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A mostrar mensagens de abril, 2020

Clima de guerra

Nas vésperas de ser imposto o confinamento, os Portugueses já andavam transidos de medo e aconteceram duas coisas: no fim de semana de 14-15 de Março, as ruas ficaram vazias, como em Agosto, e os supermercados foram «assaltados», ficando com muitas prateleiras vazias. Lembro-me de que, quando precisei de legumes para a sopa dois dias depois, os stocks ainda não tinham sido repostos e senti-me em verdadeiro clima de guerra. Mas, embora o vírus seja muito difícil de conter e combater, embora seja um inimigo desconhecido e dissimulado, a verdade é que a situação dos fornecimentos de géneros alimentares se normalizou rapidamente depois desse primeiro susto, enquanto durante as duas maiores guerras que assolaram a Europa isso não aconteceu, e a fome grassou por todo o lado (mesmo em Portugal, que não entrou na Segunda Guerra Mundial, houve racionamento). A LeYa fez uma campanha para mostrar que já houve tempos bem piores do que os que atravessamos, só com livros sobre as duas Guerras Mundiais, e pode encontrar entre eles ficções dos geniais Primo Levi, Italo Calvin ou Gunther Grass, mas também biografias de Hitler ou Leni Riefenstahl, ou mesmo livros para jovens e crianças como O Rapaz do Pijama às Riscas ou O País das Laranjas, bem como obras de autores portugueses que tive o gosto de publicar: Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, ou Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios. Vão lá espreitar, que vale muito a pena, pois há grandes descontos em livros de fundo e títulos para todos os gostos. Até 10 de Maio.


https://www.leyaonline.com/pt/promocoes/grandes-guerras-ate-50-desconto/


Amanhã é feriado,volto segunda. Vou então recomendar, a propósito desta campanha, O Sistema Periódico, de Primo Levi, que eu própria traduzi com 29 anos; uma autobiografia literária que parte de elementos químicos para nos falar de uma vida muito rica e acidentada, que também passou por Auschwitz. Bom fim-de-semana.


 


 

Criar à distância

Faço muitas vezes letras de fados e canções para artistas que não conheço pessoalmente, mas que já ouvi cantar, nem que seja no YouTube. Há já uns meses que estou a trabalhar num projecto com um compositor cujos nome e trabalho conheço há séculos, embora nunca tenhamos sido apresentados; e, apesar de termos planeado encontrar-nos para acertarmos detalhes e nos olharmos olho no olho, veio o estupor do Coronavírus e já não foi possível (entretanto, o trabalho avança). É estranho criar com alguém que não vemos (e não me venham, por favor, falar do Zoom e do Skype, que não é nada a mesma coisa). Há cerca de duas semanas fui convidada para inspirar uma obra plástica à distância num projecto da Bienal de Cerveira. Estou entre 15 escritores que farão um texto com apenas 15 palavras para 15 artistas partirem deles para... criar uma obra em confinamento. E mais uma vez não conheço pessoalmente o artista que me calhou: Isaque Pinheiro. Vamos lá ver o que isto vai dar. Deixo-vos um link com os pormenores.


https://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/artistas-e-escritores-criam-a-distancia-em-projeto-da-bienal-de-cerveira?fbclid=IwAR0AErtmoVMDuWIJJd27JB5DnoOICUW6vr9vALgFe6NA127y9-3jDvC_VlY#_swa_cname=sapomag_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook&utm_source=facebook&utm_medium=web&utm_campaign=sapomag_share


Hoje vou sugerir poesia, já que foi com poesia que colaborei para a Bienal de Cerveira. Leiam então, por favor, Epílogo, de José Agostinho Baptista. A sua obra mais completa possível. E tudo tão bom.

