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A mostrar mensagens de julho, 2010

Livros para férias

Este blogue vai de férias por uns tempos, porque eu vou de férias amanhã e, enfim, se levar comigo o blogue, não descanso o que tiver de descansar. Admito, porém, que não vou provocar grandes saudades aos leitores de Horas Extraordinárias, uma vez que a maior parte deles irão também de férias este mês – e, se ficarem agarrados à leitura de blogues, não aproveitarão para fazer outras leituras mais interessantes. Antes deste interregno, porém, quero dizer que nas férias se pode ler de tudo, e não, como às vezes nos querem fazer crer, apenas coisas levezinhas com praias como pano de fundo e histórias contentinhas como argumento. Eu, desde logo, vou com um calhamaço atrás: chama-se O Viajante do Século e foi escrito pelo argentino Andrés Neumann. Li as primeiras cinquenta páginas para me certificar de que queria mesmo levá-lo comigo e estou quase certa de que não me arrependerei. Com esse, levo também o romance de Herta Müller, Tudo o Que Eu Tenho Trago Comigo, recentemente publicado pela Dom Quixote, de que ouvi maravilhas a pessoas em quem confio. E, como não podia deixar de ser, um original de um jovem autor (que me pareceu bastante promissor quando o «apalpei» – ao original, entenda-se). A meio do mês, virei a Lisboa passar uma semana de trabalho e, nessa altura, conto recolher outras leituras e partilhá-las aqui. Boas férias!

Não, obrigada

O Manel tem um e-book e, mesmo sabendo que ele não resiste a uma novidade tecnológica, na altura em que o comprou aplaudi bastante a decisão. Tendo em conta a quantidade de PDF que os editores recebem hoje do estrangeiro, substituindo livros tantas vezes grossíssimos cujo envio por correio seria manifestamente dispendioso (e o que se estraga em papel, que as mais das vezes acaba no lixo), achei que era mesmo melhor haver um e-book cá em casa, que nos permitisse ter lá dentro todos os livros que precisássemos de levar para qualquer lado sem danos para as nossas colunas vertebrais. Mas a verdade é que, para mim, o instrumento não serve. Se se tratar de um livro que tenho de apreciar para publicação, gosto de lhe escrever em cima, de corrigir os erros, de fazer comentários à margem, de colocar setas, de circular e ligar duas palavras repetidas no mesmo parágrafo, de remeter para outra página que me parece contradizer o que acabo de ler; além disso, volto sistematicamente atrás para comprovar que tenho razão ou concluir que, afinal, estou enganada; e, quando me lembro de uma passagem anterior, se tiver um exemplar em papel, sei sempre se ela está em página ímpar ou par, na primeira ou na segunda metade da página (todos os que lêem o sabem, creio eu). Mas, pior do isto, é não poder ter todas as páginas visíveis debaixo dos olhos. Num e-book, é como se a página fosse apenas uma, uma única página que leva uma eternidade a passar. Sem a minha caneta vermelha, a minha memória visual e os meus hábitos, levaria mais do dobro do tempo com cada livro. E-book? Para as crianças levarem para a escola com todos os livros escolares lá dentro, sim. Para mim: não, obrigada.

Mais velhos e mais novos

Os escritores mais novos sabem, regra geral, quem são os escritores mais velhos. Amem-nos ou detestem-nos, já viram as suas caras em fotografias e cumprimentam-nos manifestando a sua admiração ou escondendo a sua impressão negativa e reduzindo-se a epígonos ou meros principiantes de uma arte comum. Alguns escritores mais velhos lêem o que os mais novos escrevem (poucos) e estimulam-nos (menos ainda), escrevendo textos críticos em suplementos literários e indicando as suas obras para prémios quando fazem parte do júri. Outros (a maioria) não fazem a mais pequena ideia de quem veio depois deles, nem mostram qualquer interesse em saber quem ficará a escrever no seu país quando, fatalmente, partirem deste mundo. É, por isso, irónico que sejam justamente os primeiros a criar, por vezes, situações melindrosas como a que conto a seguir. Quando o Salon du Livre de Paris dedicou o ano de 2000 à literatura portuguesa, deslocaram-se à Cidade-Luz para cima de 40 escritores lusófonos. Na primeira tarde, no hotel onde todos se instalaram, a inteligente Agustina apresentou-se positivamente a todos, um por um, ficando a saber quem era quem e imune a gaffes de qualquer tipo. Um outro escritor da sua idade foi, porém, menos hábil. Ficando eu sentada no autocarro que nos levaria do hotel à mairie entre ele e o Pedro Rosa Mendes (que publicara há pouco o seu primeiro livro), logo me perguntou se eu, como editora, não mandava ler livros fora, pois tinha uma filha que realizava essa tarefa para uma outra chancela, mas ela ainda ficava com tempo livre e poderia, quiçá, colaborar comigo. Tudo bem se não tivesse acrescentado: «Ainda agora ela leu um livro do Goytisolo, uma coisa tipo Baía dos Tigres, mas em bom.» Quem mais corou fui eu.

