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A mostrar mensagens de fevereiro, 2023

A metro

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Há muitos anos, apareceram as vendas de livros porta a porta em Portugal; e o Círculo de Leitores, o maior clube de livro português, chegou a ter meio milhão de sócios, que compravam mensalmente livros e publicações, recebendo por vezes como prémio de fidelização presentes que incluíam electrodomésticos giros e modernos. Mas muitos desses compradores de livros cartonados e bonitos, ou encadernados a couro, ou com muitos volumes e caros, não eram na verdade leitores; eram pessoas com estantes vazias em casa que achavam que ficava bem ter livros, ou pais que não tinham podido estudar e adquiriam património literário para os filhos. Contava-se até a história de um sócio que tinha ido à sede da empresa com uma fita métrica medir os volumes de uma certa colecção bonita para ver se lhe cabiam nas prateleiras da sala. Rimos desta história, mas eis que descubro numa partilha do Facebook uma empresa que se dedica à decoração de... estantes, para a biblioteca da sala ficar mais bonita. Nem sei se se trata apenas de lombadas, como em Casa de Campo, de José Donoso, mas não me admiraria muito se assim fosse. O anúncio vai abaixo. Não creio que interesse muito aos que aqui vêm...


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Censura

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Os grandes problemas da Humanidade não andam, infelizmente, nas bocas do mundo. A fome, por exemplo, desapareceu dos discursos políticos: cá (onde há um quinto de pessoas no limiar da pobreza) e em toda a parte, porque mesmo as grandes potências preferem não falar disso a confessar que pouco fazem para minorar, por exemplo, a morte infantil por falta de alimento em países com grandes secas ou guerras infindáveis, sobretudo em África. Os assuntos preferidos são agora as ditas questões fracturantes, que não só ocupam tudo e todos (redes sociais incluídas), mas entram em excessos que roçam o ridículo. Num artigo recentemente publicado pelo Observador, ficámos a saber que as obras do genial Roald Dahl (sim, o de Charlie e a Fábrica de Chocolate), autor que deve ter feito milhões de leitores em todo o mundo, vão ser «censuradas»: desaparecerão os «gordos» e os «feios», por exemplo, para não ofender as criancinhas, e a editora Puffin contratou leitores para anotar tudo o que não seja linguagem inclusiva e reescrever os livros adaptando-os aos tempos actuais. Santo Deus, já estou a ver a professora que puxa as orelhas riscada das histórias e, assim, ser o senhor Dahl privado da graça que lhe achávamos quando víamos na nossa cabeça as orelhas tocarem o tecto. Além de que me parece realmente um abuso mexer na obra de alguém que está morto e não se pode defender. O que vale é que ainda há quem faça humor com estas atitudes, como poderão ver abaixo...


Em tempo: Já tinha o post programado quando leio que, devido a forte pressão internacional, a Puffin vai adiar estas medidas. Veremos se a pressão em sentido contrário não vai de novo mudar tudo...


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Excerto da Quinzena

[…]  a ocasião parecia assemelhar‑se ao «dar uma vista de olhos» que antecede um leilão muito publicitado e que entusiasma ou refreia, consoante os casos, o sonho de aquisição. O sonho de aquisição em Weatherend era mais do que improvável e, atendendo a isso, John Marcher deu por si tão desconcertado pela presença dos que sabiam demasiado como pela dos que não sabiam absolutamente nada. A sensação de peso que lhe causava toda a poesia e a história que impregnavam aqueles salões levaram‑no a afastar‑se para poder senti‑las de forma adequada, embora este impulso não se assemelhasse em nada à sofreguidão de alguns dos seus companheiros, que mais pareciam cães a farejar um aparador. Isto levou‑o rapidamente numa direção que não poderia, de forma alguma, ter previsto. Em resumo, levou‑o, no decurso daquela tarde de outubro, ao encontro de May Bartram, cujo rosto, uma evocação que não era ainda uma memória, uma vez que tinham ficado muito longe um do outro na enorme mesa do almoço, começara por perturbá‑lo vagamente de uma forma bastante agradável. Atingia‑o como se fosse a continuação de algo de que perdera o início. Ele conhecia aquele rosto, e acolhia‑o por enquanto com prazer, como se fosse a continuação de qualquer coisa, mas não sabia o que ele continuava, o que se tornava tão mais interessante ou divertido quanto pressentia igualmente – e sem qualquer sinal da parte dela – que a jovem não perdera o fio dessa meada. Não o perdera, porém não lho entregaria, percebeu, sem que ele avançasse primeiro a mão para o agarrar; e percebeu várias outras coisas, coisas bastante estranhas à luz do facto de que, quando o acaso os levou, no meio daquele grupo, a encontrarem‑se cara a cara, ele se debatia ainda com a ideia de que qualquer contacto anterior entre ambos não teria tido importância de maior. […]


