Mudam-se os tempos
Os tempos mudaram muito nas últimas décadas – as novas tecnologias viraram tudo do avesso e criaram um homem diferente, menos virado para a paciência, o desfrutar, a calma, o esforço, a concentração. A literatura dita séria está a sofrer drasticamente com isto e os seus leitores serão cada vez menos. Alguém afirma que, agora, ficção é na Netflix e na HBO, mas sabemos que ler desenvolve outras capacidades, desde logo a da imaginação. Ler põe algo de nós nas coisas, e ver não, é receber e pronto. Por tudo isto e também pela falta de espaço, as grandes enciclopédias tornaram-se digitais e deixaram de imprimir-se em papel. E agora leio com espanto que uma colecção que em Espanha ombreava com a Pléiade francesa vai ser destruída e reduzida a tirinhas de papel. Trata-se das Obras Completas do Círculo de Lectores, empresa pertencente ao Grupo Planeta no país vizinho, que anunciou recentemente o seu fecho, já que se tornou perfeitamente obsoleto vender livros de porta em porta a leitores que não só não querem ler, como não têm onde guardar colecções encadernadas, pesadas, extensas… Günther Grass, Vargas Llosa, Juan Goytisolo, Manuel Vázquez-Montalbán… no lixo. É a mesma coisa por todo o lado. E, ainda que nos faça pena, crendo que alguém ainda as podia aproveitar, desenganemo-nos: já ninguém quer estes livros, porque já não há quase ninguém para os ler, sobretudo neste formato. Mudam-se os tempos, sim, e em certas coisas para pior.
Uma realidade bem triste
ResponderEliminarLer e imaginar é (ou era) do mais extraordinário que há (ou havia).
ResponderEliminarPor isso eu prefiro ler o livro antes de ver o filme ou série. Quando leio depois já não há espaço para a imaginação, estou a ler e a ver a cara dos actores - alguns bem giros, por sinal, outros que me parecem um autêntico erro de casting.
Só que o peso dos livros, o espaço para os arrumar e a trabalheira para os manter limpos está a ser um grande problema para mim.
Mudam-se os tempos... é bem verdade.
🎄
Maria
A literatura não vai desaparecer tal como não estão a desaparecer a pintura, a escultura, a música, a arquitectura. Mas é previsível que os que se interessam por ela se reduzam a uma minoria como minorias são os cultores daquelas artes. Mas isso implicará a redução drástica da produção de livros, isso parece-me inevitável. O negócio editorial esse continuará de vento em popa como a mercadoria em geral.
ResponderEliminarAté me dá vontade de chorar; é uma grande tristeza!
ResponderEliminarEstou aqui sentado numa esplanada e só eu é que tenho um livro, só eu estou a ler, todos os outros robots dão ao dedo...
Mas o livro não vai desaparecer apesar de apenas uma minoria os ir ler - mas, ao fim e ao cabo, não foi quase sempre assim? Eu, como leitor (viciado em livros) sempre me reconheci como uma absoluta minoria.
Não sou catastrofista!
ResponderEliminarSei que o consumidor, as pessoas, são o que delas faz o sistema, seja ele qual for.
Não se esqueçam disso… digam o que disserem, as pessoas seguem as modas, as tendências ou o que queiram chamar-lhe. Hoje quem manda é o marketing, são os opinadores e as empresas/sociedades/partidos que as comandam e lhes pagam ou encomendam as influências.
Saudações cá da Cidade Morena!
Bom dia com alegria
ResponderEliminarEstou a engracar com podcasts de programas de rádio.
E tentado a comprar um áudio livro.
Boas leituras
cp
Também não acredito na morte do Livro.
ResponderEliminarAcredito, sim, em novas formas de distribuição, talvez de migração para outras plataformas, no definhar lento do Livro como negócio, numa crise larvar de rendimento disponível que a todos assiste neste momento, num mundo de acumulação desenfreada.
Acredito, sim, que haverá, mais cedo ou mais tarde, um renascimento da leitura lenta e longa. Um volte face, anunciado, para uma realidade e uma sociedade mais verde e analítica.
De outro modo seremos cuspidos do planeta como maus inquilinos.
De tal modo confio que continuo não apenas a escrevê-los como a editá-los.
Mais… dedicando-me quase em exclusivo, mesmo fazendo parte daquele grupo de autores anónimos, totalmente independentes, não votados a modas.
Podem poucos os ler — pela quase inexistente distribuição e publicitação — mas eles aí estão agora. Por estes dias o décimo: «O Meu Nome É Nemésio, a inquirição», um romance biográfico onde se fala de Nemésio e de uma pretensa inquirição conforme à revolução dos cravos… e, «O Livro das Queixas», cronicontos do século XXI, onde (até) se reflecte, como pássaro que acredita que haverá sempre uma nova primavera, sobre esta questão da edição, dos livros e da leitura.
E que melhor lugar para os dar a conhecer, do que este espaço dos extraordinários amantes da leitura?
Apoiado!
EliminarPartilho dessa mesma opinião, pois há um detalhe sempre esquecido: os consumidor (todos nós, atenção!) quer acumular, ou seja quer tudo, e o dinheiro não chega para tudo… quer apartamentos modernos e cómodos com tudo incluído, quer comida segura, boa e barata de acordo com os elevados padrões da sofisticação na moda, quer carros especiais, quer aparatos de comunicação e multimédia que façam tudo, quer férias em locais exóticos, quer espectáculos, quer salvar o planeta, quer tudo e mais alguma coisa!
Com que dinheiro?
Com que meios?
Mas tudo sem sacrifícios… barato… seguro!
Onde ficam os livros? Em lado nenhum, pois as séries ou os filmes lhes bastam, sobretudo com as modernas técnicas de produção e efeitos especiais, tudo em pacotes!
É uma realidade que dói. Eu ainda sou sócio por interposta pessoa do Círculo de Leitores apesar de não apreciar muito as suas escolhas, mas tenho de ser selectivo. Apesar de ter 3 espaços para os meus livros, um na Beira Alta, outro no Ribatejo e o terceiro em Lisboa, a verdade é que não tenho espaço para mais livros, DVDs ou CDs. De vez em quando doo alguns para bibliotecas para aliviar a pressão livresca. De outra forma não vejo solução . Gosto do papel e do cheiro dos livros.
ResponderEliminarExtraordinário Pacheco,
ResponderEliminarExtraordinário e Não Catastrofista. Mas o que disse é uma catástrofe.
É... eh!eh!eh! … mas sempre assim foi, só que hoje é mais e acontece mais depressa pois as notícias voam!
EliminarA morte de Lincoln levou 21 dias a chegar à Europa (li algures…) mas hoje, ele seria assassinado em directo, com as televisões a transmitirem para o Mundo inteiro!
Extraordinário! Ou catastrófico? Confesso que não consigo separar…
Bom e livresco fim de semana!
É por isso que nos encontramos aqui.
ResponderEliminarObrigada.