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A mostrar mensagens de novembro, 2016

Uma família em Istambul

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Já toquei o assunto deste livro na semana em que saiu para os escaparates, mas faz sentido trazê-lo de volta, uma vez que hoje fazemos o seu lançamento público em Lisboa. A Escada de Istambul, assinado por Tiago Salazar – um viajante que decidiu dedicar-se finalmente à ficção – fala-nos de uma família muito especial, a dos judeus Camondo que, sucessivamente expulsos das cidades onde se foram instalando ao longo do tempo (na Península, em Itália, na Turquia), acabaram por conseguir regressar a Istambul e praticar a filantropia e o ensino livre das religiões enquanto fabricavam fardas para a tropa do sultão otomano. No seu rasto, deixaram, entre colecções fascinantes de obras de arte e peças de mobiliário e decoração extremamente valiosas, duas escadas muito especiais, destacando-se a de Gálata, bairro da cidade turca, a que Tiago Salazar foi dar numa das suas viagens e cuja história o levou até este romance. E, quando atrás disse “rasto”, foi porque os rastos são tudo o que hoje podemos encontrar destes Rothschild do Oriente, ricos e sábios, mas infelizmente condenados ao desaparecimento nos tempos tenebrosos do Holocausto. O livro, não por acaso, é apresentado mais logo por Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Apareçam!


 


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Madrid me mata

Às vezes precisamos de uma boa notícia para nos animar – e uma boa forma de internacionalizar a literatura portuguesa, que é a que eu mais pratico, é vê-la ser destacada e celebrada num país estrangeiro. Melhor ainda é isso acontecer num país que não parece ter-lhe ligado grande coisa durante muito tempo, quiçá devido a inimizades ancestrais (quando eu andava na escola, a Espanha ainda era descrita como um país inimigo, calculem) ou a qualquer outra razão que agora não importa desenvolver. Portugal e Espanha já se deixaram disso e andam actualmente muito mais próximos, tendo havido nos últimos tempos mostras várias da cultura portuguesa na capital espanhola. E a boa notícia é que Portugal será o convidado que se segue da Feira do Livro de Madrid, a 76ª, que terá lugar no Parque do Retiro em 2017 e será uma óptima oportunidade para os editores portugueses apresentarem os seus autores no país vizinho. O único senão? As datas: é que esta feira acontece mais ou menos ao mesmo tempo da Feira do Livro de Lisboa (entre 26 de Maio e 11 de Junho) e eu não estou bem a ver como ser ubíqua... No entanto, vai ter de dar para tudo, que ocasiões como esta não se podem perder.

Tinto ou branco?

Vem aí mais um festival literário, desta vez em Viseu, que tem como objectivo celebrar a velha relação entre o vinho e a literatura (desta vez, nada tem que ver com escritores que bebem, mas com a referência a vinhas e vinhos nas suas obras). Integrado num programa intitulado «Vinhos de Inverno», este Tinto no Branco (vejo aqui uma associação à tinta no papel) inicia-se já no próximo dia 2 e vai até dia 4, tendo por mote o romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e como convidados, entre outros, os escritores Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Daniel Jonas, Frederico Lourenço, Inês Fonseca Santos, João Tordo, Paulo Moura e o jornalista Pedro Marques Lopes. Haverá sessões de leitura de poesia «às cegas» (tal qual como as provas de vinho), e o ilustrador Paulo Galindro vai levar o vinho até à sua paleta para certamente nos surpreender. Pode-se lá perder uma festa destas…

Relembrar

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O jornalista Joao Morales quer tirar muitos livros do esquecimento, uma vez que as livrarias já não coseguem mostrar senão as novidades e há títulos e autores que correm  o risco de não voltarem a ser lidos e falados, uma espécie de morte completamente imerecida. Vai daí criou uma actividade que decorre mensalmente na Livraria Almedina, ao Saldanha, em Lisboa, para a qual convida normalmente duas pessoas que ali vão partilhar com o público as suas leituras desde a infância e alguns livros que leram e dos quais já pouco gente se lembra. Sim, é uma espécie de «ressurreição» de obras literárias e, por isso, Morales chamou à iniciativa Recordar os Esquecidos (na qual já participei há coisa de um ano com João Paulo Cotrim e pilhas de livros). Amanhã às 18h00 quem vai estar a mostrar os seus livros equecidos são dois autores da nova geração: Nuno Costa Santos e Nuno Camarneiro. Vale a pena irmos ouvir os seus livros lembrados.


