Sempre Lorca

A revelação do El País em 2012 da que seria provavelmente a última carta escrita por García Lorca, juntamente com um poema de amor inédito, teve uma enorme repercussão internacional. Trata-se de uma carta ao estudante de dezanove anos Juan Ramírez de Lucas, que em Julho de 1936, altura em que carta foi escrita, seria o namorado com quem Lorca planeava fugir para o México, sabendo porém que o rapaz não era maior de idade e precisaria de autorização do pai para deixar Espanha. É a última carta que Juan terá recebido do amante, antes de este ter sido fuzilado em Agosto de 1936 «por rojo y maricón», como refere o El País; e o que é mais engraçado: nem ao homem ao lado de quem viveu mais de trinta anos contou Juan desse seu relacionamento de juventude com Lorca, o que é incrível numa altura em que toda a gente quer reconhecimento público e as luzes da ribalta à sua volta. Sabe-se agora que, antes de morrer, Juan Ramírez deixou alguns documentos com a irmã, dizendo que gostaria de que um dia vissem a luz. Ela terá talvez partilhado a carta com o jornal, não sei. Fiquemos, então, à espera de que a família de Lorca (metade dela avessa à exposição, metade dela com vontade de partilhar tudo) se decida a mostrar-nos mais uns inéditos do grande senhor da poesia espanhola. (Esta história foi relembrada no último 18 de Agosto, data da morte do escritor, mas, apesar de a descoberta já ter uns anitos, vale sempre a pena falar dela.)

Comentários

  1. A prova cabal o Lorca se lhe existiu a figura do “muso”. Poesia de transfiguração.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  2. António Luiz Pacheco5 de setembro de 2019 às 04:32

    Rojo y maricón, ou não, Frederico Garcia Lorca ganhou o seu lugar no panteão dos que se distinguiram pelos actos e expressã, remetendo para a insignificância as suas tendências políticas ou sexuais.

    Ele personificou muito do que é a Ibéria (à qual me orgulho de também pertencer), aparentemente terá sido pena nascer e viver naquela época de ódio e intolerância, ou talvez não, porque foi exactamente assim e pela época que se afirmou e elevou ao patamar da imortalidade. Noutra época e tempo, ter-se-ia elevado igualmente?

    Não sei, ninguém sabe… celebremo-lo apenas.
    Quanto ao pormenor da carta e do relacionamento, pois diria que pela sua reserva, Juan esteve à altura do seu amigo - vão-me perdoar mas não uso o termo amante. Mas de facto Lorca pertence a todos nós, e merecemos saber sobre ele.

    A las cinco de la tarde.
    Eran las cinco en punto de la tarde.
    Un niño trajo la blanca sábana
    a las cinco de la tarde.
    Una espuerta de cal ya prevenida
    a las cinco de la tarde.
    Lo demás era muerte y sólo muerte
    a las cinco de la tarde.

    El viento se llevó los algodones
    a las cinco de la tarde.
    Y el óxido sembró cristal y níquel
    a las cinco de la tarde.
    Ya luchan la paloma y el leopardo
    a las cinco de la tarde.
    Y un muslo con un asta desolada
    a las cinco de la tarde.
    Comenzaron los sones de bordón
    a las cinco de la tarde.
    Las campanas de arsénico y el humo
    a las cinco de la tarde.
    En las esquinas grupos de silencio
    a las cinco de la tarde.
    ¡Y el toro solo corazón arriba!
    a las cinco de la tarde.
    Cuando el sudor de nieve fue llegando
    a las cinco de la tarde
    cuando la plaza se cubrió de yodo
    a las cinco de la tarde,
    la muerte puso huevos en la herida
    a las cinco de la tarde.
    A las cinco de la tarde.
    A las cinco en Punto de la tarde.

    Un ataúd con ruedas es la cama
    a las cinco de la tarde.
    Huesos y flautas suenan en su oído
    a las cinco de la tarde.
    El toro ya mugía por su frente
    a las cinco de la tarde.
    El cuarto se irisaba de agonía
    a las cinco de la tarde.
    A lo lejos ya viene la gangrena
    a las cinco de la tarde.
    Trompa de lirio por las verdes ingles
    a las cinco de la tarde.
    Las heridas quemaban como soles
    a las cinco de la tarde,
    y el gentío rompía las ventanas
    a las cinco de la tarde.
    A las cinco de la tarde.
    Ay, qué terribles cinco de la tarde!
    Eran las cinco en todos los relojes!
    Eran las cinco en sombra de la tarde!

    Saudações ibéricas cá da africana Cidade Morena

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  3. "tendências políticas ou sexuais" são insignificâncias?!

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco8 de setembro de 2019 às 03:03

      Para mim, atendendo a quem se fala e aplica o rótulo, são! Uma vez que aquilo que o engrandece ofusca tudo o resto.
      Não classifico de maior ou menor um escritor, por ser outra coisa que escritor. Estou no meu pleno direito pois é assim que entendo a escrita. O mesmo se aplica aos demais seres humanos noutras actividades, nem que seja o simples existir.
      Esclarecida?

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