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A mostrar mensagens de julho, 2023

Adeus e até ao meu regresso

Os mais velhos lembrar-se-ão daquelas reportagens com os soldados que estavam na guerra colonial e eram filmados a desejar boas festas à família. Invariavelmente, despediam-se com um «adeus e até ao meu regresso» e passavam a bola ao rapaz seguinte na fila, que era muito longa. Pois hoje faço minhas as suas palavras, já que abro aqui no blogue um parêntese neste mês de Agosto, em que a maioria dos leitores destas Horas Extraordinárias também tem férias e, desejavelmente, todos estaremos a banhos e estendidos nas espreguiçadeiras ou toalhas a ler uns bons livros. Por isso, dada a morte recente do poeta, ficcionista e ensaísta Eduardo Pitta, proponho que se dediquem à leitura de um dos seus livros durante as férias, por exemplo, Persona, que inclui três histórias admiráveis, ou Cidade Proibida, que publiquei em 2007. Para os que preferem a não-ficção, há que ler as suas memórias coligidas em Um Rapaz a Arder, título que é tirado de um dos seus poemas, talvez o mais belo de todos. Boas férias e boas leituras. Eu volto no dia 3 de setembro.

Mãe e filha

O livro, pelos vistos, tem já uns bons aninhos, mas foi recentemente redescoberto ou desenterrado, e ainda bem, porque as mulheres até parece que andam na moda e é, de facto, de mulheres que fala (embora, claro, muitas das casadas tenham  maridos que as adoram, ou as enganam, ou lhes batem, ou já não estão com elas mas determinam, assim mesmo, muito do que é a sua vida). Neste Vínculos Ferozes, de Vivian Gornick, com tradução de Maria de Fátima Carmo, mãe e filha passeiam pela Lexington Avenue em Nova Iorque e quase sempre estão em desacordo, porque são de gerações diferentes, e também porque passaram demasiado tempo à sombra uma da outra durante a vida, e talvez ainda porque uma é divorciada e a outra viúva e ambas rezingonas. Mas falam acima de tudo das suas memórias no bairro de judeus do Bronx onde viveram, memórias essas que estão cheias até ao topo de vizinhas, mulheres que morrem de medo dos maridos, ou mulheres jovens e bonitas como Nettie, que já era viúva quando o filho nasceu e não tinha qualquer talento para ser mãe, tendo de ser ajudada para que a criança não andasse de fraldas sujas e a sua cozinha não cheirasse tão mal. Mas, além de Nettie, há muitas mais, que ora são chumbadas pela mãe e apreciadas e copiadas pela filha, ora se abraçam à mãe no momento da morte sem nunca lhe terem prestado atenção em vida. Não é um romance, são as memórias da própria Vivian Gornick, mas lê-se, garanto, como excelente ficção.

Ouvir ou ler?

A revista Sábado trouxe recentemente um artigo sobre audiolivros, cuja pergunta de partida é se o futuro dos livros é ouvi-los. Louvo a existência de audiolivros por várias razões, sendo a mais importante o facto de constituir a forma mais fácil de fazer chegar a literatura a pessoas que não vêem ou que vêem demasiado mal para que a leitura as não canse. No entanto, conheço pessoas com boa vista que, trancadas durante horas em percursos diários esgotantes do subúrbio para a cidade, ouviram livros inteiros nessas viagens de pára-arranca; e tenho um amigo belga que fez um curso de espanhol elementar dentro do carro (a parte escrita ficava para depois do jantar). Os audiolivros hoje são bastante sofisticados e muitas vezes lidos por actores conhecidos (nos EUA, é comum) ou pelos próprios autores do texto (Rodrigo Guedes de Carvalho é a voz dos seus próprios audiolivros, por exemplo). Mesmo assim, acho que o cérebro de um leitor trabalha melhor e mais do que o do mero ouvinte de livros. É que a entoação com que as frases são lidas já dá indicações sobre estados de alma que, no texto escrito, estão ausentes e devem ser «fabricados» pelo cérebro do próprio leitor. Mas vale a pena fazer a experiência e, para isso, o artigo da Sábado, de que avanço a ligação abaixo, pode ajudar.


