Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2021

Excerto da Quinzena

Antes do excerto, queria esclarecer, porque parece não ter ficado claro para alguns, que o que se pretende nesta actividade quinzenal é que os Extraordinários publiquem excertos de livros que leram e que aconselham, e não necessariamente excertos dos livros que andam a ler, e muito menos passagens dos seus próprios livros, estejam ou não publicados. Dito isto, segue o meu excerto de hoje:


 


Havia um homem que amava as ilhas. Nascera numa, mas não lhe agradava por ter gente demais. Queria uma ilha só para ele: não necessariamente para lá viver sozinho, mas para fazer dela um mundo seu.


Uma ilha grande demais não é melhor do que um continente. Para ser sentida como tal, uma ilha tem de ser, de facto, bastante pequena - e este conto mostra como tem de ser minúscula, para podermos ter a sensação de que está cheia da nossa personalidade.


Ora as coisas proporcionaram-se de modo a este apaixonado por ilhas vir, realmente, a comprar uma ilha quando chegou aos trinta e cinco anos. Não a possuía em termos absolutos, mas comprara-a a noventa e nove anos, o que, pela parte que toca a um homem e a uma ilha, vale uma eternidade.


 


«O Homem Que Amava as Ilhas», in Amor no Feno e Outros Contos, de D. H. Lawrence, tradução de Maria Teresa Guerreiro

Livreiros e livrarias

Imagem

Nestes tempos pandémicos, conhecem-se pessoas... virtualmente. Sim, é verdade: agora, que os acontecimentos presenciais foram largamente cancelados, sobretudo na área do livro, é muito comum eu ser convidada para um debate com alguém a quem não posso «apertar a mão» e com quem troco apenas meia dúzia de palavras enquanto estamos nos «bastidores» e não mostramos a nossa carinha numa plataforma qualquer a quem nos ouve e vê. Na semana passada, adorei conhecer virtualmente a Graça Batista, bibliotecária de Vila Velha de Ródão, e o Nuno Pereira, livreiro da Poetria, e tive mesmo pena de que não pudéssemos ficar um bocadinho mais à conversa quando acabou o evento. A propósito de livreiros, foi também muito bom ficar a conhecer melhor mais uns quantos livreiros e livrarias pela pena do jornalista João Morales que, no Dia Mundial do Livro, quis falar deles e delas num excelente artigo publicado em A Mensagem de Lisboa: Tigre de Papel, Livraria Snob, Leya na Buchholz e Poesia Incompleta são os nomes dos estabelecimentos que Morales aborda no artigo cujo link aqui deixo; os seus responsáveis ajudam a explicar o que é isso que também aqui nos reúne diariamente: o vício dos livros! Ora leiam.


https://amensagem.pt/2021/04/23/dia-mundial-do-livro-livrarias-lisboa/ 


P. S. Como lancei um livro novo e ando muito conversadeira, logo tenho mais uma conversa com o meu editor, que pode ver e ouvir no Facebook da Quetzal.


CONVERSAS_QUETZAL_15_MRP.jpg


 


 