Contos da Quarentena

No Brasil já saiu uma antologia de contos da quarentena. Cá, embora esteja imensa gente a escrever sobre o assunto (falo de profissionais da escrita, bem entendido), no geral, esses textos e capítulos de romances colectivos têm sido publicados quase exclusivamente nas redes sociais. Porém, a Livraria Lello decidiu agora propor um concurso de contos para escritores anónimos, portugueses e não só, baseados na temática do confinamento. «Os contos apresentados a concurso deverão focar-se nas experiências individuais durante o período excepcional que vivemos devido ao Covid-19», dizem os organizadores, acrescentando que os seis melhores contos ganharão cada um um prémio de mil euros e serão publicados numa colectânea pela Livraria Lello. As inscrições e submissão dos textos devem ser feitas através do formulário que a Lello disponibiliza em https://bit.ly/2V31w8n até dia 31 de Maio de 2020. O regulamento pode ser lido aqui: https://bit.ly/2RC0tKs. Tenho a certeza de que, entre os Extraordinários, haverá candidatos.


Hoje recomendo um romance que adorei e li muito antes de saber que dele fariam um filme (por sorte, igualmente bom). Trata-se de O Doente Inglês, do canadiano Michael Ondaatjie. As partes que não entram no flme (a solidão no deserto seria muito difícil de fixar em imagem sem resultar aborrecida) são absolutamente geniais de ler. A tradução é de Ana Luísa Faria.

Próximo Capítulo

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Para comemorar o Dia do Livro, que aqui assinalei na semana passada, a LeYa criou um Clube de Leitura chamado Próximo Capítulo, no qual os interessados se deverão inscrever até ao próximo dia 5 de Maio (deixo o endereço abaixo). Não é um clube no sentido daqueles clubes que enviavam para casa uma revista e obrigavam à compra de um livro ou mais (eu fui sócia do Clube Juvenil Verbo e os meus irmãos mais velhos do Círculo de Leitores); é uma proposta de partilha, conversa e debate à volta de uma obra de ficção ou não-ficção, semelhante àquilo a que alguns chamam vulgarmente comunidade de leitores, mas orientado pelos editores da LeYa (lá chegará a minha vez também). Os inscritos serão informados sobre os livros a ler (e como adquiri-los com condições exclusivas) por e-mail, bem como sobre as datas dos encontros que, numa primeira fase, se farão através de plataforma digital e, mais adiante, quando o vírus tiver debandado, presencialmente. Vá dar uma espreitadela e junte-se a nós. Como dizia C.S. Lewis, «lemos para saber que não estamos sozinhos». Ora, isso vai sentir-se de forma muito clara no Próximo Capítulo.


proximocapitulo@leya.com


https://www.leya.com/pt/noticias/proximo-capitulo-o-nosso-novo-clube-de-leitura/


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Em tempo: são 15h30 e reparo que hoje me esqueci de aconselhar a leitura de um livro. Mil perdões. Desgraça, de J. M. Coetzee, Prémio Nobel da Literatura. Um grande livro.


 

Crónica, crise e estantes

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Queridos Extraordinários, hoje é dia de crónica e está aí o link. Uma nota: é a última crónica... O jornal Diário de Notícias avisou-me delicadamente de que não iria poder pagar-me neste momento tão difícil para toda a comunicação social e a crónica ficaria suspensa por dois meses; se as coisas melhorassem em Junho, talvez regressasse às suas páginas. Mas, uns dias depois de ter sido «notificada», a mesma direcção que me convidou demitiu-se, não aguentando a imposição de tantos cortes... Por isso, não vejo hipótese de voltar com o meu Adeus, futuro. E tenho pena, estava a gostar mesmo muito de olhar para trás e para diante e de chamar a atenção para tanta coisa que aí vem que não vai ser como gostaríamos. Enfim, também sei que é mais importante pagar salários do que pagar a colaboradores. Despedi-me com cinema.


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-abr-2020/cineminimo-12026139.html


Para não ser tudo tão triste, aqui vai uma graça que encontrei por aí. Todos os comentadores de TV aparecem agora em suas casas com umas estantes cheias de livros atrás deles, e há quem suspeite de que seja só cenário, o que até já gerou piadas de Ricardo Araújo Pereira. Os espanhóis, porém, descobriram o segredo. E devem estar ricos. Ora vejam:


 


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Para hoje sugiro A Herança de Eszter, um dos mais belos livros de Sándor Márai, conhecido sobretudo por As Velas Ardem até ao fim.