 


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Leitores cegos

Tenho um grupo de amigos desde há muito, e uma dessas amigas, que tem um terrível humor negro, um dia decidiu inventar que todos nós iríamos envelhecer mal – excepto ela, evidentemente, que ficaria generosamente a tomar conta dos outros... A mim vaticinou-me uma espécie de cegueira progressiva (ela lá sabia que eu, sem ler, não conseguiria ser feliz); e, não contente com isso, ameaçou que, mesmo que eu aprendesse a ler livros em braille, mos passaria a ferro se eu me portasse mal… Com amigos assim, quem precisa de inimigos? Mas não se escandalizem, fazia tudo parte de uma brincadeira de velhos amigos (e garanto-vos que rimos até já não podermos com dores de barriga). Lembrei-me dela, aliás, por ler que a Secretária de Estado da Inclusão de Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, ela própria cega, prometeu que tudo fará para que no Plano Nacional de Leitura, mais cedo ou mais tarde, sejam incluídos livros em braille, uma vez que o PNL ainda não abrange «crianças invisuais» e estas têm tanto direito a ler como quaisquer outras. Uma boa decisão, digo eu (de que até poderei beneficiar se os vaticínios da minha amiga se concretizarem).

Acordo, desacordo

Aqui há uns anos, quando se «instalou» o malfadado Acordo Ortográfico, uma das coisas que mais celeuma levantou foi o facto de se tirarem os «c» e os «p» em palavras como «acto», «tecto» ou «excepção», por exemplo. Esse rasgão, dizia-se, afastaria as palavras da sua raiz latina («ato» seria igual à forma verbal da primeira pessoa do singular do verbo «atar» no presente do indicativo…). Ficámos todos com a sensação de que o que se pretendia era aproximar a ortografia portuguesa da brasileira e que, de alguma forma, havia aqui um lado de «submissão» do país pequeno ao país maior por razões que agora não interessa explicar (mas não eram as pertinentes). Num livro de um autor português que uma editora brasileira quis publicar, afadiguei-me, pois, a tirar estes «c» e «p» a mais (com o acordo do autor, claro) antes de mandar o ficheiro (e um pouco em troca de não me mudarem mais nada); mas, quando chegou o texto paginado para nossa revisão, vi enfim a tolice daquele propósito do AO de aproximar as duas ortografias… É que eu tinha tirado os «c» e os «p», mas os editores brasileiros voltaram a pô-los em palavras como «expectativa», «perspectiva» e «espectro» (em que pronunciam o «c») e em palavras como «decepcionar», «recepção» e «excepcional» (em que pronunciam o «p»). Enfim, para que foi aquilo, afinal?

Invasores

Leio um interessante artigo de José Carlos Fernandes no Observador sobre a rapidez com que muitos vocábulos de língua inglesa estão a invadir o português, alterando o sentido que dávamos a palavras da nossa língua. Diz o autor que, por exemplo, «antecipar» sempre significou o contrário de «adiar», mas que, por causa do «antecipate», o verbo é agora usado por muita gente com a acepção de «prever», «esperar» ou «adivinhar», e não raro os nossos economistas «antecipam» a descida das taxas de juros e os promotores de espectáculos «antecipam» o sucesso de um concerto… Outa expressão que já entrou no nosso uso é «por defeito», uma tradução atabalhoadíssima de «by default» (que o Oxford English Dicitionary define como «por falta de oposição»); a expressão «por defeito» em português é muito antiga e significa «um valor aproximado e inferior àquele que é tomado como referência», portanto, nada que ver com defeitos de qualquer espécie. Há mais casos, claro, e o que me mais me põe os cabelos em pé é o «realizar» no sentido de «aperceber-se»… Vamos por isso fazer um esforço para não importar mais vocábulos invasores e usar os nossos, que ainda se extinguem. Combinado?