A culpa é do biógrafo

Imagem

Como anunciei oportunamente, as minhas crónicas sob o título genérico Adeus, Futuro foram reunidas num livro publicado recentemente. Porém, se ainda estivessem a sair no Diário de Notícias aos sábados, estou certa de que teria escrito mais uma na semana passada pois o tema combinaria muito bem com a minha indignação. Desta feita, a escandaleira tem que ver com a biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey. Quem leu Roth e quem leu sobre Roth sabe muito bem que não era nenhum santinho e que, se fosse vivo, não escaparia quase de certeza a uns insultos femininos sobre a forma como tratou as mulheres nos seus romances (e também na vida real, segundo atestou, de resto, a sua ex-mulher). Como ainda não li a biografia que Bailey lhe dedica, não sei como Roth é tratado pelo biógrafo, mas tenho conhecimento de que se trata de uma biografia «autorizada». No entanto, li a notícia de que, já depois de ter sido posta à venda e registar bastante sucesso, estava prevista uma reedição cuja distribuição foi retida nos armazéns da editora... E porquê? Bem, a razão nem sequer tem que ver com a vida de Roth, mas afinal com a do senhor Bailey... É isso mesmo: o biógrafo acaba de ser acusado de assediar sexualmente duas raparigas no tempo em que foi professor, e o editor da biografia, diante das acusações que nada têm que ver com a obra em causa, decidiu mesmo assim prejudicar a memória de Philip Roth e a curiosidade dos leitores do génio não deixando sair dos armazéns mais exemplares... Claro que acho um horror qualquer professor assediar alunas, mas esse assunto deve ser tratado pelas competentes instâncias e fora do âmbito da literatura. Com ou sem crónica, só me ocorre dizer de novo: Adeus, futuro.


 


P. S. Logo às 21h30 vou estar a conversar com Tito Couto no âmbito do Ler Olhos nos Olhos, que pode ser visto e ouvido na página de Facebook do Município de Oeiras.


 


175516213_10158643460744652_1334555318820854512_n.


 

Plataforma

Imagem

No passado dia 23, aproveitando a circunstância de ser Dia Mundial do Livro, foi lançada uma nova iniciativa no mercado por uma parceria constituída pela LeYa e pela Kobo. Em tempos de claro sucesso do streaming, a dupla inventou uma forma de todos os que gostam de e-books ou  audiolivros (e até podcasts) terem à sua disposição centenas de títulos em português e noutras línguas, para ler e ouvir nos seus dispositivos electrónicos (telemóveis, tablets ou computadores) por um preço baratíssimo. Este baseia-se numa subscrição mensal (como no Spotify) e oscila entre os 5,99 e os 7,99 euros, permitindo não apenas o acesso a uma parte do catálogo da LeYa, mas a muitos títulos de outras editoras que se quiseram associar a este projecto com os seus livros electrónicos e audiolivros (a Relógio-d'Água, a Saída de Emergência e outras). A modalidade permite, claro, ler por um preço irrisório (se consome habitualmente livros electrónicos sairá muito beneficiado com a subscrição), mas também «cheirar» algum título que pareceu que lhe podia agradar, mas até pode nem ser muito o seu género; de outra forma, se calhar já teria pago 15 ou 17 euros de que se arrependeria à frente, mas assim pode desistir ao fim de algumas páginas sem grandes remorsos e pegar noutro logo a seguir porque o preço não se altera com o número de consumos. Mas o mais importante é que esta plataforma trará certamente alguns jovens até aos livros e à literatura, sendo isso, quanto a mim, o seu maior benefício. As explicações estão todas nos links abaixo, mesmo que os Extraordinários, parece-me, sejam mais aficionados do papel. Mas é sempre bom espreitar.


http://leyaonline.com/pt/eleya/


http://leyaonline.com/fotos/video/eleya.webm


Kobo_3.jpg


 


 


 

Leilão literário

Imagem

Hoje faz anos o meu irmão, que não lê o meu blogue mas a quem dou publicamente os parabéns. O meu irmão tem um cão e é de cães e outros animais que falo aqui hoje, porque, não sei se sabem, existe um leilão literário a favor dos animais de rua, segundo uma ideia original (espero não vos estar a enganar) do escritor norte-americano residente em Portugal Richard Zimler. Os escritores oferecem exemplares dos seus livros autografados, o leilão decorre ao longo de uma semana online (começou no Dia do Livro e irá até ao dia 30 de Abril) e o dinheiro conseguido com a venda desses livros será para acudir a animais (cães e gatos) sem dono que precisam de comer e ser bem tratadinhos (bem como para o esterilizar, para não se multiplicarem ad infinitum). A iniciativa deste Leilão Solidário já vai na sua quinta edição e leio no site dos Animais de Rua que nas edições anteriores já foram leiloadas centenas de obras de autores lusófonos, que aderiram à causa e ajudaram a associação a alimentar e cuidar das muitas criaturas que abergam. Por isso, se gosta de ler (nem é preciso ser um louco por animais), esta é uma boa maneira de comprar um livro e, ao mesmo tempo, praticar o bem. A lista completa das obras a leilão pode ser encontrada no link abaixo. Boa sorte e boas compras!


