Sena, rio de livros
Não falo do rio de Paris, falo do fulgurante rio de livros que foi o grande Jorge de Sena, de quem, no último sábado, se comemorou o centenário do nascimento. Escritor que tem ficado mais arredado das celebrações públicas do que seria desejável por este ser um ano dedicado a muitos outros escritores vivos e mortos (entre eles a Sophia por todos amada), mereceu mesmo assim o destaque de várias sessões dedicadas à sua obra e vai ter ainda, na recta final do ano, dois congressos que lhe serão dedicados, um em Lisboa e outro em Braga. Suspeito, porém, de que, ainda assim, é hoje um autor menos lido do que merecia, até porque é um dos mais versáteis e prolixos escritores portugueses (acho que foi o jornalista Luís Miguel Queirós que, no passado fim-de-semana, o comparou a Fernando Pessoa), tendo escrito poesia, romance, teatro, ensaio, tradução… Para os Extraordinários que ainda não lhe deitaram a mão, sugiro um dos maiores romances do século XX, Sinais de Fogo (de que Luís Filipe Rocha fez um excelente filme) e essa pequena maravilha que é O Físico Prodigioso, mas, claro, podia sugerir do mesmo modo os livros de contos, a poesia e até a correspondência. Afoguem-se neste rio.
O Severino que anda à procura de romances que abranjam o tema da guerra civil espanhola, pode ler este "Sinais de fogo", onde também se faz sentir o reflexo do início da guerra.
ResponderEliminarNem de propósito , aconselho a leitura deste coiso, link ó lá o que é, que achei bom:
http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol6/vol6_1.pdf
Um resumo e comentário interessante sobre aquele que é considerado um dos mais marcantes romances portugueses do século XX.
Pela minha parte, tendo tido parentes espanhóis , enfim foi uma ligação que perdi já em adulto, nem sei muito bem porquê, se bem que minha sobrinha mais velha tenha casado com um extremeño, confesso que me fartei de ouvir narrativas, comentários e discussões sobre a dita, ou seja cansou-me e não é hoje tema da minha paixão. Fui bem mais marcado pela guerra colonial de que sou filho e fruto, e essa me interessa muito mais, até pela minha vivência actual, pós-colonial.
Grande escritor Jorge de Sena, mas não o meu preferido.
Sinais de fogo… vivemos hoje em dia numa época em que esses sinais são evidentes, para quem os queira perceber.
Saudações atentas cá da Cidade Morena, onde os bombeiros têm sentinela armada no portão do quartel… um sinal que quem queira, entende.
Ó Paxeco passei há cerca de meia hora por uma terra (Figueira de Cavaleiros (Beja)) que nem precisa de bombeiros, o povo encarrega-se de tratar das coisas como deve ser...e ali não há nem ais nem meios ais, ali não há cá daquelas tretas politicamente correctas -prá frente é qué caminho-
EliminarBom dia
ResponderEliminarConcordo com as suas palavras. O livro "Sinais de Fogo" é de uma excelência literária inenarrável. E um grande compêndio sociológico da sociedade portuguesa, ainda hoje!
Bem haja e Muito Obrigada.
O Físico Prodigioso, uma maravilha. Concordo.
ResponderEliminarInfelizmente só li dele as Dedicácias e Sinais de Fogo. Grande romance. Ainda não vi o filme. O jornal Público tem dedicado nos últimos dias várias análises à sua obra por conceituados especialistas.É um autor multifacetado a descobrir. A Guerra e Paz tem publicado ultimamente várias obras do seu espólio de que a sua filha mais velha é guardiã.
ResponderEliminarBom dia com alegria
ResponderEliminarSem querer parecer repetitivo ou provocador, mas sendo-o:
- Li apenas, da sua vasta obra, "Sinais de fogo", em três dias.
- Enquanto a minha vasta ignorância não tiver esgotado este e outros filões (Agustina, Camilo, Eça, Torga, Chesterton, Orwell, etc. etc.)
- Declaro, sob juramento, perante vós, Oh Extraordinários, ignorar todos os prémios (Nobel, Leya, Booker, Farinha Amparo, 33 e Filarmónica de Fornos de Algodres)
Tenho dito.
E assim tenho feito.
E não nos deixeis cair em tentações comerciais.
Ámen
Boas leituras
cp
Ámen!
EliminarCá desde a Cidade Morena!
Estou curioso apenas quanto ao último Goncourt porque a discussão foi renhida, de resto abomino prémios literários e classificações de filmes.
EliminarTambém não acredito em prémios literários nem em escritores por referência, cada vez menos. A partir do momento que vivemos num mundo literário onde a verdade é uma construção subjectiva de meia dúzia de autoridades burguesas (o mesmo é dizer de uma pequena elite), em que o único propósito é ouvirem-se a si mesmas, como balido de ovelhas num rebanho, a confiança diminui bastante. Quem tivesse pachorra para investigar os grupos editoriais ia ficar impressionado com o familistério que por lá anda. Qual governo qual quê!
EliminarPois, a velha questão do "poder". Nunca entendi por que razão os cargos que implicam tomada de decisão ( poder) não são regulados e obrigados a mudar de posição de tempos a tempos. Parece que viver em democracia é uma questão só pública. A verdadeira demoracia deve começar dentro das próprias empresas, na sua organização e forma de funcionar, construída de dentro para fora. O mais engraçado é depois essa gente, a mesma que faz parte de uma corporação, que toma decisões discricionárias, vir criticar o governo e ficar muito assustado com o rumo da nossa democracia.
