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A mostrar mensagens de outubro, 2011

Gavetas

Quanto trabalhei na Temas e Debates (que hoje só edita livros de não-ficção, mais de acordo, aliás, com o seu nome), publiquei os dois primeiros romances de Jonathan Safran Foer – na altura um dos mais promissores romancistas norte-americanos, segundo a revista Granta; da lista de talentos fazia também parte uma menina bonita de Nova Iorque que soube mais tarde ser a mulher do escritor: Nicole Krauss, cuja primeira obra publicada em Portugal se intitula A História do Amor, romance que venceu dois prémios importantes e foi finalista de quase todos os outros que valiam a pena, quer nos EUA, quer nos países em que foi traduzido (como o Médicis e o Fémina). Saiu recentemente desta autora o romance A Grande Casa – e não é por acaso que, na sua belíssima capa, não existe nenhuma casa, mas, afinal, apenas três gavetas. É que a história gira em torno de uma secretária enorme, que pertenceu a um poeta desaparecido no Chile de Pinochet e acolheu depois – e ao longo de vinte e cinco anos – os escritos de uma romancista americana, a quem a filha do poeta aparece um belo dia para reclamar o móvel de que é herdeira. Mas a secretária tem o poder de mudar a vida a quem a possui ou se desfaz dela e, por isso, a desta mulher solitária nunca mais será igual. O mesmo acontece, de resto, a todas as outras personagens que, ao longo do século xx, estiveram na posse da dita secretária. Misterioso e belo, o romance visita lugares distintos em alguns dos mais importantes acontecimentos dos últimos cem anos e, de acordo com a crítica, irá granjear ainda mais leitores para a jovem Krauss.

Privado e público

À semelhança do que fez Georges Duby há muitos anos em França, o historiador José Mattoso dirigiu recentemente uma obra colectiva para o Círculo de Leitores e a Temas e Debates que dá pelo nome de História da Vida Privada em Portugal. Dividida em quatro volumes – Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea e Os Nossos Dias –, cada um deles coordenado por um especialista na época respectiva, este é um monumento histórico que torna público o privado, abordando temas tão variados como a família, a casa, o convívio, o corpo, a sexualidade, a religiosidade, as festas ou as representações da morte. Profusamente ilustrado e num formato simpático que se pode abrir no colo sem dificuldade, o conjunto destes quatro livros deixará a nossa curiosidade sem dúvida satisfeita no domínio do doméstico e do íntimo. Para os que tiverem coragem, o texto pode ser lido de um fôlego; para os que, como eu, preferem a ficção, é bom arranjar um lugar na estante para abrigar esta fantástica obra de consulta e ir lá espreitar de vez em quando.

Agustina

Um olhar muito vivo e um discurso calmo mas decididamente desarmante, uma inteligência fina e uma atracção por coisas boas (uma carteira de crocodilo, por exemplo, comprada na Suíça na minha presença – e quanto custou!), são tudo características que recordo da figura. Vi recentemente no jornal que Agustina Bessa Luís fez 89 anos. Talvez pela situação em que se encontra – afectada na sua capacidade criativa por uma doença, tanto quanto sei, irreversível –, Agustina não tem sido muito falada nos nossos meios de comunicação nos últimos tempos, embora não se possa obviamente dizer que já foi esquecida. A verdade, porém, é que, nesta fogueira de vaidades que é o nosso meio artístico, quem não aparece arrisca-se a ser riscado do mapa – e isso seria grave para uma autora como ela. Ignoro se os jovens continuam a ler A Sibila na escola secundária (espero que sim), mas, para quem não teve ainda oportunidade de tomar contacto com a senhora do Norte, essa é talvez a melhor obra para começar; de qualquer modo, Agustina foi relativamente prolífica e não faltarão títulos a que deitar a mão. O que não podemos é esquecer o que escreveu por ela estar de algum modo retirada, pois trata-se de uma das mais importantes vozes literárias do século xx.

