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A mostrar mensagens de março, 2016

Quintas de Leitura

Já vos falei por várias vezes aqui no blogue das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre, no Porto – um espectáculo maravilhoso em torno da poesia de um ou mais autores, abrilhantado com música, artes plásticas e muito mais, numa ideia original do grande João Gesta. Hoje à noite, estarei lá para uma prestação bastante arrojada, pois será a primeira vez que lerei publicamente num teatro para mais de 300 pessoas textos inéditos (e que não sei se irei sequer publicar alguma vez). De certa forma inspirada (melhor dizendo, incomodada) por manchetes de jornais, notícias que me deixaram terrivelmente triste, não consegui deixar de escrever sobre certos assuntos que, tradicionalmente, não entram na minha poesia, mas que sem querer foram mais fortes e a invadiram. A sessão chama-se A Social-Poesia e inclui poemas sobre a guerra na Síria, a crise que levou para a rua prostitutas que já tinham conseguido um emprego mas que entretanto o perderam, a violência doméstica, as grávidas com fome ou a história de uma criança que ficou sem almoço por atraso na mensalidade numa escola do Algarve. Terei comigo dois diseurs de respeito, Pedro Lamares e Cristiana Sabino, e ainda a ajuda do artista gráfico João Alexandrino (JAS) e do grupo de circo Erva Daninha. Depois das leituras, o palco fica todinho para o enorme Sérgio Godinho e as suas canções. Rezem ou façam figas para que tudo corra pelo melhor.

Reconhecimento internacional

Por cá, nem todos os prémios internacionais têm peso para os leitores ou influenciam as vendas; é, porém, certo que o Booker Prize sempre conseguiu afirmar-se em Portugal e que os livros que o venceram – livros originalmente escritos em inglês – partem para o mercado com vantagem. Mas há uma ramificação deste prémio para escritores de outras línguas traduzidos em inglês: o Man Booker International Prize – e já o ganharam muitos nomes de respeito, de latino-americanos a africanos e europeus. Este ano, a lista de semifinalistas tem treze títulos – e entre eles estão curiosamente duas obras escritas em português: Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa, e Um Copo de Cólera, do brasileiro Raduan Nassar que, depois de um êxito retumbante com três livros apenas (todos pequenos), resolveu retirar-se para uma fazenda e ser doravante apenas agricultor. Há anos que não escreve uma linha, mas, pelos vistos, só agora tem a sua obra publicada no mercado anglo-saxónico. Ambos os romances terão, porém, muitos adversários à altura, desde a napolitana Elena Ferrante (que está em alta em todo o lado e é responsável por uma verdadeira «febre») ao japonês Kenzaburo Oe, passando pela sul-coreana Han Kang, cujo livro A Vegetariana publicarei em Outubro próximo e é mesmo de leitura imparável e completamente irresistível. No dia 14 de Abril, será anunciada uma shortlist de seis romances e então vamos ver quem fica e quem sai. Se a língua portuguesa permanecer, ficaremos a torcer por ela até ao anúncio do vencedor, a 16 de Maio.

O cheiro do passado

Há tempos assisti a uma conferência brilhante de José Tolentino Mendonça sobre os sentidos e como lhe prestamos tão pouca atenção na actualidade. De todos eles, aquele que mais depressa me consegue transportar ao passado é o olfacto – e gosto muito de ser levada de repente a um tempo antigo ou a alguém que deixei numa outra parte da minha vida por um perfume que, subitamente, se cruza comigo na rua ou por um odor de comida que sobe do meu prato durante um jantar. Estou a ler um livro que associa cheiros a episódios de uma autobiografia, mesmo que entrecortada, e a gostar muito. Chama-se justamente Perfumes e escreveu-o Philippe Claudel, autor de outros livros que me encheram as medidas, especialmente Almas Cinzentas, um dos meus preferidos de sempre. Todas as nossas idades têm cheiros facilmente identificáveis, mas eu, que nasci na capital, nunca me poderia gabar do odor dos pinheiros e das acácias como Claudel, que passou a infância no campo. Já o bafio me diria qualquer coisa (os armários da minha húmida Ericeira nunca lhe escapam), bem como o after-shave que ele associa ao pai barbeando-se na casa de banho e que também eu poderia associar ao meu. Mas há muito mais matéria olfactiva para descobrir nesta pérola literária, sumamente bem escrita, sobre uma vida contada também pelo nariz. A não perder, claro.

O senhor Twain

Há autores que, além do que escreveram, transpiram simpatia – e Mark Twain é certamente um deles. O número de histórias cómicas a seu respeito é enorme e lembro-me agora de duas. Na minha família, houve sempre fumadores e, como é natural, falava-se de vez em quando em deixar de fumar. O meu pai, que era o mais viciado de todos (fumava quatro maços de cigarros por dia), contava que Mark Twain, que também tinha o vício do tabaco, dizia que era facílimo deixar de fumar, uma vez que ele próprio já o fizera mais de trezentas vezes... Mas há outro episódio que tem ainda mais graça. Num comboio, quando apareceu o revisor, o escritor americano começou a revolver todos os bolsos e não encontrava o bilhete em lado nenhum, começando a ficar realmente aflito. O funcionário, porém, reconheceu-o e disse-lhe que sabia muito bem quem ele era e que não precisava de se preocupar com o bilhete. Ainda assim, Twain continuou desesperadamente à procura e, quando o revisor tornou a dizer-lhe que não era necessário, o escritor explicou-lhe: “Claro que é necessário. Se não encontrar o bilhete, como vou descobrir em que estação devo apear-me?”

Biblioteca itinerante (e viva)

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Conheço muita gente que se apaixonou pela leitura no tempo em que a Fundação Calouste Gulbenkian tinha bibliotecas itinerantes e corria o país de lés a lés para levar livros a jovens e crianças de terras pequenas que ainda hoje, tantos anos passados, não têm uma livraria. Um desses casos é o de José Luís Peixoto, que me contou como esperava ansiosamente a chegada da carrinha para poder ir buscar mais um livro (e foi assim, se não me engano, que chegou a Dostoievsky). Estamos a milhas desse tempo, com uma rede de bibliotecas públicas apreciável, mas há países em que, infelizmente, não é assim. Li uma notícia sobre uma original biblioteca itinerante na Indonésia, fundada por um homem de 42 anos, pai de cinco filhos. Tratador de cavalos, este homem iniciou a biblioteca com uma doação de cem títulos e percorre as aldeias vizinhas três vezes por semana, levando nos alforges de um dos seus cavalos um número significativo de livros para as crianças. Espera-as normalmente nos intervalos escolares e empresta-lhes o que elas queiram ler. Segundo dados da UNESCO, a Indonésia conseguiu reduzir para metade, entre 2004 e 2010, o número de analfabetos, e certamente pessoas como este senhor fazem todos os dias a diferença. Vai aí uma fotografia para se deliciarem. Boa Páscoa!


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Um espaço nosso

Durante o último festival literário a que fui, reparei numa coisa que me causou uma certa inveja: no meio da balbúrdia que era o bar do hotel por aquelas noites, cheio de escritores e jornalistas à conversa, um romancista português sentou-se a um canto com o seu computador portátil e ali esteve a trabalhar toda a noite sem problemas. Eu não sou capaz de me concentrar e escrever ao pé de outras pessoas (embora consiga ler com o barulho de fundo dos jogos de futebol e dos aeroportos, é um facto). Preciso do meu espaço, do meu silêncio, dos meus dicionários, da minha secretária. Às vezes, em férias, levo o computador com boas intenções, mas raramente consigo criar com a calma com que o faço no meu escritório de casa. Ora, sobre este assunto da necessidade de um espaço nosso, escreveu maravilhosamente Virginia Woolf em Um Quarto Que Seja Seu, um texto que reproduz creio que duas palestras numa universidade feminina sob o tema "Mulheres e Ficção". Olhando para o vazio na publicação de textos de mulheres no seu passado, sobretudo mulheres da classe média (uma vez que algumas aristocratas ainda conseguiram publicar alguma coisa), Woolf analisa a circunstância de as mulheres nunca terem tido dinheiro, nem tempo (eram elas que faziam tudo em casa, incluindo educar as crianças) para se poderem dedicar à escrita – e, sobretudo, não terem tido um espaço próprio (e, como eu, ser-lhes-ia francamente difícil escrever no meio da família inteira na sala comum, até porque, para as mulheres, escrever não era nesses tempos coisa muito bem vista; e, além disso, deviam ser interrompidas a todo o instante). O texto foi originalmente publicado no final dos anos 1920 e revisto umas quantas vezes, mas em muita coisa permanece actual e merece leitura atenta. Sim, Mrs. Woolf, precisamos de um quarto que seja nosso!