EliminarCompreendo. Uma maior transparência e fundamentação por parte das editoras seria um bom começo, não? Hoje até as respostas que as editoras nos dão por email são copy paste de outras. Tratam-nos como objectos, não como pessoas. Isso mete-me medo. E, quando não aceitam um original, nem sequer explicam as razões, nada, tudo na base do tal texto padrão que já têm guardado. Neste cenário, como pode haver respeito e confiança nas decisões que tomam? Esta completa desumanização das relações é também fruto da formatação que elas (editoras) sofreram, para não perder tempo, produtividade, e também por cortarem no pessoal. É uma questão de valores, em última análise.
EliminarOlhe, faça como eu e mande-lhes "originais" de gente bastante reputada, nóbeis e afins, e depois ria-se muito com as respostas das "apreciações". Sem isso eu própria não acreditaria. Foi ler sobre o assunto, e parece ser comum acontecer, devido às crenças. Mas prova bem o nivel de atenção das editoras para ler originais. Agora uma curiosidade: só consegui editar o meu primeiro livro, e na relógio d' água, depois de uma simpática mobilização de um autor consagrado. É a vida. Injusta. Muito
Eliminarnobéis* , perdão.
EliminarFalta cá um Luiz Pacheco com tomates para desancar nessas capelinhas todas.
EliminarDe Jorge de Sena, por mais que se diga aqui ou em outro lado, mais de 80% fica por dizer, tal a grandeza de alma e de arte das palavras que ele possuía. Já se falou aqui de obras dele, indicaram-se títulos e outras variantes de comentários que nada tinham a ver com Jorge de Sena. Pela minha parte, tenho de recordar Jorge de Sena, nesse dia de Portugal e de Camões a 10 de Junho de 1977. O seu discurso, o facto de ter sido nessa data que a fórmula e o título passou a ser Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, empolgaram-me então, a mim, que nem sou muito para ouvir discursos palavrosos em determinados eventos.
ResponderEliminarJorge de Sena fez um discurso extraordinário, empolgante, direi mesmo patriótico e não nacionalista, sobretudo cultural, em defesa de Camões, deixando de cara à banda os pseudo-revolucionários que já consideravam “fascistas” os apreciadores do autor de "Os Lusíadas". Algumas abetardas da cultura portuguesa, aliadas aos boçais de barba à Che Guevara (que nunca passaram uma noite no mato com arma na mão, em vigília), diziam que Camões era “fascista”. Foi para eles, principalmente, que Jorge de Sena malhou.
Apenas cito esta passagem), colhida de um semanário da Guarda, cidade onde se realizou a homenagem à efeméride:
“Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo”.
Tenho saudades de Jorge de Sena. Ainda mais saudades tenho por não ver outro vulto que esteja à altura dele; a não ser o próprio Camões, o qual, apesar da tacanhez da sua época, hesitaria muito em fazer parte desta.
Folgo muito que tenha sido na Guarda que é o meu distrito, que esse discurso seniano tenha sido proferido. Recordo esse dia, se não me engano era Presidente o Ramalho Eanes. Outra figura beirã que muito prezo e fervoroso camoniano é o Eduardo Lourenço.
EliminarRealmente era Ramalho Eanes presidente da República, bem como Mário Soares primeiro-ministro.
EliminarO distrito da Guarda, se não vasto em amplitude geográfica, é pleno de História nos seus catorze concelhos. Tenho muito gosto em ter feito publicar monografias em dois deles, uma das quais primeira e única.
O dizer que "folga muito" é porque se orgulha de ser um natural desta região, o que o dignifica. e, a propósito, como estamos sob a recordação de Jorge de Sena, o tal apelido que é um rio de cultura (como bem comparou a Rosário), leia-se mais este trecho dele, referindo-se a Camões, que ele via "não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta":
"O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo".
No comentário anterior - e procuro nesta resposta emendar o lapso - não referi outro dois vultos (cada um na sua área específica), o Padre António Vieira e Fernando Pessoa.
Obrigado pelas suas criteriosas observações. Já agora se não é indiscrição quais as duas monografias que publicou. Outro beirão cuja escrita admiro e de quem tenho vasta obra é Aquilino Ribeiro.
EliminarAguiar da Beira e Trancoso. A de Aguiar da Beira, em parceria com João Portugal; uma segunda edição, totalmente reformulada, a solo, edição de luxo, com 540 páginas.
EliminarE a de Trancoso,a quem já dediquei vasta bibliografia.
Sobre o distrito da Guarda publiquei, em edição cartonada e a cores, cerca de 180 lendas dos 14 distritos, formato A4, duas lendas por página, com texto e desenho (totalmente esgotado, sem que eu decida a uma 2ª edição). Provavelmente estará aqui o seu concelho.
Aquilino Ribeiro é um escritor de quem possuo o acervo literário.É precisamente sobre uma obra dele que tenho um trabalho encomendado, interrompido de vez em quando - entre outras pausas - para vir a este blog, com prazer.
Gostaria de ter o seu trabalho sobre a obra do Aquilino, sobre quem tenho alguma bibliografia. Sou de Figueira de Castelo Rodrigo, mas vivo em Lisboa há 30 anos. Vou lá todos os anos no mês de Julho e aproveito para redescobrir o concelho. Aguiar da Beira e Trancoso conheço só de passagem. Esta última faz parte das Aldeias Históricas assim como Castelo Rodrigo. O FB ajuda de alguma forma a conhecer, a preservar e a divulgar estes pedaços da nossa História.
EliminarSugestão deliciosa.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi