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Quando comecei a trabalhar com livros, lembro-me de que Portugal era ainda um país com fortes marcas do analfabetismo que se vivera em anos e anos de ditadura. Apesar de os intelectuais nessa época terem sido sobretudo influenciados pela cultura francesa, a verdade é que os índices de leitura do Reino Unido eram talvez os mais impressionantes para os editores portugueses e aqueles que estes sonhavam um dia igualar. Íamos à Feira do Livro de Londres e víamos gente a ler em todo o lado, nos bancos dos jardins e nos transportes, embora por vezes apenas literatura de supermercado, como então se dizia. Hoje, infelizmente, lá como cá, o que encontramos são pessoas com o nariz enfiado no telemóvel e o rosto que, se não se desvia um segundo para olhar o outro, ali sentado à sua frente, muito menos o faz por um livro aberto. Claro que isso só podia originar o que li numa notícia do The Guardian de sexta-feira passada: fecharam mais de 800 bibliotecas na Grã-Bretanha nos últimos dez anos. Um verdadeiro susto, que explica muito do que por lá está a acontecer.

Comentários

  1. Bom… é capaz de ser a evolução e a globalização! A anunciada, famigerada e celebrada globalização que tanto apaixona e inspira o pessoal moderno e da cultura, evoluído!
    Hoje tudo o que acontece se espalha imediatamente… a evolução é isto.

    Saudações globais cá da Cidade Morena!

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  2. Não vejo forma de inverter a situação e os ventos que sopram cada vez mais são esses mesmos.

    Perdoem-me ( mais uma vez) a repetição deste lugar comum:
    -como parar o vento com as mãos??

    Assisto diariamente, com muita tristeza, à situação hoje descrita.

    Ou será que sempre fiz parte duma minoria (que lê) e que sempre foi assim??

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  3. Nada é imutável, pelo menos na forma. Quem gosta de ler, continuará a fazê-lo no livro, na tablet, no smartphone ou onde lhe der na gana. Parafraseando e modificando um antigo slogan da RTP2, "quem lê, quer ler". Só falta saber como...
    Fecham as bibliotecas e fecham as livrarias, seja dito de passagem, é o sinal dos tempos. O paradoxo é que aumentou exponencialmente quem quer publicar livros, sabe Deus com que finalidade: se é para satisfação egocêntrica; se para perceberem se os outros admiram a sua obra; se é ainda para compensarem as leituras que não fazem. Há para aí escritores a dar com um pau, alguns com obras que eu não lia, nem debaixo de armas. São livros na forma, pois no conteúdo são broncos e esboroados enredos, do género daquele que nem faz sexo nem sai de cima. Vejam, por exemplo, as edições de autor ou as da "vanity publishing", o que vai dar ao mesmo, sempre em crescendo de publicação e minguando no volume de vendas, que parece ser o menos importante.
    Há dias, um amigo estava na livraria e viu uma obra que lhe agradava. Ia com ela até ao balcão quando, de súbito, voltou para trás e a repôs no local de onde a tirou. Lembrou-se que tinha um saldo "a haver" numa distribuidora (Wook, Bertrand ou FNAC, não interessa), pegou no telemóvel e fez a encomenda - o mesmo livro apareceu-lhe em casa, mais barato.
    Se ainda compro na livraria - como foi o caso recente de "A Minha Primeira Amália", da MRP - é porque quero, da minha parte, manter no negócio o livreiro, de quem sou amigo. Como sou daqueles santos que estão em dois altares, também utilizo a compra sem me levantar da cadeira... Nem mesmo para atender o carteiro que traz a encomenda.

