Maturidade

Não é segredo que há muitos anos escrevi colecções de livros juvenis – e fi-lo sobretudo tentando fazer leitores. Quando comecei, dava aulas de Português e tinha como bitola a faixa etária das minhas turmas. Os livros estavam classificados para mais de oito anos, mas eu sabia que a maioria dos seus futuros leitores teria dez a doze anos. Escrevi mais tarde também alguns livrinhos soltos para meninos mais pequenos, com cerca de 40 páginas em letras gordas e bastantes ilustrações; e fiquei um pouco estupefacta quando, nos últimos anos em que acompanhei as Olimpíadas da Leitura, dedicadas ao 2.º ciclo do Ensino Básico (10-12 anos), apareceram não os livros das primeiras colecções, como seria natural, mas os pequeninos que eu via mais para crianças de 7-8 anos. Pois hoje, num site que recomendava livros para oferecer a crianças no Natal, reparei que a versão ilustrada de O Diário de Anne Frank, O Meu Pé de Laranja Lima e A História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar apareciam todos na faixa «Maiores de 12 anos». Bem, talvez hoje a maioria dos jovens atinja de facto, a maturidade mais tarde e ainda sejam acriançados aos 12 anos. Deve ser também por isso que é tão difícil um romancista de qualidade estrear-se antes dos trinta, digo eu.

Comentários

  1. E também acontece outra coisa, se cada vez há menos leitores (clássicos), também haverá menos gente a querer ser escritor...

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    1. Se me permite o comentário, Extraordinário Luis Eme, estando embora de acordo consigo, acrescentaria "... menos gente a querer ser escritor… clássico". Porque gente a escrever o que quer que calhe sobre o que quer que seja, isso cada vez há mais!!!! Mas, falta-lhes aquilo o que nós, Leitores Extraordinários, bem sabemos!

      Receba um forte abraço cá do Bairro Ribatejano, onde chove a potes, e ainda ontem um daqueles séniores castiços em vias de extinção reclamava: "cum´é q'um hóme há-d'apanhar à'zêitona, c'um tempo destes!" .

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    2. Tem toda a razão, Extraordinário Pacheco.

      Retribuo o abraço e por aqui, em Cacilhas, também chove maravilhosamente, com uma vontade imensa de devolver a água que está em falta aos rios e barragens. :)

      (A azeitona deve ficar para a semana...)

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  2. Maturidade… é algo de indefinido e diria que muda com os tempos.
    O conceito é vago, o que era considerado maturidade há 50 ou 100 anos será o mesmo na actualidade? Não creio… pois olhando para trás, me recordo que maturidade, para os meus pais era uma coisa, para mim julgo ser outra e para os meus mais novos é definitivamente outra, de um modo geral!

    Creio que hoje se é maduro mais cedo no que toca a temas como sexo, ou a ter opiniões sobre política, sociedade e ambiente. O que não dá todavia esclarecimento, julgo até que pelo contrário, pois sendo uma maturidade algo forçada carece portanto de bom-senso.
    E sim, parece-me que os jovens adultos de hoje são algo infantis… digo-o pelos jogos, filmes e de um modo geral pela forma como pensam e analisam. Terei eu sido assim aos 30 anos? Já não me lembro… daí dizer "parece-me", pois sei que a memória é curta e nos esquecemos daquelatirada Shakespeariana: Os velhos desconfiam dos novos porque já foram novos.
    (Ó Luis Eme, de facto os clássicos são uma fonte de saber e conhecimento!)

    Mas tendo a concordar com a Nossa Extraordinária Anfitriã, no que toca à maturidade das leituras, porque manifestamente não chegam lá… se é que me entendem, e tudo parece concorrer para manter as próximas gerações nesse estado, de maturidade aparente mas intelectualmente atrasada, pois querem-se seguidores e nem por isso pensadores!

    Saudações chuvosas e resfriadas cá do Bairro Ribatejano.

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    1. (Mas eu referia-me mais à "clássica" forma de escrever - e não tanto aos grandes livros dos grande autores -, sem se ter medo de usar as palavras que se escondem dentro dos dicionários, caro Pacheco...)

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  3. Os jovens, principalmente os jovens, também são vítimas daquilo que os telemóveis proporcionam. Muitas formas com pouco conteúdo, exigindo apenas frases curtas ditas de jacto com pouca reflexão. Ké kaxam?

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  4. Uma coisa garanto. Se ainda fosse jovem, face a este mundo que os adultos lhes vão entregar, também não queria amadurecer rapidamente. E talvez este adiar da maturidade tenha que ver com um envelhecimento cada vez mais postergado no tempo.

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    1. Ahahahah!
      Se me permite e bem entende!

      Nota: quando em jovem, conheci e falei uma tarde com Victorino Nemésio, foi o seu olhar profundo através dos grossos óculos e das espessas sobrancelhas quem me impressionou!

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