O lugar do morto

Conheço muitos escritores, não só dos livros, mas da vida – pois, como editora (e poeta às vezes), já estive com dúzias deles nas minhas várias salas de trabalho, em lançamentos, acontecimentos oficiais, festivais e encontros literários quer em Portugal, quer no estrangeiro. E há de tudo, evidentemente, porque, antes de serem escritores, são seres «humanos» como todos os outros e, portanto, não constituem excepção na diversidade. Alguns surpreenderam-me pela positiva, conservando uma admirável modéstia quando a obra já os consagrara como génios; outros, porém, apresentaram-se muito diferentes do que os imaginei enquanto lia os seus livros e revelaram egos tão gigantescos que quase senti ter sido melhor não chegar a conhecê-los pessoalmente. Mas houve uma história que me fez deixar de ler definitivamente um certo autor. Trabalhava eu então no escritório que organizava a presença de Portugal como país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt em 1997 quando fomos informados de que o poeta Al Berto (um dos convidados) tinha morrido. Pois no meio de uma consternação que durou semanas, se não meses, chegou uma carta de um escritor que não fora escolhido para ir à Alemanha, dizendo – vejam só – que, como Al Berto já não se poderia deslocar ao certame, ele próprio estava disponível para o substituir. Ficou em Portugal, bem entendido.

O (des)gosto do belga

Há já alguns anos, a ASA publicou dois ou três livros de Hugo Claus – um dos maiores romancistas belgas (morreu em 2008, recorrendo à eutanásia) – que veio a Lisboa para o lançamento da tradução portuguesa de O Desgosto da Bélgica. Como os nossos jornalistas da área cultural não se interessavam especialmente pela literatura flamenga nem sabiam que o autor até já tinha sido indicado para o Nobel, foi difícil – para desgosto do belga – conseguir entrevistas junto da maioria das nossas publicações nessa sua passagem por Portugal. Contou-me o seu editor que, às tantas, já em desespero de causa, tentou convencer um jornalista com factos alheios à obra, confidenciando-lhe que Claus era um homem com uma vida invulgar e surpreendente, tendo inclusivamente vivido com – imagine-se! – Sylvia Kristel, a actriz do famoso filme erótico Emmanuelle. Pois bem, parece que o argumento dos gostos do belga em matéria de mulheres foi o que bastou para mudar o desinteresse em súbita curiosidade. A literatura ficou, pois claro, em segundo plano.

Há ecos e Ecos

Diz-se que o jornalismo vai de mal a pior – e que o jornalismo cultural é cada dia menos culto. Claro que há excepções, mas conheço muitos episódios que corroboram a ignorância e a falta de profissionalismo de pessoas ligadas à comunicação social que cobrem a área dos livros. Contaram-me, por exemplo, que, quando Umberto Eco esteve em Portugal, os jornais e as revistas puseram-se todos em fila para entrevistar o grande mestre que, num hotel da capital, ia recebendo os seus representantes de meia em meia hora – e respondendo, provavelmente, às mesmas perguntas com a maior paciência do mundo. Mas parece que um dos jornalistas (penso que do extinto Independente) se sentou à frente de Umberto Eco e começou a entrevista por: «Que tipo de coisas é que escreve?» O grande senhor recusou-se, claro, a responder ao sujeito, podendo descansar meia hora até à entrevista seguinte. Mas há uma história ainda melhor (ou pior). Marie Darrieussecq escreveu um livro (Estranhos Perfumes) cuja protagonista, para abreviar, se transforma em porca – e a metamorfose, recordo-me, começa justamente pelo crescimento de oito tetas. Ora, estando a autora em Portugal para o lançamento da tradução, conta o seu editor que um jornalista que pedira para a entrevistar lhe terá perguntado se a obra era autobiográfica… Ecos da falta de leitura, suponho.

Livros de comer e chorar por mais

Gosto de livros de cozinha e sempre me relaxou ler de uma ponta à outra receitas que nunca me atreverei a experimentar – na verdade, só cozinho em última instância e sempre coisas triviais (cozidos e grelhados). Embora não seja também um bom garfo, delicio-me com as fotografias desses livros, admirando quem produz aquelas esculturas comestíveis sempre com o pezinho de salsa no sítio certo e legendas que falam de molhos, coberturas e caldos de um modo que se podia dizer quase sensual. Mas quem cozinha e gosta de comer garante-me que não há bíblia como o velhinho Pantagruel que, quando eu estava na Temas e Debates, se vendia às dúzias na Feira do Livro a todas as raparigas e rapazes casadoiros. E esse não tem retratos estimulantes, mas apenas – aqui e ali – uma pequena ilustração com um sabor antigo. O resto são receitas, acho que 1500 ou mais. A mecânica do livro é que não é imediatamente inteligível, porque, por exemplo, a receita de bacalhau gratinado no forno remete para o número da receita do molho bechamel (necessário para o gratinado); mas a maioria das cozinheiras julga que se trata de um número de página e nunca encontra à primeira o que procura. No tempo em que eu estava na Temas e Debates, houve uma senhora que não conseguia entender-se com as remissões e me telefonou tantas vezes na mesma semana com a mesma dúvida que a fiz prometer que me convidava para almoçar quando se norteasse. A verdade é que ainda estou à espera.

