workshops de História do Cinema e de História da Ciência (António-Pedro Vasconcelos e Carlos Fiolhais são os mestres) e mesmo à Evocação de Herberto Helder por Diana Pimentel (mas nessa data estou a ir para a Feira do Livro de Guadalajara, infelizmente, e não poderei ir). Já passaria melhor sem a sessão de doces conventuais (não sirvo para os comer, menos ainda para os cozinhar) ou a lição de António Valdemar sobre o Natal na cultura portuguesa (mas apenas porque o Natal me deixa sempre de rastos psicologicamente). De qualquer modo, aconselho os Extraordinários a consultarem o Magazine (quiçá podem recolhê-lo na loja ou ver a versão digital no site do ECI) e, podendo, a frequentar alguns dos cursos propostos (todos gratuitos!) para Lisboa e Gaia.

Vida moderna

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Quando leio esta expressão, seja num site, num jornal ou mesmo num livro, a primeira imagem que me vem à cabeça é a do senhor Hulot perdido na confusão do repuxo eléctrico de uma casa nova-rica, num filme de Jacques Tati, confundindo uma pedra com um nenúfar e metendo a pata no laguinho. E a seguir vem-me à lembrança Tempos Modernos, filme de Chaplin, com o cómico Charlot enredado nos tapetes rolantes de uma linha de montagem, fazendo-nos rir até às lágrimas. Quem diz, porém, que os portugueses riem mais da tragédia do que da felicidade é Maria Filomena Mónica num livro sobre as mudanças a que foi assistindo em Portugal ao longo da sua vida e que também dá pelo título de Vida Moderna. Política, sexualidade, educação, burocracia, televisões – todos estes temas foram tratados pela socióloga e investigadora em artigos vários publicados entre 1985 e 1996, escritos na primeira pessoa e agora reunidos e arrumados por Vasco Rosa num volume que retrata esses anos e mostra bem como são os portugueses. Virá depois um segundo volume? Veremos. Para já, é isto. Uma edição da Quetzal.


 


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Crónica e Lello

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Hoje é dia de crónica e aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-out-2018/interior/adeus-futuro-um-classico-10021861.html


 


Para quem estiver pelo Porto, a Livraria Lello escolhe-me como autora por um mês; e, além de expor muito bem os meus livrinhos, organiza amanhã à noite uma conversa em que estará também a fadista Patrícia Costa e o jornalista cultural Nuno Pacheco. Na ocasião, será estreado o Fado da Lello, escrito expressamente para a mais linda livraria do mundo, com letra minha e música e interpretação de Patrícia Costa. No domingo de manhã estarei de novo na Lello com crianças e uma «fada» que contará a história de Amália Rodrigues a partir da biografia que escrevi. A ideia de tudo isto é da professora Maria Bochicchio. Apareçam!


 


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Papel para sempre

Em 2008, um estudo que envolveu mais de mil editores de todo o mundo, «os maiores gurus da feira de Frankfurt», como refere o jornal El Pais, concluiu que, precisamente dez anos depois, o livro electrónico destronaria o livro em papel e este acabaria por morrer. Mas, afinal, a Feira do Livro de Frankfurt de 2018 fechou há uma semana e estava cheiinha de livros em papel. E não como relíquias, mas como o centro do próprio negócio. O vaticínio era falso e precipitado e, depois de um início bastante optimista do e-book, veio um inesperado retrocesso: o negócio do livro electrónico nunca ultrapassa 10% do mercado (na Alemanha, 8%, e é dos países onde se vendem mais livros desse tipo). Apesar de ter várias vantagens (podemos levar connosco 500 livros electrónicos para uma viagem – e isso explica porque grande parte dos e-books de literatura são comprados sobretudo nos meses de férias), os leitores ainda acham que o livro digial pouco mais é do que uma reprodução do livro em papel, e a falta de novidade conduziu certamente à diminuição de compras, além de que, por exemplo, uma boa percentagem de compradores de e-books em Inglaterra (entre os 18 e os 34 anos), quando gostam muito de um livro que leram no e-reader, vão comprá-lo a seguir em papel. Não sei o que vaticinaram há trinta anos os gurus da Feira de Frankfurt sobre os audiolivros. Esses continuam cá, também sem grande expressão, embora em certos países se vendam muito a pessoas que fazem longas viagens de carro entre a casa e o emprego e preferem ouvir um livro a ouvir rádio.