Dia do Livro

Hoje é um dia muito especial, pois comemora-se em todo o mundo o Dia do Livro, embora, claro, este ano haja países e cidades que habitualmente festejam a data com pompa e circunstância (em Barcelona, é uma verdadeira maratona de acontecimentos, com os autores a saltarem de livraria para livraria em sessões de autógrafos e toda a gente, incluindo os que não são leitores habituais, a comprar livros) que não o podem fazer. A data foi escolhida por ser o aniversário de Shakespeare e Cervantes, e aquilo que podemos fazer este ano para não deixar morrer a efeméride é (nem era preciso eu dizer) ler! A LeYa cria hoje uma comunidade de leitores chamada Próximo Capítulo, de que falarei aqui num «próximo capítulo». É uma boa forma de fazer alguma coisa pelos livros, de que as pessoas parecem tão arredadas hoje em dia (agora é só séries). Se gosta de aqui vir, prometa-me que hoje vai comprar e ler um livro. Eu recomendo-lhe esse «romance» estranho e belo que é Lincoln no Bardo, de George Saunders, com tradução de José Lima.

A escola ganha

Sou bastante antiga, como já devem saber, e tenho um irmão apenas ano e meio mais velho do que eu. Falo disto porque, no nosso tempo de estudantes, nos anos 1960, o meu irmão fez parte desse projecto-piloto que foi a Tele-Escola e, concluída a instrução primária, completou assim os dois anos do então Ciclo Preparatório. Estava num colégio em que viam as aulas pela televisão e a seguir um professor ajudava a tirar dúvidas e a corrigir exercícios. Nem sei se era sempre o mesmo, se havia vários, do que me lembro muito bem era de assistir às aulas de Francês em nossa casa pela televisão, e o professor, de fato completo e muito aprumadinho, ter um ponteiro e, apontando para a câmara, dizer amiúde: Répétez! E eu lá repetia, que era para aprender tudo ao mesmo tempo que o meu irmão... Para quem tenha dúvidas sobre o sucesso da coisa, o meu irmão foi depois para o Liceu Camões e nunca mais saiu do quadro de honra, teve 20 a História e Filosofia nos últimos anos e tornou-se professor universitário, o que ainda é. Por isso, sou daquelas pessoas que acho que às vezes o ensino à distância é muito positivo (mesmo não apreciando o teletrabalho) e tem melhores resultados do que uma turma barulhenta ou com um professor mal preparado. Talvez por isso, deu-me muito gozo uma notícia que li ontem: a Tele-Escola, na RTP Memória, bateu todos os recordes de audiência e destronou a Correio da Manhã TV! Que felicidade!


Hoje sugiro Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé, um enormíssimo romancista autodidacta (se não me engano era ourives), muito apreciado pelo nosso Lobo Antunes. Tem muitos outros livros bons, mas o que refiro é o meu preferido.

Reflectir sobre a escrita

Houve em todas as épocas vários autores consagrados que leram poemas e ficções originais de aspirantes a escritores. E é célebre aquele veredicto de Diderot em relação aos textos de um jovem poeta (vou dizer de memória): «Não só os seus poemas não são bons como mostram que nunca conseguirá fazer melhores.» Mais generosos foram, porém, escritores que partilharam em livro as questões que se lhes levantaram ao escrever ou que tentaram até certo ponto criar manuais de ajuda para autores mais jovens. Entre eles está desde logo o maravilhoso Escrever, de Stephen King (quem diria que um autor de livros de terror pensava tão bem as coisas?), Carta a Um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke, ou mesmo Cartas a Um Jovem Escritor, de Mario Vargas Llosa. Mas o The Guardian traz um artigo interessante sobre livros dessa temática (alguns não conheço) que partilho hoje convosco. Há muito por onde escolher.


https://www.theguardian.com/books/2020/apr/17/stephen-king-anne-lamott-10-books-how-to-write?utm_term=RWRpdG9yaWFsX0Jvb2ttYXJrcy0yMDA0MTk%3D&utm_source=esp&utm_medium=Email&CMP=bookmarks_email&utm_campaign=Bookmarks


Já que falei de Vargas Llosa, leiam o romance autobiográfico A Tia Julia e o Escrevedor, que é a minha recomendação de hoje.