Gala

Desde há vários anos que a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) promove anualmente o Prémio Autores, que abrange as áreas da música, do teatro, da televisão, das artes visuais, da rádio, do cinema, da dança e, evidentemente, da literatura. Este ano, fiquei muito contente por saber que João Pinto Coelho, o grande pintor dos Extraordinários e autor do fenomenal Perguntem a Sarah Gross, está nomeado na categoria de Melhor Livro de Ficção Narrativa (espero que ganhe, claro, embora Cristina Carvalho, outra nomeada, já tenha sido finalista noutros anos e a SPA não deva ser sádica). Contenta-me ainda que um livro infantil delicioso de que aqui falei, A Cantora Deitada, de Sandro William Junqueira com ilustrações de Maria João Lima, esteja entre os finalistas na categoria de Livro Infantil, tal como A Palavra Perdida, de Inês Fonseca Santos. E, por fim, adoro que Persianas se encontre nomeado em Poesia, pois gosto muito de Miguel Manso que, além do mais, sabe ler alto poesia muito bem. Os vencedores do prémio vão ser anunciados mais logo no Teatro D. Maria II e a gala vai ser transmitida em directo na RTP2. Não percam.

Dia da Poesia

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Hoje é Dia Mundial da Poesia e, como poeta que também sou, não podia deixar de saudar as milhentas iniciativas por esse País fora a favor da bela poesia. Não queria, de resto, escolher nenhuma, mas, por ser igualmente letrista, o meu coração inclinou-se de repente para uma actividade que decorrerá hoje, pelas 19h00, na Biblioteca Municipal de Oeiras, organizada pelo jornalista João Morales, que gosta tanto de letras como de música. Então, convido os leitores deste blogue a assistirem a uma viagem de som e imagem em torno de Poesia Portuguesa Musicada, na qual se recolhem e mostram encontros felizes entre poetas e músicos de diferentes géneros e períodos. O cartaz já dá uma boa ideia do que se vai passar. E a entrada é livre, não faltem!


 


 


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Os orfanatos de Ceausescu

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Depois de prémios e nomeações várias, Ana Cristina Silva regressa à publicação com um romance, A Noite não É Eterna, cuja acção decorre nos anos de chumbo da Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, com a população enfraquecida pela fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército no qual os soldados são treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, a culpa e o desgosto já não a abandonarão, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido. Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade, de fazer falsas denúncias, de correr os orfanatos cujas imagens terríveis chocaram o mundo e até de integrar uma rede que transporta clandestinamente crianças romenas seropositivas para o Ocidente. Mas será que o seu sofrimento pode ser aplacado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo? Leia para saber.


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A realidade imita a ficção

Soube esta história por um amigo espanhol, que a publicou numa espécie de blogue que alimenta mensalmente e faz o favor de me enviar. O seu texto era sobre as lições de literatura do autor de Lolita numa universidade americana (e ele não considerava Nabokov um grande leitor, embora o considerasse um enorme escritor); mas foi curiosamente um assunto lateral que me prendeu a atenção. Todos já certamente ouviram falar de Robert Louis Stevenson, o autor de livros como a Ilha do Tesouro que, escrito ainda no século XIX, ainda continua a ser lido por muito boa gente e recomendado aos jovens de todo o mundo; e saberão (até porque o cinema é um bom veículo) que foi também autor da novela Dr. Jekyll e Mr. Hyde, a história de um médico que de vez em quando se transforma num monstro psicopata, assumindo uma figura física assustadora e praticando actos malignos. Pois acontece que Stevenson teve no fim da vida um derrame cerebral e ficou com o rosto deformado; e, segundo conta Nabokov nas suas conferências (ao que parece com cumplicidade e ternura), o pobre escritor ficou convencido de que sofrera uma transformação igual à da sua personagem… Um caso em que, pelos vistos, a realidade imitou a ficção.