Conhecer Torga

Um dos primeiros autores que li com paixão, ainda na adolescência, foi Miguel Torga – que, segundo se diz, foi o primeiro candidato sério ao Prémio Nobel da Literatura (português, entenda-se). Lembro-me até hoje de muitos dos seus contos lidos ainda nos anos 1970, quer de Os Bichos, quer de Contos da Montanha ou Novos Contos da Montanha. A Dom Quixote está há cerca de vinte anos a publicar a sua obra (além dos contos, os diários, a poesia, o teatro e os ensaios) e recentemente deu à estampa uma nova edição da fotobiografia do mestre escrita pela sua filha, Clara Rocha, professora na Universidade Nova de Lisboa e ensaísta. Miguel Torga – Fotobiografia tem prefácio de Manuel Alegre e está organizada cronologicamente, incluindo mais de cem fotografias do autor e muitos outros documentos, entre manuscritos e cartas, páginas do dossier da PIDE sobre Torga e outras imagens, algumas de lugares que amou profundamente, como Sabrosa, onde hoje há um museu que lhe é dedicado com um projecto arquitectónico maravilhoso de Souto Moura. Para conhecer Torga dentro e fora dos livros.


 

O autor português

Uma equipa de investigadores do ISCSP-Lisboa, coordenada pelo académico Paulo Castro Seixas, apresentará hoje às 18h00, no Auditório Frederico de Freitas (na Sociedade Portuguesa de Autores, que fez a encomenda), um estudo de duas centenas de páginas que tenta traçar o perfil do autor português. Este Perfil do Autor Português contém, ao que se anuncia, dados fundamentais para sabermos quem são os nossos criadores (imagino que o «autor» aqui seja num sentido mais lato e inclua pintores, compositores, fotógrafos...), o que fazem na vida além de criar, quais os graus de formação académica que possuem, como estão geograficamente distribuídos pelo País, como é a proporção homens/mulheres e muitas outras coisas que, lendo o estudo, se apurarão. Além de José Jorge Letria, presidente da SPA, que abrirá a sessão como anfitrião, e do já mencionado coordenador do estudo, falará o professor Manuel Meirinho, presidente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Fico curiosa com os resultados desta investigação, e esperançosa de que ela seja um bom instrumento quer para a SPA, quer para todas as entidades que trabalham com a cultura, desde as autarquias ao próprio ministério.

90 anos

O grande historiador António Borges Coelho (estive quase a entrar num filme dos anos 1980 por causa dele), que foi catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa (e professor de um dos meus irmãos), faz noventa anos – e a Caminho, que está a publicar a sua História de Portugal, já com seis volumes publicados (o último Da Restauração ao Ouro do Brasil), vai fazer-lhe esta semana uma homenagem completamente merecida na Livraria Buchholz. Essa homenagem terá a participação de grandes personalidades da História, num ciclo de palestras que vai acontecer diariamente às 18h00. Hoje é o dia de Cláudio Torres, director do núcleo arqueológico de Mértola. Amanhã teremos Silvestre Lacerda, actualmente a dirigir a Torre do Tombo; na quarta será a vez de Vítor Serrão, da área da História de Arte; na quinta, Manuel Loff, da Faculdade de Letras do Porto, que também escreve no jornal Público. E, por fim, na sexta, fará a conferência Hermenegildo Fernandes, da Faculdade de Letras de Lisboa. Um festim para quem possa ir a todas, sobretudo porque a vida deste senhor tem muito que se lhe diga, tendo ele sido um lutador contra o regime de Salazar e estado preso muitos anos. Ah, e saiu a 6ª edição de Raízes da Expansão Portuguesa.

Crónica e poesia

Hoje é dia de crónica do DN e deixo aqui o link.


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-out-2018/interior/ola-e-adeus-9985177.html


 


Entretanto, se estiverem por Olhão, venham assistir ao Poesia a Sul, que decorre entre hoje e 28 de Outubro, com organização de Fernando Cabrita e o patrocínio da Câmara Municipal. O programa é realmente impressionante, com muitos poetas portugueses (eu também vou), entre os quais destaco Maria Teresa Horta e Teresa Rita Lopes, e muitíssimos poetas estrangeiros, vindos da Grécia, de Porto Rico, de Espanha, do Vietname, de Marrocos, dos EUA, da Irlanda... E haverá também música, apresentações de livros e revistas, homenagens e colóquios. Aproveite.