https://shop.animaisderua.org/product-category/leilao/


 


leilao literario cao.jpg


 

Rasgos

Voltei a ser cronista, desta feita no jornal Mensagem. Quinzenalmente, recordo a Lisboa da minha infância e falo do que me faz saudades, baseando-me em histórias de família, muitas delas relacionadas com a minha mãe (talvez seja por isso que lhes pus o título genérico «Cidade-Mãe»). Gosto muito de crónicas, também como leitora, e na minha geração não posso deixar de mencionar as crónicas diárias de Eduardo prado Coelho no Público, cultas e leves ao mesmo tempo, e as semanais e modernas que celebrizaram Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Ele hoje escreve diariamente uma língua no Público, o que torna mais difícil manter aquele seu estilo de página inteira, mas às vezes ainda é tão bom como antigamente; um dia destes, elogiando o Diário de Lisboa, por exemplo, teve um desses rasgos e escreveu: «Se tirássemos o Diário de Lisboa do fio da história do jornalismo em Portugal, desmanchava-se a manta toda e ficávamos com os joelhos a bater nos cotovelos [...]» São frases assim que às vezes fazem a beleza de uma crónica e nos arrastam ao longo do texto. Ainda hoje temos cronistas muito bons (o escritor Afonso Reis Cabral está a começar mas já promete muito, assim como a escritora e crítica Ana Bárbara Pedrosa, cujo humor é impagável), e o nosso MEC é só um deles.

A importância de ser livro

Imagem

Amanhã comemora-se o Dia Mundial do Livro, que acontece nesta data por ser o aniversário de Shakespeare e Cervantes, e esta é, por isso, uma semana que pede reflexão sobre a importância da leitura e da circunstância por que tanta gente ainda quer escrever livros (mais do que lê-los, infelizmente). Embora ainda não seja possível fazê-lo presencialmente, hoje às 18h30 vou «estar» na Casa Fernando Pessoa, a convite de Clara Riso e Margarida Ferra, para participar num debate subordinado ao tema «Como podemos ler durante a pandemia?» com a bibliotecária Graça Batista e o livreiro Nuno Pereira, debate esse que será moderado por Margarida Ferra. Vamos certamente falar de como foi ter as livrarias e as bibliotecas fechadas tanto tempo neste segundo confinamento, de vendas online e ao postigo, de terras sem livrarias, de bibliotecas domésticas onde falta sempre o livro que apetece ler, de gente que governa mas não lê e do mais que nos desafiarem a dizer e discutir. A sessão terá aproximadamente hora e meia e poderá ser acompanhada pelo Facebook. Apareçam na Casa Fernando Pessoa e leiam livros.


CFP_Ecard_22_ABRIL.jpg


 