O futuro dos livros é ouvi-los? - Livros - SÁBADO (sabado.pt)


 

Uma história ucraniana

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Como se pode ser «belo» — «o rosto, a alma, a roupa, os pensamentos», como diz Tchekov — num país onde reina a repressão e só quem se submete a um regime restritivo consegue sobreviver? E como poderá esta experiência ser superada quando quem a sofreu não fala dela, nem mesmo depois de emigrar para o Ocidente, nem mesmo com a própria filha? Em meados dos anos noventa, Lena e Tatiana abandonaram a Ucrânia – uma grávida, outra com a filha pequena – e foram viver para a Alemanha, onde tiveram de começar do zero. Mas Nina e Edi, as raparigas que há muito deixaram de se interessar pelas suas origens, não deixam de perguntar-se o que verão as mães, com o seu «olhar soviético», quando espreitam pelas cortinas das casas onde hoje vivem. Porém, quando as quatro se juntam para a festa do 50.º aniversário de Lena, serão forçadas a admitir que, afinal, partilham uma história comum. Seguindo o percurso de quatro vidas e os vínculos sempre frágeis entre mães e filhas, Sasha Marianna Salzmann, a autora deste No Ser Humano Tudo Tem de Ser Belo, que venceu o Prémio Hermann Hesse em 2022 e foi finalista do Prémio do Livro Alemão, relata-nos uma época de mudanças radicais na Ucrânia com grande empatia e realismo. A não perder nos tempos que correm.


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Escrever e cantar

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Não é a primeira vez que publico um autor que, na sua vida, acumula a escrita com a música: João Tordo tocava guitarra numa banda e Valter Hugo Mãe cantava num grupo chamado Governo. Mas os romances de Miguel Jesus já trazem dentro deles as canções de Miguel Gizzas. E este Os Flamingos Também Sonham não é excepção, tendo impressos nas suas páginas uns códigos que, com uma aplicação do telemóvel, permitem ouvir a banda sonora desta história. Se está por Lisboa, venha fazer-nos companhia mais logo, no lançamento, em que o livro terá justamente apresentação do João Tordo após a qual haverá música, sim, porque o autor vai estrear alguns temas ao vivo. Uma maneira nova e diferente de «ler» uma história que não deixa de viver independentemente das canções mas fica mais composta e completa com elas. Até logo.


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A escrita e o engajamento

Há poucos dias, numa memória do Facebook que o Manel partilhou, descobri um assunto que há  anos me persegue. Ainda eu dava os primeiros passos na edição quando comecei a acompanhar a obra de António José Saraiva. E foi num dos seus livros que li a afirmação (com que concordei logo, de resto) de que os escritores, ao escreverem, já estavam a cumprir um acto de cidadania, pelo que não tinham de modo algum de ser engajados no que escrevessem. Porém, nem toda a gente pensa assim: Adam Zagajewski, poeta polaco, numa entrevista ao jornal Expresso aqui há uns anos, disse: «Aprendi que a poesia não deve ser um esforço puramente estético. Se o teu país, se o teu mundo está sob ameaça, tens de discutir essas coisas nos teus poemas, não te podes esconder num paraíso de beleza. Um poeta tem de se interessar por tudo. Tem de abrir os olhos. Para a política, para a filosofia, para as ideias do seu tempo.» Também lhe dou razão. Continuarei com a questão às costas e sem me decidir.


 

Excerto da Quinzena

Julieta não viajara num foguetão até à Lua, não cartografara mares desconhecidos, não liderara exércitos em batalhas sangren­tas; mas quem trocava algumas palavras com a velha senhora, sen­tada numa poltrona rodeada de outras poltronas de velhas e velhos, percebia estar perante uma mulher extraordinária. Mesmo sem milagres que a levassem à beatificação, mesmo sem feitos épicos no seu passado, mesmo enrugada e sumida, Julieta surgia superior a qualquer personagem romanesca ou cinematográfica: uma heroína da vida real. Um ser maior do que a simples existência terrena.