Solidariedade

A Biblioteca Municipal da Figueira da Foz organiza desde há vários anos, uma vez por mês, uma sessão de encontro dos munícipes com um escritor numa quinta à noite. Muitos dos meus autores já foram convidados para esta actividade e uma vez por outra acompanho-os e lá vou cumprimentar os amigos figueirenses. Numa delas, levei quatro vencedores do Prémio LeYa (João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade e Afonso Reis Cabral) e mal sabíamos que o então vereador da Câmara Municipal da Figueira que  moderava a sessão, António Tavares, seria o vencedor do prémio nesse ano (o livro intitulava-se O Coro dos Defuntos).Geralmente chove, mas isso não é problema porque nos recebem  com um jantarinho de filetes de polvo num restaurante maravilhoso e, mais tarde, já depois da sessão, antes do regresso a Lisboa, com um chazinho de limonete e petit-fours. Pois hoje é quinta-feira e deveria decorrer mais uma 5ª de leitura, dedicada desta feita a Nuno Camarneiro e ao seu último romance, O Fogo Será a Tua Casa, no qual um grupo de pessoas é sequestrado no Médio Oriente e feito refém de radicais islâmicos. Mas, infelizmente, Leslie não deixou. O restaurante, soube há poucos dias, ficou seriamente destruído, o palco do auditório está inundado, à volta do Centro de Artes e Espectáculos caíram árvores, partiram-se vidros, enfim, foi uma calamidade que obriga o Presidente da Câmara a cancelar esta sessão para tratar de coisas mais importantes. Daqui envio aos figueirenses a minha solidariedade, esperando que tudo se recomponha o mais brevemente possível.


 


 

Classificações

«Deixaria os seus filhos (e filhas, porque as raparigas lêem tanto como os rapazes) ler este livro? Deixá-lo-ia à mão, pousado em qualquer lado, à vista, lá em casa? Acharia bem que a sua mulher – e até os seus criados – o lessem?» Pois bem, desde já confesso que traduzi do inglês um pouco a correr, mas o importante é que percebam o que está em causa; a frase foi partilhada um dia destes pela jornalista e escritora Isabel Lucas no seu mural do Facebook a propósito da indignação pública perante a classificação para maiores de 18 anos de uma parte da exposição do fotógrafo americano Robert Mapplethorpe na Fundação de Serralves (facto que, aparentemente, acabou por levar à demissão o respectivo comissário). No entanto, até que a história seja bem contada (há muita coisa por esclarecer), queria dizer-vos que a frase que aqui reproduzo hoje integra um requerimento apresentado em 1960 para que fosse retirado do mercado um romance considerado então altamente escandaloso: O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. Eu tinha então apenas um ano e muitos dos Extraordinários não tinham sequer nascido. Mas em todas as épocas há polémicas (quase sempre quando o sexo se mostra, escrito, pintado, fotografado…). Dizia ainda a jornalista Isabel Lucas que o exemplar do romance de Lawrence anotado com as passagens escaldantes que serviu de base à acusação vai a leilão. Espero que quem licite por ele e o adquira nos mostre um dia o que em 1960 era assim tão chocante. Por certo, ainda nos vamos todos rir.

Nobel

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Há uns dias fez vinte anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e houve celebrações em todo o País (um congresso dedicado à sua obra em Coimbra, uma ida do Primeiro-Ministro e da família à Azinhaga, onde nasceu o escritor, leituras de Pedro Lamares no local onde as cinzas de Saramago foram depositadas e o lançamento do Último Caderno de Lanzarote e de um livro de Ricardo Viel, O País Levantado em Alegria, sobre esses dias loucos). Também em Lanzarote se encontraram os primeiros-ministros de Portugal e Espanha; saíram numerosos artigos nos jornais, a TV pediu testemunhos a escritores e editores, enfim, Saramago fez o pleno vinte anos depois, ao mesmo tempo que quem não ganhou o Nobel da Literatura desvalorizava esse prémio numa entrevista, quando é difícil acreditar que não o tenha desejado muitas vezes. Contaram-me que no país aqui ao lado fizeram uma maldade a um escritor que estava sempre à espera de receber o Nobel e ficava impossível de aturar por aqueles dias. Então, uns amigos pediram a uns suecos que estudavam em Espanha para lhe telefonarem na véspera do anúncio do Nobel, perguntando, com o seu sotaque nórdico, se aquele era mesmo o número de telefone do escritor-tal. O homem parece que ficava numa pilha de nervos até saber que, mais uma vez, o prémio não fora para ele. Uma boa partida para pregar a… muitos escritores por todo o mundo.


 


Hoje há lançamento em Lisboa de Pão de Açúcar, o novo romance de Afonso Reis Cabral. Aqui fica o convite.