Malhados e corcundas

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Nas guerras liberais, os malhados eram os liberais e os corcundas os absolutistas. Estes faziam demasiadas vénias, andando sempre curvados ao seu rei, daí o epíteto; e, porque uma mula malhada se empinara e deixara cair D. Miguel ao chão, passaram a dizer-se malhados os partidários do seu irmão D. Pedro. Ora, é no contexto desta guerra que se desenrola o último romance de Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas – a deliciosa história de Vicente Maria Sarmento, regressado a Chão de Couce depois de uns anos na cadeia do Limoeiro, em Lisboa, pronto a regenerar-se e a viver em paz e decência o resto dos seus dias com a puta Tomásia, que não conseguiu esquecer desde que rumou à capital. Mas, se os dois irmãos estão em guerra pelo trono de Portugal, a Vicente Maria também não são poupados adversários e rivais, e as suas boas intenções ver-se-ão sistematicamente goradas. Valer-lhe-á um último golpe de má conduta, mas o acaso pregar-lhe-á uma partida das grandes, mostrando que um pequeníssimo imprevisto pode, realmente, mudar a história de um país inteiro. Cheio de humor e recorrendo a uma linguagem rica e poderosa, eis o novo romance de um escritor que se tem destacado na literatura picaresca em Portugal.


 


Leitores

Quando fui a Cuba no início dos anos 90, levaram-me a uma fábrica de charutos em Trinidad, cidade belíssima, onde alguém me contou que em tempos os operários contavam com a ajuda de um funcionário que lhes lia romances enquanto trabalhavam. Também na Europa de Leste, em alguns países, era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter. Contudo, O Leitor de que hoje falo é um dos protagonistas do bonito livro de Bernard Schlink: um adolescente que se inicia sexualmente com uma mulher bastante mais velha, com quem mantém um ritual de banhos e leituras, descobrindo, muito mais tarde, que ela foi guarda num campo de concentração nazi. O romance já deu um belo filme – o que ajudou seguramente a que muitos comprassem o livro –, mas aqui fica mais uma chamada de atenção para um pequeno romance fascinante, traduzido em cerca de quarenta línguas.

Contos

Já aqui escrevi sobre a dificuldade de publicar em Portugal colectâneas de contos. Talvez os portugueses prefiram romances, uma vez que, se o autor não é já bastante conhecido, raramente os contos vingam, sobretudo comercialmente. Pressionados pela nossa desconfiança em relação ao seu sucesso, nós, editores, só arriscamos quando o conjunto é realmente excepcional. Todavia, a iniciativa que a FNAC tem há vários anos de publicar no Dia Mundial do Livro uma pequena colectânea de contos, cujos direitos revertem para a AMI, é uma boa excepção. E a última edição de O Prazer da Leitura é uma grata surpresa. Não só porque inclui alguns nomes que trabalham frequentemente o género – como Ondjaki – ou mais sonantes – como Dulce Maria Cardoso –, mas também algumas das promessas da literatura portuguesa – como Afonso Cruz e Ricardo Adolfo – e ainda uma estreia completamente inesperada num livro de ficções: a de Onésimo Teotónio Almeida, que conhecemos melhor das crónicas divertidas e sagazes que publica há anos. Para uma viagem de autocarro ou uma hora na sala de espera do dentista, uma boa escolha – e suficientemente variada para agradar a todos.

Lugares donde não somos

Todos somos africanos, uma vez que era de lá, pelos vistos, o primeiro macaco capaz de dizer e pensar. Eu certamente que sou, embora só tenha estado em África três vezes e a primeira das quais já depois dos trinta. O meu bisavô esteve nas campanhas em Moçambique e casou-se com uma rapariga de Lourenço Marques; ela teimou em acompanhá-lo e acabou por morrer no mato com uma infecção oito dias depois de dar à luz a minha avó materna. Esta ficou entre os militares uns meses, amamentada pela mulher de um soba; e, depois de quatro anos na capital com a avó (da qual nada sabemos senão o nome), veio para a metrópole com o pai, onde viveu até se casar. O marido – um brasileiro provavelmente descendente de outro africano traficado – levou-a mais tarde para Angola, donde regressou ao fim de um ano com a minha mãe na barriga (concebida, portanto, em África). Interrompeu-se aqui o ciclo africano da família, mas tenho já um sobrinho no Brasil à procura de uma oportunidade de trabalho que, se não fosse publicitário, podia muito bem estar em Luanda a esta hora. Enfim, apesar da segregação em 1975, na sequência da maior ponte aérea de todos os tempos (meio milhão de pessoas!), todos somos bisnetos, netos, filhos ou amigos de retornados. (Muitos dos autores que lemos – Gonçalo Tavares e valter hugo mãe, por exemplo – nasceram nas ex-colónias.) E é deste retorno que fala o mais recente romance de Dulce Maria Cardoso – ela que viveu na carne o choque de deixar a terra que era a sua para se ver instalada com a família, a milhares de quilómetros, num hotel transformado em lar para tantos repentinos sem-abrigo. Muito lobo-antuniano na sua cadência musical e na recorrência de certos elementos-chave, este é um livro importante por muitas razões, entre elas a de dar a conhecer, envolta num feito literário de respeito, uma situação vivida por muitos portugueses que outros tantos desconhecem ou preferiram ignorar. Francamente contundente, ele tem assim mesmo a qualidade de fechar a chaga que abre, convidando-nos não só a perceber o outro lado, mas a estar desse lado (porque nos sentimos irremediavelmente mais próximos de Rui – o narrador adolescente – do que, por exemplo, da directora do hotel ou da mais simpática Teresa Bartolomeu, colega de liceu do protagonista). Com uma construção primorosa entre memória, sonho, maturidade e decepção, O Retorno, assim se chama o romance, faz-se ao mesmo tempo arte e documento e, como tal, não se pode perder.