Em casa com escritores

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O que fazem os Extraordinários por estes dias é seguramente conviver com escritores e textos (eu também, até por razões profissionais). Mas conviver com livros é muito diferente de conviver (sem ser metaforicamente) com os seus autores. Ora, alguém no Reino Unido teve a bela ideia de criar conjuntos de escritores de várias épocas e géneros e metê-los ao  molho numa casa. E, depois de formadas várias casas, o jogo é procurar a casa em que nos pareceria que viveríamos melhor durante o período de confinamento. Eu olho, olho, e na verdade, apesar de achar que seria feliz na Casa 5 (com os poemas de Dickinson e Eliot, a imaginação de García Márquez e as maravilhosas lições de Nabokov), também penso que a Casa 1 teria a sua graça, com as piadas inteligentes de Wilde e o génio de Flannery O'Connor (e muita animação brechtiana). Divirta-se com isto e veja qual é a casa em que se sentiria melhor e não daria em doido. Aproveite para ver quem é quem (os que não conhece).


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Como falei de Wilde, hoje sugiro O Retrato de Dorian Gray ou os seus contos, um dos quais (O Fantasma de Carnterville) prefaciei recentemente para uma edição da 20|20. Não ponho os tradutores porque já não chego à prateleira de Wilde...

Crónica e luto

Hoje é dia de crónica, e aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-mar-2020/preparem-se-11990726.html


Nos últimos dias morreram dois escritores que tive o prazer de conhecer pessoalmente (e, claro, de ler): o brasileiro Rubem Fonseca e o chileno Luis Sepúlveda. A primeira morte não teve que ver com o vírus (Rubem tinha 90 e tal anos, chegou a a sua hora), mas a segunda, sim, e foi penosa em todos os sentidos porque a doença se arrastou muito tempo e não houve salvação. Além da perda, se já temos medo de ser afectados não conhecendo ninguém com o vírus, torna-se ainda mais difícil quando ele passa a ter nomes próximos e a levar-nos amigos. Mas, diante da morte, resta-nos fazer o luto, que também se faz não deixando morrer quem partiu. Assim, hoje sugiro livros destes dois escritores,  os primeiros que li de cada um deles (não necessariamente os melhores, atenção): O Buraco na Parede, de Rubem Fonseca; Mundo do Fim do Mundo, do nosso Lucho. Que ambos descansem em paz.

Voar com livros

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As viagens de avião estão praticamente proibidas; e não me parece que, terminado o período de confinamento, as pessoas tenham a mesma vontade de fazer planos de viajar de avião nas próximas férias. Afinal, a doença foi-se transmitindo de país para país por causa de haver tanta gente a viajar de um lado para o outro e, portanto, é bem possível que o turismo desacelere e as pessoas, enquanto se lembrarem da pandemia, fujam de ir para longe, até com medo de ficar retidas num lugar estranho. As companhias aéreas já estão de rastos, e os aviões estão estacionados nos aeroportos sem serventia. Quiçá mais tarde os transformem em algo menos poluente e mais bonito... Em Iztapalapa, no México, um avião abandonado foi transformado numa biblioteca digital infantil que as escolas visitam regularmente e cujo projecto se chama Voando para a Utopia. Os bancos foram removidos, dando lugar a espaços de leitura e pesquisa. Existem cerca de 25 computadores e estantes com obras impressas. As crianças podem ainda visitar a cabina do avião e experimentar um simulador de voo para ver como é andar de avião a sério. Uma ideia bonita da prefeitura da cidade. Vejam como tudo se pode transformar sempre noutra coisa. Mais bonita e interessante.


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Para hoje a sugestão de um romance que tem que ver com viagens e é mesmo um livro bem-disposto. Chama-se Notícias do Paraíso e escreveu-o o britânico David Lodge.