O escuro iluminado

Quando compro os direitos de um livro estrangeiro, é comum acontecer que esse mesmo livro apareça nas listas de algumas editoras de outros países que também gostam de apostar em nomes novos. Tenho, por isso, muitos livros em comum com a Prometheus na Holanda, a Voland ou a La Nave de Teseo em Itália, a Anagrama em Espanha, a Suhrkamp na Alemanha e por aí fora. São as chamadas afinidades editoriais... Não terei partilhado muitos títulos com a grande Hanser, mas ainda assim descobri num encontro há cerca de dois anos com um dos seus editores que tínhamos gostos semelhantes. Depois de uma conversa muito simpática por alturas da Feira do Livro, ele aconselhou-me a leitura de Luto, do guatemalteco Eduardo Halfon (enviou-me até o PDF da edição brasileira), e só não o publiquei porque, imaginem!, a minha colega Cecília Andrade da Dom Quixote chegou primeiro... Luto saiu há cerca de duas semanas em Portugal e é uma pequena maravilha (e digo «pequena» porque só tem 112 páginas). Inscreve-se no universo familiar do autor, que não é estranho a outras das suas obras onde Halfon é também personagem, e conta a história de como o irmão mais velho do seu pai, Salomón, morreu muito jovem afogado num lago perto da casa dos avós. É numa visita a esse lago muitos anos depois de ter abandonado a Guatemala que as memórias de infância de Halfon regressam e, com elas, os segredos sobre essa morte de que é preciso fazer finalmente o luto. Breve mas intenso e belíssimo, com as palavras todas e sem gorduras, um livro sensível e terno que foi justamente multipremiado.

Em Lamego e mais além

Imagem

Dizia eu há dias que andava cheia de saudades de ir a museus... Pois bem, o Museu de Lamego, apiedando-se de mim, convidou-me para estar na sua página de Facebook hoje mais à tarde, às 18h30, para mais uma das suas  Conversas (Im)prováveis, no âmbito do programa da Semana da Leitura, com os escritores Tiago Salazar e Alexandre Hoffman Castela. Claro que não é a mesma coisa estar num museu presencialmente e digitalmente (e prometo que, mal tenha oportunidade, irei mesmo a Lamego ver tudo ao pé!), mas não podia deixar de aceitar falar de um assunto que me diz tanto (a leitura) numa iniciativa que se pretende que sirva também de recurso aos profissionais da rede de bibliotecas públicas de Lamego, embora  todos possam assistir à conversa na página do Museu de Lamego no Facebook. Ao mesmo tempo, sinto uma grande simpatia pelo concurso de escrita promovido anualmente nas escolas de Lamego, em que os alunos se inspiram em obras do Museu ou no património histórico local para escrever os seus textos. Tudo razões para participar neste programa, que só acaba na sexta e terá videoconferências, webinares, debates e leitura de sonetos. A não perder, em Lamego e, pelo Facebook, em todo o lado.


2021-04-20-RBL_MuseuLamego_Webinar_Banner-850x400.


 

O livro do comendador

Se há figura que reúna a simpatia da maioria dos portugueses, é Rui Nabeiro, o fundador e presidente dos cafés Delta. Natural de Campo Maior, de família humilde, órfão de pai relativamente cedo, começou a trabalhar com um tio e acabou por tornar-se um dos maiores, mais ricos e menos exibicionistas empresários portugueses da actualidade. Além de ter dado emprego a muita gente, foi magnânimo com a sua terra alentejana, tendo, entre muitas outras iniciativas, criado um centro educativo para as actividades extra-curriculares das crianças, a que deu o nome da mulher (Alice) e patrocinado a investigação em biodiversidade na Universidade de Évora. Condecorado por Mário Soares e Jorge Sampaio, é também o assunto central do último romance de José Luís Peixoto, Almoço de Domingo. Ao que parece, depois de ter visto que o escritor dedicara um livro a Saramago (Autobiografia), o empresário ter-lhe-á sugerido que escrevesse a sua biografia, e o romancista contrapropôs-lhe fazê-lo personagem de um romance biográfico. Na verdade, em Almoço de Domingo, ouvimos o Rui Nabeiro do passado na primeira pessoa e, simultaneamente, vemo-lo no presente pelos olhos de um narrador que o imagina nos dias que antecedem o seu 90º aniversário e na festa de anos, rodeado de filhos, noras, netos e bisnetos. Mas não se trata de uma vida contada cronologicamente, antes feita de episódios (muitos deles desconhecidos do público, como a morte da irmã mais nova ou o convite para a inauguração da Ponte sobre o Tejo, e outros que talvez sejam uma espécie de extrapolações de Peixoto sobre ideias mais ou menos consensuais a respeito de Rui Nabeiro). Sem dúvida, esta é uma maneira bonita de homenagear «o senhor Rui».

