Bestiário

Inspirando-me num artigo muito divertido de García Ortega e Pérez Zuñiga na revista Zendra, falo-vos hoje da relação dos animais com os livros e vice-versa. Antes de mais, claro, as traças, os ácaros e os peixinhos-de-prata – esses horrores que devoram livros no pior dos sentidos. Depois falo de um animal fundador – a serpente – que está dentro de todas as Bíblias para mal dos Adões e  Evas deste mundo; não será mesmo assim o único réptil da literatura, se o dragão, tanto no livro de Kazuo Ishiguro O Gigante Enterrado como em Eragon, for um réptil. No que toca a insectos, temos a famosa barata da Metamorfose, de Kafka, as moscas de O Deus das Moscas, de William Golding, ou o bicharoco (já não me lembro do nome) que se infiltra na Arca de Noé em Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, de Julian Barnes. Cavalos não faltam, por certo, mas o mais famoso é seguramente o Rocinante de D. Quixote. No mar, os animais mais conhecidos serão a baleia de Moby Dick e o peixe terrível de O Velho e o Mar. Já quanto a animais comuns, lembro-me de repente dos terríveis cães ao serviço dos nazis em Cães Pretos, de Ian McEwan, da cadela de La Perra, de Pilar Quintana, que em breve publicarei, do Cão como Nós, de Manuel Alegre, ou de Buck, de O Apelo da Selva, de Jack London (mas há muitos mais). Existe um burro maravilhoso em Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, um gato em Kafka à beira mar, de Murakami, montes de gatos em Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto, vários gatos naquele livro de Luís Sepúlveda que tem igualmente uma gaivota, e fico-me por aqui, de contrário nunca mais acabaria o post. Bestiário, já agora, é um fantástico livro de Cortázar. Divirtam-se.

Comentários

  1. O viajado gato de Upsala, ora essa! E o mais famoso canídeo que deve ser o dos Baskervilles! Dos já citados.
    Mas há leopardo, o jaguar do rasto, o caçador de leões e os leões de Jules Gerard já não tão jovens, o chacal, até o linguado e claro o tubarão, mas se misturam ratos e homens, há o ladino pardal do generalista e genial "bichos", os toiros do Sol, e "cambaco" (elefante solitário na língua xangane) … o urso, "bitcho bravo (lobo), o rinoceronte papal, borboletas, até uma serpente emplumada, num completo e autêntico manual de zoologia literário!

    Ahahah!

    No bestiário factual ainda hoje de manhã eram noticiadas mortes em Malanje derivadas a ataques de hipopótamos às populações ribeirinhas, mais a destruição de lavras e o mesmo na Canjala, onde os elefantes vêm fazendo das suas nos campos cultivados, também já matando gente.

    O que é romance nuns lados é por vezes drama noutros, mas assim é o Mundo!

    Saudações bestiais de um dia quase feriado cá pela Cidade Morena!

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  2. Assim sem pesquisa e sem querer estar a repetir os livros já referidos, lembrei-me dos tigres do Borges, do elefante e do cão que chora do Saramago, dos lobos do Aquilino, do cão Charlie do Steinbeck, dos Peixes que sabem cantar do Laxness, do Macaco Gramático do Octávio Paz, do Lobo das Estepes do Hesse , dos Pássaros da Daphne du Maurier, e dos Gatos da Doris Lessing, do Pessoa, do Eugénio, do Mia Couto e de tantos, tantos outros escritores.
    Ah, e o Bob, aquele gatinho de cachecol que vive em Londres.
    Vou ficar por aqui...

    Maria

    Ah, e o João Ratão, e a Carochina, e a Cigarra e a Formiga, e o Pato Donald, e os 3 Porquinhos, e o coelho da Alice, e a gaivota Jonathan, e e e....
    Okay, vou-me embora.

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  3. E já agora os percevejos, que também são criaturas de Deus. Tão ditosos aqueles que, saindo das fendas da cama ou caindo de alto do dossel, se afadigam na busca da real carne para se alimentarem do real sangue.

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  4. E o cachorro Mr.Bones de TIMBUKTU do Paul Auster, que lhe era praticamente impossível imaginar um mundo em que o dono não estivesse presente. Todos os seus pensamentos, todas as memórias, todas as partículas da terra e do ar estavam impregnadas da prsença do seu dono Willy.

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    1. Bem lembrado ! Um memorável cão fiel de um dono envelhecido e diminuído, mental e fisicamente, numa caminhada errante ao encontro do fim. Eu também adorei esse livro curto do Auster apesar de ser dos menos consagrados.

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  5. Viviam Ursus e Homo ligados por estreita amizade.
    Ursus era um homem, e Homo era um lobo.
    Do fantástico "O HOMEM QUE RI" do imortal Victor Hugo!

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  6. Como esquecer a barata de Clarice Lispector, em A paixão segundo G.H? Não fosse uma reles barata brasileira teria sido lembrada, não é mesmo?

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  7. E num deslocamento para a capa de uma súmula de Adília Lopes: Caras Baratas.

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  8. E temos o bestial "My Family and Other Animals" do Gerald Durrell...

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  9. E temos o "Bestiário tradicional português" que é uma delícia para grandes e pequenos...

    https://bestiariotradicionalportugues.wordpress.com/

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