Uma dúzia

A revista Estante, da FNAC, pediu recentemente a um grupo de cinco pessoas que elegesse as obras maiores da narrativa portuguesa dos últimos cem anos. Estes cinco elementos do júri eram as jornalistas Clara Ferreira Alves e Isabel Lucas, o professor da Universidade de Coimbra Carlos Reis, o editor (e, por acaso, meu marido) Manuel Alberto Valente e o crítico Pedro Mexia (não fiquem já de cabelos em pé as feministas, que as mulheres até estavam bastante bem representadas para o que é costume). Lamento dizer que não li o primeiro – A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro (mas ainda vou a tempo) – e, em relação aos outros onze escolhidos, não posso senão assinar por baixo e recomendá-los aos leitores aqui do blogue, mesmo que um ou outro não me encha as medidas (mas o problema deve ser meu). Então, aqui vai a lista: O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares; Para Sempre, de Vergílio Ferreira; Sinais de Fogo, de Jorge de Sena; Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio; Húmus, de Raul Brandão; Finisterra, de Carlos de Oliveira; A Sibila, de Agustina Bessa Luís; Os Passos em Volta, de Herberto Helder; Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes; O Delfim, de José Cardoso Pires; O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Uma dúzia de livros para ler e reler.

Maus hábitos

Na história da literatura, houve muitos escritores que bebiam demais – e basta ler o livro de Hemigway Paris É Uma Festa para perceber que a festa incluía mesmo muito álcool (sobretudo vinho, que era o que Hemingway nesses primeiros tempos podia pagar). Os poetas simbolistas eram valentes bebedores de absinto (a «fada verde») – Rimbaud, ao que parece combinava-o com haxixe – e bebiam-no às cinco em ponto como se fosse chá. Scott Fitzgerald era alcoólico, o que afectou a sua produção literária. Faulkner tinha a febre das apostas em corridas de cavalos – e muitos outros autores gostavam do jogo (Dostoievski, evidentemente!). O cigarrinho também esteve muitas vezes na mesma mão que segurava a caneta; num livro muito giro de Javier Marías chamado Vidas Escritas que li há anos – e, se não me engano, colige crónicas que o espanhol escreveu num jornal – descobri que Joseph Conrad deixava constantemente cigarros acesos nos cinzeiros e teve várias ameaças de incêndio em casa. Fumava também Cortázar (fotografado de cigarro na mão tantas vezes) e o peruano Julio Ramón Ribeyro, que até escreveu um conto chamado «Só para Fumadores». E fumavam Duras, Beckett, Camus, Orwell, Henry Miller, Octavio Paz e muitos, muitos outros. Se os ajudaram a escrever o que escreveram – e acredito que sim – vivam os maus hábitos…

Arquivo

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Quando gostamos muito de uma livraria, gostamos também de lá ir uma e outra vez. É o caso desta minha visita à Livraria Arquivo, em Leiria, logo à tarde, com dois autores que têm uma relação muito especial. Pois é, ele há coisas… No ano passado, quando publicámos no site da LeYa os títulos e pseudónimos dos finalistas do Prémio LeYa, descobrimos pouco depois que dois deles eram… pois, namorados! Olha a grande coincidência… Isabel Rio Novo, que escreveu Rio do Esquecimento, um romance algo camiliano que publiquei em Fevereiro deste ano, e Paulo M. Morais, que chegou à final com uma novela que quis rever e de quem, antes dela, publiquei Uma Parte Errada de Mim, concorreram ambos ao prémio – e nem tiveram de discutir por um ser melhor do que o outro, já que ambos chegaram ao fim na mesma posição. Não será evidentemente sobre esta história – mas também a abordaremos, porque não? – que hoje vamos estar na Arquivo, mas sobre os livros que ambos escreveram e o acto de escrever ficção e não-ficção. Se estiver por perto, vá lá ouvir-nos e perguntar o que quiser.


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Prémio para Língua

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Na sexta-feira passada, fui agradavelmente surpreendida pela notícia de que Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, vencera o Prémio PEN de Narrativa (que será entregue já no próximo dia 29). Falei-vos deste livro certamente há um ano, quando o publiquei, mas aproveito agora a «embalagem» do galardão para vos dizer que a votação do júri foi por unanimidade, o que não deixa dúvidas sobre a qualidade do romance (uma coisa é o editor dizer bem dos seus livros, outra é isso ser confirmado por um júri idóneo). Mário Lúcio Sousa já tinha publicado antes na Dom Quixote O Novíssimo Testamento (também premiado), e Biografia do Língua (que vencera o Prémio Miguel Torga na sua versão inédita) é a história de um condenado à morte a quem os carrascos oferecem a possibilidade de realizar um último desejo e que então pede para contar uma história. O problema é que não só a história parece não ter fim como acaba por atrair tantos ouvintes de tantas partes que dá lugar ao nascimento de uma nova sociedade ligada pelas histórias. Parabéns, Mário Lúcio Sousa, por mais um prémio!


