Portugal ao correr da pe(r)na

Se nunca atravessou o País de norte a sul – a pé, quero eu dizer –, pode fazê-lo agora por interposta pessoa e, além disso, guardando o encanto da literatura. Afonso Reis Cabral – um dos mais jovens romancistas portugueses, vencedor do Prémio LeYa com O Meu Irmão e autor também do romance Pão de Açúcar, sobre o homicídio da transexual Gisberta – saiu da sua «zona de conforto» e pôs-se a caminho de um livro de não-ficção sem o saber. O sonho era percorrer Portugal a pé pela mítica Estrada Nacional 2, o que fez com coragem e um par de ténis milagrosos, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um sol ardente, ao longo de 24 dias; no fim de cada um, escrevia no Facebook o resumo da sua jornada, mas o resultado era muito mais do que um simples relato, porque estamos a falar de um Escritor com E maiúsculo; e, por isso, a sua bonita prosa foi convidando mais e mais leitores (muitos deles preocupadíssimos com as caminhadas diárias de 40 quilómetros e assustados enquanto o texto não aparecia, prevendo alguma tragédia) e desencadeando não raro cerca de 500 comentários ou mais. Nos dias derradeiros, quando Afonso se aproximava da meta, os seus leitores manifestavam já saudades daqueles textos e pena de que a viagem estivesse no fim. Por isso, não se podia deixar morrer ali a aventura. Agora, que tudo acabou (e bem), Leva-me Contigo – Portugal a Pé pela EN2 está aí, revisto, refeito, aumentado e ilustrado: é um livro que atesta a solidariedade dos portugueses (que deixaram almoços pagos a um rapaz que nem conheciam, lhe ofereceram iogurtes, lhe deram dormida, o acompanharam em alguns troços) e que vale muito a pena ler por todas as razões e mais algumas, incluindo porque pode lá estar a sua voz. Experimente e verá.


 


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Comentários

  1. Deve ser uma leitura muito interessante, e pode ser que inspire mais pessoas a aventurarem-se pelo país fora - se não desta forma, doutras!

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  2. Este texto é que merecia o da crónica anterior, "Crónica e Fabulário".

    Eu sei que é preciso vender livros, mas...

    Um escritor cumpre este desafio, porque já há um livro há sua espera... e ao ler-se as palavras da MRP, até parece que o rapaz andou pelo Everest... A estrada nacional dois é logo ali.

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    1. Pois, caro David, o rapaz não andou pelo Everest, andou simplesmente a conhecer a mais longa estrada de Portugal. E como eu o admiro por isso.
      Nada contra conhecer o mundo (até tenho uma certa invejinha de quem o pode fazer); agora uma coisa lhe posso garantir: o nosso pequenino país tem paisagens fabulosas e a maior parte das pessoas nem sequer desconfia...
      Boas escaladas, se possível em free solo.

      Maria

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  3. Parabéns por um post com um belo título e pela divulgação de uma iniciativa, que eu desconhecia, e que é muito original e generosa por parte de um escritor da nova geração. Um dia hei-de fazer a EN2 de carro; por enquanto terei o relato do Afonso Reis Cabral para ler. Já agora, ele esteve entre o público de um debate televisivo eleitoral recente em que ele próprio fez uma pergunta a Rui Rio sobre a Feira do Livro do Porto (o então presidente da Câmara considerou excessivo o financiamento pedido pelas editoras para participarem no evento, excluindo-as). Na sua resposta, Rui Rio comentou que "até gostava de algumas coisas que o jovem escrevia". "Algumas coisas"? Como dizem os comentadores, Rui Rio é muito genuíno e transparente e alguém lhe terá dito que o Afonso Reis Cabral é escritor. Que saudades de Mário Soares !

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    1. É isso mesmo Artur, que saudades de Mário Soares, um homem com um extraordinário amor aos livros.
      Recordo aquele programa em que ele mostrava à Clara Ferreira Alves os seus livros na Casa do Campo Grande.

      Maria

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    2. A favor dos políticos atuais temos que ser justos e recordar uma recente sessão pública em Lisboa entre com António Costa e Juan Gabriel Vásquez em que dialogaram sobre um livro do colombiano ("O Barulho das Coisas ao Cair"). Bem interessante que é esse romance. Mas é o único exemplo de que me lembro e já estaríamos então em pré-campanha eleitoral...

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    3. Com a mãe que tem (e o pai que teve) o António Costa só pode (tem de) ser uma pessoa culturalmente interessante, embora eu conheça mal essa vertente da sua personalidade.
      Mas a maioria dos políticos é uma nódoa no que à Literatura diz respeito - e não só...

      Maria

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  4. Tomei conhecimento deste livro ontem, pois foi o Livro do Dia no Delito de Opinião.
    Amante de livros de viagens e tendo já feito esta viagem de carro, sem dúvida este é um livro de leitura obrigatória para mim.
    Acresce o facto de gostar imenso do Afonso Reis Cabral.