Henry James, A Fera na Selva, trad. Ana Maria Pereirinha, Publicações Dom Quixote


 

Dar a volta à frase

No meu trabalho, estou constantemente a dar a volta às frases (minhas e dos livros que publico, sobretudo quando se trata de traduções muito literais). Tento que palavras, sons e  expressões não se repitam demasiado e procuro formas mais bonitas e apropriadas de dizer (a menos que o objectivo seja o contrário, porque o horrível também pode ser, afinal, bastante belo). Mas descobri recentemente uma história em que dar a volta à frase é toda uma outra coisa, e partilho-a convosco nestes dias em que ainda estou a chegar de um festival e tenho o trabalho todo atrasado. Quando Charlie Chaplin pediu Ooana O'Neil em casamento, tinha 53 anos e ela (caramba!) apenas 18. Chaplin disse-lhe: «Casa-te comigo, para que eu te possa ensinar a viver e tu me possas ensinar a morrer.» Ooana, porém, respondeu-lhe: «Não, Charlie, vou casar-me contigo para que tu me ensines a crescer e eu te ensine a ficares sempre jovem.» Viveram juntos trinta e quatro anos e tiveram oito filhos. Que maneira mais linda de dar a volta a uma frase.

Perder a virgindade

Em primeiro lugar, obrigada a todos os leitores do blogue que me enviaram felicitações. Não consegui agradecer antes, mas fiquei muito feliz. E agora voltemos ao real! Já aqui falei de certeza de Arturo Bandini, o protagonista de uma tetralogia do escritor norte-americano John Fante, que andava esquecido no mundo (injustamente, pois claro) mas foi repescado graças à circunstância de Charles Bukowski o ter como seu mestre. E ainda bem. Os livros que li de Fante (como um dos leitores deste blogue já tem sublinhado várias vezes nos seus comentários) são imperdíveis. E o segundo da tetralogia Bandini, Pergunta ao Pó, é igualmente admirável. Depois de termos visto Arturo Bandini, filho de imigrantes italianos a residir no Colorado, a chegar à adolescência e a assistir aos destemperos do pai em A Primavera Há-de Chegar, Bandini, temos agora o rapaz com vinte anos feitos. Quer ser escritor a vive num hotel barato em Los Angeles, cidade talvez grande demais para ele. E daí talvez não, porque desde que conseguiu vender um conto para uma revista, Bandini só pensa em tornar-se o mais importante escritor americano, que ganha prémios e é reconhecido pelos pares, pela crítica e, claro, pelas raparigas (na verdade, ele está mortinho por deixar de ser virgem). E, por falar em raparigas, Arturo sente-se tremendamente atraído pela mexicana Camilla Lopez, que lhe dá todas as chances de se perder com ela e ele não aproveita, porque sabe que Camilla prefere Sammy, um colega que não lhe liga nenhuma e é até bastante agressivo com ela. Mas, a par da natureza tão diferente de Arturo e Camilla (os seus encontros são sempre uma contradição do que sentem um pelo outro), há um assunto tabu que preocupa o nosso Arturo mas dará um fim precipitado à história, e à sua relação. A ler, absolutamente.

Correntes d'escritas

E lá chegou aquela época do ano em que correntes de escritores e livros se espalham como o vento pela Póvoa de Varzim! São dias e dias de actividades, visitas a escolas, mesas-redondas (no caso rectangulares), exposições, música e muito mais. Daqui a pouco, saio de Lisboa para norte e lá vou acompanhar autores que publico (a estreante espanhola Elisa Victoria, bem como os portugueses Paulo Moreiras, Isabel Rio Novo e Afonso Reis Cabral), mas desta feita também participar eu mesma de uma mesa na sexta à noite, com escritores, cantores e radialistas (alto lá) para falar de tudo e de nada a partir de um verso de um poema da querida Ana Luísa Amaral que este ano estará presente como homenageada e que nunca esqueceremos, sobretudo na Póvoa, onde tantas vezes estivemos com ela. A lista de autores presentes é longa, e o belo Teatro Garrett não vai chegar para sentar todas as pessoas interessadas em ouvi-los, algumas da própria Póvoa, claro, mas muitas que ali se deslocam todos os anos expressamente por causa das Correntes. Eu sou uma dessas e agora só estarei de volta no fim-de-semana, mas, como tirei férias de Carnaval, só me encontrarão neste blogue na Quarta-Feira de Cinzas. Prometo contar tudo nessa altura! Para quem queira saber o programa das Correntes, deixo o link abaixo:


https://www.cm-pvarzim.pt/territorio/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/correntes-descritas-2023/