Da vida do editor

Desde que, em todo o mundo, as editoras se concentraram em grandes grupos, o papel do editor sofreu grandes alterações. Muitos dos que eram figuras de referência internacionais, ao venderem as suas editoras, tornaram-se assalariados e, em muitos casos, perderam autonomia: as suas escolhas têm hoje por base não apenas na qualidade dos livros, mas também a sua rendibilidade. Houve, porém, alguns que conseguiram manter as casas que fundaram e bem assim a sua linha editorial. Um deles foi o espanhol Jorge Herralde, o proprietário da Anagrama em Espanha, que só muito recentemente decidiu associar-se à gigante Feltrinelli para garantir a continuidade da empresa (pois não tem herdeiros), mas continua a publicar aquilo de que gosta e a usar as mesmas capas de há décadas, não se ralando com a profusão de cores, relevos e dourados que inundam o mercado. No texto de uma conferência proferida em Barcelona (e depois publicada em livro no México), Herralde, citando um outro editor (Olivier Cohen, da Seuil, esta já absorvida por um grupo), diz que não devemos julgar um editor pelos bons livros que recusou, mas pelos livros maus que publicou. Uma perspectiva, sem dúvida, interessante. E, mais adiante, fala da diferença entre as editoras de supermercado (que publicam tudo) e as editoras boutique (que fazem uma selecção de títulos apertada e criteriosa), avançando que muitos dos grandes grupos não resistem a ter uma destas boutiques, tal como os armazéns El Corte Inglés não podem deixar de vender a marca Armani. Se tiver razão, daqui a uns anos, é bem capaz de alguém se interessar pela Tinta-da-China...

Direitos de autor

O aparecimento dos e-books levanta várias questões, entre elas o problema da pirataria, uma vez que um hacker que se preze conseguirá sacá-los da Internet sem pagar e quiçá copiá-los indefinidamente e até comercializá-los, tramando o autor que, como proprietário dos direitos, ficará a ver navios em matéria de retribuição. Li algures, enquanto me preparava para um debate sobre e-books e livros em papel na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, que as bibliotecas americanas que «alugam» e-books a estudantes (e os compraram dentro da maior legalidade, suponho) estão impedidas de permitir mais do que 32 downloads de cada um (se o número estiver incorrecto, perdoem-me, mas foi o que me ficou na cabeça), tendo de voltar a comprar o livro quando estas «descargas» chegarem ao fim. Pois bem, se um e-book numa biblioteca americana vale 32 leituras, pois a verdade é que um livro em papel valia até agora todas as leituras possíveis e imaginárias (e o autor só recebera direitos da venda de um exemplar, situação bastante ingrata, mesmo tendo em conta que as bibliotecas existem para prestar um serviço público e promover a leitura, embora em Portugal algumas bibliotecas ainda pediam até há pouco tempo livros de borla aos editores). Estando as bibliotecas por esse mundo fora a digitalizar livros em papel constantes do seu acervo, os perigos da cópia e do roubo informático multiplicam-se, penalizando mais uma vez o autor; parece ser este o caso de uma biblioteca universitária, creio que em Michigan, que decidiu permitir downloads indefinidamente de uma lista de livros cujos detentores do copyright (autor ou herdeiros) não se acusem em 90 dias. Pois acontece que várias Sociedades de Autores (EUA, RU, Austrália, Canadá) se uniram para lhes pôr um processo e que a operação já foi interrompida. Mas, por essas e outras, há já um movimento para se cobrar por cada utilização de um livro, seja digital ou em papel, em todas as bibliotecas. Se isto for avante, os autores que se alegrem.