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Dias desassossegados

A partir de amanhã e até ao dia 30 de Novembro (data da morte de Fernando Pessoa e do aniversário da Casa que tem o seu nome) celebram-se uma vez mais os Dias do Desassossego com numerosas actividades que vão desde a promoção da leitura aos debates, concertos, passeios literários e declamação de poemas. A iniciativa, que nasce de uma parceria da Casa Fernando Pessoa com a Fundação José Saramago, vai ter eventos pessoanos e saramaguianos para todas as idades – e um dos mais giros será seguramente o Contatininhas, de Luís Carmelo e Nuno Morão, para crianças a partir dos 4 anos, sobre trava-línguas e fábulas ao som de uma concertina. Mas a Fundação José Saramago receberá a peça A Ilha Desconhecida, do nosso Nobel da literatura, alguns músicos vão mostrar com instrumentos como interpretam o que lêem, especialistas vão partilhar experiências sobre a melhor forma de dar a ler, Pessoa e Saramago vão andar por aí a mostrar-se de todas as maneiras e feitios pelas ruas de Lisboa. Se estiver interessado, deixo aqui o programa completo. A entrada é gratuita.


http://www.josesaramago.org/programa-dias-do-desassossego16/


 


 

A literatura contra o trânsito

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Quem mora e/ou trabalha na capital anda por estes dias com os nervos em franja. Não só a cidade está toda em obras – obras que acontecem em todo o lado ao mesmo tempo e que neutralizaram muitas zonas de estacionamento –, como o trânsito está tão insuportável que mesmo os de índole mais paciente não podem deixar de perder a calma, vociferar, chegar a casa zangados ao fim de um dia de trabalho. E quem não mora em Lisboa sabe-o pelos jornais, pois não param as críticas à Câmara por esta bizarra operação de estética global. Temos de fazer alguma coisa… No Canadá, a literatura decidiu virar-se contra o trânsito (a literatura até para isto serve, calculem) e vários artistas inundaram as ruas com 10 000 livros, numa espécie de manifestação chamada Literature vs Traffic criada por um grupo que se autodenomina Luzinterruptus e que pretende levar a cultura a lugares que são marcados pela poluição e a velocidade. Encheram literalmente o alcatrão de livros iluminados (doados pelo Exército de Salvação) e deixaram-nos lá para quem quisesse ir buscá-los e lê-los. A «instalação» só durou dez horas (a rua era necessária à circulação de carros na manhã seguinte), mas a imagem diz que valeu a pena.


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Ler ou escrever

Dizem que não é possível escrever sem ter lido e que as duas actividades são indissociáveis. Concordo, evidentemente. Calcula-se também que os escritores sejam as pessoas que mais lêem – e é verdade, basta ouvir Lobo Antunes a citar de cor tantos poetas e romancistas de cada vez que fala do que é escrever. E, porém, um dia, numa sessão dedicada à literatura em que participavam três ou quatro escritores, o moderador perguntou-lhes o que estavam a ler nesse momento e uma das intervenientes hesitou tanto que o público percebeu imediatamente que não estava a ler coisa nenhuma e, como dizem os brasileiros, «pintou um mau clima»; emendar a mão e oferecer dois ou três títulos estranhos – e franceses! – não ajudou ninguém a mudar de opinião... Muitos escritores dizem que, quando estão mergulhados num romance novo, simplesmente não lêem: estão tão colados às suas personagens que não conseguem estar com as dos outros – e não há mal nenhum nisso, até porque confessá-lo abertamente evitaria alguns incómodos como o que referi. Ouvi alguém dizer que Cardoso Pires, por exemplo, só lia revistas e literatura barata quando estava a escrever um romance – e se calhar os seus romances beneficiaram dessa atitude. Mas... deixar de ler? Temer as influências? Viver apenas com o próprio texto? Haverá coisa mais inspiradora para quem escreve do que a escrita alheia? Eu teria uma enorme dificuldade em agarrar-me ao meu texto e deixar o dos outros de fora, ou em não ler durante meses se estivesse a escrever um romance. Mas também sou preguiçosa para a escrita e prefiro a leitura. Nunca poderia ser uma escritora a sério, em suma. Bom fim-de-semana.