Deixá-lo falar

Estava a escolher um excerto para a badana de um romance que publicarei em finais de Setembro – O Novíssimo Testamento, do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, de que já aqui vos falei abreviadamente – e, às tantas, já não sabia o que fazer: havia tantos possíveis que eleger um e sacrificar o resto tornou-se uma tarefa praticamente impossível. Pus então de lado os que me pareceram demasiado extensos, mas os quatro ou cinco que sobraram eram todos tão ricos, originais e divertidos que acabei por pedir a outra pessoa que escolhesse por mim. Agora, que a capa está já em execução, olho para esses excertos preteridos como para amigos que se despediram de mim e não voltarão. Então, lembrei-me de que melhor do que falar-vos do livro com palavras que nunca chegarão para o descrever, é deixá-lo falar. Espero, pois, que gostem do excerto que aqui reproduzo: «Djédji nunca fez caca na vida, nem sequer nos cueiros, como todos os nenés, mamou, tomou biberão, sopa na colherzinha, sumo na caneca, comida no prato, mas nunca fez, simplesmente aliviava-se arrotando fatias de luz como lua nova, acocorava-se como uma rã e, por cada coaxar, expelia uma lua, várias luas, que depois se amontoavam no céu como se fossem bolas de sabão, e sempre que o fazia, sobretudo depois das refeições, Djédji punha os cães da vizinhança a uivar como lobos aluados, à parte isso, Djédji foi durante toda a vida um relógio vivo para a comunidade, arrotava sempre na hora e, com o tempo, bastava que os cães começassem a ganir para o capataz anunciar a suspensão da empreitada e a hora da merenda, o sacristão badalava os sinos, no quartel rendia-se a guarda, no chafariz jorrava água das torneiras.»

Memórias de outra pessoa

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Nós, editores, criamos empatia com os autores que publicamos e, com o tempo, essa empatia torna-se um laço menos lasso, mais apertado; por isso, quando a vida nos faz decidir mudar de editora, existe esse momento difícil em que perspectivamos ter de nos separar dos autores com os quais estabelecemos amizade. Quando saí da Temas e Debates em 2004, o Miguel Real foi mais ou menos forçado a lá continuar a publicar os seus livros, até porque uma cláusula do contrato que assinara assim o exigia; mas, para bem dos meus pecados, disse que, nesse caso, poria o livro numa gaveta e o filho lho publicaria depois da sua morte. Estou-lhe, obviamente, infinitamente grata. Até porque, além desta prova de amizade, continuo a ser provavelmente a primeira pessoa a ler os seus romances, o que considero um enorme privilégio. O próximo (que sairá em Setembro) chama-se As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia e conta a história de um manuscrito encontrado em Sófia pelo próprio autor (como foi esse manuscrito lá parar não posso dizer) em cujas páginas se podem ler as memórias de D. Amélia (que viveu, pasme-se, até 1951 e, por isso, assistiu, para além da morte do marido e do filho, à implantação da República, ao Estado Novo e a duas guerras mundiais). O início do livro é de um extraordinário fulgor, a descrição do 25 de Abril como um autêntico «rasgão no tempo». Está a perguntar-se o que tem a revolução dos cravos que ver com as memórias da rainha? Espere por Setembro. O romance vai responder-lhe a isso e a muito mais.


 






