A arte do romance
Já aqui anunciei, creio que em finais de Junho, a saída do novo romance de José Luís Peixoto, Autobiografia. Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance). Contudo, parece-me que não há aqui exactamente um espelho: como publiquei os seus primeiros livros e conheci JLP nessa altura mais de perto, há no romance (perdão, na Autobiografia) rotinas que não podiam estar mais longe das que relembro; mas, com o avançar do tempo, tudo é possível, claro (algumas coisas, sinceramente, espero que sejam só ficção). Como o Extraordinário Artur já referiu no dia 1, também tem graça encontrar nomes de personagens dos romances de Saramago (e um senhorio amoroso chamado Bartolomeu de Gusmão é engraçadíssimo). Porém, o que para já posso dizer sobre este livro é que ele não tem nada que ver com os livros de ficção de JLP que li (e foram todos) e que é um curioso exercício literário, algo muito mais experimental do que é costume (mesmo que a criança neste livro, filho da Lídia que Artur referiu, também esteja «em ruínas»). Só lendo.
Já o tenho, espero começar a lê-lo muito em breve (quero estar disponível para ler sem grandes interrupções).
ResponderEliminarPelo que a Rosário e o Artur já contaram, e também pelo que li no JL, quem não conhecer bem a obra destes dois escritores e suas personagens perderá talvez um pouco...
Eu, tendo lido praticamente tudo o que eles escreveram, acho que estou à altura do desafio
Mas depois conto se consegui ou não.
⚘
Maria
É mais um livro que não quero perder. Vou chamar a atenção para um livro que vai ser lançado amanhã, de uma menina aqui da blogosfera, que eu já comprei e li. É MUITO BOM, se ainda não ouviu falar deixo aqui o link.
ResponderEliminarhttps://planetamarcia.blogs.sapo.pt/
Vale a pena espreitar.
Já espreitei… obrigado pela sugestão!
EliminarPelo que percebi, o tema é a violência doméstica? E pelas reacções, sendo tema na ordem do dia, vai ter sucesso o que eu sinceramente desejo!
Aí está certamente mais uma obra interessante, para os "Saramagueanos" e não só, ao que percebo.
ResponderEliminarConforme falávamos ainda há pouco, aqui, se bem que foi mais um monólogo que uma conversa, parece que as biografias (e similares) estão mesmo na ordem do dia!
Ainda bem, pois como já disse sou leitor deste género.
Saudações biográficas cá da Cidade Morena!
PS: O meu livro do Afonso Reis Cabral, também aqui divulgado, já está a caminho… eheheh!
Quero lê-lo, por todas essas razões (mas ainda tenho "Galveias" a espreitar na estante...).
ResponderEliminarO "Galveias" é também um grande romance ! E num estilo e temática bem diferentes dos da "Autobiografia": mais uma evidência da genialidade do José Luís Peixoto.
EliminarJosé Luís Peixoto é um autor que colecciono e cultivo com algum esmero. Hei-de ler esse livro. Mas não agora.
ResponderEliminarJá li três ou quatro livros do JLP, gostei especialmente do "GALVEIAS', e do "LIVRO", mas como não gostei mesmo nada do último que li dele, "DENTRO DO SEGREDO", uma estopada de caixão à cova sem jeito nenhum (na minha opinião, claro) que me afastou deste autor.
ResponderEliminarNo entanto já tive oportunidade de folhear este "AUTOBIOGRAFIA" e creio que me fará retornar ao autor.
Boa tarde com alegria
ResponderEliminarCaros extraordinários,
Venho por este meio confessar que, da obra de José Saramago, li apenas:
- Ensaio sobre a cegueira (genial)
- Conto da ilha desconhecida
- Memorial do convento
- As intermitências da morte
- A jangada de pedra (durante este Verão)
Tenho ainda em stock:
- O ano da morte de Ricardo Reis
- O evangelho segundo Jesus Cristo
- História do cerco de Lisboa
- e outros, cuja localização exacta é desconhecida
Mais acrescento que nunca li nada de JLP, apesar de já o ter ouvido, em podcasts e entrevistas(, e de ter com ele simpatizado).