De volta

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Está à venda desde ontem em todo o País o esperadíssimo segundo romance de João Ricardo Pedro, autor que foi premiado, aplaudido e traduzido em dez línguas quando publicou O Teu Rosto Será o Último, a sua obra de estreia, e que agora regressa com Um Postal de Detroit, um romance avassalador sobre a fronteira que existe entre sanidade e loucura e os laços perturbadores que unem a vida à arte. Em Setembro de 1985 deu-se um choque frontal de comboios em Alcafache. Algumas das vítimas mortais, presas nas carruagens a arder, nunca chegaram a ser identificadas. Nesta obra, a mãe de Marta recebe um inesperado telefonema informando que a mochila da filha – estudante de Belas-Artes – apareceu entre os destroços. Partindo então dos cadernos de desenho de Marta – uma espécie de diários visuais –, o narrador deste romance tenta recriar os passos da irmã nos tempos que antecederam o acidente. E, enquanto o faz, dá-nos a conhecer um leque de figuras absolutamente inesquecíveis, entre as quais se contam prostitutas, boxeurs, polícias e assassinos, mas também anjinhos de procissão, médicos e senhoras caridosas. E, claro, ele próprio – o mais ausente dos cadernos de Marta. Maravilhoso, é o que posso dizer.


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Sem título

Em matéria de livros, diz-se que um bom título é meio caminho andado para atrair leitores e alcançar o sucesso, mesmo que frequentemente os atraídos possam sentir que foram ao engano. Há escritores que já têm título antes de começarem a escrever os seus romances – e quiçá os escrevam por causa daquele título fenomenal – e outros que, terminada a obra, ainda não têm a mais pálida ideia de como chamar-lhe. Às vezes, finda a leitura, ficamos perplexos com a escolha do título por parte do autor, de tal forma a achamos despropositada; e, em livros traduzidos, nem sempre conseguimos ser fiéis ao título original (lembro-me de que o romance A Child in time, de Ian McEwan, sofreu deste problema, pois «in time» é «no tempo» mas também «a tempo» e, em português, nenhuma expressão servia para traduzir ambas as coisas). Os títulos das canções, embora menos importantes do que os dos livros, porque é sobretudo pelo artista e o nome do álbum que o interessado compra música, também nos ficam na memória (nunca esqueço La Bohème, por exemplo, ou temas da minha juventude como Goodbye Yellow Brick Road). E, porém, misteriosamente, na pintura o título parece coisa de pouca monta e em muitos caso até dispensável. Se atentarmos ao número de obras de arte referidas como «sem título» ao longo dos tempos, chegaremos à conclusão de que é mesmo muito grande. Porque será?

Imprevistos

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No dia 23 do mês passado, saí de carro de Lisboa pela hora do almoço em direcção ao Porto, onde decorreria, na FNAC de Santa Catarina, a primeira apresentação pública do romance Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo, finalista da última edição do Prémio LeYa. Fazia sentido: a autora mora a norte, e é lá que estão seguramente quase todos os seus familiares e amigos. Para dissertar sobre a obra – decerto exemplarmente – estaria o grande Mário Cláudio, o que, aliás, vinha também a propósito, já que conheci Isabel Rio Novo através dele e o romance deixa ver alguma influência da literatura do mestre, e também de Agustina, e também de Camilo. Mas – de forma imprevista e imprevisível – Mário Cláudio tinha nesse dia uma daquelas gripes que não deixam ninguém levantar-se da cama e ligou para mim e para a autora meia hora antes do lançamento com uma voz a condizer com a febre, explicando que não conseguiria mesmo estar presente, mas mandaria entregar as suas notas numa folha A4 na livraria. Eu, partindo delas e com a colaboração da Isabel Rio Novo, dei conta do recado o melhor que sabia e podia, mas, claro, não tenho a aura nem a inteligência do escritor e, como tal, a autora ficou a perder. Hoje, porém, vamos fazer a festa em Lisboa com a ajuda de Nuno Júdice, que terá certamente muito a dizer e espero não adoeça com gripe até lá. Se quiser juntar-se a nós, venha e será muito bem-vindo.