Excerto da Quinzena

Hoje deixo-vos um clássico.


 


Tratem-me por Ismael. Há alguns anos – não interessa quando – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso paranão começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível. É uma forma de fugir ao suicídio. Onde, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tranquilamente, meto-me a bordo. E não há nisto nada de extraordinário. Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo oceano.


Herman Melville, Moby Dick, tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves

Olá, Adeus

Imagem

Quem acompanha estas Horas Extraordinárias (que, não sei se já deram por isso, têm quase onze anos!) sabe que raramente venho aqui falar de mim, excepto quando relato as minhas experiências de leitura ou algum episódio da minha vida, chamemos-lhe assim, cultural. Mas hoje não resisto a abrir uma excepção e avisar-vos de que estará neste dia 15 de Abril à venda nas livrarias o meu livro de crónicas intitulado Adeus, Futuro e publicado pela Quetzal com uma capa lindíssima de Rui Cartaxo Rodrigues (obrigada!) sobre pintura de Jack Vettriano (curiosamente, já tinha usado um quadro deste pintor num livro de contos Nuno Camarneiro, Se Eu Fosse Chão). Muitos dos Extraordinários já conhecem, pelo menos parcialmente, o conteúdo do livro, mas eu incluí crónicas inéditas e, além disso, ele tem como bónus um prefácio do grande cronista Ferreira Fernandes que, com a jornalista Catarina Carvalho (obrigada aos dois), faziam parte da direcção do Diário de Notícias que me convidou a escrever uma crónica semanal e que me fez aprender muito sobre este género e sobre mim, porque foi muitas vezes preciso ir ao passado (o meu) para perceber e examinar o futuro que nos espera a todos. Espero agora que quem não leu possa ler e que quem leu possa reler, se assim o desejar. As minhas maiores preocupações (excepto as pessoais, que não cabem neste blogue) estão todinhas neste Adeus, Futuro.


Adeus Futuro.jpg


 

Centenário

Comemorou-se na semana passada, mais concretamente no dia 7 de Abril, o centenário do Diário de Lisboa. Muitos dos leitores deste blogue lembrar-se-ão ainda deste vespertino que foi publicado até 1990. Era um jornal republicano que começou por ter oito páginas, mas depressa cresceu e se tornou uma publicação de referência, para a qual escreveram figuras de relevo em todas as épocas. Passaram pelas suas páginas Almada Negreiros, Aquilino, Pessoa, António Sérgio, Alexandre O'Neill e muitos outros. Nos anos 1970, o meu pai lia-me deste jornal as «Redacções da Guidinha», que eram umas crónicas aparentemente ingénuas mas com um sentido político subjacente, assinadas por Luís Sttau Monteiro, que era o director de um suplemento chamado «A Mosca». São numerosos os jornalistas conhecidos que passaram pela redacção do Diário de Lisboa, como Artur Portela, José Carlos Vasconcelos, Assis Pacheco, Mário Zambujal, Joaquim Letria ou Diana Andringa. A Família Ruella Ramos, proprietária do jornal, ofereceu uma colecção inteira à Fundação Mário Soares e Maria Barroso, que a digitalizou na íntegra e a disponibiliza para consulta a todos os interessados. É nesta fundação, nomeadamente com um colóquio no dia 30 deste mês, que se organizarão várias sessões dedicadas ao centenário do Diário de Lisboa. Fique atento.