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Personae na Internet

Quando escrevia regularmente livros de ficção juvenil era convidada muitas vezes para ir às escolas falar com os alunos do quinto e sexto anos sobre o meu método de escrita, as histórias que inventava, como tinha começado a escrever, porque decidira criar aquelas personagens e enredos, enfim, um sem-número de assuntos ligados ao ofício do escritor ou a algum livro em particuar que o professor estivesse a trabalhar com a turma. Lembro-me de que frequentemente os miúdos perguntavam aonde ia eu buscar aquelas ideias ou histórias; e eu respondia que, na maioria das vezes, as ia buscar à «massa cinzenta» (mas deixei de o fazer porque grande parte dos alunos já nem conhecia a expressão). No entanto, explicava-lhes que para se ser escritor é preciso ter imaginação e pôr a cabeça a trabalhar, mesmo que nos possamos sempre inspirar em pessoas reais e coisas que aconteceram. Mas agora, pelos vistos, os escritores têm muito aonde buscar inspiração (e não deixa de ser na realidade). Leio no suplemento literário do El país de há uma semana e tal um artigo sobre jovens romancistas espanhóis bastante interessante. Nele, uma das autoras confessa passar bastante tempo no Instagram para recolher ideias para as suas personagens e, o que é mais curioso, ter-se metido num Chat durante vários dias para as tornar mais credíveis... E esta, hein?

Crónica e lançamento

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Hoje é sexta e, como tal, dia de partilhar a crónica do Diário de Notícias do passado domingo:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-out-2018/interior/o-bicho-homem-9950369.html


 


Mas, além disso, estão todos convidados para mais logo irem ao lançamento do romance Os Fios, de Sandra Catarino, cujo convite vai abaixo.


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Um novo dicionário

Para quem gosta, como eu, da nossa língua, é sempre de saudar a chegada ao mercado de um novo dicionário, mesmo quando o novo nem é assim tão novo. Esquisito? Deixem-me explicar. Tendo por base o Dicionário Verbo da Língua Portuguesa que, por desaparecimento desta editora, já não se encontrava disponível, a Texto pegou na sua última edição, que foi completamente revista e aperfeiçoada, e integrou desde logo cerca de 3000 novas unidades lexicais. Mas não só: esta nova edição inclui uma função de gramática e prontuário, a conjugação verbal alargada, definições objectivas com exemplos e paráfrases, frequentemente seguidas de sinónimos..., enfim, é um instrumento fundamental para quem aprende e ensina português (é o único dicionário elaborado com o apoio do Ministério da Educação), mas é também um excelente dicionário para as pessoas que trabalham «com» a língua: tradutores, editores, escritores e por aí fora. Além disso, tem um formato fácil de manusear e uma capa verde alface que se vê bem no meio de todos os outros. Bem-vindo, Dicionário da Língua Portuguesa – Léxico, Gramática e Prontuário, da autoria de Aldina Vaza e Emília Amor.


 


 


 


 

Coisas que já não há

Li num destes sábados um artigo belíssimo, no suplemento «Babelia» do jornal El País, sobre os 50 anos da editora espanhola Tusquets (e os 80 de Beatriz de Moura, sua proprietária) e o anúncio da oferta do seu espólio à Biblioteca Nacional de Espanha. Um espólio destes, reparem, não é de deitar fora: contém correspondência manuscrita com García Márquez, Vargas Llosa ou Milan Kundera, entre outros, com mimos, cumplicidades, zangas e reclamações. Fundada por Beatriz de Moura e Toni López Lamadrid, a Tusquets foi das editoras mais importantes do país vizinho. Começou no tempo em que as editoras emprestavam dinheiro aos autores quando eles estavam nas lonas e em que os escritores-estrelas, quando as editoras passavam por dificuldades e lhes pediam ajuda, sacavam da cartola «um presente que te fará rica», como aconteceu com o famoso autor de Cem Anos de Solidão num momento de aflição da Tusquets, dando-lhe para publicação Relato de Um Náufrago (e a capa do original manuscrito pertence ao conjunto de documentos que vão ser oferecidos à biblioteca), reportagem que fora publicada em fascículos num jornal colombiano dirigido por Álvaro Mutis. Quando Beatriz perguntou se tinha de pagar alguma coisa ao jornal, Gabo respondeu que não, que trataria disso... Imagino como é importante conservar a memória destas relações num momento em que já não existem editoras deste modelo (provavelmente, também os autores serão hoje muito diferentes) e se perde facilmente o registo de testemunhos (tudo é digital) que desaparecerão para sempre quando desaparecerem as pessoas.