    Maria

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    1. António Luiz Pacheco9 de setembro de 2019 às 03:13

      Hum… posso pedir que me esclareça sobre o que é o citado "delito de opinião"?
      Antecipadamente lhe agradeço.

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    2. Com prazer!
      delitodeopiniao.blogs.sapo.pt. é um blog colectivo dirigido pelo jornalista e escritor Pedro Correia. Está agora a comemorar 10 anos de existência e é um dos mais visitados da blogosfera.

      Maria

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    3. António Luiz Pacheco9 de setembro de 2019 às 03:50

      Muito obrigado! Cuidei que fosse um programa, não sei porquê mas o título assim me o sugeria. Sendo um blog, é-me mais fácil ir espreitar.
      Saudações cá da Cidade Morena.

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  5. Tendo sido uma das seguidoras diárias da viagem, comentadora diária, também, aguardava o livro. A forma como o Afonso relata a experiência fez-me sentir ao seu lado, sentir o calor e a chuva, quase o cheiro!, toda a emoção da viagem. E, sim, também tive a grata surpresa de ver alguns dos meus comentários (5!) publicados ao lado do texto que tanto gostei de ler. Magnífica ideia, a desta aventura!

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  6. António Luiz Pacheco9 de setembro de 2019 às 03:12

    Desconhecia não só o empreendimento, como o seu acompanhamento facebuqueano!

    No entanto, como fiquei leitor do Afonso Reis Cabral, vou ler mais este certamente!
    Vou já pedir à minha mulher (caminheira inveterada) que o meta na mala e me traga, quando vier no mês que vem… aliás ela vai querer ler também.

    O tema das viagens é um dos meus preferidos!

    Saudações viajadas cá da Cidade Morena!

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  7. Curiosamente, está para breve a finalização de um livro que escrevi sobre cinco amigos que percorreram a N2 em bicicleta, juntando uma primeira crónica na revista trimestral que dirijo.
    Contar este feito é, já por si, um feito. E digo isto porque, sentado ao computador, percorra a antiga Nacional 2 sem dar uma única vez ao pedal.
    Contar este feito é, já por si, um feito. E digo isto porque, sentado ao computador, estou a percorrer a antiga Nacional 2 sem dar uma única vez ao pedal.
    Sempre me deu que cismar como é que um grupo de amigos e aventureiros decidem atravessar Portugal na sua maior extensão, de Norte para Sul, dando ao pedal sobre uma bicicleta. De automóvel, até eu o faria ou ainda, vá lá, de mota. Agora, de bicicleta, ao longo de 738,5 km? Sabendo, pela história, que o troço da EN2 constitui em muitos segmentos como principais vias abertas pelos romanos na Lusitânia, um caso de façanha, é caso para os ouvirmos vaticinar, sabendo deste feito – estes Lusitanos estão loucos!
    O que é a Nacional 2? Perguntarão aqueles que, no grande troço (o maior da Europa em extensão e o terceiro maior do mundo, depois da "Route 66" nos EUA e da "Ruta 40" na Argentina), nunca galvanizaram o seu alcatrão. Trata-se de uma via que traceja onze distritos (Vila Real, Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro), oito das províncias assim designadas (Trás-os-Montes e Alto Douro, Beira Alta, Beira Litoral, Beira Baixa, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve), 4 serras, 11 rios e 32 concelhos.
    Depois disso, nos dois anos subsequentes, percorreram o trajecto das 12 Aldeias Históricas e fizeram o troço do litoral entre Caminha e Vila Real de Santo António (ufa, cerca de 1200 km!).
    Devido a isso, para não ser influenciado, só lerei o livro do Afonso quando já estiver no prelo esse meu trabalho.
    Saúdo o regresso da MRP (mais moreninha), certamente ainda com mais dinamismo, como é seu timbre.

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    1. António Luiz Pacheco9 de setembro de 2019 às 12:25

      Ora que belo conjunto de informação nos trouxe, caríssimo Fernando!
      Confesso o meu total desconhecimento sobre essas particularidades da Nacional 2!
      Grato pela eu interesse em no-lo dizer!

      Grande abraço moreno cá da Cidade das Acácias Rubras, como também é conhecida!

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  8. Esta ideia não tem nada de inédito, pois em 2014, o jornalista Paulo Moura publicou o livro "Longe do Mar" na colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, na qual faz em reportagem toda a estrada nacional 2.

    A única diferença, é que o Paulo Moura não deve ter ido a pé, neste seu percurso entre o Norte e Sul do país. :)

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    1. E terá com certeza muitas outras coisas diferentes, Rosário. :)

      Até porque o olhar de um jornalista é diferente de um ficcionista, mas penso que as diferenças não se devem ao facto do Afonso ter ido a pé (não escrevemos com os pés...).

      Ainda em relação ao "inédito da coisa", até é provável que alguém possa ter escrito antes do Paulo, sobre a estrada nacional 2...

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