Tal como Rentes de Carvalho ou (vergonha) Virgílio Ferreira, e muitos mais.
Extraordinários, a verdade é esta: nós não precisamos de mais livros, ou de livros mais baratos, paperback, poche, ça c'est pas le problème!
Nós precisamos é de mais tempo. Tem-po. T-e-m-p-o.
Ou isso ou um zingarelho com o livro lá dentro, por baixo da almofada, que se liga ao córtex frontal e, por osmose, a obra seria assimilada durante a noite.
Talvez assim eu arrisque "As benevolentes" ou "Infinite Jest"
Poderíamos entao ler um livro, ou dormir um livro, acordando de manhã com a Condessa de Gouvarinho ou Maria Eduarda na nossa cama, metaforicamente falando, claro. (substituir por personagens masculinos ao gosto de cada qual)
Grato pela atenção dispensada, despeço-me com amizade até uma próxima oportunidade.
Boas leituras
cp
Completamente de acordo!!!
EliminarObrigado por este excelente momento que aqui trouxe, pelo menos a mim!
Grande abraço cá da Cidade Morena.
Caro cp perdoe-me a ousadia:
EliminarLi As Benevolentes de Jonathan Littell, na altura em que saíu e confesso que foi das coisas mais chatas que li (na altura, aliás, fiquei a meio do tijolo, e nunca compreendi tanta publicidade).
Não me leve a mal a rectificação mas Vergílio Ferreira é um nome gigante da nossa literatura e não merece ser tratado por Virgílio.
Uau. Faz muito tempo li quatro livros do autor, dois publicados no Brasil na época, um que encontrei em uma biblioteca e outro na casa de um amigo, nessa mesma ordem (Nenhum olhar, Cemitério de pianos, A criança em ruínas e Morreste-me) e tive certeza que era um autor por quem me apaixonei. No meio desse caminho, ainda no início da minha formação, acabei por não acompanhá-lo. Soube de outros livros, na verdade, do Livros, quando um aluno secundário, após se apaixonar por um poema que o apresentei, comentou que aprendeu muito sobre a história da imigração portuguesa para França, creio, pois não o li. Sempre, na época, gostava de levar alguns textos do autor junto com uns da escritora brasileira Maria Valeria Rezende ( não sei se a conhece, ou, se já a publicou em Portugal, caso não, recomendo, pois, para mim, é a maior escritora brasileira viva). Tudo isso para dizer que, há dois dias, vi esse livro no aeroporto de Lisboa, mas não pude comprá-lo, pois se o fizesse, perderia minha conexão. Fiquei muito arrependido, lembrando de uma passagem que foi fundamental para minha escrita dramatúrgica: “ Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.” Dizia tanto esse trecho, tanto nas aulas de língua e literatura, quanto nas de criação dramatúrgica (aqui menos, afinal, não sou nenhum Nelson Rodrigues, portanto, pouco convidado para dar essas classes), que, assim como seu poema “Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti”, sempre foram mostrados como exemplos de como as metáforas podem ser ilimitadas e, por isso, era a grande meta em minhas aulas que os alunos soubessem que metáforas é mais que comparar mundos, mas uni-los como, no mais estranho possível, nunca pudéssemos separa-los, ou imagina-los separadamente, uns mundos tão únicos que nascem já ocupando seus lugares distintos. Bom, digo isso, pois seu texto me fez lembrar de que diante daquele devaneio, perde o voo também é viajar, mas as escolhas, pragmáticas e tautológicas, não colocam a possibilidade de um atraso, de uma hora, nessa conexão. Agora, buscar essa nova ilha de JLP será uma nova missão. Obrigado pelo texto.
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