Avant la lettre?
Hoje em dia estamos sempre a falar do politicamente correcto, até porque em nome dele se tem chegado a extremos de uma idiotice gritante. Mas lembro-me de que, ainda nos anos 1980, li um livro de crónicas de um historiador americano que apelava já para os perigos da doutrina do politicamente correcto, falando de um grupo feminista que queria mudar o vocábulo «woman» para «womin» só para não ter a partícula «man» lá dentro. Também o grande Julian Barnes, de quem li nestas férias O Papagaio de Flaubert (como é que ainda não o tinha lido é um mistério), escreve nesta obra vencedora de muitos prémios (curiosamente, tanto de ficção como de ensaio, porque se trata de um híbrido literário) muitas passagens que falam do politicamente correcto, entre elas a que cito abaixo:
«Hoje evita-se usar a palavra louco. Que disparate. Os poucos psiquiatras por quem tenho respeito falam sempre da loucura das pessoas. Usam as palavras curtas, simples, autênticas. Não digo […] desordem de personalidade […] Digo doida, é isso que digo. Doida tem o som certo, é uma palavra vulgar, uma palavra que nos diz como a loucura pode vir bater-nos à porta como uma camioneta de entrega de encomendas. As coisas horríveis também são vulgares.»
Um dia destes volto a este livro notável aqui no blog. Hoje foi só para sublinhar as tolices que por aí andam.
"O sentido do fim" ainda mais me entusiasmou. Uma obra prima. Tenho "Nada a temer" na calha... será que vou começar a descer a ladeira?
ResponderEliminarBem lembrado, caríssimo Jorge!
EliminarTanto o livro de Julian Barnes quanto depois o excelente filme, que por acaso vi, pois não sou grande cinéfilo, mas tem um excelente elenco!
E, se me é permitido pegar em algo que disse , creio que já estamos mesmo a descer a ladeira, e não falo na nossa idade e vidas mas em termos civilizacionais quando atingido o clímax abeiramos o anticlinal… estará a civilização mais uma vez e como tantas outras no passado, nessa situação?
Os bárbaros não estão apenas às portas de Roma, encontram-se cá dentro!
Um abraço desde a Cidade Morena, para si!
Grato pelo simpático cumprimento. Que retribuo!
EliminarJá aqui escrevi há anos que considerava essa obra absolutamente notável. De tal modo que os livros de Barnes que li posteriormente me desiludiram a ponto de deixar de acompanhar a sua produção.
ResponderEliminarLi esta semana que o Wolf Hall, de Hilary Mantel, fora considerado o n° 1 no séc. XXI. Gostei tanto quando o li no verão de 18 que li neste verão o 2° volume, O Livro Negro. E fico à espera do fecho da trilogia que creio já ter sido editado em Inglaterra mas ainda não ter sido traduzido para português.
Já li há algum tempo os dois volumes da Hillary Mantel e estou à espera do terceiro. Romance histórico de alta qualidade, de leitura absorvente e satisfação garantida.
EliminarVou confessar que também ainda não li o papagaio de Flaubert… e pelos vistos é uma falha grave, literariamente falando. Vou ter de a corrigir.
ResponderEliminarEu, por defeito e não por intenção, serei do mais politicamente incorrecto que há, dependendo do interlocutor como é óbvio, pois quando converso com quem pense e se exprima como eu (e felizmente tenho um largo grupo assim) não o sou, apenas serei para quem pense diferente e sobretudo se ache superior a mim - o que também não é difícil encontrar!
Não há que ter medo das palavras e nem de as usar, desde no contexto adequado, penso eu. Felizmente falamos uma língua riquíssima, com um vocabulário tão rico e abrangente que muito poucas coisas não são contempladas até com várias palavras!
É um exercício fascinante procurá-las e usá-las.
Saudações palavrosas, cá da Cidade Morena!
Aproveite também para falar das suas tolices editoriais.
ResponderEliminarE aquela miúda sueca de 16 anos que está a dar (na ONU) explicações ao Guterres e a outros Presidentes de como se deverá tratar do ambiente, e não só? 16 anitos???? dêem-lhe o Prémio Nobel.....
EliminarBrinca, brinca… ela até sueca é!
EliminarJá dizia o grande Alder Dante: desde que vi um porco andar de bicicleta...
EliminarNão é meu costume ser politicamente correcto, até porque gosto de ser oposto. Caracterizo-me por ser, ás vezes em demasia, politicamente insurrecto.
ResponderEliminarTenho de agradecer à MRP a notícia sobre o livro que ela editou do Afonso Reis Cabral, dando por boa compra os 16,60 euros que paguei numa estação dos CTT (ora, loja CTT) onde o vi à venda. Pelas razões colocadas num post anterior não o li e vi de fio a pavio, mas pelos retalhos, ordenação e esquema da viagem, acho que é uma obra recomendável.
Atenção, saí como Anónimo, embora não seja insurrecto a tal ponto. O comentário anterior é meu...
EliminarJá agora - só para compensar a minha escassa participação nesta "plataforma" - tenho a acrescentar que às vezes sai um "ás vezes" com o acento agudo em vez do grave; culpa do teclado baratucho, que não acompanha o ritmo frenético dos meus dedos e o "caps" só funciona à martelada.
Eliminarmas é que gostei demais desse bocadinho. Vou ver se o encontro.
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