 


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Portugal-Brasil

Não é novidade que as literaturas portuguesa e brasileira andam há muito de costas voltadas; mas a notícia de que o Ministério da Educação do Brasil (MEB) iria eliminar o carácter obrigatório do estudo da literatura portuguesa chocou muita gente dos dois lados do Atlântico. O problema não está, note-se, em acompanhar o que se vai escrevendo por aqui na contemporaneidade, mas em riscar dos currículos do Secundário alguns nomes fulcrais da literatura lusófona como Camões, Pessoa, Camilo, Garrett, Eça (eu julguei que Eça fosse apreciadíssimo no país irmão, apesar de por lá terem o grande Machado de Assis) e até Saramago, a quem muitos leitores brasileiros faziam vénia cada vez que punha os pés no Brasil (e foi lá frequentemente). A decisão – que ainda não foi confirmada e só será posta em prática, se o for, em Junho – foi considerada por muitos educadores brasileiros política e populista num momento em que o MEB quer fazer mudanças profundas nos programas de História e Língua Portuguesa. E, no jornal Folha de S. Paulo, dois professores universitários afirmam que a proposta raia o absurdo e que Portugal, custe o que custar, não pode ser simplesmente apagado das origens do Brasil. A ver vamos.

Uma questão de honra

Nas últimas Correntes d'Escritas, Javier Cercas, o romancista espanhol que venceu o prémio literário atribuído anualmente naquele certame com a sua obra As Leis da Fronteira, contou uma deliciosa história quando foi ao palco receber o galardão, tudo por causa das falsas modéstias. Ao que parece, o grande Miguel de Unamuno foi receptor de uma condecoração muito importante por parte de Sua Majestade o rei Afonso XIII. E, no momento em que fez o discurso de agradecimento, disse com todas as letras que se sentia honrado com aquela medalha que tanto merecia e ainda bem que lha estavam a dar. Parece que o rei conhecia razovalmente Unamuno e que, por isso, não estranhou por aí além as suas palavras; mesmo assim, não resistiu a perguntar-lhe porque reagia daquela forma um pouco sobranceira, afirmando que o prémio era merecido. Por ser verdade, explicou Unamuno. E, quando Afonso XIII lhe lembrou que os seus antecessores todos tinham dito sentirem-se profundamente honrados com a distinção justamente por não serem dela mercedores, o escritor retorquiu laconicamente: Claro, mas nesses casos era verdade.

Politicamente correcto

Publiquei há muitos anos uma colectânea de artigos do historiador norte-americano Daniel Boorstin – então director da Biblioteca do Congresso – chamada O Nariz de Cleópatra, a maioria dos quais reflectia sobre a questão do politicamente correcto e, na verdade, a desmontava de modo inteligente. Devo dizer que, com o tempo, começo a achar que há bens que vêm por mal e que o politicamente correcto foi justamente um deles: onde já se viu, por exemplo, cobrir as esculturas de Miguel Ângelo só para não escandalizar o líder do Irão em visita a Florença? Ou excluir o porco dos livros escolares britânicos por causa de os alunos árabes e judeus não comerem carne de porco? Ou mesmo retirar o Holocausto dos currículos de alguns cursos para, enfim, não ferir susceptibilidades? Tudo quanto é demais é erro, já dizia a minha avó; e agora parece que até a criançada está viciada no jogo do politicamente correcto e que há queixas de racismo e discriminação porque um manual do 2º ano – para meninos de sete ou oito anos – inclui um exercício com lengalengas, entre as quais a conhecida: «Truz Truz / Quem é? / É o preto da Guiné / O que traz? / Café.» Eu bem sei que basta haver um aluno guineense na turma para a lengalenga virar insulto, mas não é caso único e tudo quanto é charada, história e poeminha com as palavras ciganos, gordas (no caso uma girafa), chineses, etc. é motivo de reclamação por parte de professores e encarregados de educação, mas também de miúdos. Os autores de livros infanto-juvenis, muitos deles grandes combatentes pela igualdade, andam a ser chateados por causa disso. Mas escrever com pinças não será também uma falta de liberdade?