No Porto com Gisberta

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Sobre Gisberta, a transexual brasileira assassinada por um grupo de adolescentes institucionalizados há uma dúzia de anos na cidade do Porto, escreveu e compôs Pedro Abrunhosa uma bonita balada que depois foi também cantada por Maria Bethânia. Fizeram-se, além disso, documentários. Escreveram-se artigos. Irá estrear (em Novembro, no Teatro Sá da Bandeira no Porto e, em Dezembro, no Tivoli em Lisboa) uma peça escrita por Luís Lobianco do colectivo Porta dos Fundos que teve um enorme sucesso no Brasil. Enfim, a tragédia pelos vistos gerou arte e é também disso que falaremos hoje à tarde na Invicta, mais precisamente no Café do Rivoli, quando fizermos o lançamento do mais recente romance de Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar, que explora sob a forma de ficção as causas e os efeitos deste acontecimento tanto em relação aos criminosos como à vítima. Fugindo um pouco ao modelo tradicional das sessões de apresentação de livros, celebra-se a saída deste com uma conversa em que participarão o autor e Pedro Abrunhosa e que será moderada pelo jornalista Valdemar Cruz, do semanário Expresso. Apareça!


 


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Amigos e coisas boas

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Tenho amizades firmes de há muitos anos (algumas há mais de quarenta) e sempre achei que fazer amigos depois de certa idade não era fácil, se bem que, mal conheci a fadista Aldina Duarte, senti uma empatia especial e ficámos amigas num instante. Pensei, mesmo assim, que era um caso excepcional. Porém, há cerca de um ano, conheci um poeta espanhol, agora professor do Instituto Cervantes em Lisboa, de seu nome Juan Vicente Piqueras (leiam-no!), e  de repente parecia que ele nos conhecia, ao Manel e a mim, desde sempre, de tal modo eram grandes as afinidades e a intimidade se estabeleceu num ápice. O Juanvi foi também professor em Roma, onde morou muitos anos, e sabe que eu aprendi italiano e que ainda consigo lê-lo, apesar de ser cada vez mais difícil; vai daí ofereceu-me pelos anos uma preciosidade de que tenho de falar aqui: um livro maravilhoso de Dino Buzzati, chamado I miracoli di Val Morel, que, não bastando ser escrito pelo fabuloso autor italiano, é também ilustrado por ele! Tem por base um caderninho de ex-votos muito antigo que Buzzati encontrou na biblioteca do pai quando era jovem e que descrevia os variados milagres realizados por Santa Rita de Cássia na região. Reproduzindo-os um por um (salvação para monstros marinhos, gatos vulcânicos, raparigas raptadas, homens enfeitiçados por um sorriso e muito mais) e juntando-lhes ilustrações incríveis (o prefácio de Lorenzo Viganò fala destes dotes de Buzzati), este livrinho é mesmo uma delícia que me podia ter sido oferecida por uma pessoa que me conhecesse há muitos anos, mas inesperado vindo de alguém que é recente na minha vida. Há, por isso, milagres além dos de Val Morel. Um bocadinho de livro para abrir o apetite:


 


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Aproveitamento

Dantes, as pessoas eram mais aproveitadinhas: do resto da carne assada do jantar faziam fatias recheadas com picado ou croquetes para o dia seguinte. Deixem-me fazer algo parecido. Não sei se deram conta (tenho quase a certeza de que não), mas no domingo passado comecei a colaborar como cronista do Diário de Notícias. É uma crónica semanal que me sai do pêlo, como se costuma dizer, sobretudo com tanta coisa que eu já tenho para fazer (este blogue é uma delas). Por isso, tomei a decisão de, às sextas, em vez de publicar aqui um post novinho em folha, vir pôr o link da crónica que saiu no domingo imediatamente anterior. Não vai ter que ver sempre com livros ou edição; não será sempre um assunto novo para os Extraordinários que me acompanham há já oito anos; incluirá recordações da minha infância e preocupações relativamente aos tempos que se avizinham. Chama-se Adeus, futuro e terá um subtítulo que, esse, sim, mudará todas as semanas. Quem não a quiser ler tem bom remédio. E, como amanhã é dia de descanso, começo já hoje a «linkar». Até segunda!