À mesa em Coimbra

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Não, não vou falar de nenhum restaurante dessa cidade que será eternamente famosa pela sua Universidade. Quando escrevo «à mesa» no título deste post estou, antes de mais, a pensar que logo à tarde estarei sentada a uma mesa para, em suma, lançar mais um livro, que por acaso até fica bem à mesa porque fala de comida. É essa maravilha que já aqui referi no mês passado – Cinco Séculos à Mesa, de Guida Cândido –, um belíssimo receituário que recupera iguarias que podem ter 500 anos mas são perfeitamente confeccionáveis nas nossas modernas cozinhas (fique a saber que o arroz-doce é uma delas, mas há delícias para todos os gostos e as fotografias fazem crescer água na boca). O livro, no entanto, é muito mais do que isso, ou não fosse a sua autora uma especialista em História da Alimentação, e traz uma saborosa introdução sobre hábitos alimentares, tradições, métodos de confecção e ementas ao longo de cinco séculos, para que o leitor saiba, por exemplo, que nem sempre foi possível comer batata ou quais os peixes iam à mesa da Infanta D. Maria. Se se interessa por estas matérias – e, sobretudo, se está ansioso por provar alguns destes sublimes manjares –, esperamos por si hoje às 18h30, na FNAC de Coimbra, onde quem souber ouvir a Professora Maria José Azevedo Santos, que apresenta a obra, terá direito, pois claro, a uns petiscos. Apareça!


 


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100 anos

Falei-vos há tempos do centenário de Vergílio Ferreira. Mas comemora-se este ano o centenário do nascimento de um outro escritor, Mário Dionísio, que também foi artista plástico e professor na Faculdade de Letras (se não me engano, dava aulas de Técnicas da Expressão do Português quando tirei o curso, e os alunos tinham-lhe muito respeitinho). Foi, aliás, nesta Faculdade – e igualmente na Casa da Achada (onde funciona o Centro Mário Dionísio) e ainda no Museu do Neo-Realismo – que recentemente se realizou um congresso dedicado a este autor, um dos mais importantes e polémicos teóricos do movimento neo-realista. A sua Poesia Completa foi recentemente publicada pela Imprensa Nacional num só volume com cerca de 500 páginas e uma introdução do encenador Jorge da Silva Melo; e o seu espólio, devidamente tratado e catalogado, pode ser encontrado e consultado na Casa da Achada, ali à Mouraria, que hoje é um lugar de culto dirigido por Eduarda Dionísio, sua filha e também escritora. Num tempo em que «quem não aparece esquece», a efeméride é um bom pretexto para visitar ou revisitar a obra de Dionísio.


 

Central Madrid

As pessoas que gostam de livros têm sempre coisas em comum... Um destes fins-de-semana, aproveitando o feriado e a ponte, fomos a Madrid, o Manel e eu. E, estando lá, não pudemos deixar de visitar livrarias como outros visitam museus ou lojas (e nós também, mas no dia seguinte). Tínhamos conhecido uns anos antes uma livraria fantástica em Barcelona, daquelas que já não encontramos em Lisboa, chamada La Central, e alguém dissera ao Manel que havia agora também uma La Central na capital espanhola, pelo que estávamos com água na boca para a conhecer. Fomos e, claro, comprámos livros. A loja de Barcelona que tínhamos visitado é mais bonita, mas esta tem igualmente aquelas coisas que já não se encontram nas FNAC e similares, e cheira a papel e chão encerado em vez de cheirar a ladrilhos e telemóveis. No dia seguinte, encontrámo-nos com dois amigos que descobrimos estarem também em Madrid nesse fim-de-semana, o Nuno e a Manuela Júdice. E, quando lhes perguntámos que planos tinham para aquela manhã, a resposta foi rápida: La Central, claro. Fomos outra vez. As pessoas que gostam de livros têm sempre coisas em comum.

Dialogar com o corpo

Há muitos anos, em conversa com um psiquiatra sobre as razões que levam tantos jovens ao suicídio, ele explicou-me que, em muitos casos, longe de se tratar de amores mal resolvidos – ideia um tanto romântica essa de morrer de ou por amor –, eram situações em que os implicados tinham uma má relação com o próprio corpo, alguma coisa nele que não conseguiam aceitar (e a verdade é que conheço pelo menos dois casos em que isso era verdade). Disse-me ainda que, quando uma mulher muito magra se acha gorda e não pára de falar nisso, é preciso estar atento, porque pode ser um sintoma de que está desencontrada do seu corpo, e nunca se sabe aonde isso pode levar. Li recentemente um pequeno livro de poesia de uma jovem autora espanhola,  Elisa Levi, que é, a este título, magistral. Chama-se Perdida en un bol de cereales e reflecte sobre o desencontro entre a cabeça e o corpo (os seus, presumo) de uma forma em que ambos dialogam (ou o corpo escuta e a cabeça fala) e, por isso, o tu nunca deixa completamente de ser o eu. É uma recolha de poemas breve, mas intensa,  em que alguém mostra que consegue fazer as pazes com o corpo desavindo e segue em frente. Sei que não será fácil encontrar essa colectânea nas nossas livrarias, mas a rede global apanha tudo e acredito que ajude todos aqueles que em algum momento andaram por aí desencontrados do corpo e da identidade, especialmente os mais jovens. Recomendo vivamente.