Como cinema

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Logo teremos mais um lançamento na Livraria Buchholz, o do romance Os Dez Livros de Santiago Boccanegra, de Pedro Marta Santos, que em 2014 foi um dos finalistas do Prémio LeYa. Além de ter uma capa muitíssimo bonita, tem um «miolo» ainda melhor e, de certa forma, é como cinema em estado puro: profundamente visual, misterioso, alucinante, construído cena após cena. O autor escreveu-o talvez por não poder fazer um filme com este argumento (seria mesmo difícil e caríssimo), e o realizador António-Pedro Vasconcelos, com quem Pedro Marta Santos já trabalhou como guionista, vai apresentá-lo. Boxeurs, prostitutas de luxo, traficantes, poetas, apreciadores de arte e até uma gravidez por causa dos Beatles, tudo cabe neste romance onde também há pássaros e baleias. Veja se não falta.


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Embrulho de luxo

O Manel contou-me que, quando era jovem, muitas editoras portuguesas encomendavam a realização das capas dos livros a artistas e pintores conhecidos e que isto não acontecia apenas com obras de autores importantes, mas também com livros que, à partida, tinham menos prestígio junto do público, como alguns romances policiais publicados na famosa colecção Vampiro, livros de bolso e vendidos a um preço módico. A mim não me ocorreria comprar hoje um livro só por causa da capa (talvez por ser uma insider do mundo editorial e saber que às vezes a capa não espelha exactamente o que é o livro); mas fui recentemente surpreendida por uma colecção de livros que está a ser vendida com o jornal Público a partir do final de Fevereiro chamada justamente Quem Vê Capas Vê Corações, que reúne doze volumes cujas capas originais foram uma obra-prima de inovação e arte, desenhadas por gente que sabia da poda muito antes da invenção do marketing. A série inclui romances de Erich Maria Remarque ou José Rodrigues Miguéis, a par de textos de teor mais ensaístico como Novo Mundo, Mundo Novo, de António Ferro (com capa do pintor modernista Bernardo Marques) ou mesmo literatura juvenil, como Histórias da Minha Rua, de Maria Cecília Correia, com capa e ilustrações de Maria Keil. Belas obras literárias com capas icónicas, em suma. Deixemo-nos tentar pelo embrulho para chegar ao miolo…

Histórias da Batalha

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O Mosteiro da Batalha é, sem dúvida, um dos mais belos monumentos portugueses (e do mundo inteiro), além de ser o mais visitado a seguir aos Jerónimos – e o seu director, Joaquim Ruivo, teve uma ideia de génio e convidou Paulo Kellerman e João Paulo Silva para a porem em prática: haveria, em suma, que escolher 20 escritores para passarem dois dias no mosteiro, acompanhados pelo director e por uma guia, que os levaram a conhecer todos os cantinhos à casa, mesmo aqueles que habitualmente estão vedados ao público. Depois, tinham de escrever um conto, que seria publicado numa antologia, Contos Imperfeitos, produzida e distribuída pela Livraria Arquivo, em Leiria, onde será apresentada amanhã, pelas 18h30. Participam na antologia, além dos já citados coordenadores, Afonso Cruz, Ana Cristina Silva, Andreia Monteiro, António Manuel Venda, Cláudia Clemente, Cristina Carvalho, Elsa Margarida Rodrigues, Fausta Cardoso Pereira, Fernando José Rodrigues, Inês Botelho, Inês Fonseca Santos João Eduardo Ferreira, Luís Mourão, Paulo Assim, Paulo Moreiras, Raquel Ochoa, Sara Monteiro e Sílvia Alves. Se estiver por perto, apareça por lá e vai de certeza apreciar.