Tempo de ouvir

Lançar um livro novo neste cenário que hoje enfrentamos seria para qualquer escritor uma espécie de suicídio. As livrarias físicas estão todas fechadas e contar apenas com as virtuais seria provavelmente queimar para sempre a obra, já que, passada a pandemia e os perigos, essa não seria considerada novidade e afogar-se-ia no meio de tantas que já estarão em fila de espera, ansiosas por ocupar mesas e prateleiras. Mas lançar um livro novo em formato diferente do do papel já está a acontecer, e até Rodrigo Guedes de Carvalho tem o seu audiolivro do romance Margarida Espantada disponível para venda a quem o quiser ouvir (com a sua voz, reparem), o que pode ser uma experiência bem interessante. E, num tempo em que pensei que a tónica seria ler, multiplicam-se curiosamente as ofertas para ouvir textos e livros. A Casa Fernando Pessoa oferece um serviço para ler poemas ao telefone a quem ande longe das redes sociais (uma companhia bonita para quem esteja sozinho); a TSF tem uma rubrica («Com os livros estamos mais próximos») em que voluntários (eu ou qualquer dos Extraordinários podemos fazê-lo) gravam leituras de excertos de livros e põem-nas a circular (deixo-vos um link com Nuno Carmarneiro lendo uns parágrafos de Os Passos em Volta, de Herberto Helder, para verem como é); nas redes sociais, abundam vídeos de pessoas a ler os próprios livros ou textos alheios. Pode ser que, se se tomar o gosto a algum texto através do ouvido, se vá depois espreitá-lo com olhos de ler. Oxalá.


https://www.tsf.pt/programa/com-os-livros-estamos-mais-proximos/emissao/nuno-camarneiro-escritor-e-professor-universitario---os-passos-em-volta-de-herberto-helder-12029488.html


Hoje recomendo um livro de ciência muito bonito que se lê como um livro de aventuras e explica como depois de tantos desastres ainda cá andamos (os seres humanos). Chama-se em português A Vida É Bela e escreveu-o Stephen Jay Gould, um paleontólogo brilhante e com muito humor. Nos EUA de certeza existe audiolivro.

Personagens

Enquanto não há assuntos melhores, vamos então falando das categorias que animam a ficção narrativa. Ontem comentava-se a necessidade ou «dispensabilidade» da intervenção do narrador nos diálogos, hoje falemos de personagens. Reparo com frequência que nos cursos de Escrita Criativa ensinam (e bem) que as personagens têm de ser bem recortadas, não podem ter apenas duas dimensões (o que acontece muito nos livros dos principiantes) e que o comportamento deve ser consistente com o que delas foi dito. E quase de certeza fazem exercícios de descrição de personagens, quiçá um pouco exaustivos, o que como exercício até está bem, mas nem sempre funciona numa história. Estou a ler, por exemplo, um romance inglês em que a narradora está permanentemente a dizer como estão vestidas as personagens com que se vai encontrando; e, mesmo que isso ajude a que as integremos em determinado meio ou classe social ou e diga algo essencial do seu carácter, a mim, pronto, irrita-me tanta descrição. Às vezes, enviam-me originais nos quais se vê bem que os autores não entenderam o que era construir personagens com densidade; esforçam-se tanto nas descrições das suas figuras que acabam a ser ridículos, acrescentando até o peso e a altura. Enfim, os actos e as atitudes são o que fazem as personagens acima de tudo; para mim, a descrição é apenas mais uma coisa, e nem sempre a mais importante.


Um romance que fez furor há uns anos, A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, tem uma deliciosa personagem, extremamente bem construída: Fermín Romero de Torres, um livreiro inesquecível. A tradução é de J. Teixeira de Aguilar.