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  4. Eu compreendo a preocupação que a nossa anfitriã tem relativamente à edição de livros, que é a sua vida. Mas há outras formas de ler, que não comprando livros – e cada vez mais. Os livros são caros, ocupam espaço em casas cada vez mais pequenas, são pouco ecológicos e pouco práticos de transportar em malas de cabine. Cada vez serão menos as pessoas, nesta época tão particular, que os acham bonitos, que adoram cheirá-los e manuseá-los, e que fazem questão de os coleccionar. Os livros em papel serão um dia um mercado de nicho, como prevê a MRP, mas não acredito que deixemos de ler. Há as bibliotecas (eu sou fã da “minha” Orlando Ribeiro), há os empréstimos (eu leio muito emprestado, empresto muito, e até dou muitos livros meus, depois de os ler), e sobretudo, há o digital. Os miúdos hoje em dia andam sempre de nariz enfiado nos seus écrans, sim, mas lá também se lê! E se nós achamos pouco apelativo ler num écran, habituados que estamos a ler em papel, papel esse ligado a algumas das nossas melhores memórias, as novas gerações estão a crescer num mundo digital! E eu acredito que a Humanidade ainda se está a habituar a toda esta nova tecnologia, temos que lhe dar tempo e ter um pouco de fé, ainda não temos distância suficiente para ver onde isto vai dar. Além disso, esta juventude tem outras coisas boas, como uma consciência verdadeiramente global e uma consciência ecológica, que a geração dos meus pais nunca teve – e a minha só começou tarde a ganhar. E bem precisam delas, pois vão ter que arranjar forma de inverter todo o desperdício que criámos neste planeta, querendo sempre mais e mais sem olhar às consequências, se querem sobreviver com qualidade! Não sejamos assim tão pessimistas, nem tão desconfiados, juntemo-nos a eles se não os podemos (e queremos?) vencer. As gerações mais novas crescem num mundo muito diferente daquele em que nós crescemos, mas precisam de nós na mesma, e do nosso voto de confiança, pois têm muito trabalho difícil pela frente, em grande parte por herança nossa. É fácil olhar para eles com desconfiança, mas nós é que criámos o mundo onde eles nasceram, e nós é que os educámos! Experimentem pôr-se no lugar deles e imaginem-nos a olharem para nós, com os nossos discursos de velhos do restelo… ;)

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    1. Concordo com a Filipa. Já vou pensando melhor se compro livros ou não porque já não tenho muito espaço em casa. Mas as bibliotecas podiam ser um veículo melhor de divulgação e criar o hábito de trazer um livro para casa e ler. As bibliotecas têm de ser espaços mais activos. Costumo levar os meus filhos à biblioteca para verem leituras encenadas, mas é mais difícil que eles queiram levar algum livro para ler. A mais velha prefere ver vídeos na Net. E mesmo a leitura no digital não pode ser muito extensa, senão perdem a vontade de continuar. É uma questão de adaptação. Pensemos quando o acesso aos livros era apenas de uma elite e passou a ser lida pelo grande público. Aí o problema era poderem ter mais conhecimento. A dificuldade hoje é filtrar a informação. É excessiva e cansativa. Como filtrar a informação mais interessante é a questão actual.

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  5. É um problema cada vez mais real e sido uma tema recorrente aqui, pelo menos na "caixa de comentários".

    Estamos num período de mudanças na leitura (mais curta e com menos vocabulário) e também na escrita (os telemóveis escrevem pelas pessoas...), com demasiadas "poupanças" para o meu gosto.

    Provavelmente os nossos filhos e netos terão outras valências, que nós não temos...

    Talvez o livro seja sempre um objecto de culto, por tudo o que consegue transportar lá dentro, mas não sei se o conseguirão ler e perceber no futuro, já com tanto desconhecimento aparente do mundo das palavras...

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  6. Sem dúvida é um mundo diferente que aí está.
    Algo que antecipei mas que muitos não gostaram de ouvir.
    E se concordo com quase tudo o que até aqui já foi dito, acrescento: o mundo social é hoje mais estreito no conhecimento. As elites hoje verdadeiramente já não o são, deixaram de deter o monopólio do conhecimento, embora muitos dos privilegiados se tentem agarrar com unhas e dentes a um passado de Nós e Eles.
    A própria escrita democratizou-se. Enquanto a leitura se disseminou por múltiplas plataformas. E é mesmo de Velho de Restelo a descrença neste mundo novo - para mim que convivo com alunos com metade da minha idade, com excelentes competências e leituras que não passam pela cabeça dos que tentam moldar as consciências a interesses próprios ou de mercado.

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  7. Há algo que não posso deixar passar:
    Os livros não são ecológicos??????
    Como assim, se são naturais e biodegradáveis?
    Por acaso os tablets, são ecológicos? E os e-books?
    E são socialmente aceitáveis, quando construídos em países com trabalho escravo e infantil? Com componentes oriundos de minerais roubados no 3º Mundo e minerados por crianças ou escravos?
    Ah, não, Filipa me perdoe mas não venha com tal e tão falso argumento!
    Pior… a geração actual tem "consciência ecológica" quando só se desloca de carro? Quando vive em casas climatizadas e rodeada de um conforto de que não abdica, mas é preocupadíssima em "salvar o planeta"?
    Não… não estou de acordo e nem aceito!