 

O rei dos pícaros

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O autor do belo e hilariante A Demanda de Dom Fuas Bragatela está de volta com mais um romance pícaro e, claro, a não perder! Chama-se A Vida Airada de Dom Perdigote e conta que , por ocasião do baptizado do filho varão, Felipe III de Espanha, II de Portugal, promove festejos imperdíveis em Valladolid, sede da Corte e capital do império. E, se para aquele umbigo do mundo – onde desaguam todos os vícios, velhacarias e vilanias – concorrem nobres e ladrões, damas e rameiras, será mais do que certo que, depois de um périplo por Badajoz, Sevilha, Trujillo ou Toledo, siga também para lá Tanganho Perdigão Fogaça, conhecido por Dom Perdigote, a fim de cumprir o seu destino. Mas nem tudo se apresenta de feição a este espadachim nascido no ano em que morre Camões; claro que, entre as muitas peripécias vividas, encontra o amor da sua vida e conhece o pintor El Greco, o escritor Quevedo e até o autor do Quixote; porém, será envolvido na tentativa de assassinar um dramaturgo que integra a embaixada inglesa (não vos ocorre nenhum nome?), enviada para ratificar a paz entre as duas nações. Quem o irá salvar? Nós, os leitores? Porque este livro, tal como o seu antecessor, está aí para ser lido a partir de amanhã. Não o perca por nada deste mundo.


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Ceci n'est pas une pipe

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Existe um engraçado paradoxo que se estuda em matemática (paradoxo de Epiménides, se não me engano), no qual um homem diz: «Todos os cretenses são mentirosos.» O problema é que é ele próprio um cretense, pelo que as suas palavras têm de ser uma mentira... É também incrível como a expressão «Ceci n'est pas une pipe» escrita numa pintura de René Magritte debaixo justamente de um lindo cachimbo («pipe» em francês) se tornou famosa, na negação do próprio objecto representado. E é dentro desta mesmíssima linha que o escritor David Machado, com livros excelentes para crianças de todas as idades, publica agora em grande formato um livro que já foi muito pequenino e teve uma distribuição reduzida quando saiu pela primeira vez. Chama-se Parece Um Pássaro e é a história de um menino que, indo pela rua, vê pousar na sua cabeça um pássaro que não desanda apesar das tentativas. Ora, quando o rapazinho chega à escola e lhe perguntam o que tem na cabeça, incluindo a professora, ele responde que é um chapéu, o que dá origem a consequências muito engraçadas, tais como pedirem-lhe que, durante a aula, o chapéu fique quieto e calado. De resto, o livro foi traduzido em francês com o título Ceci n'est pas un chapeau, o que também faz algum sentido, sobretudo por o francês ser a língua do pintor belga René Magritte. Um livro mesmo delicioso.


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Manuais

Fui professora de Português durante uns anos e estive em escolas várias, com manuais escolares muito diferentes, uns melhores do que outros. Os livros por onde estudei eram, basicamente, livros de leitura e gramáticas, enquanto estes por que dei aulas já tinham tudo junto e também exercícios e, como então se dizia, «fichas de leitura» com perguntas de interpretação (para o caso de o professor não as saber fazer). Para mim, do que recordo, os melhores manuais eram aqueles cujos textos tinham potencial para se dar a matéria que estava a ser tratada; textos que, no fundo, se prestassem para darmos os advérbios, ou as palavras derivadas, ou certas figuras de estilo, ou a estrutura narrativa, e, ao mesmo tempo, veiculassem conhecimentos e informação interessantes, além de certos valores, infelizmente em declínio. Tinha de ser o professor, claro, a encontrar a melhor forma de coordenar estas diversas aprendizagens, mas hoje o professor recebe um maual em que lhe dizem exactamente o que fazer, dispensando-o de pensar pela sua cabeça, o que é tremendo. E, no entanto, não vejo ninguém preocupado com isto, sabendo, ainda por cima, que muitos professores agradecem que lhes façam a papa toda. Por outro lado, li recentemente um artigo no jornal Expresso sobre livros escolares que criticava por exemplo um manual em que, num texto sobre um passeio familiar, o rapaz andava de bicicleta com o pai e a irmã colhia flores com a mãe, acusando o dito de veicular estereótipos familiares e de género. Compreendo, mas para variar podiam preocupar-se também com o ensino da língua materna?