Alguns desses visitantes tinham conhecido Julieta ainda de pé, atarefada a cuidar da grande casa, dos vários familiares, de um sem-fim de animais. Na verdade, talvez Julieta fosse conhecida por bastante gente. Resgatar-lhe o passado, relatar-lhe a vida, e com isso validar ou contrariar o seu estatuto de ser humano excecional, capaz de suportar agruras inimagináveis, jamais poderia resultar num exercício de incertezas.


Saiba-se que Julieta, como ela própria dizia, se tornou muito velhinha. Viverá mais de cem anos e mostrar ou ocultar o último sopro de vida será decisão do narrador. A morte de uma pessoa tanto pode assumir a imensidão do universo como a insignificância de um átomo. Tanto pode conter o lirismo de um corpo a desa­gregar-se em poeira estelar como a crueza de um cadáver a arder num forno crematório. A morte, qualquer morte, tanto será tudo como nada.


 


Paulo M. Morais, A Boneca Despida

Almas sujas

Li recentemente um romance chileno que tão cedo não me sairá da cabeça. Já o tinha visto elogiosamente referido na «Babelia», o suplemento cultural do jornal El País, mas foi já na versão portuguesa da Elsinore, com tradução de Isabel Petterman, que o degustei. Chama-se Limpa, assina-o Alia Trabucco Zerán, e tem como protagonista uma empregada doméstica chamada Estela. Eu, que até não aprecio especialmente quando os narradores se dirigem aos leitores, tenho de confessar que aqui gostei de ser interpelada por Estela, uma mulher de trinta e tal anos que resolve sair da província e ir para a cidade trabalhar durante um tempo com o objectivo de ajudar a mãe, mas que vai ficando na casa que a admitiu em vésperas de a senhora dar à luz Julia e se vai afeiçoando àquela menina que veremos crescer ao longo de sete anos (e que, apesar de menina, sabe que tem poder sobre a criada). De facto, como a sua mãe vaticinara, Estela cairá na armadilha de permanecer com a família de Julia ao longo de demasiado tempo, porque eles, mesmo vivendo ao seu lado, não lhe serão nunca nada (menos até que a cadela vadia que Estela acolhe clandestinamente), e entretanto a mãe envelhecerá irremediavalemente na aldeia.  Este é um livro sobre a luta de classes (há, aliás, descrições de manifestações e protestos de rua e de assaltos a condomínios de luxo por gente muito revoltada com a sua vida), maravilhosamente personificada em Estela e nos patrões; mas tem a sabedoria de nunca ser caricatural nem óbvia, de tratar o assunto de forma muitíssimo original. Um livro bem escrito e sobretudo muito bem pensado com ideias e prosa limpas, que fica a ecoar dentro de nós, muito depois de o termos terminado.

Ler no café

No tempo em que se estudava nos cafés de caderno aberto a tomar apontamentos, assim que chegava perto do meio-dia, os empregados vinham enxotar-nos, dizendo que não podíamos ficar ali mais tempo só com um café e um copo de água, pois estavam a chegar os clientes para o almoço. Depois, pelo menos na zona onde eu morava, esses cafés desapareceram, dando lugar a agências bancárias, e o hábito perdeu-se. Mas eis que em Braga alguém interessado em alargar a todos os hábitos de leitura se lembrou de fazer regressar os livros aos cafés... Trata-se de uma empresa de construção, a DST, que patrocina há já mais de vinte e cinco anos um importante prémio literário, cuja mais recente vencedora foi a escritora Teolinda Gersão. Na sua teimosia de promover a cultura e a literatura portuguesa, resolveu então oferecer aos cafés de Braga livros dos vencedores do Prémio DST ao longo dos anos, assim aproximando o público mais jovem (que agora vai para o café olhar para o telemóvel) dos livros. Cada café terá uma escolha alargada de títulos (Mário Cláudio, Manuel Alegre, Lídia Jorge, Nuno Júdice, Maria Ondina Braga e muitos mais) para que quem por lá passe não possa dar a desculpa de já ter lido aquele romance ou não apreciar o autor por aí além. Empresas ao serviço da cultura. Muito bem.