Ainda os diálogos

Desta vez foi o Extraordinário Guilherme Henriques que, na quarta-feira passada, me «desafiou» a comentar o facto de os diálogos numa narrativa deverem dispensar explicações do narrador; ou seja, eles devem ser vívidos e realistas o suficiente para o narrador não precisar de acrescentar adjectivos, verbos e advérbios a descrever ou indicar o tom com que a personagem fala. Por outras palavras, se eu sei que a personagem está furiosa, devo incluir a sua fúria no que diz, e não escrever a seguir ao travessão «disse Ana, furiosa» ou «irritou-se John» ou «disse José, espantosamente enervado». Sim, é verdade: um grande escritor será seguramente capaz de integrar nas falas das suas personagens o que elas estão a sentir, embora isso requeira obviamente um talento singular e não seja para toda a gente; mas, atenção, por vezes a achega do narrador não é meramente explicativa, é ela própria literatura (quantas fantásticas metáforas e metonímias há nessas «explicações» do narrador?), por isso já não tenho tanta certeza de que tenha de ser forçosamente como defende Henry Green. Por outro lado, quando eu escrevia livros juvenis, acrescentava deliberadamente informação desse tipo nos diálogos para que os miúdos aprendessem palavras novas; sobretudo verbos (indagar, sussurrar, retorquir, inquirir, comentar, pigarrear, atalhar...) e os tais advérbios ou locuções que Green «condena». Mas, claro, eu não sou uma especialista na matéria, falo como alguém que trabalha lendo, nada mais. Os académicos certamente terão opiniões distintas das dos editores.


Sobre esta matéria, recomendo hoje um livro genial de Philip Roth que se aparenta bastante a uma peça de teatro (desculpem repetir o autor, não era minha intenção, mas vem muito a propósito). Intitula-se Engano (grosso modo, trata das conversas de um escritor adúltero) e é inteiramente construído com diálogos. Mas o melhor é que raras vezes nos dizem quem está a falar e, se estivermos atentos, não temos qualquer dificuldade em saber. O Extraordinário Guilherme Henriques vai gostar. A tradução é do também extraordinário Francisco Agarez.

Crónica e oralidade

Hoje ainda não era dia de crónica, mas, como amanhã é Sexta-Feira Santa (embora todos os dias sejam mais ou menos parecidos quando estamos metidos em casa), farei folga do blogue e, por isso, deixo já aqui o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-mar-2020/ah-fadista-11956806.html


A literatura começou a ser transmitida oralmente e hoje, por força das circunstâncias, está a regressar a literatura dita e ouvida, seja através das redes sociais (nas quais autores, actores e muitas outras pessoas lêem excertos de livros ou poemas próprios e alheios), seja através de programas de rádio e televisão que contemplam espaços de leitura, como o que se segue, da TSF (neste link, Nuno Camarneiro lê Os Passos em Volta, Herberto Helder):


https://www.tsf.pt/programa/com-os-livros-estamos-mais-proximos/emissao/nuno-camarneiro-escritor-e-professor-universitario---os-passos-em-volta-de-herberto-helder-12029488.html


Como amanhã não há post, recomendo uma extensa obra do tempo da literatura oral, mas que, graças da Deus, e para nossa enorme alegria e ilustração, foi sendo transmitida e registada até vir parar às nossas mãos: A Odisseia, de Homero, com tradução do escritor e professor Frederico Lourenço. Um dos mais belos livros do mundo e certamente um dos fundadores da literatura no Ocidente. Bom fim-de-semana a todos.

Um discurso adequado

Desafiada pelo Extraordinário António Luiz Pacheco, falo-vos então da adequação da linguagem às personagens de um romance. Na verdade, não é questão de somenos, porque uma falha nisto pode deitar por terra toda a construção romanesca. Há, aliás, entre os potenciais autores de que recebo originais muitos que não têm qualquer talento para os diálogos (escrevem o discurso directo como o indirecto e vê-se logo que ninguém falaria assim). O primeiro escritor que publiquei que fazia diálogos inteiramente credíveis e perfeitamente adequados aos falantes foi João Tordo, um escritor muito «anglo-saxónico», mas não por acaso soube à frente que era também guionista, o que terá tido bastante influência, uma vez que um guionista é sobretudo um escritor de falas. Tenho ainda outro autor (João Pinto Coelho) que me contou reproduzir em voz alta as conversas que escrevia para ver como soavam e emendar em conformidade. Quando edito um texto, não raro ponho à margem uma nota que diz «pouco oral», ou seja, estou a pedir ao autor que refaça as falas para que fiquem mais perto do que dizemos na realidade. Não podemos pôr um analfabeto a falar como um erudito, nem uma criança a falar como um adulto, embora também não possamos reduzir a linguagem infantil ao que ela é na verdade nos casos em que o narrador é uma criança, sob o risco de aniquilarmos qualquer réstia de literatura e o livro ficar uma estopada... Mas há que tornar qualquer diálogo minimamente verosímil e nem sempre é fácil conjugar o que é consistente com o que é bonito. Por isso, algumas pessoas nunca incluem diálogos nos seus livros...