Jardim Tabucchi

A Câmara Municipal de Lisboa decidiu atribuir o topónimo Antonio Tabucchi ao jardim situado entre a Travessa da Piedade e a Travessa da Palmeira, e a cerimónia de inauguração decorreu na última sexta-feira. Próximo do Príncipe Real e da Praça das Flores, este Jardim Antonio Tabucchi é a homenagem mais do que devida a um escritor que, não sendo lisboeta, adoptou a cidade como sua, não apenas retratando-a em vários livros (desde logo no inesquecível Afirma Pereira), mas também escolhendo-a para fixar residência, numa rua bem perto do jardim que agora tem o seu nome. Considerado o mais português de todos os escritores italianos, Tabucchi nasceu em Pisa, onde fez os estudos, primeiro na Faculdade de Letras e depois na Scuola Normale Superiore. Ensinou nas Universidades de Bolonha, Roma, Génova e Siena e foi Visiting Professor no Bard College de Nova Iorque, na École des Hautes Études de Paris e no Collège de France. Publicou quase trinta livros, entre romances, contos, ensaios e textos teatrais. Recebeu numerosos prémios nacionais e internacionais. Mas, mais importante para nós, portugueses, traduziu e divulgou  no seu país a obra de Pessoa; e até escreveu um romance em português (Requiem)! Merece este jardim com o seu nome.


 

Corrigir e aperfeiçoar

Muitas vezes, quando estou a ler, descubro frases e expressões que poderiam ter sido corrigidas se o autor tivesse tido a possibilidade de meter o seu manuscrito na gaveta durante uns meses e, ao fim desse tempo, o relesse e revisse. Há frases tão desastradas que tenho a certeza de que os próprios autores dariam pelo descalabro se não estivessem tão apressados para entregar o texto para publicação. Um dia destes, por exemplo, no romance de alguém conhecido (não falo de nenhum jovem autor), encontrei uma passagem em que a personagem caminhava «na direcção» de alguém e se «dirigia directamente» a essa pessoa para lhe perguntar já não sei o quê. Mas ninguém deu por isto? Recuso-me a acreditar que foi de propósito, tão coxo ficou... Mas, bem sei, os escritores querem desembaraçar-se dos seus livros e dividi-los com o público assim que os dão por terminados. Li algures que o pintor francês Pierre Bonnard, que estava sempre a precisar de dinheiro, também vendia os quadros sem os «rever»; mas depois, ao que se conta, chegava a arrombar as casas dos compradores das telas e ia acabá-las ou aperfeiçoá-las às escondidas. Uma bela história que é também um exemplo de exigência. Só que aos escritores pede-se que façam isso antes de o livro impresso.

Cinema e literatura

António-Pedro Vasconcelos, cineasta e crítico de cinema, é também um amante da literatura e de boas histórias e, aliás, escreveu um livro sobre o futuro da ficção bastante profético (digo eu, que encontro, como ele, esta época em que vivemos muito pouco imaginativa), publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos com o título O Futuro da Ficção (já aqui falei dele). Mas, como homem lido que é, tem também o dom da palavra e é por isso que chamo neste blogue a atenção para um curso de História do Cinema que vai dar no El Corte Inglés já a partir do dia 7 de Fevereiro e até 17 de Março. São, diz o texto de apresentação, dez episódios e meio, do nascimento da Sétima Arte (com os Irmãos Lumière) até aos anos setenta (com os cineastas americanos que fizeram filmes sobre o Vietname e os que, como Spielberg, regressaram ao cinema de puro entretenimento). Pelo caminho, há sessões sobre o cinema mudo, o cinema de autor, o neo-realismo, o pós-guerra, as estrelas de cinema, o maccarthismo e muito mais. Se eu tivesse horário para ir, estaria lá caída. Até porque, pelo meio, há de certeza imensa literatura...