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Brincar aos Maias (sem cometer incesto)

Os Maias, Becoming an Expert diz-lhe alguma coisa? Pois bem, é um jogo com 448 perguntas de escolha múltipla, divididas por níveis – uma espécie de concurso desenvolvido por uma equipa multidisciplinar de investigadores da Universidade de Coimbra, com o apoio de profissionais de design e programação informática, para tornar a aprendizagem da obra de Eça de Queirós mais entusiasmante e interactiva. O jogo destina-se, ao que parece, a smartphones e tablets e já foi testado com alunos do 11.º ano em estabelecimentos de ensino do Centro e Norte do País com bastante sucesso: as reacções, tanto de alunos como professores, foram francamente positivas, razão para a coordenadora do estudo financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia concluir que é necessário alterar as práticas de ensino e ir além da aula tradicional de tipo expositivo. Se os alunos levam o telemóvel para a aula e não o conseguem ignorar, então o melhor é usá-lo para aprender a matéria (neste caso Os Maias, mas há outros temas, como a implantação da República, por exemplo). Os jogos – que inicialmente serão quatro – vão ser lançados em Maio e disponibilizados a todas as escolas que se mostrem interessadas em experimentá-los. Vamos lá ver quantos peritos em Eça vão nascer nas escolas.

Decidir um ofício

Talvez a maioria das pessoas que se queixam continuamente do trabalho não faça aquilo de que gosta e, mesmo realizando funções na sua área de formação, preferisse deitar a mão a uma coisa diferente. Escolher um ofício não é para todos, evidentemente; e, assim em termos abstractos, eu até poderia dizer que, se não trabalhasse com livros, me via a ser radialista ou actriz de teatro mas, provavelmente, não tenho o mais pequeno talento para representar, nem condições, porque tenho bastante medo do público; e, quanto à rádio, desconfio de que não me entenderia com as máquinas. Conheço, porém, artistas multifacetados que hoje são músicos mas sempre desenharam bem, ou que se tornaram escritores mais ou menos bem-sucedidos quando as famílias pensavam que acabariam a cantar num palco. O falecido cineasta João César Monteiro disse um dia numa entrevista que decidira na juventude ser poeta (e, claro, também o foi à sua maneira particular com os filmes que fez); mas que, percebendo que a poesia portuguesa estava «cheia como um ovo», teve de se virar para o cinema. Ele, pelo menos, decidiu o seu ofício.

O que ando a ler

Não ando a ler, já acabei, mas, para o efeito, tanto faz. Capa belíssima e título ainda mais belo fazem de qualquer livro irresistível e, por isso, este não é excepção. Chama-se Não Há tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas Que os Mereçam e assina-o Helena Vasconcelos, a crítica literária mais simpática da actualidade que, ainda por cima, tem a coragem e a humildade de se atrever à ficção. E fá-lo num romance com muito de ensaio e muito de biografia, que é também uma espécie de “Jane Austen para principiantes e devotos”. Contando a história de Ana Teresa – uma rapariga desfasada do seu tempo e com pais ausentes, que vai para Londres investigar tudo o que ainda não sabe sobre a sua escritora preferida –, a autora partilha simultaneamente com ela e connosco a vida e a obra de uma das mais interessantes e divertidas ficcionistas dos inícios de Oitocentos, herdeira de alguns dos bons tiques de Shakespeare e conhecida por livros como Orgulho e Preconceito, Ema ou Sensibilidade e Bom Senso (só para citar os mais populares). Parece, aliás, que o desejo de Helena Vasconcelos era escrever sobre Austen e que Ana Teresa, a avó, os pais, Rebeca, Mark e as outras personagens do romance saíram da sua cabeça para que pudesse levar a cabo a tarefa de uma forma menos académica do que num ensaio, menos exaustiva do que numa biografia e, sobretudo, mais agradável para o leitor, que acaba por andar a fazer companhia a Ana Teresa (e ela bem precisa), deliciando-se com o seu questionamento sobre o que faria a escritora britânica se se visse nos seus apuros. Um romance inesperado, que podia ter sido arquitectado pela mão de Austen, compõe esta narrativa que se lê de repente.