Jardim-escola poético

Já aqui vos disse uma vez que, embora não fosse nada dada às ciências, gostava bastante de botânica. Na verdade, lembro-me ainda do grande entusiasmo que pus na realização de um herbário (que a minha mãe ainda guarda religiosamente) para o qual me orgulho de ter encontrado, depois de aventuras indescritíveis, folhas uninérveas, peninérveas palminérveas e paralelinérveas, além de raízes de morangueiro, ervilhas-de-cheiro, lírios de três cores e muitos mais achados considerados praticamente impossíveis para quem sempre vivera na capital. Ora, parece-me que ainda não tinha aqui falado de um livro de poesia e há um que se casa bem com esta minha predilecção pela botânica (predilecção abstracta, pois não tenho o menor talento para cuidar de um simples vasinho com uma violeta) e, claro, com a minha paixão (maior) pelos versos. Chama-se Curso Intensivo de Jardinagem e é uma pérola recentemente publicada pela &etc. Escreveu-o Margarida Ferra que, talvez por ser casada com um poeta (José Mário Silva) e trabalhar numa editora (a Quetzal), tem andado na sombra como escritora, mas que espero venha a publicar muitos mais livros depois desta estreia discreta, mas fulgurante. A capa é belíssima, mas o recheio é francamente melhor. A vida para ser bem vivida precisa por vezes de um curso como o deste livro – onde não faltam ramos, raízes, pequenos rebentos e às vezes mesmo espinhos, tesouras e facas. Não deixe de frequentar este maravilhoso jardim-escola. A seguir, quererá inscrever-se no nível seguinte (que, ainda por cima, nem precisa de ser melhor).

O editor e o marketing

A edição mudou imenso nos últimos vinte anos, e costumo dizer que, se quando comecei a trabalhar como assistente editorial eram os autores que estavam no centro de tudo, pois agora parece que são os leitores que comandam as escolhas dos editores, levando-os, inclusivamente, a encomendar livros que julgam agradar a uma grande parcela da população. Talvez seja, porém, excessivo pôr as coisas nestes termos, pois, em alguns casos, terá sido sempre assim. Digo-o por causa de uma história que o Manel me contou, lida num ensaio francês sobre o marketing do livro. Ela aí vai: O senhor Hachette (esse mesmo, o fundador do monstro editorial Hachette) fazia, pela primeira vez, a viagem de comboio entre Paris e Deauville e, observando os passageiros calados e levemente entediados, chegou à conclusão de que aquele era um verdadeiro tempo de leitura, tanto para adultos como para crianças. Perguntou então à senhora que o acompanhava, ainda jovem, se seria capaz de escrever uma colecção de histórias para crianças. E a dita senhora – que não era senão a Condessa de Ségur – aceitou, nascendo dessa pergunta uma das colecções de livros para raparigas mais famosas de sempre. Como se vê, não é só hoje que os editores (espicaçados pelos directores de marketing) encomendam livros sobre este ou aquele tema a esta ou àquela pessoa. Na verdade, muitos editores já faziam marketing há décadas, mesmo sem conhecerem bem o que a palavra queria dizer.

Quem escreve assim não é gago

Parece que as maiores receitas em Portugal na área da cultura advêm da edição (e é um dado curioso, sobretudo se pensarmos que esse é o sector que menos apoio tem do Estado). Para que alguns livros dêem dinheiro que se veja, contudo, editores de todo o mundo encontraram a fórmula de encomendar romances a políticos, actores, modelos, apresentadores de televisão e outra gente mediática. Em Portugal, ainda que as vendas deste tipo de livros sejam sempre muito altas, a verdade é que o saldo em termos literários tem sido confrangedor – razão mais do que suficiente para desconfiarmos de qualquer livro de ficção assinado por alguém que vem (mesmo que não só) do audiovisual. Mas, como sempre, convém não generalizar. Acabo de ter uma belíssima surpresa ao ler o magnífico romance de um actor (de teatro, pois claro, mas que já fez muita televisão). Chama-se Rio Homem e parece tudo menos obra de estreia (bem, o autor já ganhou o prémio da APE com um livro infantil). Trata-se de um romance de grande fôlego, denso e profundo, de alguém que leu certamente muitos livros antes de se atrever a começar o seu. Cruza a Guerra Civil de Espanha e a construção da barragem que submergiu a aldeia de Vilarinho da Furna. Fruto maduro, garanto, com anos de trabalho em cima. O seu autor é André Gago, que tem, para além do talento para a escrita e para a representação, uma voz belíssima que fica no ouvido (talvez lhe peça, mais perto da publicação do romance, que grave a leitura de excertos para vos mostrar).


Caso para dizer: quem escreve assim é Gago.

Macho latino

Li no ano passado, durante as férias (que é normalmente quando consigo ler livros de outras editoras), A Arte de Amar, de Ovídio. Bem sei que, segundo os parâmetros dos nossos meios de comunicação, este não é exactamente um livro para as férias; mas, se me custa ver o tempo avançar sem ter lido isto ou aquilo, pois a verdade é que, quanto mais antigo é o livro, mais me sinto compungida a colmatar a lacuna. Assim sendo, li Ovídio debaixo do chapéu-de-sol, humedecendo de vez em quando as páginas com pingos de água que me escorriam dos cabelos, zangando-me com o vento que embaraçava as folhas, entre banhos de mar e de piscina – e concluí que é um título para todas as estações. Independentemente da vénia devida ao poeta (nem está em causa não a fazer – e quase beijo o chão), diverti-me imenso com os seus conselhos aos leitores masculinos sobre as armadilhas em que podem cair quando seduzidos por esses seres falsos, malignos e interesseiros que são as mulheres. (Hoje, Ovídio estaria em todos os telejornais a explicar-se sobre certas afirmações sexistas que faz, não duvido.) Talvez seja daqui que veio a expressão «macho latino»…