As Santas Casas

Não sou contra o crowd-funding para projectos culturais e, além de ter contribuído, aplaudi, na oportunidade, a operação que o Museu Nacional de Arte Antiga lançou há uns anos para «pôr no lugar certo» (ou seja, no próprio Museu) A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira. Acompanhei, de resto, a evolução dos donativos e gostei de saber que muitos fizeram como eu e contribuíram com o que podiam. Ainda que com pequenas quantias, apoio por vezes projectos que me parecem merecer a ajuda de todos ou estarem em risco (livros, jornais, outros) e não acho mal que grandes instituições peçam dinheiro quando é a única forma, por exemplo, de deixar uma obra-prima ficar em Portugal. Parece que o nosso Ministério da Cultura pretende ajuda para a salvaguarda do nosso Património nesta época difícil; e, para isso, lembrou-se de criar uma raspadinha que todos pudéssemos comprar. Até aqui, nada de estranho. Porém, como o cronista do Público João Miguel Tavares fez notar, e muito bem, na semana passada, um estudo recente demonstra que quem compra habitualmente raspadinhas é justamente o segmento  mais desfavorecido da população portuguesa, aquele que menos ganha e que mais ajudas precisa; e (acrescento eu) provavelmente aquele que menos desfruta do nosso património... Um leitor do Público, na sequência da crónica, escreveu ao director do jornal dizendo que, ainda por cima, o jogo é uma actividade viciante, geradora de dependência e, como tal, lesiva da saúde pública. Ora, juntando estes argumentos todos, está visto que a Santa Casa da Cultura tem de prescindir da outra Santa Casa para pedir aos amigos do Património misericórdia... e donativos. Raspadinha não.

Mais cães

Há não muitos dias falei aqui de A Cadela, da escritora colombiana Pilar Quintana, mas este não é o único livro recente com cães. Li um outro, do espanhol Arturo Pérez-Reverte, chamado Cães Maus não Dançam, que deve ter sido dos primeiros títulos a entrar nas livrarias na era pós-clausura, ou seja, em Março passado. Como bem sabem os que acompanham as crónicas do autor, magníficas, para Pérez-Reverte há valores que são incontestáveis, e um dos que lhe são mais caros é justamente a lealdade. Ora, como falar no exemplo máximo de lealdade? Usando cães, que disso são a metáfora mais-que-perfeita. Mas este livro é tudo menos um livro de cãezinhos… Como o título indica, aqui os cães são maus, são cães que os humanos converteram em animais de luta, com feridas e cicatrizes várias, orelhas cortadas e atitudes violentas; cães ferozes que atacam outros cães e seres humanos, mas nem por isso deixam de ser amigos do seu amigo, indo até ao fim na sua missão de o salvar quando ele está em risco. Não esperem uma parábola como a de Luis Sepúlveda com gatos e gaivotas, porque aqui as páginas são mais brutas do que divertidas, mas vale a pena ler este livro nem que seja porque nos permite aprender com os cães sobre… nós mesmos.

Maldita pandemia

Neste confinamento forçado senti muito a falta de ir a museus, embora não tivesse a noção de ir assim tantas vezes a exposições permanentes ou temporárias quando o vírus ainda não tinha dado as caras neste mundo. De qualquer modo, se calhar, a visita a museus está também associada a viagens a outras cidades e países, outra coisa de que, fechados em casa, não conseguimos evitar ter saudades (há mesmo muito tempo que não ficava um ano inteiro sem sair de Portugal, mesmo que fosse só para dar um pulo à Galiza ou à Andaluzia). Falo, porém, dos museus porque ignoro como se conseguiram aguentar sem visitas (a conservação e o restauro de obras de arte, bem como os salários dos que ali trabalham têm de vir também das entradas pagas todos os dias pelos que os visitam) e li no The Guardian um artigo sobre o tempo que, em todo o mundo, vão levar a recuperar os museus cujas visitas foram menos 77% em 2020 do que num ano normal (12 visitantes para os 30.000 habituais em três meses aconteceu nas gravuras de Foz Coa!). Em todo o mundo, houve apenas 54 milhões de visitantes no ano passado em vez dos 230 milhões de 2019; e o investimento que estas intituições tiveram de fazer no digital para se tornarem presentes e lembradas não será amortizado tão cedo, se alguma vez o for. Um editor holandês disse-me que as vendas de livros no mercado normal baixaram na Holanda 70% nos primeiros meses de 2021 e eu suponho que cá, com as livrarias fechadas, as coisas não andem longe desses números. Maldita pandemia que nos afasta permanentemente da beleza...