Línguas estranhas

É lícito que um autor português – como, de resto, um autor de qualquer nacionalidade – aspire a ser traduzido e publicado noutros países. Em Portugal, lemos provavelmente tantos livros traduzidos como livros escritos originalmente em português, mas, por exemplo, nos países de língua inglesa, a produção nacional é tão extensa que quase não há espaço para a publicação de autores estrangeiros. Quando entrei na edição, para além dos escritores portugueses consagrados, quase só estavam traduzidos os que, por razões de credo político, haviam conseguido entretecer-se nas redes clandestinas que os faziam sair nos países da Europa de Leste (e, provavelmente, nem ali eram muito lidos). Nos anos 90 – em parte por causa da atribuição do Nobel a Saramago, que abriu muitas portas – a situação melhorou bastante, mas continua a ser ainda hoje muito difícil colocar os nossos escritores no mercado internacional – sobretudo o de língua inglesa; mesmo que o português seja falado por milhares de pessoas em vários continentes, ele é para o grosso dos países estrangeiros uma língua estranha que praticamente ninguém aprende ou estuda, pelo que, em geral, as editoras não têm, entre os seus quadros, ninguém que possa ler e avaliar uma obra portuguesa com vista à publicação. Mas também em Portugal acontece algo do género, pois a produção editorial de livros estrangeiros não vai muito além dos autores ingleses, americanos, franceses, italianos e espanhóis, traduzindo-se meia dúzia de russos e alemães de comprovado gabarito (mas poucos contemporâneos) e um ou outro nome mais sonante dessa Europa que fala línguas minoritárias (como o sueco, o húngaro ou o neerlandês). Por isso mesmo, muitos de nós desconhecíamos o mais recente Prémio Nobel da Literatura, o poeta Tomas Tranströmer, como desconhecemos certamente uma enormidade de autores que se calhar fariam as nossas delícias, mas que, infelizmente, não há quem possa ler e traduzir.

Ossos do ofício

Sou muito pouco talentosa na cozinha e admiro quem fala de coulis, chutneys, espumas e reduções com a mesma familiaridade com que eu me refiro ao sal ou ao açúcar. Tenho uma amiga que cozinha muito bem e chega ao ponto de dizer que, quando olha para uma receita, sabe exactamente o que vai ter de alterar para que o prato fique completamente a seu gosto. Estou certa de que muitas pessoas que gostam de ler acham (um pouco ingenuamente, claro, porque só vêem o lado bom da profissão – passar a vida a ler livros) que o meu ofício é um dos melhores do mundo. E, porém, mesmo sem contar com o número de originais imprestáveis que ocupam seguramente grande parte do meu tempo, a verdade é que quem faz vida nos livros acaba por aparentar-se a essa cozinheira minha amiga: é que, por mais que tentemos, já não conseguimos ler virginalmente um livro, não conseguimos deixar de pensar que esta ou aquela frase a escreveríamos nós de outra forma, que resolveríamos uma situação criada pelo autor de um modo muito distinto (e, pensamos nós, de longe mais eficaz), que de maneira nenhuma optaríamos por aquela expressão para traduzir o que nos parece que o original dizia. Enfim, passa a ser tão difícil simplesmente lermos (ou lermos simplesmente) que um dia destes tropecei num livro no qual, ao fim de meia dúzia de páginas, já tinha alterado tanta coisa para poder gostar dele que achei melhor interrompê-lo e devolvê-lo à estante.

Literatura em filme

Fui ver o último filme de Woody Allen e, embora não tenha embandeirado em arco nem achado que era o melhor desde Match Point, como a crítica disse, assistir à obra cinematográfica deste judeu franzino nunca é dar o tempo por perdido. Penso, entre outras coisas, que o filme é muito feito a pensar nos americanos – e que nele existem talvez demasiados clichés para os europeus, mas isso não fere nem incomoda. A verdade é que Woody Allen sabe contar uma história como em literatura, tem sempre tiradas geniais e escreve os seus filmes como muitos escritores deviam escrever os seus livros – sem palha. Além disso, este Meia-Noite em Paris é, de certo modo, uma homenagem à arte, à literatura e a muitos artistas e escritores (se é que os escritores não são eles próprios também artistas) que escolheram a Cidade das Luzes como lugar de aprendizagem e criação. Se gosta de livros – e, em particular, dos autores que estavam no auge nos anos 30 –, não perca. É pura literatura.