Hoje recomendo um romance em que uma criança é o narrador, e a linguagem me parece extremamente adequada à idade e à personagem: Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer.

Piratas sem querer

Torna-se cada vez mais difícil escrever para este blog, pois a Cultura parece ter parado, sido suspensa, adiada, cancelada (mesmo que muitos artistas não parem de nos animar no Instagram e no Facebook). No passado, utilizei muitos eventos como temas dos meus posts (festvais literários aos montes, leituras, debates em livrarias, idas de autores a escolas e bibliotecas); porém, o vírus agora ocupa tudo e, quando vemos um telejornal ou ouvimos o noticiário da rádio, parece que realmente não há nada para dizer que não seja sobre o estupor. Mas… não precisamos de andar informados, sobretudo com tanta contra-informação a chegar às nossas caixas de correio virtuais? É cada vez mais importante seleccionarmos os meios de comunicação fidedignos e os profissionais do jornalismo do resto. Ouvi-los, lê-los, vê-los na TV. Mas cuidado: sempre que um artigo nos enche as medidas, a tendência é partilhá-lo a correr nas redes sociais. Ora, sabia que isso é pirataria? Que a generalizada partilha sem regras dos conteúdos informativos põe em causa milhares de postos de trabalho, a credibilidade da própria informação e talvez mesmo a sobrevivência de algumas publicações? Eu, quando partilho aqui as minhas crónicas, faço-o ao final de duas semanas de terem sido publicadas para não prejudicar o jornal nem lhe tirar leitores. Agora, os órgãos de informação juntaram-se e pedem-nos que paremos com as partilhas abusivas de conteúdos jornalísticos. Conto com os Extraordinários para isto?


 


Hoje vou sugerir a leitura de Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez. Um pequeno livro sublime. (Ontem esqueci-me completamente da sugestão, desculpem. O que vale é que ninguém deu por isso.)


 

Artistas

Li algures que Churchill, quando lhe perguntaram porque gastava dinheiro com a Cultura num momento em que todos os fundos deveriam ser invstidos no esforço de guerra, respondeu: Mas porque fazemos a guerra senão pela Cultura? Foi uma excelente resposta, evidentemente; e, embora os governos raramente atribuam uma fatia essencial do seu orçamento à Cultura (e até há pouco tempo nem ministro tínhamos nesta área em Portugal), a verdade é que, se não fossem os artistas, o período de confinamento que estamos a viver seria mesmo impossível de suportar. Sim, como passaríamos um mês (ou mais) dentro de casa sem livros, filmes, séries, visitas virtuais a museus, música, jogos? Tudo isso é obra de artistas, e é a sua obra que hoje nos ocupa maioritariamente o tempo livre (para quem não está em teletrabalho, o tempo quase todo). Por isso, são de louvar medidas que algumas instituições tomaram para apoiar os artistas que, de um momento para o outro, ficaram sem possibilidade de realizar dinheiro: uma construtora de Braga está a pagar os salários dos actores do teatro daquela cidade, a Câmara de Lisboa abriu uma linha de apoio a artistas que não beneficiavam de qualquer ajuda do município e vai pagar já os contratos celebrados, a Fundação Gulbenkian criou um concurso nacional de apoios de emergência à cultura... Espero que estas iniciativas se alarguem e difundam por todo o País e ao longo destes meses terríveis. Por muito que algumas pessoas achem que viveriam muito bem sem os artistas, esta é a hora para fazerem o teste da verdade.