Excerto da Quinzena

Depois de todas as calamidades e ruindades que sobre mim se abateram, confesso que não estava à espera de um milagre desta natureza, nem acreditava na bondade do mundo, capaz de inverter a malfadada andança dos alcatruzes da minha desdita.


Mas quem haveria de me dizer, Vossa Senhoria, que todos estes prodígios tombariam sobre mim em terra tão distante das minhas origens e tudo por causa de um irmão que eu desconhecia existir, muito versado nas artes mecânicas e liberais de Caco, provando assim ser assaz verdadeiro aquele anexim que meu pai cochichava ao borralho, mais atestado do que um odre a seguir às vindimas, mirando minha mãe de esguelha, de que não há cão sem pulgas, nem linhagem sem ladrão ou puta.


Nascem uns com a cara virada para as boas estrelas, os bons fados, mas outros germinam com as nalgas espetadas para as más estrelas e os maus fados. Que potestade será essa que, nos acasos dos nossos dias, maliciosamente se esconde e assim manipula os astros do nosso fadário? Que deidade, ao longo do nosso transcurso, decide quais os Bojadores ou os Adamastores a dobrar?


Com estas e outras cogitações em mente, atravessei o Guadalquivir pela Puente de las Barcas em direcção ao bairro a que dão o nome de Triana, na outra margem do rio, e daí para o casinhoto de meu irmão, em San Juan de Alfarache, a fim de inaugurar um novo tempo, livre de tristezas, durezas e asperezas, que de abronhos já estava farto, sempre a viver, nos avessos da fortuna, o desconcerto do mundo.


 


Paulo Moreiras, A Vida Airada de Dom Perdigote (no prelo)

Um longo programa de actividades

Já aqui falei várias vezes na EC.ON, a escola de Escrita Criativa Online que tem sessões online, claro, mas também presenciais, e que não se fica por aí, pois faz ainda regularmente edição de uns livros breves com a chancela da Nova Mymosa. Já colaborei uma vez na pequenina colecção de poesia (durante a pandemia, creio) e li vários contos publicados na colecção de ficção, que tem um formato mais próximo de um caderno. Mas vem aí a novidade do Ensaio (pelo menos para mim é novidade), na qual um conjunto de autores extremamente ecléctico foi desafiado a pensar sobre o nosso tempo. Os livros desta «Pensar a tempo» sairão ao longo do ano e serão escritos por Afonso Cruz, Mário de Carvalho, Cláudia Lucas Chéu, Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Carlos Fiolhais, Hélder Macedo, Irene Pimentel, Luís Quintais, Marta Bernardes, Nuno Júdice e Valério Romão. Vale a pena acompanhar as outras actividades, que incluem apresentações, debates, cursos e um clube de leitura, este ano conduzido por Afonso Cruz. Pode consultar o programa no link abaixo.


http://escritacriativaonline.net/

O que ando a ler

Um dos livros mais incríveis que li sobre uma relação amorosa entre pessoas de idades diferentes foi, sem sombra de dúvida, A Única História, do querido Julian Barnes. No caso, o jovem pequeno-burguês que a mãe inscreve no clube de ténis com o intuito de que ele arranje uma namorada com posses e estatuto é um feitiço que se vira contra o feiticeiro, porque o rapaz se apaixona por uma balzaquiana e ainda por cima casada. E, não bastando o desgosto da mãe, ele próprio fica destroçado com aquela relação, ao ponto de a mulher mais velha se tornar «a única história» de amor da sua vida. É também neste sentido (uma mulher mais velha com um rapazinho trinta anos mais novo) que vai o mais recente livro de Annie Ernaux, publicado em França pouco antes de a autora francesa saber que ganhara o Prémio Nobel da Literatura: uma mulher de 54 anos (a própria escritora) acaba por se envolver com um jovem tímido (O Jovem é mesmo o título do livro) que é seu admirador e, por acaso, vive em Rouen, o lugar onde ela estudou e aonde regressa para reviver muitos episódios de juventude (entre eles o do aborto tratado em O Acontecimento). Mais do que uma relação amorosa, é, contudo, um regresso a uma vida passada, às memórias da juventude; e, tal como no livro de Barnes, não há o cliché de a mulher mais velha ser abandonada pelo rapaz novo, mas a novidade de deixar o «jovem» ciumento e inconsolável. Na verdade, lê-se numa hora ou duas, é um conto longo, nem mesmo uma novela, e as páginas restantes são fotografias da autora de quando teve o caso e mais elementos biográficos.