    Perdoem lé a este velho sem consciência ecológica! Mas esclarecido…

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    1. Casas climatizadas? Os portugueses são dos europeus que mais sofrem com o frio dentro de casa!

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    2. É isso mesmo, Pacheco, e não nos incomodemos se nos chamam Velhos do Restelo: primeiro, porque não somos ou estamos no Restelo; segundo, porque não somos Velhos, nem de apelido (salvo a auto-classificação que deu, à despedida).
      Isto de salvar o planeta, considerando os livros pouco ou nada ecológicos, quer-me parecer que a matéria prima de base é renovável, a não ser a tinta de impressão. "Salvar o Planeta" é muito bonito, mas, como bem diz, de que matéria são feitos os tablets, smarts e outros que tais? E o lítio para as baterias, que ninguém quer ver explorado à porta, onde se vai buscar, a não ser à porta dos outros? Falam os bons arautos da sociedade redimida mas, como diz o povo, "falar vai dos queixos..."
      Salvo erro, deve haver um mal entendido: ninguém que aqui comenta - segundo me parece - está contra as novas tecnologias, tanto assim que as aproveita; também nos comentários não se percebe que contrariem as mudanças que ocorrem nos novos tempos. Há, isso sim, o respeito pelo livro como forma de leitura e peço que as novas gerações respeitem quem prefere ler no papel do que num monitor onde não cabe a mancha de uma página sem a diminuir (e mesmo assim, com lupa!).
      Para salvar o planeta, os radicais que se desviam da couraça dos costumes, devem dar o exemplo, andem a pé e procurem um stand onde se encontrem aquele modelo dos Flinstones, se não querem andar de burro, porque mesmo os veículos eléctricos também poluem.
      É evidente, caro Pacheco, que eu também não estou de acordo e nem aceito!

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    3. E o meu capitão, que gostava muito de dizer coisas, disse: Pois!

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    4. Bom dia,
      Volto aqui tarde mas só para clarificar – quando referi que os livros não são ecológicos, pretendia falar da acumulação de livros não ser ecológica (e não do livro em si ou do seu material), por contraponto com o empréstimo ou a leitura através das bibliotecas – afinal, são árvores que estão a ser destruídas e a indústria do papel não é das mais ecológicas… Mas eu até concordo consigo, há muitas incongruências relativamente à ecologia que as gerações mais novas apregoam (sobretudo as mais privilegiadas), mas que têm mais consciência do problema, têm. Podem ser imaturas e “Maria vai com as outras” nesta questão, como noutras, mas pelo menos debatem-nas e acredito que elas têm espaço e tempo para amadurecer e que as coisas vão melhorar. Eu adoro livros, continuo a lê-los sobretudo em papel, mas acho que “bater no ceguinho” de quem vem depois de nós e pensa e vive de forma diferente (de forma recorrente), não é solução.
      Quanto ao trabalho escravo, infantil, etc, concordo consigo que é lamentável, mas sempre existiu, apenas tem mais visibilidade agora – e felizmente, há outra consciência sobre a sua não admissibilidade! Acredito por isso que temos finalmente condições para começar a erradicá-lo. Nem tudo é mau no que está a mudar, era esse basicamente o meu ponto.
      Filipa

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  8. Boa noite com alegria

    Nos transportes públicos continuo a ver pessoas com livros, algumas a ler em hora de ponta.

    Nas grandes superficies a oferta não para de crescer em diversidade, em qualidade não sei.

    Mas o livro com produto de grande consumo não faz para mim sentido.

    Ler implica parar para pensar, reflectir, relaxar.

    Algo não compaginável com o nosso ritmo de vida frenético.

    O livro é e deve ser uma pausa.

    Boas leituras
    cp

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  9. Logo agora que vou publicar um romance nesse belo país de Sua Majestade :) :) :)

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  10. hmm.. em vez de "por vezes", devia ser mais literatura de supermercado, digo eu. Ainda que seja uma ideia romântica atractiva imaginar os ingleses nos jardins a consumir Shelley...;) Mas, vamos a saber, sendo assim, porque é que é pior ter o nariz enfiado no telemóvel do que ter o nariz enfiado na Danielle Steel?

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