 


https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/maria-do-rosario-pedreira/interior/poesia-e-cifroes-9929251.html


 

Escritores ingleses e restaurantes indianos

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Um dia destes, no Facebook, a tradutora Tânia Ganho estava a mostrar a maravilhosa capa do mais recente romance de Alan Hollinghurst (reproduzo-a abaixo, uma vez que o livro é publicado pela minha colega Carmen Serrano), de que foi a tradutora. E lembrei-me de que jantei com o Manel e esse mesmo Alan Hollinghurst há muitos anos (quando saiu A Linha da Beleza) num restaurante indiano que ficava perto de Santa Apolónia (não juro, mas tenho ideia de que o autor inglês era vegetariano). Entre outras coisas, recordo-me de ele ter adorado aqueles brincos que acendem e apagam na orelha de um indiano que vendia flores e coisas desnecessárias (que não comprámos). O Manel disse-me pouco depois que outro escritor britânico que também publicou, Jonathan Coe, lhe contou que, um dia, a operadora de telefone que usava lhe deu a hipótese de não pagar as chamadas para os três números que ele mais ligava (era uma campanha); Coe julgava que o que estava no topo dos seus telefonemas era o da mãe, mas a operadora verificou que não, que era o do restaurante indiano com serviço de entrega ao domicílio que havia ao virar da esquina. Imagino que os escritores portugueses sejam mais do género de comer comidinha caseira… mas, com tanta motorizada pela cidade, talvez recorram ao Uber Eats. Alan Hollinghurst vem a Portugal, a Óbidos, para o lançamento do novo romance.


 


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Envelhecer

Fiz anos há pouco tempo, como sabem (não escrevi post nesse dia), e não sei se é pela proximidade dos 60 mas a verdade é que fiquei um bocado deprimida. Disse sempre que guardaria alguns destinos de viagem para a velhice (os mais próximos em termos geográficos) e, nova ainda, aproveitei para ir a locais distantes (alguns a trinta horas de avião, incluindo escalas). Mas com os livros fiz o contrário – e deixei algumas coisas de peso que requerem tempo, descanso, maturidade e paciência para a reforma ou, enfim, um pouco antes dela. Ora, percebi que isso não vai acontecer. Estava a arrumar alguns livros no fim-de-semana quando descobri que, relativamente a dois autores de que gosto particularmente (Roth e McEwan), só me lembro bem dos livros que li há mais tempo; e os que li há menos tempo é quase como se não tivesse lido, fizeram-se um apagão… Confundi Humilhação com Todo o Mundo, por exemplo; e, ao ver que o britânico escreveu o guião para o filme A Balada de Adam Henry (que estreou há pouco), tentei lembrar-me do enredo do romance e só via uma juíza em crise de casamento mas já não me lembrava do rapaz que era testemunha de Jeová (tive de ir à Wook para refrescar a memória). Tenho a impressão de que, se é para esquecer em três tempos, vai ser frustrante ler as obras-primas que planeei, mesmo que durante a leitura me dêem muito gozo, e se calhar é melhor não lhes tocar. Que chatice.


 


P.S. De ontem até dia 7 decorre a Escritaria em Penafiel, desta vez dedicada ao escritor angolano Pepetela. Se estiver por essas bandas, vale muito a pena.

O que ando a ler

Por acaso, já acabei, mas é dele que falo agora porque se apresenta a oportunidade e depois sei lá se não me esqueço. Em primeiro lugar – há que dizê-lo –, é preciso louvar a autora pela coragem de publicar um romance quando é crítica literária há tantos anos (telhados de vidro, portanto). Ana Cristina Leonardo, uma senhora da minha idade (com um humor verrinoso que quase sempre lhe fica bem), escreveu O Centro do Mundo, uma peça literária bastante diferente dos romances ditos clássicos; a história debruça-se sobre o espião Boris Skossyreff, apátrida, cheio de dívidas e pretenso rei de Andorra, que passa por Olhão (lugar que figura na capa do romance e é a terra natal da autora) nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, em busca de um barco que o leve a Marrocos; é em Olhão que conhece um médico e intelectual que, com várias outras vozes, acabará por ajudar a contar a história da sua passagem por Portugal muitos anos mais tarde. Esta história, cujos episódios se estendem à guerra civil de Espanha e ao nazismo, terminarão com o magro Skossyreff esfomeado num gulag na Sibéria (aqui são belíssimas as descrições, para mim as melhores do livro, juntamente com as das primeiras páginas). A autora interpela-nos, provocadoramente, ao longo da narrativa, inclusive para nos cultivar (há notas de rodapé para quem quiser aprender). Uma interessante estreia na ficção para adultos.