Contos

Confesso que não sou muito de ler contos (mesmo recordando ainda muitíssimo bem alguns contos de autores de que gosto, como Borges ou D. H. Lawrence, por exemplo); mas estava curiosa com uma escritora argentina de quem alguns amigos seus conterrâneos já me falavam há anos e que ainda não tinha «experimentado». Samantha Shweblin é autora também de um romance que já foi finalista do Man Booker Prize Internacional, Distância de Segurança, mas foram sempre os seus contos, realmente magníficos, que a celebrizaram. Em Sete Casas Vazias, o primeiro que leio da argentina, a surpresa residiu sobretudo num estilo que é muito mais próximo da literatura norte-americana do que da latina-americana; mas neste caso é um bom sinal, lembrou-me até um pouco a querida Elizabeth Strout e a sua aparente simplicidade. De qualquer modo, as histórias são incríveis e desconcertantes, sobretudo a primeira, em que uma mãe demente invade uma casa alheia e, além de se deitar no chão, meter-se na casa de banho dos estranhos e mexer em tudo, traz para casa um açucareiro que tinha um valor estimativo incalculável para a sua dona. Sete Casas Vazias, cuja tradução é assinada por Isabel Petterman, são sete histórias de casas que podem ser algo claustrofóbicas e cujos finais são sempre ao contrário do que esperamos. O livro ganhou o National Award nos EUA e realmente Samantha é mestre no género.

Censura de volta

Hoje, quando falo de censura aqui no blogue, refiro-me sobretudo a uma nova censura (e autocensura) que nos vem impondo há uns aninhos o politicamente correcto. Cada vez mais sinto que, de repente, todos passámos a medir as palavras sob o risco de ofendermos alguém, mesmo quando não temos nada contra a pessoa; e eu até já recebi uma reprimenda oficial por ter dito de uma pessoa não binária que era «uma senhora escritora», elogio que, como se percebe, foi completamente treslido por esta nova inteligentsia. Mas parece que a censura como antes a conhecíamos, a do tempo da ditadura, está também de volta, pelo menos no país vizinho, onde a Extrema Direita avança a passos largos e já está a impor a sua vontade. Artistas como Joan Manuel Serrat ou Pedro Almodóvar, bem como instituições de peso como a Sociedade Geral de Autores e Editores (SGAE), a União dos Músicos, a União dos Atores e Atrizes, e a Rede Espanhola de Teatros assinaram um manifesto em que exigem que a liberdade de expressão seja mantida, pois todos os dias estão a ser reportados casos de censura aos artistas. Foi, aliás, criada a Organização para a Liberdade Artística (OLA), que integra profissionais da cultura de todos os segmentos, para intervir, uma vez que têm vindo a ser «cancelados» filmes e peças de teatro (uma baseada em Orlando, de Virginia Woolf) em municípios onde o Vox impera, no que foi considerado simples «veto ideológico». Vamos ver até quando estamos livres disto.

A atracção dos opostos

Há muitos anos, um fotógrafo que colaborou num álbum que publiquei com a então directora do Museu da Cidade teimava comigo que «sob» e «sobre» significavam exactamente a mesma coisa, e ali onde estávamos, sem dicionário na mão, foi difícil convencê-lo do contrário. Pensei que se tratasse de um caso excepcional, mas à medida que avançam os tempos cada vez apanho mais gente a cometer o erro de usar «sobre» em vez de «sob» com toda a tranquilidade, incluindo pessoas que tinham obrigação de saber que são palavras opostas e querem dizer o contrário uma da outra. Há uns dias, porém, fiquei siderada quando uma comentadora política conhecida, e por sinal bastante bem-falante, disse que um certo caso estava «sobre a responsabilidade» de alguém; e no dia seguinte a representante de um partido político que reivindica a gratuitidade da entrada em museus e palácios aos domingos falou de monumentos «sobre a administração pública»... Eu bem sei que os opostos se atraem, e que se calhar seria mais fácil se as palavras, como em italiano, fossem inconfundíveis («su» e «giù»), mas, caramba!, isto é erro de escola primária!