Escritor-pessoa

Praticamente até ao advento das novas tecnologias, os escritores eram seres distantes que ninguém via, a não ser o editor que lhes publicava os livros. Não iam à televisão, não se faziam sessões em bibliotecas à volta dos seus livros, nem sempre se punham fotografias suas na badana das obras que deles se publicavam. A Internet, entre outras coisas, facilitou uma espécie de humanização do escritor e aproximou-o do público, que hoje pode ver e ouvir o seu autor favorito em qualquer lado aonde vá – e até corresponder-se com ele ou pedir-lhe facilmente um autógrafo ao vivo. Quando eu era adolescente, imaginava os escritores pessoas formais, fechadas em casa a escrever, muito sérias e contidas (excepto quando se tratava de sabidos noctívagos com pendor alcoólico, que também havia estereótipos desses). Foi, pois, com grande alívio que, numa noite de lançamento de um livro há mesmo muito tempo, vi o historiador José Mattoso (que até tinha sido frade) dançar o tango como ninguém e arrecadar o primeiro prémio nos Alunos d’Apolo. Pode parecer uma infantilidade – e não deixa de o ser – mas, alguns anos depois, quando visitei uma escola por causa de uns livros juvenis que então escrevia, ouvi uma menina dizer a outra em surdina: «Viste? Toquei-lhe no cabelo!» Depois, vieram os computadores, veio o futuro, e os escritores perderam a sua aura de pequenos deuses.

Ir para o céu

Passei a infância num Portugal amordaçado e cheio de vénias à Igreja católica, que mandava muito mais em tudo do que parecia. Para fazer a primeira comunhão, estudei por um catecismo na escola primária em que Eva e Adão andavam vestidos e eram lindos (não descendiam dos macacos nem se pareciam com os homens primitivos). O pecado e o castigo estavam estreitamente ligados – e, para completar o trio, a ideia do Inferno a arder para quem se portasse mal nunca deixava de estar presente. Porém, com o tempo – e embora continue a acreditar em Deus –, a ameaça das chamas diluiu-se, tal como a imagem de um paraíso perfeito onde todos poderão um dia ser felizes (desde que na Terra tiverem sido exemplares, claro). Por estas e por outras, fico um bocado desconcertada com o sucesso de livros que nos acenam com um lugar assim no fim das nossas vidas como o que há semanas não sai dos Top das livrarias e, ao que consta, narra a história de um menino que esteve morto uns segundos, falou com Deus e foi testemunha de que O Céu Existe mesmo. Nem sequer o abri, confesso, mas a ideia de haver tanta gente a comprá-lo faz-me pensar que ou não nos conseguimos ainda libertar desses símbolos com que nos moldaram a meninice, ou somos um País (quiçá um mundo, porque o êxito de vendas não se resume a Portugal) de pessoas tristes e perdidas que contam com o post-mortem para serem visitadas por algum tipo de felicidade, mas não querem, apesar de tudo, partir para o Além desavisadas. Com vendas de 3000 exemplares por semana só em Portugal, a história deste interlocutor privilegiado está, provavelmente, nas casas de muitas famílias que nunca tinham comprado um livro e quiçá não comprarão outro tão cedo.

Três vidas

As Três Vidas é o título do livro de João Tordo que venceu o Prémio Literário José Saramago em finais de 2009 e que é agora finalista – com a edição brasileira – do Prémio PT de Literatura. O título, para quem não leu o romance, é a tradução do nome de uma livraria de Nova Iorque – Three Lives – que, na história, está ligada à rapariga que o protagonista procura naquela cidade. Mas a expressão serve-me neste momento para outra coisa bem diferente, que vem a propósito de uma chuvada gloriosa de comentários neste blogue a um post que escrevi sobre o pretensiosismo de se citarem edições originais de livros que têm tradução portuguesa. Pois nos EUA e no Reino Unido a maioria dos livros têm três vidas – uma edição em capa dura (hardcover), uma em capa mole (paperback) e uma de bolso (pocket); alguns saltam a primeira, se se prevê que o número de leitores para eles é mais modesto, mas restam-lhes sempre duas. Em Portugal, até há pouco tempo, ficávamo-nos pela edição em capa  mole, já que a capa dura é cara de produzir e as tiragens pequenas não a justificam. Porém, o livro de bolso – ao contrário do que muitos disseram – teve recentemente um crescimento assinalável, com uma colecção de clássicos resultante de uma parceria de três editoras e outras duas colecções regularmente alimentadas pelos dois grandes grupos editoriais portugueses. Mas os leitores continuam a queixar-se de que se faz pouco (quem não se sente não é filho de boa gente) e dos preços dos livros de bolso, sobretudo se comparados com as edições do mesmo tipo noutros países. Ora, não podemos esquecer-nos de que vivemos num país pequeno; e que, se os nossos vizinhos espanhóis podem editar tudo em bolso porque são mais de 40 milhões (e não ficam com livros nos armazéns se fizerem tiragens de 10 000), aqui não podemos quase nunca ultrapassar os 3000 exemplares – e, ainda assim, com o risco de não os vendermos a todos. Além disso, em tiragens assim pequenas o custo unitário nunca desce o suficiente para permitir preços mais baixos do que os praticados. Não creio, pois, que se possa ir mais longe neste campo e penso que o que tem sido feito é já bastante louvável para merecer mais elogios do que críticas.

Parabéns

A Pedro Rosa Mendes (narrativa), André Gago (primeira obra), Jaime Rocha (poesia) pelos prémios PEN. Conheço os três e aqui vai o meu abraço.

Blogues literários

Os blogues multiplicaram-se nos anos recentes – e há hoje imensos blogues (o meu um deles) que falam de livros e literatura. Muitos, porém, debruçam-se unicamente sobre obra alheia e dão, acima de tudo, conta da saída de novidades, podendo, ou não, incluir umas linhas a seu respeito. (O que quero dizer é que não são blogues de criação literária, mas de crítica.) Quase todos os autores que publico têm, na verdade, blogues deste tipo, nos quais aproveitam também para informar os seus leitores das actividades que levam a cabo em torno dos seus livros e dos lugares onde vão estar a falar deles. (Tento acompanhá-los – nem sempre tão regularmente como gostaria – mas sentindo, apesar de tudo, que, no período entre encontros, me ponho a par da sua vida de escritores.) Há, porém, dois dos meus autores – Vasco Curado e Nuno Camarneiro – que usam os seus blogues com um propósito um pouco diferente: o da criação de textos literários ou de reflexão (mas não menos literários por causa disso). Ora, tendo eu encontrado neles dois textos que achei francamente interessantes – e armada em galinha a gabar os pintainhos –, aqui vos mando os respectivos endereços para que os possam igualmente ir acompanhando.


 


http://www.vascoluiscurado.com/blog/2011/08/22/campos-de-exterminio-campos-agricolas-campos-de-fadas/


 


http://acordarumdia.blogspot.com/2011/09/its-gonna-rain.html

Transportes públicos

Comecei há duas semanas – mas já o interrompi por causa de outros afazeres – o livro de Herta Müller que a Dom Quixote publicou recentemente e dá pelo belíssimo título: Hoje Preferia não Me Ter Encontrado. Conta a história de uma mulher casada que é intimada a comparecer na Polícia política para um interrogatório e vai no eléctrico que a levará ao destino desfiando os seus medos e as agruras da sua vida pessoal (entre outras, um marido alcoólico). É também em meios de transporte que o narrador de Uma Mentira mil vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, se entretém a contar aos passageiros que se sentam ao seu lado, para escapar ao silêncio e à solidão, a história inventada de um autor e das suas personagens. Embora não tenha ainda lido deste livro mais do que a sinopse da contracapa, gosto muito do Manuel Jorge Marmelo e das crónicas que escreve uma vez por semana no Público, pelo que não podia deixar de me alegrar com a chegada deste livro novo (creio que o último era de 2008). Hoje, quando apanho o metro para qualquer lado, vejo também muito mais gente a ler do que nos tempos em que ainda não tinha carro. Pelos vistos, os transportes públicos estão a prestar um bom serviço à literatura.