O eterno candidato

A Dom Quixote está a reeditar (com capas de que gosto muito) todos os livros de Philip Roth. Para mim, Roth é um dos eternos candidatos ao Nobel da Literatura que, se calhar, morrerá sem o ter. Merece-o, sem dúvida, embora haja também quem pense (Paul Auster, por exemplo) que Don DeLillo está antes dele na fila de escritores norte-americanos com capacidade de o arrecadar. Não li todos os livros de Roth (infelizmente, não chego para tudo), mas entre os que li aquele que até hoje mais me marcou foi A Mancha Humana (não por acaso «mancha» e «marca» são, de certa forma, sinónimos). Detesto histórias previsíveis, preferindo ser habilmente enganada pelos narradores (e/ou autores), e foi assim que me fui sentindo ao longo de toda a leitura por descobrir que o protagonista do romance era sempre contra uma coisa que ele próprio também era. Não posso ser mais clara, lamento; se contar, perde completamente a graça. Há que ler, este título ou qualquer dos outros – e esperar que dêem a Roth o maior prémio literário de todo o mundo antes que seja demasiado tarde.

Um thriller português

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Conheci o Pedro Garcia Rosado na Temas e Debates onde publiquei o seu primeiro romance policial (Crimes Solitários). Passaram-se vários anos em que cada um seguiu o seu caminho e, no ano passado, voltámos a encontrar-nos por causa de traduções, uma vez que ele é também tradutor. Nessa altura, desafiei-o a escrever uma série de policiais, passados em Portugal e com personagens portuguesas, que reflectisse com realismo o que cá se passa em matéria de crimes (já não somos um país completamente seguro) e da respectiva investigação e, ao mesmo tempo, que tivesse um herói ao qual o leitor se pudesse afeiçoar de um volume para outro. Surgiu então A Cidade do Medo, que a ASA acaba de publicar e é o primeiro volume da série «Não Matarás» (prevê-se um livro por ano). Esta primeira história, introducing o inspector da Polícia Judiciária Joel Franco – homem marcado por um crime ocorrido na adolescência e pronto a vingá-lo em cada morte que investiga –, debruça-se sobre um serial killer que espalha o pânico pela cidade de Lisboa com o intuito de castigar o presidente da Câmara, por causa de uma história (corrupta, pois claro) relacionada com vendas de terrenos da OTA (em que ambos estiveram envolvidos, mas um se saiu melhor do que o outro). Fazendo lembrar trafulhices que todos conhecemos, é paradoxalmente original. Espero que gostem.


 


Editing

Não sei o que se passou com a comunicação social, mas de repente toda a gente me pede entrevistas por causa de uma coisa chamada editing. Tenho gosto em falar do que faço, evidentemente, mas sinto que me transformaram numa espécie de arauto do editing, como se fosse a única pessoa em Portugal a praticá-lo. Por isso, além de gostar de que os nossos jornais se debrucem sobre o meu trabalho, gosto de poder explicar realmente o que faço, porque muita gente tem a ideia errada de que escrevo nos livros dos outros e sou uma santa milagreira capaz de transformar livros maus em livros que ganham prémios importantes. Nada disso. Acredito que existam editors no Reino Unido ou nos EUA que escrevam partes de livros em vez dos autores; e creio que, em Portugal, quando se encomendam romances a figuras públicas que nunca escreveram antes, em alguns casos deve haver alguém que escreve por elas ou dá, pelo menos, umas pinceladas, recebendo o suficiente para se manter anónimo (em Espanha chamam a estes ghost writers «negros», calculem). Não é, porém, o meu caso – e, se o livro não for bom, não há como salvá-lo (podemos salvar-nos não o lendo nem publicando, e é tudo). O editing que pratico passa sobretudo por uma conversa e é apenas uma pequena ajuda de um leitor profissional a um escritor que é bom comigo ou sem mim, não mais do que isso – e muitos autores portugueses, se não a têm dos seus editores, tê-la-ão seguramente de amigos e confrades habilitados a dar-lhes uma opinião que, antes de tudo, se baseia no bom senso e na experiência de leitura. Não é, como vêem, uma questão de varinha mágica: se o autor não tiver talento, nada feito.