Um comboio especial

Mea culpa, nunca tinha lido o grande escritor checo Bohumil Hrabal, que por cá está publicado pela Antígona. Já tinha ouvido grandes elogios a Uma Solidão demasiado Ruidosa (que lerei em Agosto, já o tenho), mas comecei por uma pérola verdadeiramente imperdível (porque a encontrei primeiro): Comboios Rigorosamente Vigiados. A acção decorre numa estação de comboios da Checoslováquia ocupada pelos nazis, já no final da Segunda Guerra Mundial, quando os soldados alemães começam a voltar da Frente estropiados, mortos e gravemente feridos. Nesta estação há um rapaz muito especial: um jovem aprendiz que quer ser um excelente profissional (mas muito traumatizado pela sua primeira experiência sexual), que é uma criatura (no sentido de personagem criada pelo autor) admirável e, além de narrador, terá uma importância tremenda no desfecho; mas não lhe ficam atrás o chefe da estação obcecado com o seu pombal, o colega mais velho que morre de amores pela telegrafista a quem carimba o traseiro, ou mesmo o avô do narrador, que se pôs à frente de um tanque alemão durante os primeiros dias da invasão alemã. Belo, hilariante às vezes, sempre profundo, tão amoroso quando deve ser um livro bom, esta é uma pequena jóia escrita em 1965 que só dá vontade de ir ler tudo deste autor.

Bethânia

Não sei o que os leitores deste blogue acham, mas eu cá penso que Maria Bethânia é uma das mais talentosas e interessantes artistas brasileiras de sempre. Fiquei por isso extremamente contente quando o Governo português recentemente lhe atribuiu a Medalha de Mérito Cultural. Bethânia não é simplesmente uma intérprete de canções; tive a imensa sorte de poder assistir no Brasil, durante uma Bienal do Livro no Rio de Janeiro, a um sua leitura de poemas de Fernando Pessoa como nunca tinha visto alguém fazer em Portugal. Os artistas brasileiros de topo, de resto, conhecem muito bem a literatura portuguesa, que estimam e promovem, o que não creio que aconteça com os nossos cantores (se estou enganada, melhor) que, salvo raras excepções, nunca mencionam grandes poetas como Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana ou João Cabral de Melo Neto (às vezes lá referem Vinicius de Moraes, mas a ligação deste à música «oblige»). De qualquer modo, a medalha para Bethânia é indiscutivelmente merecida; e, se um dia apanharem em cartaz a sua performance pessoana, por favor não falhem.

A imaginação

Há pessoas que não valorizam a imaginação, mas, se se tratar de crianças, é fundamental espicaçá-la porque na verdade é a imaginação que ajuda a projectar e planear o futuro. Por sorte, há também quem a ponha nos píncaros, e se se tratar de um escritor é mesmo bom que a tenha para dar e vender, porque ela é extremamente necessária aos criadores. Sobre isto fala A Louca da Casa, um dos mais incríveis livros de Rosa Montero (talvez aquele que reúne mais consenso internacionalmente) e, ao mesmo tempo, um dos mais difíceis de classificar (ficção? ensaio?...). Já aqui falei dele, estou certa, até a propósito do mais recente O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo, mas vale a pena dizer que, com a sua fabulosa imaginação, a autora escreve algo que, no fundo, parece um livro de memórias, mencionando inclusivamente membros da sua família, e fá-lo com tal credibilidade que quem a conhece até fica estúpido só se pensar como é que ela teve talento para imaginar uma grande parte do que conta. Sim, a louca da casa é a imaginação, e este livro é um hino a essa louca deliciosa que salva os escritores e os leitores. O livro, que tinha sido publicado há poucos anos numa versão de  bolso na colecção Miniatura, tem agora uma nova edição em formato maior na Porto Editora. Não o perca por nada deste mundo.