Boas notícias

Sabem os que moram em Lisboa que a zona da Almirante Reis, sobretudo entre o Intendente e o Martim Moniz, é talvez a área mais multicultural de toda a capital (leio que tem mais de 90 etnias, caramba!). Se tiver tempo e paciência para se meter pelas ruelas da Mouraria ou por outras dos bairros adjacentes, não conseguirá deixar de reparar nas mercearias de produtos alimentares russos, por exemplo, bem como nos pequenos restaurantes indianos, chineses, nepaleses ou de kebab, entre muitas outras especialidades estrangeiras. Já me aconteceu um dia estar num destes restaurantes, perto do Mercado de Arroios, e dois empregados estenderem de repente um tapete no chão e começarem a rezar. Admirado? Não fique. Esta é a belíssima Lisboa de todas as cores e feitios que agora tem uma estrondosa novidade: a primeira biblioteca do Médio Oriente em Portugal! Sim, os livros que, segundo ouvi na TSF, começaram já a chegar às prateleiras desta biblioteca foram doados sobretudo por embaixadas (dos Emirados, de Marrocos ou da Tunísia) e ocuparão uma sala da Biblioteca de S. Lázaro, à Rua do Saco, fundada ainda no século XIX e uma das primeiras bibliotecas públicas portuguesas. Haverá parcerias com instituições portugueses (o Instituto Camões e as universidades, claro) e o objectivo é aproximar culturas e dar a conhecer o Médio Oriente em todo o seu esplendor não apenas aos lisboetas, mas também a todos os migrantes que são oriundos de países dessa zona (sírios, libaneses, egípcios...) e estão agora afastados de casa e sem acesso à sua cultura. Muitos parabéns à Junta de Freguesia de Arroios, que tanta coisa boa tem engendrado. Tomara que passe já o recolhimento obrigatório e se abram as portas à vontade para lá poder ir cheirar.

O escritor filmado

Um dia destes andava à procura do título original de um filme sobre o escritor C. S. Lewis (aquele em que mais terei chorado na vida a seguir a O Meu Pé de Laranja Lima). Chamava-se, afinal, Shadowlands (cá penso que era Dois Estranhos e Um Destino) e descobri-o numa lista de filmes  sobre escritores incrivelmente extensa quando, na verdade, não tinha noção de que os escritores fossem matéria-prima de filmes tão frequentemente (excepto, claro, enquanto autores de livros em que se baseiam os argumentos). Mas é mesmo surpreendente a quantidade de filmes em que os escritores são protagonistas. Alguns tornaram-se, de resto, inesquecíveis, como O Carteiro de Pablo Neruda ou A Sangue Frio (sobre Truman Capote), Henry and June ou Shakespeare in Love. Mas também há o escritor fictício em filmes como Misery (o desgraçado a quem a admiradora não perdoa ter acabado com a série que ela adorava) ou O Escritor Fantasma, bem como o escritor verdadeiro metido numa obra ficcional (Virginia Woolf em As Horas, por exemplo, ou Hemingway e Fitzgerald em Meia-Noite em Paris). A lista nunca mais acaba, garanto, e, ao lê-la, apeteceu-me rever alguns filmes que adorei na altura (Heart Beat, sobre a Beat Generation) ou que estão já enevoados na minha memória (Barton Fink, por exemplo); e ver muitos dos que perdi, como Sylvia (sobre Sylvia Plath) ou Iris (sobre Iris Murdoch). Há tanto por onde escolher que nem sei por onde (re)começar.