Empatia

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Publiquei há cerca de um mês aquele que foi o meu primeiro livro na Leya – A Vida Verdadeira, de Vasco Luís Curado. Quando aqui escrevi um post sobre ele, recebi um comentário de uma leitora que dizia ter a estranha sensação de que o romance fora escrito para ela, de que o livro a escolhera «para o desassossego ou a provocação». Fiquei contente, porque o romance é francamente bom e merece ter leitores que com ele se identifiquem (espero que haja muitos por essa blogosfera fora – se ainda não leram, estão a tempo, mostro-vos a capa para o encontrarem mais facilmente). Mas o que queria, pegando nesse comentário, era dizer que, de facto, há livros com os quais temos uma empatia muito especial, cuja leitura nos leva inclusivamente a pensar que foram escritos para nós, ou, pelo menos, para alguém como nós. Há uns bons anos (talvez quinze) li um livro exactamente assim. Chama-se Resta a Noite, escreveu-o a espanhola Soledad Puértolas (que viria a ganhar o Prémio Planeta muito mais tarde) e tinha uma personagem que, na época, podia ser eu – com o mesmo tipo de aflições, amigos semelhantes, os mesmos hábitos, as mesmas viagens, até uma relação sentimental (fracassada) que evocava a minha a cada página. Tenho medo de o reler (ou medo de recordar maus momentos?) por causa dessa possibilidade de a empatia já não estar presente tanto tempo volvido. Mas seria sempre um bom livro, tenho a certeza.


 


Paul Auster sem espinhas

Essa coisa de ter um peixe inteiro no prato – com cabeça, rabo, espinhas e, por vezes, até o olho arregalado e gelatinoso –, não é para todos. Aos portugueses, habituados ao mar, às varinas e aos mercados, não faz mesmo nenhuma confusão. Mas, quando pedem a um menino de Nova Iorque para desenhar uma galinha, ele representa-a normalmente depenada e sem cabeça como a vê no supermercado – e, de peixe, também quase só conhece a posta de salmão e os filetes sem escamas e todos do mesmo tamanho que vê na prateleira dos congelados. Os peixes, tal como são enquanto vivos, raramente aparecem no prato de um norte-americano e, de uma das vezes que Paul Auster esteve em Portugal, ainda o Manel era editor dele na ASA, fomos comer peixe a um pequeno restaurante do Bairro Alto a seu pedido. O linguado tinha um ar fresquíssimo e o empregado aconselhou-lho vivamente. Mas, quando o trouxe no prato – de cabo a rabo, e não em lombos – e o pôs à frente do escritor, ele ficou estarrecido a olhar e perguntou, aflito: «Como é que isto se come?» A Paul Auster nem me custou muito tirar-lhe as espinhas…

Liberdade

Vi nascer a primeira Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII, pelo que sou muito antiga. Tão antiga que ainda fui à feira na Avenida da Liberdade – e, garanto, mais do que uma vez. Foi, de resto, ainda nessa larga avenida de Lisboa que me estreei a comprar livros sozinha (quer dizer, sem a minha mãe, porque fui com uma amiga). Devia ter catorze ou quinze anos e lembro-me de ter comprado Os Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga, e os Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Já não estávamos em tempo de aulas, mas admito que tivesse sido a escola a aconselhar estes títulos, talvez para os lermos no ano seguinte (embora eu já tivesse lido Os Contos da Montanha). Engraçado é que ainda hoje consigo eleger um conto de ambas as colectâneas: «A Viagem» (no livro de Sophia), que era um texto sufocante em que alguém empreendia uma viagem e, sempre que decidia voltar para trás, encontrava tudo diferente; e «Mariana» (no livro de Torga), que era a história de uma rapariga da aldeia que tinha filhos de vários homens e, quando a menina «selo branco da virgindade» regressava da cidade e lhe perguntava quem eram os pais das crianças, ela respondia apenas: «Saiba a menina que não têm pai… São só meus.» Histórias de liberdade com L.

Traições

Chamam muitas vezes «traidores» aos tradutores – e alguns são-no verdadeiramente. Ao longo de vinte anos a trabalhar no mundo editorial, encontrei de tudo: traduções excelentes, feitas por pessoas que pareciam ter nascido para a tarefa; boas, feitas por gente competente e trabalhadora; médias, a maioria; más, sobretudo as que mostravam permanentemente a língua de origem; e calamitosas, que não se deixavam ler e iam para o lixo por não terem salvação possível. Entre estas últimas, lembro-me, por exemplo, de um dos primeiros livros que veio à minha mão para eu rever (já lá vão mais de vinte anos) e cujo tradutor sabia tão pouco inglês que conseguiu traduzir «shake hands» por «sacudir as mãos». (Hoje o inglês entrou de tal maneira pelo nosso quotidiano que seria impossível alguém ir tão longe.) Mas até os tradutores competentes caem muitas vezes em esparrelas, e sabe-se que um dos nossos mais conceituados tradutores de castelhano, levado talvez pela pressa, cometeu o erro de traduzir «palomitas» (pipocas) por «pombinhas» (e, como se tratava de comer no cinema, o leitor estranhava). Também me contaram que, numa tradução brasileira, apareceu a expressão «vendedores de bestas» para traduzir «best-sellers». A ser verdade, uma traição maior.