Ninfomania

Tinha lido tudo de Leïla Slimani, excepto No Jardim do Ogre, em que peguei nas férias que tive há duas semanas. É a estreia de uma grande autora de ficção e já um livro extremamente maduro, a que alguém chamou, de resto, a «Madame Bovary do século XXI» e que prenunciava já o sucesso de vendas e crítica da autora, que venceu com o livro seguinte (Canção Doce) o Prémio Goncourt. Este No Jardim do Ogre conta-nos a história de uma jovem mulher, Adèle, que tem tudo para ser feliz: um marido que a adora, um filho, uma boa casa, um emprego, a possibilidade de ir viver para um lugar tranquilo e longe do stress de Paris; mas infelizmente nada a satisfaz e o seu desejo sexual é tão premente que por vezes nem ela consegue explicar a si mesma os riscos que corre sendo uma mulher informada e por que razão os corre, se afinal logo a seguir vive no pânico de engravidar de um estranho, de ser apanhada, de que alguém a siga e descubra tudo. É assim desde criança, segundo a mãe, que não é flor que se cheire e, como saberemos, terá alguma responsabilidade neste comportamento impulsivo de Adèle. As descrições podem ser sórdidas, aviso, mas apesar da obsessão com o sexo, este não deixa de ser também um livro sobre o perdão e amor.  Vale a pena ler.

Excerto da Quinzena

Quando por fim ele teve netos ficou muito feliz. Eram os filhos da filha que tinha um marido e sabia conduzir. O seu marido e ela também tinham imensos pares de sapatos e isso aborrecia-o ele não compreendia porque é que compravam tantos pares de sapatos achava que era um desperdício. A quantidade de camisas do marido da filha também o incomodava, ele também tinha uma certa quantidade de camisas mas uma quantidade razoável. Também ele como o marido da filha, o seu genro, mudava de camisa todos os dias. Gostava de sentir uma camisa lavada sobre o corpo todos os dias. Às vezes mudava de fato outras não. Muitas vezes comprava dois fatos ao mesmo tempo quando eram os saldos e dois pares de sapatos ao mesmo tempo mas depois não comprava mais nada durante muito tempo.


 


Chantal Akerman, Uma Família em Bruxelas, tradução de Cristina Fernandes

Final do ano no México

A Feira do Livro de Guadalajara é uma das mais importantes feiras internacionais do mundo. Ao contrário da de Frankfurt, que é provavelmente a mais famosa, não se reduz à venda de direitos e ao negócio, tendo também uma componente artística. Geralmente, são notáveis as sessões de abertura (assisti a uma conversa com Vargas Llosa e Herta Müller que foi inesquecível!) e depois há sempre um país convidado do qual vêm numerosos autores falar de literatura. Mas este ano as coisas vão ser ligeiramente diferentes e o lema vai ser «Construir Uma União de Culturas», pelo que, só dos 27 países da União Europeia seguirão para Guadalajara mais de setenta escritores e serão incluídos igualmente no grupo da UE os escritores ucranianos. Também editores destes 27 países estarão presentes para criarem laços e pontes com as editoras da América Latina. José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Yara Monteiro e Joana Estrela serão alguns dos portugueses que poderemos encontrar no México por alturas da feira, ao lado, por exemplo, de Javier Cercas, Colm Toibin, Andrei Kurkhov ou a originalíssima escritora alemã Judith Schalansky (leiam O Pescoço da Girafa). Haverá, segundo um comunicado dos organizadores da feira, debates, teatro, cinema, música, exposições e gastronomia.