Crónica e criatividade

Hoje é dia de crónica e aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-mar-2020/falta-de-educacao-11921165.html


Noto que nestes tempos estou muito menos concentrada, que me custa muito mais ler um texto (a minha atenção está permanenemente a ser desviada por chamadas, apitos de emails, alertas dos jornais, notificações e também pensamentos negativos), mas acredito apesar de tudo que já haverá muita gente a criar com o pano de fundo dos tempos que estamos a atravessar; e, lendo a sempre interessante colaboração do meu confrade espanhol Adolfo García Ortega (abaixo o link), haveria realmente dezenas de ideias para contos ou mesmo romances. Basta ver as que ele enumera no seu texto.


https://www.zendalibros.com/dos-cabalgan-juntos-x/


 


Hoje recomendo A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, com tradução de José C. Serra, uma pequena maravilha literária escrita com o rigor de um homem de ciência.

Pequenas coisas

Geralmente, irritamo-nos por pequenas coisas, não por grandes: quando, por exemplo, nos alteram os planos de repente, ficamos fora de nós (eu, pelo menos, que gosto de planear tudo ao milímetro, fico). As pequenas coisas acabam por ter no nosso humor um peso maior do que as grandes; e é sobre as pequenas coisas que hoje vos falo, tendo como ponto de partida um convite que a Almedina fez ao escritor e historiador Sérgio Luís de Carvalho, que já foi (ou ainda é, não sei) director do Museu do Pão em Seia. Pois bem, ele foi encarregado de realizar um conjunto de pequenos videogramas de cerca de três minutos sobre curiosidades, bizarrias, factos estranhos e outras coisas igualmente pícaras da História de Portugal, com o título genérico História das Pequenas Coisas. Os primeiros episódios já estão online e deixo-vos abaixo o link do primeiro, que se intitula «Porque é que a famosa gripe espanhola não é espanhola?». Porém, se quer saber coisas sobre a origem histórica do termo «filho da mãe» ou sobre quem teve o primeiro acidente de carro em Portugal, aqui tem com que se entreter. E pode consultar o site da Almedina e procurar em «Observatório Almedina» para ver os outros episódios que vão sendo publicados. Há que passar bem o tempo, e de preferência a aprender, claro.


 https://www.youtube.com/watch?v=4TU5o_65jdA&t=52s 


Hoje recomendo Os Interessantes, de Meg Wolitzer, um dos livros grandes e dos grandes livros de que mais gostei nos últimos anos. Sobre a diferença de classes na última metade do século XX, com um grupo de adolescentes crescendo numa América em mudança.

O que ando a ler

Por acaso, não ando a ler um livro em português, mas o pequeno romance de um autor nascido no País Basco, de ascendência galega, que escreve em castelhano e mora na Catalunha (que mistura explosiva). O livro, Ama, de José Ignacio Carnero (assim se chama o «senhor Espanha»), foi-me recomendado pela minha autora Marta Orriols e, embora não tão «purgante» como Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Villas, tem bastantes ressonâncias desse romance. «Ama» é a palavra mãe em euskera, mas é também a terceira pessoa do verbo «amar» em castelhano e em português, e este é um livro escrito com muito amor para fazer o luto de uma mãe. Olha para trás, para tudo o que não se fez e se podia ter feito, contando a vida de uma mulher que não teve muita sorte, mas até ao fim teve sempre uma grande dignidade: foi criada, migrante, pobre, doente, e sacrificou-se para dar tudo ao seu único filho, que hoje acha que não retribuiu como devia, mesmo que tenha passado com ela os últimos dias, os mais difíceis de todos, e lhe tenha dedicado esta peça literária. É, no fundo, um bonito testemunho sobre a orfandade e, ao mesmo tempo, um bom retrato da Espanha contemporânea.


 


Hoje, porque Ama será difícil de encontrar em Portugal, recomendo O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, com tradução de Nuno Camarneiro.