Humanizar

Já tive más experiências com médicos, que eram talvez bons patologistas mas ficavam a dever bastante como gente; e conheço quem tenha tido ainda piores experiências, pois nesses casos as doenças eram bastante mais graves e a comunicação do médico fez-se abruptamente, sem compaixão nem delicadeza. Um amigo médico queixava-se há tempos de falta de humanismo nos seus colegas de profissão e de uma crescente desumanidade em muitos serviços públicos de saúde, não só por falta de condições, mas também por falta de formação humana dos próprios médicos. Porém, pouco depois de a reitora da Universidade Católica escrever um artigo bem interessante sobre a decadência das Humanidades no jornal Público, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, anuncia que vai ser leccionada uma cadeira de poesia num mestrado de Medicina para despertar nos médicos o lado humanista que devem ter. Parabéns à escola e parabéns ao professor, o cirurgião e poeta João Luís Barreto Guimarães que, numa entrevista, diz que não tem receitas (essas são para os doentes), mas vai falar aos mestrandos essencialmente da vida, a mesma que tantas vezes se espelha nos seus poemas, premiados e traduzidos em muitos países. Vão ser 30 os alunos sortudos que vão poder ler poesia entre bisturis, batas brancas e, claro, sangue. Faz parte da vida e da poesia. Vamos ver se daqui sairão melhores pessoas e, logo, melhores médicos.

Excerto da Quinzena

Deveria ter sido sexta, mas sexta era feriado...


Qual é a nossa história? Tudo está no contar. As histórias são bússolas e arquitectura; navegamos por elas, construímos os nossos santuários e as nossas prisões com elas, e não termos uma história equivale a estarmos perdidos na vastidão do mundo que se espalha em todas as direcções como a tundra árctica e o mar de gelo. Amar alguém é pormo-nos no seu lugar, é pormo-nos na sua história, ou descobrirmos como contar a nós próprios a sua história.


O que significa que um lugar é uma história, e as histórias são geografia, e empatia é antes de mais um acto de imaginação, uma arte de contar histórias, e ainda um modo de viajar de um lugar para outro [...]


Rebecca Solnit, Esta Distante Proximidade (trad. de José Lima)

O que ando a ler

Na verdade, já acabei de o ler, mas é boa hora para falar dele, tratando-se, de resto, do vencedor do Man Booker Prize de 2019, publicado entre nós no ano passado. É mesmo daqueles livros virados para o ar dos tempos, e percebe-se que também foi por isso que o júri não resistiu a atribuir-lhe o prémio, mesmo que eu não queira com isto dizer que a autora foi oportunista (acho que não). Porém, apesar do humor subtil e inteligente da escritora anglo-nigeriana Bernardine Evaristo e da actualidade dos temas (emancipação da mulher, racismo, identidade sexual, luta de classes...), o romance não é, quanto a mim, nada do outro mundo e é talvez um dos Booker Prize menos interessantes, literariamente falando, de todos os que li. Mesmo assim, lê-se sem atropelos e, é melhor dizê-lo, vai melhorando com o passar das páginas. Mas comecemos pelo princípio. Chama-se Rapariga, Mulher, Outra, traduziu-o Miguel Romeira (homem e branco, parece-me, mas graças a Deus não ouvimos vozes contra isto) e é sobretudo um bom estudo de personagens (uma dúzia delas), entre as quais se encontram negras prontas a mostrar ao mundo tudo o que valem e mulatas claríssimas e bem-sucedidas (com ordenados maiúsculos) que querem esconder o mais possível as suas raízes africanas. A autora tem jeito para as figuras, lá isso tem, e tem também talento para lhes desenhar uma história credível desde pequeninas em que toca sempre pontos sensíveis (até me lembrei do Segredos e Mentiras de Mike Leigh, mesmo que virado do avesso); o que me pareceu menos bem conseguido foi a forma como cruza (e não cruza) estas pessoas num evento artístico em que uma delas terá a sua coroa de glória (um bocado fácil). Mas é sem dúvida um livro para os nossos dias, finalista de vários prémios e escolhido como livro do ano em Inglaterra em 2020.