Escritores online

Se quer saber alguma coisa sobre um escritor português de quem gosta, morto ou vivo, tem dois bons instrumentos à sua disposição. A Base de Dados de Autores Portugueses, da responsabilidade da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que inclui cerca de 5000 autores (há tantos? Não sabia) e foi construída com base no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses que foi publicado entre 1983 e 2001 e, a partir daí, passou a estar apenas online mas é permanentemente actualizado; e a novíssima plataforma escritores.online, que se centra nos autores contemporâneos, fornecendo informação biobibliográfica, fotografias, links para os respectivos sites e blogues, excertos de obras, entrevistas, notícias e até vídeos enviados pelos próprios escritores, pois muitas vezes a saída de um novo livro gera eventos interessantes e pequenos videoclips elucidativos. Por isso, quando andar à procura de um título de que já se esqueceu, ou quiser averiguar em que cidade ou ano nasceu determinado autor, tudo o que publicou e quando se realiza o lançamento do seu próximo livro, tem aqui tudo aquilo de que precisa. Quer ir espreitar? Os links são estes:


http://escritores.online/


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores.aspx


 


 

Escritores extraordinários

Calculo que, entre os Extraordinários leitores deste blogue haja numerosos escritores, gente que gosta de contar histórias e de exercitar a pluma e que, como todos os que começam, tenha dificuldade em ver a sua primeira obra publicada. Mas existe por aí um prémio anual interessante para abrir portas; destina-se a quem tenha uma novela, um pequeno romance, pronto até Março do ano que vem. Trata-se do Prémio Nacional de Literatura Lions 2016/2017, o seu valor é de 2500 euros e, através dele, a Associação Internacional de Clubes Lions pretende estimular e divulgar a produção literária junto do público em geral. Os interessados devem entregar cinco exemplares impressos das suas obras na Rua Basílio Teles, nº. 17 – 3º. C, 1070-020 Lisboa, ou na Rua Brito Capelo, 223 A, 4º. Piso, escritório 18, 4450-073 Matosinhos, ou enviá-las por correio registado para uma dessas moradas. A data limite da entrega é o dia 15 de Março de 2017. Têm, como vêem, ainda muito tempo. O regulamento do concurso pode ser consultado no link abaixo. Isto é o que se chama um post preguiçoso, bem sei.


 


http://www.lionsclubes.pt/dm115/images/stories/lit-prix.pdf

No Chiado

Eu sei que hoje era dia de dizer o que ando a ler, mas há duas razões para que não cumpra o que se tornou uma rotina aqui no blogue. A primeira é que ando há dias e dias a ler letras de fado por causa de um projecto em que estou envolvida (tenho, claro, um romance à cabeceira, de Juan Marsé, mas estou nas primeiras páginas e, por isso, só falarei dele mais tarde); a segunda é que hoje há uma sessão na Livraria Bertrand do Chiado às 18h30 que me parece a todos os títulos excepcional e achei que devia partilhá-la com os Extraordinários, acreditando que algum deles ali queira deslocar-se. Ler no Chiado – assim se chama a iniciativa que é há muito conduzida por Anabela Mota Ribeiro – traz este mês a vocalista dos Deolinda, Ana Bacalhau, acompanhada por André Santos, para cantar «Livros» de Caetano Veloso e Pedro Lamares para ler poemas de Sophia. Falará sobre a poetisa Carlos Mendes de Sousa, que organizou a sua Obra Poética. Vai ainda ser exibida uma curta-metragem de 1969, realizada por João César Monteiro, sobre Sophia – e, como se tudo isto não bastasse, espera-se que apareça e diga o que lhe apetecer esse pensador que todos adoramos chamado Eduardo Lourenço. Então, não acham que fiz bem?