Cartas Vermelhas

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Já aqui falei deste livro, da escritora Ana Cristina Silva, mas volto a ele pela simples razão de se realizar hoje o seu lançamento. Intitula-se Cartas Vermelhas e conta a história – em parte real, em parte imaginada – de Carolina Loff, uma militante do Partido Comunista Português que trabalhou nas mais altas esferas do Comintern, apoiou os camaradas na Guerra Civil de Espanha, foi impedida de resgatar a filha em Moscovo pela eclosão da Segunda Guerra Mundial e acabou banida pelo Partido em virtude de ter ido viver com um inspector da PIDE por quem se apaixonou doidamente. A apresentação será feita por Miguel Real na Livraria Barata às 18h30. Apareça.


 


A saga das estrelinhas

No dia do lançamento do novo romance de valter hugo mãe, encontrei imensa gente indignada com o facto de o autor da crítica ao livro publicada no Ípsilon da véspera – outro escritor (José Riço Direitinho) – lhe ter dado apenas duas estrelas e meia. A indignação, porém, não vinha só de se dar nota quase negativa ao romance (cinco estrelas é o máximo) – até porque algumas das pessoas escandalizadas ainda não o tinham lido –, mas de, nesse mesmo suplemento, terem sido classificados com quatro estrelas livros de autores de um nível literário francamente mais baixo, como José Rodrigues dos Santos ou Mónica Marques. Na verdade, se os leitores se guiarem por estas classificações para saberem que livros devem ou não ler, a situação pode ser perigosa e extremamente injusta, na medida em que qualquer das obras de um Escritor (com E), mesmo que gore de algum modo as expectativas dos seus leitores, será sempre infinitamente melhor leitura do que uma ficção menor. Parece-me, porém, que o critério do jornal pode ser classificar por tipo de livro e, se assim for, não teríamos hesitações em dar cinco estrelas a thrillers ou policiais notáveis como os de Le Carré ou Agatha Christie e de as dar também a grandes romances como os de Vargas Llosa ou Faulkner (lamento não apresentar exemplos de cinco estrelas em livros de ficção romântica, mas a verdade é que não sou leitora do género). No momento em que escrevo este post, ainda não li o romance de valter hugo mãe, embora já o tenha começado; mas aquilo que me parece desde logo discutível é a crítica do Ípsilon ter sido encomendada justamente a um seu «concorrente», uma vez que sobre os novos valores deveriam debruçar-se os mais velhos, a quem eles já não fazem sombra, sob o risco de, por mais honesta que seja a opinião de um colega da mesma geração (e com menos projecção nacional e internacional), as pessoas falarem logo de dor de cotovelo e de rivalidade. Na verdade, será que pode avaliar condignamente o romance de um autor alguém que se calhar leu menos do que ele, alguém que se calhar nem leu toda a sua obra? Não será por isto que, do júri de prémios literários de relevo, não fazem normalmente parte jovens escritores?

Uma experiência nova

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Há muitos anos, quando escrevia regularmente livros juvenis, a Editorial Verbo encomendou-me um texto para uma colecção chamada Terra Verde, que então iniciara. O seu objectivo era o de educar as crianças na protecção do ambiente através de histórias simples e lúdicas. O título do meu livro era A Ilha do Paraíso e punha frente a frente um miúdo citadino mimado e estragadão e um índio que habitava um paraíso natural e temia a invasão de maus hábitos nos seus domínios. Recentemente, o Teatro Bocage contactou-me com vista à adaptação teatral deste pequeno livro e, no sábado passado, armada de expectativa e com a companhia de sobrinhos e amigos pequenos, lá fui ver a peça. Depois de ultrapassada uma certa estranheza inicial pelo barulho ensurdecedor e a correria dos miúdos junto ao palco enquanto não começava o espectáculo, assisti à metamorfose do meu texto, ajudada por três jovens actores talentosos e muito expressivos, uma montagem de efeitos sonoros bastante interessante e algumas intervenções espontâneas da pequenada que, nestas coisas, não se faz rogada e gosta de intervir. Por isso, se tem crianças e quer que passem um bom bocado, leve-as ao Teatro Bocage, ali perto da Damasceno Monteiro, em qualquer sábado até finais de Outubro. Pode ser que elas aprendam qualquer coisa que as ajude realmente a tornar a Terra mais verde.