O habitat natural das pessoas

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Conheci Miguel Jesus por ter sido finalista do Prémio LeYa, com o seu romance Lugar para Dois, um belíssimo livro sobre vidas viradas do avesso (para o bem e para o mal) em Moçambique. E ele agora presenteia-nos com Os Flamingos também Sonham, desta vez passado em Dunlochry, uma pacata vila escocesa que precisa urgentemente de se modernizar e não tem recursos. Eis senão quando corre a notícia de que dois (dois!) boletins com um jackpot foram registados justamente na vila; e o acontecimento atrai os jornalistas das grandes cadeias de TV mas os dias passam e ninguém aparece para reclamar o prémio. Só Dylan – um irlandês esmagado pela imagem opressora do pai e dono do estabelecimento que vendeu a sorte grande – sabe quem ganhou, mas não o pode dizer a ninguém, nem à repórter por quem entretanto se apaixonou. Porém, à medida que a ansiedade dos habitantes se vai transformando em violência e pressão, a coisa azeda e Dylan fica sozinho, já que Elizabeth, farta de estar sem notícias, quer regressar ao seu habitat natural, Londres. Mas Londres é uma cidade de que Dylan não quer falar... Os Flamingos também Sonham fala de lugares que nos marcam e daqueles de que nunca conseguimos sair, por mais que tentemos. E também daqueles aonde não queremos voltar nunca mais. (Este romance, como os anteriores do autor, que é igualmente músico, inclui códigos que podem ser lidos por uma aplicação no telemóvel e revelar aquilo a que podemos chamar uma banda sonora.)


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Guarda-Livros

O título deste post é também o nome de um festival literário e musical que tem a sua primeira edição este ano na cidade da Guarda. Promovido pela Câmara, tem o dedo organizativo de Tito Couto, e decorre desde o fim-de-semana passado. Este «Salão do Livro» tem lugar na Alameda de Santo André, e nele participam mais de vinte escritores e músicos. Paralelamente, estarão representadas editoras e livrarias numa espécie de feira. Haverá apresentações de livros, concertos, oficinas, teatro, entrevistas de vida e programação infantil, sem esquecer um roteiro em torno da obra do pensador Eduardo Lourenço, oriundo do concelho, cujo centenário se celebra este ano. Entre os convidados, contam-se Joana Barrios, Pedro Marques Lopes, Mia Couto, Dulce Maria Cardoso, João Tordo ou Rita Ferro, bem como os músicos Luís Represas ou Capicua. O país convidado da primeira edição do festival é Cabo Verde, país de onde é originária «a maior comunidade africana a residir na Guarda», segundo o revelou o presidente da Câmara na apresentação do evento. O Guarda-Livros decorre até 9 de julho e tem curadoria de Jorge Maximino.

O que ando a ler

Na última sexta-feira, se fosse dia de excerto da quinzena, teria escolhido um parágrafo do maravilhoso livrinho Uma Família em Bruxelas, de Chantal Akerman, cineasta belga (1950-2015), oriunda de uma família judia (o pai era polaco) que se salvou do Holocausto mas passou pelos campos. Provavelmente, este nome não vos diz muito, mas em 2022 o seu filme Jeanne Dielman, 23, Quai du commerce, 1080 Bruxelles foi considerado o melhor do mundo por um grupo de conhecedores. Chantal Akerman foi também guionista, professora e escritora e, em grande parte do seu trabalho, a mãe foi a figura central, o que é igualmente verdadeiro no caso do muito belo Uma Família em Bruxelas, uma pequena novela que começa com uma mulher que acaba de perder o marido e com o que será a sua vida em termos de memória e experiência a partir de então. Trata-se de um texto curto e corrido, ao ritmo do pensamento, no qual a pontuação está muitas vezes ausente, mas incrivelmente empático, que chama constantemente por nós com uma cadência de canção ou de oração. Foi uma amiga especial que mo recomendou e não é fácil encontrá-lo (penso que se vende na Cinemateca, é da BCF editores, eu consegui apanhá-lo na Feira do Livro), mas por favor não deixem de ler esta maravilha, deixem-se convidar por esta família e entrar na casa desta senhora viúva, conhecer as suas duas filhas, os parentes próximos, o marido morto. É uma beleza de todo o tamanho e não pode passar despercebido a quem ama a literatura.