Uma relíquia

Quando aqui fiz um post sobre dicionários e como eles me apaixonam, tive um número de comentários inesperadamente grande. Dando conta da minha paixão pelas palavras, encontrei muitos que, desse lado, queriam confessar-se afins e trazer o seu contributo. Quiçá para os compensar dessa generosidade, contarei hoje uma história cómica que tem que ver também com dicionários. Sou a mais nova de quatro irmãos e sempre me dei melhor com os meus irmãos do que com a minha irmã. Esta, mais velha quase cinco anos do que eu, dava-me beliscões, empurrões e outras carícias do tipo quando não estava ninguém a ver – mazelas das quais eu não me queixava imediatamente, mas apenas quando a minha mãe aparecia (e podia ser horas depois). Então, a minha irmã chamava-me normalmente queixinhas, mas um dia, sei lá porquê, chamou-me «bufa». E, embora isto se passasse no tempo dos bufos da PIDE, eu nunca ouvira a palavra e fui ao dicionário ver o que queria dizer. Deveria ter procurado, bem sei, o masculino «bufo», mas a verdade é que na altura ainda era uma amadora nestas coisas da língua. A definição que encontrei (acho que no Dicionário de Cândido de Figueiredo) ainda hoje nos faz rir a todos lá em casa quando nos lembramos dessa cena (pois tive de consultar os mais velhos para a perceber na sua plenitude): «Ventosidade que se escapa do ânus sem estrépito.» E ainda há gente que ache os dicionários um tédio…

Banco Para Intelectuais

Quando comecei a trabalhar – e porque era, então, funcionária pública – abri conta no banco do Estado, como tinha de ser; mais tarde, depois de alguns anos a receber direitos de autor e pagamentos de outros trabalhos relacionados com a escrita, quis separar as águas e abri outra conta noutro banco. Escolhi o BPI – e a minha escolha, de certa forma, teve que ver também com leituras. Um dia, estava eu a ver a página do caderno de Emprego do Expresso e deparei-me com um anúncio do BPI para gestores de fundos de investimento. Nada que eu pudesse fazer, claro, mas algo me chamou a atenção no texto. Depois de informarem os potenciais interessados daquilo que ofereciam, diziam o que esperavam em troca; e, antes mesmo da licenciatura na área dos números ou da experiência profissional, o que esperavam dos candidatos era: «Que goste muito de ler.» Achei admirável! A seguir, diziam ainda que davam prioridade a quem fizesse voluntariado, tocasse um instrumento musical ou praticasse desporto de competição (presumivelmente, quem se dedica a tais actividades tem qualidades que também servem, pelos vistos, para gerir fundos de investimento). Até me apeteceu escrever-lhes uma carta a felicitá-los. Mas não, cingi-me a abrir uma conta numa das suas agências. O pior é que os fundos de investimento deram no que deram e, se calhar, todos esses leitores estão agora desempregados…

Proust e a minha mãe

Não sou, como algumas pessoas que conheço, doida por Proust. Talvez porque tive de ler os primeiros três volumes de À la recherche… a mata-cavalos numas férias de Páscoa, metida na Biblioteca Nacional enquanto os meus amigos andavam a bronzear-se pelas praias, acho-o apenas extraordinário e, sim, tenho raiva dessa notável capacidade para, sem ser enfadonho, descrever uma igreja ou outra coisa qualquer em dúzias de páginas e associá-la a outras trinta mil coisas que a memória arquivou. Ao mesmo tempo, devo confessar que embirro ligeiramente com Marcel e que, nessas longas, longuíssimas, férias de Páscoa, pensei muitas vezes que lhe fizeram falta uns tabefes (e aqui estou eu agora a dar a face, ou mesmo as duas faces, por tê-lo dito). Ora, a minha mãe é muito dada aos detalhes (palavra que os revisores dizem que é galicismo e substituem sempre por «pormenores», muito mais feia) e, para dizer que atravessou a rua e foi ao Multibanco, conta absolutamente tudo o que viu, ouviu, sentiu, cheirou, supôs, pensou, concluiu… e ainda o que nem tem que ver com essa travessia, mas, por qualquer motivo, aparece naturalmente na conversa. Quando ela regressa de uma consulta médica, é um custo sabermos como está realmente a sua saúde. E, nesses momentos, o meu irmão mais velho, que é o mais impaciente de todos, costuma dizer-lhe: «Deixa lá o Proust e conta só o que interessa.»

Juvenil ou nem tanto

Hoje, muitos adultos consomem literatura claramente juvenil – Harry Potter e aquela saga dos vampiros muito em voga são exemplos disso. Pessoa escreveu que um bom livro para crianças deveria ser lido sem enfado por todos os adultos, mas nos casos que referi não creio que se trate exactamente disso (talvez avançasse com a infantilização de alguns leitores, mas também não estou completamente segura deste argumento). Sei, contudo, de alguns títulos que podem ser partilhados por leitores de várias idades e que todos o lerão, se não com o mesmo entusiasmo, pelo menos com igual interesse. Antes de mais, O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez. Mas também A História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda, ou Os Capitães da Areia, de Jorge Amado (neste último, há uma cena inesquecível em que um menino ensina a outro a diferença entre um gato e uma gata, explicando que ele tem um saquinho de moedas e ela uma ranhura de mealheiro). E porque não Cão como Nós, de Manuel Alegre, que, sendo um livro escrito para o público adulto, pode e deve ser lido por adolescentes (sobretudo se estes tiverem perdido um animal de estimação)?

Escrita criativa

Nunca frequentei cursos de escrita criativa e imagino que haja de tudo, do melhor ao pior. Como editora, sou muitas vezes vítima de maus cursos – ou maus alunos, que não conseguem aprender que descrever uma personagem não é exactamente dizer quanto mede e pesa (juro que já me mandaram um original que era exaustivo em relação a estes detalhes de cada vez que introduzia uma personagem). No entanto, concordo que há exercícios que podem ajudar alguém que já tenha algum talento a organizar as ideias e escrever melhor. Sobre exercícios, conheço, ainda assim, um livro que é a todos os títulos excepcional. Chama-se Exercícios de Estilo, foi escrito por Raymond Queneau e, embora o tenha em francês numa edição de bolso daquelas baratinhas, penso que já existe em tradução portuguesa (quase juraria que foi publicado na Âmbar ou na Sextante pelo João Rodrigues). Nele, o autor descreve mais de cem vezes o mesmo episódio, mas sempre de diferentes pontos de vista: probabilístico, metafórico, macarrónico, injurioso, olfactivo, exclamativo, precioso, animista, onírico... Uma maravilha para quem queira treinar as suas capacidades criativas (ou assistir às de outrem).

Meia dúzia de páginas

Hoje, no mundo editorial, debatemo-nos muitas vezes com um problema: quando nos enviam livros demasiado curtos, hesitamos sobre se devemos ou não considerá-los para publicação. Os livros pequenos desaparecem nas livrarias, onde todos os dias se acumulam títulos novos, muitos deles autênticos calhamaços, que logo os escondem; e, ao mesmo tempo (com a excepção da poesia), os leitores parecem preferir dar dinheiro por alguma coisa que se veja a gastá-lo em meia dúzia de páginas que, até chegarem a casa – se a viagem for de metro ou autocarro –, já estarão lidas. Mas, se calhar, devíamos emendar a mão, porque há textos curtos que são verdadeiras obras-primas. Lembro-me, a este propósito, de A Comunidade, de Luiz Pacheco, que é das coisas mais belas que li em toda a vida e possuo numa edição pobre, agrafada, nem sequer bem impressa. Mais tarde, comprei outra, ilustrada julgo que pela Teresa Dias Coelho, que ofereci a alguém de quem devia gostar muito. Neste livro com meia dúzia de páginas, há mais literatura do que, por vezes, se encontra na obra inteirinha de um autor. Ou de vários.

Bebé sabe

Tenho um irmão que é professor universitário e sempre viveu rodeado de livros (quando, na infância, eu lia quadradinhos, já ele lia a História Universal da Verbo, em dez volumes, durante as férias). Esse meu irmão tem três filhas, a mais velha das quais foi um bebé voluntarioso e independente que nunca deixava que lhe fizéssemos nada (nem sequer dar de comer), empurrando-nos e respondendo apenas: «Bebé sabe.» Um dia, estava o meu irmão a fazer um trabalho importante com vários livros abertos sobre a secretária quando ela começou a mexer-lhes e a fingir que os lia. A princípio, ele achou graça, mas, ao fim de um quarto de hora, reparou que ela lhe tinha desmarcado as páginas e começou a ficar ligeiramente aborrecido. Mandou-a então ir brincar com os livros dela, que tinham bonecos, dizendo-lhe que aqueles livros que ali estavam só tinham letras e que não lhe serviam para nada, pois ela (então com dois anos e meio) não sabia ler. A resposta, contudo, foi a de sempre: «Bebé sabe.» Precisando de retomar o trabalho e querendo pôr fim às interrupções, ele decidiu que o melhor era desafiá-la, passando-lhe um livro aberto e dizendo-lhe: «Então, se sabes ler, diz lá o que é que está aqui escrito.» Contra todas as expectativas, ela não se deixou abater: acompanhou com o dedo minúsculo uma linha inteira do texto (como certamente já vira alguém fazer) e respondeu com ar maroto ao cabo de uns instantes: «O bebé pode mexer nos livros do pai.»